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julho 28, 2010
M. I. A.
Durante os próximos dias, estarei desaparecido, em parte incerta, e provavelmente sem ligação à internet. Por isso, só dificilmente o blog não sofrerá uma pequena interrupção de dois ou três dias. Só espero que entretanto o país não acabe, ou que o Primeiro-Ministro não vá preso (em relação a esta última posso mesmo ficar descansado), sem que eu possa fazer qualquer comentário. O leitor, certamente, não partilha desta minha preocupação, e é com alívio que vê esta paragem.
Posted by Bruno at 07:37 AM
Mestre Alves
Como o André já disse, parece que ontem saí da minha defesa de tese de mestrado com uma avaliação mais ou menos razoável, e, pelos vistos, com a pressão de ter gente a querer que eu "faça mais e melhor". Obrigado ao André (e também ao JCD) pelas simpáticas palavras, e agora resta-me gozar os louros de ter passado a poder usar o mesmo título que o senhor do vídeo:
Posted by Bruno at 07:28 AM
julho 26, 2010
The Writing's On The Wall

see more Failbook
Posted by Bruno at 09:56 PM
julho 23, 2010
Quanto Menos Dinheiro Passar Pelo Estado, Melhor
Há dias, o dr. Silva Pereira disse que, com a sua proposta de revisão constitucional, o PSD estava a abrir uma "polémica artificial". Por muito estranho que possa parecer (e por muito que me incomode), parece-me que o dr. Silva Pereira tem razão. Como o João Luís Pinto e a Maria João Marques têm procurado demonstrar, não só esta revisão terá poucas hipóteses de vir a ser posta em prática, como o espírito reformador de Passos Coelho que ela supostamente evidenciaria parece ser ilusório: estas propostas apenas viriam mudar alguma coisa para ficar tudo na mesma (ou pior).
Claro que, com o seu apreço pela berraria e a irrelevância, o PS não deixará, como não tem deixado, de contribuir para alimentar a tal "polémica artificial" que o PSD terá iniciado. Mas, apesar de artificial, a polémica tem os seus méritos: por entre os berros contra o "neoliberalismo" e a "injustiça social", lá se vai ouvindo uma discussão, que há muito deveria estar a ser feita, acerca de como serviços como o da Saúde devem ser prestados e financiados.
Dos críticos da proposta do PSD que a levam a sério, vendo nela a ameaça do espectro neoliberal, argumenta-se que a "privatização da saúde" obrigaria uma série de pessoas que, até aqui, usufruem de serviços de saúde gratuitos, a passarem a pagar por eles, o que teria apenas a consequência de as empobrecer.
Ora, para muitas dessas pessoas (as que pagam impostos sobre os seus rendimentos), esses serviços não são gratuitos, antes pelo contrário: eles são pagos indirectamente através dos impostos que o Estado cobra e depois distribui de acordo com os seus critérios. Ao obrigar as pessoas a pagarem pelos serviços de saúde que usassem, e desde que introduzisse um corte nos impostos proporcional à diminuição de custos que o novo modelo de financiamento implicaria, o Estado estaria apenas a eliminar um intermediário: em vez do dinheiro que as pessoas atiram para o sistema ser entregue ao Estado (através dos impostos por este cobrados) e depois voltar às mesmas pessoas (no momento em que estes usam serviços como o da Saúde), seriam as pessoas, que usam esses serviços, a colocarem esse dinheiro directamente nos serviços a que recorressem.
Mas, pergunta o caro leitor: se, no modelo actual, o dinheiro que as pessoas entregam nos impostos acaba por, de forma indirectamente, regerssar a essas mesmas pessoas, que diferença fará se elas deixarem de o pagar em impostos e o pagarem como um preço pelos serviços que usam? Se os impostos já funcionam como preços indirectamente cobrados, onde estaria a diferença?
A diferença estaria na eficiência com que esse dinheiro é distribuído. Num modelo de financiamento da saúde que usa os impostos como preço indirectamente cobrado, o dinheiro é distribuído de acordo com os critérios dos políticos e funcionários que administram o sistema, e não de acordo com as necessidades das pessoas que recorrem a esses serviços. Se as pessoas pagarem directamente por esses serviços, esses terão de responder às suas necessidades, regulando a sua oferta de acordo com a procura dos pacientes, em vez dos objectivos traçados pelos políticos e burocratas.
Num modelo em que o dinheiro passa pelo Estado antes de voltar aos contribuintes, os serviços são maus, pois o "cliente" é o Estado que financia o hospital, e não o doente que a ele recorre; aqueles com mais posses, com maiores rendimentos, podem recorrer ao privado, mas como têm de pagar impostos na mesma, o facto de haver menos procura dos hospitais públicos (esses tais "ricos" que "vão ao privado") não afecta o seu financiamento, o que faz com que eles não sintam a necessidade de adequar a sua "oferta" à procura realmente existente. Assim, nos hospitais públicos, há desperdício de dinheiro em algumas àreas, enquanto outras são obrigadas a realizar cortes significativos. A qualidade do serviço não melhora, mas como a sobrevivência do serviço não depende da qualidade deste, mas dos humores do Ministro da Saúde, também não há incentivo para este melhorar. Esqueça, caro leitor, a "artificialidade" da polémica constitucional de Passos Coelho: olhe para o SNS português, e facilmente perceberá como quanto menos dinheiro passar pelo Estado, e for directamente distribuído por si, melhor será. Para todos.
Posted by Bruno at 04:45 PM
julho 22, 2010
Verdadeiramente Difícil
Há uns meses, escrevi aqui que, mais difícil do que escrever uma tese, é ter de numerar as páginas e fazer a bibliografia, essas sim tarefas verdadeiramente penosas. Entretanto, descobri que o que é verdadeiramente difícil é, meses depois da entrega da dita tese, ter de voltar a pegar naquilo para preparar a defesa da dita. O que vale é que, daqui a uns dias, o suplício estará terminado.
Posted by Bruno at 10:05 PM
julho 21, 2010
Polémica Artificial
Ouvi há pouco o dr. Silva Pereira dizer que, com a sua proposta de revisão constitucional, o PSD estava a abrir uma "polémica artificial". Por muito estranho que possa parecer (e por muito que me incomode), parece-me que o dr. Silva Pereira tem razão. Resta apenas saber por que razão o dr. Silva Pereira, e o PS em peso, parecem tão entusiasmados como o PSD em alimentar a tal "polémica artificial".
Posted by Bruno at 09:54 PM
julho 20, 2010
A Ver
Posted by Bruno at 10:23 PM
julho 19, 2010
Ninguém Diga Que Está Bem

Posted by Bruno at 10:34 PM
julho 17, 2010
Conflito
Ouvi o sr. Primeiro-Ministro a criticar violentamente "aqueles" políticos" que "pensam apenas nos interesses próprios" e no "poder". As coisas estão mesmo más, se Sócrates já chega ao ponto de ter tanto ódio por si próprio.
Posted by Bruno at 09:54 PM
julho 16, 2010
7 Anos
Ontem, este blog fez sete anos. Não consigo sequer descrever o quão perturbador este facto consegue ser.
Posted by Bruno at 09:46 PM
julho 15, 2010
Visto

Posted by Bruno at 02:43 PM
julho 13, 2010
Steinbrenner
Quando soube que George Steinbrenner, dono da equipa de baseball dos New York Yankees, tinha morrido, a única coisa de que me lembrei foi de Seinfeld:
Posted by Bruno at 09:52 PM
julho 12, 2010
The Real São Bento
A vida política portuguesa anda estranha. Todos os dias, as figuras mais ou menos destacadas do PS e do PSD oferecem ao país uma versão portuguesa (e apesar de tudo, ligeiramente menos degradante) de um reality-show da MTV: zangam-se em frente às câmeras de televisão, para depois acabarem o dia aos abraços (qualquer pessoa que tenha tido a infelicidade de ver programas como Laguna Beach ou The Hills consegue ver a semelhança).
Quase todos os dias, o dr. Passos Coelho levanta-se do colo de Ângelo Correia e ataca toda e qualquer medida do Governo. De seguida, o "engenheiro" José Sócrates sai do caixão e, no seu melhor Armani, vem queixar-se da "irresponsabilidade do PSD" (no dia em que o Armani tenha sido particularmente bem engomado, ele até se entusiasma e fala "da direita" para juntar o dr. Portas à festa). Inevitavelmente, seguem-se-lhe o dr. Silva Pereira, sempre pronto a carregar a àgua do chefe, e, se as circunstâncias assim o exigirem, o dr. Santos Silva, uma espécie de Brother Mouzone do PS. Para acabar a festa, o PSD chama os seus especialistas em fingir oposição (e ninguém o faz tão bem como Miguel Relvas) para mostrarem a sua indignação e como o país não consegue viver com mais um único dia de Sócrates no poder. Com um cenário destes, seriam de esperar moções de censura diárias, visitas de emergência a Belém (onde impávido e sereno, Cavaco Silva preside às cerimónias fúnebres do país) e pancadaria no Parlamento.
No entanto, nada disso acontece. Pelo contrário, todas as medidas anunciadas pelo Governo, que Passos Coelho e restantes focas amestradas atacam vigorosamente no início da semana, chegam a sexta (ou Sábado, para melhor passarem despercebidas) aprovadas pelos dois partidos, que entretanto se parecem ter escapulido como adolescentes ardendo por um coito furtivo. Tal como normalmente acontece com esses adolescentes, a coisa não acaba bem (embora, em vez da criancinha que fará as alegrias desses adolescentes, o destino mais provável seja o empobrecimento dos portugueses). É claro que Sócrates e Passos Coelho até se podem sair bem com a brincadeira: Sócrates consegue (atacando o PSD) alegrar (no pun intended) o bom povo socialista, e ao mesmo tempo (assegurando o apoio do PSD para as suas medidas) prolongar a morte lenta que tem sido este Governo; Passos Coelho talvez consiga (atacando o PS) convencer alguns de que é "diferente" dos socialistas, e (apoiando o PS) mostrar o quão é "responsável".
Restam dois problemas: em primeiro lugar, não podem ser os dois bem sucedidos ao mesmo tempo. Inevitavelmente, um deles acabará mal, e a seu tempo (que poderá ser longo, é certo), o outro não escapará a um destino semelhante. Em segundo lugar, acabarão por nos arrastar todos com eles. A violência da retórica com que se agridem, por um lado, e a manifesta hipocrisia com que actuam, por outro, não resulta noutra coisa que não no aumento da repulsa dos eleitores pela política e pelo "regime". Com o espectáculo que nos andam a oferecer, PS e PSD não se limitam a estragar o seu futuro (por muito que demorem a fazê-lo): ao chafurdarem na lama, arrastam para ela a democracia portuguesa e as condições de vida dos portugueses. Nada que os preocupe.
Posted by Bruno at 06:50 PM
julho 10, 2010
Visto

Posted by Bruno at 10:46 PM
julho 07, 2010
Sweating Myself Out of Existence
A continuar este calor, todos os meus (já de si escassos) 50 quilos vão evaporar.
Posted by Bruno at 10:23 PM
julho 06, 2010
Uma Questão de Palavras?
Na sua última edição, a The Economist publicou um artigo argumentando que "fairness" é "uma má ideia". No editorial, pode ler-se que, ao usar o argumento de que os cortes que tem promovido são "duros" mas "justos", a coligação que governa o Reino Unido comete um grande erro. Segundo a revista, a palavra "fair" é demasiado vaga ("to one lot of people, fairness means establishing the same rules for everybody, playing by them, and letting the best man win and the winner take all. To another, it means making sure that everybody gets equal shares"), devendo ser preterido em prol de palavras que "dizem o que querem dizer". No blog Tory Diary, Tim Montgomerie critica o argumento da The Economist, perguntando "why should Labour have all the best words?":
"It's fair enough for The Economist and the IEA to have their intellectual arguments but politicians need to live in the real world. Defining ourselves against social justice (as some Tory MPs have advised) or fairness is electorally stupid. Conservatives need to dominate the whole political stage and that means breaking Labour's monopoly in certain policy areas - and also defining ourselves on new ways. Defending capitalism/ conservatism as efficient and empowering only persuades so many. Making the case that capitalism/ conservatism is also fair and socially just seems like common sense to me."
Montgomerie, parece-me, tem toda a razão. Não é que a Economist esteja errada ao dizer que o termo "fairness" (como o termo português "justiça") é demasiado vaga, que tem dois sentidos incompatíveis um com um outro, e que um desses sentidos (o de que "justiça" é haver pouca desigualdade) nada tem de justo. Mas argumentar que os políticos que queiram promover reformas liberais ou liberalizantes devem abdicar de usar palavras como "fairness" ou justiça demonstra uma profunda incompreensão acerca, não tanto de como a política, o jogo político, funciona, mas acerca de como o cérebro humano (dos eleitores) funciona.
Políticos e seus conselheiros tendem a ver o eleitorado como um corpo definido de opiniões: algumas pessoas inclinam-se para a "esquerda", algumas para a "direita", e depois há um número grande de eleitores "moderados", que se situam no "centro" do espectro político. Cometem o erro de verem estes eleitores "centristas" como pessoas com opiniões políticas claramente definidas, embora "moderadas". Pensam que os eleitores "centristas" estão tão certos das suas opiniões como os eleitores de "direita" e de "esquerda", e que a única diferença entre estes diferentes tipos de eleitores é a de que os "centristas", sendo menos "extremistas", são "captáveis", podem ser "ganhos" se os políticos forem ao encontro dos seus desejos e lhes oferecerem um conjunto de políticas que as sondagens lhes dizem que eles querem.
O problema está em que os eleitores "centristas" não são uma espécie de versão "intermédia" dos seus concidadãos mais "extremistas": eles são realmente diferentes. Ao contrário destes últimos, os eleitores "centristas" não têm opiniões políticas firmemente definidas: no seu livro The Political Brain, Drew Westen mostra como os eleitores alinhados interpretam toda e qual informação à luz das suas crenças já definidas (mesmo que sejam contraditórias), e como os eleitores "voláteis" mudam a sua escolha política, não porque estejam "no meio" do espectro político e os partidos ajustem as suas políticas às suas preferências medianas, mas antes porque, não tendo um corpo rígido de convicções políticas, orientam as suas opções eleitorais de acordo com outros critérios, como a sua simpatia pelos líderes partidários, a percepção que têm da competência destes últimos, da sua honestidade, ou apenas e só porque acham que o "novo chefe" é "diferente" do "velho".
As coisas tornam-se ainda mais complicadas pelo facto de esses eleitores volatéis nem sequer saberem o que querem: Malcom Gladwell conta a história de Howard Moskowitz, um psicofísico americano (ou seja, uma pessoa que estuda as respostas sensoriais a estímulos físicos) descobriu que o recurso a focus groups na indústria alimentar, em que as pessoas eram questionadas acerca de, por exemplo, qual o tipo de molho de tomate que preferiam, era contraproducente, pois as pessoas não sabiam dizer o que queriam antes de o provarem. Isto não acontece apenas na indústria alimentar: num dos seus livros, Gladwell mostra como uma boa razão para os homens não saberem o que as mulheres querem é que elas próprias também não sabem: Sheena Iyengar e Raymond Fisman, dois professores da Universidade de Columbia, nos EUA, realizaram um estudo acerca de como as descrições de mulheres acerca daquilo que procuravam num homem (ou seja, aquilo que elas pensam que procuram) não correspondia às características reais dos homens que "escolhiam". E diversos estudos sobre comportamento eleitoral mostram como os eleitores exibem uma “polifasia cognitiva” ou seja, a capacidade de terem duas opiniões contraditórias entre si, sem terem noção disso.
Isto não quer dizer que as sondagens e os focus groups sejam irrelevantes. Apenas que o seu propósito deve ser outro que não o de escolher quais as políticas a apresentar ao eleitorado. E aqui voltamos ao argumento da The Economist: como demonstra o especialista em sondagens Frank Luntz, algumas palavras provocam respostas mais positivas e outras palavras respostas mais negativas, e a única forma de saber quais usar será testando-as. Se o "cérebro político" dos eleitores "voláteis" responde positivamente a palavras como "fairness" ou "justiça", não faz sentido que os políticos não usem essas palavras. Políticos que queiram promover reformas liberais não devem abdicar de tais palavras só porque elas têm sido associadas a políticas "socialistas". Antes devem procurar associá-las às suas ideias, fazendo as pessoas perceberem que nada há de "fair" ou "justo" naquilo que os socialistas defendem. O uso de tais palvras não significa (ou não deve significar) que os políticos abandonem as suas convicções. Apenas deve ser o resultado de uma tentativa de tornar as suas ideias mais apelativas ao volátil cérebro político dos eleitores.
Posted by Bruno at 05:53 PM
julho 04, 2010
4th of July

Posted by Bruno at 10:34 PM
julho 03, 2010
Visto

Posted by Bruno at 10:46 PM
julho 01, 2010
Será A NATO O Remédio Para As Nossas Dores De Cabeça?
Há um episódio da série televisiva House em que a equipa médica de House está a tratar uma paciente com abulia, ou seja, incapaz de tomar uma qualquer decisão. Após várias tentativas de diagnóstico, chegam à conclusão de que ela sofre de um cancro, e iniciam-lhe o tratamento por radiação. Para seu azar, e especialmente, para azar dela, o diagnóstico estava errado: ela tivera uma simples infecção, em princípio relativamente inofensiva; mas a radioterapia, baseada num diagnóstico errado, destruiu-lhe o sistema imunitário. Ao errarem o diagnóstico, e ao prescreverem o tratamento errado, os médicos da equipa de House condenaram a sua paciente à morte.
A NATO, cujo Secretário-geral Anders Fogh Rasmussen amanhã visita o Instituto de Estudos Políticos da UCP para uma conferência, talvez tivesse algo a aprender com este episódio de House. Pois tal como um médico precisa de identificar correctamente a doença que aflige o seu paciente, para lhe receitar os remédios mais adequados a combatê-la, também uma organização que, como a NATO, diz ser “baseada nos valores comuns da democracia, direitos humanos e estado de direito” e que se propõe “ajudar a construir uma permanente comunidade transatlântica de valores e interesses partilhados” , tem de, antes de poder cumprir esse papel eficazmente, identificar as ameaças a esses “valores e interesses partilhados”.
Nas primeiras décadas da existência da NATO, essa identificação não era difícil. Afinal, a organização foi criada para fazer frente a uma ameaça muito clara, a da URSS. Logo após a II Guerra Mundial, uma Europa “fraca” e “desgastada” viu-se confrontada por uma URSS que “usava o poder militar para subverter o governo democrático” no continente . Os países europeus sentiram a necessidade de criarem um meio de defesa comum, e sem os Estados Unidos dificilmente teriam os meios suficientes para “deter um monstro como Stalin” . Assim, adoptaram “o Atlântico” como a “ligação simbólica” entre os membros da organização de defesa mútua criada pelo Tratado assinado em Abril de 1949, que previa, no famoso Artigo 5, que um ataque a um deles seriam encarado como um ataque a todos.
Como remédio para a ameaça soviética, a NATO foi extremamente eficaz. Mas talvez ela se tenha tornado uma “vítima do seu sucesso” : desaparecida a ameaça que visava combater, a NATO perdeu o seu propósito criador, sofreu aquilo a que alguns chama, de forma pomposa, "uma crise de identidade” . Desaparecida a URSS, para que servia a NATO?
Claro que, embora a URSS tivesse caído, restava ainda a sua potência “herdeira”, a Rússia. E esta, após um período de transição (e aparente moderação) com Ieltsin, parece estar, com Vladimir Putin, a querer reafirmar-se no xadrez mundial. Crises como a da Geórgia, ou a pressão exercida pela Rússia sobre governos como o ucraniano ou o estónio, mostram como a Rússia compete directamente com a NATO por certas “esferas de influência” nas suas fronteiras, e constituí uma ameaça aos interesses do “mundo livre”.
No entanto, a Rússia está longe de ser uma potência equiparável à sua defunta antepassada. O “urso” russo está ferido, senão de morte, pelo menos com gravidade: o futuro demográfico da Rússia é negro, devido aos graves problemas de abuso de drogas e bebidas alcoólicas da sua população, e ao elevado número de pessoas contaminadas com o HIV ; no plano militar, o orçamento de Defesa da Rússia correspondia, em 2007, a apenas 5% do americano . Por outro lado, a receita para o “milagre económico russo” pode ser também a receita para o seu desastre: uma queda do preço dos produtos energéticos seria um rude golpe para uma economia excessivamente dependente dos lucros que daí tem retirado . Para além do mais, a Rússia parece estar a perder a competição pelos seus vizinhos: a Polónia, a Hungria e os Estados bálticos já fazem parte da UE da NATO, e Ucrânia e Geórgia já receberam promessas de que serão admitidos.
Mas e se, em vez de uma potência “herdeira” da URSS, a NATO tenha de enfrentar uma potência “substituta”? Hoje em dia, é difícil não encontrar um analista de política internacional que não veja na China uma superpotência em emergência, à beira de dominar o mundo e constituindo a maior ameaça ao “mundo livre”. É difícil encontrar, mas existe: Edward Luttwak, num recente artigo sobre “o futuro Atlântico no século XXI” , argumentava que (tal como a Rússia e a Índia) a China é mais fraca do que parece, e que por essa razão, os EUA, juntamente com a Europa, irão “manter a sua primazia combinada por muito tempo, apesar dos seus muitos e reais problemas” .
Mas e se os nossos problemas decorrerem precisamente da fraqueza destas potências potencialmente ameaçadoras? E se a doença que nós sofremos, e que a NATO deverá procurar curar, não for apenas uma nova estirpe da gripe que nos afectou no passado, mas uma doença verdadeiramente diferente? Por outras palavras: e se hoje em dia, em vez de, como no passado, ter de enfrentar a ameaça de uma ou mais potências que competem consigo pela hegemonia no sistema internacional, a NATO tiver agora de lidar com uma série de problemas completamente diferentes, decorrentes precisamente da inexistência de potências capazes de desempenharem um papel hegemónico?
Esse era o argumento de Niall Ferguson num artigo em que avisava para os perigos de “um mundo sem poder”: a relutância dos EUA em assumirem as despesas da sua posição hegemónica, combinada com a incapacidade de outras potências os substituírem e com a fragmentação do mundo islâmico, poderia trazer consigo um “mundo apolar” marcado pelo conflito armado e pela instabilidade permanente, uma espécie de segunda “Idade das Trevas”, com a agravante dos meios de destruição disponíveis não só serem mais destrutivos que os que existiam na primeira, como estão também mais acessíveis para quem os quiser usar: não parece difícil a um grupo terrorista ter acesso a armas de destruição maciça, sejam elas químicas, biológicas ou nucleares .
Um “mundo sem poder” será um mundo em que a emergência de “estados falhados” será algo de provável: a fragmentação política conduzirá ao conflito, o conflito produzirá maior fragmentação, e grupos terroristas encontrarão em certos locais verdadeiros santuários onde ninguém chega e eles estarão suficientemente seguros para poderem preparar ataques aos nossos países. A NATO, se quiser continuar a proteger o “mundo livre” das ameaças que a ele se dirigem, terá forçosamente de ser o “poder” que impeça o mundo de ser “apolar.
A missão da NATO no Afeganistão parece ser um exemplo deste novo papel da Aliança. Mas, por muito que a NATO pareça querer desempenhar esse papel, resta ainda saber se será capaz de o fazer. E aqui, as dúvidas não só são pertinentes, como parecem ser justificadas: o “desinvestimento” dos países ocidentais na área da defesa após a queda da URSS não ajudou a reconverter umas forças armadas desenhadas para a defesa territorial num instrumento de projecção de poder ; e a multiplicidade de interesses dos vários membros da Aliança faz com que seja difícil encontrar um consenso compatível com o exercício eficaz do poder militar . A missão no Afeganistão é, ela própria, precisamente um bom exemplo destas limitações: a escassez de recursos faz com que a NATO não consiga estender o seu domínio territorial para além de Kabul , e a relutância de alguns países em partilhar o esforço de combate em nada ajuda .
Para além do mais, a NATO tem uma limitação “natural”: ela é, foi criada como, uma aliança regional, que como tal, não está concebida para exercer uma função de polícia mundial. É difícil para a NATO servir de protectora do “mundo livre”, se exclui membros desse “mundo livre” como a Austrália ou o Japão. De facto, por que razão a NATO, que se alarga aos países da Europa de Leste, não se alarga a todas as democracias do mundo, especialmente tendo em conta que se quer assumir como uma aliança baseada nesses valores?
Esse era, aliás, o argumento de Ivo Dallder e James Lindsay no artigo em que defendiam a criação de um “Concerto das Democracias” : os EUA, segundo eles, não podem desempenhar sozinhos o papel de polícia do mundo; no entanto, uma política de “concerto das potências” carece de legitimidade, e essa é a razão pela qual muitos estados se viram para instituições como a ONU; mas para Daalder e Lindsay, a ONU, por ser constituída também por ditaduras e regimes corruptos, está muito aquém do que seria desejável no que diz respeito a questões de segurança; restaria a NATO, que pela sua natureza regional, carece dos meios políticos e económicos necessários no mundo de hoje; um “Concerto das Democracias”, por sua vez, “trazendo todas as democracias estabelecidas a uma só instituição”, seria “capaz de enfrentar os muitos desafios da nova era da política global” .
Estarão Daalder e Lindsay certos? Acerca das limitações da NATO, parece-me que sim. Acerca das melhores condições de um eventual “Concerto das Democracias” para servir de instrumento de defesa do “mundo livre”, tenho as maiores dúvidas. Como em tempos notou na Atlãntico o insurgente André Amaral, Daalder e Lindsay cometem o erro de pensar que as democracias liberais, porque defensoras das liberdades individuais, têm inevitável e invariavelmente interesses comuns . Como a experiência da NATO mostra (basta, mais uma vez, olhar para o diferente empenho de diferentes países na missão no Afeganistão), isso nem sempre acontece. E se a uma dificuldade em encontrar um consenso entre os membros da Aliança já é uma das limitações da NATO, é difícil de imaginar que uma organização composta por ainda mais membros a conseguisse ultrapassar.
O argumento de Daalder e Lindsay parece aceitar implicitamente uma outra ideia, a de que para enfrentarmos as ameaças globais do mundo moderno, precisamos de instituições também elas globais (ou o mais globais possíveis). Ora, esse argumento é contestável. É possível argumentar que para enfrentarmos as ameaças descentralizadas (como o terrorismo) dos nossos dias precisamos, não de instituições globais apostadas em implementar soluções globais, mas de instituições o mais descentralizadas possível, o mais flexíveis possível, para poderem reagir o mais rapidamente possível a ameaças que, precisamente por serem elas próprias descentralizadas e flexíveis, são também mais imprevisíveis . Mais do que a criação de uma nova instituição rígida, a segurança do “mundo livre” poderá passar cada vez mais por “coalitions of the willing”, alianças flexíveis respondendo flexivelmente a ameaças cada vez menos uniformes.
É por essa razão que, apesar das suas muitas limitações e insuficiências, a NATO é uma instituição a preservar. Apesar dos problemas que a afligem, ela trouxe benefícios que não estaremos dispostos a dispensar, e ao contrário de “soluções” como a proposta por Daalder e Lindsay, permite acomodar as divergências entre os seus membros, abrindo o espaço suficiente (veja-se o caso do Afeganistão) para a formação de “coalitions of the willing” (Estados Unidos e Dinamarca, por exemplo) e dos “unwilling” (França e Alemanha), sem produzir uma ruptura na instituição que os alberga. É certo que essas pequenas “coligações” podem não ser suficientes para desempenhar todas as missões que NATO deveria desempenhar para proteger o “mundo livre” nos dias de hoje. É certo que a NATO talvez não seja o remédio para as nossas dores de cabeça. Mas tal como há doenças sem cura, também há problemas políticos sem solução. A NATO, pelo menos, tem a vantagem de ser como o paracetamol: pode não ser particularmente forte, e nem sempre é suficiente para aliviar as dores de cabeça, mas também não tem grandes efeitos secundários contraproducentes. Não é de se deitar fora.
Posted by Bruno at 06:29 PM