Escrito pela mão invisível de Bruno Alves. Comentários e opinião: alves.bm@netcabo.pt

« outubro 2009 | Main | dezembro 2009 »

novembro 30, 2009

Patriots at Saints

Patriots at Saints.gif

Espera-me mais uma noite em claro.

Posted by Bruno at 11:39 PM

novembro 28, 2009

A Ler

A entrevista de António Barreto ao I

Posted by Bruno at 11:37 PM

novembro 26, 2009

Democracia a Mais, Democracia a Menos

No editorial da sua última edição, a Sábado insurge-se contra a forma como a União Europeia escolhe "as pessoas que vão ocupar os principais cargos da sua estrutura dirigente". Nada tenho contra o dizer-se mal da União Europeia (aliás, nada tenho contra o dizer-se mal seja do que for), mas é sempre desejável que seja pelas razões correctas. Ora, as razões apresentadas pelo editorial da Sábado não são das melhores. A queixa da revista é a de que, em vez de "usar uma caneta e um boletim de voto" a UE "usa uma régua e um esquadro" para preencher as vagas das suas instituições. Longe de mim negar o carácter pouco democrático (para ser simpático) da UE. Mas ao contrário do que os editorialistas da Sábado parecem crer, passar a escolher o "Presidente da Europa" com "uma caneta e um boletim de voto" não a tornaria mais democrática.

Convém não esquecermos que "democracia", ou pelo menos, "democracia" no sentido que hoje atribuímos à palavra, não é apenas o governo da maioria: é o governo da maioria com limites, com controlo, para que essa maioria não "oprima" a minoria (ou as minorias). Mais do que o uso de "uma caneta e um boletim de voto", o que distingue a democracia de outros regimes menos simpáticos é a presença de mecanismos de responsabilização do poder político, e de mecanismos que impeçam uma momentânea maioria de impôr tudo aquilo que lhe passe pela cabeça. Imaginemos que o "Presidente da Europa" passa a ser escolhido com "caneta e boletim de voto", ou seja, numa eleição europeia. Seria isso uma forma de garantir e proteger a existência esses mecanismos? Se já hoje temos pouca confiança nos nossos políticos, se até num país tão pequeno como Portugal há tanta gente que não se sente representada pelas políticas adoptadas por quem está no poder, como seria com políticos que não conhecemos, e numa comunidade política tão alargada e tão diversa como seria uma "Europa Unida"? Como poderíamos nós saber se um político letão é não ou confiável, se não conhecemos nada do seu percurso? Como é que o desencantamento com a política, e a desconfiança em relação aos que a exercem, não aumentaria, quando um polaco visse um alemão a tomar decisões que, no seu entender, afectam negativamente o seu país?

Na realidade, a Europa já hoje tem um grave problema "democrático": é demasiado democrática numas coisas, e insuficientemente democrática noutras. O Parlamento Europeu, por exemplo, é excessivamente democrático: se o compararmos com as instituições americanas, ele não é uma espécie de Câmara dos Representantes do povo europeu, antes é uma espécie de Senado em que cada Estado luta pelos seus interesses nacionais, com a diferença de que alguns estados (os com maior dimensão) têm mais poder do que os outros; os números têm mais força que os limites que supostamente os deviam controlar; é "democrático" no sentido pejorativo que os antigos lhe davam, de "domínio da multidão". Por outro lado, a UE é pouco democrática ao menosprezar a verdadeira representação política dos seus cidadãos, aquela que está assente nos vários parlamentos nacionais. Onde a democracia no sentido moderno reside, nos parlamentos nos quais se sentam os verdadeiros representantes dos cidadãos, a UE insiste em esvaziar o poder que essas instituições têm, transferindo-o para essas distantes instâncias onde o "interesse europeu" (o dos "números") é defendido. Passar a usar "uma caneta e um boletim de voto" na escolha dos cargos europeus não seria uma solução. Seria mais um passo no agravamento de um problema que já não é de menosprezar.

Posted by Bruno at 09:37 PM

novembro 24, 2009

Daqui A Uns Anos

Vitor Constâncio, conhecido propagandista governamental e Governador do Banco de Portugal nas horas vagas, disse recentemente que "para trazer o défice do valor em que se situará este ano para menos de 3% vai ser preciso novas medidas quer do lado da despesa, quer do lado da receita". Traduzido de portsoc para português-padrão: vai ser preciso aumentar os impostos. Involuntariamente, Vitor Constâncio conseguiu numa só frase mostrar como a declaração (anterior) do Ministro das Finanças Teixeira dos Santos de que “a elevação do limite de endividamento em 4.904,6 milhões de euros visa tão somente cobrir a falta de receita provocada pela conjuntura adversa que vivemos em 2009 e não pela necessidade de se gastar mais do que anteriormente autorizado pela AR”.

É que ao contrário do que Teixeira dos Santos quer fazer crer, o aumento do endividamento não consegue sequer cumprir esse propósito aparentemente tão comezinho (uma palavra que parece estar de novo na moda, e agradeçamos ao dr. Soares por isso) de cobrir a falta de receita. Na realidade, ele traduz-se apenas e só no adiamento da cobertura da falta de receita para daqui a uns anos. Ao endividar o Estado, Teixeira dos Santos apenas consegue fazer com que os encargos deste (ou seja, de todos nós) para daqui a uns anos aumentem, fazendo com que daqui a uns anos haja ainda mais "falta de receita" relativamente à quantidade de despesa que terá de ser efectuada. Sem querer, Vitor Constâncio explicou como a únicas formas de cobrir essa tal "falta de receita" serão a descida da despesa ou a cobrança de mais receitas.

Conhecida que é a apetência de Constâncio para desempenhar o papel de aguadeiro de Sócrates, não foi de estranhar que muito boa gente tivesse interpretado as palavras do ex-líder socialista como um sinal de que o Governo se preparava para aumentar os impostos. Teixeira dos Santos veio entretanto reafirmar o compromisso do PS com a promessa de que não subiria mais os impostos, o que obviamente veio apenas confirmar a percepção inicial de que eles seriam aumentados. Posso estar enganado (e normalmente estou, seja qual for o assunto), mas tenho muitas dúvidas que isso venha a acontecer. Não por confiar na honestidade e honorabilidade dos membros do Governo (ninguém de bom senso confia), mas por uma razão diferente. Este Governo não é um Governo, é uma gigantesca Comissão Eleitoral que usa os meios do Estado para fazer campanha. O seu único propósito é ganhar a próxima eleição. E como ninguém sabe muito bem quando irá esta ocorrer, Sócrates e os seus afilhados (sim, estou a insinuar que Sócrates é precisamente isso que o leitor está a pensar) têm que estar preparados para a eventualidade de ela ter lugar em qualquer altura. Ou seja, não podem tomar qualquer medida impopular, porque pode não haver tempo para recuperar dos seus efeitos a nível eleitoral.

À primeira vista, este poderia parecer um cenário relativamente agradável. Se eu tiver razão, a frágil economia portuguesa e as pessoas já em sérias dificuldades, não seriam ainda mais asfixiadas com uma carga fiscal que já hoje ultrapassa o tolerável. No entanto, se eu tiver razão, isso será tudo menos motivo para regozijo. Pois a mesma razão que impedirá o Governo de fazer a tremenda asneira de aumentar os impostos será a mesma razão que o impedirá de tomar as medidas necessárias para resolver o problema. Num país dependente do Estado, e principalmente, numa conjuntura como esta, os cortes na despesa pública (as várias "ajudas" que o PS dá aos seus aparentemente vastos "amigos") seriam a coisinha mais impopular que o Governo poderia fazer. Por isso, para a forma como em São Bento se pensa, o único caminho possível é precisamente deixar tudo para daqui a uns anos. O problema está em que, a continuar a seguir essa opção, daqui a uns anos o problema pode já não ter solução.

Posted by Bruno at 10:09 PM

novembro 23, 2009

O Som de Fundo Esta Tarde

Posted by Bruno at 10:47 PM

novembro 21, 2009

O "Presidente da Europa"

Sobre a nomeação do novo "Presidente da Europa", vale a pena ler o artigo de George Walden no The Times:

"The manner of the birth of the new European presidency tells you everything that is wrong with it. Instantly it has provoked confusion, a satirical focus on personalities and rancour between nations large and small. Everyone is talking about who the president and foreign minister of this abstract entity will be, no one about how it will actually work.

Perhaps that is because, in their hearts, people know that it can’t. The EU is not a country and, far from “gaining weight globally by speaking with one voice”, acting as if it were could imperil many of its achievements to date.

I was a communist specialist at the Foreign Office when EU political co-operation first got under way in the 1970s. It proved a winner. Previously, the instinctive reaction of the French, the Germans and the British to an East-West problem had been how they could use it to score points off one another. Afterwards — notably in the Helsinki process, in which I took part — the Nine (as we then were) experimented successfully with the novel approach of facing the adversary together.

As principal private secretary to David Owen and Lord Carrington I later saw how intimate senior European foreign ministers had become, lunching and dining and above all breakfasting at international gatherings ad hoc and à la carte, or at discreet, unpublicised meetings.

Now these flexible, realistic procedures, which were to play an important role in the fall of the Berlin Wall, are to be rigidified in a search for superpower status, complete with unelected presidency and make-believe foreign ministry. At a time when the leap from nine to twenty-seven has already made consensus harder, gains in EU effectiveness are in danger of being squandered by overweening institutional change. Rather than a sober, bottom-up pragmatism, we shall now have top-down presumption and conceit.

One of two things must happen. Either the president and foreign minister will feel their oats and get ahead of community opinion, so that their pronouncements will be discounted by other nations. (Look at the galumphing remarks on an EU tax by the front-runner, the Belgian Prime Minister Herman Van Rompuy.) Or they will be so nervous about offending the French, or the Latvians, or whomsoever, that they will restrict themselves to grandiose pieties, reducing the whole show to a sort of regional United Nations. Either way the new posts will be otiose.

Though not without consequence. Imagine the scope for overlap, overkill, sharpened national rivalries, bureaucratic turf wars and confusions, and the cost inflation that the expansion of content-free diplomatic stage-strutting will most certainly produce.

The rotating six-month presidency was a clumsy, ultra-democratic device, but the world knew it for what it was, and tempered expectations accordingly. Rotation was a necessary pretence. A presidency is for real.

A lot about it, though, will be bogus. Clarity about status is vital in diplomacy — hence fancy words like plenipotentiary — there being little incentive to negotiate with someone who lacks the power to deliver. Diplomats can seem ethereal souls, but they are the first to sense that they are dealing with someone who, as they would be unlikely to put it, is all fur coat and no knickers.

Think of the labyrinthine process of ratifying the Lisbon treaty itself, and you have a foretaste of day-to-day problems of co-ordination, such as ghosting a speech reflecting the views of 27 nations on the Middle East for our phantom president or foreign minister to deliver.

Behind the scenes there will be exploding bureaucracies — in both the quantitative and temperamental sense — as old and new EU foreign affairs structures collide. All this would seem to argue for powerful figures to pull everyone into line, but that too is a mirage. A big-name president trying to cut a dash in the world’s capitals in proportion to the 500 million sometimes notional Europeans he notionally represents would bring friction with other members, not to speak of his own ersatz foreign minister, by definition likely to be a foreigner to him or her.

Think of the egos, the status- seeking, the allowance-seeking, the pomposities and inflated titles, the supersized protocol department and the hurt national feelings when Mme Ferrero Rocher or Herr und Frau Mercedes Benz are unaccountably missing from the visiting president’s top table.

Diversity is all the rage in most European countries, yet in the EU we aspire to a pointless and perilous uniformity. Why not accept that on political co-operation, as in human affairs in general, we must do the best we can? Better to travel slowly and in hope than to crash, speeding towards an illusory destination.

The idea that all criticism of Brussels is anti-European is as valid as the notion that questioning immigration policy is racist. I have seen the EU in maddening mode, but also at its best. What is certain is that these deeply misguided reforms will stoke jingoistic sentiments in Britain, and perhaps elsewhere.

You can see Prime Minister’s Questions already. What is the cost to the taxpayer of a new tier of transnational diplomats lying abroad for their collective countries, notably the travel budget, the security arrangements, the accommodation, the banquets and the boarding-school fees? Not to mention the translation bill run up by a would-be global superpower that lacks a national language.

Finally there is the comic aspect. The EU is hugely sensitive about status, though careless, it appears, about its dignity. How does it expect the world to react to the sight of an unknown former politician of a medium-sized European country, let alone a Belgian or Luxemburger, junketing from capital to capital playing at being a global power? Seen that way, Ubu Roi and The Government Inspector aren’t in the same league."

Posted by Bruno at 10:02 PM

novembro 20, 2009

Incapazes ou Mentirosos

O meu colega insurgente Nuno Branco nota como "a ministra do trabalho ficou surpreendida com os números do desemprego", ou o "ministro das finanças ficou surpreendido com a queda da receita fiscal", dizendo depois o Nuno que ele "ficaria surpreendido se colocassem alguém que soubesse o que anda a fazer nesses lugares". Num período de crise como o actual, qualquer pessoa com bom senso teria consciência da gravidade da crise social e da probabilidade do desemprego (especialmente num país economicamente frágil e estrangulador da actividade económica como o nosso) explodir. E um ministro das Finanças que, depois de dizer que Portugal estava bem preparado para enfrentar a crise, fez um Orçamento que mais não era que um panfleto eleitoral destinado a mentir às pessoas sobre o trabalho do Governo, não espanta ninguém ao vir mascarado de inocente mostrar-se surpreendido. O que choca na atitude deste Governo já nem é a falta de honestidade dos seus membros. É a total disponibilidade deles para fazerem figura de incapazes (só um incapaz ficaria "surpreendido" com os efeitos da crise) só para esconder essa falta de honestidade. Mostra como a mentira se tornou, a tal ponto, a principal forma de agir deste governo, e como estão dispostos a tudo para a continuarem a usar.

Posted by Bruno at 11:42 PM

novembro 18, 2009

Impossível

Francisco Assis perdeu uma boa oportunidade de estar calado quando disse que há quem queira fazer um "homicídio de carácter" ao Primeiro-Ministro: é impossível matar algo que não existe, e se há coisa que já se viu que o Primeiro-Ministro não tem, é carácter.

Posted by Bruno at 10:35 PM

novembro 17, 2009

Ainda Sócrates e as Escutas (publicado no Insurgente)

O deputado do Partido Socialista, João Galamba, criticou o meu post anterior. Diz o João que nós não sabemos o que realmente está nas escutas, e que portanto, não cabe a Sócrates defender-se daquilo que elas pretensamente o indiciam, mas sim à Justiça esclarecer-nos do seu conteúdo. Diz ainda o João que a Justiça fez este Sábado o esclarecimento que tinha a fazer, dizendo que havia indícios de crime nenhum.

Há uma coisa em que o João tem razão: nós não sabemos se o teor das conversas de Sócrates com Vara é ou não aquele que foi relatado nos jornais. Por isso mesmo eu escrevi que “a confirmar-se que elas dizem o que se diz que dizem, elas são suficientes para nós sabermos que Sócrates mentiu ao Parlamento, para sabermos que interferiu em negócios privados, e para sabermos que usa o poder para o qual foi eleito para dar “ajudas” a “amigos” como “o Joaquim”.” Ou seja, se aquelas conversas não forem verdadeiras, então, nada há a censurar no Primeiro-Ministro. Ora, tanto quanto julgo saber, ninguém desmente o teor das conversas. O que o Primeiro-Ministro nega é que elas sejam reveladoras de práticas duvidosas.

O que nos conduz ao “esclarecimento” feito pela “Justiça” neste Sábado: ao contrário do que o João diz, a Justiça não se pronunciou. pronunciou-se um intérprete da Justiça. Um intérprete autorizado (pelo Estado de direito) a interpretar a Justiça e a fazer valer a sua interpretação, mas um intérprete nonetheless. pode haver quem ache (há quem ache) que essa sua decisão é errada, e que existem nessas escutas (cujo conteúdo, mais uma vez, não foi desmentido, pelo menos que eu saiba) indícios de práticas mais duvidosas.

Mas admitamos que Pinto Monteiro tem razão ao considerar que elas não revelam qualquer indício de qualquer crime. Isso, mais uma vez, não nega que Sócrates não tenha dito o que se diz que ele disse. E se ele tiver dito o que se diz que disse (e nem ele próprio o nega: não é preciso ter-se “conhecimento oficial” para se ter conhecimento) então nós, cidadãos comuns, eleitores, devemos ter isso em consideração. Algo com que o próprio João galamba concorda, quando diz que “em certas circunstâncias, a legalidade da coisa passa para segundo plano, ou melhor, torna-se irrelevante; a legalidade não anula todos os factos.”

Ora, é precisamente isto que o Daniel Oliveira, que também criticou o meu post, contesta. Diz o Daniel que “a legalidade da utilização das escutas é, por enquanto, tudo o que me interessa”: “se eu colocar microfones na casa de Bruno Alves; se violar a sua caixa de correio e abrir-lhe a correspondência; se entrar no seu computador para ler os seus documentos e descobrir os sites que visita; e se, depois disso, tiver imensas coisas para dizer sobre a pessoa em causa, não se atrevam a querer discutir a moralidade e a legalidade do que fiz. Perante o que eu possa dizer sobre o Bruno Alves, isso será completamente irrelevante e secundário.”

Se o Daniel fizer isso tudo, terá tudo menos coisas interessantes a dizer sobre a minha pessoa. Levo uma vida francamente desinteressante, e pior do que ser eu, só mesmo ser a pessoa responsável por me vigiar 24 horas por dia. Mas esqueçamos isso, e imaginemos que eu sou um verdadeiro Tony Soprano, apenas com os meus 50 quilos de peso e neuroses mais graves. O facto de o Daniel cometer uma imoralidade ao escutar-me ilegalmente não apaga a minha imoralidade ao ser um líder de uma organização mafiosa. O nosso vizinho não me poderá pôr em tribunal, mas pode (e deve) pensar que será condenável associar-se a mim.

Diz o Daniel que se discutirmos o teor de escutas ilegais, e das quais não temos a certeza do seu teor, estaremos a pôr em causa conquistas que não deveríamos arriscar perder. Ele esquece-se que, se esse teor for verdadeiro, essas conquistas já estão em grande parte perdidas. E ao contrário do Daniel, eu não acho isso secundário.

Posted by Bruno at 10:50 PM

novembro 16, 2009

Escutando Sócrates

Há uns anos, na Hungria, veio a público uma gravação do então Primeiro-Ministro, em que este admitia ter mentido aos eleitores acerca da verdadeira situação das contas públicas do seu país, provocando um compreensível escândalo público e uma série de manifestações violentas. Obviamente, essa gravação era tudo menos legal. Mas uma vez realizada, e uma vez tornada pública, as pessoas não podiam ignorar aquilo que ela revelava.

Imaginemos que um qualquer autarca era objecto de uma escuta ilegal por parte do DIAP do seu distrito era "apanhado" a organizar uma qualquer actividade criminosa. Esse imaginário autarca, por razões óbvias, não poderia ver essas provas usadas contra si em tribunal. Tendo sido ilegalmente obtidas, por muito que elas provassem a culpabilidade do dito autarca, não poderiam servir para o julgar criminalmente. No entanto, todos nós ficaríamos a saber que esse autarca havia estado envolvido em actividades criminosas. Não é difícil de imaginar as reacções da "inteligência" pátria: todos os colunistas e comentadores colocariam em causa o carácter do dito autarca, e exortariam os seus munícipes a não votarem nele.

Curiosamente, não têm essa reacção quando tal acontece a José Sócrates. Aparecem relatos de escutas que indicam que José Sócrates terá mentido ao Parlamento ao negar ter interferido no negócio da TVI, e a discutir "ajudas" ao "amigo Joaquim". De imediato, inciou-se uma discussão acerca da legalidade das ditas escutas: há quem diga que são legais, e portanto passíveis de serem usadas como prova, e quem negue essa legalidade, dizendo que terão de ser destruídas. Essa é uma discussão importante, mas apenas relevante para saber se Sócrates deverá ou não ser alvo de um processo judicial. O facto de as escutas serem ou não legais é absolutamente irrelevante para o nosso julgamento do que lá é revelado. Elas poderão não ser suficientes para pôr Sócrates em tribunal. Mas, a confirmar-se que elas dizem o que se diz que dizem, elas são suficientes para nós sabermos que Sócrates mentiu ao Parlamento, para sabermos que interferiu em negócios privados, e para sabermos que usa o poder para o qual foi eleito para dar "ajudas" a "amigos" como "o Joaquim". São suficientes para nós formarmos uma opinião sobre o carácter duvidoso do Primeiro-Ministro, e emitirmos um julgamento sobre a forma como ele usa o poder. Gente sem vergonha na cara mas com o bolso cheio (as "ajudas" de Sócrates aos seus "amigos", pelos vistos, são bem generosas) mostra-se muito preocupada com o Estado de direito e os atentados contra este, motivados pelo uso de escutas ilegais (e isto dando de barato que são ilegais, algo com que nem toda a gente concorda). No entanto, não se preocupam tanto quando o primeiro-Ministro usa o tal "Estado de direito" (convenientemente "torcido") para beneficío próprio e dos seus "amigos".

Posted by Bruno at 05:59 PM

novembro 15, 2009

Patriots vs Colts

NFL-PATRIOTS-COLTS.jpg

Esta noite não durmo.

Posted by Bruno at 09:45 PM

novembro 14, 2009

A Ler

Na Vanity Fair, a entrevista ao realizador Wes Anderson, a propósito do seu novo filme The Fantastic Mr. Fox.

Posted by Bruno at 07:09 PM

novembro 10, 2009

A "Neutralidade"

Esta tarde, a mudar de canal para canal na televisão, deparei-me com esse maravilhoso programa que é As Tardes da Júlia. Neste, e por entre os gritinhos da apresentadora, um senhor (cuja identidade eu desconheço) falava sobre o "caso" dos crucifixos nas escolas, argumentando que "a escola deve ser um espaço neutro, laico". O sentimento, como de costume nestas pessoas, é bonito: o senhor não quer que as pessoas vejam as suas convicções afrontadas, ou que lhe enfiem outras pela garganta (afinal, já basta o Tratado de Lisboa). No entanto, a coisa fica-se mesmo pelo sentimento. Não ocorre ao dito senhor que o "laicismo" é tudo menos neutro, e muito menos nem a ideia de "neutralidade" o é: muitos (e bons) teóricos políticos contestam a validade dessa ideia. Não ocorre ao senhor que o "laicismo" é, ele próprio, uma convicção que não deve ser imposta a ninguém, e que, portanto, não servir para promover o igual tratamento das pessoas e das suas convicções.

Isto não quer dizer que estejamos todos condenados a ver as ideias de outros enfiadas pela nossa garganta. Há uma solução muito simples para este problema: cada um deve ter a liberdade de escolher quais as ideias ou convicções a que desejam estar expostos, ou no caso das escolas, desejam expor os filhos. Se eu quiser um meu filho numa escola com crucifixos nas salas, inscrevo-o numa escola católica; se lhe quiser dar uma educação "laica", ponho-o numa escola sem crucifixos. As escolas terão a liberdade de fazer o que muito bem quiserem, e as pessoas terão a liberdade de escolher entre elas. Dirá o leitor que este raciocínio só se aplica a escolas privadas. Que as escolas públicas (ou como gostam de dizer os nossos políticos, naquele tom quase religioso, "A Escola Pública"), por deverem tratar todos por igual, não podem "tomar partido" por uma religião, e portanto só têm uma escolha, não ter um crucifixo. Mais uma vez, ao optar pela "laicidade", já está a tomar partido (afinal, porquê retirar um símbolo de uma religião e não juntar os de todas as outras?). Mas pode-se argumentar que essa "pequena discriminação" é melhor do que a "maior" que seria ostentar um símbolo religioso: o Estado, por dever ser laico, não deve ter qualquer "ligação" com qualquer religião. Ora, aqui chegamos ao verdadeiro problema: a tal "Escola Pública". É o seu carácter de escola forçosamente laica que coloca um problema aqueles que não querem que os filhos tenham uma educação "laica". O leitor dirá que esses têm uma alternativa, colocá-los numa escola católica privada. O problema está em que nem todos têm dinheiro para isso, e mesmo aqueles que têm são forçados, através dos impostos, a pagar as tais escolas laicas, ou seja, são obrigados a promover uma convicção que não partilham. Se o Estado se preocupasse menos em "dar uma educação" às crianças, e passasse a garantir que nenhuma criança deixaria de ir à escola por falta de meios, dando-lhe esses meios mas deixando aos seus pais toda a liberdade de escolherem a escola a que querem dar esse dinheiro (ou seja, as escolas deixariam de ser financiadas directamente pelo Estado), o problema dos "símbolos religiosos" e da "laicidade" (e muitos outros problemas, diga-se de passagem) seriam resolvidos. Essa solução teria era uma desvantagem, que certamente desagradria aos políticos: não poderiam parecer "progressistas" e "modernos". E todos sabemos como, nos dias que correm, nada é mais importante.

Posted by Bruno at 05:55 PM

novembro 09, 2009

Catalogar Em Vez De Pensar

Anda por aí uma grande discussão sobre se será ou não possível ser-se um "liberal conservador". Como de costume, os nossos "intelectuais" desprovidos de cérebro entretém-se a discutir que etiqueta devem colar ao peito, em vez de discutirem o que defendem e dar as razões pelas quais defendem o que defendem. Catalogar é mais fácil que pensar (e pelos vistos dá lugares de colunista nos jornais), e como bons portugueses que são, eles optam pelo que é mais fácil.

Posted by Bruno at 10:16 PM

novembro 07, 2009

O Intervalo

O debate que esta semana teve lugar no Parlamento, sobre o programa de Governo do executivo Sócrates, e as "análises" que desse debate se foram fazendo na comunicação social, foram (infelizmente) uma pequena amostra do que serão os próximos tempos. O Governo, como de costume, vive no mundo de ilusão que só existe na linguagem propagandística que insiste em nos impingir. Para o Governo, os últimos anos foram um período de incessante sucesso, de grandes "conquistas" e recheado de "momentos históricos", que só "bota-abaixistas" e "pessimistas" se escusam a aceitar, certamente por "inveja" e "ressentimento". Os que se seguem serão, a acreditar nas palavras do Primeiro-Ministro, uma continuação da imparável caminhada de Portugal em direcção à "modernidade".

Sempre que a oposição tem o descaramento de lembrar Sócrates de que a economia está em crise, que o défice derrapou, e que os problemas do país não têm fim à vista, ele ignora a evidência, e acusa os outros partidos de ainda não terem percebido que perderam as eleições. Estes, claro, retribuem a acusação, dizendo ao Primeiro-Ministro que ele é que não percebeu que já não tem maioria absoluta. Mas o que os debates mostraram foi como todos eles perceberam muito bem o que aconteceu nas últimas eleições. A oposição não podia senão perceber que perdera as eleições. E o PS tem a plena consciência de que não governará com a facilidade que encontrou nos últimos quatro anos. É por isso que o debate foi como foi.

Todos os partidos têm a sensação de que esta legislatura não conta. A anterior acabou (o PS já não tem maioria absoluta), mas a actual surgiu num quadro de tão grande indefinição e incerteza (até pela conjuntura económica) que ninguém espera nada de muito relevante enquanto ela durar. O que o debate mostrou foi que os partidos representados no Parlamento encaram esta legislatura como um longo intervalo entre a anterior e a próxima: fora uma ou outra excepção (como a intervenção de Pacheco Pereira sobre a corrupção), o debate não passou de um "jogo de posicionamento" que durará até à convocação de eleições antecipadas, em que o PS se apresenta como um agente de "modernização" que só a "cegueira" do "bota-abaixismo" e da "irresponsabilidade" ousa bloquear, e a oposição acusa o Governo de "arrogância" e, claro, "irreponsabilidade". Todos sabem que a legislatura não chegará ao fim, e todos procuram que esse destino funesto seja considerado da responsabilidade da outra parte. O problema é que, enquanto os deputados e governantes se divertem a atirar a batata quente de um lado ao outro do hemiciclo, os problemas do país não têm intervalo. Pioram. E salvo essas raras excepções, o Parlamento não os discute. Torna-se inútil. Aumenta a descrença dos cidadãos nos seus representantes. A conta, claro sairá cara para nós. Mas também para aqueles políticos que, de um lado e de outro, optam por ignorar a realidade.

Posted by Bruno at 09:02 PM

novembro 05, 2009

No Fora.tv

Harold Ramis, o realizador de Groundhog Day.

Posted by Bruno at 10:12 PM

novembro 04, 2009

"If you find yourself down a dark alleyway and in trouble I think Boris would be of more use than Ken."

No blog do jornalista britânico Paul Waugh:

"Climate change activist Franny Armstrong (who directed The Age of Stupid) was walking home in Camden Town when she was surrounded by a hoodied girl gang.

She says she was pushed against a car by the girls, one of whom had an iron bar. She called out for help to a passing cyclist, who turned out to be...Boris.

The Mayor stopped and chased the girls down the street, calling them "oiks". He then returned and insisted on walking her home.

"I was texting on my phone so didn't notice the girls until they pushed me against the car, quite hard. I noticed that one had an iron bar in her hand - it was very frightening. At that moment a man cycled past and I called out for help.

"He said to the girls: 'What do you think you are doing?' He picked up the iron bar, called after the girls and cycled after them. He returned a few minutes later and walked me home. He was my knight on a shining bicycle."

The climate change activist still doesn't agree with the Mayor's politics and points out she voted for Ken Livingstone.

But then she gives a quote that Boris could use on his election posters in 2012: "If you find yourself down a dark alleyway and in trouble I think Boris would be of more use than Ken."

I'm told that Boris - who was cycling from an event in Regent's Park to his home in Islington - didn't even think the incident worth telling his staff about today. He thought the girls were about 13 or 14 and so didn't think they were a big threat - but was unaware one had an iron bar."

Posted by Bruno at 03:17 PM

novembro 03, 2009

Um Erro

o presidente da República Checa assinou hoje o Tratado de Lisboa. Ultrapassou-se assim o "último obstáculo" à entrada em vigor do dito Tratado, que a "Europa" não deverá agora demorar a adoptar. É um tremendo erro. Concentrar-se-à mais poder mais longe dos cidadãos, retirar-se-à os países meios de defenderem o seu interesse nacional, arrisca-se mudar o que até aqui tinha funcionado mais ou menos bem em nome de uma "eficácia" que ainda ninguém viu se será realmente "eficaz". E tudo isto feito à força, de forma desonesta, pelas costas dos cidadãos ou, em alguns, contra eles.

Posted by Bruno at 07:08 PM

novembro 02, 2009

O "Novo" Público

Ouvi há pouco, na TSF, a entrevista de Bárbara Reis, nova directora do Público, a Carlos Vaz Marques. Ouvi, e fiquei preocupado. Diz Bárbara Reis (repetindo o que fora escrito no seu editorial) que o Público tinha tido até aqui um "excesso de carga ideológica": ou seja, o facto de haver, na redacção do jornal, uma pessoa que gostava de George W. Bush e apoiara a guerra do Iraque é sinal de um excesso de carga ideológica no jornal (presumo que Reis não se estivesse a referir a São José Almeida ou a Teresa de Sousa, exemplos de isenção e neutralidade).

O que me preocupa não é, ao contrário do que se possa pensar, que o "novo" Público se torne um jornal "de esquerda". O "velho" já o era, e eu continuava a lê-lo. O que me preocupa é uma aparente maior "moleza" perante o regime. Preocupa-me que a retirada de "carga ideológica" acabe por se traduzir em falta de vigilância à podridão que vem de S. Bento. Dirá o leitor que, se isso acontecer, eu tenho bom remédio: deixar de ler o Público. Mas o problema está em que esta não é uma mera questão de gostar ou não do Público. Está em que o Público tem sido, até aqui, o único a não ter medo de investigar as dúvidas em torno da pessoa e do passado do Primeiro-Ministro, o único a pôr em causa a propaganda oficial e a não ir atrás dos "abrantes". Uma transformação do Público em Diário de Notícias B não seria apenas uma má notícia para os leitores do Público, mas um problema para o país.

Posted by Bruno at 10:35 PM