Escrito pela mão invisível de Bruno Alves. Comentários e opinião: alves.bm@netcabo.pt

« abril 2009 | Main | junho 2009 »

maio 31, 2009

Diferenças e Semelhanças

Parece que o dr. Miguel Portas achou por bem dizer que "o PS e o PSD são como a Pepsi e a Coca-Cola. São diferentes, pois claro, só que não se nota". Em parte, Miguel portas tem razão, pois o PS e o PSD são de facto como a Pepsi e a Coca-Cola: não podiam ser mais diferentes, e há sempre uns idiotas dispostos a dizer que não.

Posted by Bruno at 10:26 PM

maio 30, 2009

No Seu Direito

Há poucas coisas tão ridículas como os "direitos" que alguns portugueses reclamam para si próprios: do "direito ao TGV" dos jovens socialistas, ao "direito à nudez" (com a sua respectiva "preservação da dignidade") dos "naturistas", abundam por aí ideias de "direitos" que dificilmente passariam pela cabeça de uma pessoa sã. Estão no seu direito, claro: a idiotice é um direito, e um direito que, por razões eminentemente egoístas, eu muito prezo. Agora, seria boa ideia que eles pensassem um bocadinho antes de o exercerEu, por exemplo, sou geralmente assaltado por alguns arrebatamentos por raparigas de tez branca e porte simples, e nos momentos de maior exaltação e desespero, também a mim me apetece dizer que "tenho direito" a que uma dessas raparigas me preste atenção. Mas um segundo de reflexão é o suficiente para me refrear: rapidamente me lembro que eu "tenho" esse "direito", mas que elas não têm o dever de o fazer; têm o direito de me ignorar, e infelizmente, tendem a exercê-lo sem hesitação ou arrependimento.

Olhemos agora para a rapaziada da JS. Eles sonham com o TGV, e na ânsia de o terem, reclamam o tal direito que anunciam no seu cartaz eleitoral. Ora, ninguém impede os jovens socialistas de terem o seu TGV, se o desejam tão ardentemente. Gastem o seu dinheirinho a investir no negócio, e resolvem o problema. Porque se eles têm um "direito ao TGV", os outros portugueses não têm o dever de lhes satisfazer o desejo (que é o que realmente os jovens socialistas estão a pedir). Quanto aos "naturistas" (abominável palavra) ninguém os impede de se desnudarem, na sua privacidade. Claro que eles querem expressar a sua "individualidade" (despindo-a) em locais públicos. Mas a proibição de tais desvarios não se deve a uma suposta "indignidade" da nudez, dos quais os próprios devem ser protegidos: a proibição desses devarios não visa proteger a alminha dos que gostam expor as vergonhinhas, mas sim proteger os que não querem ser assaltados pela libertação das partes mais soltas do vizinho do lado, ou pelos locais menos iluminados do corpo da colega de escritório. O direito ao "naturismo", que estes maluquinhos vêem reconhecido, não implica que eu tenha o dever de assistir ao espectáculo. Embora haja alguns casos de certos exemplares do sexo feminino (poucos, que é preciso ser selectivo) que deveriam ter o dever de exercer esse tal de "naturismo" na praça pública. É que de tanto aturar "ideias" como as dos jovens socialistas, já tenho direito a algo que me compense o sofrimento.

Posted by Bruno at 10:32 PM

maio 29, 2009

A Ver

No Fora.Tv, David Brooks à conversa com Gail Collins acerca da presidência Obama.

Posted by Bruno at 11:48 PM

maio 28, 2009

28 de Maio (publicado no Insurgente)

A 6 de Junho de 1926, no Campo do Ameal no Porto, realizava-se a Final do Campeonato de Portugal de Futebol, entre o Clube Sport Marítimo, do Funchal, e o lisboeta Clube de Futebol “Os Belenenses”. Aos 55 minutos de jogo, José Fernandes, avançado dos madeirenses, marca o primeiro golo para a sua equipa. Pouco depois, o seu colega Manuel Ramos marca o segundo, e Augusto Silva, capitão belenense que havia sido expulso, recusa-se a abandonar o campo, forçando o árbitro a interromper o jogo. O Marítimo sagrava-se assim, pela primeira e única vez na sua história, campeão nacional de futebol.

O futebol era já um desporto extremamente popular, arrastando multidões, e os clubes que dominariam o futebol português nos próximos anos atraíam inúmeros adeptos. Para quem esteve presente no Ameal, o que se passaria no Portugal político nos anos seguintes poderia parecer familiar. Tal como o “Belém” se qualificara para o Campeonato de Portugal ao suplantar os “grandes” Sporting Clube de Portugal e Sport Lisboa e Benfica, e o Marítimo afastara na meia-final o poderoso Futebol Clube do Porto, também as forças que lutariam pelo poder a partir de 1926 tiveram primeiro de afastar os republicanos que haviam dominado o país nos anos anteriores, bem como o “chefe da revolução” Gomes da Costa. E tal como no jogo do Ameal a conduta dos participantes obrigara o árbitro a interromper o desafio, também muitas das acções dos intervenientes políticos seriam tudo menos cavalheirescas. Para o comum adepto de futebol, o que se seguiu ao golpe militar do 28 de Maio certamente parecia um “prolongamento” das lutas da I República. Se de 1910 a 1926 se haviam jogado os primeiros 90 minutos, de 1926 a 1932 jogar-se-iam os trinta suplementares. Com a vitória de Salazar, dispensava-se o recurso ao desempate por grandes penalidades.

Logo após o golpe militar, as duas principais facções envolvidas tentaram tomar o controlo da situação. Mendes Cabeçadas e Cunha Leal alimentavam a velha esperança do conservadorismo republicano de manter o regime dispensando a sua “rua”, enquanto Sinel de Cordes e Raúl Esteves, homens do exército, de simpatias monárquicas, procuravam “regenerar” a “Nação”, não apenas subjugando a “rua” republicana, mas apagando também a influência das “quadrilhas partidárias” e dos “políticos” . A assistir prudentemente, estava a Igreja. Perseguida pelo “terror republicano”, acomodada nos anos finais do regime, e fortalecida por um “renascimento católico” a partir dos finais da década de 10 , a Igreja tinha na nova situação política uma boa oportunidade de recuperar, ou até mesmo ganhar, influência e poder. Precisava, para isso, de avaliar prudentemente a correlação de forças no campo de batalha. A colocação e rápida remoção de António Oliveira Salazar da pasta das Finanças em 1926 mostra como a Igreja se limitava, por esses dias, a apalpar o terreno .

Cabeçadas e Leal marcaram o primeiro golo. Com receio do avanço que, a partir de Braga, fazia Gomes da Costa, Bernardino Machado entrega o poder a Cabeçadas. Cedo se viu que não serviria de muito. A 31 de Maio, no Porto, Gomes da Costa retira a confiança do Exército em Cabeçadas, e ordena a marcha sobre Lisboa. A 6 de Junho, enquanto no Ameal se jogava a final do Campeonato de Portugal, Gomes da Costa entra em Lisboa. A 18, Cabeçadas estava já derrotado. Dispensara voluntariamente o recurso à “rua” republicana, mas sem ela, estava nas mãos do “monarquismo” militar, e agora, entregava o poder a Gomes da Costa, partindo com “qualquer coisa da República” ainda “agarrada” a si .

Gomes da Costa parecia ir sair vencedor, mas o jogo ainda não tinha acabado. Fez-se Presidente, e logo teve de lidar com o conflito entre a Igreja e alguns membros do seu Governo. Demitidos estes, seguem-se-lhes os restantes colegas não ligados à Igreja, e o Exército vê-se forçado a intervir, forçando a demissão de Costa e a sua substituição por Óscar Carmona .

O novo Presidente, por sua vez, pensa convocar eleições, para dessa forma, contra o grupo dos integralistas e a Igreja, impor a “normalização constitucional”, ou seja, o fim do estado de emergência que a Ditadura corporizava, e a instauração de um “presidencialismo nacionalista democrático”, “cuja força e estabilidade” tornassem “impossível a desordem” . Ao mesmo tempo, Sinel de Cordes promove uma política financeira de “incentivação da via económica nacional” . Os seus resultados foram desastrosos. Não apenas por terem criado um “brutal agravamento do défice orçamental”, mas por, uma vez gorada a tentativa de obter um empréstimo da Liga das Nações (implicando a demissão de Sinel), ter obrigado Carmona a ir chamar Salazar para a pasta das Finanças . Era obrigado não apenas a entregar-lhe poder (a “ditadura das finanças”), mas também um meio (através da promoção propagandística das suas qualidades de “mago das finanças”) de Salazar o consolidar e expandir.

Foi uma oportunidade que o antigo professor de Coimbra não desperdiçou. Consegue forçar a demissão de Vicente de Freitas , como conseguirá depois a de Ivens Ferraz : “manobrou, equivocou, traiu”, escreveu vasco Pulido valente . Sentia-se agora livre para pedir uma “ditadura” que não fosse “um simples parênteses” , ou seja, fazendo a “normalização constitucional” com o “estado de emergência”, não com a sua remoção, e cria a União Nacional, o “partido” do Estado Novo, a corporização do que era efectivamente a coligação de Salazar .

No entanto, o Governo parecia, nas palavras do embaixador britânico, “poder cair a qualquer momento” . Revoltas “reviralhistas” na Madeira, Açores, Guiné, Porto e Lisboa, mostram como tais palavras era acertadas. No entanto, o 26 de Agosto abre caminho à vitória definitiva de Salazar, ao vir “dar razão” aos que, como o futuro Presidente do Conselho, condenavam a realização de eleições e ao “diálogo” com os republicanos . A 5 de Julho de 1932, Salazar fica com a chefia do Governo . A 27 de Outubro, em Bragança, ainda se tentou um levantamento do regimento de Infantaria. Mas o seu fracasso, bem como o de 18 de Janeiro de 1934, mostram como a oposição “reviralhista” pouco podia contra o aparelho repressivo do Estado Novo. Mas havia ainda as resistências provenientes do interior do regime. Aparentemente, circulavam rumores de golpes militares, e têm lugar reuniões de Vicente de Freitas com Carmona, apoiando a recandidatura do Presidente ao cargo, e visando a substituição de Salazar. Mas Carmona parecia já ter feito a sua escolha: queria Salazar no Governo. E sem o seu apoio, nenhum golpe militar contra Salazar poderia ser bem sucedido. Estava ganho o desafio. Mas ao contrário do que a propaganda do regime quis fazer crer, a "desordem" não passou a ser "impossível". Antes pelo contrário.

Posted by Bruno at 11:15 PM

maio 27, 2009

A Ver

No Fora.Tv, o testemunho de Jack Garcia, um ex-agente do FBI que fez operações undercover na Máfia.

Posted by Bruno at 11:07 PM

maio 26, 2009

Obama e a Coreia do Norte

Vale a pena ler o que escreveu o Luciano Amaral acerca do mais recente teste nuclear norte-coreano:

"Não foi preciso passar muito tempo dos “cem dias” para se perceber uma coisa simples: ou a presidência Obama continua a mesma política externa psicanalítica (”o que é preciso é falar com eles”, “eles precisam é de um ombro onde se encostar”, “deixem-nos manifestar a sua agressividade”) e deixou de ter qualquer capacidade especial para determinar o estado da segurança no mundo, ou então adopta a postura do Bush do primeiro mandato, talvez ainda mais do que o Bush do primeiro mandato, para restabelecer a credibilidade.

Ouvi ultimamente muitos louvores à nova postura americana, que lhe dava grande margem de manobra. Mas a verdade é que fez exactamente o contrário. A administração não tem neste momento qualquer capacidade de reacção: muito simplesmente, ninguém acredita que Obama faça o que quer que seja contra o Irão ou a Coreia do Norte. Já no tempo de Bush não era assim: ninguém tinha a certeza se ele não ousaria realmente bombardear o Irão. Mesmo que depois não o fizesse, criava a dúvida: afinal não o fez no Iraque? Obama não tem este instrumento. E ou desiste dele ou o recupera rapidamente. Verdade se diga que já o fez no que toca à política de detenção dos prisioneiros de guerra. Mas a falta de clareza com que o fez mostra a hesitação. Mesmo assim, ninguém se surpreenda se vir por aí aparecer um dia um Obama todo belicista."

Posted by Bruno at 10:49 PM

maio 25, 2009

Crenças

Parece que o dr. Portas disse hoje que "não acredita na economia especulativa". Claro que não acredita. Não acredita na "economia especulativa", como não acredita no que quer que seja, a não ser na sua própria pessoa e na sua capacidade de promoção pessoal. E o que é mais grave é que até parece ir tendo razões para isso: anos e anos do mais desavergonhado oportunismo, e ainda há gente disposta a depositar a sua confiança no homem.

Posted by Bruno at 11:15 PM

maio 23, 2009

Descubra as Diferenças

codebase="http://activex.microsoft.com/activex/controls/mplayer/en/nsmp2inf.cab#Version=6,4,7,1112">



src="http://www.desesperadaesperanca.com/images/Descubra_as_diferencas_2009-05-22.mp3" name="MediaPlayer">

Posted by Bruno at 10:24 PM

maio 22, 2009

Salários dos Políticos

A propósito da polémica em torno das despesas dos deputados no Reino Unido, Daniel Finkelstein defende a subida dos salários dos políticos:

"If you pay MPs £64,000 a year, you get three kinds of member.

First, there are those able only to command a professional salary of £64,000. Second, there are those with a large private income from their spouse or their family or their previous business activities. Third, there are those who intend to continue doing other things while they are an MP.

I would like to be able to attract MPs capable of earning £90,000 a year or so on the free market. I want my MPs to be at least as good as a secondary school head teacher.

Choosing a salary is not about moral worth. Nor is the difference between Guido and I, a difference about what these MPs should be allowed to live on.

It's about how much we are willing to pay to get MPs of a quality we are satisfied with.

I think it is monumentally eccentric to look at the MPs we've got, decide they are all inadequate and determine that therefore we should be paying them less.

Determining the quality of MPs we need is a matter of personal preference. I am in the minority here I know. Most people think they can get good enough MPs if they pay a cheaper price. I think they are paying too little, and getting MPs of insufficient quality.

I want to pay top dollar to get the best."

Posted by Bruno at 10:35 PM

maio 21, 2009

Amanhã

Pouco depois das 18h, na Rádio Europa (90.4) estarei com o Miguel Morgado no Descubra as Diferenças, como habitualmente moderado pelo André Amaral e pela Antonieta Lopes da Costa.

Posted by Bruno at 10:48 PM

Obama e Guantanamo

As dificuldades de Barack Obama com a questão da prisão de Guantanamo são um bom exemplo do problema que, ainda antes da sua eleição, escrevi irem afectar a sua Administração: se cumprisse as promessas eleitorais, faria asneira; se tomasse as opções mais correctas, faltaria à sua palavra; ambas seriam negativas.

Posted by Bruno at 10:42 PM

Um Sentido Comum

Tenho amigos e colegas que muito se preocupam com a ausência, nas nossas sociedades liberais modernas, de um sentido de vida comum que una a sociedade. Pelo menos no que diz respeito a Portugal, não precisam de se preocupar. Todo e qualquer português entrega a sua vida a um único propósito, partilhado com todos os outros: complicar a vida a quem quer que lhe surja pela frente. Mais: é algo em que todos somos bons. Se complicar a vida dos outros fosse uma actividade produtiva, Portugal seria bem mais desenvolvido.

Posted by Bruno at 12:09 AM

maio 18, 2009

No Leitor de DVD

Dartacão.jpg
Após muitos anos de espera, a série completa.

Posted by Bruno at 12:48 PM

maio 16, 2009

Irrelevância

Manuel Alegre não podia continuar como deputado do PS, sob pena de o acusarem de hipocrisia, após tantas críticas ao Governo socrático. E não podia sair do partido, o único lugar onde tem algum peso e poderia exercer alguma (pouca, como se vê) influência. Assim, preferiu uma solução intermédia: mantém-se no PS, fiel ao "seu" partido "de sempre", mas sai das "listas", para evitar acusações de súbitos esquecimentos, e manter uma réstia de independência (se, depois de tantas críticas, fosse deputado, perderia toda a legitimidade de criticar Sócrates no futuro), que lhe permita desempenhar o papel, que tanto o atrai, de "consciência" do partido. Resta saber se, cá fora, alguém ainda o quer ouvir, principalmente depois de a montanha do "milhão de votos" ter parido o rato que foi esta opção de Alegre.

Posted by Bruno at 11:02 PM

maio 14, 2009

A Ler

A entrevista do meu amigo Paulo à Minguante:

"M: E a terminar, que pergunta costumas fazer com mais frequência a ti mesmo?

PRF: Vale mesmo a pena?"

Posted by Bruno at 11:24 PM

maio 13, 2009

Continuando A Discutir Com o João Galamba (publicado no Insurgente)

Mais uma vez, o João tem razão em algumas coisas que me aponta, como em relação à natureza "pessoal" e agressiva do texto que escrevi: é o problema de se ver demasiadas séries televisivas americanas em que o insulto é visto como piada. Arrependo-me sempre, mas não consigo deixar de o fazer. Mas, ao contrário, do que o João diz, o texto dele não está limpo de citações absolutamente desnecessárias (para quê aquele "Rawls" metido lá no meio, ou a expressão alemã com um link para um texto sobre Hegel, senão para me esmagar com erudição e fazer com que o que ele escreveu, só pelo facto de recorrer às "autoridades", pareça mais profundo e substancial?). Depois, critica, também com toda a razão, um comentário que fiz ao meu próprio post, com uma pergunta para a qual há uma resposta fácil, se entrarmos no nível de abstracção desejado pelo João.

Aqui, entra a principal crítica que ele me faz: precisamente por eu não entrar por esse nível de abstracção, o meu "liberalismo" é "superficial", por eu não defrontar as questões que ele me coloca. O João, que não é parvo, até soube aproveitar o facto de eu ter dito que aquelas "coisas" nunca "me passaram pela cabeça" para me acusar de ignorância, como se eu não estivesse a dizer que a minha preocupação naquele texto não era com a "liberdade" (seja ela "negativa" ou "positiva"), mas dissesse que nunca, na minha vida, eu tivesse dedicado um segundo fosse às questões que o João coloca. Não é o caso, embora no que respeita à questão do "Sujeito" seja, confesso, largamente ignorante.

Ora, o João pode achar que isto é um sinal da superficialidade do meu pensamento, e talvez seja, mas eu, de facto, não percebo porque é que o meu argumento não é aceitável ou criticável independentemente da concepção da natureza do estado ou do "Sujeito" que eu ou o João possamos ter. Não percebo, e o João não explica. Por exemplo, nos comentários ao post do João, há um comentário (do leitor Viana) que, esse sim, critica o que eu efectivamente escrevi, embora cometa o erro de pensar que eu defendo uma democracia directa (a "descentralização política" não é democracia directa, não quer "obviamente" dizer que "as pessoas, enquanto indivíduos, devem ter todas igual poder de decisão perante qualquer acontecimento que as afecte". Quer dizer que algumas decisões políticas devem ser tomadas a nível local, outras a nível nacional, e que se deve desconfiar de soluções "globais"), bem como o de pensar que eu digo que toda e qualquer pessoa é igualmente capaz de dar a resposta certa: o que eu digo é precisamente que todos podemos dar respostas erradas, incluindo os "tecnocratas" referidos no comentário: é precisamente por isso que concordo com a crítica, feita no comentário, à democracia directa, e a razão pela qual quero que esses teconocratas decidam o menos possível (enquanto o leitor Viana quer que esses teconocratas sejam escolhidos por nós de uma forma que permita que eles representem verdadeiramente o "bem comum"). O João, pura e simplesmente, ignora o meu raciocínio, dizendo que aquilo de que ele fala derruba o meu argumento, sem explicar porquê. Isto para não falar de que o próprio raciocínio do João, independentemente do meu texto, é criticável, como se pode ver pelo que diz o Rodrigo.

Posted by Bruno at 11:41 PM

O maravilhoso mundo da cabeça do João Galamba (publicado no Insurgente)

No Jugular, o João Galamba recorre à arma argumentativa que há anos anda a passear pela blogosfera para demolir o meu post de ontem: enche o texto de referências eruditas e concepções metafísicas para que, ao transmitir a ilusão de inteligência, consiga desviar os leitores da minha argumentação e da total ausência de argumentos contra o que efectivamente escrevi.

Há uma crítica que o João me faz e que eu aceito plenamente: fui demasiado simplista ao "explicar" a crise. É, admito, o preço da minha ignorância em relação a tais assuntos. No entanto, apesar de simplista, não me parece que a minha "explicação" seja falsa, nem sequer que o simplismo dela seja suficiente para invalidar o argumento geral do texto. E em lado algum do texto digo que a "culpa" é só do Estado, nem que a "solução" é o mercado: não há "solução" para as "crises", elas continuarão a existir sempre, e o que procurei saber foi qual a melhor forma de lidar com o facto de que, da acção do Estado ou do "mercado", sairá, muitas vezes, asneira da grossa.

O João diz ainda que o meu argumento é "uma versão do argumento epistemológico de Hayek em favor dos mercados". Parece que sim. Não sou grande leitor de Hayek (eu é mais Dunst, tendência Kirsten), mas das vagas ideias que tenho da coisa, é mais ou o menos o mesmo, é. Diz depois o João que a minha "versão" do argumento de Hayek até "parece aceitável", "estatísticamente". No entanto, diz o João, tudo assenta numa "falácia". E aqui o João começa a falar de uma série de coisas que nunca me passaram pela cabeça: fala de "liberdade", "positiva" e "negativa", e de como eu penso, erradamente (claro), que o Estado, ao agir, tira forçosamente liberdade aos indivíduos (por acaso, o que eu penso, embora nada tenha a ver com o texto em questão, é que certas acções do Estado tirem alguma liberdade, outras dão, embora para darem tenham que tirar alguma), e finalmente, espirra o cânone comunitarista, para destruir de uma só assoadela todo o meu "liberalismo".

Primeiro, o João comete o erro de pensar, só porque eu escrevo no Insurgente, que só um "liberal" (não sou). E segundo, usa a argumentação comunitarista de crítica ao liberalismo como teoria política assente em "direitos" (se eu fosse como o João, punha aqui uma palavra em alemão) para criticar um post em que não falo, nem sequer penso, em "direitos". A ideia de que o indivíduo não é pré-existente ao Estado seria relevante, e contrária ao meu argumento, se eu estivesse a falar de "fronteiras" que, por "direito", o Estado não deve ultrapassar na sua relação com os cidadãos (não digo "indivíduos" para o João não dizer que eles não existem). No entanto, o meu argumento não passa por qualquer consideração "atomista" acerca da natureza do ser (agora até parecia o João, embora em alemão isto ficasse mais bonito). Passava, apenas e só, pela avaliação, meramente probabilística, da forma como as decisões são tomadas, do impacto que elas poderão ter, e a melhor forma de lidar com esse problema.

O meu argumento, que "estatiscamente" até "parece aceitável", assentava apenas e só no seguinte: 1) vivemos num mundo de imprevisibilidade, no qual as decisões humanas podem ter um impacto significativo da vidas de todos e cada um; 2) precisamente por essa imprevisibilidade e por esse potencial impacto das decisões que todos nós tomamos, todas elas têm um elevado grau de risco; 3) se os riscos são elevados, será apenas e só de bom senso que as "apostas" sejam o menos elevadas possíveis, que eu aposte um bocadinho aqui e outro bocadinho ali; ou seja, tendo em conta que vivemos nesse mundo de imprevisibilidade e risco elevado, os nossos arranjos políticos devem aligeirar os riscos que corremos, disseminando as "apostas" (o que, ao contrário do que o João Galamba diz, não significa apenas mercado livre, mas também descentralização política e "subsidariedade", em vez de "grandes soluções" como as que os líderes europeus e americanos tanto gostam, e, acima de tudo, prudência na regulação das actividades humanas).

O João pode ou não concordar com este raciocínio, e se não concordar, até gostaria de perceber porquê, para poder corrigir os meus eventuais (e prováveis) erros. Mas escusa de tentar enganar os leitores, procurando fazer-lhes crer que, para discutir uma questão meramente probabilística (qual a melhor forma de lidar com a imprevisibilidade e o risco?), eu preciso de partir de concepções metafísicas acerca da natureza do Estado e do "Sujeito" (o meu argumento é aceitável ou criticável independentemente da minha concepção acerca da natureza do Estado e do "Sujeito", e se eu tiver que usar esta palavra mais alguma vez, vou ficar enjoado). Até porque com tanto esforço dispendido a enumerar os autores que, com os cantos da folha ainda por desgastar, tem lá na sua estante, o João se esqueceu de comentar o texto que eu realmente escrevi. O que até nem deve ser culpa minha, porque, ao contrário do que é habitual nos textos do João, o meu até parece ser relativamente legível.

Posted by Bruno at 11:33 PM

maio 11, 2009

Viver no Extremistão (publicado no Insurgente)

Las Vegas.jpg

Na sua primeira crónica no jornal I, João Cardoso Rosas "espanta-se" que "tantos continuem agarrados ao seu socialismo, ou ao seu liberalismo, ou ao seu conservadorismo, como se nada se tivesse passado no ano de 2008": as "visões ideológicas" da "esquerda socialista" e da "direita conservadora", diz Cardoso Rosas, são de uma "pobreza" tal que não lhes "permite compreender a crise e não permitirá enfrentá-la".

De facto, no debate político corrente, tem sido ignorada uma questão prática que deveria estar no centro das discussões acerca da "crise": o impacto da crise (e das tentativas de a resolver) na margem de manobra dos governos. Tal como uma Suécia com um "modelo social" já pouco sustentável optou, em 1992, por empregar dinheiros públicos na salvação dos seus bancos, Estados já muito endividados optaram agora por endividarem-se ainda mais para "salvar" o sistema financeiro internacional. Esta dívida ou é paga com subidas de impostos intoleráveis para populações que já entregam metade do seu rendimento ao Estado, ou com dinheiro que "cresça nas árvores" (mas que irá valer cada vez menos), ou seja, ou perderemos qualidade de vida por sermos sobrecarregados com impostos ainda mais elevados, ou por termos de lidar com a inflação a que uma expansão monetária nos condenaria. A alternativa a estes dois tristes cenários é apenas uma: enfrentar a realidade da insustentabilidade do nosso querido "modelo social europeu", eliminando os sorvedores de dinheiros públicos que põem em causa o nosso futuro. A crise, e as respostas à crise, orbigar-nos-ão a escolher entre o empobrecimento progressivo e a dureza das reformas, e essa é uma escolha (difícil) que o discurso político tem ignorado por completo.

Mas, e a mensagem do artigo de Cardoso Rosas é precisamente essa, a atitude da "esquerda" e da "direita" perante a crise não peca apenas pelo seu irrealismo prático e pela sua falta de consciência acerca das implicações da conjuntura. Mais grave é a desadequação do seu enquadramento ideológico à realidade que a "crise" revelou: ela pôs a nu algumas características das nossas sociedades que, muitas das vezes, são completamente ignoradas no debate ideológico, mesmo a nível "conceptual".

O que a crise nos mostrou foi a confirmação de que vivemos naquilo a que Nassim Nicholas Taleb chamou de "Extremistão": um mundo de maiores possibilidades, mas em que as perdas têm maiores consequências; um mundo em que se tivermos sorte (e enquanto tivermos sorte) poderemos enriquecer para além da nossa imaginação, mas no qual, com um bocadinho de azar, podemos perder tudo de um dia para o outro; um mundo de imprevisibilidade, em que o resultado das nossas acções depende de muitos factores, não só fora do nosso controlo, como fora da nossa capacidade de compreensão; o mundo em que o "acidental", o improvável, não só tem mais impacto, como é mais comum.

Veja-se o que se passou no mercado imobiliário, e que esteve na origem da "crise": inúmeros investidores foram apostando continuadamente em produtos finaceiros relacionados com o valor das casas. Enquanto a bola foi caindo no número apostado, a aposta rendeu. Mas mais tarde ou mais cedo, a bola teria de cair noutro lado. Isso aconteceu quando surgiram os primeiros beneficiários do “sub-prime” a não conseguirem pagar as suas prestações: tal como a sua entrada no mercado permitira, ao aumentar a procura de casas, inflacionar o seu preço, a constatação de que eles não tinham bens para adquirir essas casas levou à sua súbita desvalorização, bem como de todos os títulos que nelas se “apoiavam”. Enquanto foram tendo sorte, todos enriqueceram muito, do mais pobre (que pôde comprar casas que não podia pagar) ao mais rico (que lucrou com os seus investimentos). Quando um deles começou a ter azar (quando os pobres de Detroit deixaram de poder pagar as prestações da sua casa), todos perderam muito: bancos começaram a falir, e a crise foi-se alastrando pelo mundo fora.

Para os críticos do mercado livre, esta é uma "economia de casino" que entrega o destino de todos à "especulação bolsista". Antes fosse uma "economia de casino": Se eu atirar um dado, sei que a probabilidade de calhar 3 é de 1/6. Numa aposta no sistema financeiro, as probabilidades não só são infinitamente piores para o apostador, como este não tem forma de saber quais elas são: é como se se apostasse num número da roleta, e o resultado não dependesse do funcionamento regular do mecanismo, mas antes de para qual o lado e com que força milhões de indivíduos a fariam rodar.

Se as coisas são assim, porque é que as pessoas correm esses riscos tão grandes? Poder-se-ia argumentar que, racionalmente, escolhem correr esse risco por saberem que, se forem bem sucedidos, serão muito bem sucedidos. Mas uma atitude racional perante riscos tão grandes seria correr poucos riscos, seria precaver-se da possibilidade de uma aposta deixar de funcionar. Ora, o que esta crise mostrou, para além de que as nossas sociedades estão muito mais expostas ao "acidental" (por ele simultaneamente ter mais impacto e ser cada vez mais comum), foi que nós não somos tão racionais assim, que as nossas decisões são tão ou mais informadas pelos nossos "espíritos animais" do que pelo nosso julgamento racional.

Há uma famosa experiência, levada a cabo pelo psicólogo Solomon Asch, em que ele dava a uma pessoa dois quadros, um com uma linha, outra com três linhas de tamanhos diferentes, pedindo-lhe que dissesse qual das linhas do segundo quadro tinha o mesmo tamanho da linha do primeiro quadro. Obviamente, as pessoas respondiam correctamente. Mas de seguida, Asch dizia-lhes que essa não havia sido a resposta dada por outros inquiridos. Ao fim de alguma insistência, a maioria das pessoas acabava por mudar de resposta, da que haviam julgado certa para a que julgavam errada. Os seres humanos, em geral, parecem não confiar no seu próprio julgamento quando este entra em contradição com o que acham ser a opinião do resto da sociedade. E tendemos a modelar o nosso comportamento e as nossas escolhas pelo comportamento que observamos nos outros: toda a gente via nas casas o que de mais seguro podia haver no mercado financeiro, e apesar de inúmeros artigos alertando para a bolha imobiliária e para a iminente explosão da dita, as pessoas continuaram a apostar nesse mercado e a bolha continuou a aumentar.

Como viver no "Extremistão"? Quais serão os arranjos políticos adequados a seres humanos que nem sempre se comportam de forma racional? Como se devem organizar politicamente seres humanos cujas acções podem ter um impacto devastador nas ciondições de vida uns dos outros, especialmente quando muitas dessas acções resultam de pura imitação (o que significa que a asneira, e ainda por cima uma asneira que pode ter grande impacto, será copiada por outras pessoas)?

Uma resposta possível é a de que, precisamente por as pessoas fazerem asneira, por as pessoas tomarem más decisões e tenderem a copiar as decisões (mesmo que más) dos outros, os arranjos políticos devem procurar limitar a possibilidade das pessoas fazerem essas escolhas erradas. Esses arranjos políticos deveriam assim prever uma maior regulação das actividades das pessoas, impedindo-as de apostar em determinados números e procurando impedi-las de copiar as respostas erradas. Mas e se esse "Grande Regulador" estiver errado? E se as apostas que ele entende autorizar forem as mais arriscadas (e portanto, de consequências potencialmente mais devastadoras em caso de perda)? E se ele der a resposta errada em relação a quais das linhas são do mesmo tamanho, e nos impedir de dar a resposta certa? Afinal, não foi isso que aconteceu nesta crise? Não foi a aquisição de casas por parte de quem não as podia pagar promovida pelo poder político (os já famosos Fannie Mae e Freddie Mac foram criações governamentais para dar aos americanos mais fácil acesso ao crédito para a compra de habitação)? Não obrigou o governo americano, através da acção do Fannie Mae, do Freddie Mac e do HUD, vários apostadores (bancos) a avançarem dinheiro a outros apostadores (os beneficiários do “sub-prime”) que não poderiam saldar a dívida, e assim, por todos eles apostaram no mesmo número (o mercado imobiliário), inflacionando o valor dessa aposta (e portanto aumentando o seu risco e a gravidade da perda)?

A outra escolha passa por aceitar a natureza do Extremistão e a forma como as decisões humanas são tomadas, e correr o menor número de riscos possível na configuração dos próprios arranjos políticos. Precisamente por os riscos de qualquer decisão serem enormes, não só para quem a toma como para todos os outros, deveremos limitar, não o número de pessoas que tomam decisões, mas o número de pessoas sujeitos a um só decisor: se eu e o meu vizinho fizermos duas apostas diferentes, pode acontecer que eu perca, mas que ele ganhe. E mesmo que o facto de eu perder possa ter impacto sobre o ganho dele, o que é verdade é que ele ganhou alguma coisa, minorando o impacto que a minha perda possa ter nele; se o "Grande Regulador" fizer uma aposta em nome dos dois, ambos vamos perder o mesmo, sem nada que sirva de almofada a qualquer um de nós. E sim, é verdade que a nossa tendência para copiarmos as respostas que os outros dão significa que, muitas vezes, estamos a copiar respostas erradas. Mas também significa que, outras vezes, estamos a copiar respostas certas. Se um "Grande Regulador" der as respostas por todos nós, ou decidir qual o leque de respostas admissíveis, todos beneficiaremos quando ele tiver razão, mas o impacto de uma resposta errada será também muito maior, porque todos estarão errados.

O que a "crise" de 2008 mostra é que a imprevisibilidade do nosso mundo, e a irracionalidade de algumas das nossas decisões, são factores que não podemos dispensar ao pensarmos acerca de como deverão ser os nossos arranjos políticos. Mas devemos considerar ambos igualmente, e levá-los a sério: deveremos perceber que todos podemos fazer escolhas erradas, e perceber que qualquer escolha pode ter consequências imprevisíveis. E que por isso, será melhor que o processo de escolha seja o mais disseminado possível, para que ninguém possa escolher por todos, para que o impacto de uma escolha errada seja o menor possível.

Posted by Bruno at 07:41 PM

maio 10, 2009

Kubrick

Descobri aqui uma edição do programa de Charlie Rose sobre Kubrick, com a sua mulher, o seu produtor Jan Harlan e Martin Scorsese, a propósito do documentário Kubrick: A Life in Pictures, do próprio Jan Harlan (e que é bastante bom, diga-se de passagem).

Posted by Bruno at 10:45 PM

maio 08, 2009

I

Só hoje li o I de ontem. Apesar de uma grande falha (não me terem contratado para colunista), não me pareceu mau. O grafismo, devo dizer, incomoda-me (dificulta-me a leitura), mas eu odeio sempre o grafismo dos jornais nos primeiros dias, portanto, a culpa talvez seja minha. Mas tem (alguns) bons colunistas (embora as crónicas sejam demasiado pequenas para o meu gosto), a secção do Zoom, bem explorada, pode ser interessante (gostei do artigo sobre a gripe), e a ideia de ter "o melhor" do New York Times (que é um bom jornal) pode ser boa (dependendo, obviamente, se o que for publicado for realmente o melhor do New York Times). Claro que vai ser preciso ver o jornal nos próximos dias, e seguir o que de lá for saindo. Mas as primeiras impressões não foram más.

Posted by Bruno at 12:20 PM

maio 07, 2009

A Ler

Este post do Miguel Morgado, infelizmente muito certeiro acerca da realidade política portuguesa:

"O que se dizia em sussurro, diz-se agora com naturalidade e perto dos microfones. É a bondade de um Bloco Central; é a necessidade de um governo "independente", patrocinado pelo Presidente da República, sustentado por uma vaga maioria parlamentar. O que não se diz é que essa é a declaração implícita da falência da democracia portuguesa."

Vale a pena ler o resto. E começar a pensar em emigrar.

Posted by Bruno at 11:54 PM

O Problema da "Europa"

No Fórum TSF de hoje, Vital Moreira procura mostrar a quem o estava a ouvir (e conseguiu manter-se acordado ao fim dos primeiros trinta segundos. Eu não consegui) qual a importância das eleições europeias. Para o fazer, começou a enumerar as inúmeras matérias que passam pelas votações do Parlamento Europeu, desde as normas de higiene no local de trabalho aos mais ínfimos detalhes das mais obscuras questões. Naquela entediante lista, encontrava-se o problema da "Europa" e dos europeístas mais excitados: Vital Moreira estava a mostra-nos como aquele poder distante, fora do nosso controlo e afastado de qualquer mecanismo de responsabilização, toma para si a responsabilidade de decidir sobre imensos aspectos da nossa vida; e estava a mostrá-lo como se isso fosse algo de positivo. A "Europa" representa um poder cada vez maior e simultaneamente cada vez mais afastado dos cidadãos; e os "europeístas" como Vital Moreira não só apreciam o facto, como querem aumentar aquele poder e afastá-lo ainda mais. É a receita para que o problema da "Europa" se torne cada vez mais grave.

Posted by Bruno at 11:33 PM

maio 06, 2009

Kubrick Tinha Razão

hal-9000.jpg

Na Suécia, um homem que tentava reparar um robot foi "atacado" por ele.

Posted by Bruno at 11:07 PM

maio 05, 2009

A Importância De Uma Mudança Na Lei do Arrendamento

No Insurgente, e a propósito do que o Henrique Raposo disse no último Descubra as Diferenças, o André nota a importância de o próximo governo (seja ele qual for) fazer profundas mudanças tanto na lei laboral como na lei do arrendamento, considerando mesmo que a avaliação desse governo dependerá do modo como vier a lidar com estas questões. Não podia concordar mais com o André: uma mudança na lei das rendas, em particular, tornou-se ainda mais necessária com a crise que agora enfrentamos.

Como há tempos escrevi, Richard Florida publicou na Atlantic Monthly um artigo em que argumentava que a crise actual irá criar uma nova "geografia", completamente diferente da actual: em vez da suburbanização que, segundo Florida, caracterizou a América nas últimas décadas, a economia actual faz com que os locais mais bem sucedidos sejam aqueles com a "maior densidade de pessoas" e "maior velocidade de ideias", com "maior indíce de metabolismo". Isso implica também uma maior mobilidade das pessoas, capazes de também elas fazerem parte desse "metabolismo" acelerado, indo de um sítio para o outro à medida que as melhores oportunidades são oferecidas em locais diferentes.

Não são boas notícias para o nosso país. Porque se Richard Florida tiver razão, Portugal e as suas cidades serão dos locais pior preparados para enfrentar as exigências da economia moderna. Pois Portugal tem uma lei das rendas que praticamente obriga os seus cidadãos a fazerem algo que será contrário ao que as exigências da economia moderna aconselhariam. Uma lei das rendas que praticamente obriga uma pessoa a comprar casa (e a endividar-se para toda a vida para o poder fazer), quando comprar casa praticamente condena a pessoa a ficar presa ao local onde está, mesmo que este ofereça menos oportunidades que um outro. De certa maneira, é precisamente por oferecer menos oportunidades que aprisiona quem lá comprou uma casa: como esse local oferece menos oportunidades, torna-se menos atractivo, o que faz com que a casa perca valor, o que obriga o seu dono ou a perder dinheiro ou a ficar num local em decadência, ou seja, obriga-o a ter de escolher entre perder dinheiro por uma razão ou perder dinheiro por outra. Enquanto Portugal não mudar a sua lei das rendas, tornando viável o mercado do arrendamento, os portugueses estarão condenados a ficarem cada vez mais pobres, eternamente amarrados a casas que tiveram de comprar (e ao endividamento que por causa delas tiveram de contrair), e que os impedirão de arriscar em busca de melhores oportunidades, sem as quais as suas condições de vida não poderão melhorar. Se há mudança que é necessária em Portugal, é esta, pois sem ela, dificilmente se conseguirão as outras.

Posted by Bruno at 11:06 PM

maio 04, 2009

A Ver

A entrevista de David Brooks ao programa de Charlie Rose, no passado dia 23 de Abril.

Posted by Bruno at 11:04 PM

Novo Blog

Vale a pena seguir o novo blog do Henrique Burnay, Bruxelas.

Posted by Bruno at 11:01 PM

maio 02, 2009

Os "Cartões" a Ferreira Leite

No Abrupto, Pacheco Pereira chama a atenção para o extraordinário raciocínio de Francisco Almeida Leite de que os resultados do PSD nas sondagens para as europeus, que ele parece considerar um bom resultado (pois diz ser "um prémio" para Paulo Rangel) é ao mesmo tempo um "cartão amarelo" para Ferreira Leite, pois "erá que um nome ainda mais forte do que Rangel não poderia aspirar a outros voos, vulgo a uma vitória eleitoral?". No Cachimbo de Magritte, o Pedro Picoito pergunta se uma vitória nas europeias será um cartão vermelho para Ferreira Leite. O Pedro, claro, diz isto a gozar, mas eu não tenho dúvida nenhuma que será precisamente isso que se irá escrever caso o PSD ganhe as europeias: uma vitória do PSD nas europeias será, para estas cabeças, um sinal de que Rangel é "muito mais mobilizador" que Ferreira Leite, e de que o PSD precisa de mudar de liderança. E claro que uma derrota significará que Manuela Ferreira Leite fez uma má esciolha, e que por isso "leva um cartão".

Posted by Bruno at 10:11 PM

maio 01, 2009

O Copo Meio Cheio Talvez Já Esteja Demasiado Pesado

Na sua crónica de segunda-feira no Público, Francisco Sarsfield Cabral, uma daquelas pessoas notoriamente inteligentes e sensatas que perdem a cabeça quando a conversa se vira para a "Europa" (outro exemplo de quem sofre desta maleita é Teresa de Sousa), diz que não há razão para tanta desilusão com a construção europeia. O "copo", diz-nos Sarsfield Cabral, não está "meio-vazio" como alguns europeístas (ainda) mais excitados lamentam, mas sim "meio-cheio", e "sobretudo, não se partiu". A dada altura, diz que "as vantagens da partilha de soberania são cada vez mais evidentes, num mundo globalizado". Curiosamente, no New York Times de terça-feira, David Brooks argumentava precisamente em sentido contrário: no mundo globalizado de hoje, diz Brooks, "we face a series of decentralized, transnational threats: jihadi terrorism, a global financial crisis, global warming, energy scarcity, nuclear proliferation and, as we’re reminded today, possible health pandemics like swine flu."

Para Brooks, temos dois caminhos possíveis para responder a estes problemas: "Do we build centralized global institutions that are strong enough to respond to transnational threats? Or do we rely on diverse and decentralized communities and nation-states?" Se bem percebo as palavras de Sarsfield Cabral, ele propõe que adoptemos o primeiro caminho. Brooks, por sua vez, propõe o segundo, usando a "gripe mexicana" como exemplo: "the response to swine flu suggests that a decentralized approach is best. This crisis is only days old, yet we’ve already seen a bottom-up, highly aggressive response. In the first place, the decentralized approach is much faster. Mexico responded unilaterally and aggressively to close schools and cancel events. The U.S. has responded with astonishing speed, considering there are still few illnesses and just one hospitalization.

(...)If the response were coordinated by a global agency, those local officials would not be so empowered. Power would be wielded by officials from nations that are far away and emotionally aloof from ground zero. The institution would have to poll its members, negotiate internal differences and proceed, as all multinationals do, at the pace of the most recalcitrant stragglers. Second, the decentralized approach is more credible. It is a fact of human nature that in times of crisis, people like to feel protected by one of their own. They will only trust people who share their historical experience, who understand their cultural assumptions about disease and the threat of outsiders and who have the legitimacy to make brutal choices. If some authority is going to restrict freedom, it should be somebody elected by the people, not a stranger. Finally, the decentralized approach has coped reasonably well with uncertainty. It is clear from the response, so far, that there is an informal network of scientists who have met over the years and come to certain shared understandings about things like quarantining and rates of infection. It is also clear that there is a ton they don’t understand. A single global response would produce a uniform approach. A decentralized response fosters experimentation. The correct response to these dynamic, decentralized, emergent problems is to create dynamic, decentralized, emergent authorities: chains of local officials, state agencies, national governments and international bodies that are as flexible as the problem itself.
Swine flu isn’t only a health emergency. It’s a test for how we’re going to organize the 21st century. Subsidiarity works best."

É por isto que Paulo Rangel, numa entrevista ao Público de segunda-feira, está errado ao dizer que "é melhor" haver um Tratado de Lisboa "do que não haver nenhum". Não que ele não tenha razão, e que não seja melhor haver Tratado de Lisboa do que não haver nenhum. Mas não é essa a escolha que temos diante de nós: não se trata de escolher entre o Tratado de Lisboa e o vazio, mas sim de escolher entre o Tratado de Lisboa e o quadro jurídico já em vigor. A escolha que realmente temos de fazer está em, para usar os termos de Sarsfield Cabral, saber se precisamos de encher ainda mais o copo, ou deixá-lo como está. Porque se ele não se partiu até agora, nada nos garante que, se vier a ter um pouco mais de água, não se venha a partir. Convém discutir se será mesmo necessário correr o risco. Até porque se David Brooks tiver razão, talvez o tal copo "meio cheio", apesar de ainda não se ter partido, já esteja demasiado pesado para que o possamos carregar.

Posted by Bruno at 10:29 PM