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abril 30, 2009
Sobre a Gripe
Anda por aí, como é costume com estes fenómenos, uma grande histeria com a "gripe mexicana". E como é costume com estes fenómenos, aparece sempre alguém, orgulhoso da sua fria calma, a dizer que "isto não vai dar em nada", cometendo o mesmo erro dos histéricos. Miguel Sousa Tavares, homem capaz de ditar sentenças sobre os mais diversos temas, desde a inteligência de George Bush à honestidade de Pinto da Costa, disse hoje na TVI que não tinha qualquer receio da gripe. Também ele acha que "isto não vai dar em nada". Como é que ele sabe? Porque já com a "gripe das aves" se atingiu esta histeria e depois a coisa "não deu em nada". Não lhe ocorre que o facto de algo ter sido de uma determinada forma no passado não garante que seja igual agora. Não lhe ocorre que fenómenos como este são por natureza imprevisíveis, e que nós não podemos saber à partida se corremos realmente perigo ou não (razão pela qual devemos tremer sempre que um governo diz que está preparado para tudo. Se nós nem sabemos o que vai acontecer, como é que podemos saber se estamos ou não preparados para isso?): nada nos garante que, mesmo que o vírus não seja assim tão perigoso agora, não venha a ser muito mais perigoso no futuro. "Histéricos" e "calmos", espécies que nestes períodos se reproduzem mais do que os vírus acerca dos quais falam, cometem ambos o mesmo erro: pensar que podem conhecer o futuro. O problema está precisamente em as coisas não serem assim.
Posted by Bruno at 10:58 PM
abril 29, 2009
Os 100 Dias da Presidência Obama
A propósito da tão falada efeméride, a única coisa que vale a pena dizer é aquilo que (num post a propósito de outro assunto) se escreve no blog Marbury: "it's such an absurdly arbitrary and premature point to assess a presidency."
Posted by Bruno at 10:40 PM
abril 28, 2009
O Problema do Sucesso (publicado no Insurgente)
No seu blog, o Henrique Raposo diz, acerca de Durão Barroso e a polémica em torno da sua (re)candidatura à Presidência da Comissão Europeia, que “um português não pode ter sucesso no estrangeiro. A pátria não lhe perdoa esse atrevimento tão pouco português”. Ao contrário do tal “atrevimento”, o que o Henrique diz é uma coisa muito portuguesa: associar uma crítica ou oposição a algo, a um sentimento de inveja e ressentimento que o crítico ou opositor terá. O que, para além de ser uma coisa muito portuguesa, é um erro ainda maior que a tal inveja ou o tal ressentimento. Ao Henrique não ocorre que os críticos portugueses de Durão Barroso reconheçam o “sucesso” do homem, e ao mesmo tempo, se oponham a que ele ocupe o cargo que pretende ocupar. Durão Barroso teve “sucesso”? Teve. Enquanto oportunista sedento de reconhecimento e estatuto, teve um grande “sucesso”. Enquanto político sem vergonha na cara e desprovido de qualquer sentido da responsabilidade perante aqueles que nele votaram, mas movido por uma ambição cega de auto-promoção, Durão Barroso teve um grande “sucesso”. Mas deve esse “sucesso” ser valorizado? Deve esse sucesso ser encarado como algo meritório, como algo merecedor de confiança e que qualifica a personagem para o cargo que ocupa? Tenho as minhas dúvidas, que nada têm a ver com o atrevimento que a pátria supostamente não perdoa: tenho com a pátria uma relação semelhante à que Ferro Rodrigues tinha com o segredo de justiça; foi ela que produziu Durão e acarinhou (e acarinha) os seus “atrevimentos”, bem como acarinhou (e continuará a acarinhar) os de muitos outros políticos de “sucesso”. Aliás, “atrevimento” mais português que o de Durão não deve haver: o parlamento está repleto de criaturinhas assim, embora claramente menos capazes que o senhor em causa.
2009 Não é 2004? E Então? (publicado no Insurgente)
O Henrique Raposo responde ao meu post. Diz ele que 2009 não é 2004. Ele tem “uma novidade” para mim (logo desqualificando-me ao dizer que eu não percebo nada), a de que todos os políticos são “oportunistas sedentos de poder”. E que por isso, eu não preciso que ele seja suficientemente bom para vir tomar chá cá a casa (coisa que talvez fizesse falta ao homem), apenas que ele nos “represente politicamente”. E pergunta-me: “queremos um Presidente de Comissão português, que ainda por cima tem tendências liberais?” Quanto ao facto de ser português, dispenso, se a sua política não for a mais correcta. O que nos leva às tais “tendências”. É possível que Durão as tenha, e eu próprio acreditei que sim (era jovem e ingénuo). O problema está em que, como já demonstrou à saciedade, não tem grandes problemas em escondê-las bem fundo, quando elas não servem a sua ambição pessoal. Como é que posso esperar que ele me “represente politicamente” se ele não hesita em esquecer os seus compromissos (e nem sequer estou a falar da saída em 2004, mas das políticas que desenvolveu entre 2002 e 2004)? O Henrique diz-me que “o asco pessoal que podemos ou não sentir pelo político X ou Y não interessa na analise política”, que “análise política com ressentimento tem um nome: terapia”. Ora o meu (muito vincado) asco em relação a Durão Barroso é puramente político: ele é alguém que subordina totalmente a sua acção política aos seus objectivos pessoais, e que por isso, inviabiliza a condução de qualquer política minimamente decente. E se “análise política com ressentimento tem um nome: terapia” (veja-se, não só preciso que o henrique me dê novidades como sou maluquinho), louvar um político porque ele é bom a enganar-me e a promover exclusivamente os seus interesses pessoais também tem um nome: estupidez.
Eleições e Corrupção (publicado no Insurgente)
Na sua crónica no Público, Rui Tavares critica Rui Rio, por este criticar o facto de “as eleições criam uma competição entre partidos para ver quem mais combate a corrupção”: para Rui Tavares, é “precisamente” isso que “esperamos da democracia”. Não sei se é uma voluntária deturpação das palavras de Rui Rio, se é um flagrante caso de estupidez (inclino-me para esta última hipótese, mas já nada me espanta no que à falta de carácter diz respeito). É óbvio para qualquer pessoa com dois dedos de testa (e que esteja disposta a aproveitá-los) que o que incomoda Rui Rio não é a competição para ver quem mais combate a corrupção, mas a competição para ver quem mais finge estar a combater a corrupção, enquanto o problema se vai agravando. A dificuldade (ou falta de vontade) em ver a diferença entre estas duas coisas (políticas que procuram resolver problemas, e políticas que procuram fingir que se está a resolver um problema) é uma das principais causas da degradação da nossa democracia, e a crónica de Rui Tavares é um bom exemplo de como é um problema bastante comum.
Posted by Bruno at 10:50 PM
abril 26, 2009
Isto É Que É Um Insulto
"This story sounds like it was inspired by the exchange between Glenn McGrath and Zimbabwe's Eddo Brandes. McGrath said to Brandes, 'Why are you so f***ing fat?' Brandes replied, 'Because every time I f*** your wife she gives me a biscuit"."
Posted by Bruno at 10:12 PM
abril 25, 2009
A Ver
No blog The House Next Door, encontro uma entrevista de David Simon (o autor de The Wire) à PBS.
Posted by Bruno at 10:17 PM
abril 24, 2009
A Ler
Este post do Miguel Morgado:
"Nos últimos 10 anos, o aniversário do 25 de Abril serviu como pretexto para se fazer um "balanço" dos feitos e dos fracassos da revolução. Em 2009, o aniversário do 25 de Abril servirá para algo diferente. Já não se trata de fazer "balanços", mas de perceber que a democracia portuguesa vive actualmente um período de teste como não vivia provavelmente desde 1983-1985. É verdade que hoje a capacidade de resistência do regime democrático português é fortalecida pela mão visível e invisível da "Europa". Aliás, foi sempre esse um dos objectivos primordiais da nossa adesão às comunidades europeias: estabilizar o regime político, que sem a recomendação europeia teria sempre dificuldades. Mas, apesar da "Europa", a democracia portuguesa vai ser (ou já está a ser) submetida a um teste duro. Por várias razões; entre outras, a de que ainda estamos para saber se pode haver democracia sem crescimento económico. É verdade que a experiência histórica pode fornecer algumas excepções; mas por alguma razão se chamam "excepções". Que o povo troca com facilidade a liberdade por pão é uma lição que muitos revolucionários e outros democratas ao longo dos tempos aprenderam da pior maneira."
Posted by Bruno at 06:42 PM
abril 23, 2009
Propósitos
Parece que Gordon Brown, Primeiro-Ministro britânico, disse hoje que os aumentos de impostos ontem anunciados no Reino Unido não foram introduzidos "só porque sim": "this is not taxation for its own sake; it is tax for a purpose." Se este é um imposto com um propósito, ficamos a saber que há muitos daqueles que Brown introduziu nos últimos anos (primeiro enquanto Chancellor e depois como chefe do Governo) que não o têm. Afinal, não é nada que nos deva espantar. Por cá, o que não falta são impostos despropositados.
Posted by Bruno at 10:47 PM
abril 22, 2009
No Insurgente
Escrevo um post sobre a forma como a crise tem sido tratada pelos partidos políticos:
"Os tempos estão bons é para os crisólogos. As fábricas fecham, as empresas entram em falência, os trabalhadores são despedidos. Mas quem é pago para falar da “crise” vive tempos de bonança. Nos telejornais, não há dia em que não haja uma reportagem sobre como “as pessoas normais” reagem à crise. Tal como não há dia em que a crise não seja apresentada como a causa de tudo. E tal como não há ninguém que não avance a sua “explicação” para a dita. Eu próprio exerço sem grande pudor a minha função de crisólogo de bancada (se algum jornal, orgão de comunicação social ou dona de casa quiser recorrer aos meus serviços, estou à vossa disposição).
Seguindo o espírito do tempo, o Presidente do Banco de Portugal veio há dias anunciar que prevê uma queda de 3,5% do PIB, este ano, em Portugal. Naquele papel servil de aguadeiro do Governo que tanto parece apreciar desempenhar, Vitor Constâncio disse também que Portugal não poderá recuperar crescimento económico enquanto a conjuntura externa não melhorar. O Governo, claro, agradece sempre que alguém vem dizer que o agravamento das condições de vida que os portugueses vão sentir nos próximos tempos não são culpa da sua política, mas “crise” e dos problemas dos outros (”Portugal não está isolado”, lembram-nos, como se antes não tivessem dito que o país passaria incólume pela tempestade global). Mas esquece-se que a “crise” e os problemas dos outros não explicam os problemas que afectavam o país antes da crise, nem serão responsáveis pelas dificuldades que continuaremos a enfrentar muito depois da crise deixar de incomodar os outros.
Há uns anos, enquanto a dra. Ferreira Leite, louvada seja, andava a fazer os possíveis e impossíveis para controlar o défice, Jorge Sampaio disse que “havia vida para além do défice”. Agora, quando todos falam da crise, e a crise serve de justificação para tudo, convinha que alguém viesse lembrar que havia vida antes da crise, que continuará a haver vida depois da crise, e que ela já era difícil antes da crise começar, e continuará a ser difícil depois dela passar. Não foi a crise que fez com que o Estado português consuma metade da riqueza produzida pelos cidadãos. Não foi a crise que fez com que qualquer pessoa ou família esteja seja obrigada a endividar-se para a vida inteira, porque não tem alternativa a comprar casa. Como não foi a crise que fez com que, apesar de o Estado cobrar cada vez mais impostos, estes continuem a ser insuficientes para cobrir as imensas despesas do Estado (ao mesmo tempo que estas continuam sem garantir que os serviços que financiam funcionem como deve ser). E claro, quando a crise passar, continuará ser difícil arranjar emprego em Portugal; muitos portugueses continuarão sem acesso a bons cuidados de saúde; o Estado não deixará de obrigar um número cada vez menor de pessoas a abrir mão de uma parte cada vez maior do seu rendimento, para financiar as pensões (cada vez mais pequenas), de um número cada vez maior de reformados. Quando a crise passar, e outros países começarem a ver a sua economia a crescer, por cá, a crescer, só mesmo os problemas.
Há dias, a líder do PSD veio dizer que o Governo não está a responder bem à crise. Tem razão. Mas bom seria que esse fosse o único problema. Não é. Outro bem mais grave, é o de o Governo, antes da crise, não ter resolvido os problemas que então já existiam, deixando assim que se criassem problemas ainda mais graves, que, no futuro, teremos de enfrentar em ainda menos condições de o fazer. Este sim, é o grande falhanço deste Governo, e, isto sim, é algo que é preciso que as pessoas percebam até Outubro."
Posted by Bruno at 10:54 PM
abril 21, 2009
A "Campanha"
Na sua insuportável entrevista à RTP, o Primeiro-Ministro disse que tem "tentado não falar" do "caso Freeport". Antes fosse verdade. Na realidade, Sócrates não pára de falar no dito. Ele bem se pode queixar da "campanha negra" de que é supostamente um alvo, mas na realidade, é o próprio Sócrates quem faz uma "campanha" em torno do "caso Freeport", precisamente ao falar da tal "campanha negra": Sócrates usa, sem qualquer pingo de vergonha, as suspeições de que é alvo, para se vitimizar e assim colher alguns votos no eleitorado. É o próprio Sócrates que usa o "caso Freeport" como arma de arremesso eleitoral, como se não ocupasse um cargo de particular responsabilidade no país, como se as acusações que faz não fossem um fortíssimo ataque ao sistema judicial, do qual Sócrates é ele próprio responsável.
Posted by Bruno at 11:00 PM
abril 20, 2009
Mad Men

The Wire deu-me cabo da vida. Até mesmo uma série brilhante como Mad Men (cuja primeira temporada acabei de ver ontem) me parece pouco ao lado daquela maravilha. A série, que se centra em Donald Draper (Jon Hamm), um dos publicitários da agência Sterling Cooper, na Madison Avenue do início dos anos 60, um homem de grande sucesso na sua profissão e com um casamento perfeito com Betty (January Jones), um veterano de guerra da Coreia que não gosta de falar de si, vinha sendo falada com uma das melhores dos últimos anos, e ao fim de alguma hesitação, lá acabei por vê-la.
Criada por Matthew Weiner, um dos argumentistas de The Sopranos, Mad Men assemelha-se muito às primeiras duas temporadas da série de David Chase. Concentrando as suas atenções em Draper e na sua mulher (como as primeiras temporadas de The Sopranos se centravam em Tony e Carmela), cada episódio de Mad Men não tem mais que quatro ou cinco linhas narrativas em simultâneo (o que depois de se ver The Wire, parece sempre pouco), e os personagens secudnários são mesmo secundários, como Chris Moltissanti, Paulie ou Silvio o são nas primeiras temporadas de The Sopranos. Mas as semelhanças entre uma série e outra não se ficam pelo estrutura. Até em termos temáticos se percebe que há algo que ambas partilham (o que não é de espantar. Aparentemente, Weiner escreveu o argumento para o episódio-piloto de Mad Men no final dos anos 90, e foi ao ler esse mesmo guião que David Chase o escolheu para trabalhar com ele): tal como The Sopranos não era uma série sobre a Máfia, também Mad Men não é uma série sobre agências de publicidade. Há até um "problema físico sem causas físicas", que precisa de ser tratado com psicanálise, como acontecia com Tony Soprano.
Enquanto via a série, não me custava imaginar que a crítica tenha dito que Mad Men era uma série sobre "a hipocrisia da América das pinturas de Norman Rockwell" (não li muita coisa sobre Mad Men, portanto, não faço a mínima se isto foi escrito ou não). De facto, há episódios (quase todos, e especialmente os primeiros) que terminam com planos cuja influência é obviamente a de Rockwell (e o último plano do último episódio é óbvia referência irónica a esses quadros). Mas essa seria uma leitura demasiado apressada da série. Na realidade, é uma série sobre o que vai na cabeça das pessoas retratadas nas pinturas de Norman Rockwell. É uma série sobre como era a vida das pessoas para além daquele momento (esse último plano do último episódio é, no fundo, um retrato daquelas pessoas uns meses depois).
Visualmente, Mad Men é absolutamente espectacular. Os realizadores dos vários episódios viram, todos eles, muito Scorsese quando eram pequeninos, e isso nota-se (e louva-se). Ainda por cima, a maneira como aproveita o aspecto de "série de época" para criar o "ambiente" da série é brilhante: em primeiro lugar, o fumo. As personagens estão constantemente a fumar, e o fumo é uma parte essencial de cada plano. Em segundo lugar, o guarda-roupa e os cenários, que criam um elemento de estranheza absolutamente essencial para criar no espectador a ideia de que há algo que não estamos a perceber, que há algo que se está a passar que não nos está a ser mostrado (e há, de facto, muita coisa a passar-se que nós não estamos a ver). E, em terceiro lugar, os próprios costumes: a série passa-se no início dos anos 60, ainda muito antes de Woodstock, e não há por ali grandes vestígios de "libertação das mulheres". Neste género de coisa, há sempre o risco de se gozar com os costumes da época, e no primeiro episódio, quando todas as personagens nos são apresentadas, até parece que Mad Men vai cair por aí: os constantes "sweetheart" com que os homens da Sterling Cooper se dirigem às suas secretárias, bem como os constantes piropos (que hoje lhes garantiriam uma série de acusações de assédio sexual) parecem uma forma de ridicularizar os tempos e aquelas pessoas, mas são, na realidade, e na forma bruta como nos são mostrados, uma forma de compreendermos como eles pensam e, também, como elas reagem. Sem isso, a personagem de Peggy (Elisabeth Moss), a recém-chegada secretária de Donald Draper que aspira a trabalhar como copywriter, pura e simplesmente, não teria pernas para andar. Isto para não falar, claro, da própria época: a constante referência a produtos e a anúncios da época é essencial para tornar aquelas personagens em algo que nós achemos real, e a referência a certas efemérides serve para sublinhar certos aspectos do enredo: o melhor exemplo disto está no episódio Nixon and Kennedy, em que o confronto entre o "homem vindo do nada" e o "rapaz a quem o pai comprou tudo na vida" não é só o da campanha presidencial, mas o de Draper e o brilhantemente irritante Peter Campbell (o facto de ser impossível olhar para esta personagem sem lhe querer pregar um murro na cara é um grande mérito do actor Vincent Kartheiser).
Mad Men não tem a complexidade narrativa de The Wire, os diálogos, mesmo muito bem escritos, não têm a magia de Deadwood, e, talvez pela frieza e misteriosidade das personagens, talvez por se passar nos anos 60, sentimo-nos menos identificados com as pessoas normais de Mad Men do que com os mafiosos assassinos que trabalhavam com Tony Soprano. Ao princípio. À medida que ficamos a saber mais acerca de Donald Draper, à medida que o seu conflito com Campbell se agudiza, à medida que Betty deixa de ser uma tardia adolescente a esforçar-se por ser Grace Kelly para se tornar numa pessoa a sério, à medida que cada uma das muitas personagens de Mad Men começa a ter um bocadinho de atenção, começamos a sentir que, aquelas pessoas, afinal, não são só uma figura num retrato. Elas, de facto, falam, pensam, sentem. São como nós. É aliás por isso que o melhor episódio da primeira temporada é precisamente o último. A primeira temporada de Mad Men é, muito mais do que The Sopranos, muito mais que The Wire, um longo e lento, muito lento, crescendo até ao final (a cena em que Draper está a revelar a sua campanha para um projector de slides da Kodak, pertíssimo do final do último episódio, é o momento alto da série). É como se toda a temporada fosse um episódio-piloto, concebido para nos apresentar algo que nos vai ser contado depois. Como se Mad Men só começasse a seguir, na segunda temporada. E se, mesmo antes de começar, Mad Men já é assim tão bom, imagine-se então como será a seguir. Pena é que eu talvez acabe por não disfrutar da coisa como deve ser, tudo por causa de The Wire, que estragou a minha vida para sempre, de tão boa que é.
Posted by Bruno at 05:35 PM
abril 17, 2009
"Quem Não Deve Não Teme"
No Ordem Livre, escrevo a propósito das propostas, ontem aprovadas, de revogação do sigilo bancário.
Posted by Bruno at 11:50 AM
abril 16, 2009
Antes e Depois Da Crise
O Presidente do Banco de Portugal veio ontem anunciar que prevê uma queda de 3,5% do PIB, este ano, em Portugal. Naquele papel servil de aguadeiro do Governo que tanto parece apreciar desempenhar, Vitor Constâncio disse também que Portugal não poderá recuperar crescimento económico enquanto a conjuntura externa não melhorar. O Governo, claro, agradece sempre que alguém vem dizer que o agravamento das condições de vida que os portugueses vão sentir nos próximos tempos não são culpa da sua política, mas "crise" e dos problemas dos outros ("Portugal não está isolado", lembram-nos, como se antes não tivessem dito que o país passaria incólume pela tempestade global). Mas esquece-se que a "crise" e os problemas dos outros não explicam os problemas que afectavam o país antes da crise, nem serão responsáveis pelas dificuldades que continuaremos a enfrentar muito depois da crise deixar de incomodar os outros.
Há uns anos, enquanto a dra. Ferreira Leite, louvada seja, andava a fazer os possíveis e impossíveis para controlar o défice, Jorge Sampaio disse que "havia vida para além do défice". Agora, quando todos falam da crise, e a crise serve de justificação para tudo, convinha que alguém viesse lembrar que havia vida antes da crise, que continuará a haver vida depois da crise, e que ela já era difícil antes da crise começar, e continuará a ser difícil depois dela passar. Não foi a crise que fez com que o estado português consuma metade da riqueza produzida pelos cidadãos. Não foi a crise que fez com que qualquer pessoa ou família esteja seja obrigada a endividar-se para a vida inteira, porque não tem alternativa a comprar casa. Como não foi a crise que fez com que, apesar de o Estado cobrar cada vez mais impostos, estes continuem a ser insuficientes para cobrir as imensas despesas do Estado (ao mesmo tempo que estas continuam sem garantir que os serviços que financiam funcionem como deve ser). E claro, quando a crise passar, continuará ser difícil arranjarb emprego em Portugal; muitos portugueses continuarão sem acesso a bons cuidados de saúde; o Estado não deixará de obrigar um número cada vez menor de pessoas a abrir mão de uma parte cada vez maior do seu rendimento, para financiar as pensões (cada vez mais pequenas), de um número cada vez maior de reformados. Quando a crise passar, e outros países começarem a ver a sua economia a crescer, por cá, a crescer, só mesmo os problemas.
Posted by Bruno at 11:11 PM
abril 15, 2009
Paulo Rangel no PE
O que é que levará o PSD a colocar Paulo Rangel como cabeça de lista do partido às eleições europeias? Não que o homem não tenha valor, mas precisamente por o ter: o que é que leva um partido a enviar o seu melhor parlamentar para fora do parlamento (o CDS fez o mesmo com Diogo Feio)? O que é que leva um partido a prescindir de ter na Assembleia da República uma pessoa que, no tempo em que lá esteve, mostrou ser o único capaz de dizer algo que fizesse um mínimo de sentido? Foi por esta razão que eu não acreditei nos rumores de que Rui Rio não queria que Rangel fosse o cabeça de lista do PSD às europeias por ter "ciúmes" do seu "protagonismo": se o "protagonismo" de Rangel incomodava Rui Rio, o melhor que lhe poderia acontecer seria precisamente ele acabar por ser enviado para Bruxelas, onde estará longe das atenções do português comum. Por isso, mais uma vez pergunto, o que é que leva o PSD a colocar Paulo Rangel como cabeça de lista do partido às europeias? Aproveitar a sua combatividade para, na campanha europeia, manter as atenções sobre as questões nacionais? Talvez, mas perder um deputado de qualidade (tendo em conta a escassez da espécie) é um preço demasiado alto a pagar por isso. Será que Rangel será cabeça de lista, mas regressará ao parlamento português nas legislativas? Se o fizer, será uma tremenda falta de respeito pelos eleitores, o que só o descredibilizará (e ao PSD). Será que o interesse de Rangel pelas questões europeias fez com que ele próprio quisesse ser cabeça de lista? É possível, mas há circunstâncias em que o dever se sobrepõe aos gostos (algo que Durão Barroso nunca percebeu). Ou será que alguém quis mesmo enviar Rangel para bem longe de Portugal? Honestamente, não sei, mas nenhuma das respostas que consigo conceber me parece dar razão suficiente para que o PSD abdique do seu melhor deputado na Assembleia da República.
Posted by Bruno at 03:55 PM
abril 14, 2009
Estado de Alma

A sentir-me como House, e não propriamente por causa da inteligência ou da brutalidade no trato, mas porque fui atacado por umas valentes dores na coxa.
Posted by Bruno at 10:07 PM
abril 13, 2009
Coisas Importantes
Anda por aí muita gente muito preocupada com o facto de o PSD ainda não ter apresentado os seus candidatos às eleições europeias. Curiosamente, são as pessoas que menos apreciam a dra. Ferreira Leite que demonstram essa preocupação. É uma preocupação que não deixa de ser estranha: estão preocupados com uma eleição a que ninguém liga nenhuma, para um órgão (o Parlamento Europeu) a que ninguém atribui qualquer importância; estão preocupados com quais serão os nomes de quem irá desempenhar um cargo a que ninguém liga; estão preocupados com os nomes das (poucas) pessoas que irão ocupar um cargo no qual não terão praticamente nenhuma influência; estão preocupados com quem serão os nomes das pessoas que vão fazer um trabalho ao qual ninguém dá importância. No fundo, estão preocupados por a dra. Ferreira Leite não falar acerca de um assunto que não interessa a ninguém.
De facto, parece estranho. Mas este último ponto talvez acabe com a estranheza. Pois é isso mesmo que os preocupa: que a dra. Ferreira Leite não fale de um assunto que não interessa a ninguém. Porque não querem que a dra. Ferreira Leite fale dos assuntos que interessam a toda a gente: os problemas do país, a crise, como sair dela, etc. Querem que a dra. Ferreira Leite fale da eleição de Junho, para ver se as pessoas se esquecem da eleição de Setembro. E querem que a agenda se concentre em quem são os candidatos para uns lugares que não preocupam ninguém (a não ser quem sonha vir a ter a sorte de ter "o lugar"), precisamente porque se for essa discussão, o comum dos cidadãos não vai prestar atenção nenhuma à coisa; quanto mais distraídas as pessoas estiverem, melhores hipóteses terá o PS de ter mais votos em Setembro. E a prova da dificuldade que este clima mediático cria para a dra. Ferreira Leite está em que, até pelo facto de não anunciar a lista do PSD às europeias, não se fala de outra coisa. Faça o PSD o que fizer, quer anuncie a lista, quer não anuncie, a lista, a distracção ganha sempre. Há, de facto, coisas mais importantes que as listas dos partidos portugueses para as eleiçõs europeias. Mas parece que os tempos não estão para as coisas importantes. O que não augura nada de bom, pois não nos vão faltar coisas importantes com as quais nos deveríamos preocupar.
Posted by Bruno at 07:10 PM
abril 12, 2009
Why Do They Stay?
No The American Scene (um blog onde tenho encontrado imensa coisa boa para ler), descobri um post do blog Obsidian Wings, que merece ser lido, acerca de o que é que leva uma mulher que vítima de violência doméstica (confesso que pensei em escrever "leva pancada do marido", mas recuei à última hora) ficam em casa.
Posted by Bruno at 10:02 PM
abril 11, 2009
Ao contrário do que é costume, desta vez não consegui gravar a minha participação no Descubra as Diferenças de sexta-feira, e por isso, não vou poder pô-lo aqui no blog. Quando o programa estiver disponível no podcast do Descubra as Diferenças, farei o aviso.
Posted by Bruno at 10:00 PM
abril 10, 2009
Este Já Cá Canta

Ao fim de muitos anos à procura dele.
Posted by Bruno at 10:05 PM
abril 09, 2009
Amanhã
Amanhã, pelas 18 horas, estarei mais uma vez na Rádio Europa (90.4), no Descubra as Diferenças, a debater com o Vasco Campilho sob a habitual moderação da Antonieta Lopes da Costa e do André Amaral, e com a presença especial de Francisco Fadul, antigo Primeiro-Ministro da Guiné-Bissau.
Posted by Bruno at 10:14 AM
abril 08, 2009
Um Grande Fracasso
Na Ler deste mês, numa crítica a Firmin (livro que, por acaso, a senhora minha mãe anda a ler), Carla Maia de Almeida diz que o livro não é para adolescentes "pela simples razão que aos 15, 20 ou 30 anos a possibilidade de um grande fracasso é uma noção demasiado estranha". Obviamente, ela não sabe o que é ter 15, 20 ou 30 anos.
Posted by Bruno at 12:09 PM
O Fim da Filosofia Moral?
No New York Times, David Brooks escreve um artigo acerca de como as nossas ideas morais se formam, e que implicações isso tem acerca da nossa reflexão em torno da moral. No blog The American Scene, John Schenkler faz alguns reparos ao artigo. É uma discussão que vale a pena ler.
Posted by Bruno at 11:05 AM
abril 07, 2009
O Erro de Cavaco
O Presidente da República lançou um livro, no qual juntou as suas intervenções públicas ao longo do último ano. No prefácio, Cavaco tece uma série de considerações acerca de como Portugal já enfrentava sérias dificuldades antes da crise internacional nos ter atingido, ou acerca da atitude da maioria parlamentar no que ao Estatudo dos Açores diz respeito. Estas afirmações mereceram bastante atenção da comunicação social, excepto da RTP, que preferiu sublinhar, no telejornal de ontem, o facto de Cavaco pedir aos partidos que se deixem de "querelas" e "concentrem esforços" na resolução dos problemas do país. Nem sequer vou comentar o facto de a RTP preferir ignorar o que possa ser entendido como incómodo para o Governo. O que aqui me preocupa é mesmo o teor das afirmações de Cavaco. Se tivermos em atenção que a nossa cultura política é pouco apreciadora do debate, tendo em conta que o cidadão comum não gosta daqueles que "passam a vida a dizer mal", uma crítica ao acto de criticar fragiliza a oposição. Retira a esta legitimidade para fazer precisamente aquilo que é suposto que ela faça. E isto é particularmente grave, para não dizer ingénuo, da parte de Cavaco, quando parte dessa oposição partilha com o Presidente algumas ideias acerca de quais são os problemas do país e de quais são os erros que têm sido cometidos e devem ser evitados (o endividamento, a timidez e ineficácia das reformas, etc.). Ao por a questão naqueles termos, Cavaco não fragilizou apenas a oposição, fragilizou a sua própria agenda, fragilizou a transmissão das ideias que ele acha que o país deveria ter em atenção.
Posted by Bruno at 06:47 PM
abril 06, 2009
O Peso de Ser Magro
Oiço num dos telejornais que hoje é o Dia Mundial da Actividade Física (parece que todos os dias são Dia Mundial de alguma coisa). De seguida, o jornalista mencionava a "obesidade" de grande parte da população portuguesa, e a necessidade de inverter a situação. De facto, parece haver nas nossas sociedades uma obsessão com o peso e figura, um desejo aparentemente partilhado por todos (até os gordos) de perder quilos e ser magro com uma modelo nórdica. Se eu soubesse que Deus existia, pedir-lhe-ia para os perdoar, pois eles manifestamente não sabem o que querem. Não fazem a mínima ideia de como é ser magro, de como pesa ser magro.
Já eu, sei perfeitamente o que isso é. Soube-o toda a minha vida. E acreditem, preferia não o saber: o nosso peso é inversamente proporcional ao do preconceito que temos de enfrentar. A sociedade, embora obcecada em ser como nós, na realidade, odeia-nos. Enquanto os gordos são catalogados como pessoas bem-dispostas, nós, magros, somos vistos como uns “chatos”, incapazes de desfrutar dos prazeres da vida. Somos vistos, no fundo, como gente pouco apelativa, tão pouco “sexy” como o CDS o era para o dr. Pires de Lima.
Critica-se a obesidade pelos problemas de saúde que ela traz. Mas nós magros somos constantemente associados a uma saúde frágil: para a sociedade, somos "enfezadinhos" e temos "as doenças todas". Desde crianças que somos acusados de parecermos "um pintainho", de"não comer nada" (mesmo que, como é o meu caso, comamos mais que um exército), e se por acaso não devoramos o almoço como se tivéssemos de ir apanhar o comboio, somos ainda acusados de ser "pastelões". Hoje em dia, as mais variadas "minorias" reclamam para si os mais vastos "direitos", e está na moda defender a sua adopção como um sinal de modernidade. Mas nós, magros, somos constantemente mantidos à margem da sociedade, e não há um PS, um PCP, nem sequer um Blocozinho de Esquerda, a reclamar pela nossa "igualdade". Parece que nem os caça-votos conseguimos atrair.
É verdade que, no meu caso em particular, o ostracismo social a que sou votado se deve em grande parte à minha personalidade. Consta que sou um “complicadinho”, como me chamava uma amiga minha, embora eu prefira considerar-me um indivíduo “idiossincrático” (não que não seja, efectivamente um “complicadinho”, mas porque “idiossincrático” é menos ofensivo). Mas, no entanto, não tenho duvidas que a minha extrema magreza desempenhou um papel decisivo. Ela como que roça a invisibilidade, o que explica por que razão as representantes do sexo oposto nem sequer saibam que eu existo. Elas podiam ouvir uma voz a dirigir-se a elas, mas mais depressa achariam que estavam loucas do que perceberiam que eu estava ali (diga-se de passagem que ainda bem para elas que é assim. Antes um internamento no Júlio de Matos do que cinco minutos na minha companhia).
Por isso, se posso dar um conselho a todas as pessoas que me estão a ler, é o seguinte: não cedam à pressão social. Tal como a imprensa musical inglesa transforma a piorzinha das bandas nos novos beatles, apenas para no álbum seguinte poder deitá-los abaixo com uma maior violência, também a sociedade nos pede para ser magros, apenas para depois nos sujeitar às mais desumanas provações. Ignore a conversinha sobre a saúde. Mantenha-se o mais afastado possível do exercício físico, coma de tudo, e especialmente aquilo que for "desaconselhado" pelos "maiores especialistas". Seja gordo. Pesa bem menos do que ser magro.
Posted by Bruno at 11:26 PM
abril 05, 2009
Acabar Com a Farsa? Qual Delas?
De França não costuma vir coisa boa. E do cinema francês, então, é raríssimo apanhar algo que se aproveite. Há excepções. Truffaut, por exemplo. Ou esse grande clássico da história do cinema que é La Règle Du Jeu, de Jean Renoir. O enredo gira em torno de uma festa que o senhor Robert de la Chesnaye irá dar na sua propriedade, La Coliniere, e das muitas "peripécias" da dita. Para além de brilhantemente realizado, é também uma comédia divertidíssima, apesar do tom amargo da coisa: La Règle Du Jeu é um filme sobre a decadência de um mundo que já desapareceu, mas cujos habitantes ainda não se aperceberam disso. Retrata a vida despreocupada e pouco dignficante da "aristocracia" (à falta de melhor palavra) francesa, que passa o tempo nas suas caçadas, nas suas festas, nas suas facadinhas aos respectivos casamentos, num Mundo prestes a entrar em Guerra (o filme é de 1939).

(Sarkozy, o mais baixinho, ajeita a gravata de Obama, pálido de tanto discursar)
Lembrei-me de La Régle Du Jeu ao ver as imagens da reunião do G-20 esta semana. Se alguém estivesse a pensar em fazer um remake do filme de Renoir, teria bastante com que se inspirar no sarau de Londres. Pois também aquela gente continua a viver no mundo que já não é o nosso, alheios à realidade e entregues à maior das ilusões. É verdade que não entram em caçadas (não é muito politicamente correcto), e se dão facadinhas no casamento, nós não sabemos. Mas estão tão alheios à realidade e entregues à maior das ilusões como as ridículas personagens de Renoir. Obama, Brown, Merkel e todos os outros representam o mundo que esta crise veio pôr em causa. Ou são as pessoas que conduziram as políticas que nos trouxeram esta crise, ou são pessoas que, vindas depois, as repetem, que continuam a falar um aumento do endividamento dos estados, como se fosse através da contracção de dívida que se sai de uma crise provocada por endividamento excessivo. São pessoas que continuam a falar da necessidade de maior regulação estatal, como se não tivessem sido imposições do governo federal americano a dar origem ao problema do sub-prime que fez rebentar a crise. São pessoas que, como escreveu David Brooks, querem substituir a soberba da Wall Street pela soberba de Washington, de Londres, de Berlim, de Paris. São pessoas que continuam a não hesitar em realizar grandes "cimeiras" onde fazem anúncios que não correspondem à verdade, que anunciam como novidades saídas da conferência medidas que há muito já estão em acção, tudo para poderem fingir que estão a fazer alguma coisa (ao contrário do que diz Matthew d'Ancona, isto não começou com a era Obama: Sarkozy tem feito disso a sua vida, e a uma escala mais modesta, Sócrates especializou-se no método). São pessoas que mantêm os piores vícios da década de 90 (a paixão pelo endividamento, a ilusão de que são capazes de resolver tudo a partir do Governo, a subordinação do conteúdo à imagem), num mundo que precisa do contrário (de maior poupança, de mais prudência, de mais verdade).
Numa cena do filme, Robert diz ao seu mordomo para ele "pôr fim a esta farsa". Este último pergunta: "Qual delas?". Se nós pedirmos a Obama, a Brown, a Merkel, a Sarkozy, a Barroso, e à restante pandilha do G-20, para acabarem com a farsa, eles também terão uma grande dificuldade em saber a qual delas nos estamos a referir.
Posted by Bruno at 09:55 PM
abril 04, 2009
O Grande Processador
Ultimamente, José Sócrates parece especialmente interessado em processar toda e qualquer pessoa que pise a face da Terra e, supremo pecado, não vá lá muito com a sua cara. Para além de vários jornalistas do Público (se bem me lembro, já não é a primeira vez), o Primeiro-Ministro resolveu processar João Miguel Tavares, aparentemente por causa de um artigo em que o pouco interessante colunista do DN afirma que "ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina". Vamos por partes: José Sócrates é um cidadão como os outros, e tal como João Miguel Tavares tem todo o direito de criticar José Sócrates (e até de criticar José Sócrates da forma pouco talentosa que usou), também José Sócrates tem todo o direito de sentir injuriado e de, nesse sentido, processar João Miguel Tavares. Mas, por outro lado, José Sócrates não é um cidadão como os outros: é Primeiro-Ministro, e a sua acção, até mesmo a sua pessoa, está, por natureza da função exerce, sujeita ao escrutínio das pessoas. Ao processar alguém na sequência do exercicío desse escrutínio por parte do processado, o Primeiro-Ministro está a lançar um aviso a qualquer pessoa que, no futuro, queira fazer o mesmo que João Miguel Tavares. Com um sistema de justiça tão pouco eficaz, tão lento, como o nosso, o Primeiro-Ministro, ao processar alguém que o criticou, está a dizer a todos os que no futuro queiram vir a fazer o mesmo que terão de enfrentar uma série de chatices das quais nunca mais se vão ver livres, e que portanto, talvez seja melhor pensarem duas vezes antes de o fazer. O que significa que, se José Sócrates tem todo o direito de processar João Miguel Tavares, é também necessário ter em conta os efeitos nocivos que o exercício desse seu direito tem para o estado pouco sadio da democracia portuguesa.
Posted by Bruno at 10:22 PM
Os Cinco Mais Irracionais de 2008
No blog de Daniel Finkelstein, descubro a lista das cinco pessoas ou organizações que mais promoveram a estupidez ao longo de 2008, segundo a James Randi Educational Foundation.
Posted by Bruno at 10:16 PM
Ignorância e Incerteza
No New York Times, David Brooks diz que têm sido apresentadas "duas narrativas" acerca das origens da crise, e que a decisão acerca do que será necessário fazer para sair da crise depende de qual a "narrativa" acerca da origem da crise que achamos correcta:
"There are many theories about what happened, but two general narratives seem to be gaining prominence, which we will call the greed narrative and the stupidity narrative. The two overlap, but they lead to different ways of thinking about where we go from here.
The best single encapsulation of the greed narrative is an essay called “The Quiet Coup,” by Simon Johnson in The Atlantic (available online now).
Johnson begins with a trend. Between 1973 and 1985, the U.S. financial sector accounted for about 16 percent of domestic corporate profits. In the 1990s, it ranged from 21 percent to 30 percent. This decade, it soared to 41 percent.
In other words, Wall Street got huge. As it got huge, its prestige grew. Its compensation packages grew. Its political power grew as well. Wall Street and Washington merged as a flow of investment bankers went down to the White House and the Treasury Department.
The result was a string of legislation designed to further enhance the freedom and power of finance. Regulations separating commercial and investment banking were repealed. There were major increases in the amount of leverage allowed to investment banks.
The U.S. economy got finance-heavy and finance-mad, and finally collapsed. When it did, the elites did what all elites do. They took care of their own: “Money was used to recapitalize banks, buying shares in them on terms that were grossly favorable to the banks themselves,” Johnson writes.
In short, he argues, the U.S. financial crisis is a bigger version of the crises that have afflicted emerging-market nations for decades. An oligarchy takes control of the nation. The oligarchs get carried away and build an empire on mountains of debt. The whole thing comes crashing down. Johnson’s remedy is clear. Smash the oligarchy. Nationalize the banks. Sell them off in medium-size pieces. Revise antitrust laws so they can’t get back together. Find ways to limit executive compensation. Permanently reduce the size and power of Wall Street.
The second and, to me, more persuasive theory revolves around ignorance and uncertainty. The primary problem is not the greed of a giant oligarchy. It’s that overconfident bankers didn’t know what they were doing. They thought they had these sophisticated tools to reduce risk. But when big events — like the rise of China — fundamentally altered the world economy, their tools were worse than useless.
Many writers have described elements of this intellectual hubris. Amar Bhidé has described the fallacy of diversification. Bankers thought that if they bundled slices of many assets into giant packages then they didn’t have to perform due diligence on each one. In Wired, Felix Salmon described the false lure of the Gaussian copula function, the formula that gave finance whizzes the illusion that they could accurately calculate risks. Benoit Mandelbrot and Nassim Taleb have explained why extreme events are much more likely to disrupt financial markets than most bankers understood.
To me, the most interesting factor is the way instant communications lead to unconscious conformity. You’d think that with thousands of ideas flowing at light speed around the world, you’d get a diversity of viewpoints and expectations that would balance one another out. Instead, global communications seem to have led people in the financial subculture to adopt homogenous viewpoints. They made the same one-way bets at the same time.
Jerry Z. Muller wrote an indispensable version of the stupidity narrative in an essay called “Our Epistemological Depression” in The American magazine. What’s new about this crisis, he writes, is the central role of “opacity and pseudo-objectivity.” Banks got too big to manage. Instruments got too complex to understand. Too many people were good at math but ignorant of history.
The greed narrative leads to the conclusion that government should aggressively restructure the financial sector. The stupidity narrative is suspicious of that sort of radicalism. We’d just be trading the hubris of Wall Street for the hubris of Washington. The stupidity narrative suggests we should preserve the essential market structures, but make them more transparent, straightforward and comprehensible. Instead of rushing off to nationalize the banks, we should nurture and recapitalize what’s left of functioning markets."
Posted by Bruno at 10:05 PM
abril 03, 2009
Uma Brutalidade

Passei o dia à volta de Platão, e textos de Leo Strauss sobre Platão. Uma combinação letal, que deixa qualquer um arrumado.
Posted by Bruno at 11:01 PM
A Ler
A propósito das manifestações em Londres, em torno da reunião do G-20, vale a pena ler o artigo de Daniel Finkelstein acerca das ideias dos manifestantes:
"What - exactly - is consumerism? I've been bumbling along for ages, too embarrassed to ask, but this morning, as the City protesters search the hall cupboard for their missing balaclavas and prepare to set off, I feel I need to know. It must mean something, mustn't it, since so many people seem to be against it.
I know what a consumer is, obviously. And consumption (it's what Keats died of). But consumerism? I have never heard anyone say that they believe in consumerism, only people who say that they don't. If there really is such a thing as consumerism, where are the consumerites with their placards and seaside conferences?
So when people - archbishops, G20 demonstrators, the preposterous psychologist Oliver James - attack consumerism, and as the credit crunch brings them bigger audiences and more credibility, I think they are really attacking something far more banal. I think they are dressing up their assault in fancy language - like undergraduates who get involved in college politics and start calling themselves student unionists - to make a prosaic idea sound impressive.
I think that they have looked back at 5,000 years of human history - at pestilence and famine and disease and degradation, at genocide and civil war, at fear and loathing, at bigotry and ignorance, chauvinism and dictatorship - and concluded that our biggest problem is... shopping.
Extraordinarily, the problem is not that we aren't doing enough shopping - thus leaving people poor - but that we do too much. I have struggled to get to grips with the idea - and maybe I am doing them a disservice - but I really think the notion that they are advancing, once stripped of all their posh words, is this. I go to the shop and buy a new television. The archbishops think that this impoverishes my soul, the G20 protesters think I am destroying the planet and exploiting the workers, and Oliver James thinks that I am making myself mentally ill.
The purchase of the TV makes me, I guess, an unbridled market force and these people want me to be, I don't know, bridled. Somehow. Although how, they always seem to reach the end of their opinion article without quite revealing."
Posted by Bruno at 12:07 AM