Escrito pela mão invisível de Bruno Alves. Comentários e opinião: alves.bm@netcabo.pt

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janeiro 30, 2009

Fatalismo

Frase encontrada num livro que ando a ler:

"I'm not a fatalist, but even if I were, what could I do about it?"

Posted by Bruno at 07:05 PM

janeiro 28, 2009

O Pensamento Único e a Ausência de Pensamento

Também no debate, José Sócrates acusou o PSD de, ao criticar as medidas do Governo que visam responder à crise mundial, estar não apenas em discordância com o Governo português, mas com todos os Governos, "contra o mundo". Deixemos de lado o facto de nem todos os Governos estarem a seguir uma mesma política de resposta à crise, e de haver diferenças entre o que cada um deles fez, e admitamos que, como o Primeiro-Ministro diz, todos os Governos estão a fazer exactamente o mesmo que o Governo português. Em primeiro lugar, não deixa de ser estranho que um Primeiro-Ministro que está sempre a vociferar contra o "pensamento único" do "neo-liberalismo" use um suposto consenso sobre algo como argumento para a sua validade. Por essa ordem de ideias, o tal "pensamento único" do neo-liberalismo" seria a prova de que este estaria certo, coisa que Sócrates não deve aceitar. Em segundo lugar, o próprio raciocínio de que o facto (ou a presunção) de que uma determinada ideia, pelo simples facto de ser mais ou menos consensual, está certa, é um pouco estranho. O facto de uma série de medidas serem relativamente consensuais não é uma evidência da sua necessidade e validade. O facto de uma medida ser relativamente consensual entre os vários governos quer dizer apenas isso: ela é relativamente consensual entre os vários governos. Isso não faz dela uma medida acertada. Ela possa ser acertada ou não, e a quantidade de pessoas que a recomendam, tal como as suas qualificações, são irrelevantes para a avaliação dos méritos da medida em si. O que o Primeiro-Ministro português deveria dizer, quando vai ao parlamento, não era mostrar quantas pessoas concordam com ele, mas quais as razões que o levam a propôr o que propõe, e o que é que faz com que as propostas da oposição sejam, no seu entender, piores que as suas. O contrário é apenas a evidência, não tanto do tal "pensamento único" que assombra o sono do Primeiro-Ministro, mas da total ausência de pensamento de José Sócrates, algo que deveria assombrar o sono de todos nós.

Posted by Bruno at 05:58 PM

A "Vantagem" do Cartão do Cidadão

Há pouco, no debate quinzenal com o Primeiro-Ministro na Assembleia da República, o Secretário-Geral do PCP Jerónimo de Sousa mencionou que tinha ido fazer o seu "Cartão do Cidadão". Sócrates aproveitou para elogiar o dito. Segundo o Primeiro-Ministro este trazia uma vantagem para as pessoas, pois juntava cinco cartões em um, e disse mais: o próprio Jerónimo de Sousa teria, segundo Sócrates, ido arranjar o seu "Cartão do Cidadão", porque ele era uma vantagem para si. José Sócrates deve estar um pouco equivocado sobre a natureza da sua criação. É que o "Cartão do Cidadão" não é voluntário. Eu próprio tenho o "Cartão do Cidadão" e não o arranjei por ver nele uma vantagem para mim. Arranjei-o porque a isso sou obrigado.

Posted by Bruno at 05:50 PM

janeiro 27, 2009

"This Wasn't "Market Failure", But Government Failure"

Uma das piores consequências da actual crise financeira é a ideia de que ela "prova" como o "mercado" é nefasto para as pessoas. Essa ideia decorre da noção de que, na origem da crise, esteve a desregulação dos mercados, e de que tudo teria sido evitado se os governos não estivessem "limitados" pelo "fundamentalismo do mercado" do "neo-liberalismo". No blog da Spectator, James Forsyth e Fraser Nelson escrevem dois posts que demonstram bem como esse raciocínio está errado.

Como escreve Forsyth, as políticas públicas dos próximos anos serão determinadas pela percepção que as pessoas tiverem de onde residiu a "culpa" da actual crise, e daí a importância de a compreender. Forsyth cita um artigo de Sebastian Mallaby, em que este argumentaque tudo começou com a manipulação monetária da China e o falhanço do Fed americano em responder a ela:

"Geithner [Obama’s Treasury Secretary] is correct that China manipulates its currency. What's more, this manipulation is arguably the most important cause of the financial crisis. Starting around the middle of this decade, China's cheap currency led it to run a massive trade surplus. The earnings from that surplus poured into the United States. The result was the mortgage bubble

(...)If Americans' insatiable appetite for loans explained the flood of Chinese capital into the United States, we would have seen the evidence in a rising price for those loans -- that is, higher interest rates in the bond market. But bond rates were strikingly low at mid-decade. This strongly suggests that it was the supply of lending that went up, not the demand for it. Chinese money flooded into the United States because of the push factor from China, not the pull factor from Americans."

Por sua vez, Fraser Nelson argumenta que a crise não foi o resultado de uma falha do mercado, mas sim de uma falha de governo, "the failure of government to regulate the supply of money":

"As Friedman taught the world, controlling the supply of money is the key to stability. But the error was to think that inflation was a proxy for money supply. It was true when the Tories started inflation targeting, post the ERM debacle. But gloablisaion changed that: China prices provided a deflationary shock. The BoE was told by Brown to keep a symmetrical target of 2.5% RPI (2.0% CPI) - and this was ill conceived. The type of deflation that China brought was benign. It should have been allowed to run its course, increasing our buying power a little. Instead the BoE fought this by unleashing an avalanche of dangerously underpriced debt. All this extra money lifted the prices back to the BoE range - but this also loaded the public up with masses of debts. And while consumer prices were stable, asset prices certainly were not - everything from houses to antiques to fine wines went skywards. This is classic sign of a credit bubble, of excess money supply. But blinkered Brown only cared about CPI (and if the public were feeling rich because their house prices had doubled, so much the better!) Clever excuses were dreamed up to justify this new wave of debt."

A ideia de que a forma de evitar novas crises como a actual passa por aumentar o poder do Estado e diminuir a liberdade dos mercados tem apenas um significado: dar mais poderes às instituições que foram responsáveis pela crise que queremos evitar que se repita.

Posted by Bruno at 07:25 PM

janeiro 26, 2009

A Ver

No Fora.tv, Malcolm Gladwell fala sobre o seu novo livro Outliers.

Posted by Bruno at 07:04 PM

janeiro 24, 2009

Sócrates e as "Fugas de Informação"

Tal como acontecera com o "caso" da sua "licenciatura", o que incomoda no "caso Freeport", no que a José Sócrates diz respeito, são as suas declarações a propósito do que tem acontecido. Veja-se por exemplo, aquilo que disse ontem em resposta às notícias da TVI: "a aprovação ambiental do empreendimento Freeport cumpriu todas as regras legais aplicáveis". Ao dizer isto, Sócrates parece não perceber que o problema não está (ou não está apenas) em saber se o Freeport foi construído sem poder ser construído, mas se, mesmo que pudesse, só o tenha sido porque alguém pagou a alguém para que assim fosse. E das duas uma, ou Sócrates não percebe isto (o que não abona muito a seu favor), ou percebe mas quer fingir que não (o que abona ainda menos).

Mas muito mais graves, porque despojadas de qualquer ambiguidade, foram as suas declarações acerca dos "ataques políticos" de que está supostamente a ser alvo: há dias, Sócrates "notou" como a questão do Freeport surgia "sempre em ano de eleições". Como escreveu Pacheco Pereira, isto era algo que o Primeiro-Ministro "não poderia dizer", pois não se trata "de uma notícia de um jornal, mas de uma iniciativa judicial , envolvendo a PJ, a PGR e um juiz. E presume-se que todas estas entidades não estão em "campanha eleitoral" ou a mando de qualquer interesse eleitoral. Se é isso que quiseram dizer, então ainda é mais grave." Hoje, Sócrates já veio esclarecer: não se estava a referir às diligências da investigação judicial, mas sim "às fugas para a imprensa", que visam "atingi-lo politicamente". Ora, para haver essas "fugas para a imprensa", é necessário que alguém com acesso a essas informações as faça sair; só quem esteja no seio do sistema judicial tem, antes das fugas, acesso a elas, e portanto, só alguém pertencente ao sistema judicial pode fazer as ditas "fugas". Assim, ao dizer que há fugas, o Primeiro-Ministro está, forçosamente, a dizer que estas provêm do sistema judicial, e ao dizer que elas têm como propósito "atingi-lo políticamente", Sócrates está, forçosamente, a dizer que o sistema judicial está vulnerável a quem quiser usar a sua máquina para servir os seus interesses particulares. Ora, Sócrates é responsável por isso. Não pode fazer uma acusação destas de forma gratuita, pois se o sistema judicial é tão pouco justo como ele o acusa de ser, a responsabilidade é (também) sua, que não fez anada que o tivesse corrigido. Um Primeiro-Ministro que faz declarações destas não se pode limitar a dizer que "se alguém pensa que me vence desta forma está muito enganado" e que vai "lutar para defender" a sua "honra" e a sua "honestidade": como responsável político que é, Sócrates tem que dar consequência às críticas (implícitas, mas indissociáveis daquilo que ele disse) que fez a entidades sob essa sua responsabilidade. Declarações com aquelas encerram em si uma análise do estado da Justiça em Portugal que ou levam o primeiro-Ministro a anunciar uma forma de o melhorar, ou a reconhecer a sua responsabilidade nesse estado e o seu falhanço em alterá-lo, e portanto, a anunciar a sua demissão. Aliás, numa democracia minimamente decente, declarações como aquelas, gratuitas como aquelas e sem um qualquer assumir das suas responsabilidades enquanto Primeiro-Ministro, levariam à demissão de quem as tivesse proferido.

Posted by Bruno at 10:36 PM

janeiro 23, 2009

Explicar o Óbvio (publicado no Insurgente)

O Vasco Campilho, num post em que me inclui na "ferreiraleitosfera" (uma espécie de "vast right wing conspiracy" à portuguesa), critica os apoiantes de Manuela Ferreira Leite porque "estes acusam Passos Coelho de não silenciar as suas ideias quando estas diferem das de Ferreira Leite". Não sei o que pensarão os meus colegas da "ferreiraleitosfera" (nós não combinamos estas coisas previamente), mas falo por mim: ao contrário do que o Vasco parece pensar, eu não quero que ninguém "silencie" as suas opiniões. Quando alguém critica outra pessoa, não significa que ache que o outro não deva dar a dele. Apenas acha que a opinião do outro está errada. Quando eu critico Passos Coelho, faço-o porque acho que a sua opinião é criticável, não por achar que deva ser silenciada. Mas tal como ele tem todo o direito de dar a sua opinião, eu tenho todo o direito de afirmar que esta é criticável. Tenho até todo o direito de criticar o facto de lhe ser dada uma atenção que eu acho desmedida, mas também acho que quem lhe dá essa atenção tem todo o direito de a dar (como eu tenho de os criticar por isso). Ao contrário do que o Vasco parece pensar, nem Manuela Ferreira Leite, nem ninguém, precisa que qualquer opinião, seja ela qual for, seja "silenciada". O que é preciso é que toda a gente diga o que pensa, ou no caso de Passos Coelho, o que lhe dá jeito, e se sujeite a que os outros digam o que pensam acerca do que ele disse.

Posted by Bruno at 09:08 PM

janeiro 22, 2009

No Ordem Livre

Dois textos meus: um sobre os avisos de George W. Bush contra a tentação proteccionista, e outro sobre a Presidência Obama

Posted by Bruno at 09:45 PM

janeiro 21, 2009

Visto

Arrested Development season 3
A terceira (e infelizmente, última) temporada de Arrested Development.

Posted by Bruno at 06:56 PM

janeiro 20, 2009

Matar O Monstro à Fome (publicado no Insurgente)

O meu caro colega insurgente Luís Tribuna, a propósito de umas declarações de Passos Coelho rejeitando a descida do IRS pois esta apenas significaria o aumento dos impostos no futuro, defende que esse argumento apenas mostra como o problema da carga fiscal em Portugal reside na elevada despesa pública, e só cortando nela se poderá baixar os impostos e aumentar o nível de rendimento disponível para as pessoas. Não podia concordar mais. no entanto, há um aspecto do argumento do Luís que não me parece fazer muito sentido, mas que, no entanto, é abundamente mencionado por pessoas com quem costumo concordar: a ideia de que “se calhar até era bom baixar agora o IRS para sermos obrigados a baixar a despesa pública”.

Espero não estar a interpretar mal o Luís, mas parece-me que ele está aqui a ecoar a velha de de “matar o monstro à fome”, a ideia de que, como existem fortes resistências ao corte da despesa pública, a melhor maneira de a levar a cabo é avançar com um corte das receitas, para dessa forma “obrigar” a um corte das despesas que equilibre as contas. É um raciocínio muito pouco lógico. O que se está a argumentar é que, como o Governo não quer cortar a despesa, esse mesmo Governo deveria baixar os impostos (e a receita), para se obrigar a si próprio a cortar a despesa. Ora, se o Governo não quer baixar a despesa, não vai baixar os impostos para baixar a despesa; pode baixar os impostos por outras razões, mas estará apenas a criar um défice nas contas públicas, e a aumentar o endividamento. Se quiser baixar a despesa, baixa-a, não precisa de cortar os impostos para ser “obrigado” a fazê-lo. Aliás, se há prova de que a táctica de “matar o monstro à fome” não resulta em Portugal, é a própria história da democracia portuguesa: é que, caso não tenham reparado, o monstro, por muito gordo que seja, e por muito gordo que esteja a ficar, está a morrer à fome. Há anos que as receitas estão abaixo das despesas, e o resultado não tem sido o de obrigar os Governos a cortar a despesa, antes pelo contrário, esta tem subido, tal como os impostos, que no entanto, nunca são suficientes para evitar a criação de défice. Só são suficientes para estrangular a economia e criar dificuldades aos portugueses.

Concordo com o Luís quando ele acentua a necessidade do país ter uma carga fiscal menos elevada (”a única forma sustentável de garantir a viabilidade deste nosso estado”), e acima de tudo, quando ele diz que só será possível descer os impostos se se descer, de forma sustentada, a despesa pública. Mas, por isso mesmo, penso que o discurso daqueles que defendem essa opção deve assentar na defesa da redefinição das funções do Estado, e apresentar a descida dos impostos como uma consequência (desejável, mas uma consequência) dessa redefinição: devem perceber que “there’s no such thing as low taxes”, que não há impostos baixos, apenas aqueles que são necessários para cobrir as despesas de um Estado, e só se estas forem relativamente baixas, as pessoas poderão gozar das vantagens de impostos mais baixos. Ao defender a descida do IRS, Manuela Ferreira Leite deverá ter sempre muito cuidado: deverá sempre dizer que, para que isso seja feito, será necessário que o Estado gaste menos. Deverá sempre dizer que o PSD é favor da descida do IRS, só se o Estado cortar o nível da despesa pública. Mais, Manuela Ferreira Leite não deveria defender que o actual Governo deveria baixar os impostos agora, nem sequer que, se nesta altura fosse Governo, o PSD os baixaria: deveria, isso sim, avaliar que consequências terão as opções políticas do PS, explicá-las aos portugueses, e dizer-lhes o que, em finais de 2009, depois das eleições, o PSD fará se estiver no Governo. Ninguém obriga Governos a cortar na despesa, se eles não o quiserem fazer. Defender que seriam necessários cortes da carga fiscal agora não servirá de nada, a não ser que o Governo se convença que é necessário baixar a despesa (coisa que não vai acontecer). O que é necessário é preparar o que será necessário fazer, no futuro, para que esses impostos desçam efectivamente.

Posted by Bruno at 09:49 PM

A Ler

No Ordem Livre, outra das minhas casas, o Diogo Costa faz um interessante comentário acerca da tomada de posse de Barack Obama:

"Na imprensa e nas ruas de Washington, fala-se de uma mudança da psiquê americana. “Deixaremos de ser uma nação de consumismo, de cartões de crédito, e passaremos a ser uma nação que sabe servir”, foram as palavras aproximadas de um comentarista. Além do ordinário culto a Obama, quem prega essa transformação pública se esquece de que o pacote de estímulo econômico do Obama aposta no consumismo para salvar o país. Espero que essa “mudança psíquica” não ocorra para aumentar o contraste desse tipo de esquizofrenia social."

Posted by Bruno at 07:10 PM

janeiro 19, 2009

A Propósito da Entrevista de Passos Coelho (publicado no Insurgente)

Em resposta a este meu post, o Vasco Campilho acusa-me de não fazer "análise política", mas sim um "processo de intenção", a propósito da entrevista de Passos Coelho, perguntando-me se não me ocorria que a posição de Passos Coelho representava o seu verdadeiro pensamento acerca da questão do TGV. Aparentemente, não ocorreu ao Vasco que essa hipótese me tenha ocorrido a mim, apenas não me tenha parecido plausível, por razões que não são difíceis de explicar.

Quando se candidatou à liderança do PSD, Passos Coelho apareceu com uma retórica de "ruptura", apresentando-se como "liberal" e pretendendo propôr uma série de reformas profundas no país. Depois, andou aos abraços com Menezes. Aos meus míopes olhos, estas duas atitudes não "batiam certo". A não ser que nenhuma delas representasse uma visão política de Passos Coelho acerca dos problemas do país e do PSD, e ambas representassem, isso sim, uma postura mais lata de Passos Coelho, que tentando colher apoios aqui e ali, estaria sempre pronto, como Zelig, ser o que o seu interlocutor queria que ele fosse: para os "liberais" da blogosfera, Passos Coelho ia à televisão dizendo-se liberal; para os "menezistas" receosos das "elites" de Ferreira Leite, um candidato pacificador que não queria "romper" com nada nem ninguém. O meu "processo de intenção" a Passos Coelho, longe de ser uma tentativa de "criar factos políticos a partir de ar puro, de forma a despoletar uma dinâmica de luta faccionalista que favoreça a purga" que supostamente desejo para o PSD (o que tenho dito não expressa propriamente um "desejo" de purga, apenas acho que dentro do PSD convivem duas agendas incompatíveis, e uma delas terá forçosamente de se impôr à outra, nem que seja apenas de forma provisória. Se ele quiser que eu explique outra vez exactamente o que penso, não tenho problemas em fazê-lo), decorre, ao contrário, dessa minha percepção dos tempos da eleição da liderança: é verdade que posso estar enganado, mas penso genuinamente que a declaração de Passos Coelho acerca do TGV é meramente táctica, porque isso "bate certo" com a interpretação que fiz de outras atitudes suas.

Até porque ao contrário do que o Vasco pensa, eu não coloco Passos Coelho como o "cordeiro sacrificial da purificação do PSD". Eu não acho que Passos Coelho faça parte do tal "partido autárquico" que penso ser incompatível com um PSD que faça, a nível nacional, as reformas que o país precisa. Não acho que Passos Coelho seja como Menezes. Acho que é alguém que, como Marcelo Rebelo de Sousa, diz o que for preciso para promover a sua agenda pessoal, e que, das duas uma, ou não percebe a natureza do problema do PSD (e portanto não tem condições para ser um bom líder), ou percebe e não quer saber (o que também não o recomenda especialmente).

O problema de Passos Coelho não é ser como Menezes, não é o de ser uma ameaça ao futuro do PSD, é o de não acrescentar nada, mas ao mesmo tempo, ser alvo de uma atenção desmedida, que, por não se traduzir em nada que contribua para resolver os problemas do PSD e do país, só contribui para os agravar. Passos Coelho é como Di Maria no Benfica: obviamente, não é um pé torto como Binya ou uma nódoa como Balboa, e até sabe fazer umas fintas e marcar uns golos bonitos. Mas como a comunicação social e quem só vê os dois minutos dos resumos dos jogos pensam que ele é um génio, há uma certa pressão para pô-lo a jogar. No entanto, como ele não faz mais do que uns meros fogachos, a sua entrada na equipa, embora rendendo um outro golo de vez em quando e um outro momento mais espectacular, significa, na maior parte do tempo, que o Benfica joga com um a menos (a maior parte das vezes que a bola vai parar aqueles pézinhos, acaba por ser igual a fazer um passe para o adversário). E se o Benfica até pode lucrar com a ilusão de que Di Maria é um grande jogador, vendendo-o ao Real Madrid (que tem o triste hábito de cair nestas esparrelas), o PSD só tem a perder com a injustificada atenção de que Passos Coelho é alvo. Se fosse devolvido à sua verdadeira dimensão, ele não seria qualquer problema. Passos Coelho não precisa de ser "sacrificado". Apenas seria preciso que as pessoas abrissem os olhos e percebessem bem o que tem à sua frente, para ele deixar de ser um problema.

Posted by Bruno at 07:16 PM

janeiro 18, 2009

A Entrevista de Passos Coelho Mostra Bem O Que Ele É (publicado no Insurgente)

A entrevista de Pedro Passos Coelho, à TSF e ao Diário de Notícias, merece ser lida (ou ouvida). Se bem que o ex-líder da JSD não diga nada de especialmente interessante, a entrevista mostra bem o carácter duvidoso da figurinha. Veja-se o que diz Passos Coelho quando os jornalistas lhe perguntam se “concorda com Ferreira Leite sobre o abandono do projecto do TGV”: Passos Coelho começa por dizer que “o TGV não é um projecto para abandonar porque é estratégico para Portugal”, e logo de seguida afirma que “manifestamente não temos condições, neste ano ou no próximo, de avançar com este projecto”. Passos Coelho começa por dizer uma frase que sirva para ser apresentada, nos telejornais e nas manchetes dos jornais, como uma crítica a Ferreira Leite, pois sabe que isso a desgastará e lhe criará problemas. Mas logo de seguida, aproveita para se distanciar de Sócrates, para que os defensores do Ferreira Leite no PSD não o possam acusar de (como Menezes) não hesitar defender o Primeiro-Ministro só para atacar a líder laranja. Para conduzir a sua agenda de promoção pessoal, Passos Coelho não hesita em usar estas habilidades, em dizer “sim, mas não, mas sim”, mostrando um oportunismo e falta de vergonha que podem agradar aos nossos “maquiavélicos” de pacotilha (Marcelo deve ter achado a coisa genial, e talvez só não o diga porque também não lhe dá muito jeito), mas que dão muito poucas garantias de que Passos Coelho pudesse ter a coragem necessária para fazer as reformas de que o país precisa. Quando concorreu à liderança do PSD, Passos Coelho usou o slogan “o futuro é agora”. A entrevista de hoje apenas vem confirmar a impressão, que tive nessa altura, de que caso Passos Coelho venha a ser líder do PSD, o futuro é para esquecer.

Posted by Bruno at 09:46 PM

janeiro 17, 2009

Para Memória Futura

Começou o Congresso do CDS/PP, e apesar de Paulo Portas ter avisado que não queria ouvir falar de "miudezas" (ou seja, todo e qualquer argumento dos seus críticos internos), a atenção da comunicação social tem-se centrado quase exclusivamente sobre a questão de saber se o partido de Portas se vai coligar (ou não), a nível nacional, com o PS ou o PSD, e, a nível autárquico, se em Lisboa concorrerá sozinho ou com Santana Lopes. Aparentemente, parece haver alguma receptividade, entre as hostes populares, a uma coligação com o ex-Primeiro Ministro. Caso esse cenário se confirme, convém recordar algumas palavras que Paulo Portas, há uns tempos, proferiu, orgulhando-se de "nunca se ter coligado" com o "guerreiro menino". Como na altura escrevi, isso não é bem verdade: em 2004, quando a maioria parlamentar constituída pela coligação PSD/CDS deu o seu apoio à solução governativa encabeçada por Santana Lopes, Portas teve de escolher se deveria ou não apoiar Santana, e, como se sabe, optou por fazê-lo (ou seja, coligando-se com ele). Se isto é um facto, é também um facto que, em 2007, quando fez essas declarações, parecia querer fazer da sua suposta independência em relação a Santana uma virtude que só ele possuía. E se porventura o CDS/PP vier a coligar-se com o PSD em Lisboa, vai ser engraçado assistir ao esforço de Portas para se esquecer dessas palavras, como na altura se esqueceu da ocasião em que se coligou com Santana.

Posted by Bruno at 10:29 PM

janeiro 15, 2009

Nem Mais

No Cachimbo de Magritte, escreve o Pedro Picoito:

" O Público atira hoje mais uma acha para a fogueira da candidatura de Gonçalo Amaral à Câmara de Olhão. O convite do PSD local terá a oposição de Miguel Macedo, da comissão coordenadora autárquica nacional, mas é apoiado pela distrital de Mendes Bota em nome da "renovação de rostos e [da] escolha de pessoas com notoriedade pública" . Que Amaral é um rosto novo e notável, disso ninguém duvida - só não sei se pelas melhores razões. Mendes Bota também não tem dúvidas: "a sociedade sabe muito bem porque é que ele está a ser julgado". Eu supunha que fosse pela acusação de tortura a Leonor Cipriano, mas aparentemente isso não é suficiente para impedir que alguém se candidate com as cores do PSD a uma eleição.

O problema do PSD não está em Manuela Ferreira Leite, por muito que os caciques façam circular o último mito urbano laranja. O problema está nos caciques. Ou o PSD acaba com eles, ou eles acabam com o PSD."

Como o leitor habitual certamente imagina, não podia concordar mais.

Posted by Bruno at 06:24 PM

Ordem Livre

A partir de hoje, passarei a escrever também no blog do Ordem Livre, do Brasil, um projecto da Atlas Economic Research Foundation em parceria com o Cato Institute. Vá dando uma olhadela, caro leitor, e aproveite para ler o que de muito bom por lá se vai escrevendo.

Posted by Bruno at 06:10 PM

janeiro 14, 2009

A Ver

No Fora.tv, uma entrevista de John Taylor no programa Uncommon Knowledge, da Hoover Institution, sobre a crise financeira, em que este identifica a política monetária do Fed como uma das causas da crise, e alerta para os perigos de certas "saídas" para a crise que os Governos estão a tentar implementar.

Posted by Bruno at 09:26 PM

janeiro 13, 2009

O Nariz Do Pai, Os Olhos Da Mãe, E A Dívida Do País

A notícia de que a agência Standard&Poor vai baixar a cotação da divída pública portuguesa (o que significa que esta ficará cada vez mais cara para o contribuinte português, à medida que os eventuais credores exigem maiores contrapartidas para o risco maior que correm) é mais uma prova de que este (e o endividamento privado) é o grande problema do país para os próximos anos, e precisamente aquele que o Governo mais tem agravado desde que tomou posse. Curiosamente, é também aquele que tem sido motivo dos mais insistentes avisos, quer de comentadores como Medina Carreira, quer de líderes da oposição como Manuela Ferreira Leite. No entanto, fica no ar a ideia de que o cidadão comum pouco ou nada se preocupa com a questão, e que até aplaude as medidas governamentais que, na ânsia de "reanimar" a economia portuguesa, apenas a aproximam do coma alcoólico que a bebedeira de endividamento se arrisca provocar.

No Reino Unido, o Partido Conservador de David Cameron tem feito da gigantesca expansão da divída pública, levada a cabo por Gordon Brown, o tema central da sua oposição ao Governo do Labour. E, num esforço para convencer a opinião pública da importância do tema, lançou ontem uma campanha, inteligentemente concebida para mostrar às pessoas como as suas vidas são directamente afectadas (e prejudicadas) por uma divída pública cada vez maior e mais cara, e como este não é um mero problema de "contabilistas", como notam Fraser Nelson e Peter Hoskin.

Se Manuela Ferreira Leite quiser realmente "passar a mensagem" do problema português do endividamento, se quiser que os cidadãos percebem como essa questão afecta as suas vidas (e as dos seus filhos), terá de fazer algo como o que David Cameron fez agora. Mais, poderia até melhorar, se tivesse em atenção a crítica que Hoskin faz à campanha: esta não se dirige a um grupo de pessoas que será dos mais afectados pelo problema, a geração de pessoas nos "vinte e tais" anos (como este vosso rapaz), que ainda não têm filhos (e por isso, talvez não se deixem impressionar pelo argumento de que um determinada política afecta as gerações futuras), mas que, com dificuldades em arranjar emprego, obrigados (no caso português) a endividarem-se para toda a vida para comprarem casa, e condenados a pagarem cada vez mais em impostos para alimentarem um "modelo social" de que nunca beneficiarão, poderiam ser dos principais interessados em votar num partido que fizesse algo para resolver o problema, desde que essa alternativa lhes seja oferecida, e os seus méritos devidamente ilustrados.

Posted by Bruno at 06:41 PM

janeiro 12, 2009

Estado de Alma

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Com a cabeça quase, quase a rebentar.

Posted by Bruno at 06:31 PM

janeiro 11, 2009

Quem Agradece?

Ontem, na coluna do "Sobe e desce" do Público (coluna essa que é uma imprescindível colecção de asneira diária), o jornal atribuí a setinha do "sobe" a Joaquim Couto, ilustre deputado socialista que teve a brilhante ideia de apresentar legislação visando a diminuição do teor de sal no pão. Para os senhores do Público, a "iniciativa merece ser estudada e aplaudida" (apetece perguntar se, não foi estudada, como sabem se merece ser aplaudida), pois "num país de hipertensão e com elevados índices de problemas cardíacos, os cidadãos agradecem que lentamente os vão desabituando de tanto sal na comida". Não sei se os senhores do Público falaram com "os cidadãos", e muito menos como chegaram à conclusão de que eles "agradecem que os vão desabituando de tanto sal na comida". É que aparentemente, os cidadãos continuam a comprar o pão, sinal de que não parecem estar com grande vontade de se "desabituarem", e de que gostam do pão tal qual como ele está, bem salgadinho e causador de hipertensão.

Posted by Bruno at 10:07 PM

janeiro 09, 2009

A Coligação Sócrates/PSD "Autárquico"

Tenho escrito aqui que a verdadeira natureza do conflito interno do PSD não é a de uma luta entre "bases" e "elites", nem sequer entre "populistas" e "crediveís", mas sim entre um grupo de pessoas (a que tenho chamado o "partido autárquico") cuja única preocupação é a manutenção do poder que detém nas várias autarquias dominadas pelo partido, e que para isso pouco se preocupa, e até agradece, se Sócrates se mantiver no poder, e um outro grupo de pessoas (a que tenho chamado o "partido nacional"), que, discordando entre si quanto ao rumo que o país deve tomar, partilham a ideia de que o PSD deve ser, acima de tudo, uma alternativa ao PS a nível nacional. Tenho escrito também que esse conflito é particularmente perigoso, pois se o partido autárquico dele vier a sair vencedor, o PSD será dominado por um grupo de pessoas cuja prática política é incompatível com uma agenda liberal e reformista.

Se não bastassem os já variados exemplos que comprovam a minha ideia, o Governo encarregou-se de fornecer outro: a brilhante ideia de, para "reanimar" com a devida "urgência" a economia, permitir às autarquias dispensarem a realização de concursos públicos para obras até cinco milhões de euros, o que obviamente facilitará as práticas menos transparentes na atribuição dessas mesmas obras. Ora, um Governo que crê na necessidade do Estado servir como "motor" da economia, que acha que as obras públicas são o meio ideal de nos fazer sair da recessão, é o melhor aliado de autarquias que, dependendo em grande medida do Orçamento de Estado, gostam de oferecer às populações locais pavilhões", rotundas e "obras" das mais variadas, enquanto é sobre "Lisboa", essa entidade malévola, que recai o peso retirar a essas o dinheiro através dos impostos, que as financia. Se, por exemplo, tivesse de ser a autarquia a financiar as suas próprias megalomanias, talvez estas não seduzissem tanto os eleitores locais. Para um "partido autárquico" cujos membros devem o seu poder à capacidade que têm para oferecer "lugares" nas empresas municipais, "favores" dos senhores vereadores, ou pequenas cumplicidades, sem que sobre eles pese o ónus de fazer recair sobre os seus munícipes os custos dessas políticas (é claro que o Estado central também recorre a estes “meios”, mas apesar de tudo, tem de ter mais cuidado, pois como é ele que cobra os impostos que o financiam, sabe que não pode elevar muito (mais ainda) a carga fiscal, sob pena de sofrer eleitoralmente), um Governo "activista", e centralista, como o de José Sócrates é o melhor aliado que poderia haver.

Posted by Bruno at 05:39 PM

janeiro 08, 2009

Debate Televisivo Entre Sócrates e Ferreira Leite

Leio, na minha outra casa, que Manuela Ferreira Leite terá desafiado José Sócrates para um debate televisivo, e que este (através do aguadeiro-mor Augusto Santos Silva) terá respondido negativamente, dizendo que o Governo não tem culpa que a líder do PSD não seja deputada. Ora, que eu saiba, nem o Primeiro-Ministro nem nenhum dos membros do seu Governo é deputado (ao contrário do que acontece, por exemplo, no Reino Unido), e não por isso que estes últimos deixam de participar em vários debates televisivos, muitas vezes com representantes da oposição (no caso do Prós&Contras), quando isso lhes convém para fazer propaganda.

Posted by Bruno at 10:34 PM

janeiro 07, 2009

A "Mão Invisível" e a "Visível" (publicado no Insurgente, a partir de um texto já aqui publicado)

A crer nas suas declarações ao Correio da Manhã, uma das “resoluções de Ano Novo” de Manuel Alegre foi tentar ser capaz de continuar a dizer o maior número possível de barbaridades, e devo dizer que até agora, está a ter grande sucesso: a propósito da crise actual, Manuel Alegre afirmou que “o porquê” desta “está na falência das teorias de auto-regulação dos fundamentalistas da ‘mão invisível’, que levaram ao colapso financeiro e à recessão económica”.

Por muito que se lhes explique, pessoas como Manuel Alegre não conseguem perceber como esta crise tem muito a ver com a intervenção estatal na economia, e não com o “capitalismo selvagem” que só existe nos sonhos dos que passam a vida a criticá-lo. Mas o maior erro de declarações como as de Alegre não está na interpretação errónea das origens da crise, mas na “receita” que passam para sair dela. Alegre considera que a solução para a grave crise económica internacional “implica um novo modelo de desenvolvimento económico e o primado da política, libertando-a de interesses ilegítimos que se têm sobreposto ao bem comum e ao interesse geral”. Ou seja, Alegre acha que a “mão visível” do Estado se deve sobrepôr à “invisível”. Quando ele fala em “primado da política”, ele está a dizer que a distribuição da riqueza deve ser definida por vontade política, e não pelo resultado da livre interacção das pessoas.

O erro de Alegre , e de todos os outros que têm dito o mesmo nos últimos meses, está em pensarem que tudo não passa de uma questão de avaliar qual das duas “mãos” obtem resultados mais satisfatórios, e depois escolher entre elas (Alegre escolhe a “visível”, claro, porque acha que conduz a resultados mais “justos”), quando na realidade, para o bem e para o mal, não podemos escapar à “mão invisível”, por muito que estabeleçamos o “primado da política” (ou seja, da vontade dos políticos) sobre “a economia” (ou seja, a livre interacção das pessoas): num braço-de-ferro, a “mão invisível” vencerá sempre a “mão visível”.

Deixemos de lado o facto de, na raíz desta crise, não estar propriamente “o mercado entregue a si próprio” (convém lembrar que os responsáveis políticos exigiam que os bancos emprestassem dinheiro a quem não o poderia pagar de volta), e concentremo-nos apenas na evidência de que os indivíduos (ou seja, os “agentes” do mercado), na interacção uns com os outros, fazem asneira, asneira essa que conduz a resultados “menos positivos”: a intervenção estatal nunca irá eliminar a existência de resultados negativos, nunca irá eliminar as perdas resultantes do mercado.

O “mercado” (a interacção dos indivíduos) é um “facto da vida”: não vivemos num mundo de abundância, no qual podemos ter tudo, quando quisermos, e sem ter de fazer nada por isso. Vivemos num mundo em que os recursos são escassos, e o tempo que temos para os consumir e trabalhar é também ele escasso. Se vivêssemos isolados, teríamos de abdicar de muito do que gozamos, por não termos tempo de o produzir ou desfrutar: para ver televisão, eu teria que fabricar o aparelho, escrever o guião da série, filmá-lo, interpretá-lo, e depois sentar-me a ver (precisaria ainda de fazer os cabos eléctricos, o sofá, etc.). Como não vivemos isolados, dividimos o trabalho: a Sony fabrica a minha televisão, David Simon escreve The Wire, a melhor série de televisão de sempre, Dominic West e os outros actores interpretam, outros realizam os vários episódios, e eu faço aquilo que faço melhor: sento-me no sofá a ver.

O que aconteceu aqui foi o mercado a funcionar: eu quero ver The Wire, por isso pago à Sony, a David Simon, Dominic West e o resto da malta para ter tudo aquilo que preciso para ver The Wire. Eles, que querem comer, vendem-me aquilo que eu quero. O mercado é apenas e só isto: uma série de gente à procura de algo, e a oferecer algo em troca.

Por vezes, esta interacção dá asneira. Nem David Simon, autor da melhor série de televisão de sempre, é perfeito. Ninguém é (se nem eu sou, quanto mais os outros, caro leitor). E portanto, por vezes, os “agentes” do mercado fazem escolhas erradas: por exemplo, começam a emprestar dinheiro a quem não poderá nunca vir a saldar a dívida. Um dia, as consequências dessas escolhas erradas acabam por apanhá-los (este é outro facto da vida: as consequências da asneira correm sempre mais depressa que nós), e instala-se uma crise. Os governantes, preocupados (o que é louvável), prestam-se a dizer que a culpa é do “mercado”, e que este precisa de ser “corrigido”: é preciso que a “mão invisível” trabalhe em conjunto com a “mão visível do Estado”. Mas ao contrário do que os governantes pensam, a esfera da intervenção estatal não é independente da esfera do mercado. No fundo, o Estado é apenas mais um “agente”, cujas escolhas afectam o resultado do mercado tal como as dos outros agentes. Isto quer dizer que a intervenção estatal não “corrige” o mercado, porque o Estado é apenas um entre muitos dos que nele participam, e apenas o afecta, como o afectam todos os seus agentes.

A única diferença está em que o Estado, ao contrário dos outros “agentes”, pode obrigar os outros a agirem como ele quer: por exemplo, pode proibir a oferta de determinados produtos financeiros, ou criar as regras de remuneração dos gestores que todos os bancos devem seguir. Ou pode “proteger” a produção de produtos nacionais, criando barreiras à entrada de produtos estrangeiros em determinados sectores da actividade (como a agricultura ou o calçado). Isto não vai “corrigir” o mercado, que continua a funcionar como antes: o preço desses produtos continuará a ser o resultado da relação entre a oferta desse produto e a procura de que ele é alvo, e portanto, se o Estado decreta que a sua oferta será escassa (que é o que o Estado faz quando cria barreiras à competição de produtos estrangeiros), e a procura continuar a ser a mesma, o preço vai aumentar. Os produtores ficam contentes (ganham mais dinheiro por fazerem o mesmo trabalho), mas os consumidores (que no fundo, são produtores de outros produtos), não gostarão muito da brincadeira (consomem o mesmo por mais dinheiro, e produzem o mesmo pelo mesmo dinheiro, ou seja, mais tarde ou mais cedo acabam por consumir menos por não terem mais dinheiro). Isto faz com que reclamem junto do Estado: também eles querem ver os seus produtos protegidos (ou seja, que o Estado lhes crie uma situação de escassez para que eles o possam vender mais caro). Assim, o Estado não só não “corrigiu” o mercado (ele continua funcionar da mesma maneira), como não eliminou os resultados “injustos” (aqueles que queria corrigir quando “protegeu” determinados agentes da competição): apenas transferiu a competição entre os agentes, do campo da interacção entre eles para o dos corredores do poder, onde quem reclama mais tem mais benefícios. Não eliminou o “mercado” nem a sua “desigualdade” e “injustiça”, apenas criou um “mercado” da influência política, em que o que conta não são as escolhas voluntárias dos indivíduos, mas as escolhas de alguns deles, aqueles que estão no poder: a “desigualdade” continua a existir, e a “injustiça” é ainda maior. A “mão invisível” fez-se sentir, e porque a “visível” exagerou, obriga a “invisível” a forçar o seu caminho. Ela não traz sempre resultados agradáveis, mas num braço-de-ferro, a “mão invisível” vencerá sempre a “visível”.

Todos aqueles que correm a afirmar que esta crise mostra como o “mercado” precisa do Estado deveriam ter isto em atenção. É claro que, sem Estado, o mercado não trará resultados agradáveis para muitos dos seus agentes: se não houver o Estado para salvaguardar o cumprimento da lei, eu posso ir à loja da Sony roubar a minha televisão que ninguém me vai castigar por isso. Mas se o Estado obrigar a Sony a vender as televisões a um preço mais baixo do que aquele que eu estou disposto a dar-lhes, a Sony vai produzir menos televisões. A “mão visível” quis corrigir o que faz a “mão invisível” e esta fez mais força: a intervenção estatal no mercado não altera a forma como este funciona, apenas altera a resposta dos outros agentes, que se adaptam às novas condições. Se é verdade que o “mercado”, para funcionar, precisa da “regulação” do Estado, também é verdade que essa “regulação” não pode ser excessiva: se a “regulação” for muito rígida, dificultará a inovação, o motor do densevolvimento capitalista; se fixar os salários dos gestores dos bancos, estes ou se transferem para outras actividades (deixando gente incompetente nos bancos), ou arranjam outras formas de obterem mais rendimentos, que podem conduzir a comportamentos que se traduzem em resultados mais negativos para o resto da sociedade. O Estado pode dar apoios aos que menos têm (algo que é perfeitamente legítimo e necessário), mas para isso precisa de tirar dinheiro aos que mais produziram, o que desincentiva o esforço dos que trabalham e incentiva a inacção dos que nada fazem. O “mercado” precisa do Estado, mas se a intervenção do Estado for excessiva, o “mercado” responderá com o dobro da força, e o resultado será bem mais “injusto” que aquele que se pretendeu “corrigir”. A relação entre o “mercado” e o Estado assenta num equilíbrio precário, e a definição de qual a forma e dimensão da intervenção estatal é uma tarefa que exige prudência e reflexão. Se há algo que esta crise, bem como as reacções a ela, tem mostrado, é que prudência e reflexão é algo que tem sido bem escasso. E como costuma acontecer quando há escassez de algo, o preço que se paga é elevado.

Posted by Bruno at 07:18 PM

janeiro 06, 2009

"A Longo Prazo Estamos Todos Mortos"

Leio aqui que ontem, Mário Bettencourt Resendes terá dito que não percebia qual o problema do endividamento do Estado a 75 anos, porque "no longo prazo estamos todos mortos", citando assim a famosa frase de Keynes. Talvez Bettencourt Resendes conseguisse perceber qual é o problema se tiver em conta que o "longo prazo" de Keynes é o nosso presente, que nós somos quem está vivo no "longo prazo". Talvez assim Bettencourt Resendes consiga perceber que, se bem que daqui a 75 anos estejamos todos mortos, o que fizermos hoje pode prejudicar muito a vida de quem por cá andar.

Posted by Bruno at 09:37 PM

janeiro 04, 2009

Foyle's War

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No final do primeiro episódio de Foyle's War, o inspector-chefe da polícia de Hastings, Christopher Foyle (Michael Kitchen) descobre quem matou a mulher alemã (em plena II Guerra Mundial) cujo homicídio ele estava a investigar: um operacional dos serviços de informação britânicos, que, uma vez descoberto, tenta convencer Foyle a deixá-lo à solta, pois ele é indispensável para o sucesso da guerra. Naturalmente, Foyle fica hesitante. O tom para os restantes dezoito episódios da série fica aqui logo definido.

Christopher Foyle é viúvo há bastantes anos. Quando a Guerra estalou na Europa, o seu filho Andrew (Julian Ovenden) juntou-se à RAF, para grande orgulho (e preocupação) do pai, que vê os seus insistentes pedidos para ser transferido da polícia para uma função que lhe permita "fazer mais pelo esforço de guerra" são repetidamente recusados. Assim, Foyle vê-se obrigado a continuar em Hastings, juntando-se a ele a jovem Samantha Stewart (Honeysuckle Weeks. Isto sim, é um nome), transferida do MTC para a polícia para ser a motorista de Foyle (aparentemente, ele não sabe guiar), e Paul Milner (Anthony Howell), um polícia que havia estado na frente de guerra mas fora ferido gravemente na Noruega. Em cada episódio, Foyle e os seus subordinados têm de investigar um novo caso (geralmente de homicídio), à boa velha maneira inglesa (num determinado episódio, um militar americano destacado em Hastings diz que "já sabia que a única coisa que os ingleses fazem é matarem-se uns aos outros").

Mas Foyle's War não é uma série policial britânica tradicional, e basta comparar com Poirot (que vejo sempre com agrado) para se perceber a diferença. Foyle's War decorre no período da II Guerra Mundial (o primeiro episódio passa-se em 1940, e o último episódio termina em 1945, no dia em que Churchill anuncia a rendição incondicional alemã), e não é uma mera série policial em que cada episódio é independente do anterior, limitando-se a criar e a resolver um mistério, como Poirot, antes usando o pretexto desses mistérios policiais para recrear o ambiente da "frente interna" inglesa nos anos da Guerra, e tal como se percebe no fim do primeiro episódio, é sempre, do princípio ao fim, uma série com um enredo principal contínuo, o dos problemas que a guerra na europa cria á manutenção da paz e da ordem na "frente interna". Acima de tudo, a diferença de Foyle's War para séries como Poirot reside na existência de, para além dos whodunnits criminais que Foyle tenta resolver, há uma série de enredos secundários ligados a episódios anteriores, e que funcionam como os "arcos" das personagens principais: a relação de Christopher e Andrew Foyle, a relação quase paternal de Foyle com "Sam" Stewart (há alturas em que Foyle's War até parece um filme de Clint Eastwood na forma como trata a "família adoptiva" que Foyle e "Sam" acabam por ser), a vida pessoal do veterano de guerra Paul Milner, e as vidas amorosas de Andrew e "Sam". Claro que não se comparam aos múltiplos enredos de séries americanas como The Sopranos (para não falar de The Wire, que é outra coisa, absolutamente incomparável ao que quer que seja), mas dão á série uma qualidade muito superior ao que é habitual no género.

Mas um aspecto em que Foyle's War e as melhores séries americanas são de facto comparáveis é o da qualidade da escrita. Aqui, Foyle's War está ao nível das melhores. Como seria de esperar em alguém que trabalhou em Poirot, Anthony Horowitz (autor de Foyle's War), é irrepreensível na criação de um ambiente de suspense um torno da investigação que Foyle conduz em cada episódio. Mas vai muito mais longe. Há momentos em que Foyle's War é verdadeiramente comovente, como por exemplo, quando no terceiro episódio se descobre o que é que realmente é feito numa suposta fábrica de armamento em Hastings, ou a história do imigrado judeu do penúltimo episódio, ou a despedida de um antigo aviador da unidade de queimados em que estava a ser tratado, e, muito especialmente, no segundo episódio, o relato de um pescador sobre a retirada de Dunquerque. Para além do mais, não falta uma boa dose de humor, acima de tudo evidente na relação entre Foyle e "Sam", e que tem o seu momento alto no último episódio, com a supreendente "revelação" acerca de Foyle.

Mas acima de tudo, a qualidade da escrita de Foyle's War está no retrato da vida inglesa durante a Guerra: a dificuldade de viver com o racionamento, o receio de uma invasão, o appeasament, o medo dos bombardeamentos, o deslocamento das crianças de cidades como Londres para zonas rurais como Hastings, por eemplo, tudo isso é tratado em Foyle's War. E claro, vemos como lidavam as famílias com a ida "dos seus rapazes" para a guerra (do primeiro ao último episódio, com Foyle e o filho), e, num aspecto que nem sempre é lembrado, a dificuldade do regresso a casa, evidente na mulher de Milner, e tema central do último episódio. Várias vezes ao longo da série é dito que "esta guerra faz coisas diferentes a pessoas diferentes", mas "muda toda a gente". Se há coisa que Foyle's War mostra do princípio ao fim (e que faz com que mereça ser vista), é precisamente como todas aquelas pessoas foram afectadas pela guerra.

Posted by Bruno at 05:16 PM

janeiro 03, 2009

"Cada Vez Mais Desejado"

Li há dias num jornal português (não me recordo se o Público, se o Diário de Notícias) que o euro era "cada vez mais desejado". Ora é um facto que a moeda europeia tem valorizado em relação ao dólar, mas isso, só por si, não significa que seja "mais desejada" do que era antes. Isto porque uma moeda pode valorizar-se em relação a outra, e simultaneamente valer menos. Corrija-me se estiver enganado, caro leitor, mas se há inflação (e nos últimos anos, tem havido inflação, por muito diminuta que seja), isso significa que um euro compra menos coisas hoje do que comprava antes. É verdade que um euro compra mais coisas que um dólar, mas um euro hoje compra menos coisas do que um euro há um ano atrás. Se um euro compra hoje menos coisas do que comprava há um ano atrás, isso significa que perdeu valor, ou seja, que é menos desejado (o valor das coisas é aquilo que as pessoas estão dispostas a dar por elas, o que significa que se algo perde valor, é porque é menos desejado do que era anteriormente), e que portanto, a vida dos que são forçados a usá-lo (as pessoas que vivem na "zona euro") fica mais difícil. Antes de nos regozijarmos com a fraqueza do dólar e a suposta "força" do euro, seria bom percebermos a realidade e como ela tem pouco que mereça regozijo.

Posted by Bruno at 06:22 PM

janeiro 02, 2009

No Leitor de DVD

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As duas primeiras temporadas da (muito boa) comédia Arrested Development.

Posted by Bruno at 10:25 PM

janeiro 01, 2009

O Novo "Louco" da Europa

Começou hoje a presidência checa da União Europeia. E uma "Europa" com saudades dos gémeos polacos, sobre os quais podia deitar todas as culpas de todo e qualquer falhanço, rejubila. Tal como eles, Vaclav Klaus não debita aqueles lugares comuns sobre a "união na diversidade" ou semelhantes, que fazem as alegrias de todos os que têm de fazer aquelas viagens mensagens de Bruxelas para Estraburgo. Tal como eles, será ridicularizado pela comunicação social que da "Europa" só conhece a propaganda. Nos próximos seis meses, todos irão sentir saudades da "extraordinária" presidência de Sarkozy (cuja capacidade para organizar cimeiras é inegável, pena é que dali não saia outra coisa que não o culto da sua personalidade), e todos culparão o "louco" que substituirá os gémeos Kaczkinsky como objecto da ira de daqueles cuja estranha noção da democracia não é a célebre "um homem, um voto, uma vez", mas antes "um homem, um voto, as vezes que for preciso até votarem naquilo que queremos".

Posted by Bruno at 08:48 PM