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outubro 30, 2008
A Exigência na Educação
O Conselho Nacional de Educação recomendou ontem que os alunos deixassem de poder "chumbar" o ano lectivo até ao 9º ano de escolaridade. Em alternativa, o aluno deverá ser objecto de "medidas eficazes de apoio", como "intervenções aos primeiros sinais de dificuldades e estratégias de diferenciação pedagógica". Portanto, se um aluno não sabe ler ao fim do primeiro ano de escolaridade, atira-se o rapaz para o segundo, e depois promove-se uma "estratégia de diferenciação pedagógica" (para quê passá-lo para o segundo ano se ele terá que ser alvo de uma "diferenciação"?).
Como seria de esperar, Valter Lemos, Secretário de Estado da Educação, já veio manifestar o seu acordo com a proposta. Nuno Crato, como seria de esperar, já veio criticar a recomendação. Segundo ele, a aprovação desta medida significaria que "toda a gente passa sem saber": dar-se-ia aos alunos um sinal de que não precisam de estudar para para passar de ano, degradando assim ainda mais o sistema educativo. Nuno Crato tem toda a razão quando diz isto, mas parece-me cometer um erro ao dizer que é necessária a existência de exames nacionais para dizer "aos alunos, aos pais e aos professores" qual "o estado em que está o sistema de ensino".
Concordo com Crato quando ele diz que é necessário ter um elemento de "exigência" no ensino. Mas os exames nacionais introduzem apenas uma "falsa exigência", que acaba por não dizer "aos alunos, aos pais e aos professores" qual "o estado em que está o sistema de ensino". Como o próprio Nuno Crato já várias vezes referiu, os diferentes níveis de dificuldade dos exames nacionais ao longo dos vários anos fazem com que essa avaliação seja impossível. E casos como o dos exames de matemática deste ano (aparentemente facílimos) mostram como eles podem ser manipulados com propósitos políticos. Eles acabam por não avaliar devidamente os alunos, e muito menos as notas desses exames podem reflectir a qualidade do sistema de ensino: eles apenas avaliam a capacidade dos professores para "ensinarem o teste", não para ensinarem algo de minimamente decente (qualquer pessoa que tenha passado recentemente pelo ensino secundário sabe como o 12º ano, por exemplo, é passado a "treinar" respostas a exames, de forma a que o aluno decore qual o tipo de perguntas que poderão sair e quais os "tópicos" que terá que incluir na resposta).
Perante isto, a única forma de introduzir exigência no sistema passa, por estranho que possa parecer, pela abolição dos exames nacionais, e pela entrega às universidades e às escolas de total liberdade para defeinirem os seus próprios critérios de admissão dos seus alunos, e aos alunos total liberdade para escolherem qual a escola ou universidade para onde querem ir, e fazendo depender a sobrevivência dessas escolas e universidades dessa escolha dos alunos (ou seja, fazendo depender o seu financiamento dessa mesma escolha): se as universidades puderem realizar os seus próprios testes de admissão, por exemplo, os alunos terão que ter mesmo a capacidade para responder àquilo que as universidades lhes exigem que eles respondam. Assim, terão de escolher as escolas que de facto os preparem para isso. Como estas passariam a depender de serem escolhidas pelos alunos (deixariam de receber o dinheiro da 5 Outubro, e passariam a receber o dos pais dos alunos, mesmo que este lhes tivesse sido entregue pelo estado, através de um voucher), teriam forçosamente que melhorar a qualidade do seu ensino. Assim, sim, introduzir-se-ia "exigência" no sistema de ensino, e seria possível ver qual o seu "estado": os alunos e os pais avaliariam as escolas (no momento em que escolhessem qual merece o seu dinheiro), as escolas avaliariam os alunos (ao exigirem-lhes determinados critérios de admissão, e ao longo do percurso escolar) e as escolas avaliar-se-iam umas às outras (visto que, sempre que os alunos realizassem um exame de admissão, ou o seu currículo escolar fosse alvo de análise, o que estaria realmente a ser avaliado seria a capacidade da sua escola anterior para ensinar os seus alunos). Fazer depender da 5 de Outubro a avaliação da qualidade do sistema de ensino (através da realização de exames nacionais) é entregar essa avaliação às mesmas pessoas que o degradaram.
Posted by Bruno at 12:59 PM
outubro 29, 2008
No Leitor de DVD
Posted by Bruno at 11:25 PM
outubro 28, 2008
O PS e o Presidente
Das últimas duas vezes que o Presidente Cavaco Silva rejeitou o novo Estatuto dos Açores aprovada na Assembleia da República, escrevi que as explicações que deu visavam "não só avisar os portugueses daquilo que não estava disposto a aceitar, mas também criar as condições para que, caso o PS quisesse ignorar a opinião presidencial, Cavaco tivesse toda a margem de manobra para os impedir: dissolver a Assembleia sob o pretexto de que esta pretende introduzir medidas que afectarão o "regular funcionamento das instituições". Se depois de o Presidente deixar claro, como na altura deixou, que certos aspectos destas propostas são entendidos por ele como desestabilizadores do equilíbrio da relação das instituições políticas portuguesas (do "regular funcionamento das instituições"), o PS avançasse (como avançou) com esses mesmos aspectos, o Presidente estaria disposto a impedir o PS de o fazer. Se, depois de um eventual veto presidencial, o PS der sinais de que o pretende ultrapassar, usando a sua maioria parlamentar para aprovar o documento, Cavaco terá, com o dramatismo que há meses colocou na questão, legitimidade e margem de manobra para agir no sentido de salvaguardar o "regular funcionamento das instituições", e garantir que a maioria parlamentar não o ponha em causa. Agora que Cavaco vetou de novo o documento, e aparentemente, o PS se prepara para ultrapassar esse veto, começo a pensar que as eleições antecipadas são precisamente aquilo que o PS deseja neste momento.
Se, por o Estatuto dos Açores pôr em em perigo o "regular funcionamento das instituições", Cavaco acabar por dissolver a Assembleia e convocar eleições antecipadas, elas decorrerão num período que será muito mais favorável ao PS do que Novembro de 2009. Enquanto se, realizadas daqui a alguns meses, as eleições decorrerão em plena crise, numa conjuntura em que o governo pode mostrar "acção" e fingir "ter tudo sob controlo", usando o natural receio das pessoas para lhes servir a sua propaganda, em Novembro de 2009, as eleições realizar-se-ão numa conjuntura em que a crise já terá passado, mas as suas consequências estarão bem presentes. Aí, as pessoas não verão um Governo em acção, mas sentirão a falta de dinheiro e as dificuldades em chegar ao fim do mês. Em Novembro de 2009, as pessoas estarão bem mais dispostas a votar noutro partido que não o PS, do que estarão daqui a uns meses.
Para além do mais, uma eventual dissolução da Assembleia daria ao PS a possibilidade de culpar o Presidente pela instabilidade em que o país teria caído, numa altura em que mais precisava de "liderança": o PS certamente argumentaria que o Presidente dissolvera a Assembleia por "razões menores" que "nada dizem aos portugueses", e logo quando estes estavam preocupados com a "mais grave crise desde 1929", num "sinal" de uma "irresponsabilidade inqualificável".
O problema, para Cavaco, é que com todo o dramatismo que colocou nesta questão, não se pode dar ao luxo de deixar o PS aprovar o documento sem alterações. Se conseguir convencer o PS a alterá-lo (e agora que já passaram as eleições regionais, talvez o consiga), nada de mais acontecerá. Mas se não o conseguir, terá de agir em conformidade com as palavras que disse no Verão passado. Caso contrário, perderá credibilidade, pois deixará que se crie o precedente que ainda há pouco tempo disse ser inaceitável que se criasse. O Presidente fez o seu "bluff" procurando dissuadir o PS ao ameaçar disfarçadamente a dissolução da Assembleia, mas se essa dissolução for precisamente o que Sócrates quer, o tiro sair-lhe-á pela culatra.
Posted by Bruno at 11:12 PM
outubro 27, 2008
O Problema de Ferreira Leite (publicado no Insurgente
No Público da passada sexta-feira, Vasco Pulido Valente afirma que a estratégia de Manuela Ferreira Leite é “um equívoco”, pois “a reserva ajuda quem está no poder, como Cavaco e Sócrates”, e “não cria poder”, que é ”precisamente” o que falta a Ferreira Leite. Vasco Pulido Valente até poderá ter razão, e a estratégia de Ferreira Leite não ser a mais indicada para conquistar o poder a José Sócrates. Mas o problema está em que uma estratégia que se aproxime mais do comportamento que normalmente se associa a uma oposição, embora eventualmente mais indicado para conquistar o poder, poderia criar dificuldades a partir do momento em que ela tivesse que o exercer.
Aquilo que tem caracterizado o suposto “silêncio” de Ferreira Leite não é o facto de ela não falar (pois ela fala), mas o facto de ela falar quando quer e como quer, não quando ou como os media querem. Sem os media, os políticos não “existem”. Mas por precisarem dos media, só existem na medida em que se conformam ao seu “ambiente”, um “ambiente” que privilegia o soundbyte curto, o “directo” das 20 horas e a “novidade” permanente, não o debate complexo nem a reflexão necessária à elaboração de propostas que surjam aos eleitores como credíveis. Para poderem “existir”, os políticos são obrigados a comportar-se de um forma que apenas os prejudica junto dos eleitores, precisamente aqueles a quem se pretendem dirigir com a sua “existência” mediática: têm de se limitar aos lugares comuns e argumentos vazios que irritam o cidadão comum, e às medidas espalhafatosas mas mal preparadas que apenas têm consequências negativas na vida das pessoas. Para conquistarem os eleitores, os políticos precisam de “existir” nos media, mas para isso são forçados a agir de uma forma que os impede de concretizar esse objectivo. Não é de espantar que os portugueses desconfiem dos políticos e os governos não terminem os seus mandatos: as promessas que fazem não podem ser cumpridas uma vez no Governo, e o descontentamento torna-se inevitável. O comportamento que os fez chegar ao poder é o mesmo comportamento que, mais tarde ou mais cedo, os vai fazer perdê-lo.
Como sair deste ciclo vicioso? Por paradoxal que possa parecer, ele próprio oferece a saída: um político que não se submeta ao “ambiente” mediático, que não esteja permanentemente a apresentar “novidades”, sofrerá com isso, pois terá pouca exposição, e sem ela, não poderá convencer os eleitores a votarem nele. Mas esse político não só poderá conquistar a simpatia popular por ser o contrário do que associamos a “um político”, como, por fugir ao padrão mediático, acabará por ser ele próprio uma novidade: ele “existirá” nos media por não fazer o que os media exigem. Se é certo que um político precisa da comunicação social para ter sucesso, a verdade é que só pode ter esse sucesso se conquistar a comunicação social sem seguir as suas regras, por não seguir as suas regras.
O “silêncio”, ou como Pulido Valente lhe chama com maior rigor, a “reserva”, de Ferreira Leite, pode não lhe trazer a vitória eleitoral em 2009. Mas se for uma tentativa no sentido de conquistar a comunicação social sem seguir as suas regras, por não seguir as suas regras, só merece os nossos elogios, pois só assim a democracia portuguesa poderá escapar à progressiva degradação que a tem afligido.
Posted by Bruno at 08:28 PM
outubro 25, 2008
A Ler
A entrevista de Niall Ferguson ao Guardian, a propósito do seu novo livro, The Ascent of Money.
Posted by Bruno at 09:48 PM
outubro 24, 2008
Ferreira Leite e a Divisão do PSD
Toda a confusão em torno da eventual escolha de Santana Lopes para candidato do PSD à Câmara de Lisboa tem levado muito boa gente a dizer que Ferreira Leite terá de escolher entre apoiar Santana e perder credibilidade, e rejeitar a sua candidatura e dividir o partido. Como já aqui disse, não duvido que um aval de Ferreira Leite a Santana Lopes terá como efeito a destruição de todas as suas pretensões para 2009, e todo um esforço de credibilização do PSD que começou com Marques Mendes e se esperava que ela continuasse. Já não concordo, no entanto, que a rejeição de Santana Lopes vá "causar" a divisão do partido. Pela simples razão de que o partido já estava dividido muito antes. A confusão em torno de Santana é, ela própria um sinal dessa mesma divisão. E a questão não está em saber se Ferreira Leite vai "unir" ou "dividir" o partido, mas saber quem, dentro do partido, sairá vencedor desse conflito, se aqueles que percebem que o PSD precisa de fazer um grande esforço para se tornar de novo credível aos olhos do eleitorado nacional, ou aqueles que estão muito contentes com o rumo que as coisas tem levado.
Posted by Bruno at 10:15 PM
Uma Pequena Pergunta
Porque é que aquele rapaz de Gaia, Marco António de seu nome, ainda é o representante do PSD no programa de debate político da RTP, Corredor do Poder?
Posted by Bruno at 12:15 AM
outubro 22, 2008
A Ver
No Fora.tv, Philip Bobbitt fala sobre o seu livro Terror and Consent.
Posted by Bruno at 11:22 PM
outubro 21, 2008
Sarkozy e o "Governo Económico Europeu"
Nicolas Sarkozy, Presidente francês e até Dezembro o presidente em exercício da União Europeia, veio dizer que "não é possível que a Zona Euro continue sem um governo económico económico claramente identificado", que "trabalhe lado a lado com o Banco Central Europeu". Se há perigo que a crise financeira nos trouxe é o de criar margem de manobra para estes delírios voluntaristas, que querendo arranjar "soluções", criam problemas bem mais graves que aqueles que se pretendem resolver. Sarkozy, quando diz pretender a criação de um "governo económico europeu", "lado a lado com o BCE", está a defender uma de duas coisas, ou pior, uma combinação das duas em simultâneo: uma entidade "política" que impeça o BCE de controlar a inflação na Zona Euro, e possibilite aos governos manipular a política monetária, e/ou a transferência de um maior número de áreas de decisão para o âmbito da "Europa", ou seja, um maior número de políticas não sujeitas à aprovação por unanimidade dos países da UE.
A primeira hipótese, que Sarkozy há muito vem reclamando, seria o primeiro passo para acabar com o Euro e desintegrar a UE. Sujeitar a política monetária a outros critérios que não o controlo da inflação, embora a curto prazo permitisse a políticos irresponsáveis como o "moço fofo" da "direita" blogosférica iludirem os eleitores com a injecção maciça de dinheiro nas economias, teria, a longo prazo, um efeito devastador na qualidade de vida das populações europeias, a braços com uma escalada dos preços, para além de fomentar uma maior instabilidade política, à boleia da maior desigualdade que criaria (um dos problemas da inflação é que ao mesmo tempo que há pessoas que beneficiam com o "novo" dinheiro que é injectado, há outras (as que não o recebem) que ficam prejudicadas com a sua desvalorização). Países como a Alemanha terão certamente muito pouco interesse em manter um Euro em constante desvalorização, pagando com a degradação da sua qualidade de vida os desvarios dos Sarkozys vão aparecer por aí.
A segunda hipótese não é menos desastrosa: a entrega de cada vez mais poderes a "Bruxelas", em mais uma daquelas fugas para a frente que tem caracterizado a política europeia nos últimos anos, afastaria ainda mais a decisão política do controlo dos cidadãos. Numa altura de crise, em que as circunstâncias são tudo menos prósperas, essa perda de poderes nacionais será responsabilizada (mesmo que erradamente) pela degradação das condições de vida das pessoas, que reclamarão contra a "Europa" que lhes "impõe" tudo aquilo que eles não gostam. A pressão anti-europeia aumentará em vários países, partidos nacionalistas tomarão o poder, e aí assim, a "Europa", que fingiu entrar em "crise" com a rejeição do "Tratado de Lisboa", irá enfrentar uma verdadeira crise, com países a ameaçarem sair e sabe Deus mais o quê.
Sarkozy tem andado muito de avião, fingido estar a lidar com a crise. Se há coisa que ele sabe fazer, é organizar cimeiras (como se viu na Geórgia, obter com elas outros resultados que não os elogios que recebe no dia seguinte é que é mais complicado). O problema está em que quando abre a boca, ou entra mosca ou sai asneira. E pior do que isso, há quem o oiça e ache que ele está cheio de razão. Seria bom que esta particular recomendação não fosse seguida nos próximos anos. As "crises" a que ela dará origem serão bem piores que a actual.
Posted by Bruno at 05:06 PM
outubro 20, 2008
O "Efeito Bradley"
À medida que se aproxima o dia das eleições americanas, e as sondagens vão dando Barack Obama como o claro favorito à vitória, tem sido muito falado o "efeito Bradley", a ideia de que eleitores brancos mentem e dizem que vão votar no candidato preto e depois não fazem. Este fenómeno tem como base a derrota de Tom Bradley nas eleições californianas de 1982, quando as sondagens o davam como favorito. No entanto, um antigo colaborador da campanha de Bradley afirma que esse "efeito" pura e simplesmente não existiu:
"The "Bradley effect" -- the notion that white voters lie to pollsters when a black candidate is in the race -- has become widely known. But what you think you know from the campaign that gave rise to the phrase, then Los Angeles Mayor Tom Bradley's ultimately near-miss race for governor of California in 1982, isn't so.
I was in the middle of that, doing opposition research for Bradley's campaign. I vividly recall election day that November, as reports from the exit polling done by California's leading polling organization, the Field Poll, circulated. It seemed that Bradley, the first black mayor of Los Angeles, was headed for a big win as California's first black governor. A girlfriend advised me -- in my kid, pre-Armani days -- to get a better tie to go along with my blue blazer and slacks to better impress the high command at the victory party that night in downtown LA's Biltmore Hotel.
When eight o'clock rolled around, with my spiffy new tie firmly in place, the formal projection of the Field Poll based on its exit polling came onto TV screens across California: Tom Bradley over Republican Attorney General George Deukmejian, by a whopping 10 points!
But it quickly became apparent that something was wrong. The raw vote coming in didn't reflect this projected Bradley landslide. As the night dragged on, it seemed shockingly apparent that Bradley could end up losing.
Which Bradley ultimately did, losing by one point, with Deukmejian the victor, 49% to 48%. How could Field's exit poll have been so wrong? It must have been racism, right?
Well, only if California voters also thought that two-term Governor Jerry Brown was black, too.
The Field Poll made two big projections based on its exit polling that fateful November night. Bradley as the next governor of California. And Brown as the next U.S. senator.
But Brown lost, too. And pretty much everyone knew he was white. Brown's race actually wasn't as close as Bradley's, with then San Diego Mayor Pete Wilson defeating Brown, 51% to 45%.
(...)So what went wrong for Tom Bradley?
First, there was a hotly controversial initiative on the ballot, Proposition 15, which would have banned new handgun sales in California. Anyone who didn't have his or her pistol or revolver by April 1983 was out of luck when it came to handgun ownership. This proved to be wildly unpopular, and went down to a massive defeat, 63% to 37%. Deukmejian, helped by a huge campaign by the National Rifle Association, targeted rural and suburban voters heavily on this issue.
Second, the Deukmejian campaign was much more aggressive than the Bradley campaign. Bradley, a stately mayor of Los Angeles, ran a stately campaign. He was the front-runner and he acted like he was the winner.
Some damaging information was uncovered on Deukmejian. But Bradley refused to use most of it, insisting on a high-minded campaign. Mindful of his perceived need not to appear too aggressive as a black man, Bradley employed a kid gloves approach with Deukmejian in debate.
And on the campaign trail, well, on the campaign trail Bradley spent the final weekend of the election traveling around California thanking people for supporting him.
Meanwhile, the attack ads and mailers by Deukmejian and the NRA whirred away all the while.
That doesn't sound like Barack Obama's campaign, does it?
Bradley actually did win in the vote cast in polling places around the state on election day, though not by 10 points. But he lost badly in the absentee ballots, which Republicans targeted heavily.
Were there voters who simply would not vote for a black man, even a former police lieutenant and successful mayor of one of the nation's largest cities, in that 1982 California election? Undoubtedly. But it's clear that the problem lay not with significant numbers of voters lying to pollsters, but with the nature of the campaign itself. Whatever anti-black vote existed, Deukmejian already had it. The event that gave rise to the famous "Bradley effect" was created by faulty polling."
Posted by Bruno at 06:18 PM
outubro 19, 2008
O Exemplo Sueco
Na The Economist, a coluna Bagehot nota como o famoso "plano Brown" de resposta à crise financeira mais não é que uma "cópia" do que a Suécia fez em 1992, quando o país foi afectado por uma crise no seu sistema financeiro. Este pormenor havia já sido notado por Johan Norberg, e tem sido abundamentemente mencionado. Menos atenção tem sido prestada, no entanto, ao que aconteceu na Suécia depois da crise e do plano, quando isse é talvez o que de mais relevante ocorreu, e cuja lição mais deveríamos seguir.
Como explica o New York Times, "Sweden did not just bail out its financial institutions by having the government take over the bad debts. It extracted pounds of flesh from bank shareholders before writing checks. Banks had to write down losses and issue warrants to the government(...) Sweden spent 4 percent of its gross domestic product, or 65 billion kronor, the equivalent of $11.7 billion at the time, or $18.3 billion in today’s dollars, to rescue ailing banks. That is slightly less, proportionate to the national economy, than the $700 billion, or roughly 5 percent of gross domestic product, that the Bush administration estimates its own move will cost in the United States."
Como em tempos escreveu o Luciano Amaral, esses anos foram palco da "mais brusca quebra do rendimento per capita na Europa desde os anos 30, se exceptuarmos os antigos países socialistas", "obrigando" a Suécia a "deixar de ser" a "social-democracia não-reformada" dos sonhos dos socialistas portugueses. Segundo Mauricio Rojas, "public spending skyrocketed and hit a record high of 72.8 % of GDP in 1993, while the tax burden, which was shouldered by the active population, could not be increased any further due to the already extreme levels it had reached before the crisis. The public deficit consequently exploded and was at 12.3% of GDP in 1993, triggering a growing need for public debt as well as a loss of confidence in the Swedish economy, evident in vigorous speculation against the Swedish krona. The fixed exchange rate policy was abandoned in 1992, days after the National Bank of Sweden desperately increased the interest rates to 500 %". Privatizaçõessistemáticas, quebras substanciais da despesa pública e dos impostos, e equilíbrio orçamental, tornaram-se inevitáveis.
Mais, a Suécia pôs em prática uma profunda reforma do seu "modelo social". Os seus esquemas de protecção social, por exemplo, geralmente tidos como generosos, funcionam precisamente por serem tudo menos isso: os valores oferecidos podem ser altos, mas as condições para a sua obtenção não são propriamente brandas. Por exemplo, exigem que os que dele beneficiem encontrem emprego "rapidamente", e que estejam dispostos a empregarem-se numa actividade diferente da que ocupavam anteriormente, mesmo que venham a ganhar menos. Isto reduz o tempo em que eles podem ficar desempregados, e portanto, o volume de despesa pública nessa protecção.
Serviços sociais como a Saúde, por exemplo, foram sendo progressivamente privatizados, desde que a "transição de Estocolmo" foi iniciada pelas autoridades locais: o modelo de financiamento dos hospitais foi, numa primeira fase, alterado (tornando-o dependente da productividade de cada hospital), e mais tarde, alguns deles foram mesmo vendidos a empresas privadas. Os resultados foram imediatos: a productividade aumentou, e as listas de espera baixaram. Ao mesmo tempo, os ordenados dos funcionários dos hospitais privatizados aumentaram, enquanto a despesa pública desceu.
O sistema de pensões, por sua vez, passou a prever que cada indivíduo fosse detentor de um fundo de pensão (em vez do velho sistema de "pay as you go"), cujo fornecedor poderá escolher livremente. Serviços como os transportes, telecomunicações ou energia foram também privatizados, introduzido competição que trouxe melhores serviços para as pessoas ao mesmo tempo que os cofres do Estado foram aliviados.
Na educação, a política da "escola livre" foi extraordinariamente bem sucedida. O Governo comprometeu-se a financiar qualquer nova escola que um grupo de pais ou professores quisesse estabelecer, e esta ficaria livre da direcção das autoridades locais. E estas novas escolas acabaram mesmo por aparecer, ameaçando retirar alunos às escolas estatais que, perante nova competição de qualidade, tiveram de melhorar para sobreviver. O mesmo princípio foi aplicado aos cuidados prestados aos idosos ou às crianças, com a introdução de escolha no sistema, através de um "voucher" de dinheiro público, dando escolha às pessoas e obrigando os prestadores desses cuidados a competir pelo seu favor.
Estas reformas poderão não ir tão longe como seria aconselhável: a despesa pública sueca continua a ser elevada, e como tal, a carga fiscal também o é, o que coloca barreiras à melhoria da prestação dos cuidados de saúde, por exemplo (se estes continuam a depender muito do dinheiro público, e a obtenção de novas receitas é difícil tendo em conta o carácter já elevado da carga fiscal actual, será complicado acompanhar a subida dos custos desses mesmos cuidados), mas são um bom exemplo de como esta crise, longe de indicar o fim do "neo-liberalismo", veio apenas acelerar a insustentabilidade do "modelo social europeu".
Tal como uma Suécia com um "modelo social" já pouco sustentável optou, em 1992, por empregar dinheiros públicos na salvação dos seus bancos, Estados já muito endividados optaram agora por endividarem-se ainda mais para "salvar" o sistema financeiro internacional. Esta dívida ou é paga com subidas de impostos intoleráveis para populações que já entregam metade do seu rendimento ao Estado, ou com dinheiro que "cresça nas árvores" (mas que irá valer cada vez menos), ou seja, ou perderemos qualidade de vida por sermos sobrecarregados com impostos ainda mais elevados, ou por termos de lidar com a inflação a que uma expansão monetária nos condenaria. A alternativa a estes dois tristes cenários é apenas uma: enfrentar a realidade da insustentabilidade do nosso querido "modelo social europeu", eliminando os sorvedores de dinheiros públicos que põem em causa o nosso futuro.
A "inteligência" pátria, sempre pronta a seguir o que lê "em estrangeiro", não se cansou de elogiar Brown por seguir o "exemplo" sueco de 1992. Infelizmente, presta pouca atenção ao resto desse "exemplo": as reformas do Estado social a que a Suécia foi obrigada depois da crise. Se seguirmos o "exemplo" apenas pela metade, iremos acabar por ter de lidar com o empobrecimento generalizado das populações. Se, no entanto, prestarmos atenção ao que a Suécia fez, não apenas em 1992, mas ao longo de todos os anos 90, talvez tenhamos uma oportunidade de escapar a esse fim.
Posted by Bruno at 09:37 PM
outubro 18, 2008
O PSD e a Internet
Manuela Ferreira Leite anunciou que o PSD iria, na renovada página do partido, realizar "um «escrutínio quotidiano às políticas governamentais, às estatísticas falseadas, às promessas por cumprir», bem como para divulgar as posições da sua direcção", ou seja, como escreveu o Adolfo, fazer o que os blogs já fazem. Em si, não vejo aqui mal nenhum. Aliás, já no tempo da liderança de Marques Mendes escrevi que o PSD, ou pelo menos o líder, deveria ter um blog, no qual não só criticaria o Governo e divulgaria as suas posições, como deveria também interagir com os blogs em geral, como forma de ultrapassar as limitações que o ambiente mediático coloca aos agentes políticos. E de facto, se a ideia de Ferreira Leite peca por alguma coisa, é por continuar a ignorar um meio que poderia ser usado pelo PSD para, pelo menos, tentar fazer passar a sua agenda.
Posted by Bruno at 09:46 PM
outubro 16, 2008
A Ler
Alguns textos sobre a crise: um do André Amaral; um do João Miranda; e um do Luciano Amaral.
Posted by Bruno at 11:54 PM
outubro 15, 2008
A "Saúde" Das Contas Públicas
Na sua conferência de imprensa de ontem, o Ministro das Finanças afirmou que Portugal só pode responder à crise com uma proposta de Orçamento com estas características "porque" o Governo conseguiu umas "contas públicas saudáveis". De toda a propaganda governamental dos últimos anos, esta é das que menos ligação à realidade. Umas contas públicas deficitárias, como ainda são as do estado português, não são "saudáveis". Apenas estão um pouco menos "doentes" do que eram há uns anos. E pior do que isso, não correspondem a um verdadeiro tratamento da "doença" que as afligia: o vírus (a elevada despesa pública que consome os recursos criados pelos contribuintes) continua alojado no corpo, e inclusivamente, a ficar maior (a despesa pública tem aumentado a cada Orçamento), enquanto que se vai fingindo aplicar um tratamento quando, na realidade, apenas se está a fragilizar o doente (a descida do défice resulta do aumento dos impostos nos últimos anos). Pior ainda, o que ontem se anunciou foi um aumento do défice, com descidas dos impostos e aumento das despesas, ou seja, um aumento dos impostos daqui a uns anos. As contas públicas não só não estão "saudáveis", como, sob o pretexto de que estão, o Governo diz poder fazer aquilo que, na realidade, apenas irá garantir que a "saúde" das ditas se agrave ainda mais, prejudicando os contribuintes e empenhando o seu futuro.
Posted by Bruno at 04:29 PM
outubro 14, 2008
Uma Avaria Caída do Céu
A "avaria no sistema" que atrasou a conferência de imprensa do Ministro das Finanças sobre o Orçamento de Estado de 2009, e que atrasou também a entrega do documento aos jornalistas (que, às 21h30, ouviram do ministro que "ainda vão ter de esperar mais um pouco" pelo dito), pode ter sido realmente um acidente (embora não me espantasse que não passasse de um truque), mas foi uma prenda que caiu do céu no colo do Governo. Com um bocadinho de "sorte", a coisa vai demorar tanto tempo a chegar aos jornalistas que amanhã será mais um dia em que, nos jornais, a única informação acerca do Orçamento será aquela que veio da boca do Governo, ou seja, será a propaganda do Governo. E assim, quando as contas começarem a ser feitas, e quando se vir quem vai pagar as benesses que têm vindo a ser anunciadas, já ninguém vai ouvir. O que vai ficar será a propaganda que voou solta por estes dias, sem que ninguém tivesse sequer a possibilidade de a escrutinar.
Posted by Bruno at 08:55 PM
outubro 13, 2008
Adeus, Bernstein (publicado no Insurgente)
No filme Adeus, Lenine, a mãe de um jovem alemão de Leste entra em coma após um ataque cardíaco, pouco antes do Muro de Berlim cair e a Alemanha se reunificar. Visto que qualquer choque poderia agravar a saúde da mãe, uma convicta socialista, o filho vai alimentar-lhe a ilusão de que tudo está como era, que a Alemanha de Leste e o comunismo prosperam, e o capitalismo caminha para o seu fim: no quarto onde ela convalesce, 1989 ainda não aconteceu.
O primeiro-ministro José Sócrates não precisa de dizer “adeus” a Lenine (segundo consta, “ele é mais” Bernstein). Mas também ele parece viver fechado num quarto onde as notícias do mundo exterior chegam deturpadas (o quarto só tem a RTP), mantendo a ilusão de que tudo corre bem em Portugal e a Sócrates se deve essa sorte. No quarto de Sócrates, uma governação “firme” fez “reformas corajosas” que resolveram os problemas do país e o tornaram “melhor preparado” para enfrentar a crise que assusta o resto do mundo, e se porventura alguma delas teve um resultado “menos bom” a culpa é da tal crise que essas mesmas reformas supostamente afastariam do nosso país. No quarto de Sócrates, as diárias acções de propaganda reflectem, não os desejos do Governo, mas a realidade de um país “de futuro”, no qual as críticas da oposição mais não são do que distantes ecos de “Velhos do Restelo” que, por não terem ambição, se opõem a toda e qualquer medida que desenvolva o país.
Cá fora, no entanto, a realidade é bem diferente, e nem a RTP consegue esconder a verdade: as “reformas corajosas” não passaram de remendos que empobreceram os portugueses sem lhes dar maiores garantias a longo prazo (como na Segurança Social, cuja insustentabilidade se mantém); a crise é bem real e afecta-nos tanto ou mais que aos outros países, precisamente porque, pobres e dependentes do exterior, não estamos “melhor preparados” para a enfrentar; a propaganda governamental, por sua vez, reflecte apenas o desprezo pelas dificuldades reais dos portugueses, que vêem o desemprego a aumentar e o governo a jurar a pés juntos que isso não acontece, que vêem uma porção cada vez maior do seu rendimento a ser sugada pelos impostos enquanto a despesa pública continua a crescer na exacta medida em que o Governo se esforça por nos fazer acreditar que não é assim.
Adeus, Lenine termina com a mãe a descobrir a verdade, sem que nada lhe aconteça por causa disso. Sócrates, seja em 2009, seja em 2013 (ou antes), acabará por sair do seu quarto em São Bento. O choque, no entanto, não o afectará a ele. Serão os portugueses quem terá de pagar a grande ilusão “socrática”, quem terá de enfrentar novos sacrifícios por, mais uma vez, não se terem feito as reformas necessárias para os dispensar no futuro.
Posted by Bruno at 10:38 PM
outubro 11, 2008
Descubra as Diferenças
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Caro leitor, teve o juízo de não me ouvir no Descubra as Diferenças da passada sexta-feira? Enquanto a nova página dos podcasts do programa ainda não o disponibiliza, tem aqui uma nova oportunidade de pôr em perigo a sua sanidade mental, ouvindo as minhas barbaridades por entre os comentários sensatos do André Amaral.
Posted by Bruno at 09:29 PM
outubro 10, 2008
Visto
A última de temporada de The Wire. Como de costume, absolutamente genial.
Posted by Bruno at 10:46 PM
outubro 09, 2008
Radio Days
Amanhã, às 18 horas, o caro leitor que sintonize a Rádio Europa (90.4fm) poderá ouvir este jovem rapaz a discutir, com André Abrantes Amaral, Paulo Pinto Mascarenhas e Antonieta Lopes da Costa, a crise financeira na Europa, que consequências terá ela para a política governamental, o discurso do Presidente da República no 5 de Outubro, e as notícias que dão como certa a escolha de Santana Lopes como candidato do PSD à Câmara de Lisboa. Acredite que é uma oportunidade única: depois da desgraça que certamente será a minha participação, nunca mais voltam a convidar-me.
Posted by Bruno at 10:07 PM
outubro 08, 2008
Num Braço-de-Ferro, a "Mão Invísivel" Vencerá Sempre a "Mão Vísivel"
No debate quinzenal na Assembleia da República, o Primeiro-Ministro José Sócrates afirmou que "quem sai derrotado" desta crise são "os apóstolos do Estado mínimo e do mercado desregulado", aqueles que, "durante anos a fio, enalteceram as virtudes imbatíveis de um mercado entregue a si próprio". Para Sócrates, a crise prova que a "mão vísivel do Estado" é necessária para impedir crises como a que enfrentamos. Esta tem sido uma ideia muito repetida: a de que o mercado entregue a si próprio nem sempre obtém bons resultados, e que por isso, é necessária a intervenção estatal para o corrigir. Mas é também uma das mais erradas: é verdade que o mercado entregue a si próprio nem sempre obtém bons resultados, mas não é verdade que a intervenção estatal consiga "corrigir" esses "erros".
Deixemos de lado o facto de, na raíz desta crise, não estar propriamente "o mercado entregue a si próprio" (convém lembrar que os responsáveis políticos exigiam que os bancos emprestassem dinheiro a quem não o poderia pagar de volta), e concentremo-nos apenas na evidência de que os indivíduos (ou seja, os "agentes" do mercado), na interacção uns com os outros, fazem asneira, asneira essa que conduz a resultados "menos positivos": a intervenção estatal nunca irá eliminar a existência de resultados negativos, nunca irá eliminar as perdas resultantes do mercado.
O "mercado" (a interacção dos indivíduos) é um "facto da vida": não vivemos num mundo de abundância, no qual podemos ter tudo quando quisermos e sem ter de fazer nada por isso. Vivemos num mundo em que os recursos são escassos, e o tempo que temos para os consumir e trabalhar é também ele escasso. Se vivêssemos isolados, teríamos de abdicar de muito do que gozamos, por não termos tempo de o produzir ou desfrutar: para ver televisão, eu teria que fabricar o aparelho, escrever o guião da série, filmá-lo, interpretá-lo, e depois sentar-me a ver (precisaria ainda de fazer os cabos eléctricos, o sofá, etc.). Como não vivemos isolados, dividimos o trabalho: a Sony fabrica a minha televisão, David Simon escreve The Wire, Dominic West e os outros interpretam, outros realizam os vários episódios, e eu faço aquilo que faço melhor: sento-me no sofá a ver.
O que aconteceu aqui foi o mercado a funcionar: eu quero ver The Wire, por isso pago à Sony, a David Simon, Dominic West e o resto da malta para ter tudo aquilo que preciso para ver The Wire. Eles, que querem comer, vendem-me aquilo que eu quero. O mercado é apenas e só isto: uma série de gente à procura de algo, e a oferecer algo em troca.
Por vezes, esta interacção dá asneira. Nem David Simon, autor da melhor série de televisão de sempre, é perfeito. Ninguém é (se nem eu sou, quanto mais os outros, caro leitor). E portanto, por vezes, os "agentes" do mercado fazem escolhas erradas: por exemplo, começam a emprestar dinheiro a quem não poderá nunca vir a saldar a dívida. Um dia, as consequências dessas escolhas erradas acabam por apanhá-los (é outro facto da vida: as consequências da asneira correm sempre mais depressa que nós), e instala-se uma crise. Os governantes, preocupados (o que é louvável), prestam-se a dizer que a culpa é do "mercado", e que este precisa de ser "corrigido": é preciso que a "mão invisível" trabalhe em conjunto com a "mão visível do Estado". Mas ao contrário do que os governantes pensam, a esfera da intervenção estatal não é independente da esfera do mercado. No fundo, o Estado é apenas mais um "agente", cujas escolhas afectam o resultado do mercado tal como as dos outros agentes. Isto quer dizer que a intervenção estatal não "corrige" o mercado, porque o Estado é apenas um entre muitos dos que nele participam, e apenas o afecta, como o afectam todos os seus agentes.
A única diferença está em que o Estado, ao contrário dos outros "agentes", pode obrigar os outros a agirem como ele quer: por exemplo, pode proibir a oferta de determinados produtos financeiros, ou criar as regras de remuneração dos gestores que todos os bancos devem seguir. Ou pode "proteger" a produção de produtos nacionais, criando barreiras à entrada de produtos estrangeiros em determinados sectores da actividade (como a agricultura ou o calçado). Isto não vai corrigir o mercado, apenas o facto: o preço desses produtos continuará a ser o resultado da relação entre a oferta desse produto e a procura de que ele é alvo, e portanto, se o Estado decreta que a sua oferta será escassa (que é o que o Estado faz quando cria barreiras à competuição de produtos estrangeiros), e a procura continuar a ser a mesma, o preço vai aumentar. Os produtores ficam contentes (ganham mais dinheiro por fazerem o mesmo trabalho), mas os consumidores (que no fundo, são produtores de outros produtos), não gostarão muito da brincadeira (consumem o mesmo por mais dinheiro, e produzem o mesmo pelo mesmo dinheiro, ou seja, mais tarde ou mais cedo acabam por consumir menos por não terem mais dinheiro). Isto faz com que reclamem junto do Estado: também eles querem ver os seus produtos protegidos (ou seja, que o Estado lhes crie uma situação de escassez para que eles o possam vender mais caro). Assim, o Estado não só não "corrigiu" o mercado (ele continua funcionar da mesma maneira), como não eliminou os resultados "injustos" (aqueles que queria corrigir quando "protegeu" determinados agentes da competição): apenas transferiu a competição entre os agentes, do campo da interacção entre eles para o dos corredores do poder, onde quem reclama mais tem mais benefícios. Não eliminou o "mercado" nem a sua "desigualdade" e "injustiça", apenas criou um "mercado" da influência política, em que o que conta não são as escolhas voluntárias dos indivíduos, mas as escolhas de alguns deles, aqueles que estão no poder: a "desigualdade" continua a existir, e a "injustiça" é ainda maior. A "mão invisível" fez-se sentir, e porque a "visível" exagerou, obriga a "invisível" a forçar o seu caminho. Ela não traz sempre resultados agradáveis, mas num braço-de-ferro, a "mão invisível" vencerá sempre a "visível".
Todos aqueles que correm a afirmar que esta crise mostra como o "mercado" precisa do Estado deveriam ter isto em atenção. É claro que, sem Estado, o mercado não trará resultados agradáveis para muitos dos seus agentes: se não houver o Estado para salvaguardar o cumprimento da lei, eu posso ir à loja da Sony roubar a minha televisão que ninguém me vai castigar por isso. Mas se o Estado obrigar a Sony a vender as televisões a um preço mais baixo do que aquele que eu estou disposto a dar-lhes, a Sony vai produzir menos televisões. A "mão visível" quis corrigir o que faz a "mão invisível" e esta fez mais força: a intervenção estatal no mercado não altera a forma como este funciona, apenas altera a resposta dos outros agentes, que se adaptam às novas condições. Se é verdade que o "mercado", para funcionar, precisa da "regulação" do Estado, também é verdade que essa "regulação" não pode ser excessiva: se a "regulação for muito rígida, dificultará a inovação, o motor do densevolvimento capitalista; se o fixar os salários dos gestores dos bancos, estes ou se transferem para outras actividades (deixando gente incompetente nos bancos), ou arranjam outras formas de obterem mais rendimentos, que podem conduzir a comportamentos que se traduzem em resultados mais negativos para o resto da sociedade. O "mercado" precisa do Estado, mas se a intervenção do Estado for excessiva, o "mercado" responderá com o dobro da força, e o resultado será bem mais "injusto" que aquele que se pretendeu "corrigir". A relação entre o "mercado" e o Estado assenta num equilíbrio precário, e a definição de qual a forma e dimensão da intervenção estatal é uma tarefa que exige prudência e reflexão. Se há algo que esta crise, bem como as reacções a ela, tem mostrado, é que prudência e reflexão é algo que tem sido bem escasso. E como costuma acontecer quando há escassez de algo, o preço que se paga é elevado.
Posted by Bruno at 07:12 PM
outubro 07, 2008
No Fora.tv
David Brooks, colunista do New York Times, fala sobre como o estudo da neurociência é importante para a compreensão das nossas sociedades, e como a política deveria ter em atenção o que nesse campo se vai dizendo.
Posted by Bruno at 09:50 PM
"Nunca Digam Mal da Televisão"
A quinta e última parte da minha série de posts sobre televisão no blog da Atlântico já pode ser lida aqui.
Posted by Bruno at 09:43 PM
outubro 06, 2008
Manuela Ferreira Leite Está À Beira de Cometer o Maior Erro Que Poderia Cometer (publicado no Insurgente)
Anos e anos a seguir a política portuguesa ensinaram-me a desconfiar do que leio nos jornais. Mas desta vez, confesso que a minha desconfiança é, para além do produto dessa experiência, também um pouco de wishfull thinking: os jornais deste fim-de-semana anunciam que Pedro Santana Lopes será o candidato do PSD à Câmara de Lisboa, e a única coisa que eu posso dizer é que espero bem que não seja verdade. Não que me espante que o dr. Carlos Carreiras, presidente da Distrital de Lisboa, venha a público defender a escolha, e considere que Santana seja o candidato ideal. Mas já me espanta que esta candidatura tenha o aval de Manuela Ferreira Leite, como os jornais (e o dr. Carreiras) garantem que tem.
Dar o seu apoio a uma candidatura de Pedro Santana Lopes seria o maior erro que Manuela Ferreira Leite poderia cometer. Em primeiro lugar, porque ninguém votou em Ferreira Leite para ter Santana Lopes: quem o quisesse teria no votado no homem (e muitos fizeram-no, vá-se lá saber porquê). Ferreira Leite aparecia como a candidata de ruptura com o passado mais recente do PSD, a pessoa que havia estado contra a cedência do poder a Santana aquando da saída de Durão, a pessoa que esteve contra Menezes, e que, ao contrário de Passos Coelho, não se aliou a nenhum destes nas directas deste ano. Dar a sua caução a uma candidatura de Santana à capital é recuar aos tempos pré-Marques Mendes, é deitar abaixo o trabalho por este realizado após ter percebido que, para tornar o partido numa alternativa credível a nível nacional, poderia ser necessário sacrificar as perspectivas eleitorais a nível autárquico. Em Lisboa, Mendes deixou cair Santana e depois Carmona por essa razão, e ir resgatar Santana é não perceber o que se passou no partido nos últimos anos.
Os mais “conspirativos” certamente conseguirão encontrar razões para justificar a escolha, mas nenhuma aguenta a mínima reflexão: muitos poderão argumentar que um partido como o PSD tem de ganhar Lisboa, e um político “ganhador” como Santana é ideal para o conseguir. Esqueçamos o birlhante resultado que este “ganhador” conseguiu em 2005: mesmo que o mito do “santana imbatível em eleições” seja verdadeiro, e ele ganhe Lisboa para o PSD, o PSD terá o problema de ter Lisboa nas mãos de Santana, mãos essas que trarão consigo as confusões que ele gosta de arranjar. Os “conspirativos” dirão que essa é a ideia de Ferreira Leite. Dar a Santana a oportunidade de se auto-destruir. O problema é que oportunidades dessas não têm faltado ao “guerreiro menino”, e ele acaba sempre por arrastar alguém consigo: se Ferreira Leite der o seu aval à candidatura de Santana, toda e qualquer asneira que vier daquela cabecinha pouco ajuízada irá colar-se à líder laranja como queijo quente ao ceú da boca. E acredite, caro leitor, que este queijo em particular costuma queimar.
Há ainda a mensagem que Manuela Ferreira Leite estaria a enviar aos eleitores. Numa conjuntura em que a actividade política está cada vez mais descredibilizada junto dos eleitores, a única forma que Ferreira Leite terá de conquistar a sua confiança será comportar-se de uma forma “diferente” daquela que as pessoas costumam associar aos “políticos”. Depois de se ter oposto a Santana, depois de ter estado contra Menezes, depois de ter sido a mandatária de Fernando Negrão em Lisboa (ou seja, depois de ter dado a sua caução à estratégia de Marques Mendes na capital), depois de falar da necessidade de credibilizar o partido depois das aventuras destas duas personagens, se Ferreira Leite apoiar uma candidatura de Santana, os eleitores só poderão pensar que ela o faz por uma qualquer razão obscura, seja por considerações eleitorais (por esperar que Santana “ganhe”) ou internas (para manter o “inimigo” perto ou para o “queimar”). Ou seja, só poderão pensar que Ferreira Leite apoia Santana por “politiquice”. E qualquer político que siga critérios de “politiquice” será penalizado: mesmo que ganhe as legislativas de 2009, e consiga o poder, será alvo da desconfiança dos eleitores, desconfiança essa que a impedirá de levar a cabo a política reformista que só o PSD poderia promover.
Posted by Bruno at 07:31 PM
"TV Is My Life"
No blog da Atlântico, já podem ser lidas a terceira e a quarta partes da minha série de posts sobre televisão.
Posted by Bruno at 06:17 PM
outubro 04, 2008
"Tudo O Que É Mau É Bom Para Si"
No blog da Atlântico, já se pode ler a segunda parte da minha série de posts sobre televisão.
Posted by Bruno at 09:45 PM
outubro 03, 2008
"TV Is My Life"
A convite do Paulo Pinto Mascarenhas, estarei nos próximos dias também pelos lados do Atlântico, onde, como convidado, escreverei uma curta série de cinco posts sobre televisão. O primeiro já pode ser lido aqui.
Posted by Bruno at 10:29 PM
Invisibilidade Física

Na Quadratura do Círculo, o dr. António Costa insurgiu-se contra a "invisibilidade física" da blogosfera, e o que ela permite aos que, sob o anonimato que ela oferece, a usam para fazer e dizer o que muito bem lhes apetece. Percebo o problema do dr. António Costa. Mas no que a mim diz respeito, a "invisibilidade física" é um problema bem mais grave: ela não se limita à minha actividade blogosférica, mas a toda a minha existência, devido à minha extrema magreza. E ao contrário do "anónimo" que enche as caixas de comentários dos blogs, a "invisibilidade física" não me trouxe qualquer vantagem. Acredite, caro leitor. Sempre pensei que era por essa razão que os elementos do sexo oposto nem sequer sabiam que eu existia.
Posted by Bruno at 01:51 PM
outubro 01, 2008
"My Mind Is Going"
No seu Vírus, Pacheco Pereira fala sobre a morte de HAL em 2001, Space Odissey.
Posted by Bruno at 04:19 PM
Nem a Realidade os Fará Mudar de Ideias
Mário Lino afirmou hoje, aos microfones da TSF, que "o governo não pode mudar a linha de rumo a cada dia que sucede qualquer facto". Estas declarações surgem como uma resposta ao que o ex-Ministro Campos e Cunha afirmou anteriormente, sugerindo que a crise financeira internacional deveria fazer o Governo repensar a sua política de Obras Públicas, tendo em conta o agravamento das condições de obtenção de crédito, que tal política não pode dispensar.
Estas afirmações são um excelente exemplo da forma como pensa este Governo: nem a realidade os fará mudar de ideias. No mundo exterior, a crise agrava-se. Das janelas de São Bento, tudo corre bem em Portugal. Uma política que já tinha méritos duvidosos fica cada vez mais insustentável devido ao agravamento da conjuntura. Em São Bento, pensa-se a "modernização" e o "desenvolvimento" do país não podem ficar reféns de insignificâncias como a ausência de dinheiro e o encarecimento do endividamento. Viciado no mundo de fantasia criado pela propaganda que põe a passar na RTP, o Governo já não sabe, nem quer, pensar acerca da realidade. O problema é que, tal como nem esta o fará mudar de ideias, também as ideias do Governo não mudarão a realidade.
Posted by Bruno at 04:05 PM