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setembro 30, 2008
A Política é Feita de Divergência, Não de Consenso
Ontem, o Congresso americano rejeitou o "plano Paulson" para "salvar" o sistema financeiro da crise que o afecta. Hoje, no seu editorial, o Diário de Notícias, acusa os "67% de republicanos" e "40% de democratas" que "juntaram os seus votos negativos" de "cairem" nas "malhas da mais rasteira politiquice". Nem vale a pena notar que, ao contrário do que muitos dizem, até houve um certo consenso bi-partidário, apenas não no sentido que as lideranças partidárias desejavam. E nem sequer vou entrar pelo domínio de quem tem razão e quem não tem, se os defensores do "plano" se os seus críticos. O que me interessa nestas críticas aos que rejeitaram o "plano Paulson" é a tendência, evidente não só no editorial do DN mas também em declarações como as de David Cameron, para verem as divergências políticas como um mal em si: vêem o facto de não ter havido unanimidade entre os congressistas americanos como uma prova de que alguns deles sucumbiram "à mais rasteira politiquice", não como um simples sinal de que, pura e simplesmente, não há acordo entre eles.
Este é, infelizmente, um dos mais graves sintomas do esvaziamento do debate político nas nossas sociedades. Tem desaparecido a noção de que toda e qualquer opção política tem custos, e que é apenas e só natural que algumas pessoas entendam que esses custos são compensados pelos benefícios que esperam vir da medida apresentada, enquanto outros ou não acham que ela trará benefício algum, ou pensam que, a trazer, ela implicará custos bem maiores. A divergência não é sinal de "politiquice", é inerente à actividade política. E o regime democrático serve precisamente para acomodar a divergência, para impedir que ela se transforme em violência, não para acabar com ela.
Posto isto, os congressistas que rejeitaram o "plano Paulson" até o poderão ter feito por este ser impopular e terem de enfrentar umas eleições daqui a algumas semanas. Mas isso não quer dizer que não haja boas razões para o rejeitar, como certamente haverá argumentos válidos a favor da sua aprovação. O debate político consiste (ou pelo menos, deveria consistir) do confronto desses argumentos, na avaliação dos custos e benefícios desta ou daquela política, para que uma escolha, inevitavelmente polémica e sempre arriscada, seja feita. Ver na divergência um sinal de falência da actividade política é apenas não perceber a natureza do do debate político em democracia.
Posted by Bruno at 09:37 PM
setembro 29, 2008
A Ler

O artigo de Mark Falcoff na Standpoint, sobre como os "eleitores pretos e brancos" de Obama vêem nele "Presidentes diferentes".
Posted by Bruno at 07:02 PM
setembro 27, 2008
Paul Newman
Com a morte de Paul Newman, todos irão recordar os seus filmes. Mas para mim, Newman era acima de tudo o patrão da equipa da Indycar onde correu Nigel Mansell, a Newman-Haas.
Posted by Bruno at 09:40 PM
setembro 26, 2008
Por Que McCain Arrisca Tanto
Durante os seus anos no Senado, John McCain cultivou uma imagem de "rebelde", de um homem que, pertecendo ao Partido Republicano, fazia aquilo que muito bem lhe apetecia sem se preocupar com considerações sobre a lealdade partidária ou sobre como satisfazer a "base eleitoral". A sua campanha para a Presidência americana tem sido um bom exemplo dessa imagem que McCain gosta de fazer passar: nos últimos tempos, ela consiste apenas e só de "jogadas arriscadas", que tanto podem funcionar muito bem como ter resultados desastrosos.
Primeiro, arriscou ao nomear Sarah Palin: ao ter escolhido uma desconhecida como parceira eleitoral, McCain desviou as atenções da campanha para ela, quase tornando-a no "centro" dessa campanha. Se Palin se revelar eficaz, McCain irá certamente beneficiar com isso, mas se ela deixar de ser uma "novidade", a atenção concentrar-se-à na "ex-novata" que impressionou mas que começa "a perder fôlego" (tal como com Hillary Clinton a "notícia" foi a "ex-favorita" que foi sendo ultrapassando pelo "jovem impressionante", que por sua vez, já vê agora o "fôlego" ser questionado). E enquanto agora todas as reportagens acerca de Palin vão sendo "enquadradas" na "narrativa" da "novata" que "impressiona", elas passarão depois a ser "enquadradas" na "narrativa" da candidata que "perdeu o fôlego", arrastando McCain consigo. Como escreveu Peggy Noonan, "the Sarah Palin choice is really going to work, or really not going to work. It's not going to be a little successful or a little not".
Em segundo lugar, arriscou com a "suspensão da campanha" e o pedido de adiamento do debate desta noite (quem sabe se McCain não irá sequer comparecer): se esta sua posição fosse popular, McCain poderia retirar dela alguma vantagem eleitoral, mas por outro lado, como nota Toby Harnden, a manobra poderá parecer "transparentemente política" e correndo portanto o risco de ter o tiro a sair pela culatra.
Esta postura de McCain não é apenas um resultado da sua personalidade "muito própria", antes faz parte de um estratégia de campanha que visa ultrapassar as dificuldades que McCain tem enfrentado perante o impacto de Barack Obama: como nota Daniel Finkelstein, Obama tem liderado as sondagens durante a maior parte do tempo, e só durante curtos "picos" conseguiu McCain ultrapassá-lo. Para Finkelstein, isto significa que a campanha de Obama tem uma base de apoio mais sólida, o que faz com que a sua vitória seja mais provável que a de McCain, e a única forma que o candidato republicano tem de superar esse obstáculo é criar as situações em que ocorrem os seus picos de popularidade, tendo um deles de forçosamente coincidir com o dia das eleições.
Terá a última jogada arriscada de McCain funcionado? A subida nas sondagens parece indicar que sim. Mas Toby Harnden, por exemplo, parece pensar que, desta vez, McCain arriscou demais, perdendo mais do que pode ganhar, e que esta "suspensão da campanha" terá sido o momento em que McCain perdeu as eleições: ela não só parece uma jogada eleitoralista que afecta a imagem de McCain como um "político diferente dos outros", como poderá retirar a McCain uma oportunidade de usar o debate de hoje para centrar a campanha naquele que é o seu ponto forte eleitoral, a política externa. Ao querer criar mais um "pico" de popularidade, McCain arrisca-se a perder a única vantagem realmente sólida que possuía nesta campanha.
Posted by Bruno at 12:43 PM
setembro 25, 2008
A Ouvir
O "vírus" de Pacheco Pereira sobre a música do genérico da série televisiva Weeds.
Posted by Bruno at 12:05 PM
Obrigados a Endividarem-se
Em entrevista à TSF, o dr. João Salgueiro afirmou que o elevado endividamento dos portugueses é resultado "das campanhas publicitárias agressivas" (da compra de casa, automóvel, aparelhos de televisão, etc.) e da "mentalidade" dos consumidores portugueses. É óbvio que, em parte, a culpa do endividamento excessivo dos portugueses é daqueles que se endividaram excessivamente, "aliciados" pelas campanhas que os incitavam a comprar o que quer que fosse. Mas em Portugal, há uma parte desse endividamente que, na realidade, não é propriamente responsabilidade dos consumidores portugueses, pois eles não têm verdadeira escolha: não estou a falar de anos e anos de incentivo político ao endividamento (afinal, as pessoas só responderam a esse incentivo porque quiseram), mas de anos e anos de uma lei das rendas que, na prática, obriga os portugueses a endividarem-se, ao estrangular o mercado do arrendamento não deixando alternativa à compra de casa, e ao endividamento que ela implica. Ao contrário do que o dr. João salgueiro diz, o endividamento excessivo em Portugal é, pelo menos em parte, resultado de uma política deliberada, que por medo de perder votos dificulta a vida das pessoas.
Posted by Bruno at 11:48 AM
setembro 24, 2008
Estado de Alma

"A modos que" atarefado.
Posted by Bruno at 10:44 PM
setembro 23, 2008
A Ler
Na Standpoint, a conversa entre Michael Gove (autor de Celsius 7/7) e Philip Bobbit (autor de Terror and Consent).
Posted by Bruno at 07:11 PM
setembro 22, 2008
Veronica Mars

Há já várias semanas que as minhas tardes de Sábado e Domingo têm sido passadas a ver a primeira e a segunda temporadas de Veronica Mars, uma série que foi uma agradável surpresa. Pois não só é melhor do que eu esperava, como é melhor do que parece à primeira vista. Veronica Mars (Kristen Bell) é uma jovem estudante do Liceu de Neptune, filha do xerife local (Enrico Colantoni). Quando a sua amiga Lilly Kane (Amanda Seyfried) é assassinada, o pai de Mars acusa Jake Kane (Kyle Secor) de ter morto a filha, o que, após Abel Koontz (Christian Clemenson) lhe custa o lugar de xerife, a separação da sua mulher, e uma vida no liceu difícil para Veronica, ostracizada pelos velhor amigos que não perdoam "à família Mars" ter ido atrás dos Kane. Mas Veronica e o pai não acreditam que Koontz seja o verdadeiro autor do crime, e durante toda a primeira temporada, Veronica irá tentar descobrir quem matou a amiga (na segunda, uma vez resolvido esse mistério, Veronica irá tentar descobrir quem matou uma série de alunos do liceu), ao mesmo tempo que enfrenta os problemas habituais nos adolescentes televisivos.
Veronica Mars tem tudo para correr mal: a mistura de série "juvenil" com drama policial tem "desastre" escrito na testa. Um "Beverly Hills 90210" vestido de "Murder She Wrote" dificilmente me faria deixar de ver um jogo do Arsenal. E no entanto, Veronica Mars funciona. O ambiente noir da coisa, com a luz escassa (nunca vi salas de aula tão escuras, nem sequer no ensino público português) e a voz-off de Kristen Bell, ajudam. Mas é a escrita inteligente da série que a transforma na boa surpresa que ela é. Cheia de referências a outras séries, filmes, fenómenos culturais ou fait-divers, chega tornar complicada a tarefa de perceber a citação e a piada por trás dela. O elemento policial da série, por exemplo, é muito bem montado: não se comparando às melhores séries do género (Hill Street Blues, Homicide, para não falar de The Wire, que é de outro planeta), é suficientemente bom para nos manter presos ao longo de toda uma temporada a tentar adivinhar "quem matou Lilly Kane", e a errar até ao fim. Os diálogos são sempre bons (as cenas em que Veronica discute com o "mau rapaz" Logan Echolls são das coisas mais cómicas que já vi numa série dramática), o que faz Veronica Mars a única série "juvenil" ao nível do sublime Freaks and Geeks. Em vez de uma má série sobre adolescentes a tentar mascarar a sua mediocridade com um mistério policial mal apanhado, Veronica Mars é uma série que passa o teste enquanto série policial, e, enquanto série "juvenil" (a etiqueta que se põe a tudo o que seja protagonizado por jovenzinhos), é escrita de uma forma mais "adulta" que muitas séries que por aí andam (a agoniante "chico-espertice" de Lost, por exemplo, ou os excessivos e mentecaptos twists and turns de Prison Break, ou o exagero melodramático de Once and Again). E alguns momentos da série, como por exemplo o extraordinário final do episódio 17 da segunda temporada, são dignos de algo como The Sopranos (a expressão "justiça poética" foi inventada para aquele final).
Devo dizer que, para mim, Kristen Bell é suficiente para me pôr a olhar a televisão, e que mesmo que Veronica Mars fosse tão má como eu inicialmente esperava que fosse, eu continuaria a ver aquilo (afinal, caro leitor, porque é que pensa que eu comecei ver?). Mas sem as piadas, o delicioso ambiente noir, a inteligência no desenvolver do arco narrativo policial, a forma sóbria como os dramas pessoais das personagens se vão desenrolando ao longo das temporadas (especialmente na primeira), e as constantes referências feitas em todos os episódios (qualquer série que ponha uma miúda a tentar enganar o pai e levá-lo a pensar que ela e o namorado se separaram, fechando-se no quarto e pondo a banda sonroa de The Virgin Suicides a tocar, só precisa de fazer isso para me convencer), Veronica Mars seria algo bem penoso. Na realidade, tudo isso faz a excelente qualidade desta série, que não sendo uma obra-prima, é mais um exemplo do que de bom se vai fazendo na televisão americana. E que vem de onde menos eu esperava.
Posted by Bruno at 05:54 PM
setembro 20, 2008
A Crise e as "Lições"
No editorial do Público de hoje, Manuel Carvalho escreve que "as receitas recomendadas para debelar a crise são um claro atestado de óbito ao capitalismo libertário dos últimos anos". Por outras palavras, a "grande lição da crise" é a de que é necessária a "atribuição de poderes mais efectivos a instâncias emanadas do Estado", e as medidas tomadas pelo Governo americano são a prova disso mesmo. Manuel Carvalho comete aqui o erro de pensar que o facto de uma série de medidas serem relativamente consensuais é uma evidência da sua necessidade e validade. O facto de uma medida ser relativamente consensual e recomendada por muitos especialistas quer dizer apenas isso: ela é relativamente consensual e recomendada por muitos especialistas. Isso não faz dela uma medida acertada. Ela possa ser acertada ou não, e a quantidade de pessoas que a recomendam, tal como as suas qualificações, são irrelevantes para a avaliação dos méritos da medida em si. O facto de muita gente "recomendar" estas "receitas" para a crise não significa que não haja razões para temer os seus efeitos secundários: como é dito no artigo citado pelo João Miranda, "any talk of a government bail-out reduces the debtholders’ incentives to act, making the government bail-out more necessary", e que acabem por ser os contribuintes a pagar os erros dos accionistas das empresas. O facto de muita gente "recomendar" estas "receitas" para a crise não significa que não haja razões para pensar que a "lição" que esta crise deixa não é a de que é necessária uma maior intervenção estatal, mas precisamente a "lição" contrária: compreender-se que a actividade financeira comporta riscos gigantescos, particularmente sujeita aos efeitos causados pelos "cisnes negros" de que fala Nassim Taleb, uma actividade em que ninguém sabe realmente o que vai acontecer amanhã, e que portanto mais vale deixar as empresas correrem livremente os riscos que quiserem correr, e pagarem o preço se a coisa correr mal, do que ter o Estado (que como qualquer outro agente, também não pode prever o futuro) a intervir directamente no mercado, e a estar sujeito a que um qualquer "cisne negro" lhe apareça à frente, e todos nós sejamos forçados a pagar o preço do risco que não compensou.
Posted by Bruno at 09:48 PM
setembro 19, 2008
A Crise e a Insistência na Regulação
No The Times, Gerard Baker argumenta que "mais regulação irá prejudicar, e não ajudar, a recuperação".
Posted by Bruno at 10:24 PM
setembro 18, 2008
A Ler
O artigo de Joshua Kurlantzick, sobre como a democracia está em crise em muitos países, e o "culpado" é a classe média.
Posted by Bruno at 10:02 PM
setembro 17, 2008
Venha o Diabo...
Segundo o Diário de Notícias de hoje, Manuela Ferreira Leite terá de escolher entre Fernando Seara e Pedro Santana Lopes, nomes propostos pela Distrital de Lisboa, para ser o futuro candidato do PSD à autarquia da capital. É não haverá uma terceira hipótese?
Posted by Bruno at 07:12 PM
setembro 16, 2008
O PSD Deveria Aprender As Lições de Howard Moskowitz
Todos os anos, um grupo de pessoas fora do comum reúne-se em Monterey, na Califórnia, para partilharem as suas experiências e ideias na TED Conference. Cada conferencista tem cerca de 18 minutos para "dar a palestra das suas vidas", e "espalhar ideias que merecem ser espalhadas". Não sendo propriamente a carta mais alta do baralho, não tenho a sorte de ir a Monterey partilhar o que me vai passando pela cabeça, ou sequer para assistir a qualquer uma das palestras. Mas hoje, graças às maravilhas da internet, idiota e génio têm igual acesso a tudo o que essas extraordinárias pessoas têm para dizer. E acredite, caro leitor, que é uma oportunidade que deve aproveitar. Enquanto ouvia a palestra que Malcolm Gladwell deu em 2004, apercebi-me que o PSD, em particular, talvez tivesse alguma coisa a aprender com o vídeo de 17 minutos.
Gladwell, o autor dos excelentes Blink e The Tipping Point, conta a história de Howard Moskowitz, um psychophysicist (não sei dizer isto em português. Se não fosse a Wikipedia, nem sequer saberia que se trata de alguém que estuda a relação entre estímulos físicos e a reacção sensorial) que nos anos setenta foi contactado pela Pepsi para ajudar a desenvolver a versão Diet da bebida. Mais especificamente, queriam que Moskowitz lhes dissesse quão doce ela deveria ser.
Moskowitz realizou então uma série de testes, experimentando diferentes combinações e perguntando a várias pessoas para as classificarem de acordo com as suas preferências, para obter resposta à pergunta que a Pepsi lhe havia feito. Moskowitz esperava obter uma "curva" de preferências, na qual as notas seriam mais baixas quanto menos doce fosse a combinação, subindo gradualmente à medida que se tornassem mais doçes, e caindo a pique a partir do momento que as amostras fossem exageradamente doces. De acordo com Gladwell, isto pura e simplesmente não aconteceu: os resultados "não faziam sentido", eram "uma confusão".
Aparentemente, isto incomodou Moskowitz, até que, vários anos mais tarde, ele se apercebeu do que estava errado: de acordo com Gladwell, ele estava à procura da "Pepsi perfeita", quando deveria ter estado à procura das "Pepsi perfeitas". Quando a Campbell Soup Company o contactou para pedir a sua ajuda no desenvolvimento do seu molho para esparguete, Moskowitz viu uma oportunidade para corrigir o seu erro.
O molho Prego da Campbell, apesar da sua maior qualidade, enfrentava dificuldades no mercado do molho de tomate. Algo estava errado, e Moskowitz pensava saber do que se tratava. Arranjou 45 tipos diferentes de molho, e viajou pelos EUA, pedindo às pessoas para provarem 10 deles, e depois classificá-los. Ao contrário do que normalmente seria feito, Moscowitz não olhou para qual era o molho com a classificação mais alta. Em vez disso, prestou atenção ao que Gladwell chama de "clusters" de opinião: quais os diferentes tipos de molho que diferentes pessoas preferiam.
O que descobriu foi que um vasto número de pessoas preferiam o molho de esparguete "normal". Outro grande número de pessoas, por sua vez, preferia o molho "picante", enquanto um terceiro grupo de pessoas parecia estar mais inclinado para o molho "extra-chunky" (com mais pedaços). O que havia de interessante na descoberta de Moskowitz era não haver, à altura, nenhum molho "extra-chunky" disponível no mercado: como é que poderia haver uma procura (e aparentemente, uma procura significativa) de um determinado produto, sem que ninguém estivesse disposto a oferecê-lo?
Gladwell dá-nos a resposta: na indústria alimentar, as empresas perguntavam a "focus groups" o que essas pessoas queriam num molho de tomate, numa soupa, num qualquer produto. O que Moskowitz descobriu foi que, enquanto um grupo considerável de pessoas queriam um molho "extra-chunky", nunca ninguém havia dito isso a ninguém. Moskowitz descobriu que "as pessoas não sabem o que querem". E por vezes, apenas querem algo diferente, como quando a Heublein Company desencantou o Grey Poupon, não uma mostarda "normal", mas sim uma mostarda "Dijon". Era um produto diferente, e as pessoas estavam interessadas nele porque era diferente. E, felizmente para o pessoal da Heublein, a coisa pegou. A Heublein deu às pessoas algo que elas não sabia que queriam.
Porque é que o PSD deveria prestar atenção a isto? Porque nos mostra que os políticos têm estado a olhar mal para as suas estratégias eleitorais. Tal como as empresas da indústria alimentar, os partidos perguntam às pessoas que tipo de molho de tomate elas querem, quando as pessoas "não sabem o que querem". Tal como as empresas da indústria alimentar, os partidos fazem umas sondagens e perguntam às pessoas o que elas esperam de um Governo, quando aquilo que seria realmente capaz de atrair o seu voto é algo que, muito provavelmente, nunca sequer lhes ocorreu.
Políticos e seus conselheiros tendem a ver o eleitorado como um corpo definido de opiniões: algumas pessoas inclinam-se para a "esquerda", algumas para a "direita", e depois há um número grande de eleitores "moderados", que se situam no "centro" do espectro político. Cometem o erro de verem estes eleitores "centristas" como pessoas com opiniões políticas claramente definidas, embora "moderadas". Pensam que os eleitores "centristas" estão tão certos das suas opiniões como os eleitores de "direita" e de "esquerda", e que a única diferença entre estes diferentes tipos de eleitores é a de que os "centristas", sendo menos "extremistas", são "captáveis", podem ser "ganhos" se os políticos forem ao encontro dos seus desejos e lhes oferecerem um conjunto de políticas que as sondagens lhes dizem que eles querem.
O problema está em que os eleitores "centristas" não são uma espécie de versão "intermédia" dos seus concidadãos mais "extremistas": eles são realmente diferentes. Ao contrário destes últimos, os eleitores "centristas" não têm opiniões políticas firmemente definidas. Eles mudam a sua escolha política, não porque estejam "no meio" do espectro político e os partidos ajustem as suas políticas às suas preferências medianas, mas antes porque, não tendo um corpo rígido de convicções políticas, orientam as suas opções eleitorais de acordo com outros critérios, como a sua simpatia pelos líderes partidários, a percepção que têm da competência destes últimos, da sua honestidade, ou apenas e só porque acham que o "novo chefe" é "diferente" do "velho". E depois, como Pete Townshend sabiamente avisou, descobrem que eles afinal são "iguais". Não há aqui qualquer surpresa: ambos, o "chefe antigo" e o "chefe novo" deram aos eleitores aquilo que pensaram que eles queriam.
É por isto que as pessoas desconfiam dos políticos. Como os políticos seguem o que as sondagens lhes dizem, e as sondagens reflectem a opinião de pessoas que "não sabem o que querem", é apenas e só normal que, após algum tempo, as pessoas se cansem do que lhes é oferecido. E como os políticos seguem o que as sondagens lhes disseram, são vistos como gente "sedenta de poder", disposta dizer ou fazer qualquer coisa para serem eleitos.
Em vez de darem aos eleitores mais uma mostarda "normal", o PSD tem de lhes oferecer Grey Poupon. O PSD tem de arriscar, e dizer aos eleitores o que eles não esperam ouvir. Como as pessoas esperam que os políticos digam o quer que seja que lhes dê a vitória, o PSD tem de dizer algo que possa causar a sua derrota. Se um político disser algo impopular, as pessoas irão obviamente ficar pouco agradadas com o que ouvirem. Mas passado algum tempo, começarão a pensar para si próprios: "se estes dizem isto, mesmo sabendo que ninguém vai votar nisto, mesmo sabendo que isto lhes vai custar a eleição, então talvez eles tenham razão. Talvez eles sejam diferentes dos outros". Como os eleitores "centristas" não têm opiniões políticas rígidas, confiarão em quem lhes parecer não estar apenas atrás do seu voto.
Claro que há certo grau de risco envolvido. O pessoal da Heublein não sabia se os consumidores iriam gostar da Grey Poupon ou não. Poderiam ter gasto uma fortuna no desenvolvimento desse produto, apenas para descobrirem que ninguém estava interessado na sua mostarda "Dijon". Tanto quanto sabiam, as pessoas estavam perfeitamente satisfeitas com a velha mostarda "normal". O mesmo pode acabar por acontecer ao PSD e a Manuela Ferreira Leite. Felizmente para o partido laranja e para a sua líder, Howard Moskowitz pode ensinar-lhe não só que têm de ser diferentes dos outros políticos para ganharem, mas também quão diferentes devem ser, que tipo de políticas (ou melhor, quais os princípios gerais que constituirão a base das suas políticas caso venham a ocupar o poder no futuro) devem oferecer aos eleitores.
Antes de Moskowitz aparecer, a indústria alimentar andava à procura do "prato perfeito": queriam saber quão doce deveria ser a Diet Pepsi, quantos "pedaços" deveria ter o molho de tomate, quão "estaladiços" deveriam ser os cerais de pequeno-almoço. Como Gladwell diz, "estavam a procura de universais culinários". É também isso que José Sócrates (e os antigos governos do PSD, diga-se de passagem) tem feito: o Primeiro-Ministro está a tentar descobrir a quantidade de açúcar que ele deve usar no Serviço Nacional de Saúde, a quantidade de farinha a usar no sistema educativo, a quantidade de molho a pôr na Segurança Social, de forma a beneficiar o maior número de pessoas possível.
Justiça lhe seja feita, bem como aos governos anteriores: todos eles o fizeram pelas melhores razões possíveis. Sócrates (tal como os seus antecessores), quer ajudar as pessoas, dar-lhes uma melhor oportunidade de virem a ser bem sucedidas, permitir-lhes conduzir uma vida feliz. Mas ele esbarra (tal como esbarraram os seus antecessores) no mesmo problema que a Pepsi e a Campbell Soup enfrentaram: como Gladwell explica, se eu tiver três tipos diferentes de Pepsi, e tiver de escolher apenas uma para pôr no mercado, eu vou procurar aquela que agrada ao maior número de pessoas. Mas então eu terei um grupo relativemente largo de pessoas razoavelmente satisfeitas (de acordo com Gladwell, essas pessoas classificarão a Pepsi com uma nota de 60 numa escala de 0 a 100). Mas se seguir o exemplo da Campbell Soup, e oferecer às pessoas os três diferentes tipos de molho de tomate à escolha (um "normal", um "picante", um "extra-chunky"), eu terei três grupos de pessoas altamente satisfeitas (irão dar uma nota de 80 ao molho de tomate da sua preferência).
A lição de Gladwell e Moskowitz é a seguinte: se se der uma escolha mais alargada às pessoas, em vez de seguir uma política que pretende ser "universal", toda a gente acabará por ficar mais satisfeita, e mais satisfeitos do que ficariam se se tivesse tentado oferecer-lhes essa solução universal. Bentham defendia que as políticas deveriam possibilitar "a felicidade do maior número". Mas ao tentar fazê-lo, Sócrates (tal como os seus antecessores) não só fez algumas pessoas consideravelmente "infelizes", como assegurou que aquelas que não o são não sejam tão "felizes" como poderiam ser. Se deixarmos as pessoas fazerem as suas próprias escolhas, elas têm uma maior possibilidade de virem a acabar por ficar satisfeitas com aquilo que lhes calhar.
O PSD deveria aprender esta lição, e dizer aos eleitores que todas as políticas que vier a adoptar caso venha a ocupar o poder obedecerão a este "princípio de escolha": antes de qualquer anúncio de qualquer política, Manuela Ferreira Leite e o PSD deverão perguntar se "esta política aumenta ou não a liberdade de escolha dos cidadãos?", como mostra a lição de Moskowitz. Mas acima de tudo, ela mostra que o PSD deve dizer aos eleitores que as suas políticas obedecerão a esse princípio, mesmo que nas sondagens, não seja isso que os eleitores dizem que querem. Na Campbell Soup Company e na Heublein, sabe-se que vale a pena correr esse risco.
Posted by Bruno at 05:53 PM
setembro 15, 2008
A Ler
Posted by Bruno at 09:16 PM
setembro 13, 2008
No Fora.tv
No programa Uncommon Knowledge, do Hoover Institution, Peter Robinson conversa com Amity Shlaes, autora do livro The Forgotten Man: A History of the Great Depression, que contesta a visão de que a Grande Depressão de 1929-1933 representou o colapso do "capitalismo" e de que foi Roosevelt e o seu New Deal que puseram fim à crise.
Posted by Bruno at 10:00 PM
setembro 12, 2008
O PS e o Presidente
Mais uma vez, o novo estatuto administrativo dos Açores veio provocar um conflito entre a maioria socialista e o Presidente da República. Após, em Julho passado, o Tribunal Constitucional ter declarado a inconstitucionalidade do documento, a Assembleia da República teria de rever o documento, fazendo as alterações necessárias para que este se adapte às exigências da Constituição. No entanto, as objecções de Cavaco Silva ao documento não ficavam por aí: o Presidente via no conteúdo do novo Estatuto dos Açores uma série de mudanças que, no seu entender, põem em causa o equílibrio das várias instituições do Estado português. Quando interveio em Julho passado com uma declaração pública sobre o novo estatuto dos Açores, Cavaco não esteve a falar do documento que foi rejeitado pelo Tribunal Constitucional, mas sim do documento que iria sair agora da Assembleia.
Essa declaração, se o leitor se recorda, provocou grande espanto nos mais variados comentadores. Mário Bettencourt Resendes, na SIC, e Carlos Magno, na RTP, acharam estranho que Cavaco tivesse, interrompondo as suas férias e falando em directo às 20 horas para as televisões, criado tanta expectativa em torno de um discurso sobre algo que pouco interessava aos portugueses, e que, ainda por cima, teria ainda de ser alterado pelo Parlamento? Era, de facto estranho. E precisamente por isso, escrevi à altura que a comunicação de Cavaco não poderia ter sido "só" por causa disso. Ela visava dar ao presidente margem de manobra para o caso de, como se veio a verificar, a maioria socialista não respondesse às suas provocações: tendo tornado públicas as suas exigências no devido tempo, Cavaco poderia vetar o documento se estas não fossem nele incluídas.
Claro que, depois desse eventual veto, a maioria parlamentar do PS poderá ultrapassá-lo, aprovando o documento que regressará então à Assembleia. Ora, como na altura escrevi, é compreendendo isto que se compreende o dramatismo da intervenção de Cavaco de há uns meses. Ele não só fez um "ataque preventivo" ao grupo parlamentar do PS, como criou margem de manobra para agir, caso esse "ataque preventivo" falhasse, como aparentemente falhou. Se depois de o Presidente deixar claro, como na altura deixou, que certos aspectos destas propostas são entendidos por ele como desestabilizadores do equilíbrio da relação das instituições políticas portuguesas (do "regular funcionamento das instituições"), o PS avançasse (como avançou) com esses mesmos aspectos, o Presidente estará disposto a impedir o PS de o fazer. Se, depois de um eventual veto presidencial, o PS der sinais de que o pretende ultrapassar, usando a sua maioria parlamentar para aprovar o documento, Cavaco terá, com o dramatismo que há meses colocou na questão, legitimidade e margem de manobra para agir no sentido de salvaguardar o "regular funcionamento das instituições", e garantir que a maioria parlamentar não o ponha em causa. Ou seja, tendo criado em Julho um grande dramatismo em torno do novo Estatuto dos Açores, Cavaco pretendia não só avisar os portugueses daquilo que não estava disposto a aceitar, mas também criar as condições para que, caso o PS quisesse ignorar a opinião presidencial, Cavaco tivesse toda a margem de manobra para os impedir: dissolver a Assembleia sob o pretexto de que esta pretende introduzir medidas que afectarão o "regular funcionamento das instituições".
Posted by Bruno at 11:27 PM
setembro 11, 2008
9/11
Posted by Bruno at 09:38 PM
setembro 10, 2008
O Que Deve Fazer Uma Oposição
Todos aqueles que insistem que Manuela Ferreira Leite deveria apresentar propostas detalhadas de uma política alternativa à do Governo socialista fariam bem em ler o artigo de hoje de Daniel Finkelstein no The Times. Finkelstein argumenta que a oposição deve limitar-se a enunciar uma série de princípios gerais que constituirão a base das suas políticas caso venham a ocupar o poder no futuro, e não a apresentação de propostas detalhadas. As razões são muito simples: as oposições não têm meios de saberem o que poderão gastar, o que terão de cortar, etc., e portanto, tudo aquilo que prometerem só muito pouco provavelmente será aplicado, o que, por sua vez, faz com que as pessoas duvidem à partida daquilo que está a ser prometido, tornando essas propostas absolutamente irrelevantes para a conquista do poder, e contraproducentes a partir do momento em que se está no Governo (por não se fazer o que foi prometido, perdendo credibilidade):
"Linda is outspoken and very bright. In college she majored in philosophy. She was concerned about social justice and went on anti-nuclear demos. Recently she turned 30. What do you think she is up to now?
When Daniel Kahneman and Amos Tversky put this question to a group of survey respondents, I don't suppose they intended to illuminate the stupidity of much of the British debate over public spending. But I think that they did.
In his new book on randomness, The Drunkard's Walk, Leonard Mlodinow recounts the results of Kahneman and Tversky's experiment - one of the great classic studies of decision-making. Respondents were given a series of possible occupations for Linda and asked to rank their probability. Is she, for instance, now active in the feminist movement? Does she work in a bookshop and take yoga classes? Is she a bank teller? A teacher? An insurance salesperson? A bank teller who is active in the feminist movement?
Unsurprisingly, given what they were told about Linda, it was thought most likely that she would be active in the feminist movement and least likely that she would be an insurance salesperson. There was, however, an interesting kink in the results. People ranked the likelihood of Linda being a bank teller active in the feminist movement higher than the probability that she is merely a bank teller.
This makes sense, doesn't it? After all, how likely is it that someone as socially concerned as Linda would give it all up and become simply a bank teller? But, as Mlodinow explains, however plausible their conclusion appears, the respondents had violated what he calls the first law of probability - “the probability that two events will both occur can never be greater than the probability that each will occur individually”.
In other words, the probability that Linda is now not only a bank teller but also a feminist cannot be greater than the chance that she is a bank teller.
If this appears obvious, consider this - this exact error has cropped up again and again in politics in the past two decades without anyone pointing it out. In fact, it has become central to our debate on public spending.
The other day Yvette Cooper, the Treasury Minister, accused the Tories of advancing proposals for increased public spending that were “unfunded”. Her implication is that spending promises should not be believed unless they are accompanied by promises of matching savings or tax increases. Ms Cooper's statement is bog standard, and hardly raised an eyebrow. It is always accepted that a party is more likely to carry out its promises if it can show exactly where the money is coming from.
Yet to believe this is to believe something that violates Mlodinow's first law of probability as surely as the respondents did when asked about Linda. For that law is quite clear - it is more likely that a political party will, for example, increase the number of police officers, than that it will increase the number of police officers by cutting spending on bureaucracy. As Kahneman and Tversky put it: “A good story is often less probable than a less satisfactory explanation.”
This is not merely an abstract point. In practice, over the past 20 years political parties have repeatedly made promises that are perfectly reasonable, and then offered to pay for them with detailed proposals for savings they were unlikely to make.
I participated in such an exercise. In 2001, when I was Tory policy director, we made some fairly modest proposals for tax cuts that would not have been difficult to achieve. But we also offered some proposals for saving that would not have raised enough money to cover our promises. Linking our tax cutting with specific saving made the proposals easier to defend because it seemed to make the whole thing more plausible. In fact, we had made it less, not more, likely that we would deliver the full promise we made.
But it was not only Mlodinow's first law of probability that was involved in the error. It was also Finkelstein's first law of opposition policymaking.
Oppositions do not have the capacity to decide on anything more than broad principles, and should not try. As director of opposition policy, I probably had fewer people working for me than the Government employed on its policy (it had one) to ensure that the selection of carpets in government offices helped to promote the arts. We got things wrong because we didn't have the capacity to get them right.
Why am I writing about all this now? Because on Monday George Osborne, the Shadow Chancellor, let it be known that he is reviewing the Tory stance on public spending. And this provides the possibility for an escape from the barren debates of the past two decades.
Last year, anticipating an early election, Mr Osborne promised that if the Tories won, he would adhere to Labour's spending plans until they expired in 2011. Politically, he didn't have much choice. To do anything else would have been to risk running exactly the same campaign as the last two. And with the same result.
Now the need to match Labour has gone. The Government lacks the credibility to set the terms of the debate. And its recent decisions to borrow to get itself out of a hole means that it can no longer argue credibly that it is wrong to make unfunded offers to the voters. Mr Osborne, it seems, is ready to say this. And this is a big opportunity.
Now there are, of course, many things that the Shadow Chancellor can't do. He can't, as some on the Right ludicrously suggest, promise now that he will spend less than Labour, because he does not yet know what Labour's plans are. And he cannot promise tax cuts because that would be irresponsible given the state of the public finances.
Yet what he can do is greater than what he can't do. He is able to do something not just for himself but for the rest of us. He can liberate us from elections dominated by bogus arguments about fictitious figures.
He can announce that the charade of the past 20 years is over. He can say that he no longer intends to use the figures of the outgoing Government as his baseline. He can say that he refuses to offer bogus “matching savings” for every minor promise. He can say that an opposition party is in a position to tell voters that it is by instinct fiscally conservative and desirous of low taxes, but that it is not in a position to decide the size of the budget for, say, juvenile courts in the year 2013.
Mr Osborne should not just say that he won't match Labour. He should issue a declaration of independence from the whole sorry mess that is the public spending debate. Such a declaration might help him to win. It would certainly help him to govern. And for the rest of us it would be a blessed relief."
Posted by Bruno at 07:16 PM
setembro 09, 2008
O Estado e as Suas Responsabilidades
Reagindo à notícia de que um homem foi baleado no interior de uma esquadra da polícia, enquanto fazia uma queixa do homem que sobre ele viria a disparar, o Ministro da Administração Interna, Rui Pereira, desvalorizou o sucedido, dizendo que não havia razões para criticar a polícia porque o autor do disparo foi imediatamente capturado. Não sei se há razões para a polícia ser criticada ou não. Mas a intervenção do Ministro é apenas mais uma prova de como este Governo (e o ministro em particular) não percebe o problema que situações como esta representam. Aquilo que há meses escrevi acerca do homem que foi agredido no interior de uma esquadra em Moscavide aplica-se perfeitamente a este caso em Portimão: se uma pessoa nem numa esquadra se pode sentir segura da ameaça de criminosos, se nem numa esquadra da polícia uma pessoa pode estar a salvo dos criminosos de quem se pretende queixar, não se poderá sentir segura em mais nenhum lado. E todas as outras pessoas, as que viram a notícia na televisão, aprenderam a mesma lição: "é perigoso fazer queixas à polícia, pois nem na esquadra eles nos podem proteger". O sentimento de impunidade dos criminosos irá crescer, aumentando a criminalidade, tal como o sentimento, por parte dos cumpridores da lei, de que o melhor para eles é não ajudar a penalizar os que não a cumprem: fazer uma queixa, testemunhar contra um criminoso, é pôr a sua própria segurança em risco, em qualquer lugar. Se as pessoas ponderarem apresentar uma queixa ou testemunhar contra um criminoso recearão pela sua vida. E ao contrário do que o senhor Ministro parece pensar, o receio delas não é o de que um seu hipotético assassino não seja capturado, mas precisamente o de que alguém o mate ou atente contra a sua integridade física. Se eu for morto, ou "apenas" agredido, a captura do meu hipotético assassino ou agressor será fraca consolação. O que Rui Pereira não percebe é que, independentemente do autor do disparo ter sido capturado ou não, na mais básica das suas responsabilidades, o Estado falhou. O que só não é uma má notícia para quem vive à margem da lei.
Posted by Bruno at 09:44 PM
setembro 08, 2008
A RTP e as Eleições Angolanas
Ontem, aos microfones da TSF, Ana Gomes, uma das observadoras internacionais das eleições angolanas, dizia que o processo eleitoral sofrera algumas "falhas", como algumas mesas de voto sem cadernos eleitorais e a falta de credenciação de organizações internacionais (credenciação essa que não terá faltado a organizações ligadas ao partido do poder). Curiosamente, no telejornal da RTP de ontem (aos 18 minutos), as declarações da eurodeputada são cortadas a meio de uma frase, e nenhuma das críticas que Gomes fizera ao processo eleitoral angolano podem ser ouvidas na reportagem. Sabendo da "amizade" que une o Governo português ao angolano, e a pouca paciência que este último tem para críticas vindas de Portugal, não deixa de ser estranho que a televisão pública opte por não emitir as críticas feitas pela eurodeputada ao processo eleitoral angolano.
Posted by Bruno at 12:41 PM
setembro 05, 2008
No Fora.Tv
Gerard Baker, do The Times, conversa com o apresentador de rádio americano Hugh Hewitt, sobre as peripécias da Convenção Republicana e as dúvidas acerca de Barack Obama e a sua capacidade para vir a ser um bom Presidente.
Posted by Bruno at 09:56 PM
setembro 04, 2008
"Euphoria Alert"
Toby Harnden escreve que um pouco mais de calma em relação a Sarah Palin seria bem-vindo, porque os candidatos a vice-presidente são geralmente irrelevantes para o resultado final (Harnden dá o exemplo de Dan Quayle, cujo desprestígio não terá prejudicado George H. Bush). Mas se porventura o candidato a vice-presidente vier, desta vez, a interessar, a "euforia" em torno de Sarah Palin poderá ser perigosa para os republicanos. Primeiro, devo explicar por que razão penso que, este ano, há uma possibilidade de a vice-presidência "contar": ao ter escolhido uma desconhecida como parceira eleitoral, McCain desviou as atenções da campanha para ela. Se toda essa atenção se mantiver até ao dia das eleições, o julgamento que as pessoas fizerem acerca de Sarah Palin poderá contar no momento de decidirem em quem votar, principalmente tendo em conta a questão (algo mórbida e francamente ofensiva) da idade de McCain e o cenário de ele "não terminar o mandato". E por que razão será, nesse caso, a "euforia" em torno de Sarah Palin potencialmente perigosa para os republicanos? Hoje, Palin é boa "primeira página" porque é uma quase desconhecida de um estado pequeno que logo enfrentou questões acerca da sua capacidade para enfrentar o escrutínio permanente de uma campanha como esta, e que saiu "incólume", até "fortalecida", dos primeiros obstáculos que enfrentou. Mas ao fim de algum tempo, resta saber quanto, ela deixará de ser uma "novidade", e a sua capacidade de enfrentar obstáculos semelhantes a estes deixará de ser "notícia". Aí, a "notícia" só poderá ser a "ex-novata" que impressionou mas que começa "a perder fôlego" (tal como com Hillary Clinton a "notícia" foi a "ex-favorita" que foi sendo ultrapassando pelo "jovem impressionante", que por sua vez, já vê agora o "fôlego" ser questionado). E enquanto agora todas as reportagens acerca de Palin vão sendo "enquadradas" na "narrativa" da "novata" que "impressiona", elas passarão depois a ser "enquadradas" na "narrativa" da candidata que "perdeu o fôlego". Se Toby Harnden tiver razão, e os candidato vice-presidenciais não contarem para esta eleição, então esta "euforia" em torno de Palin não terá qualquer efeito (positivo ou negativo) no resultado eleitoral de McCain. Se, por outro lado, a "euforia" em torno de Palin transformar as escolhas vice-presidenciais num factor em ter em conta no momento do voto, então, Peggy Noonan terá razão, e ou "the Sarah Palin choice is really going to work, or really not going to work. It's not going to be a little successful or a little not" : ou Palin e McCain têm a sorte da "notícia" ser a "novata que impressiona" até ao dia das eleições, ou então a perda de entusiasmo na comunicação social poderá contagiar os eleitores.
Posted by Bruno at 11:20 PM
Sobre Sarah Palin
Como escrevi ontem, Sarah Palin era-me totalmente desconhecida até há alguns dias atrás. Depois de ver o seu discurso de ontem, uma coisa posso dizer: tudo aquilo "funciona". As "bases" republicanas adoraram a senhora, os grupos anti-aborto deliram com alguém que manteve a gravidez de um filho com Síndroma de Down e cuja filha adolescente, que engravidou, em vez de abortar, vai casar e ter a criança, e o "small-town folk" encontrou alguém com quem se pode identificar, numa eleição em que todos os outros intervenientes (Obama, Biden e McCain) parecem "demasiado elitistas". Os observadores, em geral, ficaram impressionados: ao ler os comentários ao discurso, na imprensa internacional, encontra-se um consenso quase generalizado de que Palin teve ontem uma excelente prestação. De facto, Palin sabe falar para as televisões e é capaz de gerar entusiasmo junto do eleitorado. Por alguma razão, se vai ouvindo e lendo muita gente a dizer que "nasceu uma estrela": ao ver Palin falar, e ao ver a reacção de quem a ouve, eu próprio fico com essa ideia. Palin não só poderá ser um auxílio para McCain na conquista de votos para estas eleições, como se vai posicionando para ser uma futura candidata a presidente (se McCain perder, ela estará numa excelente posição para receber o favoritismo do establishment republicano, e se ganhar, a possibilidade muito falada de McCain fazer um só mandato colocá-la-ia como sua herdeira "natural" em 2012). Para perceber isso, o discurso de ontem foi suficiente. Falta saber, no entanto, se o sucesso que Palin parece ser capaz de vir a ter é algo de positivo ou não. Encher estádios e levar a audiências ao delírio não deve ser o critério de avaliação de um político. Ao longo dos próximos meses, Palin terá de mostrar que tudo aquilo que McCain disse dela no dia em que a anunciou como sua parceira eleitoral corresponde ou não à verdade, e que ela não é apenas mais um "político como os outros".
No entanto, enquanto a histeria (de crítica ou apoio) em torno de Palin vai continuando, talvez fosse bom lembrar que o candidato a presidente é McCain, e que Palin é apenas candidata à vice-presidência: ela é uma novidade, e nas nossas sociedades obcecadas com tudo o que pareça "novo", é normal que ela atraia atenções. Mas quem deve ser avaliado, acima de todos, são McCain e Obama. As suas escolhas para vice-presidente, acima de tudo, deverão servir como um meio de os avaliar a eles, como um meio de perceber o que eles pretendem dizer acerca de si próprios. E quanto a isso, quanto ao que a escolha de Sarah Palin diz acerca do que McCain parece querer fazer na Casa Branca, disse o que pensava há dias.
Posted by Bruno at 11:18 PM
setembro 03, 2008
Aborrecimentos (uma resposta a este post do meu amigo Paulo)
Meu caro, longe de mim menosprezar os (vários) talentos de Julianne Moore e Cate Blanchett (às quais até juntaria Natalie Portman e talvez mais uma ou duas na galeria do melhor que Hollywood tem para oferecer no que a actrizes diz respeito), mas dizeres que Naomi Watts "está atrás" mostra bem como ficaste demasiado tempo em Portugal, ao ponto de já nem a estadia nos EUA te dar algum juízo. Mas realmente irritante, é essa tua ânsia em falar dos benefícios que a dita estadia te tem dado, como livros a preços de saldo e a frequência regular das melhores livrarias do mundo, tudo com o propósito de me causares inveja. Curiosamente, nunca mencionas os lados menos positivos dessa tua visita aos EUA: pela altura em que estiveres de volta, já terás certamente uma barriga maior que o teu ego (quase uma impossibilidade), que ficará ainda mais diminuído pelas minhas incessantes (e depreciativas) referências à gordura que descuidadamente tens estado a acumular. Aí, nem os livros a preço de saldo te vão parecer terem valido a pena.
Posted by Bruno at 07:12 PM
setembro 02, 2008
Serviço Público
O Luciano Amaral coloca no seu blog uma entrevista a Naomi Watts, que para além de ser a Perfeição feita mulher, especialmente se filmada a preto e branco, como é o caso, é a melhor actriz que Hollywood tem para oferecer hoje em dia.
Posted by Bruno at 10:05 PM
setembro 01, 2008
Ferreira Leite e o Discurso de 7 de Setembro (publicado no Insurgente)

Os comentários feitos pelos meus colegas insurgentes João Luís Pinto e BZ acerca do discurso que Manuela Ferreira Leite irá fazer no próximo dia 7 de Setembro (ambos dizem que, devido às expectativas criadas, Ferreira Leite terá de produzir um discurso de conteúdo extraordinariamente relevante e com grande impacto) vêm confirmar aquilo que aqui escrevi há alguns dias: apesar de não haver qualquer "silêncio" por parte da líder do PSD, espalhou-se como uma epidemia pelas redacções da comunicação social uma "narrativa" assente na existência (falsa) desse "silêncio", e só o facto de essa "narrativa" existir faz com que seja sempre um problema, um problema que Manuela Ferreira Leite terá forçosamente de ultrapassar.
Tome-se o discurso do próximo dia 7 como exemplo: ele será visto e avaliado sempre à luz da "narrativa do silêncio", e nunca em si próprio. Para a comunicação social, o que "se espera" desse discurso é que "anule" a "postura silenciosa" de Ferreira Leite nos últimos meses. Ora, como Ferreira Leite, e variados responsáveis do PSD, se pronunciaram abundantes vezes durante esse período, e os jornalistas continuam a dizer que ela se manteve em "silêncio", fica bem evidente que nenhuma prova de que esse "silêncio" não existiu será suficiente para a comunicação social. Os jornalistas já estarão, à partida, convencidos de que Ferreira Leite se quer manter "silenciosa" (ou seja, sem "confrontar" o governo e sem "apresentar alternativas") e, como é apenas e só natural nos seres humanos, interpretarão o seu discurso de forma a confirmar aquilo que já pensavam anteriormente.
Por que é que isto é um problema para Ferreira Leite? Porque aquilo que passar do seu discurso será aquilo que os jornalistas quiserem que passe, ou seja, a interpretação que eles, nos jornais e telejornais, irão fazer do seu discurso. Nas edições anteriores, o discurso de encerramento da Universidade de Verão do PSD nunca foi transmitido em directo pelas televisões. Provavelmente, este ano não será diferente. Assim, e à excepção de quem estiver presente, a única impressão com que todas as pessoas ficarão acerca do discurso da líder laranja será a que obtiverem dos curtos excertos televisivos e das reportagens escritas, ainda por cima "enquadrados" por uma interpretação que está condenada a ser pouco favorável a Ferreira Leite. O João e o BZ ficarão desiludidos com a prestação da líder laranja, por muito bom que o discurso seja, pois só terão acesso a uma (curta) parte dele, e, repito, "enquadrada" por uma apreciação negativa da "prestação" de Ferreira Leite.
Como é que Ferreira Leite pode ultrapassar este obsctáculo? Ela não só precisa de fazer um bom discurso, como de fazer circular a ideia de que fez um bom discurso, num ambiente mediático em que já está instalada a ideia de que ela consegue dizer nada de relevante. Por isso a solução terá de passar por "mudar de ambiente": em vez de ficar dependente das televisões e dos jornais para a transmissão da sua mensagem, em versões que serão necessariamente truncadas e contrárias aos seus propósitos, Ferreira Leite deverá passá-la integralmente e sem "mediação". Os responsáveis laranja fariam bem em filmar a intervenção de Ferreira Leite no próximo domingo e disponibilizarem-na online para quem a quiser ver. Mas mesmo isso não será suficiente. Serão poucos os que se darão ao trabalhar de procurar a intervenção de Ferreira Leite no site do PSD ou no You Tube. Por isso mesmo, os responsáveis do PSD teriam de os entregar às pessoas: por exemplo, enviar para os endereços de e-mail dos principais blogs de comentário político o vídeo da intervenção de Ferreira Leite. Estes ficariam, logo à partida, lisonjeados pela relevância que o PSD lhes estaria a atribuir, o que talvez fizesse com que alguns deles se mostrassem mais favoráveis à "prestação" de Ferreira Leite. E, de qualquer das formas, os responsáveis do PSD estariam a criar as condições para que a interpretação da comunicação social tradicional não circulasse sem contradição: se alguns bloggers se mostrarem agradados pela prestação de Ferreira Leite, talvez alguns dos colunistas dos jornais seguissem a mesma linha (estas coisas pegam-se), e essa interpretação favorável do discurso de Ferreira Leite alastrasse aos cidadãos em geral, permitindo à líder do PSD ultrapassar o problema posto pelo sucesso da "narrativa do silêncio".
Será, é claro, um risco: se o discurso não for bom, a reacção dos bloggers, mesmo daqueles que à partida poderiam ser mais favoráveis a Ferreira Leite, será bem mais agressiva do que a que circulará na comunicação social, e Ferreira Leite perderá toda e qualquer hipótese de ultrapassar este seu problema. Mas se ela não correr esse risco, é garantido que Ferreira Leite ficará à mercê do "enquadramento" que a comunicação social fizer do seu discurso. Se correr esse risco, ao menos terá uma oportunidade de passar por cima desse obstáculo. E se o discurso for suficientemente bom, e Ferreira Leite consiga, a partir de algumas apreciações positivas, desencadear uma reacção em cadeia que propague uma interpretação alternativa à que a comunicação social irá passar do seu discurso (no fundo, propagar uma epidemia contrária à da "narrativa do silêncio"), o risco será certamente compensador.
Posted by Bruno at 10:21 PM