Escrito pela mão invisível de Bruno Alves. Comentários e opinião: alves.bm@netcabo.pt

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agosto 30, 2008

A Escolha de Sarah Palin Mostra O Que McCain Deseja Fazer Na Casa Branca

Sarah Palin.jpg

Quando John McCain disse que Sarah Palin "é exactamente quem eu preciso, exactamente quem este país precisa", já os jornalistas da CNN (a televisão através da qual acompanhei o anúncio da escolha de McCain para o lugar de vice-presidente) haviam começado a dar a conhecer a biografia da escolhida: nascida no estado do Idaho, cresceu na pequena cidade de Wasilla, no Alaska, da qual viria mais tarde a ser mayor, antes de há dois anos ter sido eleita governadora do Estado (tendo trabalhado como jornalista desportiva e sendo uma ex-miss, certamente que será alvo da já habitual arrogância "europeia" que gosta de acusar os políticos americanos de serem "burros". Como é costume, ainda vão ter uma surpresa desagradável). Mas quando o nome de Palin começou a ser apontado como o que seria anunciado por McCain, os jornalistas da CNN (e presumo que de muitos outros canais e jornais) pareciam ter sido apanhados completamente de surpresa, sem saberem muito acerca de Palin.

Essa foi uma das razões pela qual a escolha de Palin foi uma excelente jogada de propaganda. Depois do discurso de Obama na noite anterior, McCain teria de captar as atenções das televisões, para que o seu adversário não conseguisse impor a sua "narrativa" antes da Convenção Republicana da próxima semana. Só pelo facto de Palin ser uma mulher, a escolha de McCain atrairia as atenções dos media. Mas por ela ser uma quase desconhecida, estes tiverem de passar horas e horas a tentarem descobrir algo acerca dela, desviando por completo as suas atenções (e as da opinião pública) do que Obama dissera na noite anterior.

Karl Rove, o "arquitecto" das vitórias eleitorais de George W. Bush, disse que ao escolher Palin, McCain tentava apelar às eleitoras de Hillary Clinton que parecem não ter seduzidas por Obama, e esse é um comentário que fez algum sucesso. Mas vários outros factores fazem de Palin uma escolha aparentemente vantajosa para John McCain: ela apela à "base" eleitoral conservadora do partida Republicano (anti-aborto, membro do NRA, mãe de 5 filhos, um deles prestes a servir no Iraque), sem no entanto deixar de ter outras posições mais "abertas" e apelativas a sectores mais "independentes" (por exemplo, apesar de ser contra o "casamento gay", vetou, enquanto governadora do Alaska, uma lei que visava impedir o Estado de atribuir a casais homossexuais "benefits" estatais), e parece ter colaborado bem como os Democratas do seu estado (o que será claramente uma vantagem caso ocupe a vice-presidência se, como é expectável, os Democratas mantiverem o controlo do Congresso).

O seu principal handicap é a sua "falta de experiência". A candidatura de Obama já começou a dizer que ao escolher Palin, McCain perde toda a legitimidade para acusar o seu adversário de inexperiência. Sinceramente, não sei se esse será um problema tão grande: em primeiro lugar, porque Obama não deverá estar muito interessado em fazer da "inexperiência" de Palin um tema de campanha, pois de cada vez que isso for mencionado, apenas chamará a atenção para a sua própria falta de experiência. Em segundo lugar, o facto de Joe Biden ser mais experiente não permite a Obama ultrapassar essa sua fragilidade, pois no seu "ticket", o inexperiente é o próprio candidato a Presidente, não o subalterno. No "ticket" McCain-Palin, o próprio McCain traz a "experiência": enquanto Obama (a "cara fresca") escolheu Biden (o "experiente" senador) para o "complementar", McCain optou por alguém que crê ser diferente dele apenas na idade e no sexo; Obama escolheu alguém que parece vir para ocupar um vazio (a experiência em política externa) na sua candidatura, enquanto McCain escolhe alguém que reforça a sua própria imagem, uma "maverick" mais jovem que enquanto Governadora não teve medo de enfrentar o "establishment" e o seu próprio partido, ao lado do velho "maverick" que no Senado nunca hesitou fazer o que lhe passava pela cabeça.

Este passado de "maverick" no Alaska é a terceira razão pela qual a campanha de Obama certamente hesitará em apostar na carta da inexperiência de Palin: na realidade, ela tem uma experiência (se bem que curta) que nenhum dos outros três candidatos (Obama, Biden e McCain) tem, a de exercício do poder executivo, enquanto governadora do seu Estado. Ao contrário do "inexperiente" Obama ou dos "experientes" Biden ou McCain, Palin sabe o que é comandar um Governo, lidar com um aparelho burocrático e, como a equipa de McCain disse, "enfrentar um sistema corrupto". Ao contrário de Obama, "que passou os últimos dois anos dos seus quatro no Senado a candidatar-se a Presidente", Palin passou-os a preencher "um registo de reforma e bipartidarismo de que outros apenas podem falar".

É também por isto que a escolha de Sarah Palin mostra o que McCain deseja de uma sua eventual Presidência: ao escolher alguém que, nessa sua experiência de exercício do poder executivo, foi capaz de cortar despesas orçamentais no seu estado e que impediu a construção (e gasto de dinheiro federal) na famosa "Bridge to Nowhere" de que McCain constantemente fala como exemplo do delírio despesista e eleitoralista do Congresso nos últimos anos, McCain mostra que quer seguir uma política que visa inverter o caminho dos anos recentes.

Dificilmente haverá quem precise de maior "inversão" que o partido Republicano (e digo o partido Republicano por me estar a referir aos congressistas republicanos, e não a George Bush). Em 2004, aquando da reeleição de Bush, ninguém esperaria uma derrota como a que os republicanos sofreram nas eleições para o Congresso de 2006. Em 2004, Rove e Bush falavam do "realignment" que sonhavam fazer no panorama eleitoral americano, na construção de uma "permanente coligação de votos" em torno do partido Republicano e da sua agenda, como Roosevelt conseguira em 1932: depois das medidas para a educação do "No Child Left Behind", da "faith-based initiative" para as políticas sociais, e o aumento da despesa em programas como o Medicare e o Medicaid, Bush e Rove pretendiam promover uma reforma da Segurança Social e uma abertura da lei de imigração (a primeira visando conquistar a classe média branca, a segunda a crescente massa de eleitores hispânicos). Para seu azar, a política de Bush apenas conseguiu destruir a coligação de votos que o trouxera para o poder, e não a construção de outra: os cortes de impostos agradaram aos sectores libertários do partido, mas alienaram os "fiscal conservatives" preocupados com o simultâneo aumento da despesa federal; esses aumentos de despesa, por sua vez, agradaram à "base" evangélica que via os seus programas de assistência social ganharem apoio federal, mas desagradou não só a esses "fiscal conservatives" como aos mais libertários; e se estes últimos apoiavam a nova lei de imigração, esses conservadores sociais não a conseguiam aceitar; algo semelhante aconteceu com a política externa, que agradava aos "falcões", mas que desagradou a isolacionistas preocupados com o nível de despesa que ela acarretava.

A derrota da reforma da Segurança Social marcou o colapso dessa "coligação" republicana de libertários, "conservadores fiscais", conservadores sociais e "falcões". Quando Bush não a conseguiu ver aprovada no Congresso, rejeitada (também) pelo seu próprio partido, a sua autoridade ficou claramente fragilizada. Com eleições em 2006, os congressistas republicanos não estavam tão dispostos quanto Bush (que não precisava de se preocupar com uma reeleição à qual não poderia concorrer) a fazer passar medidas eventualmente impopulares. Assim, não foi de espantar que a lei de imigração (essencial no projecto de "realignment" de Bush e Rove) não passasse, e que o Congresso seguisse no seu delírio despesista, que por entrar em contradição com aquilo que o partido Republicano se comprometera a fazer no "Contract with America" de 1994, destruí a sua credibilidade e fez perder a base eleitoral de apoio.

Ao escolher alguém que enquanto governadora do Alaska foi capaz de cortar a despesa, alguém com posições socialmente conservadoras, e que tem um filho prestes a partir para o Iraque, McCain parece querer reconstruir essa "coligação" de libertários, "conservadores fiscais", conservadores sociais e "falcões", que constituía a base de apoio do partido Republicano, e que se desintegrou nos últimos anos. Mas ao mesmo tempo, escolhe alguém que, enquanto governadora do Alaska, foi capaz enfrentar não só o Congresso federal americano como o seu próprio partido, uma "maverick" como McCain gosta de se ver a si próprio, o que mostra que candidato republicano parece estar disposto a, caso venha a ocupar a Casa Branca, ir contra os interesses imediatos dos congressistas à procura de reeleição em 2010.

Em suma, a escolha de Sarah Palin tem razões para satisfazer não só os republicanos, como os americanos em geral: ao escolher alguém com o perfil e o passado de Sarah Palin, McCain mostra estar disposto a conquistar não só os "fiéis", como também os "independentes" necessários aos republicanos para reconquistarem o poder; e mostra também que tem a vontade de, caso venha a ser eleito, promover a política reformista de que os EUA há muito necessitam.

Posted by Bruno at 09:43 PM

agosto 29, 2008

No Leitor de DVD

There Will Be Blood

Em Fevereiro, escrevi sobre o filme.

Posted by Bruno at 09:34 PM

agosto 28, 2008

Operação Areia Para Os Olhos 2

aqui falei disto: No décimo episódio da primeira temporada da série The Wire, uma das agentes da unidade de investigação na qual se centra o enredo é alvejada por uns membros do gang investigado. No décimo primeiro episódio, os comissários da polícia de Baltimore ordenam uma série de raids que, possibilitando algumas detenções e apreensões, boas para mostrar à imprensa e para dar a ideia de que a polícia se está a "mexer", acabam por prejudicar a investigação acerca desse grupo criminoso, pois atingidos pela operação policial, suspendem a sua actividade, impossibilitando os agentes da dita unidade de prosseguir as suas escutas e a observação do modus operandi dos criminosos. Ao ver as imagens da "mega-operação policial" esta madrugada levada a cabo em vários "bairros problemáticos" de Lisboa, não pude deixar de me lembrar disto. Depois de uma "Operação Areia Para os Olhos" no Porto, temos uma sequela em Lisboa.

Esta "rusga" é apenas mais um sintoma da forma pouco inteligente como o combate à criminalidade é visto em Portugal. Bairros como aqueles são palco de violência quase diária, ou servem de supermercado para os traficantes de droga que tenham conseguido conquistar aquele território. Aqueles que lá tiverem o azar de viver são permanentemente confrontados com a impunidade daqueles que transformam a sua vida num Inferno. Ocasionalmente, aquilo que para essas pessoas é o triste retrato do seu quotidiano aparece nos telejornais, e inquieta a generalidade da população, subitamente preocupada com o "aumento" da insegurança. Essa preocupação, obviamente, preocupa o Governo, que teme o roubo de votos por parte da oposição, e que logo manda a polícia "tornar-se vísivel" para "as populações", nas palavras da senhora comissária da PSP. Convém perceber que a "visibilidade" que se procura ter é a dos telejornais, e que "as populações" a quem ela se dirije são as pessoas que estão em casa ver televisão, não aqueles que diariamente são forçados a conviver com a violência e o tráfico de droga. Para esses, "mega-operações" como esta, por natureza excepcionais, não resolvem os seus problemas "habituais": hoje a polícia esteve no seu bairro, fez algumas detenções, apreendeu algumas armas, mas amanhã, os traficantes estarão de volta, e daqui a algumas semanas, um novo confronto entre dois gangs trará de novo os tiros e as mortes. Ao contrário do que pretende a senhora comissária, a "a mega-operação policial" não trouxe a "tranquilidade" àquelas pessoas. Pelo contrário, muitas delas, inocentes de qualquer crime, terão ficado tudo menos "tranquilas" quando foram acordadas pela polícia a entrar nas suas casas. Quando a polícia trabalha para as televisões, o único resultado que interessa é ser vista "em acção". Se dessa "acção" resulta algo de prático ou não é secundário, o que faz com que a arbitrariedade dos "alvos" das "rusgas" seja uma vantagem (por mostrar "actividade"), não um contratempo (por não serem inspeccionados aqueles que realmente o deveriam ser).

As propostas do dr. Pinto Monteiro são outro exemplo de como estes problemas são encarados em Portugal, mais uma prova de como o debate sobre o combate à criminalidade está sempre a balançar entre a histeria generalizada que surge sempre que acontece alguma coisa, e a mais completa obscuridade, quando os partidos da oposição nada têm a ganhar ao falar dela. Assim, é inevitável que nada se faça e nada mude, a não ser o sentimento de insegurança das pessoas, que cresce à medida que o tempo passa. É a forma de garantir que nada se poderá resolver. O "virar das costas" mantêm tudo como está. A histeria não resolve aquilo que pretende. E, como escrevi em 2005, cria problemas que não existiam. Os casos que recentemente captaram a atenção das televisões, e que motivaram os vários diagnósticos de "aparecimento de novas formas de criminalidade violenta", mostram que não me enganei. Os responsáveis como dr. Pinto Monteiro ou o Ministro da Administração Interna, por sua vez, também não mudam de atitude. As mesmas pessoas que durante anos deixam que se crie um clima de impunidade, logo aparecem a pedir "alterações legislativas" e maior "severidade" na aplicação da lei, palavras que apenas mostram a sua impotência para lidar com o problema, o que faz com que os cidadãos cumpridores da lei não se sintam seguros, e os que a ignoram sintam que podem fazer o que quiserem. Ao contrário do que muito boa gente parece pensar, a criminalidade violenta veio para ficar. E enquanto a política reagir a ela com "mega-operações", em vez de mudar por completo a forma como actua nos "bairros problemáticos" das grandes cidades, e os políticos (do Governo e da oposição) não começarem tratar estas questões de outra forma que não a sua habitual alternância entre a histeria e o adormecimento, a criminalidade violenta tenderá a tornar-se um problema cada vez mais grave.

Posted by Bruno at 09:36 PM

agosto 27, 2008

Era Uma Vez Um Atentado

A propósito do plano (aparentemente pouco credível) de assassinato de Barack Obama, lembrei-me do famoso "atentado" à vida de François Mitterrand, contado aqui por Daniel Finkelstein:

"I’ve had an idea for a film and I’d like to test it out on you. The tale is a little far-fetched, I admit, but I think the story rocks along nicely.

It starts with a middle-aged politician. He’s a national figure, famous, but just past his peak. You can see the disappointment in his face. It’s one o’clock in the morning and we see our man leaving his favourite restaurant and getting into his modest car. He is heading home.

It is not long before he realises he is being followed. Danger! He screeches to a halt, leaps out of his vehicle, vaults the iron railing and dives for cover in a bed of geraniums. He’s in the nick of time. Seconds later there is sub-machinegun fire. His car is riddled with bullets.

The next day’s front pages tell of the escape. The politician’s coolness is praised, his enemies are described as being capable of anything.

Here comes the twist. A man comes forward to claim responsibility. And more. He says that the politician colluded with him, that the assassination attempt was a fake, designed to boost a flagging career. The politician hotly denies it and everyone believes him. But there is a dramatic resolution to the narrative. The fake assassin had sent a letter to himself before the fateful night. And when the police open it they read the whole story. The exact record of what is to happen — where the car will stop, the geraniums, the lot. The politician is caught.

Good so far? How do you think it should end? I’ll tell you my thought. As the credits roll, you see the face of the politician. The camera pulls back and you realise with a start that he has become President of France.

For the story I have recounted is not fiction. It is not even “inspired by real events”. It is the true story, every word of it, of François Mitterrand."

Posted by Bruno at 10:00 PM

agosto 26, 2008

"Uma Excelente Escolha"

"Barack Obama escolheu como seu vice o senador democrata Joseph Biden. Foi uma excelente escolha", escreve hoje no DN Mário Soares, um feroz crítico da intervenção americana no Iraque, acerca de um senador americano que votou a favor da mesma.

Posted by Bruno at 09:36 PM

O "Silêncio" de Ferreira Leite (publicado no Insurgente)

Augusto Santos Silva, Ministro dos Assuntos Parlamentares, respondeu a um artigo de Manuela Ferreira Leite no Expresso, no qual a líder do PSD criticava o “inaceitável silêncio” do Governo acerca do “alarmante aumento da criminalidade” em Portugal. Santos Silva diz que esta afirmação da líder laranja “encerra uma ironia singular porque se aplica que nem uma luva à sua própria atitude”. Se não fosse pelo tom exagaderamente pomposo das palavras de Santos Silva, eu sentir-me-ia tentado a dizer que se há afirmação que “encerra uma ironia singular”, é a do ministro socialista: Santos Silva respondeu a um artigo de Ferreira Leite no Expresso. Ferreira Leite escreve uma coluna regular nesse jornal. Ora, se o que ela lá escreve é, para Santos Silva, merecedor de resposta, é porque constitui uma tomada de posição da líder laranja. Assim, a coluna de Ferreira Leite no Expresso, que desde que ela se tornou líder ainda não foi interrompida, “conta” enquanto veículo de afirmação das suas opiniões políticas. Ao longo de todos estes meses, Manuela Ferreira Leite manteve-se tudo menos “silenciosa”, e a própria existência das declarações de Santos Silva são uma prova de que esse é um mito que não corresponde à realidade.

Para além dessa coluna no Expresso, na qual já por várias vezes defendeu uma redefinição das funções do Estado, Ferreira Leite já fez várias intervenções públicas, com entrevistas e conferências de imprensa, quando julgou necessário e importante fazê-las. E já vários dos membros da sua direcção (os jornalistas esquecem-se que o PSD não é o CDS e Ferreira Leite não é Portas, existe mais gente no partido e Ferreira Leite parece querer que essas pessoas sejam tão visíveis como ela) vieram a público com declarações sobre qual deverá ser o rumo do partido nos próximos tempos. Percebe-se por que razão Santos Silva ou Menezes insistem em afirmar algo que não corresponde à realidade: interessa-lhes danificar a percepção pública de Ferreira Leite. Mais estranha é a insistência com que os jornalistas se referem ao tal “silêncio”. Claro que os jornalistas dirão que as colunas do Expresso não “contam”, que as entrevistas e conferências de imprensa foram “poucas”, e que declarações de subalternos não têm o mesmo “impacto”. Mas é aqui que fica evidente o que incomoda os senhores jornalistas no suposto “silêncio” de Ferreira Leite: não é o facto de ela não “falar”, mas o facto de ela falar quando ela quer, como ela quer e onde ela quer, e não se sujeitar ao “calendário mediático” que os senhores jornalistas gostariam de lhe impôr, e ao qual todos os outros políticos (talvez à excepção de Jerónimo de Sousa) se submetem sem pestanejar.

No entanto, Manuela Ferreira Leite tem de ter cuidado com a forma como esta “narrativa” do seu suposto “silêncio” se está a propagar na comunicação social. Porque “propagar” é o termo certo: alguém começou por fazer referências ao “silêncio”, e como uma gripe, essa ideia “pegou-se” à comunicação social em geral. O perigo para Ferreira Leite é que a “epidemia” alastre à opinião pública em geral, afectando a confiança dos eleitores na sua pessoa. Porque o facto de essa “narrativa” não corresponder à realidade não impede que ela se torne um problema. Ferreira Leite poderá conseguir “dar-lhe a volta”: pode ser que os eleitores, mesmo acreditando nessa falsa “narrativa” do “silêncio” de Ferreira Leite, depositem a sua confiança nela, se o “silêncio” for algo que valorizem (fartos de assistirem a políticos que “só sabem dizer mal”, podem sentir-se atraídos por um político acerca de quem tenham a percepção de que não tem esse comportamento); ou pode ser que o português comum consiga perceber como a “narrativa” do “silêncio” é falsa, e a “epidemia” fique restrita à quarentena das redacções dos jornais e das televisões. Mas só facto de ela existir faz com que seja sempre um problema, um problema que Manuela Ferreira Leite terá forçosamente de ultrapassar.

Posted by Bruno at 09:33 PM

agosto 23, 2008

A RTP É Que Deveria Optar Pelo Silêncio

No Telejornal da RTP desta noite, uma das notícias afirmava que o PSD tinha pedido a demissão do Ministro Rui Pereira. A dada altura, e ainda durante a mesma reportagem, a jornalista dizia que Ferreira Leite continuava "em silêncio", apesar de isso ter sido dito numa notícia precisamente sobre uma tomada de posição oficial do partido liderado por Ferreira Leite. Mais rídiculo era difícil (embora o Expresso tenha ficado lá perto: na edição desta semana, consegue fazer primeira página com uma declaração de Ferreira Leite, e no interior, pode ler-se uma "análise" do tal "silêncio" cuja existência a própria primeira página mostra não ser mais que uma ficção).

Posted by Bruno at 09:46 PM

agosto 22, 2008

A Ler 2

O post de Brian Cullen acerca de como a intervenção russa na geórgia mostra mais a fraqueza da Rússia do que a sua força:

"We shouldn’t be surprised that supposedly resurgent Russian ‘imperialism’ has dealt its first blow in energy-rich central Asia. Russia’s actions are a result of its needs as a petro-economy. Its economic weaknesses led to this attack – not a desire to take over the world.

(...)This is the twenty-first century, not the twentieth. When we measure Russia up in the terms of today’s world it scores pretty poorly. For instance, compared to China and India – in terms of economic strength – Russia comes a distant third. As Martin Wolf pointed out in the FT in February, any concerns that Russia’s economy is resurgent under Putin are woefully misplaced.

Russia’s behaviour is unacceptable, and our response must be robust. But there need be no panicked rush about that response. Russia’s economic position is unsustainable, and eventually it will be forced to embrace the West – not confront it. China, India, and Western market states are robust enough to persevere – Russia’s actions are merely its convulsions as it faces up to its uncomfortable economic reality. It’s a weak giant gasping for breath under a brutish leadership – far from a resurgent superpower."

Posted by Bruno at 09:48 PM

A Ler

O artigo de Gerard Baker sobre o arrefecer dos ânimos em torno de Barack Obama:

"Why has the Democrat failed to capitalise on the mood of deep discontent within the country?

First, it's true that the negative campaigning by John McCain has hurt him somewhat. But there's nothing wrong with that. The 2008 presidential election has so far been a referendum on Senator Obama. it's perfectly reasonable for the Republicans to make the case against him, and the attacks have been fair. My account of the McCain campaign above was a caricature, of course. There's been no mention of Senator Obama's race or the silly fiction that he might be a Muslim.

The fact is that the 47-year-old Democrat, less than four years in the Senate, is still largely a blank page for American voters: a great orator and an attractive figure, but unknown and untested. The Republicans have been filling in some of the gaps and pointing out how thin his real biography is.

The second problem is that Senator Obama is having difficulty - curiously enough - with Democratic voters. Polls indicate that while Senator McCain has just about locked up the votes of those who supported other Republicans in the primary election, Senator Obama is still regarded with mistrust and dislike by large numbers of Hillary Clinton's former supporters.

For many of these working-class types, he's just a bit too cerebral, a little vague. His campaign lacks both substance and passion. While unemployment is rising, incomes are slipping fqarther behind rising inflation and house prices are falling, Senator Obama keeps talking about hope and change, keeps promising a new type of politics. These benighted Democratic voters don't really want a new type of politics. They want to know what exactly he's going to do to raise their living standards.

The irony for Senator Obama is that he has built a campaign on a pledge to put an end to cynicism in the political system, but the more he offers only vague promises of hope, the greater the danger that he increases voter cynicism about politicians in general and him in particular.

The third problem is that events have not helped the Democrats. The war in Georgia has emphasised that the world is a dangerous place, and that simply being willing to talk to your enemies, as Senator Obama sometimes seems to suggest, isn't going to keep your people safe.

The key to understanding the presidential campaign as it enters its phase of maximum intensity is this. The more the campaign is about the concerns of the American voter, especially the state of the economy but also the general anxiety about the direction of the country, the more likely they are to throw the Republicans out.

But the uncomfortable truth for the many devoted fans of Senator Obama is that the more the race is about him, the less likely he is to win it."

Posted by Bruno at 09:44 PM

agosto 21, 2008

A América e o Proteccionismo

Numa altura em que John McCain ultrapassa Barack Obama nas sondagens para as eleições presidenciais de Novembro, e em que está para a breve o anúncio dos candidatos vice-presidenciais de ambos os lados (leia-se o que escreve Toby Harnden acerca dos possíveis "nº2" de Obama) Jadish Bagwahti prefere escrever sobre a "onda proteccionista" que parece varrer os EUA, e na qual Obama, em particular, não hesita em navegar (ou talvez explorar hipocritamente):

"The US role in the failed Doha trade talks illustrates the collapse of American leadership. Here, the US has been the central spoiler, refusing to cut its trade-distorting subsidies significantly even though they are universally recognised as intolerable. Its latest offer was to cap them at $14.5bn (€9.84bn, £7.76bn) but that well exceeded current payouts, estimated at $9bn. With only 2m farmers in the country, the US still attacked India for asking for an enhanced “special safeguard mechanism” to be used in case of an import surge, when India has far smaller, often subsistence, farms and nearly two-thirds of its population in rural employment.

While making negligible concessions itself, the US was insisting on difficult concessions from India, made even more troublesome politically because of the insubstantial offer on US subsidies. Besides, when the Doha talks started, the developing countries were not even supposed to be making concessions in agriculture. Throughout the Doha negotiations, the office of the US trade representative and US Congress pointed a finger at others – at Brazil, then at India and then also China – but have never considered their own roles.

The US has also muscled in to its bilateral preferential trade agreements (nearly all with small, developing nations) conditions unrelated to trade at the expense of their partner nations. Thus a country that is hardly an exemplar on labour rights, where the right to strike has been severely restrained since the Taft-Hartley legislation more than half a century ago, where union membership in the private sector has declined to less than 10 per cent of the labour force, and which has not ratified all the International Labour Organisation’s core conventions, has had the effrontery to impose standards on others in these PTAs. Why?

It is evidently not because it practises what it preaches and demands. Rather, it is because the labour lobbies believe, without any compelling evidence, that American wages have been stagnant because of competition from the developing nations. Further, they believe that if one could only stand Thomas Friedman of “flat earth” fame on his head and flatten the earth by raising these countries’ labour costs up to US levels, that would help reduce competition. In short, this is what economists call “export protectionism”.

What is doubly offensive about this exercise of political muscle is that it is advanced in the language of altruism: not by saying frankly that it is because “our unions are worried about competition” but by pretending that it is “in your workers’ interests”. An altruistic hegemon would not be playing these games; a selfish hegemon will do little else.

Senator Barack Obama does not quite get this. By asking, as part of his agenda for change, that the US should now impose even more draconian labour requirements in future PTAs, and that the North American Free Trade Agreement should be revised to incorporate yet tougher labour requirements, he is making export protectionism, and the reputation of the US as a selfish hegemon, worse, not better. Some change.

Change is indeed in order, although along totally different lines. It must reflect a holistic view of the new reality that the US confronts. In particular, the economic anxiety that overwhelms US workers today stems from the increased fragility of their jobs."

Posted by Bruno at 09:28 PM

agosto 20, 2008

Uma "Visão Conservadora"

O Presidente da República decidiu vetar a proposta de Lei do Divórcio, com o argumento de que esta lei, permitindo a uma das partes a rescisão unilateral do contrato matrimonial sem compensação da parte lesada, introduziria uma «desprotecção do cônjuge que se encontre em situação mais fraca - geralmente a mulher - bem como dos filhos menores». Reagindo à decisão, uma porta-voz do PCP afirmou que o veto presidencial denunciava uma "visão conservadora" do casamento e da família. Faço uma pergunta: será que o PCP acha que a necessidade de um empregador pagar uma indemnização a um trabalhador que despeça corresponde a uma "visão conservadora" das relações laborais?

Posted by Bruno at 09:43 PM

agosto 19, 2008

O Primeiro-Ministro Em Todo o Seu Esplendor

Ontem, o Primeiro-Ministro José Sócrates regressou de férias com mais uma daquelas sessões de propaganda que constituem o exclusivo da sua governação. À saída da festa, afirmou que o Governo está quase a cumprir a sua famosa promessa dos "150 mil empregos". Esta declaração mostra o Primeiro-Ministro em todo o seu esplendor: num período em que um número significativo dos portugueses enfrenta sérias dificuldades devido à crise que o governo garantiu que nunca nos afectaria, o Primeiro-Ministro não hesita em vangloriar-se com o suposto "êxito" da política governativa, menosprezando a realidade sentida na pele pelo português comum. Num partido que não se cansa de falar da "sensibilidade social", este completo desdém pelas dificuldades reais das pessoas reais é ainda mais chocante e ofensivo.

Posted by Bruno at 09:52 PM

agosto 18, 2008

Rússia

O Presidente russo, Dimitri Medveded, justificou a acção do seu país na Geórgia com o argumento de que "ninguém matará os nossos cidadãos e ficará impune". Compreende-se. O assassínio de cidadãos russos é uma actividade que o Kremlin quer guardar para si.

Posted by Bruno at 08:58 PM

agosto 16, 2008

Ricky Gervais

Fame

Posted by Bruno at 09:41 PM

agosto 15, 2008

O Que Realmente Incomoda Os Jornalistas no "Silêncio" de Ferreira Leite

Hoje de manhã, na SIC Notícias, o pivot e um jornalista convidado comentavam a "festa" do Pontal de ontem à noite, e a dada altura, o tema do "silêncio" ("cada vez mais pesado") de Manuela Ferreira Leite foi abordado. Este é talvez o assunto mais ridículo da debate político português dos últimos tempos. É que, na realidade, não há "silêncio" nenhum, e só mesmo uma hostilidade mal disfarçada à líder laranja pode explicar a persistência das referências a algo que não existe: Ferreira Leite tem uma coluna regular no Expresso, na qual já por várias vezes defendeu uma redefinição das funções do Estado. Ainda para mais, já fez várias intervenções públicas, com entrevistas e conferências de imprensa, quando julgou necessário e importante fazê-las. E já vários dos membros da sua direcção (os jornalistas esquecem-se que o PSD não é o CDS e Ferreira Leite não é Portas, existe mais gente no partido e Ferreira Leite parece querer que essas pessoas sejam tão visíveis como ela) vieram a público com declarações sobre qual deverá ser o rumo do partido nos próximos tempos. Claro que os jornalistas dirão que as colunas do Expresso não "contam", que as entrevistas e conferências de imprensa foram "poucas", e que declarações de subalternos não têm o mesmo "impacto". E aqui fica evidente o que incomoda os senhores jornalistas no suposto "silêncio" de Ferreira Leite: não é o facto de ela não "falar", mas o facto de ela falar quando ela quer, como ela quer e onde ela quer, e não se sujeitar ao "calendário mediático" que os senhores jornalistas gostariam de lhe impôr, e ao qual todos os outros políticos (talvez à excepção de Jerónimo de Sousa) se submetem sem pestanejar.

Posted by Bruno at 06:21 PM

agosto 14, 2008

A Ler

Agora que uma missão humanitária americana está a operar na Geórgia (com equipamento militar americano), vale a pena ler este texto de James Forsyth sobre o significado da intervenção americana no conflito:

"The New York Times reports that Russian troops are still in the key Georgian cities of Gori and Poti; reports about them handing over control of Gori to the Georgian police appear to have been premature. With US humanitarian aid also flowing into Georgia in US military transports, the likelihood of Georgia turning into a battle of wills between Russia and the West has increased.

The New York Times, whose coverage of the crisis has been superlative, quote a senior Pentagon official describing the strategic thinking behind the Pentagon-led humanitarian mission thus:

“to show to Russia that we can come to the aid of a European ally, and that we can do it at will, whenever and wherever we want.”

The State Department is also taking a tougher line, with Secretary Rice saying:

“This is not 1968, and the invasion of Czechoslovakia, where Russia can invade its neighbor, occupy a capital, overthrow a government and get away with it,” she said. “Things have changed.”

As we say in our editorial this week, if Georgia is prepared to respect South Ossetia and Abhazia’s right to determine their own destinies, then the same right should be accorded to Georgia. If Georgia wishes to become more Western-oriented and join Nato, then it should be allowed to. To back away from offering Georgia Nato membership now, would be to encourage further Russian aggression in its near abroad."

Posted by Bruno at 10:11 PM

agosto 13, 2008

Apatia 2008

Não quer saber das eleições americanas de Novembro? Aprenda como pode escapar à pressão das discussões sobre Obama e McCain sem que ninguém se aperceba que você não sabe o que é um "swing state":


Today Now!: How To Pretend You Give A Shit About The Election

Posted by Bruno at 10:16 PM

agosto 12, 2008

A Ler

No Insurgente, os comentários dos leitores ao texto que também aqui publiquei ontem: alguns apontando algumas incorrecções no texto, outros (aos quais tento responder) criticando o meu argumento central.

Posted by Bruno at 10:03 PM

agosto 11, 2008

O Urso Ferido

A 31 de Março de 1989, Vasco Pulido Valente escrevia, n'O Independente, um artigo (As origens da III Guerra Mundial) no qual criticava severamente todos aqueles que aplaudiam a perestroika na URSS e a consequente "liberalização" do país. Para Vasco Pulido Valente, essa "liberalização" faria com que o "império russo" começasse a "tremer nos fundamentos" e ficasse numa "péssima posição para resistir aos choques que o esperam", dos quais resultariam apenas e só um "caos de nações independentes, condenadas ao conflito externo e à tirana interna": na URSS como no "antigo império dos Romanov" viviam "quinze nacionalidades e dez etnias diferentes", que só o "chicote" e a "força bruta" mantinham em ordem. Se o "chicote", por virtude da "liberalização", deixasse de ser usado, a "desintegração" do "império russo", como a desintegração dos Impérios Otomano e Hasburgo décadas antes, apenas traria o conflito étnico e um eventual alastramento do conflito (a tal "III Guerra Mundial" cujas "origens" Vasco Pulido Valente via na desintegração do "império russo").

A Guerra da Geórgia é ainda um dos restos deixados por essa desintegração. Quando a Geórgia se libertou da tutela soviética, duas regiões no seu território (a Abkhazia e a Ossétia do Sul) mantinham uma maioria de "russos étnicos" na sua população. A Ossétia do Sul declarou-se uma República Soviética (um acto que não foi reconhecido pela Geórgia), e após uma derrota imposta às forças militares georgianas, os separatistas da Ossétia realizaram o primeiro de dois referendos (não reconhecidos) nos quais a maioria da população aprovou a reunião do território com a Ossétia do Norte, sob a soberania russa. A Geórgia sempre reclamou que a Ossétia do Sul fazia parte do seu território, e mostrou-se até pronta a oferecer maior autonomia política, proposta rejeitada pelos separatistas, cada vez mais próximos da Rússia, principalmente após Vladimir Putin lhes ter entregue passaportes russos, que na prática os transformam em cidadãos da Rússia, dessa forma "obrigada" (por si própria, note-se) a protegê-los. Após confrontos entre forças militares georgianas e separatistas da Ossétia, a Rússia interveio, com o argumento de que uma "limpeza étnica" estaria a ter lugar. A comunicação social ocidental entretém-se a tentar identificar quem é o "mau da fita" nesta crise, e qual o "injustiçado". Será difícil arranjar uma resposta que satisfaça toda a gente. Mas há algo bem mais importante em toda esta crise: perceber por que razão a Rússia interveio.

Ao contrário do que escreve João Marques de Almeida no Diário Económico, a acção russa na Geórgia não significa o "regresso daquela para o topo da hierarquia do poder mundial". Antes pelo contrário: a Rússia ataca a Geórgia porque sabe que está fraca, e acima de tudo, a enfraquecer. A intimidação de países vizinhos, o abuso da sua posição no mercado energético, ou os estranhos assassinatos de opositores ao regime de Putin, fizeram com que os observadores ocidentais falassem do "ressurgir" do "urso russo". O crescimento económico russo, à boleia do aumento do preço dos produtos energéticos, apenas lhes confirmou essa ideia.

Na realidade, o "urso" está ferido, e com gravidade: como notou há tempos Fraser Nelson, o futuro demográfico da Rússia é negro, devido aos graves problemas de abuso de de drogas e bebidas alcoólicas, e ao elevado número de pessoas contaminadas com o HIV; no plano militar, o orçamento de Defesa da Rússia correspondia a apenas 5% do americano. Por outro lado, a receita para o "milagre económico russo" poderia ser também a receita para o seu desastre: uma eventual queda do preço dos produtos energéticos seria um rude golpe para uma economia excessivamente dependente dos lucros que daí tem retirado. Para além do mais, os estados vizinhos vão-se aproximando cada vez mais dos EUA: a Polónia, a Hungria e os Estados bálticos já fazem parte da UE da NATO, e Ucrânia e Geórgia já receberam promessas de que serão admitidos.

É por isto que a Rússia ataca a Geórgia agora (e chantageia os seus vizinhos com o abastecimento energético, ou mata os opositores ao regime). Porque os seus responsáveis sabem que à medida que os anos passarem, terão cada vez menos capacidade para o fazer, e que se os seus vizinhos entrarem na NATO, nada poderão sem fazer sem arrastarem forçosamente os EUA para um conflito. Esta é, aliás, a razão pela qual a Guerra da Geórgia é perigosa, tal como um eventual conflito militar entre a Ucrânia e a Rússia também o será: a Rússia prefere que uma eventual guerra a larga escala tenha lugar agora, em vez de anos mais tarde.

Tal como a Alemanha em 1914 (a braços com o abrandamento do crescimento económico em relação ao aumento da despesa pública, o aumento dos custos da dívida pública, e o receio de ser "cercada" pelos planos militares russos e ingleses) deu o seu "cheque em branco" à Austria para atacar a Sérvia, também a Rússia deu aos separatistas um "cheque em branco" para provocar a Geórgia, pois se a Rússia "tiver" de entrar em conflito com esse país, mais vale ser agora, antes de os países ocidentais serem obrigados a auxiliá-la, do que quando a NATO "cercar" a Rússia. O que torna esta disposição russa para "correr riscos" particularmente preocupante é o facto de essa ausência de "obrigação" de auxílio de países como os EUA à Geórgia não facilitarem a sua posição. Pois tal como a Inglaterra em 1914 (que, como Asquith repetidamente insistia, por nada estava obrigada a defender a neutralidade belga do avanço das tropas alemãs) os riscos de não ir em auxílio do pequeno estado ao qual se prometeu protecção talvez sejam demasiado grandes.

Em 1914, a Inglaterra temia que a "anexação da Bélgica e da Holanda" fizesse com que a Alemanha tivesse acesso aos portos da costa do Canal, em posição de atacar as ilhas britânicas, e que a "elevada indemnização imposta à França" colocasse a Alemanha numa "posição dominante" no continente, que poderia "colocar à sua disposição" uma futura "preponderância naval" (a tradição estratégica britânica sempre procurara limitar a fraqueza das suas forças militares terrestres através de duas linhas essenciais: a primeira, como o Sir Humphrey de Yes Minister diz, "manter a Europa dividida", para que a sua superioridade naval (a segunda) não fosse posta em causa por uma potência hegemónica que a pudesse suplantar). Hoje, dificilmente os EUA (e os países europeus) se sentirão confortáveis com um eventual domínio russo do Cáucaso, e principalmente com o controlo do oleoduto BTC, que transporta o petróleo do mar Cáspio para a Turquia (que de certeza não quer o controlo russo da Geórgia, e que é membro da NATO), e que oferece ao Ocidente uma alternativa aos oleodutos controlados pela Rússia.

Voltemos a 1914: apesar de, como disse, a Inglaterra não estar obrigada a defender a neutralidade belga, havia no seio do governo britânico a ideia de que, se perdesse o "seu bom nome", a Inglaterra arriscava-se a "destruir" a sua "posição no mundo". Ao não respeitar uma aliança, arriscava-se a que, no futuro, os seus aliados a imitassem, isolando-a. Ora, se é verdade que os EUA não estão "obrigados" a defender a Geórgia, não é menos verdade que a Geórgia tem várias tropas no Iraque. Se os EUA abandonarem um aliado que esteve do seu lado quando eles precisaram, todos os seus outros aliados pensaram duas vezes antes de colaborarem com a América. Países como a Polónia, ou a Ucrânia (aqueles que temem a Rússia e dos quais os EUA e a "Europa" precisam) dificilmente se sentiriam seguros se os EUA fechassem os olhos ao ataque russo à Geórgia.

A gravidade da situação reside no facto de, como escreve Anne Applebaum, tudo estar nas mãos da Rússia. Um país que entra em acção para eliminar o status quo não aceitará a sua restituição. Outra possibilidade poderia passar pela ocupação da Ossétia do Sul e da Abkhazia por forças de manutenção da paz, mas um país que age contra a Geórgia com o objectivo de impedir a sua entrada na esfera de influência do Ocidente dificilmente estará disposto a que esses mesmo países enviem tropas para a sua fronteira. A única forma de o conseguir seria apresentar esta proposta juntamente com a ameaça de que, se esta for rejeitada, os aliados da Geórgia não teriam outra alternativa senão entrar em guerra com a Rússia. O risco desta hipótese é que a Rússia pode preferir a concretização da ameaça à solução pacífica (mais uma vez, a "solução" é precisamente aquilo que se quis evitar com o ataque á Geórgia): a sua fraqueza poderá levá-la a preferir arriscar tudo agora, em vez de ficar à espera do futuro. A Rússia responderia ao bluff dos EUA. E como uma III Guerra Mundial não estará na lista de desejos de muita gente nos EUA e na Europa, o melhor será não arriscar o tal bluff: se apostarmos nele, ou o levamos até ao fim, o que resultará numa tragédia, ou ficaremos à mercê da Rússia. Mas ficar a assistir ao que a Rússia fizer na Geórgia poderia não ser garantia de nada. Os países que realmente não querem ver a Rússia com a rédea solta (Polónia, Ucrânia, República Checa, os países bálticos) e aqueles que não estiverem dispostes a ver a Rússia tomar conta das suas mais-valias geo-estratégicas (o problema da Turquia com o oleoduto BTC), podem não ser tão cautelosos como outros países mais distantes. E como eles são membros da NATO, a sua entrada numa guerra com a Rússia significaria uma de duas coisas: ou a tal "III Guerra Mundial" que se pretende evitar, ou a desintegração da NATO, e a consequente insegurança dos países europeus.

Distraída com os Jogos Olímpicos, a comunicação social não se apercebe da gravidade do que se passa na Geórgia. Iludida pela coreografia russa, a intelligentsia ocidental não percebe por que razão esta crise é tão perigosa: a percepção russa de que está a ficar cada vez mais fraca em relação aos seus "rivais" (e de que essa tendência não será invertida nos próximos tempos), faz com que esteja disposta a "agitar" o xadrez internacional, e mais grave ainda, com que qualquer tentativa de "refrear" os seus ânimos tenha poucas hipóteses de ser bem-sucedida, pois para a Rússia, precisamente porque se sente enfraquecida e a enfraquecer, o cumprimento de qualquer ameaça será preferível ser levado a cabo agora, do que ser adiado para mais tarde; por outro lado, as circunstâncias particulares deste conflito (o facto de ele envolver um aliado próximo dos EUA e afectar interesses geo-estratégicos de membros da NATO), faz com que a possibilidade de todo o Ocidente ser arrastado para uma guerra a larga escala (ou, em alternativa, ver ruir todo o seu edíficio de Defesa) não seja assim tão longíqua. Se a Rússia realmente quiser a "III Guerra Mundial" que, há anos atrás, Vasco Pulido Valente escreveu que iria decorrer da desintegração do seu império, dificilmente poderemos fugir a ela.

Posted by Bruno at 01:55 PM

agosto 10, 2008

O Meu Entretenimento de Domingo à Tarde

The Steve Show, o programa de Stephen Merchant (o "outro" autor de The Office e Extras) na BBC 6 Music.

Posted by Bruno at 09:28 PM

agosto 08, 2008

Imagino Que Não Seja Importante

A Geórgia e a Rússia entraram hoje em guerra, quando forças militares russas avançaram para a região da Ossétia do Sul, onde as forças georgianas haviam realizado ontem uma intervenção contra grupos separatistas locais. Esta notícia, do início de uma guerra no continente europeu, não foi mencionada no telejornal das 20 horas da RTP a não ser aos 40 minutos de emissão, imagino que por não ter considerada tão relevante como a conferência de imprensa (em directo) de um novo jogador do Benfica.

Posted by Bruno at 09:44 PM

agosto 07, 2008

A Festa

O dr. Ângelo Correia, o único homem que não se cansa de ouvir as opiniões de Ângelo Correia, resolveu criticar Manuela Ferreira Leite por esta não ir à celebre "Festa" do Pontal, assim abandonando "o partido e os militantes" e deixando-os "num vazio". Imagino que o dr. Correia tenha razão, e as febras não tenham o mesmo sabor. Mas convinha ter em conta que Ângelo Correia está apenas a aproveitar este pretexto para dar uma alfinetada na actual líder do PSD. Quem, para além de gente que não pode ver Manuela Ferreira Leite à frente do PSD, veria na sua ausência do Pontal razão para críticas tão dramáticas? Tenha-se em consideração que já de há vários anos para cá que o famoso "Pontal" deixou de ser "o" momento da rentrée laranja, perdendo esse estatuto para a "Universidade de Verão", e daí Manuela Ferreira Leite querer reservar a sua intervenção de "abertura" do "ano político" para a dita "Universidade", em vez de a fazer no Pontal. Ainda para mais, Ferreira Leite certamente percebe por que razão Mendes Bota a desejava ver na sua "festa": o menezismo esfregaria as mãos de contente com a "recepção fria" que a líder laranja (como aconteceu a Marques Mendes no ano passado) teria nesse seu bastião, e Bota decerto já salivava ao imaginar os títulos dos jornais do dia seguinte, falando da "humilhação" de Ferreira Leite em "mais uma prova" da "fractura no seio do PSD" e da "crescente insatisfação" das "bases" com a sua liderança. Assim se compreende por que razão Ângelo Correia mostra tanto desagrado: o menezismo atacou agora porque a ausência de Ferreira Leite do Pontal lhe retirou a oportunidade de a atacar mais tarde. Infelizmente para o dr. Correia, as suas palavras não têm o mesmo impacto que teriam os assobios (ou mesmo o mero silêncio) de centenas de pessoas.

Posted by Bruno at 09:40 PM

agosto 06, 2008

Estado de Alma

Lenine descansadinho
Mais descansado que há uns dias.

Posted by Bruno at 10:13 PM

agosto 05, 2008

Conselhos

Vindo de quem me conhece, "sê tu próprio" não é propriamente dos melhores conselhos que me poderiam dar.

Posted by Bruno at 09:51 PM

agosto 04, 2008

Estado de Alma

nervous.gif
Ansioso que os próximos três dias cheguem ao fim.

Posted by Bruno at 06:32 PM

agosto 03, 2008

No Fora.tv










Michael Arndt fala do seu argumento para o (excelente) Little Miss Sunshine.

Posted by Bruno at 09:43 PM

agosto 02, 2008

Um País de Férias

Depois de um dia a ler jornais a ver telejornais, percebe-se rapidamente: Portugal já foi de férias.

Posted by Bruno at 09:55 PM

agosto 01, 2008

A Ler

O artigo (de há alguns dias) de David Brooks sobre Barack Obama:

"When I first heard this sort of radically optimistic speech in Iowa, I have to confess my American soul was stirred. It seemed like the overture for a new yet quintessentially American campaign. But now it is more than half a year on, and the post-partisanship of Iowa has given way to the post-nationalism of Berlin, and it turns out that the vague overture is the entire symphony. The golden rhetoric impresses less, the evasion of hard choices strikes one more."

Posted by Bruno at 10:08 PM