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julho 31, 2008
A Mensagem de Cavaco
O Presidente da República anunciou ontem, para as 20 horas de hoje, uma comunicação ao país. A comunicação social, sem incêndios ou "vagas de crime" para encher os espaços noticiosos em época de Verão, criou grande expectativa em torno do evento. De que falaria Cavaco? Para quê tanto dramatismo? No fim, Cavaco "apenas" quis explicar aos portugueses as razões pelas quais discordava de um documento que o Tribunal Constitucional já havia rejeitado (o novo Estatuto dos Açores). Mário Bettencourt Resendes, na SIC, e Carlos Magno, na RTP, acharam estranho. Por que razão criou Cavaco tanta expectativa em torno de um discurso sobre algo que pouco interessa aos portugueses, e que, ainda por cima, terá agora de ser alterado pelo Parlamento? É, de facto estranho. Mas, precisamente por ser estranho, a comunicação de Cavaco não pode ter sido "só" por causa disso.
Depois do Tribunal Constitucional ter declarado a inconstitucionalidade do documento, a Assembleia da República irá provavelmente rever o documento, fazendo as alterações necessárias para que este se adapte às exigências da Constituição. Da sua intervenção fica claro que Cavaco não fica satisfeito com a apreciação do Tribunal Constitucional, pois vê no conteúdo do novo Estatuto dos Açores uma série de mudanças que, no seu entender, põem em causa o equílibrio das várias instituições do Estado português. Cavaco não esteve a falar do documento que foi rejeitado pelo Tribunal Constitucional, mas do documento que sairá da Assembleia nos próximos tempos. E se o documento que daí sair acabar por não satisfazer de novo o Presidente da República, ele poderá vetá-lo, pois tornou públicas as suas exigências no devido tempo. Claro que, depois desse eventual veto, a maioria parlamentar do PS poderá ultrapassá-lo, aprovando o documento que regressa à Assembleia.
Ora, é compreendendo isto que se compreende o dramatismo da intervenção de Cavaco. Ele não só faz um "ataque preventivo" ao grupo parlamentar do PS, como cria margem de manobra para agir, caso esse "ataque preventivo" falhe. Se depois de o Presidente deixar claro, como deixou hoje, que certos aspectos destas propostas são entendidos por ele como desestabilizadores do equilíbrio da relação das instituições políticas portuguesas (do "regular funcionamento das instituições"), o PS avançar com esses mesmos aspectos, o Presidente estará disposto a impedir o PS de o fazer. Se, depois de um eventual veto presidencial, o PS der sinais de que o pretende ultrapassar, usando a sua maioria parlamentar para aprovar o documento, Cavaco terá, como o dramatismo que hoje colocou na questão, legitimidade e margem de manobra para agir no sentido de salvaguardar o "regular funcionamento das instituições", e garantir que a maioria parlamentar não o ponha em causa. Ou seja, tendo criado hoje um grande dramatismo em torno do novo Estatuto dos Açores, Cavaco pretende não só avisar os portugueses daquilo que não está disposto a aceitar, mas também criar as condições para que, caso o PS queira ignorar a opinião presidencial, Cavaco tenha toda a margem de manobra para os impedir: dissolver a Assembleia sob o pretexto de que esta pretende introduzir medidas que afectarão o "regular funcionamento das instituições".
Posted by Bruno at 08:35 PM
julho 30, 2008
Bom Remédio
Os jornalistas da TSF parecem estar muito escandalizados com a atitude das autoridades chinesas para com os jornalistas que estão a cobrir os Jogos Olímpicos de Pequim. Aparentemente, as autoridades chinesas restringem o acesso dos jornalistas à Internet e às populações locais, impedindo-os de realizar entrevistas sobre a realidade chinesa. Percebo os senhores jornalistas. Se eu fosse proibido de aceder livremente aos sites que eu quero visitar, também não ficaria muito contente. Mas por isso mesmo eu não vou para a China. Os órgãos de comunicação social ocidentais têm esta tendência para se queixarem daqueles que interferem com os seus direitos. Mas parecem não perceber que, neste caso, são eles que têm a faca e o queijo na mão. A China é que tem todo o interesse em que os jornalistas do Ocidente cubram a gigantesca acção de propaganda que os Jogos Olímpicos serão para o regime chinês, e por isso mesmo, se os jornalistas não gostam das condições que lhes são oferecidas pelas autoridades chinesas, apenas precisam de ameaçar não estar presentes. Entre deixá-los visitar o site da Amnistia Internacional e deixá-los ir para casa, o regime chinês certamente acabará por escolher o primeiro.
Posted by Bruno at 05:00 PM
julho 29, 2008
Vem Aí Asneira
Parece que o Governo se prepara para impor aos médicos que trabalhem no Serviço Nacional de Saúde a exclusividade dos seus serviços. A medida será certamente muito aplaudida por aqueles que censuram os médicos por quererem arranjar dois empregos "só por causa do dinheiro", mas como notam o Luís Tribuna e o Adolfo Mesquita Nunes, a medida, caso venha a avançar, dificilmente terá bons resultados: ou provocará uma debandada dos médicos do SNS para o privado (em busca do "dinheiro" e, como nota o Adolfo, de independência das "maquinações políticas" do Ministério) ou uma diminuição da oferta de médicos no sector privado (pois os médicos poderão preferir ganhar menos dinheiro no Estado mas ter, como nota o Luís, acesso aos "casos médicos mais interessantes"). O leitor poderá achar que o primeiro cenário seria negativo, mas que o segundo (por os médicos se passarem a "concentrar" no SNS) até seria agradável. Um bocadinho de atenção mostra como nenhum dos dois seria positivo.
A primeira coisa que é preciso perceber é que o único critério que deveria presidir à avaliação de um médico do SNS é "faz ou não ou não o seu trabalho?". Aqueles médicos que não o façam no SNS porque acumulam com o privado deveriam ser despedidos, não por também trabalharem no privado, mas por não trabalharem como deveriam no SNS. Ao impedir todo e qualquer médico de acumular o trabalho no SNS com o trabalho no privado (e não apenas aqueles cujo desempenho no SNS é mau), o Estado estará apenas e só a diminuir a quantidade da oferta de cuidados médicos. Pois se os médicos do SNS trabalham em simultâneo no privado, é porque existe, nesse sector privado, uma procura dos seus serviços. E essa procura existe porque a oferta do SNS tem insuficiências: não presta, a quem a ele recorre, o serviço que se espera de si.
Em resultado disso, várias pessoas (aquelas que podem) recorrem ao privado (enquanto os mais pobres ficam condenados a terem de recorrer a um serviço que não satisfaz as necessidades de ninguém). Ao impedir os médicos do SNS de acumularem essas funções com outras que vão desempenhando no sector privado, o Estado está apenas a limitar coercivamente a oferta de um serviço para o qual há procura por parte das pessoas. O aumento da quantidade de trabalho por parte daqueles que antes estavam no SNS apenas a "guardar lugar", e que em virtude da nova lei venham a dedicar-se exclusivamente a ele, embora feito à custa da diminuição de oferta de cuidados no privado, terá o efeito positivo de fazer com que aquilo que já pagamos (através dos impostos) não tenha de ser pago segunda vez (ao se recorrer ao privado). Mas esse efeito positivo será prejudicado (senão mesmo anulado) pelo impedimento daqueles médicos que já faziam o que deviam no SNS e ainda fizessem mais no privado: passaria a haver uma procura de determinados serviços para os quais deixaria de haver oferta. E isto partindo do princípio de que esta nova lei conseguiria fazer com que quem estava no SNS sem fazer o trabalho que lhe era exigido o passasse a fazer: essas mesmas pessoas poderia optar pelo privado, ou até por ficar no SNS e manter a mesma falta de profissionalismo (pois se não até agora ela nunca foi razão para os despedir...).
Ao querer obrigar os médicos a prescindirem do "dinheiro extra" que podem ganhar no sector privado, o Estado apenas conseguirá piorar as condições da prestação de cuidados de saúde em Portugal: se os médicos afectados pela nova regra da exclusividade optarem por trabalhar no sector privado, a oferta do SNS será ainda pior do que é hoje, obrigando aqueles que para isso tiverem condições a pagar duas vezes pela prestação de cuidados médicos (os impostos que financiam o SNS e os preços cobrados pela prestação desses serviços pelo sector privado ao qual poderão recorrer) e condenando os mais pobres a recorrerem a um SNS mais degradado. Se, por outro lado, os médicos optarem por ficar no SNS, apenas diminuirão a oferta de prestação de cuidados de saúde fora do SNS, quando continuará a haver uma procura dessa alternativa. E não só porque, como procurei demonstrar no parágrafo anterior, estas medidas não trariam qualquer melhoria da prestação de cuidados de saúde em Portugal (e muito provavelmente nem sequer no seio do próprio SNS), mas também porque o problema do SNS está na sua natureza: está em, por depender do financiamento do Estado e não das escolhas daqueles que a ele recorrem, ter de responder às necessidades impostas pela burocracia que o governa, não às dos doentes que dependem dos seus serviços. E, nesse segundo cenário em que uma diminuição da oferta de uma alternativa ao SNS não seria compensada por uma melhoria deste, mais e mais pessoas seriam forçadas a recorrer ao SNS, o que teria a óbvia consequência de o piorar (as listas de espera para uma operação tornar-se-iam mais longas, por exemplo), ao mesmo tempo que a oferta de alternativa (no sector privado) se tornaria cada vez mais cara (precisamente por ser mais diminuta), o que cavaria um fosso ainda mais profundo entre aqueles que têm recursos para fugir ao SNS e aqueles que a ele estarão condenados.
Posted by Bruno at 06:25 PM
julho 28, 2008
O PSD Deveria Governar Sozinho (publicado no Insurgente)
Na sua entrevista ao Expresso deste Sábado, Manuela Ferreira Leite foi confrontada com a hipótese de “pedir” uma maioria absoluta para o PSD (alguém deveria explicar aos senhores jornalistas que nenhum eleitor “dá” ou “tira” qualquer maioria absoluta. Todos eles votam em quem preferem que venha a governar, e a ausência de uma maioria absoluta não significa que eles tenham querido entregar o poder a um determinado partido, mas sem maioria absoluta. Apenas significa que a maioria dos eleitores preferia outros partidos, sem que nenhum deles tivesse conseguido um número suficiente de apoiantes para ser o mais votado). A líder laranja respondeu que não, que não o iria fazer, e acrescentou que “há muitas formas de estabilidade”, e que dependendo da “forma como os partidos saírem das eleições”, logo reflectiria sobre a possibilidade de realizar um qualquer acordo parlamentar ou formar uma coligação.
Já aqui escrevi sobre as razões pelas quais acho que, caso venha a vencer as eleições de 2009, o PSD deveria rejeitar toda e qualquer coligação com quem quer que seja, e que Manuela Ferreira Leite deveria dizer antecipadamente que, caso não obtenha maioria absoluta, prefere governar sozinha em minoria. A repetição da estratégia de 2002/05, por exemplo, poderá ser muito atractiva para muitos sectores do partido, mas os responsáveis do PSD demonstrariam uma enorme sensatez se não fossem por esse caminho. A razão é simples: das duas vezes que o PSD formou com o CDS um “bloco” à direita (no apoio a Freitas do Amaral nas presidenciais de 1986, e no período de 2002 a 2005) nunca conseguiu ganhar uma eleição. A AD, o argumento que o leitor se preparava para usar como forma de me desmentir, foi um caso diferente, pois o PSD não formou esse “bloco” com o CDS: a coligação incluía também o PPM de Ribeiro Telles (um partido ambientalista de centro-esquerda) e os “Reformadores” dissidentes do PS. Longe de ser uma “coligação de direita” contra a “esquerda”, a AD representou uma ampla aliança dos vários grupos da sociedade portuguesa que, da “direita” ao “centro-esquerda”, queriam “libertar” Portugal da tutela militar e do “socialismo da miséria”. Cavaco, por sua vez, ganhou (tanto nas legislativas como nas presidenciais) por ter conseguido, sozinho, reproduzir essa “coligação de vontades” em torno da sua pessoa.
Restará a hipótese de um novo “Bloco Central”, uma “Grande Coligação” com o PS, que obrigaria inevitavelmente o governo daí resultante a colocar-se sob a tutela do Presidente Cavaco Silva. Esta opção seria ainda mais desastrosa, pois desgastaria não só o PSD, mas também todo o regime político português: ao puxar o Presidente da República, actualmente numa espécie de Olimpo de neutralidade político, para a arena da governação, e ainda por cima ao comando de uma maioria necessariamente conflituosa (com ambas as partes preocupadas em “ganhar posição” para o pós-queda dessa coligação), tal “solução” apenas conseguiria criar uma onda de descontentamento contra todas as instituições do regime: partidos, parlamento, Governo e Presidência. Instalar-se-ia uma crise sem fim à vista, até porque depois da queda de uma tal “Grande Coligação”, será de esperar uma deslocação de parte do eleitorado dos dois grandes partidos para os partidos mais pequenos à sua “direita” e à sua “esquerda”, fragmentando o sistema partidário e criando uma instabilidade que dificultaria a resolução da “crise” resultante da queda desse hipotético “segundo Bloco Central”.
O melhor que Ferreira Leite poderá fazer será aquilo que aqui escrevi o mês passado: anunciar, logo à partida, que não se coligará com ninguém. E se não obtiver uma maioria absoluta, seguir o exemplo de Cavaco em 1985, governando em minoria e encostando CDS e PS à parede: forçar o CDS a ter de escolher entre viabilizar um governo do PSD sem daí extrair qualquer benefício, ou ser responsabilizado pela entrega do poder à “esquerda”; e obrigar o PS a ter de escolher entre viabilizar as políticas de Ferreira Leite (e enfurecer o seu eleitorado tradicional), ou ser rotulado por ela como um partido avesso a qualquer mudança e disposto a sacrificar o país em prol dos “privilégios” dos seus dependentes (afastando assim os eleitores flutuantes que decidem eleições). O PSD só terá a ganhar com este cenário. E o país não terá de pagar o preço de fugas para a frente que poderão ter consequências mais graves que os problemas que se pretendem resolver.
Posted by Bruno at 06:59 PM
julho 26, 2008
O Futuro de Brown
Depois da derrota do candidato do Labour na eleição intercalar de Glasgow East, a vida de Gordon Brown parece cada vez mais complicada. No blog da Spectator, Fraser Nelson escreve acerca dos rumores de um "golpe" contra o Primeiro-Ministro britânico.
Posted by Bruno at 09:49 PM
julho 25, 2008
Obama em Berlim
Toby Harnden escreve no seu blog acerca do discurso de Barack Obama em Berlim:
"The first note that jarred was when he said that "I speak to you not as a candidate for President, but as a citizen." Well, despite the intelligence-insulting insistence by Obama's staff that this is a not a campaign trip there's no doubt that it is exactly that - and that this was a campaign rally.
His statement that "I know that I don't look like the Americans who've previously spoken here" was a comparison to those privileged old white guys John F. Kennedy and Ronald Reagan. As Dan Quayle can relate, that's risky. And an awful lot of the speech was about Obama himself and his life story, as if he was running for the presidency of the world rather than merely the United States.
There was nothing much that Obama's opponent John McCain couldn't agree with - meaning that there was little policy substance.
Even the supposed "tough love" part about more troops being needed in Afghanistan was pretty oblique: "I recognise the enormous difficulties in Afghanistan," he said. "But my country and yours have a stake in seeing that NATO's first mission beyond Europe's borders is a success. For the people of Afghanistan, and for our shared security, the work must be done. "
Talk of "global citizenship" was a mistake. Nothing wrong with the sentiment and most Americans do want to be part of the broader world. But with widespread caution - and not just among Republicans -about bodies such as the United Nations and the International Criminal Court it was a phrase that should have been struck out.
Crying out that everyone "must come together to save this planet" is all well and good but the details of how to achieve such grandiose aims were lacking.
Sometimes rhetoric can be so self-consciously showy that it obscures any meaning it might have. I'd say that stating that "every nation in Europe must have the chance to choose its own tomorrow free from the shadows of yesterday" falls into that category.
Few could disagree with his utterance that "I know my country has not perfected itself". But the line prompted cheers from among the 200,000 or so Germans present that were clearly audible on television."
Posted by Bruno at 04:44 PM
julho 24, 2008
A Lei Que Obriga Ao Endividamento
Ontem, a SIC Notícias realizou um debate sobre o crédito bancário em Portugal e as dificuldades de muitas famílias em pagar as suas dívidas. Apesar de muita conversa acerca da crise ou outras explicações para o problema, nenhum dos participantes mencionou a lei que, na prática, obriga as pessoas a endividarem-se: a lei das rendas. Mais do que um problema conjuntural, ou uma consequência da pobreza nacional, o problema do endividamento excessivo das famílias é o resultado de uma política governamental. Enquanto não houver capacidade para perceber isto, ou coragem para o mudar, o problema não desaparecerá.
Posted by Bruno at 09:45 PM
País do Terceiro Mundo
Ver, na Avenida da Liberdade, uma celebração da figura de Simon Bolívar, juntando Hugo Chavez a militantes do PCP, e que fechou o trânsito na Avenida, acentua o sentimento (já habitual, infelizmente) de que Portugal, no fundo, não passa de um país do Terceiro Mundo.
Posted by Bruno at 09:35 PM
julho 22, 2008
Obama e o Iraque

Um artigo de Barack Obama (candidato Democrata à presidência americana) no New York Times foi motivo de grande polémica nos EUA. Tudo porque o jornal recusou um artigo de John McCain (o candidato Republicano) que procurava responder a Obama. Mas mais importante que a opção editorial do jornal, foi o conteúdo do artigo de Obama, que no meio da confusão, quase passou despercebido. O que é pena, pois ele mostra bem a razão pela qual uma eventual vitória de Obama nas eleições de Novembro próximo seriam tudo menos uma boa notícia.
Obama afirma que, ao contrário de McCain, ele não defende o estabelecimento, por parte dos EUA, de bases militares permanentes como as que ainda hoje existem na Coreia do Sul, assegurando que a sua vontade é de que os EUA abandonem o Iraque num futuro próximo. Obama vai ainda mais longe: seguindo a opinião de Nuri Kamal al-Maliki (Primeiro-Ministro iraquiano), o candidato Democrata compromete-se a, caso venha a ser eleito, definir um calendário para a retirada americana do país, esperando dessa forma limitar o "overstretch" das tropas americanas e permitir que o esforço militar se "concentre" em locais como o Afeganistão.
A posição de Obama é semelhante àquela que foi expressa há uns anos pelo Iraq Study Group, a comissão à qual Bush pediu uma revisão da estratégia para o Iraque, e cujas recomendações ignorou. E ignorou bem, pois longe de serem uma solução para o problema, elas tenderiam a agravá-lo, tal como aquilo que Obama propõe. Pois se o candidato Democrata tem razão quanto aos custos da permanência americana no Iraque, não há nada no seu artigo que mostre que ele tem consciência dos custos de uma eventual retirada. Em primeiro lugar, a violência não diminuiria. A guerra civil continuaria, e provavelmente, sem a presença militar americana, agravar-se-ia, tornando-se num conflito aberto. Num conflito que, em última análise, se arrastaria pela região. A maioria xiita teria certamente o apoio do Irão. Mesmo as por vezes citadas inimizades entre o xiismo árabe (iraquiano) e o xiismo persa dos iranianos seriam irrelevantes, à luz do interesse estratégico de tal apoio. Como escrevia há tempos, na revista britânica The Spectator, o jornalista Fraser Nelson, tal proximidade faria do Irão uma superpotência xiita. Uma superpotência regional, que seria uma ameaça para a sunita Arábia Saudita, que, como afirmava um funcionário britânico citado por Nelson, não poderia ficar a assistir à criação de um protectorado iraniano. Quer numa partilha do Iraque por três estados independentes (o cenário comentado por Nelson), quer na manutenção de um único estado (mesmo que federal), o confronto entre as três facções seria inevitável. O interesse na questão forçaria o Irão a participar, e a participação iraniana arrastaria consigo a intervenção saudita. A questão curda, especialmente no caso de o Curdistão se tornar um estado independente, arrastaria a Turquia, causando, no mínimo, um conflito no seio da NATO (talvez com a saída da Turquia, criando um novo problema geoestratégico para os EUA e os países europeus). Tudo com Israel ali ao lado, podendo ser a todo o momento arrastado para o conflito, o que acabaria por, forçosamente, trazer consigo um regresso dos EUA ao Médio Oriente. Para fugirem a um suposto “novo Vietnam”, os EUA deixariam no Médio Oriente uma espécie de “I Guerra”, em que o conflito num país, e o interesse de cada uma das potências regionais nesse conflito, as arrastaria para um confronto em larga escala.
O leitor dirá que exagero. Talvez. Mas a retirada do Iraque colocaria em perigo os soldados americanos que estariam a retirar no situação mais perigosa que aquela que enfrentam agora, e colocariam os cidadãos americanos (e os dos países europeus) em risco de sofrerem novos atentados. Como explicou Paddy Ashdown, antigo líder dos Liberais-Democratas britânicos, e um insuspeito crítico da intervenção americana, o anúncio de uma retirada imediata provocaria um aumento da violência, direccionada contra as tropas, num momento em que estas estão mais vulneráveis (segundo Ashdown que tem alguma experiência nestas questões, o momento da retirada é, pela própria natureza da operação, o momento em que estas estão mais vulneráveis a ataques, e em que estes podem causar mais baixas). Quanto aos cidadãos americanos e dos países europeus, e a um maior risco de atentados terroristas, basta lembrar as palavras de Bin Laden, que vê os infiéis como um “cavalo cansado” incapaz de lutar, que tudo cede, mal vê um soldado a morrer. Retirar do Iraque por não se conseguir lidar, no terreno, com a violência, e em casa, com as imagens que chegam do terreno, seria confirmar a ideia de Bin Laden. O que só incentivaria os que o seguem a insistirem, a provocarem mais medo, mais mortes, para empurrar o Ocidente cada vez mais para fora do barco. Por todas estas razões, sair do Iraque, agora, acabaria por ser contraproducente.
O conteúdo do artigo é significativo ainda noutra medida: uma curta reflexão sobre o dito, e sobre o "fenómeno Obama", mostra como o candidato Democrata se condenou a si próprio ao fracasso. Durante meses, as "previsões" acerca das eleições presidenciais americanas de 2008 eram as mesmas, viessem de onde viessem: nos Republicanos, a escolha do candidato nomeado seria uma lotaria, mas nos Democratas, Hillary Clinton nem sequer precisaria de fazer campanha. De repente, a coisa começou a correr mal, e Barack Obama tornou-se o "moço fofo" de todos. Gente inteligente como Andrew Sullivan e Fareed Zakaria entusiasma-se com a figura e a personalidade do "candidato da esperança", como lhe chamava a The Economist. E de facto, uma vitória de Obama em 2008 dava uma boa primeira página de jornal: um presidente afro-americano, com família muçulmana, vende mais jornais que um branco cinquentão, e, como diz o meu colega no Insurgente, André Amaral, seria o portador da melhor mensagem que a América poderia transmitir a um miúdo no Paquistão: até alguém como ele pode chegar a Presidente. E depois, com Obama vem uma mensagem de mudança, de uma outra geração com outras preocupações que não a discussão do Vietnam até à eternidade. Duvido, no entanto, que todo este entusiasmo seja merecido.
Porque se a vitória de Obama seria uma boa capa de revista, o que viesse a sair da sua presidência talvez não o fosse, ou talvez não o fosse pelas melhores razões. E basta pensar o que propõe Obama para o Iraque: a retirada imediata das tropas americanas. Depois de prometer isto nas eleições, Obama tem dois caminhos: ou cumpre, ou finge que esquece a promessa, que seria aliás cada vez menos repetida até Novembro, caso fosse o noemado pelos Democratas. A cumprir a promessa, conseguiria obter apenas e só um resultado: uma carnificina no Iraque. No entanto, alguns dirão, uma vez chegado à Casa Branca, o inexperiente Obama tomaria consciência das escolhas complicadas que têm de ser feitas, e perceberia que não poderia cumprir a promessa. Mas a ser assim, muito rapidamente Obama queimaria a "esperança" na sua pessoa: ao ignorar uma promessa eleitoral tão relevante como esta, Obama estaria a mostrar que, afinal, é apenas um "político" como "os outros", preocupado em ser eleito e capaz de, "como Hillary Clinton ou Mitt Romney", dizer o que for preciso para o conseguir. Ao esquecer essa promessa, Obama mostraria que em nada difere do establhisment de Washington que tanto diz desprezar. Se a cumprir, será o responsável por uma desgraça. Faça o que fizer, a "esperança" que hoje se deposita nele será, uma vez eleito, sol de pouca dura.
Posted by Bruno at 05:58 PM
julho 21, 2008
These Are For You, McNulty
O meu amigo Paulo, exilado por uns tempos na Civilização, entendeu por bem provocar-me, ao pôr no blog dele fotografias das livrarias que ele vai encontrando (assim é que vejo como devemos ser seres execráveis: só mesmo pessoas desmesuradamente pretensiosas vêem o acesso a boas livrarias como arma de arremesso e instrumento de provocação). Obviamente, ele foi bem sucedido, eu dou por mim a insultar a América por deixar entrar alguém como ele no país. Mas, por muito que eu barafuste, ele está lá a comprar livros baratos enquanto eu ando aqui à espera que o correio me traga o que vou arranjando. Assim, resta-me recorrer a algo que o Paulo conhece bem, as palavras do Comandante Bill Rawls para o Detective Jimmy McNulty: "See these two, McNulty? These are for you..."
Posted by Bruno at 07:23 PM
A Ler
Uma entrevista (traduzida para inglês) do francês Pierre Manent, em que este diz coisas bastante sensatas acerca da "Europa":
"The problem in Europe, particularly in France, is that our politics, though obviously bad, are not correctible, whatever the orientation of the electorate. Even though opinion is hostile to the indefinite extension of the European Union, even though the citizens of two founding countries voted against the constitutional treaty, everything proceeds as before and it is being suggested that the treaty will slip in through the window. The European machine has been set up in such a way that it cannot not be deployed, the result being a "purposeless finality" ("finalité sans fins"). The outcome that we are celebrating, the 25th anniversary of Europe, and soon the 30th, will have been created by a mechanism that no one can control, and that was not desired by anyone."
Posted by Bruno at 07:16 PM
julho 19, 2008
Durão e o "Tratado de Lisboa"
Durão Barroso terá hoje admitido que deseja cumprir um segundo mandato como Presidente da Comissão Europeia. Sabendo que Durão Barroso é uma personagem ambiciosa, e que portanto certamente não deixaria de procurar activamente a hipótese de vir a ocupar o cargo de Presidente da UE previsto no "Tratado de Lisboa", o facto de vir agora dizer publicamente que espera continuar nas funções que desempenha actualmente quer dizer uma de duas coisas: ou já perdeu qualquer hipótese de vir a ser o primeiro Presidente da UE, ou em Bruxelas não se acredita muito na possibilidade do "Tratado de Lisboa" vir a ser adoptado até 2009.
Posted by Bruno at 09:32 PM
julho 18, 2008
"Está Provado"
Num artigo no Diário de Notícias, Luís Filipe Menezes afirma que "está provado" que a "mudança de chefe" não resolveu "as entorses" do PSD. Mas quando Menezes diz "não ter dúvidas" de que ele e a sua pandilha eram "mais representativos, intelectualmente mais sólidos, culturalmente mais bem preparados, politicamente mais experientes, ideologicamente mais esclarecidos, mais carismáticos e melhores comunicadores" que a actual líder e os seus apoiantes, o que fica realmente "provado" é que a "entorse" que ficou por "curar" é aquela de que Menezes padece (no cérebro), e que o impede de ver a gigantesca barafunda que foi a sua liderança, e o mal que ela causaria ao PSD. Por muitas "entorses" que este mantenha, e que só uma reforma profunda do partido (reforma essa que teria de passar pela "mudança de chefe", pois Menezes depende das tais "entorses" que paralisam o PSD a nível nacional) poderá curar, há uma de que já se livrou.
Posted by Bruno at 09:21 PM
julho 17, 2008
Gordon "Guterres" Brown
Na passada terça-feira, David Cameron, líder do Partido conservador britânico, afirmou que não podia garantir que não pudesse vir a ser necessário efectuar um aumento dos impostos, se e quando o seu partido for para o Governo até 2010 (altura até à qual terá de haver eleições). Esta afirmação é interessante, não tanto por aquilo que Cameron disse em si, mas por aquilo que essa declaração diz acerca da governação de Gordon Brown, não só desde que assumiu o cargo de Primeiro-Ministro, mas também ao longo dos dez anos em que, como Chancellor, foi na prática um First Lord of the Trasury do "rei" Tony I.
Como notou Ben Brogan, do Daily Mail, Cameron apenas levanta agora a hipótese de vir a ter de aumentar os impostos pois receia ter de fazê-lo, e acima de tudo, receia as consequências que, no que diz respeito ao apoio popular, essa medida implicaria. Por isso, vai já "avisando" os eleitores para essa possibilidade, para que, caso venha a ocupar o nº 10 de Downing Street e tenha de aumentar os impostos, ninguém o possa acusar de ter mentido enquanto estava na oposição. Mas por que razão receia Cameron poder vir a ter de aumentar os impostos? Como explica Brogan, porque nos últimos anos Gordon Brown gastou demasiado dinheiro e endividou o país ainda mais. Agora que a "crise" se instala, a ilusão de que se podia viver com dinheiro que não se tinha vai ter de ser paga.
Os portugueses reconhecerão bem o que se passou. Tal como Guterres, Brown herdou (quando chegou com Blair ao poder) uma conjuntura incrivelmente favorável. Tal como Guterres, em vez de a aproveitar de forma a realizar reformas que, sendo "duras", seriam muito menos penosas em tempo de "vacas gordas", Brown usou o dinheiro que não parava de chegar para comprar votos através do uso dos recursos públicos e da expansão da dependência do Estado. Tal como aconteceu com Guterres, o tempo foi mais rápido que Brown, e este teve de lidar com o descontentamento trazido pelo desabar das ilusões que ele criara. Mas, tal como aconteceu em Portugal com Guterres, terá de ser quem vier a seguir a limpar a bagunça deixada por Brown, numa conjuntura em que essa "limpeza" custará muito mais às pessoas, dificultando a tarefa do governo que a quiser realizar.
No Telegraph de hoje, Iain Martin escreve que se os tories não conseguiram lidar eficazmente com esta realidade, não conseguirão mais do que um mandato. De facto, foi isso que aconteceu em Portugal. Depois da derrocada guterrista, Durão Barroso não foi capaz de fazer as reformas de que o país precisava, e muito menos de lidar com a contestação que as suas muito tímidas medidas provocaram junto do eleitorado. E depois da "trapalhada" santanista, José sócrates repetiu o erro de Barroso: grande gritaria e insistentes proclamações de "coragem" e "firmeza", mas grande fragilidade nas "reformas" introduzidas, que deram o brilhante resultado de atrair a contestação popular, sem que no entanto, se conseguisse efectivamente mudar o que quer que seja. Tal como no Portugal pós-Guterres, o Reino Unido pós-Brown arriscasse a cair num ciclo vicioso de paralisia, no qual as dificuldades inerentes às reformas necessárias desencorajam os governos de as tomar, mas como elas vão sendo adiadas, mais grave se tornam os problemas que terão de ser resolvidos, aumentando as dificuldades e a relutância em tomar as medidas necessárias, numa constante degradação das condições de governabilidade. Se Brown foi desempenhando nos últimos anos o papel de Guterres, só se David Cameron não quiser fazer de Durão barroso poderá evitar que o Reino Unido se transforme num Portugal mais rico, mais igualmente à deriva.
Posted by Bruno at 04:29 PM
julho 16, 2008
Passo a Passo
O Secretário de Estado Adjunto das Obras Públicas, Paulo Campos, foi hoje à Assembleia da República para defender a proposta do Governo de introdução de um "dispositivo electrónico de matrícula", ou seja, de um "chip" que identifique automáticamente a viatura. De acordo com Paulo campos, esta medida representa a adopção de uma forma "mais avançada" de "detecção e identificação" dos automóveis. Passo a passo, Portugal vai-se aproximando da altura em que começaremos a adoptar "formas mais avançadas" de "identificação" das pessoas, em que será possível saber "automaticamente" quem fez o quê, onde estava determinado indivíduo a uma determinada hora, do que é que ele gosta, o que ele compra, em quem é que ele vota. Passo a passo, o Estado vai sabendo cada vez mais acerca de nós com cada vez mais facilidade. Passo a passo, nós vamos perdendo cada vez mais da nossa liberdade.
Posted by Bruno at 10:07 PM
julho 15, 2008
A Entediar Os Leitores Desde 2003
Este blog faz hoje 5 anos.
Posted by Bruno at 09:37 PM
julho 14, 2008
Conan O'Brien no Fora.tv
Posted by Bruno at 06:04 PM
julho 13, 2008
A Epidemia da Impunidade
As cenas de violência num bairro social da periferia lisboeta, que andam a provocar grande entusiasmo nas televisões (que temiam não ter nada para dar nestes tempos mortos de Verão) são tudo menos surpreendentes. Elas são apenas e só uma consequência da forma como a "agenda da segurança" é tratada em Portugal: sempre balançando entre a histeria generalizada que surge sempre que acontece alguma coisa, e a mais completa obscuridade, quando os partidos da oposição nada têm a ganhar ao falar dela, é inevitável que nada se faça e nada mude, a não ser o sentimento de insegurança das pessoas, que cresce à medida que o tempo passa. Agora que os políticos se entretêm a debater quais as "causas" da violência, é para esse "ambiente" de insegurança que devem olhar. Pois se os cidadãos cumpridores da lei não se sentem seguros, os que a ignoram sentem que podem fazer o que quiserem.
Já em 2005 escrevi que a forma como os temas da segurança, do policiamento e criminalidade são tratados em Portugal não resolvia esses problemas, e criava outros até aí não existentes, e que portanto, os anos seguintes seriam palco de um aumento da violência em Portugal. Os casos de homicídio na "noite" do Porto e de Lisboa, em Loures, e em Oeiras, bem como as tristes cenas de agressão numa esquadra da polícia de Sacavém, não só foram um sinal desse previsível aumento da violência, como provocaram, eles próprios, um agudizar (também ele previsível) do sentimento de impunidade por parte de quem quebra a lei, e simultaneamente, do sentimento de insegurança de quem não se sente protegido pelas forças policiais. Pois o sentimento de impunidade é um daqueles fenómenos que Malcolm Gladwell, no excelente livro The Tipping Point, mostra funcionarem como "epidemias", como algo que se vai espalhando pela sociedade até atingir um "ponto de viragem", em que os seus efeitos (neste caso, nefastos) se começam a sentir. É por isso que imagens, como as que foram passadas, dos acontecimentos na Quinta da Fonte tenderão a agravar o clima de impunidade e insegurança que as propiciou. E enquanto os políticos portugueses não começarem a tratar estas questões de outra forma que não a sua habitual alternância entre a histeria e o adormecimento, tudo tenderá a piorar.
Posted by Bruno at 09:40 PM
julho 11, 2008
Pré-Moderno
Parece que o senhor primeiro-ministro resolveu atacar manuela ferreira leite e as suas opiniões sobre a família, acusando-a de ter uma concepção "pré-moderna e até pré-concílio do Vaticano II". Ora, se é assim tão "pré-moderna", até deveria ser "pré-Concílio de Trento" e não apenas "pré-Vaticano II", que é só do século passado e relativamente "moderno". Mas isto talvez seja esperar demasiada inteligência por parte do nosso Primeiro-Ministro.
Posted by Bruno at 09:51 PM
julho 10, 2008
Paulo Rangel e Sócrates
No debate do “Estado da Nação”, o novo líder da bancada parlamentar do PSD, Paulo Rangel, fez uma crítica política às opções do Governo. Fez uma defesa do papel do parlamento perante a arrogância do Governo e dos seus Ministros. Colocou questões ao Primeiro-Ministro. Este último responde-lhe com insultos. Com piadinhas. Deturpa ou ignora as palvras de Rangel. Discute com ele como se Paulo Rangel fosse Santana Lopes, e se comportasse como Santana Lopes. Infelizmente para Sócrates, Rangel não é Santana. E não se comporta como ele. E a dificuldade que o Primeiro-Ministro tem em lidar com a forma como Rangel interveio é notória. Quando alguém critica as políticas concretas do Governo, assentando essa crítica numa análise da conjuntura actual, a arrogância de Sócrates não funciona: quando Sócrates goza com a intervenção de Rangel, quando desvaloriza as críticas e as questões que ele coloca, goza com as dificuldades que os portugueses sentem em virtude da conjuntura que Rangel analisa. Ao ignorar o que ele diz, ao mostrar-se arrogante perante o que ele diz, mostra-se arrogante perante as dificuldades dos portugueses. Se o “estilo” de Sócrates poderia funcionar com Santana, se as pessoas até podiam “gostar” de ver esse “estilo” perante alguém como Santana (afinal, é sempre um bom espectáculo ver Santana a ser enxovalhado), certamente não gostam de ver questões acerca dos problemas que enfrentam diaramente a serem ignoradas pelo Primeiro-Ministro, ou a serem respondidas com a distribuição de uns papéis que ninguém pode ler, e que ignoram as circunstâncias concretas que hoje os portugueses enfrentam. Escrevi há dias que a nomeação de Paulo Rangel para a liderança da bancada parlamentar do PSD era uma boa notícia. Só não o é para Sócrates, como o debate de hoje mostra.
Posted by Bruno at 09:39 PM
julho 09, 2008
Governar Para As Eleições
A SEDES publicou ontem um documento que acusa José Sócrates e o seu Governo de "governarem para as eleições". Não é mentira nenhuma, e os exemplos que a SEDES dá (como, por exemplo, a "cedência à agitação social") são todos verdadeiros. Mas a SEDES erra ligeiramente ao dizer que este é um comportamento recente por parte do Governo. Na verdade, desde que tomou posse que José Sócrates orienta a sua acção pelas necessidades eleitorais, com toda a política governamental subordinada ao objectivo da renovação da maioria absoluta. O seu eleitoralismo é tudo menos recente, pois até o muito elogiado "reformismo" de Sócrates mais não era que um instrumento de captação de votos: Sócrates criava a ilusão de que promovia reformas para alimentar uma imagem de político "decidido", enquanto ao mesmo tempo deixava tudo na mesma na esperança de não perder o apoio dos dependentes do PS nos sectores que fossem "alvo" da sua falsa "firmeza". Corria o risco de provocar descontentamento (pela retórica confrontacional que usava para fingir fazer "reformas") sem obter resultados que compensassem a perda desse apoio (precisamente porque apenas fingia fazer essas reformas), mas até muito recentemente, as sondagens pareciam indicar que o risco tinha compensado.
Para azar de Sócrates, apareceu a "crise". E com ela o descontentamento, não apenas dos privilegiados que eram alvo da retórica socrática (e apenas da retórica), mas de vários sectores da sociedade que viram a sua vida severamente afectada pela tal "crise". Aí, o governo começou a ficar desesperado. Protestos como o dos pescadores ou das transportadoras (ao contrário, por exemplo, da dos professores) não traziam consigo a vantagem de "confirmar" aos olhos dos restantes eleitores a "vontade reformadora" do Governo. Apenas constituíam um sintoma de um mal-estar que o Governo sabe ser bastante mais alargado. E por isso o Governo cedeu. Ao contrário do que diz a SEDES, nada disto significou uma "viragem" da política governamental. Como já disse, ela sempre foi subordinada aos objectivos eleitorais do PS. Apenas significou que a imagem de "firmeza" na qual o Governo assentava toda essa política eleitoralista já não servia os seus propósitos. Por isso longe de representar um recuo da política "reformista" de Sócrates, essa "cedência à agitação social" é apenas e só um sinal do falhanço da política eleitoralista do Governo, e uma inversão da "mensagem" na esperança de salvar essa política. Acima de tudo, denota o desespero do governo perante o fracasso desse seu eleitoralismo, pois se inverte a imagem que ele gosta de passar de si próprio, só o faz porque já não vê qualquer alternativa, porque se quer manter agarrado ao poder mas sente-o a fugir.
É precisamente por ser sinal desse desespero que esta nova versão do (já antigo) eleitoralismo de Sócrates é perigosa para o país: Sócrates faz-se refém daqueles a quem cede, e leva o país consigo. Todos ficarão a saber que, perante a anarquia, o Governo não tentará sufocá-la, antes lhe dará o que ela pedir. Obviamente, a anarquia pedir-lhe-à muito mais. E como a única moeda que Sócrates tem para pagar o seu próprio resgate é a verba que o Estado tira aos contribuintes, serão estes a pagar a ambição de Sócrates.
Posted by Bruno at 10:06 PM
julho 08, 2008
O Impacto de Ferreira Leite
Na semana passada, Manuela Ferreira Leite deu uma entrevista à TVI, onde continuou a sua crítica aos compromissos assumidos pelo Governo com a realização de um vasto conjunto de obras públicas que, no entender da líder laranja, deveriam ser “repensados” em virtude da conjuntura complicada em que o país se encontra, especialmente se for tida em conta as dificuldades financeiras do Estado português. É precisamente por ligar a sua oposição ao projecto “desenvolvimentista” do Governo à crise que o país enfrenta que a mensagem de Ferreira Leite é eficaz: ela não só traça uma linha de diferenciação entre o seu PSD e o PS de Sócrates (ao dizer que, ao contrário dos socialistas, não acredita que o investimento público seja o instrumento adequado ao desenvolvimento do país), como, ao centrar essa sua mensagem na crise, coloca pressão sobre a atitude propagandística do Governo.
A entrevista de Sócrates à RTP, no dia seguinte, é um bom exemplo da eficácia de Ferreira Leite e da sua estratégia: pela primeira vez, Sócrates sentiu a necessidade de dizer que nem tudo estava bem. Claro que continuou a dizer que tudo o que fez foi excepcional, e que tudo o que de negativo paira sobre Portugal é alheio à sua responsabilidade. Mas já não diz, como há uns meses dizia o seu Ministro das Finanças, que Portugal estava imune à crise internacional, graças ao esforços do Governo. A dimensão da crise, e a tónica que Ferreira Leite nela coloca, obrigaram Sócrates a descer à terra e, implicitamente, a admitir o falhanço: pois se até há uns meses Portugal estava preparado para a crise, devido ao trabalho do Governo, se agora está à sua mercê, é porque afinal o Governo já não acha que o seu trabalho teve o condão de isolar Portugal do resto do mundo e dos seus problemas. A eleição de Ferreira Leite, e a mudança de linha política que operou no PSD, transformou a cena política portuguesa, que já não é a mesma de há uns meses. O PSD já não se limita a comentar o que o Governo vai dizendo. Antes centra toda a sua oposição numa única diferencia de posição (em relação ao investimento público e à atitude perante a crise), o que como se vê, causa muito mais dificuldades ao governo do que a histeria de um Santana Lopes “combativo” em debates parlamentares.
Outro sinal desse mesmo impacto é evidente nas notícias de que começa a haver alguma tensão entre o Presidente da República e o Primeiro-Ministro, em torno do pacote de Obras Públicas que Ferreira Leite critica. É bom lembrar que, aquando da eleição presidencial, este era precisamente o tema sobre o qual se antecipava um maior potencial de conflito entre Cavaco e Sócrates. No entanto, nos últimos meses, e à medida que o Governo apresentava um número cada vez maior de “projectos”, esse conflito parecia inexistente. Não é difícil de perceber porquê: quando Cavaco foi eleito, o líder do PSD era Marques Mendes, muito crítico de projectos como o TGV e a Ota, enquanto nos últimos meses, o partido laranja era liderado por Luis Filipe Menezes, sempre ambíguo em relação a tais questões. Mal Ferreira Leite recuperou a oposição de Marques Mendes ao “faraonismo” de Sócrates, logo o tema regressou, tal como regressaram as notícias de que Cavaco não partilha o entusiasmo governamental.
O que a eleição de Ferreira Leite não mudou, no entanto, foi a profunda divisão que existe no seio do PSD, e o facto de que um dos lados em confronto é, como aqui escrevi, o melhor amigo que Sócrates pode ter. Segundo o Diário de Notícias, vários autarcas do PSD manifestaram-se contra as críticas de Ferreira Leite pondo-se do lado do Governo ao afirmarem a necessidade de tais projectos. Isto mostra como existe de facto uma divisão entre um “PSD nacional” e um “PSD autárquico”, e que este último é incompatível com uma verdadeira alternativa ao PS: tanto o PS como o “partido autárquico” acham que obras públicas faraónicas são um instrumento de “desenvolvimento” e “modernização” do país, ambos acham que é através de dinheiro público em “obras” que o país “anda para a frente”, e ambos sabem que com Ferreira Leite, e perante a conjuntura actual, esse “caminho” não será seguido. Há, por isso, uma convergência de interesses entre o PS de Sócrates e o PSD dos aparelhos autárquicos, que pouco se importarão se Sócrates ficar em São Bento e lhes ofereça as obras que “tratam” do que está à sua “porta” (para usar as palavras de um autarca de Figueiró dos Vinhos), por muito que isso custe o tecto da casa nacional. Especialmente se, na liderança do seu partido estiver uma direcção que veja como prioritária a afirmação do partido a nível nacional, subordinando (como Marques Mendes fez e Ferreira Leite certamente se prepara para fazer) os esforços de perpetuação dos feudos de poder locais dos “caciques” do “partido autárquico”, à afirmação de uma política alternativa ao PS a nível nacional. Há muito boa gente que acha que entre Ferreira Leite e Sócrates não há qualquer diferença. Mas o “Bloco Central” que realmente devia assustá-los é o que une o PS à parte do PSD que tem mais a perder com a possível subida de Ferreira Leite ao poder.
Posted by Bruno at 09:51 PM
julho 07, 2008
Posted by Bruno at 06:47 PM
julho 05, 2008
O "PSD Autárquico" É O Melhor Amigo Que Sócrates Poderia Ter
A notícia publicada hoje pelo Diário de Notícias, de que vários autarcas do PSD se manifestaram contra as recentes declarações de Manuela Ferreira Leite (contra os projectos de obras públicas anunciados pelo Governo), pondo-se do lado do Governo ao afirmarem a necessidade de tais projectos, mostram como existe de facto uma divisão entre um "PSD nacional" e um "PSD autárquico", e que este´último é incompatível com uma verdadeira alternativa ao PS: tanto o PS como o "partido autárquico" acham que obras públicas faraónicas são um instrumento de "desenvolvimento" e "modernização" do país, ambos acham que é através de dinheiro público em "obras" que o país "anda para a frente", e ambos sabem que com Ferreira Leite, e perante a conjuntura actual, esse "caminho" não será seguido. Há, por isso, uma convergência de interesses entre o PS de Sócrates e o PSD dos aparelhos autárquicos, que pouco se importarão se Sócrates ficar em São Bento e lhes ofereça as obras que "tratam" do que está à sua "porta" (para usar as palavras de um autarca de Figueiró dos Vinhos), por muito que isso custe o tecto da casa nacional. Especialmente se, na liderança do seu partido estiver uma direcção que veja como prioritária a afirmação do partido a nível nacional, subordinando (como Marques Mendes fez e Ferreira Leite certamente se prepara para fazer) os esforços de perpetuação dos feudos de poder locais dos "caciques" do "partido autárquico", à afirmação de uma política alternativa ao PS a nível nacional. Há muito boa gente que acha que entre Ferreira Leite e Sócrates não há qualquer diferença. Mas o "Bloco Central" que realmente devia assustá-los é o que une o PS à parte do PSD que tem mais a perder com a possível subida de Ferreira Leite ao poder.
Posted by Bruno at 09:49 PM
julho 04, 2008
4th of July

Posted by Bruno at 10:11 PM
Instituto Liberal
No Instituto Liberal tiveram a amabilidade de publicar o meu texto O Dilema das Potências Ocidentais (numa arrumadinha versão em Word), o que aproveito para agradecer.
Posted by Bruno at 10:01 PM
Parabéns
À rapaziada do Arte da Fuga, pelo quarto aniversário do blog.
Posted by Bruno at 09:58 PM
julho 03, 2008
Inflação
No Insurgente, o Michael Seufert escreve um interessante texto acerca do que é a inflação, distinguindo-a de uma mera subida de preços (de alguns produtos em virtude do aumento da sua procura), e classificando-a com uma subida geral de preços provocada pela perda de valor do dinheiro (como nota o Michael, como é que a subida do preço de alguns produtos não implicaria uma diminuição da procura de outros e a consequente descida dos seus preços, a não ser que o dinheiro com que todos esses produtos são adquiridos tenha perdido valor em relação a todos eles?). É um texto que vale a pena ler (tal como este comentário do Carlos Novais, que alerta para outros indicadores de inflação que não a subida do chamado "consumer price index"), principalmente numa altura como esta, em que todos os dias toda a gente fala de "inflação", em muitos casos sem saber muito bem do que está a falar.
Posted by Bruno at 10:17 PM
julho 02, 2008
Fora de Portas
Depois de um amável convite do meu caro leitor António R. Batista, o meu texto a propósito da crise no Zimbabwe foi publicado no site Vigilância Democrática, a cujos responsáveis aproveito para agradecer.
Posted by Bruno at 09:34 PM
julho 01, 2008
A Hostilidade a Ferreira Leite
Há alguns dias, Constança Cunha e Sá notava no Público que Manuela Ferreira Leite não tinha tido algo a que se pudesse chamar um "estado de graça" desde que assumira a liderança do PSD. De facto, desde a sua vitória nas directas, até mesmo desde que a campanha começou, que Manuela Ferreira Leite tem-se deparado com a hostilidade generalizada da comunicação social e da "intelligentsia" pátria. Um bom exemplo foi a última crónica de Rui Tavares no Público: aparentemente, o facto de Ferreira Leite ter negado veementemente a possibilidade de um "Bloco Central" ser formado em 2009 é a prova de que as suas ideias são iguais às do PS, pois se fossem diferentes não seria necessária tanta veemência no desmentido(claro que se, porventura, Ferreira Leite não tivesse negado essa possibilidade, logo Rui Tavares e outros diriam que essa "falta de clarificação" mostraria que algo se estava a preparar. Aliás, Rui Tavares chega mesmo a dizer isso, por achar que ao recusar "alianças com o PS, Ferreira leite apenas rejeitou coligações pré-eleitorais, deixando em aberto coligações pós-eleitorais). Este exemplo é interessante porque mostra bem a natureza dessa hostilidade: ela não é dirigida apenas contra o que Ferreira Leite defende, mas essencialmente contra Ferreira Leite, contra a sua pessoa.
Não é por discordarem do que Ferreira Leite diz (embora também discordem) que são hostis em relação a ela, mas por ser ela a dizê-lo. Instintivamente, desconfiam de Ferreira Leite, e tudo o que ela disser não só está errado, como demonstra uma qualquer falta de carácter: é "igual ao PS", não "tem ideias", tem um qualquer plano escondido, quer "tirar o partido às bases", é "só" uma "lebre" do presidente, etc.. Existe, da parte de muitas das pessoas que comentam os assuntos políticos em Portugal, uma desconfiança à partida em relação a Ferreira Leite, que (como aliás já havia acontecido com Ribeiro e Castro no CDS) desloca a crítica daquilo que ela diz para a sua própria pessoa, colocando-lhe particulares dificuldades de afirmação do seu projecto, pois à partida, tudo o que ela disser está logo condenado: se põe de parte a hipótese de uma coligação com o PS, é um acto "artificial" de diferenciação, cuja "artificialidade" é evidente só pelo facto de o acto ter tido lugar; se não põe de parte essa hipótese, é porque a considera, e portanto, "prova" que não há diferenças entre o seu PSD e PS de Sócrates. No caso extremo de Rui tavares, ambas se verificam: ela é demasiado veemente e não suficientemente veemente ao mesmo tempo, e em ambos os casos se prova que vai haver "Bloco Central", nem que seja de forma escondida.
Isto não representa uma qualquer falha de carácter de quem critica Ferreira Leite. É apenas e só natural que algumas pessoas tenham este tipo de reacções perante algumas outras pessoas. Esta hostilidade em relação a Ferreira Leite não é um "plano" consciente de "destruição" da sua figura, embora haja gente (principalmente no PSD) que o incentive com esse propósito. Mas em grande medida, é algo de "irracional" que leva pessoas (como Rui Tavares) que têm discordâncias perfeitamente racionais com Ferreira Leite e o que ela defende, a conduzirem essa crítica para um plano em que o próprio carácter da pessoa é atacado, sem que haja qualquer razão no comportamento político dela para que esse ataque seja feito (por exemplo, como pode Rui Tavares dizer que não há diferenças entre Ferreira Leite e Sócrates, quando Ferreira Leite, desde 1998, vem dizendo que a política orçamental do PS não controla a despesa pública, e ainda hoje, concedendo que o PS tem razão ao defender a necessidade da consolidação orçamental, continua a criticar Sócrates por não controlar a despesa, um esforço que implicaria uma reconfiguração do papel do Estado na sua relação com os cidadãos?). De certa maneira, essa hostilidade é até "culpa" de Ferreira Leite. É por ela ser como é que há alguma dificuldade em "aceitá-la": não tem grande jeito para as televisões, o que leva as pessoas a dizerem que ela não é "mobilizadora"; não vive para o "soundbyte", o que num ambiente mediático em que só o "soundbyte" consegue "passar", leva as pessoas a dizerem que "não fala". E depois, é "velha", num ambiente mediático dependente da "novidade" e da "frescura", por muito "ilusória" ou "vazia" que ela seja. Claro que o facto de ser assim até pode vir a ser uma vantagem: num momento de crise, alguém "assim" pode ser precisamente aquilo que as pessoas desejam. Ferreira Leite pode vir a conseguir aproveitar o "ambiente de crise" que se vive em Portugal para "dar a volta" às dificuldades que a sua própria personalidade lhe cria no "ambiente mediático" em que tem de "circular". Mas é algo a que tem de "dar a volta", pois essa hostilidade, por se dirigir à sua pessoa (volto a frisar, por sua própria "culpa") só desaparecerá se a própria Ferreira Leite desaparecer.
Posted by Bruno at 03:09 PM