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maio 31, 2008
As Outras Eleições No PSD
Pormenor que não tem sido comentado nestas eleições para o PSD é o resultado da outra eleição que hoje decorreu (para os delegados ao Congresso ou para a Comissão Política nacional, confesso não estar certo). Apesar de terem concorrido quatro candidatos à liderança, apenas se apresentaram duas listas concorrentes, uma declarando o seu apoio a Manuela Ferreira Leite, outra cujo sentido de voto desconheço se foi sequer anunciado. Seria importante saber quais os resultados, para se perceber em que estado está realmente o PSD: teve a lista que apoiava Ferreira Leite mais votos que a sua candidata, atraindo, por exemplo, eleitores de Passos Coelho? Ou toda a gente que não votou nela corresponde de facto a uma parte do partido que desejava a vitória de qualquer candidato menos ela, que, dividindo-se entre Passos Coelho e Santana na eleição para a liderança, acabou no entanto por se unir na outra eleição, colocando Ferreira Leite em minoria no Congresso? E no caso de este último cenário se confirmar, manter-se-ão assim unidos, fragilizando a direcção de Ferreira Leite nos órgãos nacionais a serem eleitos em Guimarães? Ou haverá uma ruptura entre Passos Coelho e os "menezistas" que o rodearam, com o primeiro a aproximar-se de Ferreira Leite, e os segundos a continuarem a lutar contra os "canalhas" da "pseudo-elite liderante" que assombra os pesadelos de Menezes e o leva a cenas vergonhosas na televisão? Estas deveriam ser as perguntas a que os nossos jornalistas deveriam dar uma resposta, para que todas as pessoas pudessem perceber o que realmente se passa no PSD. Mas imagino que dê demasiado trabalho.
Posted by Bruno at 10:01 PM
A Vitória de Ferreira Leite
Manuela Ferreira Leite foi eleita como líder do PSD. Parece-me ser a escolha certa. Mas estou longe de pensar que, só por si, a sua vitória de hoje resolva o que quer que seja. Aliás, a razão pela qual eu preferia ferreira leite residia precisamente no facto de achar que, depois de hoje, há muito para resolver: o partido enfrenta uma profunda divisão interna, e por razões que várias vezes aqui mencionei, não me pareceu que Passos Coelho encontrasse forma de resolver o porblema de forma a que o país saísse beneficiado com um PSD capaz de apresentar um programa reformista. Uma vez eleita, Manuel Ferreira Leite pode vir a fazê-lo. Estou certo que, nos próximos tempos, discordarei de muitas coisas que a nova líder do PSD afirmará, mas estou também certo que ela tem uma excelente oportunidade, que mais ninguém poderia ter, para "dar a volta" que o partido e o país precisam que o PSD dê. Espero que não a desperdice.
Posted by Bruno at 09:52 PM
maio 30, 2008
O Portugal do Governo
Há uns meses, o Ministro das Finanças garantiu-nos que Portugal estava "bem preparado para enfrentar a crise". Há uns dias, Sócrates garantiu que não havia pobreza no país, e se houvesse, isso era culpa do governo anterior. Hoje, manuel Pinho, Ministro da Economia, foi a Paços de Ferreira abençoar a inauguração de uma fábrica, e logo contrastou "a realidade" evidente no evento e a "conversa" da crise que se "vai ouvindo": no Portugal do Governo, tudo corre bem, não há país com melhores condições para enfrentar momentos difíceis, e uma sessão de propaganda é a "prova" de que o Governo tem razão quando nos diz que vivemos no Paraíso. Na sua intervenção, Manuel Pinho disse que "aquela" era a imagem do "futuro". Eu temo que ele, sem querer, tenha tido toda a razão: que o "futuro" venha a ser recheado de propaganda, mentira, ilusão, e por muito que o Governo não o perceba ou finja não perceber, empobrecimento. Ao contrário do dr. Pinho, que ostentava um sorriso de uma felicidade e excitação comuns a uma criança na véspera de Natal, não vejo razões para celebrar.
Posted by Bruno at 10:01 PM
maio 29, 2008
A Hipocrisia de Sócrates
Há dias, o Primeiro-Ministro José Sócrates, quando confrontado com a possibilidade de aplicar medidas que "controlassem" a subida dos preços dos combustíveis, afirmou que não o faria, pois não queria obrigar os contribuintes a pagar a gasolina de quem anda de carro. Hoje, no entanto, já se mostrou disponível para "discutir o assunto a nível europeu". Como o facto de a coisa ser discutida a nível europeu não apaga a necessidade de alguém pagar a gasolina, e qualquer tentativa de deslocar esse pagamento para longe das mãos dos consumidores o colocará, mais tarde ou mais cedo, nas mãos dos contribuintes, não se percebe o porquê da "disponibilidade" de Sócrates. Tudo se torna mais claro se nos virarmos para a recente intervenção de Sarkozy, o indescritível Presidente francês. Ao olhar para Sarkozy empurrar para a "Europa" o ónus da decisão, e reservar para si, que fez a proposta, a aura de "preocupação" com os que "sofrem", Sócrates descobriu uma maneira de obter a simpatia popular que a medida lhe traria, sem ter de fazer a asneira propriamente dita, e sem ter de lidar com as consequências da dita. O oportunismo, claro, não surpreende. Mas a falta de inteligência, por seu lado, era menos esperada. É que ao contrário de Sócrates, Sarkozy não se comprometera anteriormente com posições contra qualquer intervenção estatal, fosse ela tomada isoladamente ou em concertação com os parceiros na UE. Ao querer imitar o Presidente francês, depois de já ter argumentado contra aquilo que Sarkozy defende, Sócrates não fez "passar" uma imagem de quem se "preocupa". Apenas "passou" uma imagem de hipocrisia, de quem só se "preocupa" com os votos que colhe.
Posted by Bruno at 09:22 PM
maio 28, 2008
Sarkozy E Os Impostos Sobre Os Combustíveis
Parece que o Presidente francês deu uma entrevista a uma rádio, na qual "fez uma reflexão", questionando-se acerca da possibilidade da "Europa" se "unir" para, numa "medida de emergência", suspender os impostos sobre os combustíveis, em virtude da contínua subida de preços do petróleo. Se uma prova fosse precisa (como se não elas não fossem mais que suficientes) da falta de cabecinha de Sarkozy, ela poderia ser encontrada aqui. A asneira começa logo em Sarkozy propôr uma "medida de excepção" para um problema que tem muito pouco de excepcional, e muito de permanente: os preços dos combustíveis dificilmente regressarão aos níveis baixos que tanto agradaram aos consumidores. Pois se toda a gente diz que esta subida de preços se deve em grande medida à "especulação", isso é apenas e só um indicador de que os preços ainda aumentarão mais, ou então muita gente anda enganada e vai sofrer com isso: um especulador compra mais caro agora, pois tem a expectativa de que aquilo que está a comprar vai ser ainda mais caro no futuro, e portanto, ele terá uma oportunidade de lucrar amanhã, tanto ou mais que aquele que lucrou hoje (é por isso que a especulação é uma coisa boa para todos, até para o consumidor, que vê a variação de preços acontecer progressivamente, em vez de a sofrer de uma forma mais abrupta no futuro).
Mas a coisa não se fica por aqui. Sarkozy quer "suspender" os impostos na esperança de que os preços baixem. Não lhe ocorre que possa vir acontecer o mesmo que aconteceu (para choque do nosso Governo) nos ginásios portugueses: os impostos desceram, e os preços ficaram na mesma. A razão pela qual isto acontece não é a suposta "maldade" dos "capitalistas", mas antes da "benevolência" dos consumidores: embora com pouco entusiasmo, eles "querem" pagar este preço pelos combustíveis que consomem. E pelos vistos, há um conjunto suficientemente grande de pessoas dispostas a pagar estes preços pelos combustíveis que consomem, pois caso contrário, as bombas de gasolina seriam forçadas a baixá-los para sobreviverem. É claro que a descida ou suspensão de impostos pode afectar o comportamento dos consumidores, e estes passarem a não estarem dispostos a dar o dinheiro que dão hoje. No entanto, há a possibilidade de, perante duas alternativas (pagar este preços "altos", ou não consumirem combustíveis) os consumidores valorizem o seu consumo ao ponto de estarem dispostos a pagar o que (já) lhes é pedido. Nesse caso, a única coisa que o Estado faz é diminuir os custos da oferta desse serviço, e a diminuição de custos possibilitará um aumento dos lucros de quem o fornece. Claro que isto poderá ter efeitos positivos na economia, mas os consumidores que fazem protestos em Inglaterra e em França continuarão a ter razão para estarem chateados.
Mas esta declaração de Sarkozy mostra, acima de tudo, o oportunismo desavergonhado da criatura. Sarkozy sabe perfeitamente que será difícil convencer os restantes 26 membros da UE a abdicarem de uma generosa fonte de receitas fiscais. Tal como sabe que os seus parceiros, ou pelo menos os mais lúcidos de entre eles, têm consciência de que a actual "crise petrolífera" tem pouco de "excepcional" e que veio para ficar, e portanto, estarão pouco dispostos a embarcarem numa política que os obrigará a um aumento dos impostos (ou cortes na despesa) daqui a poucos anos, altura em que alguns deles terão de enfrentar actos eleitorais. Sarkozy sabe que a sua proposta não será aceite. Por alguma razão ele disse que "não fazia uma promessa", apenas uma "reflexão". Por alguma razão quis fazer essa "reflexão" em "voz alta", na rádio, para que todos os eleitores franceses ouvirem o quanto ele se "preocupa", e daí recolher alguns votos, sem correr os riscos que a política que ele finge querer adoptar forçosamente teriam. O homem não é de facto flor que se cheire, e não espanta que haja por aí algumas destacadas personagens da nossa vida política a quererem imitá-lo: a falta de vergonha é uma característica que parecem partilhar.
Posted by Bruno at 05:11 PM
maio 27, 2008
No Leitor de DVD
Posted by Bruno at 10:14 PM
maio 26, 2008
A Luta Interna No PSD
Há dias, Vasco Pulido Valente escreveu um artigo no Público em que afirmava que, fosse qual fosse o vencedor da corrida para a liderança do PSD, nenhum deles conseguiria pôr um fim às profundas divisões internas do partido. O homem não podia ter mais razão, e todas as minhas posições acerca da disputa pela liderança do PSD assentam na ideia de que há um conflito insanável entre diferentes partes do partido. Durante algum tempo, pessoas próximas da candidatura de Ferreira Leite apresentaram-na como a "única" que poderia unir o "partido", e de há uns tempos para cá, há medida que Passos Coelho abre os braços e beija apaixonadamente os representantes do menezismo, tem sido a sua candidatura a afirmar-se como a que pode "congregar" as várias "tendências" do partido. Ora, como os leitores poderão ver pelo que fui escrevendo, nunca o meu apoio a Ferreira Leite se deveu a uma suposta vantagem dela na "união" do partido, antes pelo contrário. E uma das razões que me levaram a desconfiar de Passos Coelho foi precisamente o facto de a sua candidatura misturar muita coisa que, do meu ponto de vista (que pode estar errado) é incompatível: uma vitória de Passos Coelho, devido à sua base de apoio e à sua política interna (ele acha que as regras "estão muito bem como estão") significaria o adiamento da resolução do conflito entre o "partido autárquico" e o "partido nacional", pois o menezismo apoia-o por o ver como mais fraco, e portanto, aquele cuja vitória oferece maiores probabilidades de um regresso ao "caminho" agora interrompido. Uma vitória de Ferreira Leite, se ela souber "dar a volta" que o PSD precisa que lhe dêem, traz a oportunidade de o conflito, embora insanável, ter um vencedor, e de assim se poder devolver o PSD ao lugar que tem ocupado ao longo da história da democracia portuguesa.
Posted by Bruno at 07:14 PM
maio 25, 2008
A Ver
No Fora.Tv, Niall Ferguson e Peter Schwartz a discutirem os méritos e defeitos dos seus respectivos ofícios (historiador e "futurista"), e em que medida a Humanidade progrediu ou não.
Posted by Bruno at 10:28 PM
maio 24, 2008
A Ler
No Insurgente, todos os comentários (positivos e críticos) ao meu post de ontem, e os do leitor HO em particular:
Posted by Bruno at 10:24 PM
maio 23, 2008
A Preocupação Com "O Social"
Há dias, Manuela Ferreira Leite afirmou que os problemas que Portugal hoje enfrenta são de "natureza social", e que portanto, a prioridade de um PSD por si liderado deverá ser precisamente "o social". Logo esta frase foi tomada, por vários comentadores liberais (desde bloggers a Lobo Xavier) como uma tentativa de "ultrapassar o PS pela esquerda", e claro mais um sintoma do suposto estatismo de Ferreira Leite, apesar de ela também dizer que o Estado precisa de deixar de "sufocar" a sociedade. Esta reacção é interessante, porque diz muito acerca da cultura política dominante em Portugal. A "esquerda" tem o triste costume de associar, a qualquer tentativa de cortar o peso do Estado, uma suposta indiferença para com "os pobres", interpretando-a como a defesa de uma "selva capitalista" onde só pérfidos seres obcecados com o lucro podem sobreviver. Quando esses comentadores liberais, por Manuela Ferreira Leite mostrar uma "preocupação" com "o social", a acusam imediatamente de ser "socialista", estão a aceitar a caricatura que a "esquerda" faz de quem quer menos Estado: eles próprios parecem estar a aceitar que qualquer diminuição do peso do Estado é negativa para "o social", parecem estar a aceitar a ideia, fomentada pela "esquerda", de que uma solução "mais liberal" só piorará a situação de vida dos mais pobres. ora, quando Ferreira Leite diz que a sua prioridade é "o social", e ao mesmo tempo, diz também que o Estado precisa de ser aligeirado para deixar de "sufocar" a sociedade, o que ela está a dizer é que para melhorar a vida dos mais pobres, é preciso adoptar uma solução governativa mais liberal que a actual. E isso é algo que qualquer liberal deveria ver com bons olhos.
Posted by Bruno at 10:11 PM
maio 22, 2008
Está À Procura Do Cameron Português? Olhe Para Ferreira Leite (publicado há dias no Insurgente)
Enquanto ouvia o discurso de David Cameron, líder do Partido Conservador britânico, não pude deixar de pensar nas semelhanças entre o que ele estava a dizer e o que tem dito a candidata a líder do PSD, Manuela Ferreira Leite. À primeira vista, não poderia haver um par de pessoas tão diferentes entre si: Ferreira Leite é “intransigente”, “dura” e, “por isso”, tem “má imagem” (pessoalmente, acho que é “por isso” que tem melhor “imagem” do que se pensa), enquanto Cameron é de “falinhas mansas”, “jovem”, “moderno” e “amigo das câmeras de televisão”. Mas com um bocadinho mais de atenção, essa primeira impressão começa a dissipar-se. Em primeiro lugar, eu tenho vindo a insistir que a promoção da “imagem” de Cameron, ao contrário do que todos dizem, é precisamente aquilo que ele faz de pior, e que as suas ideias (ou algumas das suas ideias, principalmente as que dizem respeito à relação entre o Estado e os cidadãos na prestação de determinados serviços), são o que de melhor ele tem para oferecer. Em segundo lugar, porque se prestarmos atenção ao que ambos dizem, as semelhanças saltam à vista.
Veja-se o discurso de ontem: afirmou que “after a decade of reckless spending under Labour, Britain needs good housekeeping from the Conservatives. We need to start living within our means”; que “we have reached the limits of acceptable taxation and borrowing” and must now “create the space for cutting tax“; que “the first way in which we will control public spending is to reduce the long-term demands on the state. We need to tackle the causes of the social problems that give rise to public spending in areas like welfare and crime. That means taking forward the work that began with Iain Duncan Smith’s magnificent Policy Group report, Breakthrough Britain”; que “we will control public spending is by carrying out the work that was the great missed opportunity of the Blair and Brown years - proper public service reform. Unlike the Labour Party, there is no internal feud or ideological war preventing us from carrying out the reforms that everyone knows are needed”; e finalmente, que “the third component of our strategy is cut out waste and make government more efficient”.
Tal como Cameron, Manuela Ferreira Leite acha que o país não pode gastar mais do que tem (Cameron também está “obcecado” com o défice). Tal como Cameron, Ferreira Leite acha que o Estado está a “sufocar” a “sociedade civil”, e tal como Cameron, acha que é necessário cortar a despesa pública para depois se poder baixar os impostos. Tal como Cameron, parece achar que essa tarefa passa pela mudança da forma como o Estado se relaciona com os cidadãos. E acima de tudo, tal como Cameron (veja-se o que escreve Daniel Finkelstein), não faz promessas concretas, limitando-se a “pintar” um quadro muito geral do que pensa dever ser essa relação: se é verdade que Cameron, ontem, já anunciou algumas coisas mais concretas, seria bom notar que isso acontece dois anos depois da sua conquista da liderança, e depois de muito trabalho (dele e do seu antecessor, figura a que Ferreira Leite deveria prestar muita atenção) para credibilizar o seu partido aos olhos dos eleitores.
Claro que os leitores poderão apontar um problema a esta minha comparação: Cameron e Ferreira Leite falam ambos da necessidade (teórica) de impostos mais baixos, mas enquanto Cameron nunca esteve no Governo, Ferreira Leite já foi Ministra das Finanças e aumentou-os, o que a desqualificaria de ser a voz de um “partido dos impostos baixos” (como Cameron diz ser). Mas este raciocínio hipotético que certamente passou pela cabeça de muitos leitores tem também ele um problema: como ela própria já explicou, Manuela Ferreira Leite aumentou os impostos numa situação de emergência. A Comissão Europeia dera a Portugal um ano para baixar o seu défice público, enquanto a Sócrates, por exemplo, de acordo com as novas regras entretanto adoptadas, foi dado um prazo bastante mais alargado: Ferreira Leite aumentou o IVA de 17% para 19%, enquanto Sócrates, numa situação de muito menor urgência, aumentou-os ainda mais de 19% para 21%. É verdade que Ferreira Leite não cortou a despesa pública em grau suficiente, mas é preciso não esquecer que foi corrida do Ministério pela chegada de Santana Lopes, e a sua política foi deixada a meio. A insistência dela na necessidade de cortar a despesa leva a crer que ela o poderia ter feito se tivesse continuado no Governo, tal como o facto de dizer que, como as circunstâncias actuais são diferentes das de 2002, não voltaria a aumentar os impostos. Mais uma vez, o leitor objectará: mas Ferreira Leite já disse que foi um erro baixar o IVA agora. Mais uma vez, o raciocínio do leitor tem um problema: baixar o IVA agora foi um erro porque a despesa não está controlada, e essa é a crítica de Ferreira Leite. Só se poderão baixar os impostos depois de baixar a despesa, e desde 2004 até hoje, apenas temos estado a perder tempo. Tal como o Reino Unido tem estado a perder tempo com as políticas de Gordon Brown. Se o leitor acha que David Cameron é um político que faria falta a Portugal, abstraia-se da “imagem”, da “modernidade” e da “juventude”: olhe para o que ele diz, e verá que não há ninguém em Portugal mais parecido com ele do que Manuela Ferreira Leite.
Posted by Bruno at 10:07 PM
maio 21, 2008
A Ler
No Cachimbo de Magritte, o que escreveu Carlos Botelho acerca da inqualificável entrevista de Luis Filipe Menezes a Constança Cunha e Sá.
Posted by Bruno at 11:44 PM
maio 19, 2008
"Mudar A Relação Entre o Estado E os Cidadãos"
Hoje, David Cameron, líder do Partido Conservador britânico, fez um discurso que merece atenção. Nele, afirmou que "after a decade of reckless spending under Labour, Britain needs good housekeeping from the Conservatives. We need to start living within our means"; que "we have reached the limits of acceptable taxation and borrowing" and must now "create the space for cutting tax"; que "the first way in which we will control public spending is to reduce the long-term demands on the state. We need to tackle the causes of the social problems that give rise to public spending in areas like welfare and crime. That means taking forward the work that began with Iain Duncan Smith's magnificent Policy Group report, Breakthrough Britain"; que "we will control public spending is by carrying out the work that was the great missed opportunity of the Blair and Brown years - proper public service reform. Unlike the Labour Party, there is no internal feud or ideological war preventing us from carrying out the reforms that everyone knows are needed"; e finalmente, que "the third component of our strategy is cut out waste and make government more efficient".
Cameron reafirmou que o seu partido é "o partido dos impostos baixos", mas como nota Daniel Finkelstein, não fez qualquer promessa de os baixar (aliás, disse explicitamente que não faria "tax cut promises for the short term"): a sua prioridade não é "baixar os impostos" (que Finkelstein considera um "welcome and necessary by product"), mas "to change the relationship between citizens and the state, to build a stronger society and to improve the quality of things like health and education". Para Finkelstein, "it is important that, while the need to put state spending on a new path is not forgotten, the desire for swift tax cuts does not distort the entire programme or the way it is explained. Tax reductions are not the only thing, in fact not even the most important thing, a Tory Government will wish to achieve."
Isto é aqulo que eu tenho vindo a dizer acerca de David Cameron desde que ele foi eleito (veja-se, por exemplo, o que escrevi aqui): mesmo reconhecendo que impostos baixos promovem economias mais saudáveis, e são mais justos, acho que é mais prudente redefinir, em primeiro lugar, as funções do Estado, e só depois, definir o nível de impostos necessários para que o Estado desempenhe o papel que se considerar adequado (claro que, defendendo um Estado que deverá ter um papel limitado, que deverá desempenhar um número limitado de funções, acho que os impostos devem ser mais baixos do que são na generalidade dos países europeus). Não podia ter certeza que Cameron pensava o mesmo, mas os "sinais" dados pela sua liderança, principalmente nos seus discursos acerca da relação do Estado com os indivíduos na prestação dos serviços chamados de “sociais”, pareciam indicar que sim. O seu discurso de hoje apenas me confirma essa ideia.
Posted by Bruno at 07:23 PM
A Ler
O artigo de Niall Ferguson sobre 1968. Fica aqui um pequeno excerto:
"Looked at more closely, then, 1968 was about much more than opposition to Vietnam. For one thing, the upheavals of that year were by no means confined to a few American and west European campuses. As the historian Jeremi Suri has shown in his excellent book, Power and Protest, there were also revolutionary events in eastern Europe and in China that clearly had nothing to do with Vietnam. In Prague, dissident intellectuals such as Ludvik Vaculik and Vaclav Havel had a brief taste of free speech as Alexander Dubcek replaced the Stalinist Antonin Novotný and ushered in the Prague Spring. In China, meanwhile, the cultural revolution reached its crisis point as Mao suddenly took fright at the anarchic generational war he had unleashed. In both cases, military force had to be used to bring youthful protest under control. As the Red Army tanks rolled into Czechoslovakia and as the People’s Army fought a mini civil war with the Red Guards, the student Left in the west was confronted with a horrible reality: the regimes that espoused Marxist ideology were far more brutally repressive than the governments of the capitalist world.
That would have been a fatal blow if 1968 had been primarily about Marx or, for that matter, Mao. But it clearly was not. Far more important than Suri’s disjointed and doomed ”global revolution” was the cultural ”great disruption” of the late 1960s. This disruption involved fundamental shifts in the roles of, and attitudes towards, three groups: youths, black people and women.
(...)They wanted a revolution. But they wanted a mixed-sex party – a really big one – even more. And that reminds us that the quintessence of the late 1960s was not the barricades in Paris, effective though those were in hastening the downfall of General de Gaulle. Barricades were old hat, a tired re-enactment of 1789, 1830, 1848 and 1871. A far more original historical contribution was the open-air rock festival, epitomised by Woodstock. Though it was held a year later, in August 1969, Woodstock was the defining moment for the 68ers. And the climax of it all was, without question, Jimi Hendrix’s searing, distorted solo version of “The Star-Spangled Banner”. There he was, 26 years old, black, the son of divorced parents, the only one of five siblings not taken into care, a high-school dropout, a convicted car thief, a failed soldier, the father of at least one illegitimate child, a musical genius doomed to die a year later, drowned in his own vomit. As Hendrix tortured the American national anthem with all the feedback and tremolo his Fender could produce, the frustrations of a generation were made deafeningly audible.
This was protest, not revolution. To see the distinction, take a closer look at the lyrics of the two most overtly political songs produced in 1968 by the era’s two most important pop groups, the Rolling Stones’ “Street Fighting Man” and The Beatles’ “Revolution”:
Well then what can a poor boy do
Except to sing for a rock’n’roll band?
Cause in sleepy London town,
There’s just no place for a street fighting man.
But if you go carrying pictures of Chairman Mao
You ain’t going to make it with anyone anyhow
Don’t you know it’s gonna be all right …
Hardly clarion calls to arm the proletariat. On the contrary, Jagger and Lennon were spelling out their own deep ambivalence towards both street protest and Leftist politics.
And that, we can now see, was wise of them. For if the generation of 1968 had an Achilles heel it was precisely the implausibility of their claim to be in some way aligned with the working class. “Why aren’t you millionaires’ kids in Vietnam?” shouted hecklers at some of the early anti-war demonstrations in Cambridge, Massachusetts. It was a good question. Unlike in the second world war, the educated elite was under-represented, if not quite wholly absent, from the officer class in Vietnam. For most working-class Americans, it was staringly obvious who was doing the more noble work.
And that, surely, explains what seems to me to be the key to 1968 – the principal reason why the revolutionary energies of the student radicals were so easily contained. The recently released film Chicago 10 brilliantly re-edits archive footage of the battles between protesters and police that raged in Chicago’s Lincoln Park during the Democratic party’s 1968 National Convention. The most impressive thing is the obvious relish of the riot police and National Guardsmen as they whack the hippies into submission. Everywhere, from Berkeley to Berlin, from Prague to Peking (as we then called it), the story was the same: the plebeian police always sided with authority against the students, their despised social superiors. To be further reminded of the loathing felt by blue-collar and redneck Americans for the hippie heroes of 1968, replay the final scene of Easy Rider (1969), when Louisiana rednecks gratuitously shoot Dennis Hopper and Peter Fonda.
(...)Far from ushering in a new era of “liberty and communism”, as Germaine Greer had hoped, 1968 was the prelude to a profound political shift, most noticeable in the English-speaking world, which saw conservatism gradually reconstitute itself as a political ideology and the rise to power of conservative leaders who took positive pleasure in denouncing the excesses of the 1960s. Just one symptom of the backlash in the US was the upsurge in arrests and imprisonments (especially of young black men) in the late 1960s and 1970s – a trend that has yet to be reversed. The great disruption had not been to everybody’s taste, it turned out.
And there is a moral there for own time, too. Today’s American students are disproportionately Democrats. They strongly incline towards Barack Obama, a candidate who proudly boasts that he was “too young for the formative period of the 1960s – civil rights, sexual revolution, Vietnam war”. That has led some commentators to predict a “youthquake” in November’s US elections. If 1968 has a lesson for 2008, however, it should be to treat such predictions with caution. Considering the deep unpopularity of his own party at the moment, the man who spent 1968 in a North Vietnamese prison is polling very strongly indeed."
Posted by Bruno at 07:12 PM
maio 17, 2008
Ferreira Leite, O PSD e O País
A sondagem do Correio da Manhã, comentada por Pacheco Pereira no Abrupto, apenas me leva a reafirmar aquilo que aqui escrevi há tempos: parece-me que, para Ferreira Leite, o mais difícil será vencer o partido, e que, caso obtenha a liderança, uma vitória nas legislativas, embora relativamente improvável, estará ao seu alcance. E cada vez mais temo que, por eu poder vir a estar certo em relação à primeira, não possa verificar se o mesmo se passará em relação à segunda.
Posted by Bruno at 10:01 PM
maio 16, 2008
A Propaganda Tem Pernas Curtas
Escrito por mim em Janeiro:
Não se percebe o que leva estes homens a dizerem semelhantes coisas. Presumo que sejam suficientemente inteligentes para compreenderem que, independentemente dos méritos (poucos) das suas políticas, independentemente de terem ou não preparado o país para semelhante crise (não prepararam), uma recessão nos EUA afectará a economia dos nossos parceiros europeus, o que por sua vez afectará as nossas exportações, sobre as quais assentavam as previsões (já de si muito optimistas) do Governo. Presumo que sejam suficientes inteligentes para perceberem que, se os EUA entrarem em recessão, as previsões do Governo não serão cumpridas.
Assim, este optimismo governamental só se compreende como instrumento de propaganda. O que, no entanto, não o torna mais compreensível. Perante tão sombrias perspectivas, as risonhas palavras do Governo poderão encontrar uma audiência pouco receptiva: as pessoas, se pararem dois minutos para pensar e olharem para a realidade, não aceditarão no que o Primeiro-Ministro lhes diz. E mesmo que acreditem, não se percebe o que leva Sócrates a seguir por esse caminho. Pois ele certamente percebe que o que ele diz não é verdade, e que quando a realidade bater à porta, quando Portugal for afectado pelo abrandamento da economia internacional, quando as delirantes previsões do Governo tiverem de ser revistas, quando os portugueses perceberem que as "reformas" socráticas não preparam o país para uma situação de crise, o clima de paz que ele agora compra terá de ser pago a dobrar. Que, à entrada de um ano eleitoral, uma eventual crise da economia internacional custará ao PS o apoio eleitoral das pessoas que ainda vão acreditando no que Sócrates lhes diz.
Hoje, no Público: enquanto "O crescimento acelerou no primeiro trimestre na zona euro, atingindo 0,7 por cento face aos três meses anteriores em que foi de 0,4 por cento," a "economia portuguesa de Janeiro a Março, face aos últimos três meses de 2007, registou uma variação negativa de 0,2 por cento, o que correspondeu também a uma desaceleração de 0,9 décimas quando se compara com a variação em cadeia dos últimos dois trimestres de 2007."
Posted by Bruno at 09:56 PM
maio 15, 2008
A Ver
No Fora.TV, o vídeo de Niall Ferguson a explicar em 45 minutos por que razão os conservadores americanos deveriam ser "entusiásticos" acerca da perspectiva de uma Presidência de John McCain.
Posted by Bruno at 10:10 PM
A Polémica do Cigarro
Parece que o Primeiro-Ministro terá violado uma lei que ele próprio promoveu, dizendo de seguida que "não tinha consciência" de que o estaria a fazer (alguém lhe deveria explicar que o desconhecimento da lei não serve de atenuante). Mas aparentemente não há problema: o Primeiro-Ministro prometeu que vai deixar de fumar. As inteligências já se apressaram a louvar o homem como se um Deus benevolente se tratasse: "vejam a humildade", o "exemplo" que ele dá aos fumadores, dizem-nos. Esquecem-se que o problema não está em Sócrates fumar, mas em o Primeiro-Ministro desrespeitar as leis que ele próprio cria.
Posted by Bruno at 12:13 PM
O Que Diz Ferreira Leite (publicado no Insurgente)
O André responde ao meu post, dizendo que "os objectivos de Ferreira Leite são pouco ambiciosos, o que pode ser complicado num partido de poder." De forma mais precisa, o André diz que Ferreira Leite "podia, além de pretender credibilizar o PSD, distanciar-se de Sócrates, apresentando-se com um programa alternativo, mais liberal, que não ponha em causa as políticas de contenção do défice. Pelo contrário, ela seria a pessoa indicada para explicar que um programa de governo liberal exige e conduz inevitavelmente ao controle das contas públicas; a pessoa indicada para explicar que os défices orçamentais são acima de tudo resultado do excesso de despesa e que é na despesa do Estado que é preciso cortar."
Ora, meu caro André, foi exactamente isso que Ferreira Leite disse na entrevista à RTP: criticou Sócrates por ter "resolvido" o problema do défice através da receita, enquanto a despesa continuou a aumentar; disse que para efectivamente resolver esse problema, era na despesa que se tinha de cortar, ou seja, o que tu dizes; disse que há demasiado Estado e que este "estrangula" a sociedade, ou seja, propôs um modelo de sociedade (embora sem promessas concretas, o que não acho um defeito, como já disse) "alternativo" ao de Sócrates, "mais liberal, que não ponha em causa as políticas de contenção do défice", para usar as tuas palavras.
Claro que se pode ir buscar citações como aquela a que o nosso Luís faz referência, e dizer que Manuela Ferreira Leite, afirmando-se "social-democrata", é igual a Sócrates. Mas convém ter em conta uma coisa: Ferreira Leite refere-se à "social-democracia" não no sentido "nórdico" no termo, mas enquanto "matriz" do PSD. Isto pode ser entendido (não sei se é) como uma referência não a uma ideologia propriamente dita, mas à "social-democracia" entendida como o "código genético" da acção governativa do PSD ao longo da história da democracia portuguesa, ou seja, o partido das reformas e da libertação da sociedade. No fundo, a "raíz" da "social-democracia" do PSD poderá ser entendida como aquilo que eu defendi ser o caminho que o PSD deveria seguir: "adoptando um programa “liberalizante”, criar uma “coligação de vontades” que, indo da “direita” ao “centro-esquerda” (como o fizeram Sá Carneiro e Cavaco), concentre a sua campanha nesse “centro-esquerda”. E que o faça, não cedendo ao estatismo que esses eleitores tradicionalmente preferem, mas procurando mostrar-lhes como o liberalismo, mais do que o Estado Social a que se afeiçoaram, promove melhor a tal “justiça social” que desejam, promove melhor uma sociedade na qual não apenas eles, mas também o seu vizinho, poderão ter uma vida melhor." Ferreira Leite não é uma "liberal" propriamente dita (haverá certamente muita coisa que ela dirá que me pode causar algumas comichões), mas nada do que ela afirma nos diz que ela é "igual" a Sócrates, e antes pelo contrário, até permite esperar que ela seja mais liberal que ele. Podes dizer que não acreditas nela, mas não que ela não o afirma.
Dizes-me ainda que Manuela Ferreira Leite, ao contrário de Michael Howard (que teve nos tories o papel que eu ache que Ferreira Leite deveria ter no PSD), não quer ganhar as legislativas. Mais uma vez, aquilo que ela diz não confirma essa visão. Mais, se há aspecto que tem sido central na retórica da sua campanha, é o de ela achar que, ao contrário dos outros candidatos, só ela se pode apresentar enquanto candidata a Primeira-Ministra, e ser levada a sério. Podes ter muitas dúvidas acerca de Ferreira Leite, e eu próprio as tenho. Mas se são apenas essas que referiste, ela já disse tudo o que tu precisas de ouvir.
Posted by Bruno at 12:04 PM
maio 13, 2008
Ferreira Leite e o Problema da Credibilidade (publicado no Insurgente)
O nosso André Amaral faz, no blog da Atlântico, alguns comentários ao que aqui tenho escrito sobre o PSD. O André diz, com razão, que apoio Ferreira Leite por esta ser "a única candidata" (dos que avançaram, acrescento) que "pode dar uma imagem de credibilidade ao PSD e que só depois do partido ser tido como credível estará em condições de apresentar um discurso liberal". Mas engana-se ao dizer que eu me esqueço "que a credibilidade não se ganha expondo medalhas e mostrando o curriculum", e de que "a credibilidade política é ainda um conceito mais amplo que a seriedade e a competência." E engana-se porque, embora essa possa ser a retórica da candidatura de Ferreira Leite, não são essas as razões apontadas por mim para o meu favorecimento da sua candidatura. Interessa-me pouco a competência de Ferreira Leite, como pouco me interessa a suposta falta de experiência de Passos Coelho. Tal como não vejo Passos Coelho como a "modernidade" feita homem, e Ferreira Leite a "credibilidade" feita mulher. Acho é que a candidatura de Ferreira Leite tem melhores condições para tornar o partido credível aos olhos dos eleitores do que a de Passos Coelho: Ferreira Leite e apoiantes seus, figuras destacadas da sua candidatura, como Pacheco Pereira e Rui Rio, são muito críticos das regras de funcionamento interno introduzidas por Menezes, enquanto Passos Coelho disse ao Correio da Manhã que essas regras são para manter. Como eu acho que sem essa "volta" ao interior do partido não se pode "dar a volta" ao país, prefiro alguém que pareça disposto a mudar o que eu acho que tem de mudar. A "personagem" Ferreira Leite ou a personagem "Passos Coelho" , sinceramente, pouco me interessam: deposito a minha confiança em Ferreira Leite por esperar dela o regresso a política de credibilização do partido (falo do partido, e não pessoa que o lidera) que Marques Mendes vinha a conduzir, que eu elogiei e defendi logo na altura, que Manuela Ferreira Leite apoiou, e que Passos Coelho criticou por ser demasiado "virada para dentro". Embora perceba as razões que levam Passos Coelho a dizê-lo, entendo que ele está enganado, e que o PSD tem mesmo de se virar para dentro e mudar muito, para mudar o país. Defendi há dias que Ferreira Leite deveria ser a "Michael Howard do PSD". Já havia dito o mesmo em relação a Marques Mendes, e só lamento que se tenha perdido tempo com Menezes. Espero que já não seja tarde de mais.
No entanto, devo dizer que acho bastante injusto da tua parte, André, que digas que Ferreira Leite "se apresenta na política não apresentando uma opção", uma alternativa, e que portanto, "não é credível porque não acrescenta nada de novo. Não é credível porque se reduz a uma cópia. Não é credível porque joga com a incompetência dos adversários, ao invés de acreditar nos seus trunfos". E é injusto dizeres isto pois Ferreira Leite não se limita a dizer que fará o que Sócrates faz, mas "com mais competência": na sua entrevista à RTP, criticou aspectos da política de Sócrates, e não apenas a sua execução; tal como nessa entrevista defendeu um modelo de sociedade com menos Estado e mais liberdade para a sociedade (na sequência, aliás, do que vem dizendo há anos. Veja-se o exemplo da moção ao Congresso do Pombal). Dir-me-às que é demasiado genérico. E eu posso aceitar que seja, mas Passos Coelho diz o mesmo, e tem para mim o defeito de não se ter oposto às regras internas do partido. Podes-me também dizer que Passos Coelho, ao contrário de Ferreira Leite, faz propostas "concretas". Que Passos Coelho, ao apontar medidas "concretas", permite que se faça uma escolha mais consciente. Esta é, aliás uma discussão que já tivémos aquando da corrida para a liderança do Partido Conservador britânico: inclinei-me para David Cameron no preciso momento em que David Davis propôs um corte nos impostos num determinado montante específico. Achei, nessa altura, que fazer propostas concretas com tanta antecedência era convidar os eleitores a suspeitarem da sua sinceridade, pois não há meio de saber que condições haverá para as aplicar, quando e efectivamente se chegar ao poder. É por isso que acho que Ferreira Leite tem razão ao não querer fazer promessas concretas, sem ter a certeza de que as pode cumprir. Ela deve ser bem explícita no modelo de sociedade que defende (mais Estado, menos estado, Estado em que actividades, com que funções), e de facto, talvez peque por não o ter feito tanto como eu gostaria, mas não deve cair no erro em que caiu David Davis. Aí sim, perderá "credibilidade", pois ninguém levará a sério essas promessas.
O André termina perguntando-me se "não será qualquer pequeno esforço, qualquer pequeno passo no sentido da liberalização do Estado, um passo a valer a pena? Uma oportunidade a não perder?" Eu respondo-lhe que sim: apenas entendo que esse esforço terá forçosamente de passar pela reforma interna do PSD, e visto que Passos Coelho parece não ter consciência disso, temo que ele não seja a "oportunidade" a que fazes alusão. Se Passos Coelho ganhar e eu estiver enganado acerca dele, serei o primeiro a ficar contente com isso. mas se ele ganhar e eu estiver certo, ele não durará muito tempo, pois o "partido autárquico não hesitará em puxar-lhe o tapete, e deixando o PSD de desempenhar o papel de voz da mudança que tem desempenhado na história da democracia portuguesa, não teremos mesmo nenhuma oportunidade de dar qualquer "pequeno passo no sentido da liberalização".
Posted by Bruno at 10:14 PM
maio 12, 2008
O "PSD Autárquico" e a Sua Incompatibilidade Com Uma Agenda "Liberal e Reformista" (3)(publicado no Insurgente)
Continuando a discussão, o João Miranda pergunta-me o que há de concreto na prática do partido autárquico que indicie que ela é incompatível com a liberalização do país. No primeiro destes posts, dei um exemplo: as autarquias que usam as obras públicas como instrumento de propaganda (coisa que o estado central também faz, é certo) terão mais dificuldade em fazê-lo se, por exemplo, tiverem de ser elas a financiarem-se a elas próprias, em vez de dependerem do Orçamento de “Lisboa”. Tal como terão mais dificuldade em financiar os empregos dos “amigos” nas empresas municipais. É claro que o estado central também recorre a estes “meios”, mas apesar de tudo, tem de ter mais cuidado, pois como é ele que cobra os impostos que o financiam, sabe que não pode elevar muito (mais ainda) a carga fiscal, sob pena de sofrer eleitoralmente.
A incompatibilidade da prática política do “partido autárquico” ficou ainda evidente durante a liderança do PSD de Menezes. O mesmo homem que falava em “desmantelar” o Estado, era aquele que, em vez de privatizar a CGD, queria que ela fosse presidida por um militante do PSD: em vez de “desmantelar” o Estado, queria partilhá-lo, e (como se viu pelos acordos que rasgou com o PS) garantir para as autarquias os mesmos poderes que hoje tem, sem no entanto lhes dar mais responsabilidade, ou seja, mantendo a sua margem de manobra para perpetuar as suas bases de poder. O João acha que “o partido autárquico desempenha o mesmo papel que a Nobreza representava na Idade Média. A sua existência coloca o poder central em cheque.” Na realidade, não coloca. Simplesmente porque as autarquias estão quase inteiramente dependentes desse Estado central, visto serem financiadas em grande medida pelo Orçamento de Estado, ou seja, pelas migalhas que o Estado central lhes dá. As autarquias só poderão ser um agente “liberalizador” e de “concorrência” (falta-me uma melhor palavra) ao Estado central, se forem independentes dele, e isso é o que o “PSD autárquico” não quer: este não põe em cheque o estado central, apenas o “PSD nacional” e precisamente para impedir que este venha a fazer reformas liberalizadoras.
Outra pergunta que o João faz é se, na prática política de Ferreira Leite e do “partido” que ela representa, há indícios de uma vontade liberalizadora. Como também já disse, eu não espero de Ferreira Leite o “liberalismo”, espero que ela reforme o funcionamento do partido, de forma a que este tenha condições para, se quiser, promover uma agenda “liberal e reformista”. Porque eu acho que no “partido” que ela representa (o PSD “histórico” e o papel que ele teve a nível nacional com Sá Carneiro e Cavaco, apesar do estatismo que lhes sobreviveu), há uma compatibilidade com a liberalização do país.
E isto vai ao encontro da última questão posta pelo João Miranda, que acredita que “o reposicionamento dos actores políticos abre as portas à entrada no jogo político de novos actores e de novas ideias que por sua vez poderão levar a uma maior liberalização do país.” Eu acredito que esses “novos actores políticos” e essas novas ideias só poderão ser aplicadas se o único partido que, ao longo da história da democracia portuguesa, foi a voz de programas de ruptura, tiver vontade de as acolher e oferecer aos portugueses. Se Passos Coelho me desse garantias de querer reformar o partido, e de que fala a sério quando diz ter uma agenda “reformista e liberal”,eu estaria do seu lado. Tendo dúvidas acerca dele, prefiro uma Manuela Ferreira Leite que possa dar ao partido as condições para vir a adoptar essa agenda no futuro.
Posted by Bruno at 07:11 PM
O "PSD Autárquico" e a Sua Incompatibilidade Com Uma Agenda "Liberal e Reformista" (2) (publicado no Insurgente)
O João Miranda, em resposta ao meu post, critica-me por uma série de coisas que eu, no entanto, não escrevi. Ao contrário do que o João diz, eu não me referi ao “carácter” de nenhum político (nem a um suposto “carácter impoluto” de Ferreira Leite nem ao “corrupto” de outro qualquer), e também não disse que não há “interesses” pouco “liberais e reformistas” no PSD nacional. O que disse foi que a prática política do “partido autárquico” (quer em muitas das autarquias dominadas pelo PSD, quer na liderança de Menezes) denunciava uma estratégia que era incompatível com qualquer “liberalização” do país, e que se o “partido nacional” quiser enveredar por esse caminho, pelo caminho de uma agenda “liberal e reformista” (e há de facto razões para duvidar que queira, precisamente devido aos “interesses” que o João refere) terá primeiro que derrotar o “partido autárquico”, que, pelas razões que enumerei, está interessado em tudo menos numa política “liberal e reformista”. O Dr. House também explicou isso num episódio: “actions don’t lie”.
Posted by Bruno at 07:06 PM
maio 09, 2008
O "PSD Autárquico" e a Sua Incompatibilidade Com Uma Agenda "Liberal e Reformista" (publicado no Insurgente)
O João Miranda pergunta-me em que medida os interesses do PSD autárquico são incompatíveis com uma agenda "liberal e reformista", uma "tese" que eu tenho vindo a defender. O João não percebe por que razão eu digo isso, se tivermos em conta que "os interesses do partido autárquico são interesses reais de pessoas reais", e especialmente, que não é concebível "uma lista de problemas que uma agenda “liberal e reformista” deve resolver em que o problema do centralismo não esteja no topo." O João confundiu aqui duas coisas: o princípio do localismo (que eu defendo), e os interesses de uma rede de clientelas das estruturas locais do PSD, que são incompatíveis com o próprio localismo que tanto eu como o João aprecíamos.
Esse rede clientelar a que eu tenho chamado o "partido autárquico" corresponde, de facto, a "interesses reais de pessoas reais", mas corresponde na realidade a interesses de pessoas acavalitadas no Estado: dependentes dos "lugares" nas empresas municipais, dos "favores" dos senhores vereadores, das pequenas cumplicidades. Organizam-se a partir de um "centro de poder fora de Lisboa", mas sempre à custa de dinheiros públicos e "tráfico de influências". Um verdadeiro localismo, que liberte as autarquias do sufoco centralista, seria um perigo para estas redes. Pois um verdadeiro localismo implicaria a atribuição não só de mais poder às autarquias, mas também de maiores responsabilidades: em vez de se alimentarem dos recursos do orçamento do Estado, as autarquias teriam de passar a depender do que conseguissem cobrar de impostos aos seus munícipes: hoje em dia, oferecem-lhes "pavilhões", rotundas e "obras" das mais variadas, enquanto "Lisboa", essa entidade malévola, lhes rouba o dinheiro através dos impostos; se tiver de ser a autarquia a financiar as suas próprias megalomanias, talvez elas não seduzam tanto os eleitores locais. Tal como será também mais difícil distribuir tanto emprego a tantos "amigos", e toda a base de poder do que constitui o "PSD autárquico" ruirá. Se o João Miranda, entende, e bem, que o localismo terá de fazer parte de uma agenda "liberal e reformista", e perceber o que sustenta o poder do "PSD autárquico", perceberá também como este pouco interessado estará nessa vertente de uma agenda "liberal e reformista".
Ainda para mais, é preciso ter em conta que uma agenda "liberal e reformista" precisa de um Governo que esteja disposto a aplicá-la: nem o localismo que o João Miranda defende poderá ser aplicado se o Governo central não estiver disposto a isso. Portanto, um PSD que queira implementar uma tal agenda terá de chegar ao Governo. E essa é uma eventualidade que interessa pouco ao "partido autárquico", quanto mais não seja, porque um dos passos necessários para lá se chegar choca com os interesses desse "partido autárquico": depois da "trapalhada" santanista, Marques Mendes percebeu que o PSD precisava de se "credibilizar" junto dos eleitores, e nesse sentido (para além de realizar uma alteração de regras que retirava aos aparelhos locais os instrumentos obscuros de perpetuação do poder das suas clientelas) resolveu afastar do partido Isaltino Morais, Valentim Loureiro e Carmona Rodrigues, autarcas que, no entender de Mendes, davam uma imagem do PSD contrária à que ele queria fazer passar. Mendes fez uma série de opções políticas que representavam, para o "PSD autárquico", um tenebroso aviso: o PSD nacional tem um droit de regard sobre a condução do "PSD autárquico", que pode implicar (como implicou em Lisboa), que os interesses do "partido autárquico" sejam sacrificados à estratégia nacional.
Há ainda outro factor que torna a adopção de uma agenda "liberal e reformista", por parte do PSD, cinompatível com o seu "partido autárquico": no seu velhinho livro O Nome e a Coisa, Pacheco Pereira incluía um artigo (de 1993) em que chamava a atenção para a "incompatibilidade entre a modernização económica, social e cultural, resultante das políticas governamentais, e uma acção política partidária, a nível intermédio e local" e que "as dificuldades do PSD a nível autárquico" vinham daí. Por outras palavras, um "bom governo" do PSD seria incompatível com bons resultados autárquicos, pois a simples realização de reformas duras (como inicialmente as de uma agenda "liberal e reformista" forçosamente serão), para além de ver reflectido nas eleições autárquicas (geralmente a meio do círculo eleitoral) o descontentamento que provocam, destrói as estruturas de perpetuação do poder de que esses aparelhos locais dependem para sobreviver. E se os dezasseis anos (1979-95) consecutivos de poder tornaram o PSD um partido de dependentes do Estado, os sete anos de "jobs" para os “boys” socialistas do guterrismo fizeram com que essa dependência apenas fosse satisfeita a nível local. O PSD, neste momento, é um partido de dependentes das empresas municipais, não de "self-made men" que querem conduzir a sua vida livremente, e a sua “elite”, longe dos homens de negócios de cultura empreendedora e dos homens de ideias para o país, é composta por pequenos caciques especializados na pequena chantagem e na promoção pessoal.
Assim, convém a esta rede clientelar entregar ao PS o Governo, para que o ónus da acção governamental se reflicta nos PS's locais, garantindo assim aos senhores do feudalismo laranja as suas respectivas bases de poder. Daí a ausência, por parte de Menezes, de uma visão alternativa para o país (o país pouco interessa a estes senhores), e daí a ocasional crítica meramente conjuntural ao Governo (para provocar o tal desgaste). Ao "PSD autárquico", não interessa ir para o Governo, cujas necessidades apenas prejudicariam os seus reais objectivos, a conquista e manutenção de Câmaras Municipais. E se porventura, o poder nacional lhes cair em cima, é bom que esteja tudo arrumadinho (distribuição de lugares, as grandes opções políticas, etc.), para que o PS não provoque muita agitação, nem o PSD tenha de governar em "vacas" demasiado "magras". Assim se percebe, por exemplo, as propostas de "pactos de dez anos" nas Obras Públicas. E o "rasgar" (logo seguido de reaplicação de cola) do "pacto da Justiça", mais não foi do que uma artimanha para ganhar força negocial, e assim exigir, em troca da manutenção do "pacto", uns quantos lugares, uma lei autárquica que agrade aos feudos laranja, e quem sabe, uma regionalização feita à sua medida.
No entanto, o João Miranda diz algo que faz todo o sentido, e que merece atenção: tal como "o PCP dificilmente poderá ser salvo da CGTP, o PS dificilmente poderá ser salvo da UGT e dos funcionários públicos e o BE dificilmente poderá ser salvo dos movimentos sociais utópicos", é "pouco provável que o PSD consiga ser salvo do poder local": "um partido" não pode "ser salvo" do seu "sustentáculo social." Este é o meu receio, de que as redes clientelares locais do "PSD autárquico" sejam o mais forte e verdadeiro "sustentáculo social" do partido. Porque se assim for, se o PSD não for mais nada a não ser essa rede de clientelas, então perderá o seu papel histórico na sociedade portuguesa, e o único partido que teria condições para ser o motor de uma agenda "liberal e reformista" não o poderá ser. Pois, por todas estas razões, o "PSD autárquico" é incompatível com uma agenda "liberal e reformista". Se o PSD não puder ser "salvo" das redes clientelares locais, então ninguém poderá "salvar" o país do sufoco do estatismo.
Posted by Bruno at 10:36 PM
maio 08, 2008
As Ideias de Ferreira Leite
Respondendo ao que escrevi aqui, o Pedro Marques Lopes diz-me que "existe uma enorme diferença entre ser comentador ou escrever artigos para jornais e ser candidato a primeiro-ministro ou líder de um partido da oposição", e que por isso, que seria, no mínimo, de mau gosto e de falta de consideração pelo eleitorado mandá-lo ouvir os podcast do programa da Renascença ou ir ao arquivo do Expresso." O Pedro, como aliás o Paulo Gorjão já havia feito, distorce o que eu disse: é óbvio que eu não defendi que Ferreira Leite não deveria explicar o que defende às pessoas, e obrigá-las a ir aos arquivos (embora seja isso que Pedro Passos Coelho faz quanto à análise da situação interna do partido, ao dizer que já a analisou num discurso no Congresso e que não voltará a falar sobre isso). Apenas disse que só porque Manuela Ferreira Leite (ainda) não ter explicado algumas das suas posições, se chegar à conclusão de que ela "não tem nenhuma ideia na cabeça", era um exagero que ou demonstrava má-vontade, ou sintoma de uma atitude perante a política que eu acho negativa.
De seguida, o Pedro passa a discutir aquilo que os dois candidatos têm proposto, e há coisas que o Pedro escreve que merecem atenção. Diz-me o Pedro que Manuela Ferreira Leite não defende a privatização da CGD. De facto, na sua entervista ao Expresso, não esclareceu o que pensava. Mas nessa mesma entrevista, ela acusa Passos coelho de falar da privatização da CGD para ter um "soundbyte", e esse é precisamente o meu receio: que Passos Coelho use a proposta de privatização da CGD para agradar ao "nicho" eleitoral liberal, mas sem qualquer intenção de ter uma agenda global que vá nesse sentido. A sua referência, na entrevista à SIC Notícias, a "apoios" às empresas que apresentem projectos "fundamentais" ao país, por exemplo, só alimentam essas minhas reticências.
O Pedro diz-me que não tenho razões para isso, que "quando Passos Coelho fala de apoios às empresas (foi esse o termo) refere-se a um quadro de desburocratização e facilitação de estabelecimento. Não fala de subsídios ou incentivos." Espero que sim, e o Pedro, pela sua proximidade em relação ao candidato, estará certamente bem informado. Mas logo de seguida, diz-me que "quando muito falará de benesses fiscais e de ajustes na TSU para desenvolvimento de actividade em zonas fora dos grandes centros urbanos." Ora, as benesses fiscais significam que algumas empresas (as "escolhidas") sejam beneficiadas pelo Estado, enquanto outras (as que fiquem nos centros urbanos, no exemplo do Pedro) terão de se ver a braços com uma carga fiscal mais elevada: o árbitro estará a fazer uns passes para os jogadores do Campomaiorense, e a tentar tirar a bola aos jogadores do Benfica (o que até nem é difícil). Foi precisamente isso que Ferreira Leite criticou, e eu concordo com ela: o Estado não deve beneficiar ninguém em particular, antes sair da frente de todos.
O Pedro critica de seguida as credenciais liberais de Ferreira Leite, desvalorizando a promessa dela de promover uma simplificação do sistema fiscal, devido ao seu passado na pasta das Finanças (afinal já se lembra). Apesar de ter razão, convém recordar as ciscunstâncias especiais em que essa política fiscal foi aplicada (como ontem Ferreira Leite bem explicou), e já agora, lembrar a moção que ela e outros seus apoiantes apresentaram ao Congresso do Pombal, em que essa proposta era já contemplada (lembro-me até de uma entrevista de um dos seus subscritores ao Independente, falando na necessidade de introduzir um sistema de flat tax). o Pedro duvida da sinceridade de Ferreira Leite, como eu tenho as minhas dúvidas em relação à de Pedro Passos Coelho.
O problema, para mim, está em que eu não espero de Ferreira Leite o "liberalismo" (não tenho acerca disso qualquer fantasia, Francisco), mas uma reforma do partido, e estou por isso disposto a tolerar algum estatismo; já de Pedro Passos Coelho, visto ele apresentar-se como "liberal e reformista", espero que tudo o que ele diga e faça mostre, não só a sua sinceridade, como a consciência das condições necessárias para a implementação dessa agenda. O Pedro atira-me com o nome de António Pedro para descredibilizar as credenciais de Ferreira Leite como uma potencial reformadora interna do partido. De facto, não é dos nomes que eu mais admire no PSD. Mas menos o é o de Fernando Ruas, uma das caras do "partido autárquico" cujos interesses eu penso serem incompatíves com uma agenda "liberal e reformista", e que Passos Coelho escolheu para seu mandatário nacional. Tenho pena, porque me agrada muito do que Passos Coelho tem dito, mas continuo a ter receio de que tudo não passe de fogo de artifício: bonito mas fugaz.
Posted by Bruno at 09:05 PM
maio 07, 2008
A Entrevista de Ferreira Leite
A entrevista de Manuela Ferreira Leite a uma Judite de Sousa que não conseguiu esconder a sua antipatia pela entrevistada, permitiu ver alguns sinais positivos na candidatura da ex-Ministra. Em primeiro lugar, Ferreira Leite não deixou de assinalar a frágil condição em que se encontra o partido (ao contrário de Passos Coelho, que ontem afirmou que "a análise" do declínio do partido "estava feita", e que não "valia a pena falar sobre isso"), e fez questão de não fazer qualquer comentário negativo sobre a liderança de Marques Mendes (mais, afirmou que votou nele), sinal de que reconhece o mérito da reforma interna que o antigo líder laranja estava a fazer (já aqui escrevi que foi a eficácia na reforma interna do PSD, e não a suposta ineficácia na oposição a Sócrates, que levou a parte do partido por ela afectada a "revoltar-se" contra Mendes). Mas acima de tudo, Ferreira Leite não só mostrou compreender a necessidade de que o Estado precisa ser aligeirado, para deixar de "estrangular a sociedade", como deu exemplos concretos (três, para ser exacto) daquilo que pensa dever ser o comportamento do Estado no seu relacionamento com os cidadãos.
Passos Coelho, por exemplo, defende (e bem) a privatização da CGD. De facto, o Estado não precisa de ter bancos, e como seu apoiante Pedro Marques Lopes explicou há tempos na Atlântico, o seu controlo político abre as portas a muita coisa pouco desejável. No entanto, há outras áreas em que a intervenção estatal afecta as pessoas de uma forma muito mais directa, e que por isso mesmo, deveriam merecer atenção prioritário por parte do PSD. Uma delas é, como bem notou Ferreira Leite, a questão fiscal, em que mais importante que uma descida dos impostos (dependente de muitos factores), seria uma simplificação do sistema que acabe com os "abusos" da máquina fiscal e seja mais atractivo ao investimento. Qualquer eleitor seduzido pela linguagem liberal de Passos Coelho só pode olhar com aprovação para estas palavras de Ferreira Leite.
Mas houve um aspecto em que Ferreira Leite mostrou ser bem mais "liberal" que Passos Coelho: este último não se cansa de dizer (e com toda a razão) que o Estado deve ser "um árbitro", e por isso, "não deve jogar". No entanto, na sua entrevista à SIC Notícias, disse que o Estado deveria "apoiar" (já não me recordo se a expressão foi "apoiar" ou "dar incentivos", mas foi uma das duas) aqueles projectos empresariais que achasse serem mais fundamentais no desenvolvimento do país. Ora, se o Estado apoiar projectos específicos, por muito "fundamentais" que eles sejam, estará a "jogar", precisamente o contrário do que Passos Coelho diz defender. Hoje, Manuela Ferreira Leite criticou esse mesmo comportamento por parte do Governo socialista, dizendo que para criar incentivos e "beneficiar" as empresas "que escolhe" cria dificuldades às outras que, através dos seus impostos, pagam os subísdios e benefícios fiscais que as outras recebem. Para o Estado ser "um árbitro e não um jogador", não deve atribuir benefícios a ninguém, deve apenas sair da frente. O candidato que afirmou isto não foi o "liberal" Passos Coelho, mas a "social-democrata" Ferreira Leite. Aqueles que apreciam o discurso liberal de Passos Coelho talvez devessem prestar atenção ao discurso "liberal" que Ferreira Leite, mesmo não se dizendo "liberal", vai fazendo. Mais do que a etiqueta com que ela se possa sentir mais confortável, interessa o material de que é feita a roupa das suas propostas, e isso parece ir no sentido certo, como a crítica ao comportamento do PS na questão dos certificados de aforro: um árbitro não pode mudar as regras do jogo a meio e, como Ferreira Leite bem notou, prejudicar as poupanças das pessoas apenas para não ter de cortar nas despesas que faz com as suas clientelas na Administração Pública.
O que a entrevista de Ferreira Leite mostra é que, para além de ela dar todas as garantias a quem, como eu, entende ser indispensável uma reforma do funcionamento interno do PSD, Ferreira Leite poderá ser também capaz de oferecer aos portugueses um programa liberal e convencê-los de que uma sociedade mais livre será uma sociedade mais “justa”.
Posted by Bruno at 10:28 PM
maio 06, 2008
5 Anos de Abrupto
O Abrupto de José Pacheco Pereira faz 5 anos de actividade (e não seis, como erradamente diz Vasco Graça Moura). Como já disse várias vezes, sem o Abrupto eu não andaria aqui, e quanto mais não seja por isso, tenho de assinalar a data.
Posted by Bruno at 07:09 PM
A Ditadura do Soundbyte
No blog da Atlântico, o Pedro Marques Lopes mostra o seu desagrado por Manuela Ferreira Leite "nada propor e dizer" e logo chega à conclusão de que isso "não é propriamente uma coisa pensada: a senhora não podia ter outra porque – é agora claro - não tem ideias para coisa nenhuma." Ao que parece, o Pedro andou um bocado distraído na última década, e não se apercebeu das funções exercidas, as intervenções políticas nos Congressos, as entrevistas, os artigos escritos, e a participação semanal num programa de rádio de Ferreira Leite, em que "a senhora" foi deixando bem claras as suas ideias para as mais variadas questões.
Se este fosse apenas um problema do Pedro Marques Lopes, a coisa até nem era muito grave. Mas esta começa a ser uma atitude geral, sintomática de um preocupante empobrecimento do debate político. Ao mesmo tempo que se esquecem as opiniões que durante anos e anos Ferreira Leite, toma-se como garantido que aquilo que Passos Coelho diz é aquilo que ele realmente pensa, e não uma mera ocupação de um "nicho eleitoral" que ele acha interessante. Independentemente dos respectivos méritos das ideias de um e outro, esta falta de atenção em relação ao passado de Ferreira Leite, e a falta de prudência em relação ao que Passos Coelho diz mostra como a nossa cultura política vive obcecada com o soundbyte: se um político não arranjar uma frase bonita para dizer às 20 horas, é logo rotulado de "ineficaz" (na melhor das hipóteses) ou como desprovido de ideias. Se, por outro lado, conseguir arranjar umas propostas capazes de captar a atenção das pessoas (e ainda bem que Passos Coelho o fez), ninguém se preocupa em ver se elas batem certo com o seu comportamento político, ou se batem certo com outras coisas que anda a dizer. Só o presente imediato interessa, e nada do que está para trás ou a solidez do que se diz merece ser analisado.
A ditadura do soundbyte tem efeitos desastrosos: ao não tomar em conta o historial de posições de um político, faz com gente com inegável substância política (independentemente de se cahar se esa subtstância é correcta ou não) como Ferreira Leite seja tratada como alguém sem ideias, e oportunistas como Portas possam navegar ao sabor do "ar do tempo" sem serem penalizados pela sua falta de vergonha; ao não se preocupar com uma avaliação da sinceridade das propostas (que julgo meritórias) de Passos Coelho e a sua coerência com a sua "estratégia" eleitoral, faz com que se corra o risco de o PSD passar de novo por algo semelhante ao que aconteceu com Durão: de grandes proclamações de "reformismo" e promessas de aguentar a "impopularidade" para poder resolver os problemas do país, passou-se muito rapidamente aos recuos constantes e envergonhados, e ao mais puro oportunismo. Foi precisamente essa falta de avaliação do que se andava a dizer que Sócrates pôde fazer em 2005 uma campanha centrada nas promessas de "defesa do Estado social", quando seria claro para quem passasse dois minutos a pensar sobre elas que essa "defesa" só poderia ser feita através de cortes nos benefícios e aumentos nos impostos. A pior coisa que o PSD poderia fazer seria cometer esse erro. Passos Coelho até poderá vir a ser um bom líder para o PSD, mas antes disso, deve ser devidamente avaliado. E alguém como Ferreira Leite, que tem todas as condições para desempenhar um papel importante como líder do PSD, não deve ser desvalorizada, só porque não segue o método socrático da propaganda.
Posted by Bruno at 05:10 PM
maio 05, 2008
A Idade de Ferreira Leite
Era inevitável que, no decorrer da campanha para as eleições do PSD, a idade de Manuela Ferreira Leite "entrasse" no debate: aparentemente, as pessoas acham-na demasiado "velha". Longe de ser um handicap, esta pode ser uma das maiores vantagens de Ferreira Leite. Não pela idade em si: o mérito da pessoa ou as suas qualidades não se medem pela idade. Mas o facto de ela ser "velha" dá-lhe uma liberdade que, se for aproveitada, será de grande utilidade: em 2013, Ferreira Leite terá mais de 70 anos. Assim, ganhe ou perca em 2009, é pouco provável que volte a liderar o PSD nessas eleições. De certa forma, é "agora ou nunca" para Ferreira Leite. Não há necessidade de calculismos "à Marcelo", pensar em candidaturas para o futuro, receios de dizer ou fazer algo que prejudique outras ambições. Devido à sua idade, Ferreira Leite pode genuinamente dizer aos eleitores "não estou aqui para alimentar as minhas ambições. Não estou aqui a pensar em ir para outro lugar, e por isso, posso dizer aquilo que penso. Se concordarem, votem em mim, se não concordarem, votem noutro. A escolha é vossa." Pode genuinamente dizer a quem quiser votar nela que pode ter confiança naquilo que ela diz, visto que, por não ir concorrer a mais nada, não tem razões para não cumprir a sua palavra. Essa atitude de desprendimento é precisamente aquilo que faz falta á política portuguesa. E precisamente por as pessoas terem a percepção de que ela é "velha", Manuela Ferreira Leite tem uma excelente oportunidade de a adoptar.
Posted by Bruno at 05:53 PM
maio 04, 2008
Estado De Alma

Com o olhinho a fechar.
Posted by Bruno at 09:52 PM
maio 02, 2008
Eu e Pedro Passos Coelho (publicado no Insurgente)
No blog de apoio a Pedro Passos Coelho, volta-se ao que aqui escrevi a propósito das minhas reservas acerca do dito candidato. Tentarei responder separadamente:
1- Tiago Azevedo Fernandes acha que o facto de haver uma discussão aberta acerca do futuro do PSD será suficiente para que as minhas inquietações sejam infundadas. Percebo a ideia, mas não consigo concordar com ela. Vejo a realidade interna do PSD com cores muito negras. Por muito "aberto" que seja o debate, tenho muitas dúvidas que, mesmo que uma solução "liberal" e "reformista" venha a sair vencedora desse debate, tenha condições para se afirmar, se os mecanismos internos do partido não foram radicalmenmte reformados. Passos Coelho não só não se pronunciou sobre isso, como não fez nada que me dê garantias (admito que possa ser excesso de zelo meu, mas depois de Durão e da minha desilusão com ele, todo o "zelo" é pouco) de que percebe a natureza do problema. É precisamente por isso que a citação feita por Vasco Campilho, de Passos Coelho a afirmar que é "ridículo" afirmar que ele é o "herdeiro de Menezes", não me satisfaz. É claro que é ridículo afirmar isso. O que já não é ridículo é temer que a) Passos Coelho não tenha a noção das dificuldades de que essa parte do partido só o apoia porque o vê como o mais fácil de destruir, ou b) que Passos Coelho ponha, como Durão, a vitória eleitoral à frente das condições necessárias à implementação do programa que diz defender. Se Passos Coelho vier a ganhar, espero estar enganado.
2- O Paulo Gorjão diz que nada me pode levar a crer que a declaração de apoio por parte de alguns "menezistas" tenha condicionado a agenda política de Passos Coelho. De facto, não posso. Não tenho qualquer "informação confidecial". O meu problema é outro: não há nada que me garanta que essa agenda, por muito "livre" que seja hoje, venha no futuro a ser aplicada. Mais uma vez, poderei estar a ser "demasiado exigente", mas apenas estou a tentar ver o que vale Passos Coelho. Estou apenas a tentar ver se o que ele diz continuará a ser dito daqui a uns anos, e se chegar ao poder, o quererá fazer (ou se terá as condições para o fazer). O Paulo diz que exijo menos de Ferreira Leite. Não é verdade. Apenas tenho em conta que, para o papel que eu acho que Manuela Ferreira Leite pode desempenhar no PSD, o seu percurso político me dá todas as garantias. Para a implementação do programa que Passos Coelho diz querer seguir, garantias são algo que escasseia.
3- Vasco Campilho diz-me que "a postura do comentador não se adapta à função do político numa sociedade democrática", e que portanto, Passos Coelho não pode dizer aquilo que "exijo" que ele diga. O problema, caro Vasco, é que Passos Coelho, se quiser reformar o país, não terá de convencer "políticos numa sociedade democrática" mas gente que tem de formar opiniões acerca das escolhas à sua disposição: todos os eleitores são, de certa forma, "comentadores". E há muitos eleitores que, como eu, podem ver com agrado as palavras de Passos Coelho, mas duvidam da sua sinceridade ou capacidade para as implementar, e esperam dele sinais que dissipem essas dúvidas. Para os dar, o que Passos Coelho tem de fazer é precisamente ter uma "postura" diferente daquela que os políticos normalmente têm: tem de demonstrar estar disposto a perder. Foi isso que ainda não vi.
Espero, meus caros, que tenha deixado bem explicitas as minhas dúvidas e a razão pela as tenho. Caso contrário, façam o favor de me criticar. Aproveitem, porque quando eu tomar o poder, essas brincadeiras vão ser a primeira coisa a acabar.
Posted by Bruno at 10:13 PM
maio 01, 2008
Não É Uma Questão De Pureza, Mas De Convicção (publicado no Insurgente)
Caro Vasco Campilho, agradeço a preocupação que demonstra com a eventualidade de um “purista” como eu vir um dia a “tomar o poder”, o que significaria (como é evidente) que a “tirania” estaria “próxima” (Stalin ao pé de mim seria um simpático cordeiro). Mas devo dizer-lhe que exagera um pouco ao atribuir as minhas dúvidas acerca de Passos Coelho a uma preocupação com a “pureza” do seu programa. Na secção de comentários ao meu post, já procurei responder (num texto cheio de erros ortográficos, devo alertar) a algumas das objecções ao que escrevi. Mas aquilo que diz merece uma tentativa cuidada de resposta, pois essa não é de todo a minha preocupação.
Aliás, se a “pureza liberal” fosse a minha preocupação, eu não teria escrito, aqui e noutros locais, insistentes textos de apoio a Marques Mendes, que longe de ser um liberal puro (aliás, eu próprio não o sou, o que me causa inúmeros problemas no interior do Insurgente, que é como se sabe, um blog fássista onde a dissidência é punida sem perdão), estava na minha opinião a fazer um trabalho meritório na liderança do PSD. A minha dúvida, visto não conhecer Pedro Passos Coelho, está, não da “pureza” do seu programa e dos seus apoios, mas na convicção dele naquilo que diz, e na sua capacidade para o levar adiante. Diz o Vasco que PPC explicitou “repetidas vezes” as suas ideias. Durão Barroso também, e foi o que se viu. Ora, eu, que na excitação da juventude me deixei entusiasmar por Durão, não repito o erro (aos vinte e três, sou já um velho marcado pela desilusão). E antes de “abraçar” Passos Coelho como se ele fosse a Diana Gomes (aquela jovenzinha da natação), quero apenas ter a certeza que ele põe as suas convicções acima da possibilidade de vencer. Ora, quando Passos Coelho vai buscar o filho de Menezes para mandatário da juventude (aliás, um daqueles cargos típicos da “velha política” que Passos Coelho diz querer abandonar. Alguém me explica o que é que faz um mandatário de juventude, a não ser, no caso em concreto, oferecer um apelido que sinalize aos dependentes do “menezismo” que é por ali que devem ir?), eu não consigo deixar de pensar que ele, de forma oportunista, coloca a possibilidade de vencer antes da construção das condições necessárias à implementação do programa que ele diz defender, na sua lista de prioridades.
Para quem, como eu, acha que o grupo de interesses à volta da última direcção do PSD tem como objectivo a destruição de todas as possibilidades do PSD vir a ter um programa “reformista e liberal”, ver Passos Coelho a procurar activamente o apoio desse grupo de interesses é um sinal de que ele ou não percebe a alhada em que se está a meter, ou não se preocupa. Para quem, como eu, não conhece Passos Coelho, essa procura activa do “voto menezista” não bate certo com as ideias que ele diz defender. Para quem, como eu, não conhece Passos Coelho, o seu comportamento nos últimos dias leva a crer que ele, no fundo, é outro Durão, outra desilusão à espera de acontecer. Para quem não conhece Passos Coelho, é necessário que ele mostre, não a sua “pureza”, mas as suas convicções: que prefere perder a passá-las para debaixo do tapete. Eu não sinto que ele tenha dado essa prova. O Vasco poderá achar que eu estou enganado, e se calhar até estou. Mas se pensa que eu sou o único a pensar assim, quem está enganado é o Vasco.
Posted by Bruno at 10:20 PM
Pedro Passos Coelho: O Futuro É Para Esquecer? (publicado no Insurgente)
Escrevi ontem que Pedro Passos Coelho, se quiser ganhar o PSD, mas ganhar para mudar o partido e o país, terá de ganhar contra o “menezismo”, terá de criticar a liderança de Menezes, e dizer abertamente que percebe a jogada interesseira que Ribau e Marco António se preparam para fazer: se quiser ser levado a sério, Passos Coelho terá de mostrar que prefere perder votos a ser feito de refém de quem estragou a imagem do partido no país. Nos comentários, Tiago Azevedo Fernandes e Vasco Campilho criticam-me, por eu “não perceber” que Passos Coelho vai fazer uma campanha “centrada em ideias e não em pessoas”. Aparentemente, Tiago Azevedo Fernandes e Vasco Campilho não percebem que se pode fazer uma campanha centrada em ideias e simultaneamente, fazer uma crítica do caminho que o partido seguiu no passado e das pessoas que para aí o conduziram. Como não parecem perceber que, sem essa crítica, feita abertamente, Passos Coelho poderá até ganhar, mas ganhará refém das mesmas pessoas que descredibilizaram o partido nos últimos anos, e que só o apoiam para depois o “deitarem abaixo”, e ficarem com o que sair dos escombros.
Eu simpatizo com as ideias que Passos Coelho tem apresentado. Mas não lhe passo um cheque em branco. Passos Coelho tem de mostrar que está a falar a sério. E, mesmo mostrando que fala a sério, tem de mostrar que tem consciência das condições em que pode levar a cabo a promoção dessas ideias, e quais as condições que serão nefastas para o projecto que diz querer promover: essas ideias não servirão de nada de Passos Coelho não tiver consciência do lugar do partido na sociedade e da forma como este poderá servir de meio de implementação dessas ideias na prática governativa. Ganhando com o apoio dos “menezistas”, Passos Coelho ficará dependente de quem não quer aplicar essas ideias. Vasco Campilho diz-me que “Pedro Passos Coelho nao está a construir uma linha politica a partir de uma coligação de apoios, mas sim uma coligação de apoios a partir de uma linha politica.” O problema é que Menezes entra nessa “coligação de apoios” para destruir essa “linha política”. Se Passos Coelho não mostrar que percebe que o “partido autárquico” que Menezes encabeçou está contra um partido “liberal e reformista” a nível nacional, e mais ainda, se continuar a procurar activamente o apoio dos “menezistas”, estará apenas a mostrar que, das duas uma: ou não leva a sério a agenda “reformista e liberal” que diz defender, e prefere a mera obtenção do poder à sua conquista nas condições necessárias à implementação desse projecto, ou leva a sério essa agenda, mas não tem consciência do problema que o PSD hoje enfrenta, e portanto, não o poderá usar como instrumento de aplicação do projecto que diz ter para o país. E em ambos os casos, não se poderá ter confiança na possibilidade de Passos Coelho vir a cumprir aquilo que tem vindo a dizer.
Posted by Bruno at 10:17 PM