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abril 30, 2008
Sobre "Maio"

Com os quarenta anos do "Maio de 1968", os meios de comunicação social passarão os próximos dias em continuadas referências aos acontecimentos desse ano, não só em Paris mas no EUA e em Portugal. Para quem o conseguisse encontrar, este velho livrinho de José Pacheco Pereira e João Carlos Espada seria uma interessante leitura. Pacheco Pereira escreve dois ensaios sobre as "gerações" de 1962 e 1968, e as diferenças entre elas, e João Carlos Espada traça um retrato do seu percurso intelectual de ruptura com a extrema-esquerda.
Posted by Bruno at 10:22 PM
abril 29, 2008
Lido
Posted by Bruno at 10:43 PM
abril 28, 2008
O Estado Falha Na Mais Básica Das Suas Responsabilidades
Ontem, um homem foi espancado no interior de uma esquadra em Moscavide, numa altura em que estaria a apresentar uma queixa, presumivelmente contra o grupo que, invadindo a esquadra (onde estava apenas um polícia), o agrediu. Nos próximos dias, veremos muito aproveitamento político desta situação. É sempre assim: a "agenda da segurança" entre a histeria generalizada que surge sempre que acontece alguma coisa, e a mais completa obscuridade, quando os partidos da oposição nada têm a ganhar ao falar dela. Não é portanto de espantar que nada se faça e nada mude, a não ser o sentimento de insegurança das pessoas, que cresce à medida que o tempo passa. É particularmente grave que assim seja, pois essa deveria ser a função prioritária do Estado: proteger os cidadãos do uso coercivo da força por parte daqueles que não a devem usar. Quando uma pessoa não se sente segura para fazer uma queixa, os criminosos sentir-se-ão seguros para infringir a lei. A comissária da PSP, no entanto, garante que o indivíduo agredido apenas se havia "fugido" para dentro da esquadra, não pretendendo apresentar qualquer queixa. mesmo que seja verdade, não serve de atenuante. Se uma pessoa nem numa esquadra se pode sentir segura da ameaça de criminosos, se nem numa esquadra da polícia uma pessoa pode estar a salvo dos criminosos de quem se pretende queixar, não se poderá sentir segura em mais nenhum lado. E todas as outras pessoas, as que viram a notícia na televisão, aprenderam a mesma lição: "é perigoso fazer queixas à política, pois nem na esquadra eles nos podem proteger". O sentimento de impunidade dos criminosos irá crescer, aumentando a criminalidade, tal como o sentimento, por parte dos cumpridores da lei, de que o melhor para eles é não ajudar a penalizar os que não a cumprem: fazer uma queixa, testemnuhar contra um criminoso, é pôr a sua própria segurança em risco, em qualquer lugar. Na mais básica das suas responsabilidades, o Estado falhou. Só não é uma má notícia para quem vive à margem da lei.
Posted by Bruno at 07:23 PM
abril 27, 2008
No Leitor de DVD
Monthy Python explicado às crianças.
Posted by Bruno at 09:30 PM
abril 25, 2008
Pedro Passos Coelho Tem De Ter Cuidado
Parece que os "menezistas", na ausência do seu líder, e sem que Alberto João Jardim se tenha decidido a avançar, se viraram para Pedro Passos Coelho e irão apoiá-lo na corrida para a liderança do PSD. Se Passos Coelho quer ser levado a sério como promotor de uma mudança no PSD num sentido "liberalizante", deverá ter cuidado com isso. Não é estranho que gente que, em relação à RTP, apenas queria cortar a publicidade, e que no que toca à CGD só se preocupava se a chefia ia ou não para alguém do PSD, corra agora a apoiar alguém que defende a privatização de ambas? Tal alinhamento só se compreende se percebermos que o "menezismo" reconhece a frágil posição em que, se ganhar, Passos Coelho ficará: como escrevi ontem, com um eventual falhanço eleitoral em 2009, Passos Coelho terá poucas condições para "aguentar" o partido, e Menezes poderá regressar, responsabilizando a "aventura" da aposta "num jovem sem passado" pelos resultados e apresentando-se como alguém que teria tido melhores resultados se "eles" o tivessem deixado tentar. Menezes e os seus aguadeiros só apoiam Passos Coelho na esperança de este falhar. Querem erguê-lo para depois o deitarem abaixo, e recolherem os cacos. Se Passos Coelho quiser ganhar o PSD, mas ganhar para mudar o partido e o país, terá de ganhar contra o "menezismo". Terá de criticar a liderança de Menezes, e dizer abertamente que percebe a jogada interesseira que Ribau e Marco António se preparam para fazer. Se quer ser levado a sério, Passos Coelho tem de mostrar que prefere perder votos a ser feito de refém de quem estragou a imagem do partido no país. Se quiser ganhar, e se quiser fazer alguma coisa de relevante com essa vitória, tem de mostrar que está disposto a perder.
Posted by Bruno at 09:37 PM
abril 24, 2008
Que Papel Pode Ferreira Leite Desempenhar No PSD
Uma das principais vantagens de Manuela Ferreira Leite em relação a Pedro Passos Coelho é o facto de, mesmo não se sabendo qual o programa em concreto com que pretende correr, ser já conhecida: sabe-se o que ela pensava há anos acerca da questão orçamental, sabe-se o que fez e o que rejeitou fazer. Pedro Passos Coelho tem dito, de facto, algumas coisas interessantes: o homem tem dito quase tudo o que eu quero ouvir. Mas eu não conheço Pedro Passos Coelho. Falta-lhe tempo. Falta-lhe ser testado: ver se o que ele diz hoje irá bater certo com que ele dirá daqui a três meses, daqui a um ano. Muito do que ele diz entusiasma, pois é uma ruptura com o estatismo habitual na retórica dos políticos. Mas para entusiasmos seguidos de desilusões, já me bastou Durão Barroso. Pedro Passos Coelho é para levar a sério, mas para merecer a confiança dos que querem reformas em Portugal, terá de dizer mais, durante mais tempo.
Para além do mais, há aquilo a que Pacheco Pereira se referia ontem, e Rui Rio (o "meu" candidato) na sua entrevista com a insuportável Judite de Sousa: Ferreira Leite é a única que pode recolher os cacos em que se partiu o PSD. Não que seja uma candidata consensual. Não é. Mas é a única que, se ganhar, conseguirá ter mão no partido. Imagine-se que Rui Rio se tinha candidatado: como ele próprio disse na sua entrevista de hoje, Menezes não teria "aguentado" e correria contra ele (haverá outro político em Portugal a falar assim tão descomplexadamente da sua actividade?), agravando a conflitualidade interna no seio do partido. Imagine-se, de seguida, que Pedro Passos Coelho ganha as eleições no partido, mas perde em 2009 contra Sócrates. Menezes terá o partido de novo nas mãos, aproveitando-se demagogicamente do "falhanço" de alguém "que apareceu do nada". Ferreira Leite não só pode ganhar a Sócrates como, se não o conseguir (como é provável que não consiga), tem condições para fazer um trabalho no interior do partido, que Pedro Passos Coelho, por muito boas ideias que tenha (e certamente que muitas delas partilha com Ferreira Leite e os seus apoiantes), não terá condições para fazer.
Essa deve ser a prioridade de Ferreira Leite: reformar o partido. Claro que as eleições de 2009 são importantes (era Menezes e os seus comparsas das autarquias que não se preocupavam com elas). Como já disse, uma vitória em 2009 não só está ao alcance de Manuela Ferreira Leite, como até não será tão difícil de obter como o será ganhar esta directas no PSD). O PSD de Ferreira Leite não pode desvalorizar as legislativas de 2009, quanto mais não seja porque o país não aguenta o desgoverno socialista por muito mais tempo. Terá de "pedir" uma maioria absoluta, e dizer à partida que não aceitará governar sem ela: coligações de "necessidade" como a que se fez com Portas são um erro que não se deverá repetir.
Mas Ferreira Leite, e todos os militantes do PSD que se preocupam com o país e o papel que o partido pode desempenhar na vida portuguesa, têm de ser realistas: as confusões destes últimos anos danificaram a credibilidade do partido de uma forma difícil de medir, e numa conjuntura em que "os políticos" são alvo de desconfiança, a "credibilidade" é indispensável a um partido que queira governar eficazmente. Ainda para mais, a derrota de 2005 deixou o partido muito fragilizado, com uma escassa representação parlamentar, para não falar da sua falta de qualidade: nessas condições, é difícil elaborar um programa alternativo ao do PS que, uma vez no governo, permita fazer uma governação com cabeça, tronco e membros: mais uma vez, a experiência da improvisação permantente dos tempos de Barroso e Santana forneceu uma lição que deverá ter sido aprendida. Devido a essa posição frágil em que o PSD se encontra, a prioridade de Ferreira Leite deverá ser o interior do partido: prepará-lo para fazer um trabalho decente, seja na oposição, seja no Governo.
Ferreira Leite encontra-se numa situação semelhante àquela em que Michael Howard, antigo líder do Partido Conservador britânico, se encontrava em 2005. O seu partido vinha de um período marcado por violentas lutas internas, que se sucederam a um período de governação que, por variadas razões, descredibilizou o partido aos olhos dos eleitores. Quando Ian Duncan Smith foi literalmente "chutado" para fora da liderança do partido, antevia-se uma nova luta fratricida pela sua sucessão, entre gente como David Davis, Ken Clarke, Michael Portillo ou Oliver Lettwin. Em vez disso, avançou apenas Michael Howard, decano do partido, homem de imagem dura e disciplinadora.
Howard não conseguiu vencer Tony Blair nas eleições de 2005. A situação frágil em que encontrara o partido não o permitia. Mas a importância da sua liderança para a recuperação que, com David Cameron, os tories têm conseguido levar a cabo, não pode ser desvalorizada. No curto período em que esteve na liderança, Howard reformou a estrutura do partido, melhorando a forma como este trabalha. Por outro lado, disciplinou-o, afastando candidatos a deputados (Danny Kruger, que aprecio, e Howard Flight)que não seguiam a "mensagem" que Howard quis impôr, e membros do gabinete-sombra que tiveram alguma "dificuldade" em respeitar a sua autoridade (por muito que me custe, Boris Johnson). E acima de tudo, preparou muito bem a sua sucessão. Depois dele, não viria o dilúvio, mas sim a bonança: quando se demitiu, logo após a derrota eleitoral de 2005, definiu que as eleições para a sua sucessão teriam lugar apenas seis meses depois. À data, parecia uma loucura. Mas essa decisão veio a mostrar ter sido acertadíssima. Pois deu lugar a uma campanha longuíssima, em que todos os candidatos foram testados, tanto na sua capacidade de captar votos como na consistência e coerência das propostas que apresentavam (David Cameron teve aquilo que Passos Coelho não terá). Ao fim desses seis meses, não só o partido havia resolvido defintivamente as divisões que o haviam atormentado nos anos anteriores, como a qualidade dessa discussão (principalmente, entre David Cameron e David Davis) mostrou aos eleitores que o Partido Conservador já não era um clube de boxe, mas um partido com uma alternativa para oferecer. Se David Cameron, nos próximos anos, for morar para o Nº10 de Downing Street, ficará a dever muito ao trabalho que Michael Howard fez no pouco tempo em que o antecedeu.
É este o exemplo que Manuela Ferreira Leite, se vier a ser eleita como líder do PSD, deverá seguir. Em primeiro lugar, deverá disciplinar o partido: no caso específico do PSD, isso significa (na sequência do que estava a tentar fazer Marques Mendes) subordinar as estruturas locais à estratégia nacional do partido. Essa estratégia, por sua vez, deverá assentar na credibilização do partido: afastar pessoas de reputação duvidosa, recusar negociatas com outros partidos, afirmar que só se aceita ir para o Governo com as condições necessárias, ou seja, com maioria absoluta, para não ficar dependente da necessidade de abdicar de parte do seu programa. Esse programa precisará de trabalho para ser elaborado: Manuela Ferreira Leite, como Michael Howard, terá de reformar as estruturas do partido, de forma a permitir que este estude as questões que afectam a vida dos portugueses. E como Michael Howard, tem de trazer para o grupo parlamentar gente capaz, gente que, no futuro, possa servir bem o partido e o país.
É precisamente com o futuro que Manuela Ferreira Leite tem de pensar. Se ela conseguir fazer o que aqui enunciei, poderá ganhar as eleições em 2009. Se o conseguir, melhor ainda. Mas se não o conseguir, e é provável que não consiga, terá lançado as bases para que o PSD possa fazer uma boa oposição e, em 2013 (ou antes), esteja preparado para ser Governo (ao contrário do que aconteceu com Durão). Nesse ano, com mais de 70 anos, será pouco provável que Ferreira Leite seja a candidata a Primeira-Ministra do PSD. Se assim for, terá de preparar muito bem a sua saída. Terá, mais uma vez, de seguir o exemplo de Michael Howard: se perder as eleições de 2009, e não estiver disposta a concorrer em 2013, deverá anunciar de imediato a sua demissão, e de imediato marcar as eleições para daí a seis meses (no mínimo). Promoverá assim, como Michael Howard, uma campanha longa, em que o PSD discutirá o seu futuro, mas abertamente, e não, como tem acontecido, na escuridão dos corredores. O partido ficará a saber o que os seus candidatos realmente defendem, aquilo que são capazes de fazer, a capacidade que têm de captar votos ou apresentar propostas diferentes das do PS. Os eleitores, por sua vez, verão um partido preocupado com o país e com o que lhe poderão oferecer. Verão um partido credível, e perante o descalabro para que vai caminhando a governação socialista, poderão sentir-se seguros com a perspectiva de um futuro governo laranja (coisa que não acontece agora).
Manuela Ferreira Leite poderá, caso venha a ser eleita, desempenhar um papel importantíssimo no futuro do PSD. Mas terá que trabalhar muito, e pensar muito bem todos os passos que der. Nada poderá ser deixado ao acaso. Acima de tudo, terá de pensar muito bem no que acontecerá depois da sua saída. Aconteça o que acontecer em 2009, é o que acontecerá depois disso que será decisivo para o PSD e o seu papel na sociedade portuguesa. É por isso no futuro que deverão estar olhos de Ferreira Leite. Se assim não for, "futuro" é coisa que o PSD dificilmente terá.
Posted by Bruno at 09:56 PM
abril 23, 2008
O Erro Que Todos Cometem Ao Falarem de Ferreira Leite
É curioso que são poucos os que têm dúvidas que Manuela Ferreira Leite será eleita líder do PSD. No entanto, continuam a ser poucos os que acham que ela possa vencer José Sócrates em 2009. Pelo contrário, parece-me que o mais difícil será vencer o partido, e que, caso obtenha a liderança, uma vitória nas legislativas, embora relativamente improvável, estará ao seu alcance. Numa altura em que as pessoas desconfiam dos "políticos", em que a actividade política está dominada pela propaganda e pelo constante desdizer de afirmações outrora proferidas, alguém como Manuela Ferreira Leite, que desde os tempos de Guterres avisou os portugueses do descalabro para o qual se caminhava, que não escondeu as dificuldades que estes teriam de enfrentar, que (ao contrário do seu fugitivo Primeiro-Ministro) não teve medo de perder eleições devido às políticas impopulares que julgava serem necessárias, e que por elas foi criticada por aqueles que, anos depois, ainda aumentaram mais os impostos, poderá (note-se que digo que é uma mera hipótese) surgir aos olhos dos eleitores como um agradável contraste com o produto publicitário que é o Primeiro-Ministro. Por muito que não concordem com ela, haverá muito boa gente disposta a votar em alguém que os leva a sério, em vez de os tentar enganar.
É precisamente esta imagem de "seriedade" que lhe colocará especiais dificuldades no partido. Como procurei explicar ontem, a "facção autárquica" do partido pouco se preocupa com as legislativas, e ainda por cima, percebe que uma estratégia de "credibilização" do partido a nível nacional implicará o sacrifício dos interesses das estruturas locais do PSD. É claro que Ferreira Leite poderá não ser eleita Primeira-Ministra em 2009. Mas a "batalha" mais dura será a que ela travará nos próximos meses, dentro do seu próprio partido.
Posted by Bruno at 10:31 PM
Tratado de Lisboa
A Assembleia da República aprovou hoje o Tratado de Lisboa. PSD e PS quebraram um compromisso eleitoral, e regozijaram-se com o facto. Nada que espante, tal é falta de vergonha que caracteriza ambos os grupos parlamentares. Tem toda a razão Pacheco Pereira: "o acontecimento mais importante para a nossa vida pública nas próximas décadas vai passar sem que ninguém dê por nada. Deveria ser um escândalo público, mas nem sequer é um vago interesse ciciado. Em tão poucas coisas mostramos mais a nossa apatia cívica do que na questão do Tratado que terá o nome de Lisboa."
Posted by Bruno at 10:27 PM
abril 22, 2008
O Problema do PSD
Manuela Ferreira Leite anunciou a sua candidatura à liderança do PSD, guardando para a próxima segunda-feira a sua apresentação formal. É certo que vai ser ainda preciso esperar um pouco para saber com que programa a ex-Ministra pretende conduzir a acção do seu partido, mas a sua disponibilidade abre portas para, no mínimo, credibilizar o partido aos olhos dos eleitores. Claro que, para isso, Ferreira Leite (ou talvez Passos Coelho, que diz coisas interessantes mas sobre o qual persiste alguma desconfiança) terá de ser eleita e vencer o "terceiro homem" (Menezes? Santana? Mickey Mouse?) que se prepara para entrar na corrida. De facto, os candidatos a "salvadores" do PSD (e o PSD precisa mesmo de salvação) precisam de perceber que Menezes não é o problema do PSD, antes um sintoma da doença que afecta o partido, e que portanto, a sua demissão, por si só, não significa o fim da crise.
O conflito interno no PSD tem sido caracterizado como sendo travado pelas "elites" contra as "bases". Dizê-lo é não perceber o significado de Menezes. Menezes não era uma emanação "das bases", mas sim de uma parte dessas "bases", aquela que depende das redes clientelares que as autarquias laranjas tão habilmente construíram. O conflito interno do PSD, na realidade, é travado, de um lado pelas "elites" e "bases" que têm como objectivo vencer as legislativas, e do outro pelas "elites" e "bases" que lutam pela manutenção dessas fontes de empregos e benefícios que são as autaqruias que o PSD controla. Enquanto os primeiros se preocupam com as hipóteses de o PSD vencer em 2009, os segundos receiam que, na difícil conjuntura económica actual, o desempenho de funções governativas por parte do PSD provoque um desgaste que lhes custe as autarquias e os empregos.
Foi esse conflito, e não a "ineficácia" na oposição ao Governo, que derrubou Marques Mendes: Mendes não só promoveu uma série de alterações das regras internas do partido (que retiraram aos aparelhos locais os instrumentos obscuros de perpetuação do poder das clientelas), como afastou do partido Isaltino Morais, Valentim Loureiro e Carmona Rodrigues (autarcas a braços com acusações de corrupção), tudo numa tentativa de credibilizar o partido aos olhos dos eleitores, muito danificada com a fuga de Durão e as "trapalhadas" de Santana. Por outras palavras, sacrificou os interesses de alguns aparelhos dos locais do partido ao interesse da estratégia nacional do PSD. Menezes, na realidade, mais não foi do que a "cabeça" de um PSD autárquico, que quis retirar ao PSD nacional o droit de regard sobre os seus paroquiais assuntos.
Veja-se, aliás, quais as àreas em que o PSD de Menezes cortou com as posições da liderança de Marques Mendes: em tudo o que eram os alicerces da oposição a Sócrates (referendo ao Tratado Europeu, Ota e impostos), Menezes aproximou-se do Governo. Depois rasgou os pactos da lei autárquica (que retirava poderes às juntas de freguesia) e do mapa judicial (que poderia implicar o fecho de alguns tribunais no interior do país), ou seja, realinhando o PSD nacional com os interesses dos seus aparelhos locais. Por alguma razão muitos militantes não parecem preocupados com os valores quase insignificantes que o PSD consegue nas sondagens: as legislativas de 2009 pouco lhes interessa. Nesse ano, o que capta as suas atenções são as autárquicas, e as legislativas serão pouco mais que uma distracção.
É por isso que, por muito reconhecida e prestigiada que Manuela Ferreira Leite seja, por muitas esperanças de vencer as legislativas em 2009 que o seu aparecimento possa alimentar, nada garante que a sua candidatura possa vir a ser "consensual" no seu partido. Para uma parte significativa do partido, Manuela Ferreira Leite é apenas e só um regresso à orientação "mendista" de subordinar toda a acção do partido à "credibilização" com os olhos postos no assalto ao Governo, e à realização de medidas impopulares se e quando o poder governativo vier a ser conquistado.
O sucesso eleitoral do PSD, ao longo dos anos, foi fruto do facto de, na prática, o partido mais não ser que uma vasta coligação de interesses muito variados. No fundo, o PSD funcionava mais como um partido americano (uma "federação" de grupos distintos, que, sem uma ideologia coerente e uniforme, se juntam em torno de um líder e seguem o programa que este quer promover) do que como um partido europeu como o PP espanhol (uma força política ideologicamente definida e representativa de uma de parte da sociedade). O actual conflito, entre partido com ambições nacionais e os vários "partidos" locais com ambições autárquicas, é mais grave que qualquer outro até hoje, pois na realidade, estes dois interesses parecem ser inconciliáveis. É por isso que ideia, muito popular na blogosfera, de que é bom que o PSD se auto-destrua, para que das suas cinzas saia um novo partido capaz de "mudar Portugal", não poderia estar mais errada. Sem fazer, no seio do seu partido, as "coligações de vontades" que conseguiu ao longo da sua história o PSD não conseguirá voltar a desempenhar o papel que outrora desempenhou na sociedade portuguesa. Pode ser que, como temo, essas "coligações" sejam impossíveis, e pior, que o "partido autárquico" seja mais forte que o nacional. Se assim for, não só o PSD não voltará a governar eficazmente, como nenhum outro partido (novo ou velho), poderá desempenhar o papel que coube ao PSD de Sá Carneiro e Cavaco. Ou o PSD é capaz de voltar a pôr os olhos em Portugal, ou arrastará o país consigo para o fundo do poço onde parece estar a cair.
Posted by Bruno at 09:44 PM
abril 21, 2008
Os Representantes e os Representados
O Primeiro-Ministro José Sócrates passou o fim-de-semana a deleitar-se com as desgraças do PSD. Aparentemente, ele esqueceu-se de Guterres e Ferro Rodrigues, e acha que "nenhum líder" socialista "se foi embora" quando "teve de enfrentar problemas". Para além de mostrar que Sócrates tem falta de memória (ou de vergonha), esta sua intervenção mostra como ele não percebe a gravidade da situação que agora se vive. A crise do PSD, longe de ser um problema exclusivo do partido laranja, é um mero sintoma de uma crise mais grave, a do sistema partidário português.
Como bem notou hoje o Prof. Adelino Maltez, aquilo a que se assiste hoje é uma "crise de representação", na qual a participação política é feita à margem dos partidos parlamentares. A grande manifestação dos professores, longe de ser apenas uma orquestração do PCP, atraiu não apenas gente de outros partidos, como pessoas que actualmente, não se revêem no actual quadro partidário. O partido do governo definha, na sua adulação do grande líder, o PSD parece irremediavelmente partido ao meio, o CDS não existe, o BE aparece nos telejornais mas não tem real base social de apoio, e apenas o PCP vai mantendo a sua ligação aos sectores da sociedade portugeusa que se lhe vão mantendo fiéis. Ao lado deste tritse quadro, uma imensa massa olha para estas pessoas com desprezo (na melhor das hipóteses) ou raiva (na pior), ansiando por algo de "diferente", sem saberem onde deverá estar a tal "diferença".
O cenário é, de certa forma, similar ao que surgiu nos últimos anos da monarquia constitucional. Uma série de gente não sentia os seus interesses defendidos pelos actores do quadro partidário da altura. Este descontentamento levou ao enfraquecimento dos partidos, o que por sua vez os incapacitou de responderem eficazmente aos desejos desses "marginalizados" da representação. Sabemos como a coisa acabou. Na altura, problemas como este resolviam-se com um golpe de estado: a parte "marginalizada" da sociedade (no caso de 1910, parte da a "classe média" lisboeta) aliava-se à parte do exército que partilhava os seus fervores, e afastavam os "políticos" que, segundo eles, causavam a "decadência" da "nação", que eles, claro, amavam como ninguém e prometiam "regenerar". Hoje, a "Europa" garante que não seremos atormentados por excessos voluntariosos como os de 1910. Mas, por outro lado, assegura que este vazio se perpetue, que cada vez mais pessoas se revejam cada vez menos no quadro partidário existente. Aquilo que tanto diverte o Primeiro-Ministro é nada mais nada menos que o progressivo apodrecimento da democracia portuguesa. Caso não se tenha apercebido, também o afecta a ele.
Posted by Bruno at 06:37 PM
abril 19, 2008
Um Ponto A Favor De Pedro Passos Coelho
Ouvi esta tarde a entrevista de Pedro Passos Coelho à SIC Notícias, a propósito da sua anunciada candidatura à liderança do PSD. Como já aqui disse, Passos Coelho não é pessoa que me provoque natural simpatia. Ter sido líder da JSD é o suficiente para suspeitar dele. Mas o facto é que já por várias vezes o ouvi dizer coisas que o PSD deveria andar a dizer ao país. E hoje, na sua entrevista, disse algo que me parece ser extremamente importante: questionado se iria manter a sua candidatura caso nomes "mais fortes" aparecessem, Pedro Passos Coelho afirmou que estava "igualmente preparado" para "perder e para ganhar", que se candidatava para defender um conjunto de ideias e que depois caberia aos militantes dizerem se concordam com elas ou não. Numa altura em que "os políticos" são vistos, pela generalidade dos cidadãos, como indivíduos que "só querem" o poder e que estão dispostos a dizerem tudo e o seu contrário para ganharem uma eleição, um político que se comporte de forma diferente, com um maior desprendimento e menor calculismo eleitoralista, poderá conquistar simpatia, e convencer as pessoas a aceitarem uma série de reformas que o país precisa. Palavras como as de Passos Coelho são, por isso, um sinal positivo em relação à sua candidatura: nos últimos anos, em Portugal, só ele, Ribeiro e Castro (no congresso em que venceu Telmo Correia) e Rui Rio (na sua candidatura à Câmara do Porto), disseram algo de semelhante. Se este último se candidatar, o PSD terá duas pessoas aparentemente capazes de se apresentarem aos portugueses como políticos diferentes dos outros. Num partido de onde quase só têm vindo más notícias, será difícil conceber um cenário melhor.
Posted by Bruno at 09:56 PM
abril 18, 2008
O Futuro do PSD
Quem quer que seja o próximo líder do PSD, terá uma enorme dificuldade em conseguir vencer as eleições legislativas em 2009. E se porventura o conseguir, chegará ao poder sem ter feito o "trabalho de casa" necessário, e portanto, dificilmente poderá governar eficazmente. Por isso mesmo, candidato que diga, de imediato, que mais do que ganhar eleições em 2009, o seu trabalho será o de formar um grupo parlamentar capaz de trabalhar quatro anos na oposição para construir uma alternativa sólida ao PSD, para depois poder governar em benefício do país, será um candidato a merecer atenção. Qualquer candidato que diga aos militantes do PSD o que eles não querem ouvir, merecerá a sua atenção. E, eventualmente, o seu voto.
Posted by Bruno at 10:36 PM
A Fuga Em Frente De Menezes
No Insurgente, escrevi ontem três posts sobre a anunciada demissão de Menezes, que considero ser apenas uma forma de segurar o poder no seio do partido: Menezes convoca eleições antecipadas no PSD; Menezes convoca eleições antecipadas no PSD (2); Menezes convoca eleições antecipadas no PSD (3).
Posted by Bruno at 10:25 PM
abril 17, 2008
António Costa
António Costa estreia-se hoje na Quadratura do Círculo. Será uma participação interessante de assistir. Como é evidente para quem queira perceber, António Costa iniciou com a sua ida para a Câmara de Lisboa uma operação de promoção pessoal que visa, a médio/longo prazo, tomar São Bento ou Belém, e na SIC Notícias, terá um excelente palco para se manifestar. Nos próximos tempos, convém prestar atenção e ver quais as questões em que António Costa se distancia (sem grande alarido, claro) do Governo.
Posted by Bruno at 10:13 PM
abril 16, 2008
O PS e o Divórcio
A Assembleia da República aprovou hoje a nova Lei do Divórcio, proposta pelo grupo parlamentar do Partido Socialista. Independentemente dos eventuais méritos ou deméritos da proposta, ela é um excelente exemplo da forma como o PS de Sócrates entende ser a acção política e a função de um partido como o seu. Das duas uma: se a nova lei é, como diz Alberto Martins, de "grande relevo social", se ela muda efectivamente alguma coisa, ela (com ou sem razão, não é isso que agora me interessa) "alivia" as "amarras" do casamento, constituindo uma provocação à Igreja e uma forma de agradar à "esquerda social" irritada com as "medidas impopulares" do Governo; ou então António Lobo Xavier tinha razão, e nenhuma das laterações trazidas pela nova lei irá eliminar as disputas legais (e as penalizações a quem estiver em falta) associadas a um divórcio, e portanto, a histeria socialista a propósito do carácter "inovador" da lei não passa de uma forma de iludir aqueles eleitores que esperam do PS uma política de costumes "progressista". Em qualquer dos casos, a nova lei é, pura e simplesmente, um acto propagandístico, mais um sinal de que o PS procura responder, não aos problemas e necessidades da sociedade, mas antes aos problemas e necessidades da sua máquina eleitoral.
Posted by Bruno at 08:51 PM
abril 15, 2008
No Leitor de DVD

Posted by Bruno at 10:07 PM
abril 14, 2008
De Olho Em Itália
Ontem foi um dia feliz para as "esquerdas mundiais". Prestes a perder George W. Bush para a reforma, todos os socialistas, comunistas, alter-globalistas e trogloditas estavam já próximos da depressão clínica, por se irem ver privados de uma figura para demonizarem. Mas ontem, um raio de luz passou a iluminar as suas vidas. Pois a maioria dos eleitores italianos, aparentemente, fez-lhes o favor de entregarem o poder a Silvio Berlusconi, o que garante a todo e qualquer esquerdista pelo menos uns três meses de excitada e alegre indignação. É verdade que perderam a oportunidade de ver a sua nova coqueluche Veltroni subir ao poder, mas a possibilidade de passarem uns tempos a falar "desse" Berlusconi acabará certamente por ser compensadora.
Posted by Bruno at 06:43 PM
abril 12, 2008
O "Regresso" Anunciado Por Santana
No PSD, toda a gente parece estar a viver fechada no quarto como Stalin depois da invasão alemã. As sondagens dão os piores resultados de sempre para o PSD, mas Menezes parece continuar a achar que "o povo" continua com ele (talvez por o líder do PSD não querer vencer as legislativas). Enquanto a credibilidade do partido aos olhos dos eleitores bate no fundo, os seus responsáveis entretêm-se a comentar a escolha de uma jornalista da moda, por parte da RTP, para apresentar um programa televisivo. Enquanto o país vai vivendo no seu marasmo habitual, o PSD e os seus responsáveis caminham alegremente para o abismo, sem perceberem para onde estão a ir, e como arrastam todos os portugueses com eles. Não há melhor exemplo da alienação da realidade do PSD que o momento do debate parlamentar de ontem, em que Pedro Santana Lopes anunciou, com visível deleite, que o Primeiro-Ministro estava "de saída", e ele, "guerreiro-menino", estava já "de regresso". O homem, escusado será dizer, achou a tirada genial, e decerto que os seus parceiros de bancada lhe garantiram que ele não estava enganado. O problema é que foram os únicos a pensarem assim. Se alguém estivesse ouvir (não são muitos os que têm paciência para ouvir o PSD, hoje em dia), certamente se desatou a rir com as palavras de Santana. E Sócrates, como seria de esperar, não desperdiçou qualquer oportunidade de ridicularizar ainda mais o partido laranja e o líder da sua bancada parlamentar. A cada intervenção, os responsáveis do PSD contribuem para uma futura reeleição de Sócrates em 2009. O pior é que, como se vê pelo entusiasmo com que Santana quinzenalmente se atira para o fundo de um poço, nem sequer se apercebem do que estão a fazer. Como Stalin, daqui a um ano acabarão a fechar-se num quarto a chorar o que lhes vai acontecer. Mas na realidade, já há muito que estão lá fechados, sem um mínimo de ligação ao mundo real em que todos os outros portugueses têm de viver.
Posted by Bruno at 09:32 PM
abril 11, 2008
A Kick In The Balls
Caro leitor, sonha em fazer parte do Governo Labour do Reino Unido? Não tem grandes simpatias pelo Ministro da Educação Ed Balls? Tal como Jack Straw, gostaria de lhe pregar um belo murro na cara? Pois então, tem aqui a sua oportunidade.
Posted by Bruno at 09:38 PM
abril 10, 2008
Ângelo Correia Defende Menezes 2
Ontem escrevi que as "declarações de Correia são uma defesa de Menezes, impedido de "falar com o país", e um ataque aos críticos, que afligem o líder com "disputas internas por razões menores"." As palavras de Ângelo Correia, que o Paulo Pinto Mascarenhas cita, apenas o confirmam:
"A culpa não é do dr. Luís Filipe Menezes, ele é uma vítima desta situação."
Posted by Bruno at 06:33 PM
abril 09, 2008
Ângelo Correia Defende Menezes
Ângelo Correia, apoiante de Luis Filipe Menezes e Presidente da Mesa do Congresso do PSD, afirmou ontem num debate no ISEG, que "é totalmente insatisfatória a situação" do seu partido. Segundo Correia, o PSD precisa de "refazer a qualidade do partido, que foi perdida nos últimos anos, e refazer a necessidade de pensar" (ao que parece, metade da audiência vomitou de tão pretensiosa que foi a frase), o que não tem sido feito (talvez por ninguém perceber muito bem o que é "refazer a necessidade de pensar"). As declarações de Ângelo Correia têm sido interpretadas como um ataque à liderança de Menezes, como o primeiro corte de um ex-apoiante do líder do partido. Embora esta versão das coisas possa ser mais apelativa aos senhores dos media (afinal, têm de vender jornais e conquistar audiências), ela não bate certo com as palavras de Correia, que se apressou a dizer que "Menezes está empenhado" nas tarefas que ele julga serem decisivas para o partido, e que em vez de estar a "falar com o país", o PSD passou "três meses perdidos, com disputas internas por razões menores". Se forem ouvidas com atenção as declarações de Correia são uma defesa de Menezes, impedido de "falar com o país", e um ataque aos críticos, que afligem o líder com "disputas internas por razões menores". Na realidade, as declarações de Ângelo Correia são de facto um sinal da fragilidade da actual liderança, mas não por Correia se estar a virar contra ela, que não está: Menezes e os seus apoiantes já perceberam que o PSD terá maus resultados, a nível nacional, em 2009, e já começaram a atribuir as culpas aos críticos internos. Correia não atacou Menezes, desresponsabilizou-o da "situação insatisfatória" em que se encontra, e daqui até às legislativas, muitas outras declarações como esta são de esperar. Até porque, como se viu pelo spin que a comunicação social deu às de Ângelo Correia, a coisa não funcionou muito bem desta vez.
Posted by Bruno at 06:42 PM
abril 08, 2008
Blair Apoia McCain
Pelo menos, é o que pensa Daniel Finkelstein:
"At the end of the interview Murad and I conducted with Tony Blair about his Faith Foundation, I had time for a final question. This one about politics, not religion.
I noted that in his recent speech on faith Mr Blair had included this arresting statement:
I sometimes say to people that in modern politics, the dividing line is often less between traditional left vs. right; but more about open vs. closed.
Now he tells us, I said to him.
And then I asked which politicians on the right he regarded as on his side, the open side, of the new argument. He replied:
I think you can see the Republicans in the US who are on the pro-immigration side of the debate, on the pro-free-trade side, the Americans who are Democrats but protectionist. I think the thing that has come home to me most since leaving office is just the speed at which the world is opening up.
No names. He's too smart for that. But I think it's pretty obvious what he is saying."
Posted by Bruno at 10:04 PM
abril 07, 2008
A Hipótese Marcelo
Também no Expresso, José Miguel Júdice (muito mais opinativo sobre o futuro do PSD desde que abandonou o partido do que o era enquanto lá estava), afirmou que "só uma pessoa" poderia vencer José Sócrates nas eleições de 2009, "aparecendo seis meses antes", e que essa pessoa é Marcelo Rebelo de Sousa. Que se prepara um ataque do "Professor" à liderança do PSD, era já bastante evidente, e as declarações de Júdice apenas parecem vir confirmá-lo. Resta apenas saber se uma eventual sucesso de Marcelo seria uma boa notícia apara o PSD e para o país.
Repito o que aqui escrevi a propósito de uma conversa com o Gabriel Silva e o André Abrantes Amaral, precisamente sobre esta hipótese. Não nutro grande apreço pelo professor. Nunca esqueço que Marcelo um dia elogiou Nuno Morais Sarmento por este ter mantido dois canais na RTP quando havia anunciado que iria privatizar um. Note-se que Marcelo não elogiou a solução que acabou por ser adoptada, elogiou isso sim o facto de ele ter conseguido faezr o contrário do que havia anunciado. Elogiou a hipocrisia. Elogiou a incoerência. Elogiou a falta de vergonha. Nisto, tanto eu como o André e o Gabriel concordávamos. Marcelo não se distingue pela riqueza do seu pensamento político. O Gabriel dizia mesmo que foi o gosto pela politiquice que "matou" Marcelo. Mas tal como Cristo foi crucificado uma vez e voltará para castigar os pecadores, também Marcelo poderá descer à Terra uma segunda vez. E aqui, como disse em tempos Vasco Rato no Independente, talvez fosse um melhor Primeiro-Ministro que candidato.
Também nisto, eu, o Gabriel e o André concordávamos. Marcelo poderia, na falta de um pensamento político solidificado, conseguir reunir em seu redor uma equipa de qualidade, essa sim, capaz de bem governar, protegida pela figura tutelar de Marcelo. Mas restaria um problema. Quando as coisas começassem a correr mal (e correriam mal. Se fizesse o que é preciso, enfrentaria descontentamento. Se não fizesse, acabaria por ter de pagar o agravamento da crise), alguém obcecado pela conspiração, pela politiquice, pela habilidade para dizer uma coisa e fazer outra, certamente deixaria cair essa equipa que eventualmente construíria em seu redor.
Restava apenas uma hipótese. Paradoxalmente, essa fixação politiqueira de Marcelo poderia acabar por ser benéfica. A ambição de Marcelo poderia ser benéfica. Marcelo poderia pensar na história. Poderia acabar por ser um governante firme, capaz de conduzir uma política que fosse ao encontro das necessidades do país, e mais importante ainda, capaz de aguentar a condução dessa mesma política, não por acreditar que ela seria a melhor (porque não acredita), mas por querer ficar na história enquanto um governante firme. Enquanto alguém que não teve medo de perder eleições. Como alguém que conseguiu pedir "sangue, suor e lágrimas". Se Marcelo alguma vez for líder do PSD, se alguma vez for Primeiro-Ministro (o que não duvido)esta é a única hipótese de isso não se traduzir numa desgraça para este país. Já na altura me parecia pouco provável que assim acontecesse, e o comportamento de Marcelo não me tem feito mudar de opinião.
Posted by Bruno at 06:12 PM
A Escolha
No Expresso deste fim-de-semana, Koffi Annan, Ex-Secretrário-Geral da ONU, afirmou que "um ataque militar ao Irão seria desastroso". Não duvido. Mas gostaria de saber o que Annan pensa acerca da possibilidade de o Irão vir a ter armas nucleares. E se, perante a alternativa de um Irão com armas militares e um ataque militar ao irão, qual a hipótese mais "desastrosa" e qual a preferível. Pois esse é problema que os decisores políticos internacionais têm por vezes de enfrentar: uma escolha entre duas soluções "desastrosas". Fingir que não é assim é de uma irresponsabilidade que só mesmo um antigo Secretário-Geral da ONU é incapaz de perceber.
Posted by Bruno at 05:51 PM
abril 05, 2008
I Think I Fancy Boris
Um maravilhoso vídeo de apoio ao candidato Torie a mayor de Londres. A propósito, fica aqui prometido um texto sobre o que penso ser uma importante lição da candidatura de mum dos mais brilhantes jornalistas da actualidade.
Posted by Bruno at 09:35 PM
Sobre O Futuro Da Atlântico
A direcção editorial
Rui Ramos
João Marques de Almeida
Paulo Pinto Mascarenhas
Posted by Bruno at 09:19 PM
abril 04, 2008
Lido

Posted by Bruno at 09:52 PM
abril 03, 2008
Obama, Um Político Como Os Outros 2
Há não muito tempo, escrevi que Obama, apesar de toda a retórica de "mudança" e "anti-sistema" que gosta de usar, não passa de umpolítico no sentido mais depreciativo que se pode atribuir à palavra, um homem que não hesita em mentir, manipular e iludir para ganhar uma eleição. Depois das reacções à polémica em torno do Rev. Wright, o Politico parece ter encontrado mais um exemplo da tendência de Obama para ser o que contrário do quer parecer:
"During his first run for elected office, Barack Obama played a greater role than his aides now acknowledge in crafting liberal stands on gun control, the death penalty and abortion — positions that appear at odds with the more moderate image he has projected during his presidential campaign.
The evidence comes from an amended version of an Illinois voter group’s detailed questionnaire, filed under his name during his 1996 bid for a state Senate seat.
Late last year, in response to a Politico story about Obama’s answers to the original questionnaire, his aides said he “never saw or approved” the questionnaire.
They asserted the responses were filled out by a campaign aide who “unintentionally mischaracterize[d] his position.”
But a Politico examination determined that Obama was actually interviewed about the issues on the questionnaire by the liberal Chicago nonprofit group that issued it. And it found that Obama — the day after sitting for the interview — filed an amended version of the questionnaire, which appears to contain Obama’s own handwritten notes added to one answer."
Posted by Bruno at 09:50 PM
As Coisas Que Uma Pessoa Faz
Há tempos, recebi um e-mail do meu amigo Paulo pedindo-me para escrever uma pequena introdução ao seu e-book O Executivo. Com grande sacrifício, e apenas e só com receio de represálias para além do que a minha imaginação pode conceber, lá fiz a coisa. Tal como ele me pediu para a escrever, pede-me agora para a divulgar. E eu, que queria manter as minhas parvoíces no suave conforto da obscuridade, vejo-me obrigado a fazer o que ele me pede. Por isso, caro leitor, vá lá ler o que escrevi, para que o homem me deixe em paz. E aproveite para ler o que ele escreveu, para ao menos ler alguma coisa de jeito.
Posted by Bruno at 05:41 PM
abril 02, 2008
Um Erro
O Diário de Notícias avança com a notícia de que o PS se prepara para avançar com um projecto-lei que prevê a suspensão do mandato de autarcas acusados de crimes cuja pena prevista seja igual ou superior a três anos. Se tal medida for de facto aprovada, constituirá um erro tremendo. Porque uma coisa é um partido não querer manter o seu apoio a um determinado autarca, outra coisa é impedi-lo, através da lei, de continuar a exercer o seu mandato, mesmo que continue a ter, nos órgãos de que depende, o apoio necessário, quando este, visto que não foi ainda condenado, continua a ser inocente até prova em contrário. Marques Mendes percebeu que, após o consulado de Santana Lopes, o problema do PSD seria, acima de tudo, um problema de credibilidade. E portanto, fez uma escolha, política, de não apoiar aqueles candidatos que estavam envolvidos em processos judiciais. O líder do PSD estava no seu direito de não querer que o seu partido se associasse a tais candidaturas. Mas essa opção do PSD, ou do seu líder, não retirava qualquer direito a esses mesmos indivíduos. Estes continuavam a ter o direito a se candidatarem, caso o quisessem. Não haviam sido condenados, não haviam sido privados da sua liberdade. Carmona Rodrigues perdeu o apoio do PSD, mas, se tivesse reunido outros apoios no sei da autarquia lisboeta, nada o impediria de se manter no cargo. Como agora nada o impede de se canidatar. O que tal medida representaria seria uma privação da liberdade de um indivíduo, numa altura em que não há razões para que isso aconteça, visto que teremos de presumir que esse mesmo indivíduo é inocente, até que ele eventualmente seja condenado. Em nome da "moralização", aplicar-se-ia uma medida imoral.
Posted by Bruno at 05:36 PM
abril 01, 2008
Falta De Atenção
No Fórum TSF de hoje, António Perez Metello fez um esforço sobrehumano para, no meio das pouco animadoras notícias sobre a conjuntura económica internacional, descobrir a esperança num espantoso renascimento do nosso país. Para o comentador, a economia portuguesa está numa claríssima fase de recuperação (como uma espécie de aldeia de Astérix económica, que resiste às maleitas que afectam todas as outras). Só mesmo os pouco perspicazes cidadãos portugueses é que não se apercebem disto. Admitamos que isto é verdade, e que graças às maravilhosas acções do "engenheiro" Sócrates, Portugal se transformou no único país não só capaz de enfrentar a difícil conjuntura económica, como de prosperar no meio dela, e só mesmo um problema de "percepção" faz com que os portugueses se mantenham pessimistas: o problema do comportamento conjuntural da economia portuguesa não é mais importante para o país. Infelizmente, tanto o Governo como a generalidade dos cidadãos tendem a ignorar as questões que mais afectarão o seu futuro, e que estão muito para lá da taxa de crescimento num determinado trimestre.
E é precisamente nestas áreas que o Governo mais deixa a desejar. Por muito "eficaz" que a sua "reforma" da Segurança Social tenha sido, ela apenas fez com que o sistema não entrasse em falência por mais alguns anos. Mas não evita que os portugueses fiquem condenados a ficarem progressivamente mais pobres à medida que os anos passam. E tal como não reformou a Segurança Social, o Governo também nada fez para aligeirar o monstruoso peso do Estado, que suga (e continuará a sugar) uma parte cada vez maior da já de si escassa riqueza dos cidadãos. Independentemente de, eventualmente, os portugueses não terem a "percepção" de que a economia "já se está a portar ou bem" ou de, pelo contrário, perceberem muito bem que ela está precisamente a "portar-se mal", a maioria dos cidadãos não tem a percepção de que os problemas estruturais do país continuam por resolver. E com um Governo obcecado em ganhar eleições, essa falta de atenção, por parte dos eleitores, às questões que mais afectam o seu futuro, é particularmente perigosa, porque Sócrates e os seus compinchas apenas farão o que acharem que lhes possa render alguns votos.
Posted by Bruno at 07:09 PM