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fevereiro 29, 2008
Sem Juízo
Luis Filipe Menezes escreve hoje um artigo no Público, em que procura responder às críticas à sua proposta para a RTP, dando o exemplo de Sarkozy, que aparentemente apresentou uma proposta semelhante em França. Escreve o líder do PSD: "aqueles que me criticaram sem sequer equacionar a viabilidade da minha proposta enquanto líder do PSD que digam também desde já que o presidente francês é um homem sem juízo". Por acaso, até nem é muito difícil dizer que o "presidente francês" é "um homem sem juízo". A cada dia que passa, e a cada notícia sobre a sua louca paixão por Carla Bruni, são cada vez mais as pessoas que dizem "desde já" que Sarkozy é "um homem sem juízo". E se Menezes pensa (e as constantes referências ao homem levam a crer que sim) que uma mera evocação do "exemplo" de Sarkozy é suficiente para atestar o mérito das suas próprias propostas, também não é difícil de chegar à conclusão que ao autarca de Gaia também falta um pouco do tal "juízo", com a agravante de que nem foi preciso uma italiana a dar-lhe a volta a cabeça para ele o perder.
Posted by Bruno at 09:45 PM
fevereiro 28, 2008
A Credibilidade de Menezes
Luis Filipe Menezes afirmou, numa entrevista à SIC Notícias, que caso fosse Primeiro-Ministro, iria acabar com a publicidade nos canais da RTP, financiando-a exclusivamente através dos cofres do Estado. Em si, a ideia não é má. Como Menezes bem nota, ao ser financiada em simultâneo por dinheiro público e publicidade, a RTP pratica uma espécie de "concorrência desleal" contra as televisões privadas: estas dependem exclusivamente do mercado publicitário, que vêm reduzido pela RTP, que tem sempre a segurança do contribuinte que a financia quer queira quer não. O problema com esta proposta é a credibilidade de Menezes. Como dizia Jorge Coelho na Quadratura do Círculo, as constantes rábulas de "assina pacto/quebra pacto, anuncia isto/esquece isto", apenas dizem ao eleitorado para não confiar no homem. Eu, por exemplo, oiço Menezes, e, como é óbvio, não confio no que ele diz. O líder do PSD até pode apresentar propostas positivas que, à luz do seu comportamento, eu não posso acreditar que ele cumprirá o que promete.
O mais grave, para Menezes, é que o seu problema de credibilidade não desaparece mesmo que ele cumpra esta particular promessa. O próprio conteúdo da dita indica que pouco do que ele diz merece ser ouvido. Pois não basta querer eliminar a "concorrência desleal" da RTP no mercado da publicidade. Um homem que diz querer "desmantelar o Estado" não deveria aceitar pacificamente a manutenção de três canais de televisão (um deles no cabo, imagine-se) pagos pelo contribuinte (e isto deixando de fora os canais internacionais e regionais). Mesmo que levemos a sério a promessa de Menezes, ela apenas nos indica que não devemos levar a sério o seu suposto liberalismo. Menezes até pode, genuinamente, ter percebido que o peso excessivo do Estado é um obstáculo ao desenvolvimento económico do país. Mas o seu carácter aparelhista torna-o, instintivamente, num estatista, em alguém que não compreende qual deve ser o papel do Estado e de que áreas este se deve afastar. Por isso, se alguma vez Menezes vier a ser nomeado Primeiro-Ministro, qualquer "desmantelamento" que promova seria feito de forma atabalhoada, sem resolver qualquer problema ou quem sabe agravando os já existentes, e ficaria pelo caminho mal o eventual descontentamento popular o fizesse recear um desaire eleitoral. Ao fazer a proposta que fez acerca da RTP, Menezes apenas deixou transparecer que, se alguma credibilidade se atribui ao que ele diz agora, logo perde credibilidade o que ele disse antes.
Posted by Bruno at 09:49 PM
fevereiro 27, 2008
O Insurgente
A minha outra casa, O Insurgente, faz hoje três anos. Já liberto das influências socializantes que dele se apoderaram, o Insurgente continua com os problemas com o server que nos têm atormentado. É algo que está a ser resolvido, e mais tarde ou mais cedo, será ultrapassado.
Posted by Bruno at 09:51 PM
fevereiro 26, 2008
Transparência
No Reino Unido, o Comissário da Informação (um título quase soviético) Robert Thomas forçou o Governo a divulgar os registos das discussões de duas reuniões do Gabinete acerca da decisão de invadir o Iraque, pois, segundo ele, "there is a widespread view that the justification for the decision on military action in Iraq is either not fully understood or that the public were not given the full or genuine reasons for that decision. In coupling this context with his analysis of the information itself, the commissioner believes that its release would assist in addressing uncertainties and controversies in this respect." Este caso lembra-me um artigo de Pacheco Pereira, já com alguns anos, a alertar para os perigos de um excesso de "transparência" nas democracias. Na realidade, longe de tornar os governos democráticos mais responsáveis perante o escrutínio público, a obsessão moderna com a "transparência" ou será irrelevante, ou terá efeitos perniciosos: como nota James Forsyth, os ministros, receosos de se verem comprometidos com tomadas de posição que até agora mantinham privadas, tenderão a ter as suas discussões na segura escuridão dos corredores, fora dos locais normais (as reuniãoes do gabinete), o que não só continuará a manter a neblina sobre o processo de decisão, anulando o desejo de "transparência", como impedirá, no futuro, a investigação histórica acerca dessas decisões e discussões. Se, porventura, não recorrerem a subterfúgios semelhantes, acabarão, como diz Forsyth, por pura e simplesmente deixar de expressar um pensamento independente, enfraquecendo o próprio processo de tomada de decisão, resultando em políticas piores e pouco reflectidas, e portanto, numa degradação da democracia. Se as democracias se tornarem demasiado "transparentes", acabarão por se tornar demasiado opacas.
Posted by Bruno at 09:44 PM
fevereiro 25, 2008
Pedro e o Lobo
Como nota o Paulo Pinto Mascarenhas, o Diário de Notícias interpreta a entrevista de Pedro Santana Lopes ao jornal e à TSF como a "inauguração" de "um período que é descrito por algumas fontes do PSD como uma autêntica cooperação estratégica". Por sua vez, o Paulo Gorjão nota como este "período" de "cooperação" já foi anunciado em múltiplas outras ocasiões, sempre com os resultados que se conhecem. Uma das principais características de Pedro Santana Lopes e das suas intervenções político-mediáticas é a de se esquecer imediatamente daquilo que disse no minuto anterior, de anunciar que não dirá isto ou aquilo e dizê-lo imediatamente a seguir (os habituais "eu não vou fazer ao líder do meu partido o que outros disseram de mim, quando eu ocupava o cargo", seguido de um "mas" e um rol de críticas ao líder do partido). Como Menezes também não é estranho a este peculiar hábito, talvez não fosse má ideia que jornalistas e observadores da realidade do PSD tivessem alguma prudência ao comentarem o que Santana ou Menezes dizem ser as suas intenções futuras. Tomar a sério as "preocupações" de Santana Lopes com a "unidade" do PSD, dar-lhes eco como se tratassem de um facto, e não de uma mera declaração (que à luz do passado do seu autor, pouca credibilidade terá), é algo que pouco abona a favor dos jornalistas. O mesmo, aliás, se deverá dizer dos militantes do PSD que acreditam nestas palavras, e dos que se prestam a ecoá-las. Parece que, ao contrário do outro, este "Pedro" bem dizer que o lobo vem aí, que os aldeões acreditam sempre.
Posted by Bruno at 05:10 PM
fevereiro 24, 2008
Oscars
E chega a noite dos Oscars. Este ano, dos principais concorrentes, vi apenas There Will Be Blood: No Country For Old Men ainda não estreou, ainda não tive oportunidade ir ver Juno (que me causou alguma expectativa, mas acerca do qual começo a ter dúvidas, depois de ter visto alguns trailers), e Atonement que ficou por ver (não me pareceu que fosse gostar, e tive demasiada preguiça para arriscar). Por isso, este ano vejo os Oscars com alguma distância. Sendo apreciador dos Coen, e parecendo-me que o seu filme tem qualidade, gostraia que ganhassem qualquer coisinha. Mas o que eu gosto nos Coen são as suas comédias (Big Lebowski, Fargo, O Brother Where Art Thou), e por isso, um filme como este, por muito bom que seja, talvez me desiluda um bocadinho (falarei mais disso quando vir o filme). Ainda para mais, There Will Be Blood é um filme excelente, e que se insere perfeitamente na filmografia de P.T. Anderson (ou seja, sem ter visto o filme dos Coen, suspeito que este talvez possa ser um melhor filme, mas que There Will Be Blood será mais "importante" na história do cinema, pelo que significa na "obra" do seu realizador). Nas categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento Adaptado, a estatueta será discutida entre estes dois, talvez com a possível intromissão de Atonement (que ou muito me enganei ao não o ir ver, ou é o habitual filme inglês que, apesar de desprovido do mínimo interesse, muito agrada à Academia). O prémio de Melhor Actor deverá ir para daniel Day-Lewis, o que me parece merecido, embora gostasse de ver o filme (There Will Be Blood) de novo, para confirmar a minha primeira impressão. Na categoria de Melhor Actriz, as apostas apontam para Julie Christie (imagine-se), mas talvez haja uma surpresa com Ellen Page. O Melhor Actor Secundário deverá ser Javier Bardem (No Country for Old Men), e o prémio de Melhor Actriz Secundária deverá ser entregue a Cate Blanchett (mais um), ou à insuportável Tilda Swinton, embora (por pura simpatia) eu gostasse que fosse entregue a Amy Ryan (Gone Baby Gone), actriz que conheço da segunda temporada de The Wire. De resto, a única coisa que gostaria de ver seria Paul Thomas Anderson a ganhar um Oscar, já que com os geniais Magnolia e Boogie Nights a coisa lhe escapou.
Posted by Bruno at 10:25 PM
fevereiro 23, 2008
Insurgente
A minha outra casa, o Insurgente, foi tomada por um grupo de extrema-esquerda. Esperemos que tudo se resolva.
Posted by Bruno at 10:00 PM
fevereiro 22, 2008
O Mal-Estar Difuso
O relatório da Sedes, diagnosticando um clima de "mal-estar difuso" no país, que "alastra e mina a confiança nacional" e que conduzirá, "mais cedo ou mais tarde", a "uma crise social de contornos difíceis de prever", provocou, como seria de esperar, alguma polémica. Ao referir a "ocupação do Estado" por parte dos aparelhos partidários, a "justiça ineficaz", ou a "presença asfixiante" do Estado "sobre toda a sociedade", a Sedes contradiz a visão dourada que o Governo constantemente tenta passar do país, compreendendo-se assim a pouca vontade que o Primeiro-Ministro teve de comentar o dito relatório. Claro que os seus lacaios se dispuseram a fazer o trabalho sujo por ele. O dr. Vitalino Canas, como de costume, veio falar das maravilhas deste Governo e de como Portugal é o melhor país do mundo para se viver. E se não disse, como a sua colega deputada Custódia Fernandes (no Fórum TSF de hoje), que o relatório não passava de uma conspiração "dos Mellos e dos Espírito Santo" para fazer Portugal "voltar à ditadura", continua a achar que tudo não passa de uma incapacidade dos portugueses "compreenderem" as "reformas" do Governo.
Como não se cansa de dizer Pacheco Pereira, esta tese (muito marcelista) de que tudo o que um Governo precisa é de "explicar" melhor o que faz, e que não há qualquer problema com as suas políticas propriamente ditas, não podia estar mais errada. Admitamos, em benefício da discussão, que as políticas estão certíssimas. A má "explicação" é também ela um problema de política, a "incompreensão" é um problema de política: ao querer, por motivos de imagem (para contrastar com as "hesitações" e "trapalhadas" de Governos anteriores), parecer "decidido", "firme", e "corajoso" ao ponto de enfrentar "interesses", o Primeiro-Ministro envolveu as suas "reformas" numa retórica de confronto social, que inevitavelmente, provocou descontentamento nos alvos a que se dirigia. Ao mesmo tempo, para se cobrir com as vestes de "reformador", falou (na senda de Manuela Ferreira Leite) de "tempos difíceis" e de "apertar o cinto". É por isso apenas e só normal que as pessoas, acreditando que se viviam "tempos difíceis", estejam relutantes em acreditar que, de repente, Portugal se transformou num paraíso. Longe de ser uma "incompreennsão" por parte dos portugueses, o clima de "pessimismo" e "desconfiança" é uma consequência natural da forma como o Governo quis justificar a sua política. Mesmo que admitamos que esta estava correcta, a sua condução é ela própria responsável pelo clima de "mal-estar difuso" que o Governo diz não passar de "falsidades e demagogia".
No entanto, a política do Governo está longe de ser a correcta. E nessa medida, o descontentamento popular com o estado actual do país é um problema de política governamental, não apenas no sentido da forma como as suas opções são justificadas, mas no sentido de ser um problema do conteúdo das suas políticas. Mais grave ainda, é um problema da política deste Governo e da política dos Governos anteriores. Tal como Durão, Sócrates quer parecer "reformista" e "corajoso", mas nada faz que corrija problemas estruturais da sociedade portuguesa. Como Guterres, deixa alguns desses problemas agravarem-se progressivamente, enquanto fala do país como se Deus tivesse descido à Terra e feito de Portugal o seu Jardim. Como Santana, não hesita em fazer anúncios megalómanos que acabam por não se traduzir na realidade prática, dando origem a "trapalhadas" semelhantes à do seu antecessor. De Guterres a Sócrates, todos os chefes de governo fingiram estar a resolver os problemas de Portugal "para os próximos 50 anos", e de Guterres a Sócrates, todos eles deixaram tudo na mesma, ou seja, pior. Ao fingirem que "reformavam", criaram descontentamento, sem produzirem qualquer resultado que o minorizasse posteriormente. Esse descontentamento imediato transformou-se assim em desconfiança endémica, que faz com que os eleitores tenham cada vez mais relutância em ouvir quem lhes propõe mais reformas, e portanto, mais sacríficios. É daí que vem o "mal-estar difuso": do facto dos portugueses não acreditarem em que defende "o que está", e simultaneamente não acreditarem em que lhes diz querer algo diferente. Como há tempos aqui escrevi, a cada dia que passa, o país sopra um bocadinho mais de ar para o balão da crise e da revolta contra "isto". Um dia rebenta. A Sedes parece achar o mesmo.
Posted by Bruno at 09:43 PM
fevereiro 21, 2008
Sobre O PSD
A cada dia que passa, a cada notícia sobre os desentendimentos entre Luís Filipe Menezes e Pedro Santana Lopes, a cada "fonte" citada criticando o novo líder do PSD, a cada rumor de que os "barrosistas" se preparam para atacar Menezes, não posso deixar de me lembrar do que, até há alguns meses, era dito do então líder Marques Mendes, e de como muitos dos que hoje tanto se agitam com as tropelias do autarca de gaia contribuíram para a ascensão deste último, ao terem degradarem as condições de excercício da liderança de Mendes e mantendo-se silenciosos e "prudentes" perante a possibilidade de Menezes ser eleito para a liderança. Agora queixam-se, mas depois de terem feito a vida negra a um líder que estava a tentar pôr a casa em ordem, só porque ele não "entusiasmava" ninguém, têm apenas aquilo que merecem: um Menezes que entusiasma o PS, que não poderia desejar oposição mais confortável que esta. Pena é que não sejam só estas almas a pagar o preço. Pois a inoperância do PSD como partido da oposição, e a consequente manutenção no poder de um Governo com um programa sem qualquer sustentabilidade e contacto com a realidade, será pago por todos os portugueses. Nem todos merecem semelhante castigo.
Posted by Bruno at 10:17 PM
fevereiro 20, 2008
A Ler
Posted by Bruno at 10:07 PM
fevereiro 19, 2008
A Entrevista de Sócrates
O aspecto mais evidente da entrevista de José Sócrates à SIC e ao Expresso, como bem notou Vasco Pulido Valente, foi o de ter estado mais perto de ser "uma sessão de propaganda" do que "uma entrevista". É verdade que ela consistiu de temas incómodos ao Governo e ao Primeiro-Ministro, como o emprego, a política fiscal, a Saúde, a Educação e a polémica em torno dos projectos do "engenheiro técnico da Câmara da Covilhã". Mas esta última pergunta, como diz o João Miranda, foi feita da forma mais confortável para Sócrates, e os restantes temas, pela forma como a entrevista se desenrolou, serviram essencialmente para o Primeiro-Ministro "explicar" as políticas: em vez de ser confrontado com resultados objectivos e dificuldades futuras, Sócrates pôde discorrer acerca de como tudo era maravilhoso, e de como todas as críticas à política governamental não passam de "falsidades" e "demagogia". Aliás, é de notar como o Primeiro-Ministro não teve de responder a qualquer questão sobre a conjuntura internacional, cujas perspectivas pouco entusiasmantes poderiam pôr a descoberto o irrealismo do discurso socrático.
Isto é mesmo o que de mais relevante teve a entrevista. Ela mostrou, a quem ainda não tivesse percebido ou querido ver, o gigantesco abismo entre o Portugal dos portugueses e o Portugal da retórica governamental. No Portugal dos portugueses, o fisco dispara primeiro (presume a culpa primeiro) e faz perguntas depois. Os contribuintes, por seu lado, caso sejam prejudicados, têm de esperar anos por uma decisão do tribunal. No país de Sócrates, os contribuintes não perderam qualquer direito, têm "todas as garantias" e "meios de recurso" a tribunais no caso de se sentirem lesados. No país dos portugueses, o desemprego sobe, e as pessoas ficam mais pobres, sobrecarregadas pela pesada carga fiscal imposta pelo Estado. No país de Sócrates, a despesa está a ser controlada (apesar do Estado gastar mais do que gastava anteriormente), a economia cria emprego e cresce como o feijão mágico da lenda (como se esse crescimento não se devesse a um efeito de arrasto, promovido pelo crescimento da economia internacional, e portanto particularmente frágil numa altura em que se teme um significativo abrandamento da dita). No país dos portugueses, a educação não gera mais do que desempregados ignorantes. No país de Sócrates, a educação é uma "aposta no futuro" que está a "ser ganha" pelo Governo. No país dos portugueses, acerca do futuro, só há incerteza e desespero. No país de Sócrates, tudo corre às mil maravilhas e nada do que se passa "lá fora" nos afectará, de tão "bem preparados" que estamos (como a estagnação dos salários, o desemprego e as falências certamente comprovam). No país do Primeiro-Ministro, só habitam os membros do seu Governo, assessores bajuladores e jornalistas receosos de o confrontarem com a realidade, e a única preocupação de Sócrates são as eleições às quais ele finge não saber se vai concorrer. No país real, cada vez mais devemos temer que Sócrates comece mesmo a acreditar na fantasia que quer vender aos eleitores. Pois serão estes últimos a pagar o preço.
Posted by Bruno at 10:16 PM
fevereiro 18, 2008
Os Estatistas Acham Que Quanto Pior For o Negócio, Mais Necessária É a Intervenção Estatal
A nacionalização, ontem anunciada pelo governo de Gordon Brown, do banco Northern Rock, é bem reveladora do pensamento estatista. Quando o banco entrou em crise, Brown optou por salvar os seus responsáveis, oferecendo um empréstimo e garantias do Tesouro para permitir a contracção de outros empréstimos, assim impedindo o banco de entrar em colapso após o fracasso dos seus negócios. Depois, Brown tentou encontrar uma "solução privada" para o banco, ou seja, encontrar alguém disposto a capitanear um navio prestes a afundar. Como falhou, resolveu anunciar que iria nacionalizar "temporariamente" o banco, ou seja, adquiri-lo agora que ninguém o quer para tentar vendê-lo mais tarde (e não para forçá-lo a entrar em falência), para assim "melhor defender os interesses dos contribuintes". Na mente estatista de Gordon Brown, como ninguém acha que é um bom negócio comprar o Northern Rock neste momento, é o dever do Estado fazê-lo, e tal opção é feita no "melhor interesse dos contribuintes". Para Brown, o facto de ninguém achar que é possível comprar agora (nas condições exigidas pelo Governo) o banco e vir a obter um lucro no futuro com ele (se achassem, teriam oferecido mais por ele), faz com que o "interesse dos contribuintes" seja o de gastar ainda mais dinheiro público para impedir que um negócio que ninguém acredita poder vir a ter sucesso possa sobreviver. Para Gordon Brown, quanto pior for um negócio, maior é o dever do Estado o salvar. Todos os estatistas pensam assim, e o resultado é sempre o pior para os "interesses" daqueles que eles dizem querer "defender".
Posted by Bruno at 04:54 PM
fevereiro 16, 2008
Delírio Propagandístico
Se dúvidas houvesse acerca do delírio propagandístico do governo de José Sócrates, a cerimónia que hoje teve lugar, de inauguração do renovado Túnel do Rossio, acabaria por dissipá-las por inteiro: quando um Governo promove uma cerimónia pomposa a propósito da abertura de um remendo de um equipamento público, tratando a dita obra como um acontecimento fulcral para o país, que se fica a dever à "visão" arrojada do Governo, fica evidente aos olhos de quem quiser ver o irrealismo do comportamento do Primeiro-Ministro, numa busca incessante de tempo de antena televisivo, na esperança de que, apesar da realidade concreta da vida quotidinana dos portugueses não ser a melhor, a propaganda lhe garanta uma nova maioria absoluta em 2009.
Posted by Bruno at 10:09 PM
fevereiro 15, 2008
Sinais
António Marinho Pinto, que há dias fazia um retrato negro e catastrófico da Justiça portuguesa e da corrupção na sociedade, reuniu-se com Pinto Monteiro, que há tempos falava de "feudos" na Procuradoria Geral da República e de escutas ilegais feitas pelo sseus próprios subordinados, e saiu dizendo que tinho visto "bons sinais" de que "as coisas" estão a melhorar. Um sinal do surrealismo que caracteriza a vida portuguesa hoje em dia.
Posted by Bruno at 10:01 PM
fevereiro 14, 2008
There Will Be Blood

Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é, nas suas próprias palavras, um "homem do petróleo", que "odeia toda a gente" e não quer que "ninguém tenha sucesso" a não ser ele. Depois de ser um solitário garimpeiro à procura de prata, Plainview conseguiu enriquecer, e agora, enquanto cria sozinho o seu filho pequeno H.W. (Dillon Frasier), procura e vende petróleo. Um dia, um jovem, Paul Sunday, (Paul Dano) vem dizer-lhe, a troco de algum dinheiro, a localização de um poço de petróleo por explorar em Little Boston. Aí, Plainview terá de lidar com a pequena comunidade da vila, e em especial com o outro irmão Sunday, Eli (também interpretado por Paul Dano), de forma a conseguir os direitos de exploração daquelas terras: Eli, pregador na Igreja da Terceira Revelação local, exige uma doação para a igreja, e Plainview, embora cedendo, não está muito disposto a cumprir a sua parte do acordo e gastar dinheiro num rapaz que ele parece odiar mais que que qualquer outra pessoa. No dia em que o poço vai começar a funcionar, Eli quer "abençoar" o poço, mas Plainview chama a irmã de Eli, Mary, em quem o pai costuma bater, e dá o nome dela ao poço, fazendo-lhe uma pequena homenagem e humilhando Eli.
There Will Be Blood tem sido muito comentado por causa da actuação de Daniel Day-Lewis. Day-Lewis tem alguma propensão para o over-acting, algo que me irrita particularmente. Mas também já fez papéis introvertidos e "frios" como por exemplo em Age of Innocence de Scorsese. E alguns papéis mais exagerados, como em Gangs of New York, só são assim porque é a personagem que o exige, porque é a própria personagem que é exagerada e larger than life. A sua interpretação em There Will Be Blood é um bom exemplo da sua capacidade: em certos momentos, o homem não podia ser mais histérico. Mas se isto fosse um sintoma de um over-acting puro, Day-Lewis estragaria todos as cenas dos minutos iniciais do filme (particularmente calmas), bem como as cenas mais "familiares" com o filho, o que não acontece. O ocasional exagero na interpretação de Day-Lewis é o exagero de Daniel Plainview, e quando Plainview está calmo, Day-Lewis "abranda" a sua interpretação, ao contrário do que, por exemplo, Sean Penn faria.
Mas se Day-Lewis tem sido a razão do falatório em torno do filme, o valor de There Will Be Blood está essencialmente no seu realizador, Paul Thomas Anderson. Nos primeiros minutos, o filme nem parece ser realizado por ele. Boogie Nights ou Magnolia, por exemplo, começavam logo a "rodar" a "100 à hora", esmurrando-nos permanentemente com informação acerca das personagens e pontapeando-nos com cenas de grande intensidade dramática do primeiro ao último minuto, num estilo scorsesiano de grande rapidez de montagem e câmara irrequieta. Como se escrevia na última Film Comment, There Will Be Blood é mais parecido com um filme de Kubrick, calmo, talvez até "parado" (praticamente não há diálogo nos primeiros quinze minutos), com muita atenção a ser dispensada a pequenos pormenores (veja-se o tempo que Anderson foca o incêndio no poço de petróleo, ou o petróleo a "brotar" do chão quando Plainview o descobre pela primeira vez), e a deixar o enredo desenvolver-se de forma muito lenta. De facto, Anderson parece ter querido fazer aqui o seu Citizen Kane (a última parte do filme, em 1927, e a casa em que esta se desenrola, são uma referência óbvia), mas acabou a fazer o seu Barry Lyndon, uma lenta e dramática história acerca de como um homem subiu na vida por causa de ser como é, e que caiu por ser como é, mas também, e acima de tudo, que caiu por não poder controlar tudo: veja-se, por exemplo, como tanto em Barry Lyndon como em There Will be Blood há uma criança a ter um acidente grave, em ambos os casos com um impacto decisivo no enredo.
"Há um pecador entre nós", diz Eli à sua congregação. Há sempre, nos filmes de Paul Thomas Anderson (em Magnolia, eles eram tantos que até caía uma chuva de sapos em San Francisco). O seu cinema é um cinema de pecado, castigo e redenção. No seu segundo filme, Boogie Nights (nunca consegui ver Hard Eight, o primeiro), seguimos a ascensão de Eddie Adams/Dirk Diggler (Mark Whalberg) como estrela do cinema pronográfico, até que se chega a 1980, e os problemas começam: o negócio começa a tornar-se mais difícil, quando o porno deixa de ser feito para o cinema e é transferido para os vídeos, Diggler começa a tomar drogas, Little Bill (William H. Macy) mata a mulher e suicida-se (numa cena que revela da loucura da vida que todas personagens levavam, um pouco como a cena de Joe Pesci e Michael Imperioli em GoodFellas), e Diggler abandona os seus companheiros. Todos eles pecaram, e todos eles terão de pagar por isso: Jack Horner (Burt Reynolds) deixa de poder fazer os "filmes a sério" que gostava de fazer; Amber (Julianne Moore) consegue "limpar-se" da droga, mas não consegue apagar o facto de ter estado dependente dela, e por isso perde a custódia do filho, tal como Buck (Don Cheadle), apostado em abrir o seu próprio negócio, vê um empréstimo ser-lhe rejeitado por ter estado ligado à indústria pornográfica; e o Coronel James (o financiador dos filmes) é preso por pedofilia. Alguns no entanto, redimem-se: Amber torna-se realizadora dos anúncios do negócio de Buck, Reed (John C. Reilly) torna-se um ilusionista, Roller Girl (Heather Graham) volta à escola, e Diggler volta a fazer filmes com Horner. Só o pedófilo continua preso, e a ser espancado na prisão.
Em Magnolia, Earl Partridge (Jason Robbards) havia cometido o pecado de abandonar o filho e a mulher, uma doente terminal de cancro, e como que por castigo, fica ele próprio a morrer de cancro; Linda (Julianne Moore), a sua segunda mulher, cometeu o pecado de o trair e de se ter casado com ele só pelo dinheiro, e como que por castigo, apaixonou-se por Earl só quando ele estava a morrer; Claudia (Melora Walters) toma drogas, leva uma vida sexual promíscua, e por isso, vive na solidão e em desespero; Donnie (William H. Macy) vive no passado, rouba o patrão para arranjar dinheiro para um aparelho nos dentes de que não precisa, mas que quer ter só porque o barman por quem se apaixonou tem um. Todos, de uma forma ou de outra, se redimem: Earl volta a ver o filho Jack (Tom Cruise); Linda, depois de confessar os seus pecados e querer renunciar ao dinheiro do marido, tenta suicidar-se mas sobrevive, e Jack vai ter com ela ao hospital; Claudia, por sua vez, encontra Jim (Reilly), um polícia que parece ir endireitar a sua vida e salvá-la. Os únicos que não se redimem dos seus pecados são (como sempre acontece nos filmes de Anderson) os que maltratam crianças: Jim Gator, o pai de Claudia que terá abusado sexualmente dela em criança, e que está a morrer com cancro, e o pai de Stanley, que aproveita-se da inteligência do filho para ganhar dinheiro num concurso, mas que é castigado quando o filho perde tudo ao forçar a interrupção do programa.
Até Punch-Drunk Love, à superfície uma bizarra comédia romântica, é um filme de castigo e redenção: Barry (Adam Sandler), para além de, "por vezes", não gostar muito si próprio, telefona para uma linha erótica, e como que por castigo, a rapariga com quem ele falou começa a ligar-lhe para casa e para o emprego a pedir-lhe dinheiro, e quando ele diz que não o emprestará, ela manda "os irmãos" para lhe darem um enxerto de pancada. Mas Barry encontra a sua redenção no amor(como o Buck de Boogie Nights ou a Claudia de Magnolia) de Lena (Emily Watson): ele tem "um amor na sua vida" que o faz "mais forte que tudo aquilo que se possa imaginar", desde espancar "os irmãos", confrontar as suas irmãs pela maneira humilhante como o tratam, e ir de LA ao Utah (não se sabe muito bem como) para dizer ao "Matress Man" (Philip Seymour Hoffman) para ele parar de lhe causar problemas. E nada disto, em nenhum destes filmes, acontece por acaso: como diz o narrador de Magnolia, pode parecer só uma coincidência, um puro acaso, coisas que, se as víssemos num filme, não acreditaríamos nelas. Mas nos filmes de Anderson, nada acontece por acaso, antes porque é assim que está destinado a acontecer: em Boogie Nights, Buck ganha o dinheiro para inciar o seu negócio na seuência de um assalto de que é vítima, por exemplo. Ele "merece" a "sorte" que teve, por ter constituído família ter deixado a pronografia para trás; em Magnolia, a chuva de sapos que lava os pecados de alguns não é "algo que acontece", e Jim não perde a arma por castigo, como ele próprio pensa. Perde-a para não poder perseguir o criminoso, que o poderia matar, e assim vir a servir de uma espécie de "agente redentor" de Claudia. Em Punch-Drunk Love, não faltam coisas bizarras: o erro de marketing que permite a Barry adquirir milhas aéreas grátis, o que faz com que ele possa vir a viajar sempre que Lena tiver de o fazer, como se esse erro de marketing acontecesse para que Barry pudesse nunca estar longe de Lena; e o harmónio (o "piano") que um táxi deixa no meio da estrada parece ser uma espécie de anúncio de que a vida de Barry vai mudar.
Em There Will Be Blood, não faltam pecadores, e o que acontece, se é por acaso ou coincidência, não parece: é sempre "o Senhor" que assim o quis. De Daniel a Eli, passando pelo pai Sunday, todos pecam: seja pela sua ganância, luxúria, inveja, violência, homicídio, abandono dos filhos, aproveitamento dos filhos, maus tratos dos filhos, apostasia, não faltam razões para estes homens serem castigados. Daniel, ainda por cima, comete o pecado de arrastar o seu filho para os seus próprios pecados. Todos estes pecadores, claro, terão o que merecem: solidão, violência, morte ou humilhação. E como em todos os filmes de Anderson, há uma espécie de redenção pelo amor. Mas, como Eli diz à sua congregação, "nem todos podem ser salvos", "só aqueles que aceitarem o sangue do Senhor". E como gente disposta a "aceitar o sangue do Senhor" não é coisa que abunde em There Will Be Blood, são muitos os que acabarão a derramar o seu, ou que, de uma forma ou de outra, ficarão arder no Inferno que eles próprios criaram.

Posted by Bruno at 05:34 PM
fevereiro 13, 2008
Inconvenientes
O Ministro da Justiça, Alberto Costa, achou por bem vir dizer que demitir o responsável da Política Judiciária, depois das declarações deste a propósito do "caso McCan", traria "mais inconvenientes" que soluções para qualquer problema que essas mesmas declarações tenham causado. Como seria de esperar, não especificou que "inconvenientes" seriam esses. Percebe-se. Quanto mais não seja, porque o único "inconveniente" que se vislumbra seria o de confirmar a impotência do Governo face à ineficácia do sistema da Justiça e à anarquia que reina no seu seio. O problema é que manter o responsável da PJ, depois daquelas declarações, tem o mesmo "inconveniente": mostra que a incompetência não é penalizada, e dá o sinal de que a irresponsabilidade passará impune, só porque o Governo não quer dar "parte de fraco", preferindo manter quem fala como se estivesse esquecido do lugar que ocupa.
Posted by Bruno at 03:46 PM
fevereiro 12, 2008
Only in America
Hoje realiza-se mais uma "ronda" das primárias norte-americanas, desta vez na Virginia, no Maryland e no District of Columbia. No campo Democrata, tudo parece estar em aberto entre Hillary Clinton e Obama, e no campo Republicano, McCain deseja parecer cada vez mais o candidato republicano à presidência, mas a presença de Mike Huckabee faz com que o debate tenha de continuar. Há algo em relação a estes dois candidatos que merece ser notado: é costume dizer-se que "na América", é o "dinheiro" que manda; o dr. Soares, por exemplo, acha que os EUA não são uma "verdadeira democracia", mas uma "plutocracia", em que a política se reduz à imagem e esta é tanto melhor quanto mais dinheiro um candidato tiver para gastar. Mas o que aconteceu nas primárias republicanas mostra como isto não é verdade. No Verão passado, McCain estava acabado, sem dinheiro, forçado a despedir parte do seu pessoal, e até a deixar de viajar no seu "Straight Talk Express". Passado alguns meses, está perto da nomeação. O único candidato que ainda se mantém na corrida contra ele, Mike Huckabee, nunca teve muito dinheiro, e também esteve perto de ter de desistir por falta de fundos. Mas continua em campanha, enquanto Mitt Romney, que dispunha da sua fortuna pessoal para financiar a sua campanha, foi ele sim forçado a desistir, por não ter conseguido obter apoio suficiente.
Apesar de ser comum ouvir-se dizer que numa campanha eleitoral americana, "só" o dinheiro interessa, é verdade é que só na América seria possível algo como o que McCain e Huckabee fizeram. Pois é o próprio sistema americano, com diferentes datas para as eleições primárias dos vários estados, que, ao "obrigar" os candidatos a passarem muito tempo de campanha em contacto directo (nas ruas e em sessões de perguntas e respostas com os eleitores)com pequenas fracções do eleitorado nacional, permite a candidatos com poucos meios, mas que conseguem estabelecer uma boa ligação com o eleitorado com que contactam, obter algo apoio inicial, que permite depois resolver o problema da falta de meios financeiros. Foi o que aconteceu com McCain no New Hampshire, e com Huckabee no Iowa: ao, durante semanas, contactar directamente com os eleitores do New Hampshire, McCain conseguiu, com a sua insistência em relação ao Iraque, convencê-los de que não se comportava como os outros políticos; Huckabee, no Iowa, sem muito dinheiro para anúncios televisivos, lá foi fazendo a sua campanha nas ruas, convencendo o eleitorado evangélico de que é "um deles". Em Portugal, onde o debate político se restringe à televisão, e o debate político que a televisão passa é diminuto, fenómenos como o de McCain ou Huckabee são muito difíceis de se verificarem. Em Portugal sim, a imagem é tudo. E como dinheiro não é muito, nem a imagem é grande coisa, quanto mais o conteúdo.
Posted by Bruno at 10:20 PM
fevereiro 11, 2008
Alegre e a Oposição (publicado no Insurgente)
De repente, Manuel Alegre transformou-se na mais destacada figura da nação. Durante toda a semana, discutiu-se a possibilidade do ex-candidato presidencial voltar a romper com o Partido Socialista, desta vez promovendo uma cisão, que presumivelmente impediria uma maioria absoluta socialista em 2009. Na sexta-feira, Alegre deu uma entrevista ao Público, onde deixou bem clara a insatisfação, já evidente no seu comportamento na Assembleia ao longo dos últimos meses, com a governação de José Sócrates. E este fim-de-semana, Manuel Alegre reuniu-se com os socialistas pertencentes ao seu “movimento”, que pretende agora transformar numa “corrente de opinião” no seio do PS, que discuta o que é “ser socialista hoje” e formas de “revitalizar” a democracia. Depois de lhe perguntarem se se candidataria à liderança do PS, Alegre garantiu que não. Horas depois, garantia que “se” os dirigentes socialistas “o desafiarem”, não se esconderá, mas que os enfrentará “no país”, e não onde o aparelho por eles dominado o possa controlar.
O discurso de Alegre, em si, nada tem de novo. Mas é tudo menos irrelevante. A sua importância não está no seu conteúdo, mas no facto de existir. A particular insistência de Alegre, e a forma agressiva como se pronuncia, mostram como a governação de Sócrates está dependente de uma frágil base de apoio social. Sócrates governa, em parte, com o “apoio” de gente que não concorda com a sua governação. Alegre manifesta-se (e manifesta-se assim tanto) porque sente que fala por muita gente a quem Sócrates deve o poder, porque sente que, se Sócrates cair, é por ali que cai, e que portanto, se quer sobreviver, tem que dar ouvidos a Alegre e à “corrente de opinião” que ele quer representar.
Este é mesmo o aspecto mais triste da realidade que a oposição de Alegre põe a nu: ele é a oposição. A atenção que, durante toda a semana, foi dada a uma reunião que juntaria alguns obscuros militantes socialistas, tudo porque um singular deputado os convidou a participar, só é compreensível à luz da total inactividade do resto da oposição: o PCP , apesar da força social que ainda vai tendo, não tem a simpatia das televisões; o BE, apesar da simpatia das televisões, não tem força social; o CDS/PP, apesar da hábil escolha de temas com que ataca o Governo, sofre com a sua pequenez e a falta de credibilidade de Portas; e o PSD opta deliberadamente por não fazer oposição (veja-se o Expresso desta semana). Manuel Alegre é, pura e simplesmente, o rosto da única alternativa a Sócrates que é oferecida aos portugueses. Todo o país é rosa: o governo é do PS, e a oposição também. À sua volta, está a irrelevância, o vazio ou o silêncio. E no espírito dos cidadãos, a resignação, a insegurança, e o sentimento de inevitabilidade do que está. É o pior que pode acontecer num país. Para governos e cidadãos.
Posted by Bruno at 04:40 PM
fevereiro 09, 2008
Estado De Alma

Arrasado, depois de uma tarde em arrumações.
Posted by Bruno at 10:18 PM
fevereiro 08, 2008
A Ler
O texto de Tom Bevan acerca das razões do falhanço de Mitt Romney:
"There were a number of factors that contributed to the failure of Mitt Romney's campaign. The first, and most obvious, is that Romney's initial year-long push to frame himself as a social conservative was undercut severely by his '94 run against Ted Kennedy and his '02 run for Governor. No one suffered as much from YouTube moments this year as Romney, and in addition to undermining his credibility on social issues they also stuck him with the reputation as a flip-flopper who appeared willing to tell audiences whatever they wanted to hear.
(...)Romney had always planned on shifting the focus from social issues to his business background, a transition that would have been much easier had he not lost Iowa. As it turned out, the calendar worked against Romney, as did the fractured and wide open Republican field. In the end, Romney ended up waging a two front war: fighting on social issues for the evangelical vote in Iowa against Huckabee to the very end, and battling on the economy and a message of change against a resurgent John McCain in a much more secular environment in New Hampshire.
Thus Romney's pivot came too late, and once again he was a denied a victory in New Hampshire by being matched against a more authentic candidate possessing a more powerful connection with the electorate. Despite the fact Romney was the Governor of neighboring Massachusetts for four years, or perhaps because of it, New Hampshire voters found McCain the more appealing choice, and with that vote the last vestige of Romney's early state strategy disintegrated.
(...)If Romney had run from the beginning on a message of competence, fiscal conservatism and national security instead of putting such a heavy emphasis on social issues - in other words if he had cast himself as a technocrat instead of a theocrat - Romney might have avoided the flip-flop label and found his message resonating with a wider swath of the Republican electorate."
Posted by Bruno at 10:36 PM
fevereiro 07, 2008
No Insurgente
Acrescento alguns comentários ao meu post de ontem. Nos comentários a esse meu texto (que também por lá publiquei) o leitor HO corrige um pequeno erro da minha parte, e acrescenta alguns comentários que merecem ser lidos.
Posted by Bruno at 10:38 PM
fevereiro 06, 2008
Estará Huckabee A Prejudicar Romney?
Uma das ideias mais repetidas na noite eleitoral americana de ontem, e nas análises feitas já hoje, é a de que Huckabee e Romney estão dividir o "voto conservador", o voto "anti-McCain", acabando assim por favorecer o senador do Arizona, e acima de tudo, prejudicar Romney, teoricamente o seu mais perigoso opositor. Se olharmos com um pouco de atenção para o que se tem passado ao longo de todo o processo das primárias, será fácil de perceber como é pouco provável que assim seja. Qualquer pessoa que tenha assistido aos debates entre os candidatos republicanos certamente notou a falta de simpatia que todos os candidatos nutriam por Romney. Nenhum outro foi tão atacado por todos os outros como Romney. Huckabee, em particular, não se cansa de acusar Romney de mudar de posições constantemente. Já para McCain, Huckabee só tem palavras simpáticas: diz que discorda quanto a isto ou aquilo, mas não hesita em dizer também que McCain é "um dos nossos", que tem um "record" conservador, e que Roney, esse sim, tem um passado "liberal" enquanto Governador. McCain é visto como um concorrente, Romney como um adversário. É visto com ódio e algum desprezo. Ora, se o candidato pensa assim, é natural que os seus apoiantes partilhem a sua aversão a Romney. É natural que tendam a preferir McCain a Romney, e não o inverso. Como nota Jay Cost, é precisamente isso o que acontece: "Huckabee voters have a +36% favorable rating of McCain, but a -4% rating of Romney", e na Florida, por exemplo, "Huckabee voters there claimed McCain as their second choice". Se há divisão de voto, e ela prejudica alguém, é a divisão do voto "anti-Romney" prejudicando McCain e Huckabee.
Veja-se o que aconteceu ontem em West Virginia: os apoiantes de McCain não o conseguiram colocar na segunda fase da votação, e em alternativa, fugiram todos para Huckabee, garantindo-lhe a vitória no estado. É óbvio que se pode argumentar que foi uma votação táctica, com o objectivo de derrotar o candidato que mais perigo causa a McCain. É verdade. Mas mostra como Romney é visto tanto pelos apoiantes de McCain, como pelos de Huckabee, como a pior alternativa possível: os apoiantes de Huckabee podem não concordar com McCain, e os apoiantes de McCain podem não concordar com Huckabee, mas ambos são reconhecidos como candidatos "honestos", e portanto preferíveis a alguém que tanto uns como outros vêem como um "hipócrita" à caça de votos, e que "gasta fortunas" em "campanha negativa" contra os seus próprios colegas (como Huckabee ontem dizia). McCain não está ser favorecido pela permanência de Huckabee. Se Huckabee tivesse desistido, McCain teria mais votos, e se McCain não estivesse na corrida (e não surgisse uma alternativa como os já afastados Giulani e Fred Thompson), talvez Huckabee pudesse ser o nomeado.
Há, no entanto, uma ressalva que devo fazer: na realidade, talvez o voto "anti-Romney" não se esteja a dividir. Se, como venho dizendo desde o primeiro debate republicano, Huckabee vier a ser o candidato a vice-presidente do nomeado (que será McCain), o voto "anti-Romney" não está partido ao meio. Um voto em Huckabee é um voto em McCain. Aqui sim, Romney tem "razão de queixa". Quando ele e o seu apoiante Rush Limbaugh atacam McCain e Huckabee pela sua "aliança", eles reconhecem que um voto em Huckabee é um voto contra Romney. De facto, a "aliança" McCain-Huckabee impede o sucesso de Romney, não por o voto em Huckabee ser um voto que, de outra forma, iria para Romney, mas sim porque qualquer voto em Huckabee ser um voto contra Romney, e que iria para McCain se Huckabee não lá estivesse.
Posted by Bruno at 07:40 PM
McCain E Os Republicanos
John McCain parece cada vez mais perto de vir a obter a nomeação do Partido Republicano como seu candidato à presidência dos EUA. No entanto, ao mesmo tempo que começa a surgir uma aura de inevitabilidade à sua volta, aumenta a animosidade de figuras populares no panorama conservador, como Rush Limbaugh ou Mark Steyn, contra o mais que provável rosto dos republicanos nas próximas eleições: afirmam não haver diferença entre votar em Clinton ou McCain, e acusam McCain de não ser um "verdadeiro conservador", mas um liberal que deveria estar no Partido Democrata. Como dizia ontem, na CNN, Bill Bennet, estas são as mesmas pessoas que passam a vida a elogiar o Democrata Joe Lieberman e a pedir-lhe que este adira ao Partido Republicano, e no entanto, Lieberman é mais "liberal" que McCain. É verdade que McCain votou algumas vezes contra a linha do seu partido no Congresso, mas, quer se concorde com ele ou não, ele fê-lo com argumentos "conservadores": ao criticar a subida da despesa nos tempos de Bush, ou ao mostrar-se contra uma emenda constitucional sobre o casamento homossexual, por esta violar os direitos dos estados federais, por exemplo. E em larga medida, McCain partilha com os seus colegas Republicanos o núcleo das crenças conservadoras na América: impostos baixos, despesas controladas, juízes que se limitem a ler a Constituição e não se ponham a alterá-la, livre comércio, política externa "dura", e (ao contrário de Giulani, por exemplo) é contra o aborto.
Por que razão é então McCain tão odiado por uma parte da base de apoio republicana? Como diz John Podhoretz, apesar de McCain não ser muito diferente dos seus colegas republicanos, ele gosta de parecer que é: McCain é um homem que é incapaz de usar "his own perfect pro-life record in the House and Senate to his own benefit in seeking support from Republicans who share his anti-abortion views", mas que não hesita em destacar as ocasiões em que foi contra o seu partido. É por isso que não gosto de McCain: não por não ser um fiel da linha do Partido Republicano (o Partido Republicano no Congresso, nos últimos anos, tem sido tudo menos recomendável), mas por construir uma imagem, de certa forma exagerada e falsa, de independência, que usa para se promover independentemente das suas ideias concretas. A persona política de McCain, nos últimos anos, é tão artificial como a de Obama ou de José Sócrates, por exemplo.
Mas a posição de McCain quanto ao Iraque, aos meus olhos, quase que o redime. Ao longo de anos, o homem insistiu sempre que a guerra era necessária, mas que precisava de mais tropas. Quando o envolvimento americano no Iraque estava mais impopular que nunca, McCain arriscou o seu futuro político ao insistir na sua posição. Quando o surge militar começou a ter resultados positivos, McCain surgiu como alguém que tivera sempre razão, mesmo quando ninguém acreditava nele, aparecendo assim aos olhos dos americanos como alguém em quem eles podem confiar. Com a sua posição quanto ao Iraque, McCain convenceu-me. Não de que eu estava errado acerca dele: McCain, durante anos, viveu exclusivamente da imagem artifical que criou de si próprio (o que não deixa de ser espantoso em alguém que é mau a discursar e em debates televisivos, mas talvez por isso mesmo lhe seja mais fácil esconder essa dependência de uma persona construída para o promover). Mas ao arriscar "perder uma eleição para não perder a guerra", McCain mostra que, when the going gets tough, ele é capaz de se concentrar no essencial, e arriscar perder a sua popularidade junto dos "independentes" para defender aquilo que acredita ser necessário para a América. Assim, não simpatizando com a figura de McCain, fui-me convencendo de que ele até poderia ser um bom presidente, e não apenas alguém cuja ambição na vida é aparecer no Jay Leno a mostra como é "diferente" dos outros.
Ainda para mais, parece mesmo ser o melhor candidato. Clinton e Obama defendem as políticas erradas. Romney, com as suas mudanças de posição e o constante recurso à demagogia (veja-se a sua eleitoralista exploração da questão da imigração) é incapaz de obter, da parte dos cidadãos americanos, a confiança de que está a fazer aquilo em que acredita, mesmo quando eles não concordam com ele. Huckabee, por sua vez, também não é estranho ao argumentário populista. Nele, no entanto, este parece ser genuíno, ele parece acreditar realmente no que propõe, e portanto seria mais tolerável que o insuportável Romney. Mas não conseguirá ser eleito, e caso fosse, algumas das suas declarações (quanto à política externa, quanto à imigração) fazem dessa possibilidade um cenário preocupante. McCain, esse, quer controlar a despesa federal, e ter impostos mais baixos. Até aqui, tem evitado o recurso à demagogia proteccionista que parece estar tão em voga do outro lado do Atlântico. Quanto à imigração, embora a sua política levante dúvidas razoáveis, (como as que Giulani levantou há uns meses num dos muitos debates que se realizaram) é em geral equilibrada, e ao contrário da histeria que abunda na campanha, não se esquece da importância da imigração para a economia americana (e claro, do poder de atracção do voto hispânico para o Partido Republicano, que a sua aprovação poderia ter). Quanto à política externa, é o candidato que melhor percebe o problema que a América enfrenta com o terrorismo, parece ter uma noção do que fazer no Iraque (por exemplo, num dos debates, explicou por que razão é absurda e perigosa a ideia de dividir o Iraque em três Estados), e o risco que correu ao defender o surge no Iraque mostra que não cairá na tentação de fazer a América regressar a um isolacionismo que só lhe seria prejudicial. E até a sua posição quanto ao "aquecimento global" é aceitável, se a ligarmos à necessidade americana de ultrapassar a dependência energética de potências que lhe são hostis. É claro que McCain não é perfeito: a sua lei do financiamento das campanhas eleitorais, por exemplo, não resolveu problema nenhum, e constitui, de facto, uma limitação da liberdade dos indivíduos; a sua fama de "falcão" faz com que momentos infelizes como o do "bomb Iran" possam vir a criar situações difíceis, se se repetirem com McCain na presidência. Mas que candidato a um cargo político é perfeito? Se for aos nossos olhos, certamente não o será aos do nosso vizinho. Reagan, por exemplo, também tinha os seus defeitos e não deixou de ser um bom Presidente por causa disso.
Posted by Bruno at 06:16 PM
fevereiro 05, 2008
Ginástica Económica
Este fim-de-semana, ouvi uma notícia que foi, infelizmente, pouco comentada. Digo infelizmente, pois ela diz bastante acerca do Governo, dos seus ministros, e do que eles pensam. Segundo o Secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, será realizada uma investigação a vários ginásios, por não terem "adequado os preços" dos seus serviços à descida do IVA sobre as actividades do sector. Imagino o choque dos senhores do Governo, perguntando-se "porque não baixaram eles os preços, se nós descemos os impostos?". Esta supresa apenas mostra a ignorância dos governantes acerca dos mecanismos básicos da economia: os preços não são estabelecidos em função dos custos do que é oferecido, mas em função daquilo que os clientes estão dispostos a oferecer por um determinado produto ou serviço. Por isso, se com um IVA superior, os clientes pagavam (vamos supôr) 50 euros pelo acesso a um ginásio, isso mostra aos donos dos ginásios que os clientes estavam dispostos a pagar 50 euros pelo seu serviço. Ao baixar o IVA, a única coisa que o Estado faz é diminuir os custos da oferta desse serviço, mas se os clientes continuarem dispostos a pagar os mesmos 50 euros, os donos dos ginásios não irão baixar os preços, pois a diminuição de custos possibilitará um aumento dos lucros. este resultado não é uma prova da "ganância" dos donos dos ginásios, mas a prova da ignorância dos ministros e Secretários de Estado.
Mas a indignação governamental mostra mais do que ignorância económica. Mostra bem o que vai na cabecinha desta gente obcecada com a saúde e o físico suado de quem massacra os seus músculos e o resto do corpo em horas de correrias e flexões. Veja-se a declaração de Laurentino Dias de que a investigação aos ginásios pretende verificar se "está a ser cumprida a lei da concorrência e dos preços, que devem ter uma fixação livre e não concertada": o Secretário de Estado do Desporto parece ver o exercício físico como um "bem essencial", como algo como a água ou o pão, em que se uns malvados capitalistas se juntarem poderão obrigar os incautos clientes a pagarem verbas exorbitantes, pois estes não podem dispensar o que eles têm para oferecer. Na realidade, a concertação de preços nos ginásios é uma ideia absurda, pois caso ela fosse feita, seria fácil escapar-lhe: bastaria às pessoas não se inscreverem nos ginásios.
Quanto menos indispensável for um produto ou um serviço, mais difícil será a imposição de uma concertação de preços. Por exemplo, se um doente cardíaco precisar de realizar uma operação ao coração, ele não pode dispensá-la, por muito altos que sejam os preços. Por isso, se houver concertação dos preços de uma operação ao coração (por exemplo, se o Estado monopolizar o financiamento dos hospitais com o dinheiro que tira aos contribuintes, ou se impuser a todos os seus hospitais taxas iguais por serviços iguais, de qualquer das formas impedindo que estes concorram entre si), esse doente terá de pagar o que lhe é pedido (seja em impostos ou em taxas pelo serviço), pura e simplesmente para não morrer. Por sua vez, se os ginásios fizerem concertação de preços, o indivíduo que deseja fazer exercício físico tem muitas outras soluções: pode ir correr para o parque ao pé de sua casa, pode praticar natação numa piscina, ou pode abdicar do exercício, que não também não vai morrer por causa disso. Como os ginásios estão longe de ser algo que as pessoas não possam dispensar, se uma concertação de preços os colocasse acima do razoável, ninguém a eles recorreria. O actual Governo está tão obcecado com o culto da saúde e do corpo esculpido pelo esforço, que pensa que não há forma de escapar a preços altos dos ginásios. Se tivessem um pouco mais de juízo, perceberiam que se os preços dos ginásios são o que são, não é porque as pessoas não consigam fugir a uma suposta concertação, mas porque estão dispostas a pagar o que lhes é pedido. E se percebessem minimamente os mecanismos do funcionamento da economia, também seria uma ajuda para evitarem estas figuras tristes. Assim, percebe-se bem por que razão tem falhado a ginástica económica que o Governo quer fazer com o país: os socialistas partem para o espaldar como se este se tratasse de um plinto. Pena é que quem se aleije seja a generalidade dos portugueses, e não apenas os esforçados ministros.
Posted by Bruno at 06:52 PM
fevereiro 04, 2008
A Ler
No Público de hoje, Sarsfield Cabral escreve sobre o clima de pessimismo que se vive na América. A este propósito, ficam aqui dois artigos que procuram mostrar que esse pessimismo é infundado: um de Michael Lind e outro de Peter Wehner e Yuval Levin.
Posted by Bruno at 10:30 PM
fevereiro 02, 2008
O Passado de Sócrates
Nos últimos dias, o Público publicou duas reportagens acerca do passado de José Sócrates: a primeira acusando-o de ter assinado projectos realizados por um indivíduo cuja função profissional o impedia de, legalmente, realizar esses mesmos projectos (como explica o João Miranda, sendo responsável pela sua fiscalização, não poderia ser o responsável pela sua elaboração), o que a confirmar-se, faria do actual Primeiro-Ministro um cúmplice de um desvio à lei; a segunda, publicada hoje, acusa-o de, enquanto deputado, ter recebido indevidamente um subsídio. Como Pacheco Pereira escreve no Público, Sócrates enfrentaria bem menos problemas se assumisse os seus "pecadilhos", pois "ninguém lhe pediria mais contas". Talvez, o que não elimina a gravidade das suspeitas acerca do passado do Primeiro-Ministro, pois elas confirmam, aos olhos da opinião pública, as suspeitas que muitos têm acerca dos "políticos" e do seu comportamento: o Presidente de República pode achar que nada disto é relevante, mas a descredibilização do Primeiro-Ministro arrasta consigo a descredibilização da classe política em geral, e o silêncio e a indiferença presidencial contribuem para a degradação da situação. Mas o mais grave de tudo isto é mesmo a forma como Sócrates reage. A mínima dúvida que se levanta acerca do seu carácter e do seu percurso é logo classificada como "um ataque pessoal motivado pelo ressentimento e pela mesquinhez". O Primeiro-Ministro acha que estas palavras fortes e o tom irado com que as profere o tiram da complicada situação em que se viu envolvido. Mas o problema é que o "ataque pessoal", longe de ser um exemplo de um "jornalismo reprovável", foi um trabalho feito como deve ser, que apresenta documentos, provas, e que levanta dúvidas que deveriam ser esclarecidas. Ao limitar-se a fazer um ataque, ele sim "pessoal", "mesquinho" e "ressentido" ao Público (denegrindo o trabalho dos seus jornalistas sem responder às questões por eles levantadas), o Primeiro-Ministro deixa a suspeição no ar. Os desmentidos de Sócrates ao jornal, como se pode ler na edição de hoje, deixam muito por responder e entram (como já acontecera com o caso da sua "licenciatura") em contradição com outras declarações e informações prestadas anteriormente. Como bem diz o Adolfo, ao desmentir de forma pouco satisfatória as acusações do Público, Sócrates faz com que o olhar inquisitório não se concentre apenas em eventuais ilegalidades cometidas no passado (já de si suficientemente graves), mas também (e essencialmente) na veracidade das declarações que hoje, como Primeiro-Ministro, faz aos portugueses. A coisa não vai acabar bem para ninguém.
Posted by Bruno at 10:11 PM
fevereiro 01, 2008
Já Nas Bancas
A Atlântico deste mês, com Rui Ramos a perguntar o que teria acontecido se D. Carlos não tivesse morrido, António Carrapatoso sobre os defeitos do "sistema" que mina a vida política e económica do país, José Lamego sobre a política externa defendida pelos vários candidatos à presidência americana, Paulo Rangel sobre os juízes na democracia portuguesa, Paulo Tunhas sobre a personalidade de Sócrates, João Marques de Almeida sobre a esquerda europeia, Vasco Pulido Valente sobre Fassbinder, e as habituais colunas de João Miranda, Bernardo Pires de Lima, Jorge Madeira, Tiago Galvão, Isabel Goulão, André Azevedo Alves, Pedro Sette Câmara, Bruno Garschagen e Pedro Boucherie Mendes. Este vosso rapaz escreve as parvoíces do costume.
P.S.: Fica aqui um agradecimento ao Pedro Picoito, pelas simpáticas palavras acerca do meu texto na revista.
Posted by Bruno at 10:36 PM