Escrito pela mão invisível de Bruno Alves. Comentários e opinião: alves.bm@netcabo.pt

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janeiro 31, 2008

O Sucesso de McCain

John McCain parece cada vez mais perto de se tornar o candidato republicano à Presidência dos EUA. Devo dizer que, independentemente das suas políticas, não simpatizo particularmente com McCain: faz demasiadas aparições no programa de Jay Leno ou no de Conan O'Brien, parecendo gostar demasiado de aparecer na televisão (algo de que se deve suspeitar), e fala demasiadas vezes em "unidade", um argumento demagógico que me irrita especialmente. No entanto, esteve certo desde o princípio na questão do Iraque (a favor da intervenção, mas querendo mais tropas), e não voltou atrás na sua posição quando isso lhe poderia ser mais vantajoso eleitoralmente, um comportamento que anula as reticências que os anteriores me provocam. Não simpatizando com o homem, tendo a concordar com o (pouco) que conheço do seu programa. Mas há algo que me interessa no sucesso que McCain tem tido recente. Por um lado, grande parte dele deve-se aos bons resultados que a sua política para o Iraque tem tido, prova de que um político que se mantenha firme nas suas convicções não está à partida condenado ao falhanço, de que não é preciso ser como o insuprotável Mitt Romney para se ganhar eleições. Mas acima de tudo, interessa-me outro aspecto: McCain é um dos políticos menos entusiasmantes que conheço. É mau a discursar, é enfadonho, "engasga-se". Ao lado de Bush (que proferiu alguns dos melhores discursos que já ouvi) ou de Huckabee, um génio do palanque, McCain parece um novato. E nos debates, como no de ontem, não é muito melhor. Atrapalha-se, repete a mesma coisa uma e outra vez, fala demasiado baixo e sem grande entusiasmo. E depois, parece velho e frágil (com setenta e tal anos, outra coisa não seria de esperar). Numa época obcecada pela imagem, em que a campanha Democrática se resume a uma discussão racista e sexista (qual a melhor raça para ganhar? Qual o melhor género para ganhar?), não deixa de ser refrescante ver um velho que mal consegue articular duas palavras como deve ser, conquistar o apoio de uma parte significativa dos americanos, por conseguir conquistar a sua confiança e a adesão deles às suas ideias. Quer venha a ser nomeado ou não, quer venha a ser eleito Presidente ou não, quer se concorde com ele ou não, o sucesso que McCain tem tido recentemente não pode deixar de ser encarado, por aqueles que vêm a política como um debate sério, como algo de positivo.

Posted by Bruno at 10:32 PM

A Ler

No blog da Spectator, o texto de James Forsyth sobre a situação militar no Iraque:

"The war in Iraq has dropped down the news agenda in recent weeks with all but the most determined opponents of the war recognising that the surge has worked militarily. Huge challenges, though, remain as Max Boot argues in the Weekly Standard. The surge has created the opportunity for success but it has certainly not guaranteed it.

As Boot notes northern Iraq now needs the same kind of security effort that there has been in Baghdad in the past year. With 61 percent of the violence coming from this region, its problems need to be dealt with before it endangers progress in the rest of Iraq. There also needs to be progress nationwide on reconstruction and making the government work for all its citizens not just its supporters."

Posted by Bruno at 10:25 PM

A Ver

No Quatro Caminhos, um vídeo do anúncio de Wes Anderson para a American Express.

Posted by Bruno at 10:23 PM

janeiro 30, 2008

O Desespero de Sócrates

Há algumas semanas, escrevi aqui que duvidava da possibilidade de José Sócrates promover uma remodelação no Governo. Parecia-me que a hipótese de a fazer o colocava perante um complicado dilema: ter de decidir qual o risco que estaria disposto a correr, entre o de manter Pinho, Lino, ou Correia de Campos, sob pena de estes pesarem demasiado nos resultados eleitorais, ou o de mantê-los, para que não admita nenhum falhanço (admissão que seria fatal para a sua imagem), nem fique sem o escudo das "gaffes" e a incompetência deste ou daquele ministro, que lhe permitem responsabilizar os seus subordinados por tudo que de menos "positivo" o governo tem, e guardar para si os louros da propaganda. Se o Primeiro-Ministro tivesse querido, como "mandam os manuais", "começar de novo" a caminho das próximas eleições, teria despachado ministros como Mário Lino ou Manuel Pinho. Não o fez, porque continua a achar que o escudo das suas "gaffes" é mais vantajoso do que o risco de admitir que errou ao chamá-los para o Governo. Mas se as gargalhadas sobre a "palavra" de Lino ainda levam algumas pessoas a pensar (ou pelo menos, Sócrates a pensar que algumas pessoas assim pensam) que "ainda bem" que é Sócrates quem "realmente manda", as declarações de Correia de Campos, desvalorizando os isolados mas trágicos casos de falhanço de prestação de cuidados de saúde, não permitiriam ao Primeiro-Ministro sair imaculado da confusão: ao dizer o que disse, a propósito da morte de uma criança, Correia de Campos não poderia ficar no Governo sem que Sócrates sofresse danos colaterais da ira contra o ministro. Por isso Correia de Campos foi demitido. Por o risco de o afastar e fragilizar a imagem de "firmeza" do Primeiro-Ministro ser menor do que o de o manter, e sofrer por isso nas próximas eleições (e, já que tinha de afastar Correia de campos, Sócrates aproveitou para afastar a irrelevante e levemente irritante Isabel Pires de Lima, chamando para a Cultura um representante do milionário do regime). Esta "remodelação" é, portanto, um acto de despesero do Primeiro-Ministro, algo que ele faz contra a sua natureza e a contragosto, uma inversão da imagem que ele gosta de passar de si próprio, e que ele só faz porque já não vê qualquer alternativa. Quando um Governo assente na propaganda inverte a "mensagem", é sinal de que está desorientado, que se quer manter agarrado ao poder mas que o sente a fugir (apesar da ajuda que é ter Menezes e Santana como rostos da alternativa). E se, porventura, Lino ou Pinho vierem a ser afastados antes de 2009, ficaremos a saber que o desespero de Sócrates terá aumentado.

Posted by Bruno at 10:37 AM

janeiro 29, 2008

Amanhã

Quero escrever algo sobre a "remodelação" de hoje, mas depois de ter apagado (sem querer) o que já havia escrito, fiquei sem grande vontade de repetir tudo outra vez. Aamnhã, fica aqui prometido, escreverei então o que penso acerca da demissão de Correia de Campos e Pires de Lima.

Posted by Bruno at 09:43 PM

janeiro 28, 2008

The Darjeeling Limited

the darjeeling limited

Convidados pelo seu irmão Francis (Owen Wilson), Jack e Peter Whitman (Jason Schwartzman e Adrien Brody) juntam-se a ele no comboio que atravessa a Índia (o Darjeeling Limited do título). Os irmãos não se falavam há um ano, e Francis quer levá-los numa "viagem espiritual" que lhes permita tornarem-se "próximos" novamente, para além de se reencontrarem com a sua mãe (Angelica Huston). Jack, desejoso de "fugir" da sua ex-namorada (a personagem de Natalie Portman na curta-metragem que antecede o filme, Hotel Chevalier), e Peter, em pânico por ir ser pai (ele "sempre" pensou que "acabaria por divorciar-se" da mulher, e "por isso, filhos nunca fizeram parte dos planos"), fazem companhia ao irmão, mas sem grande vontade: eles "não confiam uns nos outros", e nem a partilhada propensão para um exagerado consumo de medicamentos ajuda os irmãos a darem-se melhor.

Depois de escrever os seus três primeiros filmes com Owen Wilson, e o quarto com Noah Baumbach, Wes Anderson junta-se a Jason Schwartzman e Roman Coppola na elaboração do argumento de The Darjeeling Limited. Bottle Rocket, o seu filme de estreia, era uma extraordinária tentativa, para um novato, de fazer um cinema original. Para quem (como eu) o viu só depois de Rushmore e The Royal Tenembaums, é surpreendente como logo nesse primeiro filme Anderson cria um universo muito próprio, o ambiente onde vivem as suas personagens que seria a marca dos seus filmes posteriores. Era ainda um filme muito "juvenil", feito com muito poucos meios e visualmente muito rudimentar, ainda muito longe da elaboração que, a partir do segundo filme, Anderson iria desenvolver. Rushmore, o filme seguinte, era assombroso. Puro génio. A estranheza no comportamento das personagens, dos diálogos, vai muito mais longe do que no filme anterior, e o estilo visual de Anderson começa a tomar forma. Mas acima de tudo, Rushmore era perfeito na mistura do seu conteúdo dramático e profundamente amargo com um tom cómico em que tudo se desenrolava.

The Royal Tenembaums, não sendo o soco na cara que era Rushmore (era um filme bem mais "bonito" que Rushmore), foi aquele em que Anderson aperfeiçoou o seu estilo: o uso do slow-motion e da música, para ilustrar o estado de espírito das personagens, por exemplo, nunca foi melhor executado do que aqui (e só gente como Scorsese ou P.T. Anderson conseguem fazer algo assim); a elaboração dos cenários, com as suas cores, os adereços e as roupas das personagens, contribuíam para a estranheza do mundo andersoniano. E Tenembaums, não tão amargo como Rushmore, era o filme de Anderson que mais comove e diverte ao mesmo tempo. The Life Aquatic With Steve Zissou foi um risco. Não só era escrito com outro parceiro, como exigia meios que o poderiam tornar demasiado megalómano. À primeira vista, tendo-me parecido um excelente filme, pareceu-me também o mais fraco dos filmes de Anderson. Uma vez revisto, The Life Aquatic confirma o seu génio. Foi o filme da sua maturidade: terminada (com Tenembaums) a sua evolução, Anderson conseguiu com o seu quarto filme fazer algo de diferente, sem perder a marca autoral que deixara antes, sem deixar de fazer o que fizera até aí.

The Darjeeling Limited foi um risco ainda maior. A apetência de Anderson por um ambiente visualmente estilizado podia não ser compatível com o road-movie que o filme acaba por ser (Bottle Rocket também era uma espécie de road-movie, mas o estilo visual não era o que Anderson viria a desenvolver). Anderson deu à volta à coisa, não só fechando os três irmãos, grande parte do tempo, no seu compartimento do comboio, mas essencialmente ao usar a Índia como cenário: as paisagens, as pessoas, as roupas, o ambiente, contém "estranheza" suficiente para dispensar um grande esforço de Anderson (que se concentra nos pormenores da personagem, como os sapatos diferentes em cada pé de Owen Wilson, ou Schwartzman a andar descalço). No fundo, os autocarros quase desfeitos e os táxis perto de estarem a cair aos pedaços de The Darjeeling Limited poderiam aparecer em Tenembaums ou Rushmore, que ninguém notaria a diferença. Não tão "bonito" e comovedor como The Royal Tenembaums (mais próximo da amargura de Rushmore) e menos cómico que Rushmore, The Darjeeling Limited assemelha-se a Bottle Rocket, filmado com o estilo dos filmes seguintes.

Esta é aliás o grande valor deste filme. Mostra a "maturidade" de Anderson como cineasta, como ele parece seguro do que quer fazer com a sua obra, ao ponto de ser capaz de saltar uma Nova Iorque depois de um colégio privado algures na América, para um navio de documentaristas marinhos, e para um comboio indiano, ao qual os seus passageiros chegam sempre atrasados: por muito diferente que seja o cenário e o enredo dos seus filmes, Anderson consegue criar um ambiente sempre familiar aos que os conhecem bem. Tal como o Dignan de Bottle Rocket, o Max Fischer de Rushmore, ou o Chas de Tenembaums, Francis é um control freak obcecado com todos os pormenores do que está a fazer, desejoso de ajudar os outros (como Max acaba por ser, e Dignan é desde o princípio), mas também ele perto do esgotamento e da depressão (como são todas as personagens de Anderson). Tal como o Anthony e o Dignan de Bottle Rocket, o Max de Rushmore, toda a famíla Tenembaum ou Steve Zissou, os irmãos Whitman são pessoas atormentadas pela perda, receosos de as coisas não voltarem a ser como foram antes, pessoas à procura de uma família (real ou adoptiva), acima de tudo, pessoas com receio de não serem amadas. The Darjeeling Limited confirma Wes Anderson como um cineasta não só original, mas capaz de construir uma "obra" sem no entanto perder de vista a ncessidade de adaptar essa marca autoral às necessidades específicas de cada um dos filmes e ao seu tom particular. Por exemplo, a The Darjeeling Limited falta uma cena em que (como acontecia após a tentativa de suicídio de Richie em The Royal Tenembaums, ou depois de Steve Zissou chorar ao ver o tubarão-jaguar) um momento profundamente dramático é imediatamente seguido de uma piada, levando o espectador do choro ao riso de um segundo para o outro. Mas The Darjeeling Limited não tem uma cena assim, porque o tom do filme não seria compatível com ela. Por ser menos cómico que os outros filmes, The Darjeeling Limited não pode ter piadas a seguir a funerais de criancinhas indianas. Eu prefiro que os filmes de Anderson tenham cenas como essas, mas em The Darjeeling Limited uma cena assim seria demasiado forçada. Assim, aquilo em que este filme "perde" em relação aos outros é precisamente o que ele tem de importante, aquilo que mostra que Anderson, longe de se limitar a repetir uma fórmula, adapta o seu estilo às necessidades de cada filme, como consegue contar histórias diferentes, e de maneira dieferente, sem perder de vista aquilo que o torna a ele diferente dos outros realizadores. Tudo aquilo que tem de lá estar, está lá. Os temas de Anderson, como os atrás referidos, não são esquecidos: habitualmente, e os irmãos Whitman não são excepção, as personagens de Anderson acabam sempre por, de uma forma ou de outra, obter a redenção. Nem que seja apenas por deixarem umas malas de viagem para trás.

Posted by Bruno at 05:55 PM

janeiro 26, 2008

Um Dia Rebenta

Vive-se um clima pouco são em Portugal. O Primeiro-Ministro vai a Évora entregar computadores a um conjunto de pessoas, e é assobiado à entrada da cidade e no pavilhão onde se realizou a cerimónia. No entanto, para ele, tudo não passa de uma acção da CGTP, coisa a que ele está "habituado" e que até "faz parte" da "festa da democracia", e portanto, não lhe parece ser merecedora de qualquer relevância. Todos os dias, a Saúde oferece notícias que chocam o país: desde conversas telefónicas de vinte minutos em que os participantes não sabem quem deve responder à chamada de uma ambulância, a hospitais que enviam doentes para casa sem qualquer roupa no corpo. O Ministro do sector, embora só demagogicamente possa ser considerado culpado do sucedido, é no entanto culpado de mostrar uma inquietante indiferença perante a realidade, dizendo que não passam de casos isolados que não representam a regra do funcionamento do SNS: ficamos a saber que, para o Ministro, podem passar-se as maiores barbaridades, desde que elas não se tornem num hábito. O senhor Bastonário da Ordem dos Advogados, num belo dia, opta por fazer acusações genéricas de corrupção nos "mais altos cargos", algo que se tornou tão comum em Portugal, que já ninguém espera que daí se venha a descobrir quem pratcia essa corrupção, ou que o acusador venha a ser responsabilizado caso se comprove que tudo não passava de uma histérica declaração infundada. No entanto, houve quem lhe tenha atribuído grande credibilidade, e preparam-se inquéritos da Procuradoria-Geral da República (cujo responsável há tempos fez acusações semelhantes, de uma forma ainda mais irresponsável) e audiências parlamentares. Enquanto isto, o maior partido da oposição está entretido com a "novela mexicana" do conflito Santana/Menezes a propósito da "relação íntima" que Ribau Esteves quer que o PSD mantenha com um tal de Cunha Vaz. O ódio ao Governo cresce, o sentimento de insegurança e de falta de protecção dos cidadãos também, a confiança nas mais variadas instituições parece estar é beira do fundo do poço, o Governo parece desprezar toda e qualquer manifestação de desagrado, e o PSD parece indiferente a tudo isto. A cada dia que passa, o país sopra um bocainho mais de ar para o balão da crise e da revolta contra "isto". Um dia rebenta. O pior é que não se vê alternativa para quando isso acontecer.

Posted by Bruno at 10:10 PM

janeiro 25, 2008

Itália

E de repente, as coisas voltam a ser como eram: tal como há uns anos atrás, os governos italianos caiem mais depressa do que é humanamente possível dizer o nome do seu Primeiro-Ministro. Desta vez, foi Romano Prodi a não conseguir completar o seu mandato, e o parlamento proporcionou um degradante espectáculo ao qual só faltou uns murros e uns pontapés para colorir a festa. A familiariedade da coisa leva as pessoas a referirem o velho lugar comum de que, em Itália, sempre houve mais Governos num ano do que este tinha dias, e o país sempre "funcionou". Na realidade, não "funcionava". Deixou-se degradar o sistema político, a corrupção tornou-se endémica, e o "estado social" tornou-se insustentável. Só não se desmoronou, porque a demografia permitia manter a ilusão de que tudo aquilo se poderia manter. Hoje, essa "segurança" acabou. E a Itália precisa de reformas profundas. E não é com governos de 20 meses que elas se fazem.

Posted by Bruno at 10:04 PM

janeiro 23, 2008

Estado de Alma

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A atirar para o adoentado.

Posted by Bruno at 05:21 PM

janeiro 22, 2008

A Imprudência do Governo

Nos Estados Unidos, a sessão de ontem da Bolsa de Nova Iorque ficou marcada pela maior queda do valor das acções desde o 11 de Setembro, um "crash" que acabou por afectar restantes praças internacionais, e que provocou um acentuado clima de receio de recessão nos EUA, recessão essa que acabaria por afectar as economias europeias. No entanto, em Portugal, o Governo não está preocupado. Parece que, graças às maravilhas da sua acção, o "país está agora mais bem preparado" para uma crise como a que muitos temem estar à porta, garante-nos Sócrates. E o seu Ministro das Finanças assegura que "não temos de estar permanentemente a rever previsões" de crescimento. Aparentemente, se houver uma crise, estamos a salvo.

Não se percebe o que leva estes homens a dizerem semelhantes coisas. Presumo que sejam suficientemente inteligentes para compreenderem que, independentemente dos méritos (poucos) das suas políticas, independentemente de terem ou não preparado o país para semelhante crise (não prepararam), uma recessão nos EUA afectará a economia dos nossos parceiros europeus, o que por sua vez afectará as nossas exportações, sobre as quais assentavam as previsões (já de si muito optimistas) do Governo. Presumo que sejam suficientes inteligentes para perceberem que, se os EUA entrarem em recessão, as previsões do Governo não serão cumpridas.

Assim, este optimismo governamental só se compreende como instrumento de propaganda. O que, no entanto, não o torna mais compreensível. Perante tão sombrias perspectivas, as risonhas palavras do Governo poderão encontrar uma audiência pouco receptiva: as pessoas, se pararem dois minutos para pensar e olharem para a realidade, não aceditarão no que o Primeiro-Ministro lhes diz. E mesmo que acreditem, não se percebe o que leva Sócrates a seguir por esse caminho. Pois ele certamente percebe que o que ele diz não é verdade, e que quando a realidade bater à porta, quando Portugal for afectado pelo abrandamento da economia internacional, quando as delirantes previsões do Governo tiverem de ser revistas, quando os portugueses perceberem que as "reformas" socráticas não preparam o país para uma situação de crise, o clima de paz que ele agora compra terá de ser pago a dobrar. Que, à entrada de um ano eleitoral, uma eventual crise da economia internacional custará ao PS o apoio eleitoral das pessoas que ainda vão acreditando no que Sócrates lhes diz. O Primeiro-Ministro não lucra nada em esconder os perigos da conjuntura aos cidadãos. O problema é que Sócrates já está tão habituado a recorrer à propaganda sempre que vê num aperto, que não só não conhece outra forma de agir, como parece já nem ser capaz de distinguir a realidade da doce fantasia que criou a partir de São Bento. Só assim se compreende a imprudência de declarações como estas.

Posted by Bruno at 10:38 PM

janeiro 21, 2008

Enquanto Durão Prepara o Regresso, Talvez Não Fosse Má Ideia Lembrar o Seu Passado

Desde que se exilou em Bruxelas que Durão Barroso não pára de se promover em Portugal. E nas últimas semanas, a sua campanha eleitoral sabe-se lá para que ano ganhou novo ânimo: "fontes próximas" têm o cuidado de fazer relatos acerca de almoços com "amigos e ex-colegas", com citações de artistas brasileiros e recados vários, desde a suposta tentativa de "limpeza" da sua associação com o "santanismo", ao mais ou menos óbvio apoio às maquinações "barrosistas" contra Menezes e os seus fiéis. Talvez as notícias de que Tony Blair será o próximo presidente da UE tenham feito Durão pensar num regresso mais rápido a Portugal, talvez tudo não passe de uma tentativa de tornar "inevitável", aos olhos da opinião pública, a sua candidatura à presidência em 2016. Mas enquanto Durão prepara o dia em que se apresentará aos portugueses como um salvador da pátria saído do nevoeiro da política internacional, talvez fosse bom lembrar o seu passado em Portugal, razão mais que suficiente para duvidar da ideia de que ele é uma boa alternativa ao que anda por aí. Em dois anos de Governo, não fez nenhuma das reformas que declarou serem indispensáveis, exigindo "sacríficios" que não só não dispensaram o descontentamento popular, como também não trouxeram qualquer benefício a longo prazo para o país. Em 2004, descredibilizado, preferiu fugir para Bruxelas, entregando o país a Santana Lopes, contribuindo como poucos para a descredibilização de toda a classe política (tornando as reformas que ele próprio evitou fazer ainda mais difíceis de levar a cabo). Na "Europa", à procura de glória, foi um dos principais responsáveis pela condução da agenda do "Tratado de Lisboa", que para além de dar um palco à propaganda do Governo socialista (maisd concentrado nesses eventos no que da inversão do empobrecimento progressivo dos portugueses), e de dar à "Europa" um enquadramento institucional que ninguém sabe muito bem no que vai dar, contribuiu, com os esforços para não se realizar um referendo, para levar os dois principais partidos portugueses a quebrar uma promessa eleitoral, com a benção do Presidente da República e o patrocínio do "prestígio internacional" de Durão. Prestígio esse construindo sob a carcaça da credibilidade da classe política portuguesa, ferida por mais uma promessa que não passou da noite das eleições. Não é de espantar que Durão faça almoços em Portugal para se "reabilitar". Ele bem precisa.

Posted by Bruno at 05:22 PM

janeiro 19, 2008

Cubavisión

Nos últimos dias, tenho prestado alguma atenção a esse extraordinário canal de televisão que é Cubavisión. Temas de inegável interesse e relevância como o "bolivarismo", discursos de Hugo Chavez, e mensagens dos secretários dos comités de educação, saúde ou da rede eléctrica cubanas, todos fazem parte da fascinante oferta deste canal, ao pé do qual a nossa RTP é um exemplo de isenção e independência. Mas nada do que vi se compara àquilo com que me deparei há dias: uns desenhos animados em que George W. Bush, Presidente americano, não continha a sua ira perante o facto do sistema de saúde cubano estar a conquistar o mundo, e, armado com uma águia mecanizada, resolvia atacar Cuba. No entanto, graças às maravilhas do seu sistema de saúde, os cubanos eram dotados de sobrehumanas capacidades de visão, que lhe permitiam antecipar o ataque de Bush, e repeli-lo, humilhando o "Império" (estou a citar) e salvaguardando os cuidados de saúde aos cubanos. É primeira vista, o surrealismo da coisa ainda me fez rir um bocado, mas depois uma pessoa começa a pensar, e percebe a gravidade do que acabou de ver: para se perceber o que é viver numa ditadura comunista, basta sintonizar o canal 222 da rede digital da TvCabo.

Posted by Bruno at 10:16 PM

janeiro 18, 2008

Blasfémias

A rapaziada do Blasfémias viu o seu blog atacado, e o Blogger foi mais um obstáculo à resolução do problema, do que uma ajuda para lhe dar a volta. Este blog também já passou por isso, e também eu sei qual é o melhor caminho: deixar o Blogger, e arranjar um novo endereço.

Posted by Bruno at 10:29 PM

janeiro 17, 2008

A Importância da Moção de Censura

No debate de ontem na Assembleia da República, o Governo procurou defender-se da moção de censura apresentada pelo Bloco de Esquerda. Não defender-se no parlamento, pois a maioria absoluta do PS garantiria sempre que a dita não seria aprovada, mas junto da opinião pública, que ouviria os ecos da discussão. Para além de repetir os desonestos argumentos que já havia usado no anterior debate, José Sócrates (com a abnegada ajuda de Alberto Martins) quis apresentar-se como o defensor da democracia parlamentar representativa, perante o ataque supostamente desenvergonhado dos ferozes adeptos da demagogia e do populismo. Mas como os deputados do BE e do PCP bem disseram, o que estava em causa era precisamente a saúde da democracia parlamentar. A moção censurava, não a ratificação parlamentar do tratado europeu, mas o incumprimento da promessa "socrática" de realizar um referendo sobre o tema. Alberto Martins bem dizia que os deputados eram os representantes do povo. Mas esqueceu-se que todos aqueles representantes foram eleitos com programas eleitorais que prometiam a realização de um referendo. Falou muito da dignidade da instituição parlamentar. Mas que dignidade há naquela instituição, quando, dos 230 deputados que foram eleitos com um programa que prometia a realização de um referendo, só a pequena minoria de comunistas e bloquistas respeita o que prometeu? É certo que os representatntes não devem fazer sempre o que os representados querem, que o seu "dever" perante os representados é seguir a sua própria convicção (Burke dixit). Mas o que os representantes nunca devem fazer é desrespeitar o compromisso que estabeleceram com aqueles que votaram neles, quebrando a confiança que os representados neles depositaram.

É por isso que a moção de censura ontem apresentada pelo BE foi importante e louvável. Claro que as boas consciências notaram a irrelevância do exercício, pois contra uma maioria absoluta do PS, era impossível derrubar o Governo. Mas se sempre que um Governo desrespeita uma promessa eleitoral, a oposição o censurasse no parlamento, mesmo sabendo que nunca poderia ver essa moção aprovada e o Governo derrubado, talvez esse hábito se mantivesse quando não existem maiorias absolutas. E assim talvez os partidos tivessem mais receio em apresentar em campanha eleitoral propostas que não poderão cumprir no Governo, e os Governos se esquecessem menos das propostas que os seus partidos apresentaramn aos eleitores que neles depositaram a sua confiança. A moção de censura do BE, e os votos a seu favor do PCP, são um elemento positivo na introdução de uma cultura de responsabilidade dos deputados perante os eleitores, e dos Governos pelas propostas apresentadas em campanha eleitoral. E se os votos contra do PS nada surpreendem, mais grave foram as abstenções do PSD e do CDS. O CDS, ao reclamar o referendo, cumpre aquilo que prometeu em 2005. Mas ao abster-se na moção de censura ao incumprimento da promessa socialista, mostra-se indiferente perante esse comportamento, levando a crer que a defesa do referendo, longe de uma posição de princípio e de respeito pelo compromisso com os seus eleitores, não passa de uma oportunista jogada para se diferenciar do PS e do PSD. O PSD, por sua vez, fez exactamente o mesmo que o PS. Esqueceu-se do que prometeu em 2005, sob a liderança do mesmo Santana Lopes que dá a cara pela liderança de Menezes. O PSD não só se mostra indiferente (ao abster-se) perante a falta de vergonha do PS e o desrespeito socialista pelos eleitores, como partilha (ao quebrar a promessa eleitoral de apoiar a realização de um referendo) com os socialistas essa falta de respeito e essa falta de vergonha. Algo vai mal quando a verdadeira defesa da democracia parlamentar está apenas no BE e no PCP.

Posted by Bruno at 11:10 AM

janeiro 16, 2008

No Leitor de DVD

Deadwood season 3

Posted by Bruno at 09:56 PM

janeiro 15, 2008

Cassandra's Dream

cassandra's dream

Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farrel) são dois irmãos ingleses de classe baixa, a tentar subir na vida. Ian, que trabalha no restaurante do pai, anda constantemente envolvido em pequenos esquemas de negócios, à espera de uma grande oportunidade de dar o salto. Terry, mecânico de automóveis, prefere arriscar a sua sorte nas cartas e nas corridas de cães. Um dia, Terry perde demasiado dinheiro, e pede um empréstimo ao irmão, que por sua vez precisa de dinheiro para poder investir depressa nuns hóteis na Califórnia, para assim poder emigrar para lá com a sua nova namorada, Angela (Haley Atwell). Ambos decidem então recorrer ao tio Howard (o sempre competente Tony Wilkinson), um rico cirurgião plástico. Este, no entanto, enfrenta alguns problemas legais, e, em troca da ajuda financeira, propõe-lhes que eles matem o seu antigo colaborador que irá testemunhar contra ele.

Quando eu soube que Ewan McGregor e Colin Farrel participariam em Cassandra's Dream, tremi. O que é que teria passado pela cabeça de Woody Allen, ao chamar o simpático mas pouco hábil Ewan McGregor, e o ultra-cabotino Colin Farrel? Aparentemente, o que lhe passou pela cabeça foi a ideia certa. Aquele arzinho meio apatetado de McGregor, que já fizera dele o actor ideal para o papel que desempenhou em Big Fish, de Tim Burton, permite-lhe ser bastante convincente como o cegamente ambicioso Ian. E o cabotinismo de Farrel torna-o perfeito para o papel de um mecânico pouco inteligente, viciado em álcool e comprimidos e à beira da depressão. Woody Allen consegue até limitar o overacting que estragara um dos poucos papéis decentes de Farrel até aqui (em Phone Booth), também ele feito à medida do seu cabotinismo, mas, sob a direcção do insuportável Joel Schumacher, demasiado histérico. Para quem a viu na (fraquinha) série da BBC The Line of Beauty, Haley Atwell não é surpresa. Aquele sotaque derruba qualquer um, e com o seu ar de quem tem "sarilhos" escrito na testa, Atwell é perfeita para a espécie de femme fatale que é a sua personagem, uma reminiscência da personagem de Winona Ryder em Celebrity ou Christina Ricci em Anything Else.

Cassandra's Dream é uma variação de anteriores filmes de Allen, como Crimes and Misdemeanours (com a reflexão sobre a culpa, o mal e a capacidade humana para conviver com ele) ou o mais recente Matchpoint (na ideia de que muito na vida depende da sorte, que a existência humana é essencialmente arbitrária e sem sentido). Mas não consegue evitar a sensação de ser "apenas" um bom filme inglês, inspirado em Hitchcock mas sem o seu brilhantismo visual. Falta-lhe um carácter mais pessoal, falta-lhe "alma". A idade de Allen torna isto praticamente inevitável: está ficar velho para ser ele um elementos do interesse amoroso, e por isso tem de escrever histórias sobre outras pessoas. Em Anything Else e Scoop, Allen conseguiu dar a volta a esta questão, transformando-se numa excêntrica e improvável figura paternal dos mais jovens protagonistas (daí a importância destes dois subvalorizados filmes na filmografia de Allen). Não sendo uma comédia, esta solução não está disponível em Cassandra's Dream. Como em Interiors (filme que não sendo do meu particular agrado, é essencial para perceber a obra de Allen), Allen escreve sobre a vida de outros pessoas. Mas o facto de fazer filmes na Europa distancia-o demasiado. Interiors era um filme sobre nova-iorquinos (ou pelo menos, sobre a ideia de nova-iorquinos que os filmes de Allen propagaram). Assim, Matchpoint e Cassandra's Dream parecem demasiado frios, pouco próximos de Allen, por muito que os temas que ele explora nos filmes lhe interessem e sejam habituais nos seus filmes. O primeiro parece um Barry Lindon no séc. XXI, o mais recente um Hitchock de fim de carreira. Cassandra's Dream é um bom drama moral sobre o crime, a violência e a culpa, mas no conjunto da obra de Woody Allen, não deixa de parecer um corpo estranho.

Posted by Bruno at 05:11 PM

janeiro 14, 2008

Como De Costume, O Que Realmente Interessa Está A Ser Esquecido

Como bem explica o André Amaral, é um erro ficar satisfeito com o "recuo" do Governo quanto à localização do no aeroporto de Lisboa, transferindo-o da Ota para Alcochete. Pois a verdadeira questão não é a da localização do aeroporto, mas a da sua necessidade e a aplicação dos dinheiros públicos que o Governo se prepara para gastar na aventura. Mais importante que a questão técnica de onde ficará o aeroporto, é a questão política de se deve ou não o Estado gastar o dinheiro dos contribuintes numa obra deste tipo. Ao afirmar que um novo aeroporto de Lisboa é imprescindível ao desenvolvimento do país, o Governo revela que a sua proposta decorre, não de um imperativo técnico, mas de uma visão sobre o país, de um modelo de desenvolvimento, que no caso concreto, consiste em "investimentos públicos, que exigem mais e mais impostos" em detrimento de "contenção orçamental que permita os particulares fazerem os seus investimentos", para usar os termos do André.

Deveria ser esse modelo de desenvolvimento baseado na injecção de capitais públicos na economia para a estimular, essa opção política de usar o Estado como alavanca do desenvolvimento, os objectos de análise e discussão. Como escrevi aqui há já algum tempo, a decisão política de ser o Estado a comprometer-se com uma escolha que aparentemente ninguém quer fazer sem ele, numa altura em que, devido à dimensão daquilo que o próprio Estado já consome, retira aos seus cidadãos uma parte ainda maior dos seus rendimentos, desviando recursos que poderiam ser aplicados por eles e pelas empresas em actividades para as quais, ao contrário do no novo aeroporto (ou do TGV), haveria o seu interesse particular. Para além de que o Estado ficará comprometido com um encargo a longo prazo, comprometendo assim os cidadãos com um permanente aumento da parte da sua riqueza legitimamente adquirida a ser absorvida pelo Estado.

Esta é verdadeira questão. A necessidade ou não de um novo aeroporto é coisa para os técnicos. Esta questão é para todos os cidadãos. E perante ela, pouco interessa saber se é necessário ou desnecessário ter um novo aeroporto de Lisboa. Por muito necessário que ele possa ser (coisa que não sei avaliar), o que tenho a certeza é de que, pelo mero facto de ser o Estado a pagá-lo, ninguém está interessado nessa suposta "necessidade", a não ser que sejam os outros a pagá-lo, pelo menos em parte. As empresas que certamente lucrarão alguma coisa com essa decisão, apenas lucrarão, porque no fundo, estarão dispensadas de grande parte do investimento que ela implica. Ele só será lucrativo, porque uma parte significativa do investimento, e a garantia contra o risco que se corre, vem dos impostos daqueles que nada lucrarão com ele, e que poderiam gastar esse dinheiro em actividades nas quais teriam realmente interesse. E, como nota o André, o facto de, como de costume, a questão que realmente interessa discutir estar a ser ignorado pelos partidos políticos é apenas mais um sintoma da pobreza do nosso sistema político.

Posted by Bruno at 04:59 PM

janeiro 12, 2008

Em Leitura

Clint Eastwood Interviews

Posted by Bruno at 10:07 PM

janeiro 11, 2008

Sócrates e "Os Políticos"

Há dias, Sócrates disse aos portugueses que este ano seria "ainda melhor" que 2007. Mas para o Primeiro-Ministro, o ano não começou da melhor maneira. O recuo quanto à localização do aeroporto de Lisboa e a polémica em torno da não realização de um referendo sobre o Tratado de Lisboa trouxeram de novo ao de cima a arrogância do Primeiro-Ministro, e depois de dois anos a conviver com ela, já é maior o número de pessoas que começam a ficar fartas: o PS está a começar a descer nas sondagens. No entanto, a subida do PSD (algumas décimas), é quase insignificante. A explicação para este facto é simples, para quem tenha ouvido o Fórum TSF de há dias. Estando-se a discutir a quetsão do referendo, muitos se queixaram de Swócrates ter desrespeitado (mais) uma promessa eleitoral. Alguns dos participantes diziam ter votado em Sócrates, diziam-se arrependidos, e juravam não só não repetir "o erro", como não votar em "nenhum deles". O descontentamento com a governação de Sócrates está a tomar a forma de um descontentamento com toda a classe política.

Não é nada que não fosse prevísivel. Em Fevereiro do ano passado, escrevi-o aqui: a governação de Sócrates é mais danosa para a credibilidade da classe política do que foi, por exemplo, a de Santana Lopes. A governação de Santana foi bastante danosa para o PSD, ao descredibilizar quase por completo o partido, mas a sua incompetência foi tão evidente (e tão evidentemente vergastada pela comunicação social) que nem teve tempo de prejudicar o país. Já a governação de Sócrates custará ao país um preço bem mais elevado. Sócrates foi eleito por oferecer uma imagem de competência que contrastava com o "menino guerreiro" e os seus "estados de alma". Quando se tornar evidente que a "alternativa" supostamente "competente" não foi capaz de resolver os problemas do país, as pessoas irão ver esse falhanço como um sinal da falência de toda a classe política, pois "nem" Sócrates, com uma maioria absoluta, a compreensão do Presidente da República, a complacência da comunicação social e a passividade da opinião pública, terá sido capaz de fazer melhor que o fugitivo Guterres, o exilado Durão e o trapalhão Santana. Quando se tornar evidente que as "reformas" do Governo não trazem a "salvação" prometida, os cidadãos dificilmente estarão dispostos a dar o seu apoio a um outro programa político que exija outras reformas, que a curto prazo poderão ser ainda mais dificeís de suportar que os já custosos "remendos" promovidos por Sócrates. O Governo de Sócrates pode ser mais eficaz dos últimos anos, mas o preço que pagaremos pela sua acção será também o mais elevado. Os sinais já estão todos aí para quem os quiser ver.

Posted by Bruno at 10:20 PM

janeiro 10, 2008

Pelos Vistos, Enganei-me

Quando escrevi que o Governo iria manter a decisão de construir um aeroporto na Ota para a abandonar depois das eleições de 2009.

Posted by Bruno at 09:54 PM

janeiro 09, 2008

E As Eleições?

Um dos mais comuns argumentos contra a realização do referendo sobre o Tratado é o de que "as pessoas", não tendo lido o Tratado, não são capazes de se pronunciar sobre ele. Nada mais falacioso. Por essa ordem de ideias, como "as pessoas" não costumam ler os programas eleitorais dos partidos (e quem as pode culpar?), também não serão capazes de se pronunciar nas eleições legislativas. E por muito que isso talvez agradasse a José Sócrates, ainda não ouvi ninguém avançar com a hipótese de acabar com as eleições legislativas.

Posted by Bruno at 03:20 PM

Mas Governa Ou Não Governa?

José Sócrates prepara-se para anunciar que não haverá referendo ao "Tratado Reformador da UE". Como seria de esperar (e com toda a razão), já comecçaram as acusações de que Sócrates está a desrespeitar a promessa eleitoral de realizar um referendo ao Tratado. Certamente para se escapar a semelhantes críticas, Sócrates já pôs o spin em actividade: ele até queria que houvesse referendo, mas "pressões" (segundo o Público, de Brown Merkel e Sarkozy) forçaram-no a recuar. Assim, ficamos a saber que o "animal feroz" só o é cá dentro. E talvez lhe devessemos perguntar quem é que é o Primeiro-Ministro de Portugal: ele, ou Brown, Merkel e Sarkozy?

Posted by Bruno at 03:15 PM

janeiro 08, 2008

A Lágrima de Hillary Prejudica-a Por Ter Sido Genuína

O meu caro colega insurgente João Luís Pinto, embora não sendo um apoiante da sua candidatura à presidência dos EUA, é um fervoroso adepto de Hillary Clinton na corrida aos Oscars: Hillary terá deixado escapar uma lágrima furtiva ao responder a uma pergunta sobre as dificuldades que a sua campanha enfrenta perante a adesão a Obama, e, com a sua fama de mulher fria e calculista, Hillary não consegue evitar que a sua comoção seja vista como uma encenação para mostrar que ela "também é humana". Honestamente, aquela lágrima e a voz tremida que a acompanhou pareceram-me genuínas, o que, longe de "humanizar" Hillary, apenas a prejudica. Tudo porque ela "chora" por estar a perder a corrida eleitoral que julgava há anos estar ganha à partida, o que em vez de provocar a empatia dos eleitores, apenas acaba por lhes confirmar a ideia de que Hillary é uma mulher obcecada com o poder: ela "só chora" por perder eleições. Genuína ou encenada, a lágrima de Hillary é tudo menos uma ajuda à candidata.

Posted by Bruno at 10:24 PM

janeiro 07, 2008

Motivos

Segundo o que li no Cachimbo de Magritte (num post do regressado Paulo Gorjão), José Sócrates terá afirmado que tem "bons motivos" para "dizer" que "2008 será ainda melhor que 2007". O único "motivo" que ele tem para "dizer" isto é o facto de em 2009 haver eleições, e ter de "dizer" coisas destas até lá para manter a propaganda em movimento. Este "motivo", ainda por cima, é tudo menos "bom", mas o pior é mesmo a facilidade com que Sócrates faz afirmações destas, afirmações sem o mínimo de contacto com a realidade, e fazê-lo sem qualquer hesitação, por puro eleitoralismo e busca cega do poder pelo poder.

Posted by Bruno at 10:11 PM

janeiro 05, 2008

Já Nas Bancas

A Atlântico deste mês, com uma análise ao Orçamento de Estado deste ano por António Carrapotoso, Rui Ramos sobre o ano passado, um excelente artigo de Eduardo Cintra Torres sobre o anarquismo, o artigo sobre a ordem dos Avogados dos insurgentes Adolfo Mesquita Nunes e André Abrantes Amaral, uma entrevista de Bruno Garschagen a Olavo de Carvalho, Bernardo pires de Lima sobre o Kosovo, as colunas de João Pereira Coutinho, Adnré Azevedo Alves, Pedro Sette Câmara, João Miranda, Tiago Cavaco, Tiago Galvão, e Carlos do Carmo Carapinha. Este vosso rapaz escreve as parvoíces do costume.

Posted by Bruno at 09:54 PM

janeiro 04, 2008

Mudança (corrigido)

Realizaram-se ontem os caucuses no estado americano do Iowa, a primeira etapa das primárias das eleições presidenciais deste ano. No campo Democrático, Barack Obama conseguiu obter o maior número de votos, seguido de John Edwards que relegou Hillary Clinton para terceiro lugar. Do lado republicano, Mike Huckabee (o melhor orador destas eleições) foi o vencedor, derrotando o insuportavelmente eleitoralista Mitt Romney, apesar do elevado esforço financeiro deste na campanha no Iowa. As análises a estes resultados, pelos jornalistas e pelos vários candidatos, centram-se num aspecto: estas eleições teriam sido a demonstração de que o povo americano (ou pelo menos, o do Iowa) quer realmente "mudança". À primeira vista, parecem ter razão. Essa é a palavra que os vencedores (e os vencidos) mais utilizam nos seus discursos. Mas um olhar mais atento mostra que os eleitores do Iowa talvez apenas queiram aquilo que os americanos já queriam, pelo menos, desde 2000.

Os dois vencedores de ontem, Obama e Huckabee, são os mais parecidos com George W. Bush de entre todos os candidatos a suceder ao actual presidente. Ambos se apresentam, tal como Bush em 2000, como outsiders do "sistema" de Washington, políticos de "instinto" que querem "unir" a América, e sem grande experiência nível internacional. Huckabee herda, apesar do esforço de Romney em conseguir esse lugar, o lugar de Bush no campo de batalha republicano: é o antigo Governador de sucesso (como o foi Romney), com ideias socialmente conservadoras que agradam aos conservadores religiosos (que Romney só recente disse ser) e um "tipo simples" igual às "pessoas comuns" (coisa que Romney, filho de um antigo candidato à presidência, não pode dizer ser). Já Obama é o mais "bushista" dos Democratas. Não apenas pela falta de experiência internacional, mas essencialmente pela sua retórica: é extraordinário como o seu discurso da "esperança" e do "fim das divisões" ecoa o "uniter not a divider" de Bush em 2000, e como o seu discurso anti-"Washington" se assemelha ao de Bush quando se apresentava como um "ordinary guy form the good old state of Texas". Independentemente do que se pense acerca das políticas do actual presidente (algumas com que concordo, outras que detesto), viu-se como acabou o "uniter not a divider": quando teve de fazer escolhas difíceis, acabou por ser precisamente um "divider, not a uniter". Como afinal, todos os políticos têm de ser.

É por isso que Obama, independentemente do teor das políticas que propõe, é "perigoso". O que o está a catapultar é a sua retórica, e esta, por muito boa que seja (e é), acabará por se virar contra ele. Uma vez eleito, o homem da "esperança" e da "unidade" vai ter que desagradar a alguém, e aqueles que dele esperavam a receita para uma América sem disputas entre Democratas e Republicanos, conservadores e liberals, evangélicos e ateus, acabarão por se desiludir com ele. E como uma América como esta que os apoiantes de Obama sonham é impossível, ele não poderá fugir a este destino. Bush não conseguiu, e não foi por ser "estúpido", foi porque a realidade corre mais depressa. Por muito "simbólico" e "exemplar" do "sonho americano" que a vitória nas presidências de um descendente de imigrantes pudesse ser, a verdade é que a vitória deste descente de imigrantes, precisamente por causa da retórica em que assenta a sua campanha, acabaria por lançar os americanos, uma vez visível o irrealismo de uma tal "esperança" na "união", num clima de pessimismo só comparável ao do pós-Vietnam. Os que mais se entusiasmam com Obama são dos que mais desprezam Bush, mas, sem se aperceberem, estão a escolher precisamente o que de mais parecido há com aquilo que querem substituir: as políticas poderão ser diferentes, mas o resultado (a desilusão) será o mesmo. Com a agravante de que, depois de tantas esperanças depositadas em Obama, a desilusão seria muito maior e o clima de pessimismo posterior bastante mais difícil de superar. É pena que assim seja, mas uma vitória de Obama seria do pior que, a longo prazo, poderia acontecer aos EUA. Eu também "acredito na América", e no "sonho americano", mas este não "vai lá" só a falar-se dele. Precisa, na conjuntura actual, de políticas difíceis que implicam escolhas ainda mais complicadas de se fazerem, e o que Obama faz é levar a crer o contrário.

Posted by Bruno at 10:23 PM

janeiro 03, 2008

A Remodelação Esperada

Ciclicamente, os jornais começam a falar dela. Durante meses, especulam sobre os nomes de quem irá sair, e questionam-se acerca de quem irá entrar. Seja qual for o governo, e seja quais forem os seus resultados, a comunicação social, mais tarde ou mais cedo, quer discutir a "remodelação". A oposição, por sua vez, "pede" sempre que este ou aquele ministério seja "remodelado", normalmente por serem aqueles com menores indíces de popularidade, permitindo à oposição explorar o descontentamento com a acção desses ministros. Como António Barreto bem disse há umas semanas, não se percebe tamanha excitação. Ao contrário do que as oposições pensam, ou querem fazer crer que pensam, as políticas não vão mudar com a mudança de ministro, e se mudarem, isso é apenas um sinal da pobreza do sistema político pátrio (mostra que a acção dos governos não se orienta por um programa político coerente, mas pelas opiniões deste ou daquele protagonista ou por impulsos eleitoralistas). E se, normalmente, os jornais até podem encher algumas páginas com a coisa, e as televisões abrirem telejornais com os perfis dos novos ministros e as reacções (negativas) da oposição, desta vez deverão ter pouca sorte.

Ou muito engano (o que não é tão improvável assim), ou não haverá remodelação. Talvez Mário Lino saia, se for preciso alterar a localização do novo Aeroporto de Lisboa (outra coisa que não acredito que aconteça), mas ficará por aí. Outros ministros impopulares, como o da Saúde ou da Educação, são demasiado necessários à imagem de "coragem" que Sócrates gosta de propagandear, e portanto não poderão ser despachados, e ministros mais propensos a gaffes, como Manuel Pinho, ou a "trapalhadas", como o da Administração Interna ou o da Justiça, já teriam sido demitidos se isso incomodasse o Primeiro-Ministro. Na realidade, Sócrates é muito avesso a mudanças no seu governo. Campos e Cunha demitiu-se, não foi "remodelado". Freitas do Amaral manteve-se apesar de uma interminável sucessão de asneiras, e só saiu quando a sua saúde permitiu que ele saísse. E António Costa só abandonou o Governo porque "Lisboa" precisava dele.

Esta relutância de Sócrates em "remodelar" tem duas razões: em primeiro lugar, mudar um ministro, por razões que não de força maior, é uma admissão de falhanço, coisa que Sócrates, pela sua personalidade e elevada consideração que tem de si próprio, não pode fazer: a permanência de Freitas do Amaral, depois de tantas afirmações verdadeiramente escandalosas, seria compreensível se Sócrates concordasse com ele. Como Sócrates só concorda com o que dizem as sondagens, essa insistência em Freitas do Amaral só se pode compreender pela razão atrás apontada: Sócrates pensava que, para a sua imagem de "animal feroz", era preferível manter alguém que achava que um jogo de futebol entre a "Cristandade" e o "Islão" seria a chave para a paz no mundo, a demiti-lo e admitir o "erro de casting", como agora se diz. É por isso que penso que Mário Lino não sairá, como não sairão nem Correia de Campos nem Maria de Lurdes Rodrigues.

A outra razão dessa relutância em "remodelar" é ainda mais importante (para ele): Sócrates precisa de ministros que sejam alvo da ira e do desprezo populares. Esse é apenas um dos aspectos em que estamos cada vez mais parecidos com a Rússia: tudo o que de "bom" e "popular" acontece, é obra do benevolente czar que só quer o nosso bem; tudo o que corre mal é responsabilidade de conspiradores obscuros (os "interesses" que o Primeiro-Ministro, claro, "combate"), de características do povo (o "pessimismo" dos "velhos do Restelo"), ou por incompetência dos que servem o magnífico czar (os ministros). A incompetência ou propensão para o ridículo dos ministros são, para Sócrates, um escudo que o protege do descontentamento popular, e uma arma que ele usa para criar de si uma aura de indispensável ("imagine-se", quer Sócrates que nós perguntemos, o que seria um governo com Mario Lino, Manuel Pinho e Isabel Pires de Lima, sem a "sábia condução" do possuidor do "dom da ubiquidade" que, segundo Edite Estrela, é o Primeiro-Ministro). Claro que as eleições de 2009 introduzem um factor adicional a ter em conta: esse descontentamento que atinge alguns Ministros, mas do qal Sócrates tem estado isoldado, pode virar-se contra todo o Governo. Sócrates certamente teme isso. Terá, por isso de calcular qual o risco maior: manter Pinho, Lino, ou Correia de Campos, sob pena de estes pesarem demasiado nos resultados eleitorais, ou mantê-los, para que não admita nenhum falhanço (admissão que seria fatal para a sua imagem), nem fique sem o escudo das "gaffes" e a incompetência deste ou daquele ministro, que lhe permitem responsabilizar os seus subordinados por tudo que de menos "positivo" o governo tem, e guardar para si os louros da propaganda. A crer na acção de Sócrates, parece-me que ele prefere este último, e que por isso, os jornais terão de continuar à espera da tão aguardada "remodelação".

Posted by Bruno at 05:31 PM

Calendário Trocado

Gostava de saber por que triste razão a SIC Notícias resolveu repetir hoje, à hora de almoço, a Quadratura do Círculo da semana passada, em vez da ontem. É que não só fez com que eu perdesse o de ontem, como me obrigou a ouvir outra vez Jorge Coelho a explicar como Armando Vara é um profissional extraordinário, o que, se ouvido uma vez, até tem piada, à segunda já é apenas deprimente.

Posted by Bruno at 05:26 PM

janeiro 02, 2008

Estado de Alma

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Com a cabeça a doer.

Posted by Bruno at 10:31 PM