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julho 31, 2007
Lido
Posted by Bruno at 10:22 PM
julho 30, 2007
Esmurrando o Espelho
Luís Felipe Menezes não pára. Defendendo que o PSD desempenhe um papel de oposição permanente, que todos os dias apresente moções de censura ao governo na Assembleia, e que berre nas televisões fazendo o cuspo voar para o chão tantas vezes as que os telespectadores correrão a mudar de canal, o candidato à liderança do PSD tem-se mantido bastante activo, lutando por aparecer tantas vezes como figuras típicas da saison como Cinha Jardim ou Simão Sabrosa (rapaz que partilha com Menezes o gosto de chorar em público). Ontem, na Póvoa do Varzim, terá dito que não está "preocupado com os 200 barões do PSD", mas sim com "os 139 800 militantes" do partido que os tais "barões" supostamente tendem a ignorar. Repare-se como, entre a reunião do Conselho Nacional do PSD em que as directas foram marcadas e o dia de ontem, o PSD, segundo Menezes, passou de 120 militantes para 140 000. Mas mais do que este espantoso sinal da vitalidade do partido laranja, e mais do que um novo exemplo do que Pacheco Pereira tem caracterizado como a luta entre "os de cima" e "os de baixo" no PSD, estas declarações são um pequeno aperitivo do que seria e de como se comportaria um hipotético governo de Luís Felipe Menezes.
Hoje, Menezes berra contra os "barões", apelando ao ressentimento (quem sabe legítimo) dos "militantes de base". Amanhã, líder da oposição, e no dia seguinte, Primeiro-Ministro, Menezes falará dos "políticos", "deles", dos "privilégios" que supostamente mantêm enquanto "ignoram" o "povo" e as suas reclamações. No fundo, fará como Sócrates, que se atirou primeiro aos "políticos" ("eles", claro, não ele próprio, "impoluto", "sério" e "rigoroso" como o ensinaram a ser na UnI), antes de se atirar ao "povo" (fazendo "reformas" que, quer se concorde com elas quer não, foram impopulares numa significativa camada da população). É também neste aspecto que Menezes, como dizia o André Amaral há dias, será um Sócrates vestido de laranja: sendo alguém capaz de ser mediaticamente eficaz, promete tudo e seu contrário, usando o ressentimento de "uns" contra os "outros" como forma de se promover em ambos os sectores, apesar de os "atacar" a todos (no PSD não precisa destes cuidados, pois não tendo o apoio dos barões, pode atacá-los à vontade).
Mas se os militantes laranja estão, também eles, tão seduzidos pelo "animal feroz" ao ponto de quererem uma versão similar só sua, talvez fosse bom que pensassem duas vezes. Pois quando um político se serve da retórica "dos de baixo" contra "os de cima", do "povo" ignorado pelos "políticos", apenas está como que esmurrando o seu próprio espelho, não apenas ferindo os adversários que sonha desfazer, mas estilhançando a imagem que passa de si próprio. Pois, para "os de baixo", Menezes, autarca de Gaia, ex-Secretário de Estado de Cavaco, é tão "lá de cima" como Mendes. Para o "povo", Menezes é apenas mais um "deles", mais um "político" que apenas quer "poleiro". Parte do auditório pode deixar-se levar pela retórica excitada e pela gotinha de saliva raivosa que esvoaça ao sabor do discurso, mas outra parte apenas ficará um pouco mais convencida de que "os de cima" (entre os quais estará Menezes) apenas se preocupam com as suas fratricidas lutas por "lugares", e não com "o partido; apenas ficará um pouco mais convencida de que "os políticos" (entre os quais estará Menezes) não querem "saber" do "povo", estando apenas interessados no célebre "poleiro". A (muito) curto prazo, uma liderança de Menezes poderia ser eficaz para o PSD. Mas passada a euforia, logo o afundaria ainda mais do que já está.
Posted by Bruno at 04:27 PM
julho 28, 2007
Já Nas Bancas
A Atlântico deste mês, com uma reportagem do Paulo Pinto Mascarenhas em Jerusalém, artigos sobre as férias por vários dos colaboradores da revista, Henrique Burnay sobre a dificuldade de conduzir uma política externa comum europeia sem calar "as objecções" dos que não concordem com as posições dos restantes membros, um texto de Pedro Magalhães sobre as eleições em Lisboa, do André Azevedo Alves sobre a National Secular Society e a intolerância face à religião no espaço público, Nick Cohen (autor de What's Left?) em entrevista a Nuno Martins, um excelente artigo do Francisco Mendes da Silva sobre Blair enquanto estrela pop, e a crónica (com a qualidade habitual) do Tiago Cavaco. Este vosso rapaz escreve sobre o seu pouco entusiasmo em relação a "este país".
Posted by Bruno at 11:07 PM
julho 27, 2007
Debaixo da Areia
O país político prepara-se para entrar em férias. O país jornalístico, como é óbvio, também. O país civil, esse, já há muito que tem o pensamento no Algarve e nas contratações de pré-época dos "três grandes". Não há melhor altura do ano para o Governo fazer avançar leis potencialmente impopulares e medidas que possam fazer mossa à imagem do "animal feroz". Debaixo da areia das praias algarvias, pilhas de Diários da República podem publicar decretos que passem no segredo dos Deuses. Se há altura em que a comunicação social deveria estar atenta, é o mês de Agosto. Mas imagino que as aventuras de Elsa Raposo ou José Castelo Branco sejam uma maior prioridade para a comunicação social que estiver "no activo", nas próximas semanas.
Posted by Bruno at 10:08 PM
julho 26, 2007
A Arma dos Fracos
A meio da sua entrevista de ontem à noite, na SIC, o Primeiro-Ministro afirmou que pouco se importava com os "insultos" de que é alvo (o que não deixa de ser estranho, se tivermos em conta que o Primeiro-Ministro está permanentemente "chocado" com qualquer coisa, acha sempre tudo "inaceitável", e logo deixa vir ao de cima o "animal feroz" e mal-educado que é à mínima crítica que lhe seja feita), pois considera que o insulto é "a arma dos fracos". Provavelmente, foi o ministro Santos Silva que lhe escreveu a frase para ele dizer, mas para a próxima devia ter mais cuidado. Pois se levarmos a afirmação do Primeiro-Ministro a sério, e simultaneamente tivermos em conta a forma boçal e rasteira como o Primeiro-Ministro tratou as críticas de Manuel Alegre, tais palavras não foram muito abonatórias para o "animal feroz".
Posted by Bruno at 10:22 PM
julho 25, 2007
E Se Rui Rio Avançar?
Há muito que sou da opinião de que Rui Rio, devido à simpatia de que é alvo e ao prestígio que detém fora do PSD (na dita "sociedade civil"), é provavelmente o único hipotético líder do partido laranja que o pode reformar, de forma a conduzi-lo ao Governo e, uma vez, aí, reformar o país. Pois devido a esse prestígio que tem "fora" do partido, é o único que pode forçar mudanças no seu interior, é o único que, se quiser, pode dizer aos militantes mais imobilistas do PSD que aquilo que fizer, por mais que lhes custe, "tem de ser feito", pois é issso que "os portugueses" desejam. Devido ao prestígio que detém na tal "sociedade civil", Rui Rio é o único hipotético líder do PSD que pode fazer voltar as atenções do partido laranja para o país e os seus cidadãos, em vez de as manter concentradas na obtenção e conservação de empregos públicos e em empresas municipais.
É por isso com pena que vejo, mais uma vez, Rui Rio a ficar de fora de uma corrida à liderança do PSD. Mais uma vez, justifica-se com o seu compromisso com os eleitores portuenses. Logo vários comentadores apontam tal justificação como falaciosa, argumentando que a verdadeira razão da sua ausência está num cálculo político de Rui Rio, que consideraria que, tendo poucas hipóteses de ganhar a Sócrates em 2009, preferia esperar que o candidato derrotado nessas eleições caísse, para então tomar o poder no PSD e esperar que o Governo lhe caísse no colo depois na inevitável queda de Sócrates. A ser verdadeira, ou sendo encarada como verdadeira pela "opinião pública", esta ideia seria particularmente prejudicial à imagem pública de Rui Rio: instalar-se-ia na cabeça dos que simpatizam com Rio a ideia de que ele, como Durão Barroso, por exemplo, se deixa dominar pelos cálculos politiqueiros de quem só avança quando não corre riscos de perder. A sua imagem de um político "diferente dos outros" desapareceria mais rapidamente do que um emprego de alguém que critica o engenheiro Sócrates, e a sua capacidade de se impôr ao PSD como uma "exigência" da "sociedade" seria tão escassa como a vergonha do Primeiro-Ministro.
Mas se Rui Rio avançar, esse risco não desaparece. Pois ele tem boas razões para não querer abandonar a autarquia portuense antes do final do seu mandato. Se desrespeitar o seu compromisso com os eleitores do Porto, Rui Rio transmitirá a ideia de que, como Guterres (que se demitiu para poder limpar a sua imagem a tempo das presidenciais de 2006, infelizmente para ele, sem sucesso) ou Durão Barroso (que fugiu quando Bruxelas lhe acenou com um poder maior do que aquele que já detinha), Rio não estaria a seguir outro critério que não o da sua ambição pessoal, e que sendo capaz de desrepeitar um compromisso eleitoral no Porto para tentar ser Primeiro-Ministro, facilmente esqueceria um compromisso eleitoral nacional se um confortável exílio no estrangeiro lhe fosse oferecido. Ainda para mais, correria o risco de ser visto como alguém que, à semelhança de um Sampaio, de um Santana Lopes, de um Fernando Gomes, apenas usa uma autarquia para sua promoção pessoal. Avançando agora, Rio arrisca-se a perder a imagem de alguém que foi para a autarquia portuense para mudar a forma como esta funciona, e que poderia fazer o mesmo no PSD e no país.
No fundo, Rui Rio teve muito azar com o calendário eleitoral do PSD. Faça o que fizer, a sua acção poderá ser sempre interpretada como um exemplo de calculismo ou de ambição desmedida, o que em qualquer dos casos minaria a sua imagem pública, e consequentemente, a sua margem de manobra para vir a desempenhar um papel importante no país. O que deve fazer então Rui Rio? Já que se encontra encurralado do ponto de vista meramente táctico, Rui Rio deve abandonar por completo quaisquer considerações desse tipo. Ao contrário do que os "barrosistas" (gente de quem ele deve desconfiar) lhe poderão dizer, ele só tem a perder nesse campo. E sabendo que do ponto de vista "tacticista" não há qualquer diferença entre avançar agora ou depois de 2009, Rui Rio deve orientar a sua opção segundo um único critério: aquilo que considerar ser melhor para o país. Se achar que será negativo mais um detentor de um cargo público abandonar o seu posto antes do fim do seu mandato, contribuindo para a descredibilização da classe política, então, deve permanecer na Câmara do Porto. Se achar que tem um contributo importante a dar ao PSD e ao país, no sentido de reformar ambos, então, não deve hesitar em avançar. Provavelmente, e sensatamente, achará ambas as coisas. Restar-lhe-á então pesá-las, e ver qual a mais importante. Assim, se perder (perca agora, em 2009, ou depois), ao menos perderá com a consciência tranquila. Se ganhar (ganhe agora ou daqui a uns anos), terá força para fazer alguma coisa.
Posted by Bruno at 10:08 PM
julho 24, 2007
O Problema de Menezes
No Insurgente, o André Amaral escreve um interessante texto sobre Luís Felipe Menezes. O André nota, e bem, que Menezes, tal como Sócrates, é adepto de "um socialismo que se quer reformar, como única forma de se suster no mundo global." E diz também que "em termos puramente políticos, de mera luta partidária, ele é bem melhor que Marques Mendes. Mais acutilante, preciso e enérgico. Pode vir a ser um líder dinâmico", que "obrigue Sócrates a vir a terreiro e bater-se igual para igual, numa luta política que liquidará um deles." Esse é, do meu ponto de vista, o maior problema que uma vitória de menezes poderá trazer. Se Menezes ganhar, essa maior eficácia em termos de "mera luta partidária", por muitos lucros que possa trazer a curto prazo (se um Menezes "dinâmico" conseguir "liquidar" Sócrates), fará pagar um preço bem alto a longo prazo. Com Menezes, o PSD continuará a viver do Estado, e a depender da sua conquista para sobreviver. Continuará a cometer o erro de Durão e Santana, o erro de, não podendo dispensar os empregos que o poder oferece aos membros do aparelho, a orientar a sua acção governativa em função da sua conservação, e a encarar a oposição como um sacríficio, em vez de a aproveitar para pensar o que fazer quando recuperar o poder. Continuará, por não reflectir sobre o que país necessita, a não ser visto como credível pelos cidadãos. Uma liderança de Menezes não tiraria o PSD da rota do poder. O poder voltará a cair no colo do PSD, independentemente de quem o liderar e do caminho que o partido percorrer. Mas com Menezes na liderança, e mais ainda, com a herança que ele deixaria, o PSD teria muitas dificuldades em fazer algo decente com esse poder.
Posted by Bruno at 10:25 PM
julho 23, 2007
O PSD Em Crise
(já publicado no Insurgente)
Após a antecipação de eleições no PSD anunciada por Marques Mendes, era de esperar o início de um período de clarificação da situação interna do partido. Desde que tomou a liderança, Marques Mendes viu a sua condução política minada pelas críticas de Luis Felipe Menezes e pela ideia de que mais não era do que o um líder a prazo. Após o pobre resultado nas eleições intercalares em Lisboa, essas críticas iriam certamente tornar-se mais habituais, e essa ideia acabaria por se acentuar. Ao antecipar as eleições no seu partido, Marques Mendes tentava resolver o problema de uma vez por todas: se as ganhasse, arrumava os críticos de vez, se perdesse, deixava de ter de os aturar.
Adversários pareciam não faltar. Em primeiro lugar, Menezes já está em campanha interna desde que foi derrotado em Congresso por Mendes. Manuela Ferreira Leite, sempre vista como possível candidata, não pôs de parte a hipótese de avançar. E de José Pedro Aguiar Branco pareciam vir apenas sinais de vontade de ir para a corrida. Só Rui Rio disse não pretender participar na festa. Mas logo os restantes começaram a dar sinais de quererem seguir o seu exemplo.
Sob o pretexto de que queria que todos os militantes votassem, Menezes pretendia que o prazo para o pagamento de quotas dos militantes se estendesse até ao momento da votação. O Conselho Nacional do PSD, ontem reunido, rejeitou a hipótese, marcando as eleições para dia 28 de Setembro, e a data limite para o pagamento de quotas para dia 10 do mesmo mês. Para Menezes, isto é o mesmo que não deixar os militantes votar. E aparentemente o suficiente para fazer com que o autarca de Gaia não “salve” o PSD com a sua prestigiada figura. Aguiar Branco, por outro lado, também não avança, presumivelmente por, não tendo uma camapanha já na estrada (Branco não é um participante regular do “circuito da carne assada”), ser o mais prejudicado pela relativa proximidade do acto eleitoral. Mas se tem realmente um projecto que entende ser o melhor para o PSD e para o país, seria bem mais coerente, e digno de quem pretende vir a ser Primeiro-Ministro, avançar mesmo correndo o risco de perder. Assim, tanto Menezes como Aguiar Branco dão a ideia de quererem que Mendes fique ainda mais “queimado”, não estando dispostos a arriscar ficar na oposição, preferindo esperar até que o poder lhes caia no colo. Esse tem sido, aliás, o problema do PSD, o olhar para a oposição como um sacríficio, em vez de um período em que se prepara para assumir o poder e saber o que fazer com ele. E precisamente por isso, dificilmente passará por aí a solução.
Posted by Bruno at 06:41 PM
julho 21, 2007
A Ler
No Cachimbo de Magritte, os vários textos de Filipe Anacoreta sobre o CDS/PP e a liderança de Paulo Portas (o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto), para além do artigo do FCG sobre o terrorismo.
Posted by Bruno at 10:09 PM
julho 20, 2007
E Se Mendes Ganhar?
Escrevi, há dias, que Marques Mendes seria mais útil ao PSD se não se candidatasse. Dizia-o, não por menosprezar o actual líder do PSD, mas por achar que uma sua candidatura não só dividia apoios com uma candidatura com a qual se podia unir sem grande dificuldade, como lançava Aguiar Branco e os seus próximos nas mãos dos "barrosistas" companhia manifestamente indesejável. Mas candidatando-se, e preferindo em teoria uma candidatura do grupo de Aguiar Branco, Rio e Ferreira Leite, eu não veria com maus olhos a hipótese de uma vitória de Mendes. Como então escrevi, Mendes iniciou, embora tímida e inconsistentemente, um processo de mudança no PSD, procurando ser uma verdadeira alternativa ao PS e ao modelo de sociedade proposto pelos socialistas. As constantes divisões internas, no entanto, acabaram por minar esse trabalho, que ficou ferido de morte com a gestão pouco eficaz de alguns dos problemas que Mendes teve de enfrentar (sendo a questão da autarquia lisboeta o mais grave de todos). É verdade que a fragilidade da sua liderança foi notória ao longo destes anos. Mas se, mesmo assim, Mendes vier a derrotar os opositores internos, ganhará uma força que até aqui não teve. E se tiver percebido o problema estrutural que está na raíz da crise do PSD (ver post abaixo), e fizer uma campanha em torno dele, comprometendo-se com uma ruptura com tal estado de coisas, e mesmo assim conseguir ganhar as próximas directas, Mendes teria uma força e uma legitimidade para reformar o PSD que nenhum hipotético líder (excepto Rui Rio, que pelo apoio que tem fora do partido, é o único que se pode impôr internamente como uma "reclamação" da sociedade, com a força da sociedade, e não apenas com a do aparelho) teria depois destas directas. Os que proclamam já a morte política de Mendes talvez fizessem bem em parar para pensar um pouco.
Posted by Bruno at 10:31 PM
Sobre A Crise do PSD
A muito comentada crise do PSD tem pouco a ver com os resultados eleitorais em Lisboa (um acidente de percurso devido à divisão do voto com Carmona), nem se deve apenas aos arrufos de Mendes e Menezes. Ela não é uma crise "conjuntural", mas sim "estrutural", algo inerente à natureza do PSD, ao seu "código genético" e à maneira como o partido vive no ambiente político português. os anos de ocupação consecutiva do poder nos anos 80 e 90 transformaram o PSD num partido de dependentes do Estado. Fora do poder, não há lugares para distribuir. Sem lugares para distribuir, o partido não serve às barvas gentes que anseiam por lugares nas repartições públicas. E sem elas, o partido não existe. Fora do poder, hiberna. E em hibernação, não pode fazer verdadeira oposição ao governo, não pode preparar convenientemente o seu regresso ao poder como alternativa ao PS. Assim, quando o poder lhe cai no colo (como caiu com Durão), o PSD anda à deriva, à procura de descobrir o que fazer, tentando não largar o poder que com tanta sorte lhe foi parar às mãos. O resultado é, obviamente, a desgraça (como foi com Durão e Santana), e a descredibilização que a acaompanha e que atira o PSD de novo para a oposição e para a hibernação. A crise do PSD decorre da sua incapacidade de existir fora do poder, de tal maneira se tornou dependente dele, dependência essa que acaba por tornar a sua recuperação ainda mais difícil e frágil. A crise do PSD só se resolve quando o partido quiser deixar de ser dependente do Estado, quando quiser deixar de querer o poder apenas para sobreviver, e o queira para o usar com ambição de reformar (e aligeirar) o Estado. Até lá, terá bem mais com que se preocupar do que com fracos resultados eleitorais em Lisboa.
Posted by Bruno at 10:12 PM
julho 19, 2007
Desabafo
Poucas coisas são tão penosas de assistir como as intervenções do Primeiro-Ministro nos palcos internacionais.
Posted by Bruno at 10:53 PM
julho 18, 2007
As Pernas Curtas da Propaganda
O Público de ontem trazia nas suas páginas uma notícia interessante, naquilo que mostra acerca da qualidade da acção do actual Governo. Aparentemente, a redução do défice conseguida pelo Governo foi obtida graças a uma obtenção de receitas fiscais que compensou a derrapagem orçamental ao nível da despesa. As despesas com pessoal e a despesa corrente foram superiores ao previsto no Orçamento de Estado, o que não só demonstra como o Governo mente quando afirma estar a controlar o défice "pelo lado da despesa", como mostra que o resultado da sua governação é apenas o empobrecimento generalizado da população. Pois não só depende de um aumento de impostos para alimentar o "monstro" já existe, como, ao não promover o seu emagrecimento, agrava os custos que a sua futura alimentação terão nos próximos anos. O Governo, ao não reformar efectivamente a máquina do Estado (o que nunca poderá fazer se não mudar a própria natureza da máquina estatal e das suas funções, coisa que não quer fazer), não está apenas a adiar a resolução dos problemas. Agrava-os, e torna-a a sua resolução cada vez mais difícil.
Posted by Bruno at 11:08 PM
julho 16, 2007
A Corrida Errada
Marques Mendes antecipou as eleições directas do PSD, e irá enfrentar, em princípio, a oposição de Luís Felipe Menezes e José Pedro Aguiar Branco. Infelizmente esta corrida a três não é a mais indicada para resolver os problemas do partido. Há um candidato a mais, Marques Mendes, e um a menos, Morais Sarmento. Não me interprete mal, caro leitor. Simpatizo com Marques Mendes (que iniciou, timidamente e inconsistentemente é certo, mas iniciou, um processo de mudança no PSD), e não tenho qualquer consideração por Morais Sarmento. Mas se Mendes optasse por não se candidatar, e Morais Sarmento, em vez de apoiar Aguiar Branco, se candidatasse, haveria finalmente uma clarificação no interior do PSD, que assim ficará mais uma vez adiada. O leitor saberá que vejo com bons olhos uma candidatura à liderança do PSD por parte de alguém do grupo de Ferreira Leite, Borges, Rio, Bleck, etc., como será a de Aguiar Branco. Por isso lamento que ela surja com o apoio (e na dependência) dos "barrosistas", esse estranho grupo de individualidades que se destacam pela vontade de poder, pelo espírito conspirativo e pela irrelevância do que dizem.
Uma corrida entre Aguiar Branco, Sarmento e Menezes seria uma corrida entre a ala mais aberta à reforma do partido e do Estado (na pessoa de Aguiar Branco), o populismo santanista que se cola a Menezes, e o tacticismo político da geração dos corredores e das assessorias que os "barrosistas", de Arnaut a (Miguel) Relvas passando por Sarmento tão bem representam. Os "mendistas" seria, em tal cenário, o grupo que acabaria por decidir a eleição, muito provavelmente para o lado de Aguiar Branco (como o grupo deste decidiu a eleição de Mendes contra Menezes). Tal como as coisas se apresentam, dois grupos que facilmente se poderiam aliar (o de Mendes e o de Branco) irão dividir votos nas próximas eleições, e Aguiar Branco, que talvez saia vencedor, ficará dependente dos ex-"aguadeiros" do actual presidente da Comissão, refém de quem vê a política como um mero jogo de futebol em que apenas o resultado interessa (e se isso já é mau no futebol, é péssimo para a política), o que se costuma traduzir em resultados péssimos.
Posted by Bruno at 10:21 PM
Este Não Me Importava Eu De Ter Como Presidente Da Câmara
Posted by Bruno at 12:21 PM
A Toda a Hora
Segundo na imprensa de hoje, o recém-eleito António Costa assegura aos velhinhos de Cabeceiras de Basto que tanto festejaram a sua vitória de que não fará qualquer coligação com os candidatos derrotados, procurando "acordos pontuais" que permitam aprovar as suas propostas. Vejamos quantos "acordos" António Costa fará com Carmona Rodrigues, e o quão "pontuais" serão: provavelmente, como os sinos da Igreja, a toda a hora.
Posted by Bruno at 12:09 PM
julho 15, 2007
Quatro Anos
Este blog faz hoje quatro anos, o que não abona muito a favor da minha capacidade de interacção social. Provavelmente, ainda fará mais, o que demonstra que não devo melhorar nos próximos anos.
Posted by Bruno at 08:23 PM
julho 14, 2007
As Eleições de Amanhã
Amanhã é dia de eleições em Lisboa. Ninguém quer saber, e com razão. A autarquia lisboeta tem dois problemas essenciais. A sua grave crise financeira, e a total ausência de governabilidade, quer a dos últimos dois anos, quer a que se prevê para os próximos. Sobre o primeiro tema, os candidatos pouco mais fizeram do que propôr que as dívidas aos actuais credores da Câmara fossem pagas através de empréstimos contráidos na banca, o que não resolve o problema da dívida, apenas a transforma em dívida de longo prazo. A total insustentabilidade financeira da Câmara foi assunto em que nem sequer tocaram. Preferiram antes propôr grandes "ideias de cidade", grandes reconversões urbanísticas e novos planos para "devolver Lisboa aos lisboetas". Mas para além de faltar à autarquia dinheiro que financie os projectos dos doze candidatos, falta também margem de manobra. Dificilmente sairá de amanhã uma liderança com maioria absoluta. E mesmo que, por Obra e Gaça Divina, António Costa a consiga, terá de lidar com uma Assembleia Municipal de maioria laranja. E a mais que certa ingovernabilidade da autarquia nos próximos dois anos foi outro problema que todos preferiram ignorar. É claro que costa disse, incessantemente, que para a evitar, era preciso a maioria absoluta. Mas nunca disse o que pretenderia fazer caso não a obtenha, e nunca reflectiu publicamente sobre as implicações que essa ingovernabilidade terá nos próximos dois anos. Ninguém quer saber das eleições de amanhã, e têm boas razões para isso: os candidatos parecem não querer saber dos próximos dois anos.
Posted by Bruno at 10:04 PM
julho 13, 2007
A Ler
O artigo de Gerard Baker no Times, sobre o actual momento político nos EUA, em particular a asneira que se está a preparar para o futuro do Iraque:
"The most depressing spectacle is unfolding over Iraq. Washington has reached the stage where vital national interests – and the security of much of the world – are being determined almost entirely by immediate, panicky political considerations. Americans want their troops home.
It’s a wholly understandable sentiment. But it is one that needs to be resisted, not massaged and nurtured, as members of Congress from both parties have been doing.
Despite the picture of unrelenting gloom that fills television screens, there is growing evidence of progress in Iraq. In Anbar province, once the seedbed of Sunni extremism, peace has descended, as local tribal leaders have allied themselves with the Americans to defeat the hated al-Qaeda. There are signs that something similar is happening in troubled Diyala. Baghdad remains volatile and violent. But the “surge” of US troops launched earlier this year has only in the past few weeks reached its peak.
(...)If the 160,000 US troops now keeping fissiparous components of Iraqi society apart were to leave, imagine the consequences. The sectarian bloodletting would eclipse even the tragedy we have witnessed so far. Islamist extremists would seize on their victory to push their creed with ever more gusto. Iran, Syria and Turkey and perhaps Saudi Arabia would pick eagerly over the rotting carcass of a nation.
Some halfway house measure, currently the popular – and therefore the favoured – approach in the US, whereby American forces would be reduced and confined to a more limited role would actually be even worse. It would lead directly to the spectacle of US troops standing by while the killing intensifies around them.
It is cruel and unfair, of course, that because of the Bush Administration’s ineptitude over Iraq, the US now confronts this unenviable choice – stay and suffer the heartbreak of many more American losses, or leave and ignite a conflagration across the region. But wishing away the hubris and errors of the past five years is not an option. Substituting a suddenly chastened humility for the unheeding arrogance will compound the errors, not eliminate them.
Few politicians are willing to stand up and make this case. Democrats almost to a man and a woman want to exit quickly; growing numbers of Republicans are ready to follow suit."
Posted by Bruno at 10:21 PM
julho 12, 2007
Sem Saída
O Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, afirmou que "qualquer atraso ou prolongamento" na definição do estauto do Kosovo (ou seja, da sua declaração de independência) "terá um impacto negativo" nas negociações com a Sérvia. Ki-moon está acima de tudo preocupado com uma "prematura" declaração unilateral de independência por parte dos albaneses do Kosovo, que no seu entender surgiria caso a província não se separe da Sérvia. Aliás, a possibilidade do Kosovo se manter como parte integrante da Sérvia não está sequer em cima da mesa. Mas se é verdade que tal cenário acarretaria enormes problemas para o a região, a verdade é que a independência kosovar também não estará isenta deles.
Apesar da sua maioria étnica albanesa (muçulmana), o Kosovo sempre fora parte integrante da Jugoslávia, enquanto província da Sérvia. Tito dera alguma margem de autonomia ao território, mas nunca o Kosovo constituiu uma república da estrutura federal jugoslava. Por isso, e ao contrário da Bósnia, era díficil aos EUA e aos países da UE aceitarem a sua independência, como aceitaram a da Bósnia (a Rússia não tinha esses problemas. Limitava-se, como sempre, a apoiar a Sérvia). Para Milosevic, a maioria albanesa do Kosovo merecia o mesmo destino que quis dar aos bósnios muçulmanos, a cisjene (limpeza) que logo aplicou. Quando os massacres como o de Drenica começaram em 1998, tentou-se evitar uma escalada de violência, entregando a província de maioria étnica albanesa ao controlo da NATO por três anos, altura em que se realizaria um referendo sobre a sua eventual independência. A Sérvia de Milosevic, obviamente, recusou a oferta, e os EUA e os seus aliados na NATO levaram a cabo a campanha aérea contra a Sérvia. O primeiro resultado da campanha foi o aumento da violência étnica contra os kosovares albaneses. O segundo foi a triste figura dos jornalistas europeus ao aceitarem ser porta-vozes da campanha de propaganda de Milosevic, usando alvos na lapelas. O terceiro foi a desistência de Milosevic. Resultado que não obteve foi a solução para o problema kosovar.
É verdade que o exército sérvio foi expulso da província. Mas província o Kosovo continuou a ser, sob administração da ONU e protecção da missão KFOR, que se entretém a tentar impedir represálias da população albanesa contra a minoria eslava (nem sempre com sucesso) e a desencorajar a Sérvia de os ir proteger, sem que consiga fazê-la esquecer as suas pretensões de soberania na província. Tal como o plano rejeitado por Milosevic, a tarefa da ONU no Kosovo não tem sido "resolver" o problema, mas impedir que os nativos o "resolvam" da maneira tradicional da região.
Esse tem sido, aliás, o principal mérito do protectorado da ONU: impedir a resolução do problema do Kosovo. Pois qualquer das duas "soluções" concebíveis terá apenas o triste resultado de nova violêntica étnica, e novos problemas geopolíticos. Deixemos de lado o "precendente" (que Ki-moon, com enorme irresponsabilidade, diz não existir) que a independência do Kosovo constituíria para outras regiões (o País Basco salta logo à cabeça), e concentremo-nos nos resultados que traria para os Balcãs. Em primeiro lugar, a inevitável "limpeza" da minoria étnica sérvia, cuja única forma de não ser obrigada a abandonar o território seria ser enterrada nele passado pouco tempo da independência. Em segundo lugar, o que aconteceria no plano interno sérvio? Se o nacionalismo sérvio já assusta os governantes europeus, imagine-se como não ficará se o seu território vier a ser emagrecido. A normalização do regime e a sua aproximação à "Europa" ficarão seriamente comprometidas. E uma intervenção Sérvia contra o novo estado seria, muito provavelmente, o passo seguinte. E aí, que legitimidade teriam a UE e os EUA, que intervieram contra um estado soberano para impedir a cisjene de Milosevic, para se insurgirem contra uma intervenção sérvia contra um estado soberano destinada a parar a "limpeza" apontada à minoria sérvia no Kosovo? Os resultados que tal cenário acabaria por ter são até difíceis de imaginar.
E se o Kosovo continuasse como parte integrante da Sérvia? Caso a ONU abandonasse o local, violência étnica da minoria sérvia protegida pelo exército contra a maioria albanesa. Outro resultado provável seria a reanimação do KLA, o exército de "libertação" do Kosovo, e eventualmente, a reinstalação da al-Qaeda nos Balcãs. Diga-se de passagem que este resultado é praticamente inevitável, seja qual for a "solução" adoptada. Pois após uma intervenção sérvia contra um Kosovo independente, intervenção essa que dificilmente poderá ter a oposição europeia, devido ao carácter "humanitário" que será levantado pelas autoridades sérvias, será pouco provável que a al-Qaeda não pretenda ajudar os seus "irmãos kosovares" a expulsar os "infiéis eslavos" de território muçulmano.
O que fazer, então? O melhor talvez seja seguir o caminho seguido até aqui: manter o Kosovo um protectorado da ONU, impedindo a resolução do conflito, frustrando as ambições kosovares e impedindo a Sérvia de realizar as suas. Claro que a única maneira de fazer isto é a política de "hipocrisia" defendida para o Iraque por Niall Ferguson no seu livro Colossus: prometer a saída, prometer a resolução, mas não estabelecendo uma data para o fazer, e sem ter qualquer intenção de sair. Política que não estaria isenta de perigos. A Sérvia pouco faria contra as tropas estacionadas no Kosovo. Mas a população albanesa ansiosa pela independência talvez não tivesse tantos escrúpulos. E o constante adiamento do fim do protectorado da ONU talvez acabasse por trazer a al-Qaeda para região, ou, pelo menos, a adopção dos seus métodos contra as tropas internacionais. Como se vê, não há saída para o problema do Kosovo. Principalmente se quem sair for a ONU. Mas nem a sua permanência está isenta de perigos, e novas mortes na região, sejam elas de cidadãos sérvios, albaneses, ou soldados da missão de paz internacional, serão muito provavelmente inevitáveis.
Posted by Bruno at 05:15 PM
julho 11, 2007
Comédia
Para os apreciadores de boa comédia na televisão, estes são bons tempos para estar vivo. E não, não me estou a referir às sessões matinais da Tertúlia Cor de Rosa, nem ao programa dominical de Marcelo Rebelo de Sousa, apesar dos inegáveis méritos de ambos. De segunda a sexta, a BBC Prime faz-nos o favor de, às 21 horas, transmitir a aclamada série The Thick of It, da autoria de Armando Iannucci. The Thick of It, geralmente apresentada como o Yes Minister dos tempos modernos, assemelha-se a uma espécie de The Office em Whitehall, o que aconteceria se David Brent (ou neste caso, o Ministro dos Assuntos Sociais Hugh Abbot) entrasse na política e tivesse de lidar com um (bastante próximo da realidade) Alastair Campbell televisivo (o coordenador de imprensa do Primeiro-Ministro, Malcolm Tucker), usando a palavra "fuck" mais vezes que o Magnolia de P.T. Anderson (ou seja, muitas). Logo a seguir, a mesma BBC Prime, oferece Manchild, sobre quatro quarentões em crise de meia-idade, que já sei quase de cor mas que não me canso de ver. Às quintas-feiras, sabe Deus a que horas, a TVI transmite a versão americana de The Office, com o muito cá de casa Steve Carrel. O original de Ricky Gervais e Stephen Merchant era absolutamente genial, algo que não era na realidade uma sitcom, mas uma série dramática com muitas cenas com bastante piada (e basta ver os especiais de Natal para perceber isto), e que bastante inteligentemente parecia centrar-se em David Brent, quando a história central da série, o coração da sua narrativa, estava na relação entre Tim e Dawn (mais uma vez, veja-se os especiais de Natal, ou o que dizem os próprios Gervais e Merchant). A versão americana aproxima-se muito mais do que se espera de uma sitcom, mantendo o humor contra-intuitivo do original, mas acrescentando-lhe "piadas" propriamente ditas (que o original pura e simplesmente não tinha). Mas sendo uma sitcom, é uma sitcom perfeita, absolutamente hilariante. E para além de Carrel, um génio de interpretação cómica, a versão americana de The Office conta com a simpática presença de Jenna Fisher, com a qual, por razões diferentes das de Carrel, estou absolutamente encantado.
P.S.: E a Dois repete, de segunda a sexta, a também genial Curb Your Enthusiasm de Larry David.
Posted by Bruno at 10:39 PM
julho 10, 2007
A Verdadeira Candidatura de António Costa
Vale a pena ler o texto de Pacheco Pereira no Abrupto, acerca da forma como a candidatura de António Costa à autarquia da capital, por ser vista à partida como vitoriosa, está a atrair a "união nacional" do "upstairs" da vida portuguesa. Mas para além desse aspecto mais central do texto, há uma passagem que é bastante interessante: "Beneficiando do silêncio, hoje apanágio dos poderosos, Costa já está a fazer a sua comissão de candidatura a Primeiro-ministro, até porque ele conhece, melhor do que ninguém, as fragilidades do edifício de Sócrates."
Quando a candidatura de António Costa foi anunciada, não faltou quem afirmasse como ela era boa para o Primeiro-Ministro. Não foram apenas as alminhas deslumbradas com o suposto "maquiavelismo" de Sócrates, mas até gente sensata, a dizer que, mais uma vez, Sócrates conseguia afastar um eventual perigo para a sua liderança (como supostamente teria conseguido fazer com Soares). Na realidade, o que Sócrates fez foi libertar António Costa do Governo, libertando-o do ónus da governação que se fará sentir daqui a uns anos. Se António Costa tivesse ficado no Governo, e viesse, como seria de esperar, a suceder a Sócrates, tudo o que o Governo tivesse feito pesaria sobre a sua futura "candidatura" a Primeiro-Ministro. Em Lisboa, as desventuras de Sócrates não poderão provocar danos ao novo apóstolo do "rigor" e da "competência". O problema para o Primeiro-Ministro foi o de depender de um bom resultado em Lisboa para a sobrevivência da imagem do seu Governo, e por isso foi forçado a deixar partir Costa. E se o Governo, que certamente deseja a vitória de Costa não apenas agora, mas também daqui a dois anos, não hesitará em dar uma "ajuda" ao "seu" presidente da Câmara (e nessa medida, Costa é mesmo o candidato do Governo), o ex-ministro talvez não esteja tão interessado em ser uma mera "voz do Governo" na autarquia. Ao contrário do que Fernando Negrão, por exemplo, reclama, o Governo não vai mandar na Câmara. Pelo contrário. O Governo estará refém da Câmara de Lisboa, obrigado a fazer tudo o que seja preciso para garantir a reeleição de Costa, sabendo que a sua presidência não pretende ser mais que uma mera plataforma de assalto a São Bento.
Posted by Bruno at 10:31 PM
julho 09, 2007
Inglês Técnico 2
No entanto, José Sócrates responde às perguntas dos jornalistas em inglês. Quem tinha saudade das intervenções em francês de Mário Soares, provavelmente estará agora mais satisfeito.
Posted by Bruno at 10:08 AM
Inglês Técnico
O Primeiro-Ministro José Sócrates, em confer~encia de imprensa com Gordon Brown em Downing Street, acaba de dizer que irá falar em português, devido ao seu "bad english". E todos nós a pensar que ele se havia classificado com distinção na cadeira de inglês técnico do curso de engenharia da prestigiada UnI.
Posted by Bruno at 10:01 AM
julho 07, 2007
Um Mundo Melhor
A RTP transmite horas e horas de propaganda ambientalista, dizendo-nos como precisamos de "ter consciência" do perigo que constitui o "aquecimento global", e que "todos podemos salvar o mundo" e inclusivé "as nossas almas" como aquele senhor simpático dos concursos disse há pouco. Pessoalmente, contentar-me-ia se ficasse a salvo dos Bon Jovi ou da Gala das Sete Maravilhas (que conta com a presença do Presidente da República, do Presidente da Assembleia e do Primeiro-Ministro) que a TVI transmite desde o início da tarde. E numa coisa Al Gore tem razão: não é difícil melhorar o mundo. Pelo menos o meu. Basta pegar no telecomando.
Posted by Bruno at 10:43 PM
julho 06, 2007
Sem Comparação
Lembro-me de Bagão Félix, quando era Ministro da Segurança Social, ter demitido um conjunto de directores-gerais (ou cargo semelhante), por, segundo ele, não estarem a implementar a política definida pelo ministério. Os cínicos dirão que acontecimentos recentes, como o processo instaurado ao professor Charrua ou a demissão da directora do centro de saúde de Vieira do Minho, são apenas mais um exemplo do triste hábito dos partidos portugueses de rechearem o aparelho de Estado com os seus boys, e que em nada se diferenciam do que fez Bagão. Mas não há comparação possível entre o Bagão Félix fez, e os casos recentes. Pois Bagão justificou a demissão daquelas pessoas com o incumprimento da sua função, ou seja, o não terem passado à prática as orientações do governo. Num dos casos recentes (o "caso Charrua"), um indivíduo foi suspenso por ter manifestado uma opinião crítica do Governo, e no outro (o de Vieira do Minho), a directora do centro de saúde perdeu o seu emprego por supostamente ter deixado um seu funcionário exprimir a sua opinião crítica do Governo. Em ambos os casos, as "penalizações" assentaram em denúnicas de funcionários públicos. A senhora Secretária de Estado da Saúde, numa declaração que, num país civilizado, justificaria a sua imediata demissão, disse quem "em casa e no café" os funcionários públicos podem ter as opiniões que quiserem, mas que no seu local de trabalho, têm é de estar caladinhos. Mas na realidade, nem no café podem falar livremente. Pois a partir de agora, terão de recear a eventual bufaria dos colegas que eventualmente estejam consigo. O que se está a passar é algo sem paralelo na minha (ainda curta, é certo) vida. E talvez já fosse tempo de o Presidente da República tomar uma posição. É claro que, nas famosas reuniões de 5ª-feira, talvez o Presidente já o tenha feito. Talvez seja mesmo essa a atitude mais certa, tratando do assunto em privado para não provocar um conflito desnecessário com o Governo. Mas se está a tratar o assunto em privado, o Presidente deixa que os eleitores tenham a percepção de que nada está a fazer. E essa percepção de impunidade apenas alimenta a degradação da vida democrática do país.
Posted by Bruno at 10:00 PM
julho 05, 2007
"Nunca Mais Serás Ninguém"
A propósito da publicação do livro de memórias de Zita Seabra (que tenciono comprar um dia destes), recordo-me do que, num Prós e Contras pouco tempo depois da morte de Álvaro Cunhal, a actual deputada do PSD contou: na reunião em que é expulsa do PCP, Cunhal, depois de dizer que ela tinha a coragem de estar ali a enfrentar as acusações dos seus "camaradas", lhe dizer "nunca mais serás ninguém". É uma sequência de palavras bem reveladora do comunisno como modo de vida. O comunismo enquanto vida quotidiana dos militantes do PCP. Uma vida entregue na sua totalidade ao partido, a uma visão do mundo que via as pessoas como produto da sua posição numa estrutura. Uma vida que nada tinha de privado, a partir do momento em que a vida privada poderia servir mal a classe e passava a ser assunto do partido. Em que até o roubo de fruta em terras de "um camponês rico" é veículo de "descredibilização" perante os "camaradas". Não é a vida que interessa. É a luta de classes. Como se os comunistas não fossem humanos. Mas são. E ao entregarem a vida à luta de classes, transformam a luta de classes na vida. Tudo o que é do domínio da sua acção política, é, por paradoxal que possa parecer, profundamente pessoal. A Zita Seabra, pessoa por quem Cunhal tinha simpatia, e pouco depois de a elogiar, o falecido líder do PCP foi capaz de dizer "nunca mais serás ninguém". A ruptura de Seabra, como a de qualquer comunista, não foi uma mera ruptura política, foi uma ruptura pessoal. E Cunhal, com aquelas palavras, deixou-lhe isso bem claro. É esse o meu interesse pelas memórias de Zita Seabra, esse retrato do aspecto pessoal da adesão e ruptura com o comunismo.
Posted by Bruno at 09:38 PM
julho 04, 2007
4th of July

Posted by Bruno at 10:31 PM
julho 03, 2007
Lisboa
Passo, a pé, pela zona do Marquês de Pombal. Junto ao Parque Eduardo VII, ecoa a voz de Toy, famoso cançonetista setubalense, cantando a música de campanha de Carmona Rodrigues. Cerca de uma hora depois, passo de novo pelo local, desta vez em sentido inverso, e a voz de Chama o António ainda se ouvia. Incessantemente, aqueles vinte segundos de canção em que Toy diz como a "canção" de Carmona é "o fado" que ele canta "ao desafio" nas "sete colinas de amor da minha cidade" são repetidos. Naqueles poucos minutos, a companhia de tão rica melodia deu-me vontade, não de invadir a Polónia, mas de me atirar para a frente do trânsito saído do túnel de Pedro Santana Lopes, na esperança de acabar o meu sofrimento. Nem sequer imagino o que passará na cabeça das pessoas que, trabalhando na zona, tiveram de suportar aquele massacre durante sabe-se lá quanto tempo. Se por acaso alguma delas tencionava votar em Carmona Rodrigues, de certeza que já mudou de opinião.
Posted by Bruno at 10:26 PM
julho 02, 2007
Presidência Portuguesa da União
Em Março, escrevi aqui que, quando Portugal recebesse da Alemanha a presidência da UE, durante seis meses, o nosso Primeiro-Ministro iria poder fingir que Portugal conta alguma coisa para o resto do mundo. Durante seis meses, a RTP servirá de palanque para o cerimonial majestático de Sócrates na sua versão "Presidente da Europa". A RTP já trata as questões da UE de forma acrítica e acéfala, servindo de mero eco dos chavões e da propaganda da Comissão. E já olha para o Primeiro-Ministro como uma adolescente parva olha para um poster de Brad Pitt. Agora que as duas coisas se juntam (Sócrates e a "Europa", não Brad Pitt e a adolescente), poderemos assistir a um festival de bajulação e glorificação de Sócrates ainda maior do que aquele que já conhecemos. É comum dizer-se que tanto Cavaco como Guterres começaram a perder fôlego com as suas respectivas presidências europeias. Sócrates, com a carinhosa ajuda da RTP, irá usar a sua para cimentar a sua imagem de líder decidido e competente . E a RTP, com o agradecimento do fato Armani que costuma fingir ser Primeiro-Ministro de Portugal, poderá dar mais um passo na sua cada vez maior parecença com a televisão do Estado Novo, imbecil e reverente. Quem tenha visto ontem o telejornal, com o indescrítivelmente imbecil António Esteves Martins a fingir que sabe do que fala, teve a oportunidade de ver que não enganei. Serão seis meses de propaganda incessante. O que também explica por que razão não haverá referendo em Portugal, sobre o Tratado que Sócrates terá de redigir.
Sócrates quer fazer da "sua" Presidência da UE um sucesso aos olhos da "Europa", para mais uma vez se engrandecer aos olhos dos eleitores nativos. Tudo o que possa promover a imagem do "Portugal na linha da frente da Europa" será aproveiotado pelo Primeiro-Ministro. Mesmo um gigantesco passo em frente que falhe na presidência seguinte lhe servirá, pois ele será o "homem de visão", o seu sucessor o homem que não teve "pulso" para a conduzir a bom porto. Sócrates não quererá perder tempo em referendos e discussões públicas. Confirma-se que Sócrates está disposto a quebrar uma promessa eleitoral para promover a sua imagem. Confirma-se que está disposto a esquecer a democracia para cimentar o seu poder. Um pouco como a organização a que presidirá nos próximos meses.
Posted by Bruno at 06:42 PM
