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maio 31, 2007
Fred Thompson
A corrida para a presidência americana está animada. No campo Republicano, junta-se um novo nome, o do actor Fred Thompson. Toby Hardnen, correspondente nos EUA do Daily Telegraph, escreve sobre o novo candidato a candidato.
Posted by Bruno at 10:34 PM
maio 30, 2007
O Problema da Greve
Os Senhores do Governo e da CGTP andam muito entretidos a discutir se a greve de hoje foi "geral" ou "parcial", e os programas noticiosos da nossa televisão, com a capacidade analítica que se lhes reconhece, dão eco à questão como se o futuro do país dependesse disso. No entanto, e mesmo sem dela depender o futuro do país, há uma questão em torno da greve de hoje que merece alguma atenção: o dilema que, hoje em dia, a realização de uma greve põe aos seus promotores. A realização de uma greve geral é a forma que os sindicatos encontram de promover a sua agenda política de "luta" pelos "direitos dos trabalhadores". Mas, tendo em conta que o Governo vive da imagem do Primeiro-Ministro, a imagem do Primeiro-Ministro vive da alimentação da ideia de que está sempre disposto a enfrentar o que for preciso, da ideia de que é um "animal feroz" que luta contra todos os privilégios, da ideia que nunca é amedrontado pelos protestos, de cada vez que a CGTP "sair à rua", apenas alimenta essa imagem (falsa, diga-se de passagem) do Primeiro-Ministro. Mais do que os números dos que aderiram à greve ou dos foram trabalhar, talvez fosse interessante perguntar a Carvalho da Silva se ele tem consciência deste dilema, e se sim, como pensa ele ultrapassá-lo.
Posted by Bruno at 10:43 PM
maio 29, 2007
John Howard
Uma reputada figura da investigação histórica pátria lembra-se de John Howard, Primeiro-Ministro australiano. E logo aproveita para denegrir a população australiana, pois "só um povo estranho vota num homem daqueles". Desta forma singela, o incrivelmente bem sucedido (e nem sequer estou a falar a nível eleitoral) Primeiro-Ministro de um país que deveria ser, apenas e só, um exemplo, foi tratado como "uma espécie de Blair, que é um caniche do Bush, mas mais rústico".
Posted by Bruno at 11:10 PM
maio 28, 2007
A Casa da Rússia
Parece que José Sócrates já está na Rússia, a fazer uma visita a Vladimir Putin, esse grande democrata. Tendo em conta algumas propostas do Governo, para não falar dos acontecimentos recentes, talvez seja de temer que a viagem sirva para Sócrates aprender com o Presidente russo formas de melhorar alguns dos métodos que ambos parecem tanto apreciar.
Posted by Bruno at 05:12 PM
maio 26, 2007
Um Lugar na Terra

Durante os jogos Olímpicos de 1972, em Munique, 11 atletas israelitas foram mortos pelo grupor terrorista Setembro Negro. Avner (Eric Bana) é escolhido pela Mossad para comandar uma missão, com o objectivo de eliminar os responsáveis pela morte dos 11 atletas. Avner está prestes a ser pai, mas juntamente com os seus homens, Steve (Daniel Craig), Carl (Ciaran Hinds), Robert (Matthieu Kassovitz) e Hans (Hanns Zischler), ele vai ter de deixar de existir, para caçar os seus alvos.
Quando estreou, Munich foi alvo de alguma polémica. Muita gente considerou que Spielberg condenava a execução dos terroristas, fazendo uma equivalência entre o que se passou em Munique e a caça aos seus autores. De nada valeu o próprio Spielberg o ter negado. A ideia ficou. E ao ter sido o centro das atenções do filme, não deixou que o seu verdadeiro interesse fosse devidamente notado. Mais do que um filme sobre o Médio Oriente, Munich é um filme sobre o que é ser um agente secreto, um agente com "licença para matar". E é provavelmente o melhor filme do género. Pois centra-se no que leva um homem a escolher não existir, a escolher entrar no mundo onde não pode confiar em ninguém e ninguém pode confiar nele, e em como um homem lida com essa realidade. Os dramas de Avner e dos seus homens são os dramas de quem tem medo do que lhes pode acontecer, de quem tem medo do que tem de fazer, de quem não pode existir até para aqueles que o contrataram.
E são, claro, dilemas morais. Munich não é um filme de Michael Moore. Não é um panfleto pacifista, nem uma crítica esquerdista a Israel. É, de certa forma, uma tragédia moral judaica. É um filme sobre, como diz Golda Meir a dada altura do filme, "um país" ter "de fazer compromissos com os seus próprios valores". Acerca de como podem os judeus vingar e defender os seus mantendo-se fiéis aos valores do judaísmo. Sobre, como acontecia nos westerns clássicos, um mundo violento que obriga a recorrer à violência para sobreviver. As dúvidas de Avner e dos seus homens sobre a sua missão, que aumentam à medida que acabam por ter de matar mais gente que os seus alvos iniciais, são as dúvidas de homens que tentam ser morais num mundo imoral. Estarão a fazer justiça? Estarão a tornar-se iguais àqueles que perseguem? Ou estarão apenas "em guerra", uma guerra que "passou do deserto para as ruas de Paris, Londres e Amsterdão"? O filme de Spielberg é, de certo forma, sobre o "horror" de que falava Kurtz no final de Apocalypse Now. Do "horror" que um homem sente quando mata outro. No fundo, faz com os agentes secertos o que Clint Eastwood fez com os cowboys em Unforgiven: mostra o que passa pela cabeça deles quando recorrem à violência que caracteriza a sua actividade. A tragédia destes homens é a de que aquilo que fazem os obriga a viver com culpa, é a de que, por muito "justo", "certo" ou "necessário" que seja aquilo que estão a fazer, terão sempre de viver com a culpa dos seus actos, terão sempre de suportar os pesadelos onde vêem homens a morrer. Num mundo de sombras a que estes homens se entregam, "certo" e "errado" podem ser palavras com um significado difícil de avaliar, mas o de "horror" eles conhecem-no bem.
Mas talvez o aspecto mais interessante de Munich é o de como se insere na filmografia de Spielberg. Spielberg, é certo, é um realizador de blockbusters visualmente espectaculares mas sem grande interesse (Jurassic Park, War of the Worlds). Mas é também um realizador de filmes mais "pesados", de grandes ambições, como Schindler's List (o outro filme "judaico" para além de Munich) ou Saving Private Ryan, grandes filmes ligeiramente prejudicados pelo sentimentalismo de Spielberg (veja-se AI, filme insuportável devido a essa característica do seu realizador). Mas é esse sentimentalismo que dá força ao género onde Spielberg se dá melhor, os seus filmes mais clássicos, "comerciais" sem se "venderem", "ligeiros" sem serem "vazios" (Catch Me If You Can, ET, Terminal). Mas apesar da multiplicidade de géneros, uma coisa une os filmes de Spielberg. A procura de uma "casa", onde se possa viver em paz com aqueles que se ama. E o mais interessante de Munich é a forma como Spielberg transforma um filme sobre assassinos profissionais atrás de terroristas, num filme sobre homens em busca de uma casa.
Não são apenas judeus lutando por "um lugar na Terra" onde possam viver em paz, embora essa seja ideia base do filme, das escolhas daqueles homens, da racionalização por trás do que estão a fazer. Mas essa busca de uma casa é, em Munich uma busca pessoal. Todos (à excepção dos terroristas esquerdistas europeus como os Bader- Meinhoff) estão à procura de uma casa, ou lutando por a defender. Como já se disse, os israelitas defendendo a sua existência no país que fundaram. Mas também os terroristas palestinianos, como explica o terrorista que conversa com Avner (não sabendo que ele é judeu), querem uma casa "naquele deserto". O mafioso francês que vende informações a Avner vende-se a tudo o que é grupo, para poder ajudar a sua família, para defender a sua casa. Mas acima de tudo, é Avner que, como ET, o rapazinho de Empire of the Sun ou o Victor Navorski de The Terminal, apenas quer voltar a "casa". Uma "casa" que acaba por encontrar em Brooklyn, junto da sua mulher. Tal como o seu povo, Avner encontra "um lugar na terra" para si. Tal como Israel, não está realmente seguro. Tal como Israel, vai ter de lutar para sobreviver. Tal como Israel, não pode confiar em ninguém. Tal como Israel, Avner está sozinho num mundo em que a sobrevivência é tudo menos garantida, e o Bem é impossível.
Posted by Bruno at 09:47 PM
maio 25, 2007
Porque Insiste o Governo na Ota
As recentes declarações do Ministro Mário Lino a propósito da suposa aridez da Margem Sul, para além de ter provocada uma generalizada (e justificada) crítica, levaram muitos a, mais uma vez, questionarem por que razão insiste na questão da Ota, ao ponto de querer calar o debate em torno dela. Desde os "interesses" que se escondem por trás do projecto, à "fixação" do Ministro, várias explicações são avançadas. Uma, mais simples, parece-me ser no entanto mais verdadeira. O governo quer manter-se "firme" na ideia da Ota até poder não a levar por diante. Toda a acção do governo tem assentado na construção (falsa) de uma imagem de "firmeza" e "coragem", de quem não volta atrás como "outros fizeram". A partir do momento em que anunciou querer avançar com a construção do novo aeroporto na Ota, o Governo ficou preso a essa decisão. Por isso se agarra a todos os estudos que se mostram favoráveis a ela, e ignora por completo os que levantam a mínima dúvida, num exemplo de irresponsabilidade que qualquer discurso de Mário Lino mostra não ser um mero deslize.
Até 2009, o Governo não vai "voltar a adiar" a "decisão". Mas, ou muito me engano, ou também não vai fazer muito mais que isso. A "firmeza" do Governo, nos outros casos em que é alardeada, não tem passado de uns quantos gritos entusiasmados que pouca tradução têm na realidade. Por que razão seria a Ota diferente? Até 2009, Sócrates e Mário Lino irão gritar muito, debater pouco, mas também não farão nada. À porta das eleições, poderão dizer que, ao contrário de Marques Mendes, têm os "olhos postos no futuro" e que não "recuam" em decisão "fundamentais" para o "desenvolvimento económico" do país. A "firmeza", pensam eles, irá garantir a reeleição. Depois das eleições, já poderão "repensar" a questão, e para um Governo com uma relação tão difícil com a verdade e o decoro, razões para o fazer serão fáceis de encontrar. Provavelmente, as mesmas que os críticos do projecto agora apontam serão apresentadas como novidades que "alteraram as circunstâncias", e "firmeza" não é "cegueira", argumentará o Primeiro-Ministro.
O problema para o PSD, que tem insistido nesta questão (e que apesar das críticas do coro acéfalo da comunicação social embevecida pela qualidade da borracha das solas dos sapatos do Primeiro-Ministro, parece ter sido bem sucedido em criar na opinião pública uma hostilidade ao projecto), é que se desmascarar a falta de vergonha com que o PS nos governa, apenas estará a confirmar no eleitorado a ideia de que "todos" os políticos "mentem" e que apenas têm olhos para o "poleiro". Depois de Durão e Santana, o país correu para os braços de Sócrates na esperança de que nada semelhante se passasse. É por isso que Sócrates, quando os adolescentes que hoje penduram os posters com a sua fotografia nas paredes das redacções os jornais crescerem um bocadinho, será recordado como o Primeiro-Ministro que mais danos provocou na credibilidade do regime democrático. Nele foi depositada, por muita gente, uma espécie de "última esperança". Ao governar com o descaramento progangadístico que tem caracterizado a sua acção, e com o total desrespeito que exibe pelo eleitorado, Sócrates não acabrá apenas por se manchar a si próprio. Levará consigo todos os outros, e também por isso é tão difícil fazer oposição.
Posted by Bruno at 02:59 PM
maio 24, 2007
Estado de Alma
À espera de melhoras.
Posted by Bruno at 09:51 PM
maio 22, 2007
No Estaleiro
Atormentado por problemas na minha ligação à internet e por uma incomodativa febre, não tenho podido escrever algo minimamente decente nos últimos dias. Amanhã, espero, voltarei à actividade regular.
Posted by Bruno at 10:03 PM
maio 21, 2007
No Insurgente
Já pode ser lida a mais recente edição da minha coluna semanal A Semana Política: "Não deixa de ser supreendente a quantidade de pessoas interessadas em presidir a uma autarquia que não poderá ser outra coisa que não ingovernável. Desde um membro do Governo, passando por um vereador de Setúbal, antigos cabeças de lista à mesma Câmara, o presidente demissionário, uma dissidente do PS, até aos quatro militantes do CDS/PP (partido que com sorte talvez consiga eleger um vereador), todos manifestaram a sua disponibilidade para avançar. É de duvidar, no entanto, que os eleitores demonstrem semelhante vontade em votar em qualquer um deles." A coisa continua, mas não fica muito melhor.
Posted by Bruno at 09:46 PM
maio 19, 2007
E Claro...
Posted by Bruno at 09:51 PM
Sem Liberdade
O leitor recordar-se-á das declarações do deputado Paulo Rangel na cerimónia de comemoração do 25 de Abril. Paulo Rangel teve a coragem e a lucidez de mostrar como a "liberdade" está ameaçada, como "nunca como hoje se sentiu este ambiente de condicionamento da liberdade", como hoje vivemos uma "claustrofobia democrática". E não apenas devido à "grande apetência do poder executivo para conhecer, seduzir e influenciar a agenda mediática", mas também, como Rangel bem notou, devido à "conjugação de uma grave situação económica com um discurso (...) de auto-elogio maniqueísta, de optimismo compulsivo" que promovem "uma atmosfera propícia ao medo (...) do exercício da liberdade crítica, e da assunção pública da divergência", que tem como resultado o facto de, "não apenas os media", mas também a "sociedade portugesa" ver a sua liberdade "condicionada". E certamente se recorda que o Primeiro-Ministro as ter acusado de "bota-abaixismo", desvalorizando-as da forma grosseira e arrogante que caracteriza os tiranetes da Farinha Amparo (ou "engenheiros" da Independente). Hoje, o Público noticia a suspensão preventiva de "um professor de Inglês" da Direcção Regional de Educação do Norte, "por ter feito um comentário humorístico sobre a licenciatura do Primeiro-Ministro." Que melhor exemplo da "claustrofobia democrática" referida por Rangel se pode encontrar? O que poderia criar uma maior "atmosfera propícia ao medo" do que a ameaça (e mesmo que nada aconteça ao dito professor, a ameaça já foi feita e servirá de exemplo para o futuro) da perda do emprego por ridicularizar o Primeiro-Ministro?
Posted by Bruno at 07:01 PM
Seguirá Portas o "Exemplo" de Monteiro?
Arrisco uma previsão: dentro de momentos, Paulo Portas anunciará a sua própria candidatura à presidência da Câmara de Lisboa. Durante todo o dia, os três militantes do CDS/PP que se "disponibilizaram" para avançar disseram não saber quem era o escolhido. Todos disseram que, para além deles (e todos são, não hesitam afirmar, "excelentes" candidatos), há ainda a hipótese do próprio líder. Na realidade, claro que eles sabem quem é o "escolhido", e o "escolhido" poderá perfeitamente ser Portas. A "disponibilidade" de Caeiro, Correia e Guedes serviria apenas de apoio à "verdadeira" candidatura de Portas. Daqui a pouco, Portas poderá anunciar que, "ao contrário de outros partidos", que tiveram de recorrer a membros do governo e a vereadores de outras autarquias, abundavam candidatos no CDS/PP, mas que "há horas" (a palavra "amigos" entrará de seguida no discurso) em que "um líder" não pode "virar a cara", e que, "agradecendo" a "corajosa" disponibilidade de Caeiro, Correia e Guedes, terá ele próprio de ser "digno" dessa "atitude", e ter ele próprio a "coragem de se "apresentar ao eleitorado", seguindo assim o exemplo de Manuel Monteiro, reduzindo-se assim ao papel que na realidade lhe cabe, por muito que a sua vaidade o faça ver de outra maneira. Bem sei que este post pode ser mais uma das minhas arriscadas e infundadas previsões, mas se as coisas, daqui a pouco, se passarem assim, ficaria arrependido de não o ter escrito antecipadamente.
Posted by Bruno at 06:43 PM
maio 18, 2007
O Lugar de Um Líder Partidário (corrigido)
Foram escritas poucas coisas mais absurdas, a propósito da "crise" da autarquia da capital, do que a tese de que Marques Mendes, na falta de um candidato "forte", deveria avançar ele próprio para a Câmara. Os autores da ideia certamente gostariam que tal acontecesse, pois uma eventual derrota do líder laranja dar-lhes-ia mais uma oportunidade para insistirem na "falta de carisma" de Mendes. Mas sempre foi pouco provável que ela se tornasse realidade. E ainda bem, pois a ideia não faz sentido (e só o facto de Luís Felipe Menezes ter dito algo semelhante nas últimas autárquicas deveria ser suficiente para o mostrar). O lugar de um líder partidário é no Governo, ou, caso lá não consiga chegar, no parlamento, a representar os seus eleitores na oposição. Não é a liderar a candidatura a uma ou outra autarquia. Fazê-lo não seria sinal de "coragem", como Francisco Assis julga ter sido o "exemplo" de Sampaio, mas de simples estupidez.
Posted by Bruno at 10:18 PM
maio 17, 2007
Hitchens
O humor desta frase (encontrada aqui) mostra a razão pela qual Christopher Hitchens é, independentemente de se concordar ou não com o que ele escreve (e muitas vezes concordo) um dos melhores colunistas que podem ser lidos actualmente: "One of his associates, Bailey Smith, once opined that "God does not hear the prayers of a Jew." This is one of the few anti-Semitic remarks ever made that has a basis in fact, since God does not exist and does not attend to any prayers, but Smith was not quite making that point."
Posted by Bruno at 10:50 PM
maio 16, 2007
A Candidatura de Costa É Um Sinal de Fraqueza
O PSD encontrou finalmente um candidato à Câmara de Lisboa. À espera há já vários dias, o coro pôde agora criticar a escolha. E se essa crítica viria fosse quem fosse o candidato, a verdade é que a escolha facilitou a tarefa de quem já a tinha pronta. Pois Fernando Negrão, independentemente das qualidades que certamente terá, não poderá nunca ser visto como uma primeira escolha de Marques Mendes. Ainda para mais, quando um senhor que, segundo se diz, participa num programa de debate de compra e venda de árbitros de futebol, vem dizer que recusa ser candidato, apenas fragiliza quem acaba por aceitar a tarefa. Mas Negrão é, apesar de tudo, uma personagem secundária no festival de ataques que os entendidos abriram hoje. O alvo principal é, claro, Marques Mendes, acusado de não conseguir encontrar outro candidato que não um vereador da Câmara de Setúbal. Sinal, aparentemente, da fraqueza da sua liderança.
Estranhamente, ninguém nota a fraqueza do PS, evidenciada pela sua própria escolha de candidato. Claro que, como diz o coro, António Costa é um candidato "forte". Afinal, o homem já ganhou a um Ferrari nas filas de trânsito de Lisboa, e servia de cérebro para o fato Armani que chefia o Governo. E muito provavelmente, dado o seu "perfil" mediático, e a fama de "melhor Ministro da Justiça da democracia" (que muito boa gente insiste em lhe atribuir, esquecendo as suas responsabilidades no regime de escutas telefónicas, por exemplo), ganhará mesmo as eleições intercalares que se avizinham. Mas a sua candidatura não é um sinal de força do PS. É, claramente, um sinal de fraqueza. Pois Sócrates não conseguiu arranjar ninguém que lhe permitisse deixar no Governo o Ministro que mais poder tinha à mesa do Conselho, com responsabilidade directa sobre algumas políticas "emblemáticas" do Governo, a meses de uma presidência da UE em que alguns dos mais importantes dossiers seriam transportados na sua pasta. A escolha de Costa, se é certo que dá boas hipóteses de vitória em Lisboa ao PS, deixa o órfão o Governo. Costa pode ser um candidato "forte", mas a sua "força" fará falta ao Governo. Não é só Marques Mendes que sofre com o que se passa em Lisboa.
Posted by Bruno at 10:00 PM
maio 15, 2007
Niall Ferguson
O Canal História transmite, todas as segundas-feiras às 21 horas (com repetição às terças pelas 13 horas) a série documental de Niall Ferguson, The War of the World, baseada no seu (excelente) livro com o mesmo nome. Já foram transmitidos dois episódios (perdi o primeiro), mas vale a pena ver o resto.
Posted by Bruno at 07:22 PM
maio 14, 2007
Ideias
Agora que se avizinha uma eleição para a Câmara lisboeta, iremos certamente começar a ouvir muito a expressão "ideia de cidade" por parte dos vários candidatos. Alguns dos leitores começarão até a puxar da pistola sempre que a ouvirem, e terão boas razões para isso. Pois quando a proferem, os candidatos a Presidente da autarquia da capital demonstram que, a terem alguma "ideia" na cabeça, é uma "ideia" de si mesmos enquanto Pombais modernos, capazes de transfigurar Lisboa através dos seus ambiciosos planos. E se de Pombais modernos está Lisboa cheia, e a autarquia em particular, pena é que o que a cidade precisa é de menos megalomania e um pouco mais de sensatez. De menos "ideias de cidade" que apenas escondem a vaidade (normalmente injustificada) do seu autor, e de mais atenção aos problemas que afectam a Câmara, e que desde logo a impedem de dar atenção aos problemas que afectam os lisboetas. Lisboa não precisa de quem traga uma "ideia" de uma "cidade cosmopolita", de quem a queira "animar", ou de quem queira imitar o que viu numa qualquer outra capital europeia quando lá esteve dois ou três dias em férias há uns anos. Precisa de alguém que ponha ordem na casa. E se será difícil que esse "alguém" o consiga, tendo em conta a realidade da instituição, os bloqueios que existem no seu interior, a campanha que se avizinha acabará muito provavelmente por mostrar que esse "alguém" não se conta entre os candidatos. De cada vez, caro leitor, que ouvir a expressão "ideia de cidade", tente não puxar da pistola, mas lembre-se deste aviso.
Posted by Bruno at 06:49 PM
maio 12, 2007
A Ler
O artigo de Ricardo Costa, já referido pela aL e pelo António Amaral, sobre a "avaliação" feita pela ERC sobre os telejornais da RTP.
Posted by Bruno at 10:22 PM
maio 11, 2007
Blair
Ontem, Tony Blair anunciou pela enésima vez que se iria demitir do seu cargo de Primeiro-Ministro do Reino Unido. Desta vez anunciou uma data. Inveitavelmente, multiplicam-se os balanços do seu reinado. Demasiado cansado para mais, limito-me a reproduzir outro post que aqui escrevi há tempos:
O Anunciado Fim de Tony Blair
Dez anos depois de entrar pela primeira vez em Downing Street como Primeiro-Ministro, Tony Blair irá abandonar o cargo. Podemos duvidar se o seu sucessor será mesmo Gordon Brown ou alguém como John Reid tentará negar ao “punho cerrado” do compatriota escocês a oportunidade de atingir David Cameron, ou se, numas eventuais eleições antecipadas, o “Boy King” Cameron conseguirá não só derrotar o Labour, mas garantir uma maioria segura nos Comuns. Mas não há dúvida que Blair sairá este ano. Quanto mais não seja, porque o próprio o anunciou, quase com um ano de antecedência. Um que leva o Primeiro-Ministro em exercício a anunciar a sua saída, tanto tempo antes de efectivamente sair? O que leva um primeiro-Ministro a anunciar que daqui a um ano, irá abandonar o poder, o que o leva a, na prática, dizer aos membros do seu partido que a sobrevivência política de cada um dos deputados que suportam o seu governo pode vir a depender de muita coisa, menos do sucesso do seu Primeiro-Ministro? Se o fez, foi porque não teve alternativa.
Em 1994, com John Major no Governo, o então líder do Labour, John Smith, morre de ataque cardíaco. Segundo reza a história, Gordon Brown esperaria que Blair o apoiasse na corrida à liderança. No entanto, haveria um considerável apoio em redor de Blair, que terá então decidido avançar ele próprio. Ficou então aí estabelecido o célebre acordo entre Blair e Brown: Brown apoiaria Blair contra Prescott e Beckett, ao mesmo tempo que Blair prometia promover a “agenda de justiça” de Brown, dar-lhe o lugar de Chancellor (que ainda hoje ocupa), e mais importante ainda, a saída do poder em seu favor sete anos depois de ser eleito Primeiro-Ministro. Tudo se passaria como estava previsto. Brown ocupou o seu lugar, e para garantir a promoção da dita “agenda”, foi-lhe dado um enorme poder sobre as políticas dos restantes Ministérios. Esse controlo terá, como supostamente se queixarão alguns fiéis de Blair, feito com que muitas das reformas que o Primeiro-Ministro desejaria levar a cabo ficassem na mesma gaveta em que ele deixara a famosa “Clause Four” do seu partido.
Apenas faltou uma coisa: Tony Blair não deu o lugar a Brown. Blair dependera do apoio do seu colega para garantir uma tomada do poder no seu partido de uma forma relativamente pacífica. E continou dependente desse apoio nos anos seguintes, para não lançar o partido numa guerra interna que certamente o destruíria. Mas era um apoio dado na expectativa de que ele seria pago com a entrada de Brown no Nº 10 de Downing Street. Para mais, o seu alinhamento com a política americana na questão iraquiana motivara a ira de boa parte do grupo parlamentar do Labour. Os apoiantes de Brown esperavam que Blair saísse no Outuno de 2004. Já não era apenas no Labour que a guerra do Iraque provocava descontentamento. Na Primavera de 2004, essa opção de Blair parecia tê-lo condenado ao abandono do poder. Ele próprio terá pensado na demissão. Mas alguns apoiantes (Milburn, Campbell, Clarke, Hewitt) terão convencido o seu Primeiro-Ministro a resistir. Não queriam que Blair “deixasse” Brown “ganhar”. Como terá acontecido também com a sua mulher. E assim, quando Brown estava nos EUA, Blair anuncia que irá cumprir um terceiro mandato, mas que não concorrerá a um quarto. Foi isto que disse aos ingleses. Mas para Brown, a mensagem era outra: não seria agora que a promessa, feita em 1994, seria cumprida.
Para muita gente, este golpe (como o de 94) mostrava a habilidade política de Blair, o seu espírito de sobrevivência conspirativo. Na realidade, um e outro mostravam a sua fragilidade. O anúncio de mais um mandato tinha um preço para Blair. O mesmo preço que tivera de pagar em 1994: depender da boa vontade de Brown. E estava agora bem mais fragilizado do que estivera anteriormente. O fantasma do Iraque fazia temer uma queda nas eleições de 2005. Era preciso que Brown estivesse ao lado de Blair na campanha. Tal como Peter Mandelson se esforçara em 94 para manter Brown a jogar na mesma equipa, Alastair Campbell teve de suar para garantir que Brown não ficaria fora de jogo (consta que Campbell é apreciador do recurso a linguagem futebolísctica como o “jogar na mesma equipa”, “suar” e “fora de jogo” aqui usados). Foi assim criado o “double-act” da campanha de 2005. Mas para que Brown participasse, Blair teve de prometer (publicamente) que iria sair antes do fim do novo mandato. Ao fazê-lo, não estava apenas a colocar-se, mais uma vez, na dependência de Brown. Estava a anunciar aos seus deputados e aos seus ministros que o seu futuro estaria dependente de Brown, não de Blair. Se ele estava de saída, pouco ou nada lhe deviam. Se Brown lhe iria suceder, seria bom que não motivassem a sua ira. Daí a dificuldade que Blair tem tido para fazer passar as suas reformas. Daí a necessidade de manter amigos no Governo. Por isso não pôde demitir Ruth Kelly. Por isso tentou não demitir Charles Clarke, por isso não demitiu Patricia Hewitt. Poderia demitir John Prescott, talvez. Prescott apenas está no Governo porque, em 97, Blair precisava de um exemplar do Old Labour que mostrasse à esquerda do seu partido que não havia mal em não nacionalizar tudo o que se mexesse. Hoje não precisa. Mas demitir Prescott seria admitir que a propaganda que trouxe o Labour ao poder não passava disso mesmo. De propaganda.
Quando Blair tomou o controlo do seu partido, os Tories estavam envoltos em inúmeros “casos”. Algumas práticas pouco lícitas, outras pouco morais. Prescott ficava sempre bastante animado de cada vez que tinha oportunidade acusar a rapaziada da bancada da frente de se entregar a apetecíveis pecados. O “escândalo sexual” de Prescott só não teve mais consequências (não pelo facto de ter traído a mulher, mas por fazer o que ridicularizou há dez anos), porque na mesma semana, algo de mais grave aconteceu. Charles Clarke, Ministro do Interior, ao admitir que um vasto número de criminosos estrangeiros não viu a possibilidade de deportação ser analisada pelo seu Ministério, estava, aos olhos dos ingleses, a mostrar que toda a propaganda securitária do Labour nos últimos anos mais não era que propaganda. Que o partido que seria “duro com o crime” (e com as suas “causas”, convém não esquecer) não havia feito o que lhe competia. Que um partido que não se cansa de limitar as liberdades dos ingleses não terá feito o que devia para limitar a liberdade de “assassinos e violadores”. Patricia Hewitt tem a seu cargo um serviço nacional de saúde deficitário, apesar do brutal aumento de dinheiros públicos no sector. Ao dizer isto, estava apenas a mostrar que o partido que dissera, em 1997, que restavam “24 horas para salvar o NHS”, esteve nove anos a agravar a sua crise. Todos (Prescott, Clarke e Hewitt, como antes Mandelson e Blunkett) mostravam uma coisa: o partido que na era do “tory sleaze” prometera “mudança”, acabava por se sujar tanto ou mais que os seus antecessores. A posterior crise do “cash for honours”, as suspeições em torno do financiamento do partido, de troca de lugares na Câmara dos Lordes por doações ao Labour, apenas agravou esta percepção.
Os acordos que Blair teve de celebrar para subir ao poder, e para o manter, afectaram a sua governação. O mais recente ter-lhe-á mesmo feito perder a autoridade sobre o seu governo. A propaganda que o levou ao poder virou-se contra ele. Descredibilizou-o. É comum dizer-se que o princípio do fim de Blair, a que assistismos nos últimos meses, se deve à sua eternização no poder. Que esse é o destino de todas as carreiras políticas. Já o doutor Powell o dizia. Mas desta vez, não é assim. O declínio de Blair deve-se à forma como se deu a sua ascensão. Em Setembro passado, uma carta assinado por deputados do Labour a pedir a demissão de Blair, e a confusão que o golpe gerou, terão obrigado Blair a anunciar prematuramente a sua saída. Mas o seu fim estava traçado desde que subira ao poder no seu partido, pelo que fez para ganhar o poder no Labour e no Reino Unido. Blair aguentou as dificuldades durante muito tempo, mas foi apenas e só isso que conseguiu.
Posted by Bruno at 10:43 PM
maio 10, 2007
Doblagem SC, São Paulo

Com a Sábado desta semana, vem o novo livro do João Pereira Coutinho com as suas crónicas em português doblado na Folha de São Paulo.
Posted by Bruno at 10:25 PM
maio 09, 2007
Organização
No episódio de ontem do programa de António Barreto, um senhor (já não me recordo de quem se tratava), afirmava que o problema do Serviço Nacional de Saúde não era de falta de meios ou de qualidade dos seus profissionais, mas de falta de organização. Desde que me lembro de mim que considerações como esta são proferidas. E admito perfeitamente que sejam verdadeiras. O problema está em que desde que me lembro de mim que todos os "reformadores" da Saúde se propõem colmatar a tal falta de organização sem grandes resultados. E todos falham porque todos acreditam ser possível fazer a "organização" do SNS na sua totalidade. O problema está em que é impossível "organizar" algo da dimensão do SNS a partir do Governo. A "organização" centralizada dos serviços de prestação de cuidados de saúde, por muito bem intencionada que seja, ignora sempre as circunstâncias particulares a cada Hospital, a cada Centro de Saúde, a cada população. Só dando poder a cada hospital para tomar as suas próprias decisões, e dando ao "utente" (para usar este terrível termo tão do agrado do PCP) poder para responsabilizar o serviço que usa, se poderá dar a resposta a essas circunstâncias particulares. No fundo, só dando liberdade para que cada hospital se "organize", e para que cada "utente" possa escolher qual o serviço que merece receber o seu dinheiro (seja ele propriamente "seu" ou aquele que o Estado lhe dá, caso ele não tenha meios para pagar do seu bolso os cudidados de saúde), em vez de ele ser aplicado de acordo com os critérios do Ministério, é que se poderá resolver essa tal "doença" crónica do Serviço Nacional de Saúde, há tantos anos "diagnosticada".
Posted by Bruno at 09:44 PM
maio 08, 2007
Aniversários
O Abrupto, o blog que me fez descobrir os blogs, faz quatro anos, como fazem aliás os tripulantes da nau do Mar Salgado. Todos de parabéns.
Posted by Bruno at 10:47 PM
maio 07, 2007
Estarei Enganado Sobre Sarkozy?
Como o leitor atento certamente saberá, não sou grande fã do novo presidente francês. Ao contrário de muito boa gente com quem costumo concordar, não vi no ex-Ministro do Interior um reformista ansioso por mudar a França, mas apenas um oportunista ambicioso muito hábil na politiquice conspirativa que permitiu a sua ascensão. Mas ontem assisti à noite eleitoral da TV5, com inúmeros directos para as ruas de Paris. E tal como diz no Insurgente o André Amaral, vi "o desejo de mudança que terá contagiado a França". Vi acima de tudo, muitos rapazes e raparigas da minha idade (algumas delas bem jeitosinhas, como não havia nas ruas parisienses quando lá estive), ansiando pela tal "ruptura" que todos esperavam que Sarkozy trouxesse. Gente da minha idade que pareceu acreditar nas promessas de menos Estado e mais liberdade do candidato da UMP. É evidente que Sarkozy pode trair esss expectativas (como por cá Durão Barroso traiu as minhas, por exemplo). Mas a verdade é que há compromisso em torno delas. Em vez de fazer uma campanha equívoca, Sarkozy comprometeu-se com a "ruptura". Se a deixar por fazer, deixará também muita gente desiludida. Continuo a pensar que a "ruptura" que ele promete pouco mais é que fogo de vista, mas ontem, ao ver aquelas rapariguinhas jeitosinhas pulando de alegria e ansiando por reformas, fiquei a pensar se não estaria enganado.
Posted by Bruno at 10:10 PM
maio 05, 2007
Um País Diistraído Satisfaz Um Governo Agradecido
Com toda a confusão em torno da crise na Câmara Municipal de Lisboa, o país, distraído, não prestou a devida atenção às duas notícias realmente importantes da semana. Em primeiro lugar, a TSF revelou uma sondagem em que 60% (se não estou em erro) dos inquiridos se manifestavam contra a construção do areoporto da OTA. Ou seja, que 60% dos inquiridos davam razão a Marques Mendes nesta questão. Não é que Marques Mendes tenha mais ou menos razão consoante mais ou menos pessoas lhe dêem razão. Mas para aqueles que o acusam de insucesso, e de errar, do ponto de vista da "competição" política (como Marcelo), ao insistir na Ota, a sondagem mostra que Marques Mendes não é assim tão ineficaz, e que a sua insistência na questão da Ota tem o mérito de manter na agenda um tema em que o PSD tem o apoio da maioria do eleitorado. Que essa sondagem passe despercebida é algo que o Governo agradece.
Como agradece a pouca atenção dada ao facto de Mariano Gago ter afirmado não poder dizer quando irá ser revelado o resultado da investigação à Universidade Independente. Não deixa de ser estranho que um Ministro que falou da "manifesta degradação pedagógica" da instituição tenha agora tanta dificuldade em chegar a uma conclusão acerca da capacidade desta em prestar o seu serviço. Pois se ela era assim tão "manifesta", ao ponto do Ministro anunciar com voz firme que o Governo já tinha a sua decisão "tomada", não se percebe como pode Gago ainda ter dúvidas quanto a que caminho seguir. Felizmente para O Governo, ninguém deu por isso. Caso contrário, e caso a "manifesta degradação pedagógica" da UnI não venha ser castigada com o "encerramento" que constituía a "decisão" que, segundo o Governo, já estava "tomada", talvez as pessoas suspeitassem que o Governo teria voltado atrás como forma de premiar uma eventual ajuda da UnI numa eventual tentativa de branqueamento de um comportamento eventualmente ilícito do Primeiro-Ministro enquanto aluno da dia instituição. Assim, com afirmações como as de Gago passando despercebidas, se a intenção do Governo for a de deixar cair no esquecimento o "caso Independente", tem razões para ficar optimista. Especialmente quando a oposição não consegue, nem sequer quando realmente tem sucesso junto do eleitorado, vê-lo ser reconhecido.
Posted by Bruno at 10:21 PM
maio 04, 2007
The Wire

A minha atenção nos últimos dias tem estado virada para esta brilhante série da HBO.
Posted by Bruno at 10:45 PM
maio 03, 2007
Marques Mendes Fez o Que Tinha a Fazer
O meu caro "quase-vizinho" jcd e o João Miranda, a propósito da recusa de Carmona Rodrigues em apresentar a demissão da Câmara Municipal de Lisboa, que provocaria as eleições antecipadas que Marques Mendes desejava, escrevem que esta situação fragiliza o líder do PSD. Não me parece que tenham razão. Marques Mendes tomou uma posição. Anunciou querer eleições antecipadas em Lisboa. Carmona Rodrigues não se quer demitir. Está no seu direito, pois, como o João Miranda diz, foi ele a ser eleito, e não a "organização partidária". Mas a verdade é que essa insistência, que não é boa para Carmona Rodrigues, é irrelevante para Marques Mendes. Pois como não há nada que ele possa fazer, não há forma de ser responsabilizado pela situação que ela cria. Marques Mendes, ao tomar a posição que tomou, desligou o PSD de um eventual prolongamento do caos em Lisboa. Limitou-se a fazer o que tinha a fazer.
E fez bem. Reconheço que este critério, de que titulares de cargos públicos arguidos em casos relacionados com o exercício dessas funções se devem demitir, estabelecido por Marques Mendes, cria problemas. Mas é preciso ver a conjuntura em que esse critério foi estabelecido. O PSD vinha da liderança de Santana Lopes, e precisava de se credibilizar aos olhos dos eleitores. Esse critério foi a melhor forma que Marques Mendes encontrou de marcar uma diferença em relação a todos os outros partidos. E a sua aplicação no caso de Carmona Rodrigues apenas confirma essa diferença. Foi uma opção que Mendes não pôde dispensar em 2005, como não pôde dispensar agora. No entanto, e aí os críticos desta orientação de Mendes têm razão, o preço que o sistema político pode vir a pagar por ela talvez venha ser caro, "judicializando-o" de forma insustentável. Mas precisamente por isso é importante que esta orientação partidária não passe disso mesmo, de uma opção política deste ou daquele partido, e não, como se pretendeu há tempos, que passe a letra de lei. Pois se a orientação de Mendes mantêm a última palavra nos eleitores (em última análise, são eles que premeiam ou não as opções de Mendes nestes casos de "candidatos "arguidos"), a sua transformação em exigência legal apenas prejudicaria a democracia.
Posted by Bruno at 10:16 PM
maio 02, 2007
My Feelings Exactly
O Tiago Cavaco descreve com absoluta exactidão o que caracterizou a noite de ontem: "Aqueles que em busca de um Portugal maior se desiludiram com a derrota do Chelsea encontraram algum consolo no programa do António Barreto."
Posted by Bruno at 09:47 PM
maio 01, 2007
A Fronteira da "Europa"
No blog da Atlântico, o Bruno Gonçalves destacou há dias uma curiosa intervenção de Nicolas Sarkozy sobre a relação da "Europa" com a Turquia. Disse o candidato à presidência francesa que "não pode dizer aos estudantes franceses que as fronteiras da Europa se situam junto à Síria e ao Irão". A intervenção é curiosa, pois é suficiente para demonstrar como Sarkozy ignora por completo a natureza da questão. Porque ao contrário do que parece pensar o ex-ministro francês, a fronteira da "Europa" já se situa junto à Síria e ao Irão. Sendo a Turquia um país membro da NATO, a sua fronteira de segurança é também fronteira de todos os países que, pertencendo à NATO, se comprometerem a lutar lado a lado no caso de algum deles ser agredido. A opção não se faz entre colocar a fronteira da Europa junto à Síria e ao Irão ou não colocar, mas em manter essa fronteira segura, mantendo a Turquia como um aliado (e a entrada da Turquia para a UE seria um elemento importante nessa estratégia), ou arriscar o seu enfraquecimento, afastando a Turquia e fazendo pensar que nada tem a ganhar ao fazer o que a "Europa" lhe exige.
Por outro lado, o argumento de que, aceitando a Turquia, se tem de aceitar Israel, é também ele bastante revelador das limitações da UE. Pois, como já aqui escrevi há quase dois anos, se aceitarmos o argumento da importância geoestratégica da proximidade euro-turca (como Sarkozy aceita, ao defender uma "parceria privilegiada"), mas dissermos, ao mesmo tempo, como Sarkozy diz, que a Turquia não pode aderir porque geograficamente não pertence ao continente europeu, estamos apenas a dizer, e Sarkozy dí-lo mesmo sem disso se aperceber, que o "projecto europeu" tal como foi concebido inicialmente, está desajustado da realidade.
Concebida como uma organização regional, a "Europa" procurava responder a duas questões estratégicas essenciais no imediato pós-II Guerra: pacificar as relações entre a França e a Alemanha, e impedir o avanço da União Soviética. Era um projecto político que se restringia ao âmbito regional, porque era nesse espaço do continente europeu que se jogava o futuro dos países que o conceberam, e daqueles que posteriormente foram aderindo. Hoje em dia, o Mundo é outro. Um Mundo onde os países asiáticos muito mais populosos que nós florescem com o mercado livre internacional. Um Mundo onde o fundamentalismo islâmico oferece uma via de contestação aos regimes autoritários dos países do Médio Oriente. Mas a "Europa" está na mesma. Fechada. Comércio livre, só entre os seus muito protegidos cidadãos. Atitude perante a globalização? Uma muito eufemística tentativa de a "humanizar", em vez de a aproveitar. E perante a ameaça do fundamentalismo islâmico, prefere criticar Bush a apoiar a única democracia que vai existindo num país de maioria muçulmana.
A "Europa" como organização política regional que procura centralizar a tentativa de resolução dos problemas dos seus cidadãos está a morrer. Está a morrer, porque o Mundo para o qual foi concebida já morreu há muito. O que seria necessário seria uma cooperação muito mais aberta. Mais aberta, não só no sentido de não centralizar poderes na pouco controlável autoridade de Bruxelas, e mantendo-os nos parlamentos nacionais representativos dos seus respectivos cidadãos, mas mais aberta no sentido de possibilitar uma verdadeira cooperação entre todos aqueles que querem ser livres. Um verdadeiro comércio sem fronteiras entre os países que nele estivessem interessados, independentemente da sua região ou continente. E uma genuína vontade de, em comum, se defenderem de inimigos comuns. É para isso que os EUA caminham, na sua relação com a China, com a Índia, o Japão ou a Austrália. Aos países europeus, só lhes cabe responder se querem ou não participar. A atitude perante a Turquia será apenas um pequeno sinal: se cumprir os requisitos que lhe são exigidos, não há razão nenhuma para não se aceitar a sua adesão.
Posted by Bruno at 10:11 PM