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abril 30, 2007
Já Nas Bancas
A edição deste mês da Atlântico, com artigos de Rui Ramos sobre as casas portuguesas, Tiago Moreira de Sá sobre Kissinger e o 25 de Abril, João Pereira Coutinho sobre, entre outros assuntos, viagens de comboio e House, Adolfo Mesquita Nunes e André Abrantes Amaral sobre os católicos portugueses e o liberalismo, André Azevedo Alves sobre a política do governo inglês contra o terrorismo, Luciano Amaral sobre o "caso Independente" e João Miranda sobre o ensino universitário privado. Este vosso rapaz, por sua vez, escreve uma pequena crónica com as parvoíces do costume.
Posted by Bruno at 09:47 PM
abril 28, 2007
Brick

Emily Kostich (Emilie De Ravin), uma amiga de Brendan Frye (Joseph Gordon Leavitt), aparece morta junto a um túnel de esgoto próximo do liceu que ambos frequentam. Dois dias antes, Brendan recebera um telefonema algo misterioso de Emily, pedindo a sua ajuda. Brendan, um rapaz solitário, ligeiramente auto-destrutivo e fortemente cínico, irá agora, com a ajuda de Brain (Matthew O'Leary), procurar descobrir o que aconteceu a Emily.
Brick, primeiro filme do realizador e argumentista Rian Johnson, não estreou, julgo eu, em Portugal. E se estreou, foi objecto da mesma desatenção com que foi recebido o seu lançamento em DVD. É pena. Pois é um excelente filme, recuperando um género clássico do cinema norte-americano, refrescando e melhorando o mais recente filme de adolescentes. Pois Brick é, basicamente, um film noir passado num liceu americano. Onde The Big Lebowski era uma espécie de "paródia" dos filmes noir da Hollywood dos anos 40 e 50, Brick é, pura e simplesmente, uma homenagem. E nesse aspecto, é absolutamente brilhante. De todos os elementos clássicos do género, não falta lá nada. Desde o herói solitário e não propriamente isento de culpa, à femme fatale, ao vilão misterioso, passando pelos twists constantes no enredo, pela cabine telefónica a tocar numa rua deserta, o telefonema enigmático, o jazz da banda sonora, ou os diálogos espertalhões, os ambientes escuros (viu-se muito David Lynch na casa de Rian Johnson), tudo remete para o ambiente clássico de um film noir.
há cerca de um ano, quando o filme estreou em Sundance, a Film Comment queixava-se de Brick cair no suposto erro de todos os filmes sérios sobre a adolescência (não se metia American Pie ao barulho), o de os personagens agirem como se o fim do mundo estive próximo, de uma forma demasiado dramática para quem, tão jovem, não temverdadeiros problemas. Poderia argumentar-se que, para aquelas pessoas, o que lhes está acontecer é realmente o fim do mundo, o fim do seu mundo. Mas no caso de Brick, nem essa defesa é necessária. Pois a sua intenção é que as personagens estejam a agir de forma muito dramatizada. Brick não pretende ser realista. Pretende ser como um filme da década de 50, com os seus diálogos estilizados, e um ambiente visual carregado. Aliás, esse é outro aspecto em que Brick se destaca. Rian Johnson consegue alguns momentos de extraordinário efeito visual, deixando antever um futuro promissor, especialmente quando, com uma maior experiência, Johnson recorra a esses momentos com maior subtileza, em vez de, como aqui faz (de forma natural para um estreante), chamar a atenção para eles.
Leavitt, vindo do sucesso de 3rd Rock From the Sun, merece destaque no papel de Brendan, numa transição nem sempre fácil da televisão (especialmente num formato de sitcom clássico como era a sua série) para o cinema independente, em que consegue uma interpretação segura e competentíssima, aliás como todo o elenco, desde Lukas Haas a Richard "Shaft" Roundtree, passando pela adorável Norah Zehetner, rapariga que seria capaz de me levar à perdição. Um destino a que, num mundo, como o de Brick, em que todos apenas tentam salvar a sua própria pele, é difícil de evitar.

Posted by Bruno at 10:32 PM
A Ler
Ainda a propósito das reacções à vitória de um finado num concurso pago com o dinheiro dos contribuintes, o texto que o meu amigo João Carlos Silva escreve no Setúbal na Rede:
"Por tenra idade, nunca conheci fascismo nem comunismo de perto. Felizmente. Reconheço essa diferença abissal em relação a um “antifascista” (e faço aqui a minha devida vénia a quem combateu o Estado Novo, sobretudo àqueles que viam como sublime missão o derrube do homem e do regime e não a importação do modelo soviético). Não vivi, ou sobrevivi, no período de ditadura. O que talvez, paradoxalmente, me tenha permitido ter as estruturas racionais para pensar em ambos os tipos de regime. Discerni-los e dissecá-los, sem a parte emocional que me seduziria para a extrema-esquerda, sem dúvida, se vivesse nos conturbados tempos de luta antifascista.
Mas a ideia do combate ao “fascismo português” já devia estar ultrapassada. O museu de Salazar, que reconhecidamente os pobres habitantes de Santa Comba Dão gostariam de ver erigido em nome da sua terra, foi imediatamente condenado por gente com pouco que fazer. Muitas das vozes que se levantaram, claro está, foram dos “antifascistas”, que é um eufemismo para “comunistas”. Facto: o PCP tem como ídolos uma elite de burocratas que empalharam Lenine e o espetaram no meio da Praça Vermelha à espera de beijinhos e devidas orações. Deus estava morto há muito, mas Lenine nunca morreria. Dissera Estaline e, certamente, disseram muitos comunistas portugueses por respeito ao exemplo soviético. Deviam, talvez, ter cuidado com a própria história quando criticam o apreço dos rurais à memória de uma das únicas figuras conhecidas da aldeia. Mesmo que pelas piores razões.
Porque não, então, fornecer a ajuda necessária para que o museu não seja uma declaração de amor ao homem nem uma prova de acusação contra o ditador, mas sim uma instituição de reconhecida probidade histórica, patrocinada pelo Estado e cuidadosamente sujeita ao escrutínio e debate de historiadores (nunca imparciais, claro, que um “imparcial” não é gente decente) dos diversos quadrantes políticos? Um museu como qualquer outro. Que o homem já bem merece, com tanta azáfama em seu redor.
Como brinde, enfie-se lá um boneco de cera como os do museu da Madame Toussaud – já que Salazar já não está em estado de receber feno e maquilhagem para adoração pública – e temos algo bem composto. Um museu histórico que agrada, certamente, a todos.
A memória desapaixonada será inevitável, mais tarde ou mais cedo. Salazar, pessoa medíocre e governante cego, não será, dentro de décadas, mais do que um ditador perdido na memória dos portugueses (com sorte, o último). Tal como o são o Marquês de Pombal ou Afonso Costa. Assim, com o museu de Salazar teríamos mais um ponto de apoio à cultura de um povo que não gosta de ler e se esmera nos concursos de televisão em fazer pirraça aos “antifascistas”. Teríamos no museu algo diferente dos disparates e lugares-comuns que se repetem às crianças nas escolas para que se odeie Salazar sem compreender o que era o Estado Novo. Goze-se lá com o Velho das Botas, dê-se-lhe um segundo funeral, mas não se esqueça quem ele foi. Não se esqueça que este tipo de sujeitos terá sempre admiradores e saudosistas, amantes do punho de ferro.
É que troçar de ditadores já mortos é sinal de uma democracia descomplexada. Gritar histericamente ao ouvir o nome de Salazar é que já não é."
Posted by Bruno at 10:13 PM
Novo Blog
A seguir com atenção o blog Geração de 60, repleto de gente ilustre e certamente um poço de qualidade.
Posted by Bruno at 10:00 PM
abril 27, 2007
Era Mudo Mas Agora Fala
Era um acontecimento de dimensão quase bíblica. Assim se percebe a expectativa que houve, como nunca antes, em torno da intervenção de um deputado que se senta nas bancadas de S. Bento há cerca de dois anos. Pois o homem que era mudo agora ia falar, num milagre só comparável ao que, num programa de televisão, o mesmo homem conseguiu: falar sem que ninguém o ouvisse. Chegada a hora, falou. E as gentes ficaram maravilhadas. Não apenas o Primeiro-Ministro, que aprecia a atenção dada a quem só pode incomodar o PSD. Mas também os que desprezam o Primeiro-Ministro, e esperavam de Portas, o mudo-falante, a "verdadeira" oposição ao Governo. E foi o que viram. Precisariam de um milagre para os salvar da cegueira que alimenta essa sua ilusão.
Justiça seja feita a Paulo Portas. Chamou a atenção para o duvidoso funcionamento dos debates mensais com o Primeiro-Ministro, e tem razão ao desejar que o chefe de Governo se desloque mais vezes ao parlamento. Mas as suas intervenções revelam, para quem queira ver, as fragilidades que a personagem, apesar de todas as suas milagrosas mutações, traz sempre consigo. Mesmo no meio deste aspecto positivo de reclamar contra o que de pernicioso há nestes debates, não conseguiu evitar a bazófia injustificada que a noção inchada que tem de si lhe provoca. Disse, com vísivel, orgulho, que não aceitaria (ao contrário dos outros, presume-se) cingir-se ao tema escolhido por Sócrates. O que convenhamos, nada tem de extraordinário, visto que nenhum dos deputados o respeita. Nem mesmo Alberto Martins, que costuma preferir atacar Marques Mendes (e não o CDS/PP, pormenor à atenção dos que acham que é dali que virá "verdadeira" oposição). Depois, na sua intervenção sobre o estatuto do aluno, sofreu o embaraço de ser corrigido por Sócrates sobre o conteúdo da proposta de lei, mostrando, a quem quisesse ver, que a retórica apaixonada apenas esconde a falta de cuidado e atenção aos aspectos mais àridos do debate político, logo por azar, os que realmente afectam a vida das pessoas (para além de, para os que esperam dele um programa "liberal", ter mostrado que não será esse o seu caminho, pois preferiu insistir na sua velha retórica da "autoridade", em vez de, por exemplo, defender a liberdade de cada escola para definir as regras que venha a impôr aos seus respectivos alunos).
Mas acima de tudo, o debate de hoje mostrou que Portas irá estar exposto àquela que é a sua maior fragilidade. A dada altura, o Primeiro-Ministro, com aquela arrogância que o caracteriza, e que aliás partilha com o velho novo líder do CDS/PP, o Primeiro-Ministro confrontou Portas com as suas "opiniões" no "passado". Portas bem pode dizer que "quando se argumenta com o passado" se "arrisca a fazer parte dele". Mas o que é verdade é que o passado, por muitas mudanças de personalidade que Portas tenha operado, não deixa de fazer parte do seu presente. Não é por ter muitos passados que eles lhe pesam pouco. Antes pelo contrário. Todos eles pairam sobre Portas como fantasmas, prontos a serem chamados por todos aqueles que o queiram criticar. E acima de tudo, assombrando e criando medo naqueles que eventualmente se possam sentir atraídos pela sua persona do dia, e que logo pensam duas vezes. No debate de hoje, tudo o que descredibiliza Portas esteve à vista de todos. Talvez ele tenha sorte, e gente suficiente queira permanecer cega, ao ponto de satisfazer os seus desejos. Afinal, se Sócrates teve uma maioria absoluta, é porque há muita gente assim.
Posted by Bruno at 10:13 PM
abril 26, 2007
Credibilidade
Segundo o Expresso, Carmona Rodrigues é arguido no "caso Bragaparques". A confirmar-se a notícia, Marques Mendes tem, apesar do problema que a situação iengavelmente cria, uma oportunidade de cimentar a imagem de credibilidade que começou a construir aquando das últimas eleições autárquicas. O partido que exigiu, e bem, a demissão de isaltino Morais quando este foi, há uns dias, considerado arguido no seu "caso", tem de exigir ao candidato que apoiou para a Câmara de Lisboa que se demita. O PSD tem de exigir ao seu candidato o que exigiu a um seu adversário. Se o fizer, Marques Mendes mostra que está a falar a sério quando faz exigências de "credibilidade" e "rigor". Essa atitude não põe em causa a presunção de inocência a que o presidente da Câmara de Lisboa tem direito. Será apenas um julgamento político, que segue critérios políticos, de um partido que, manchado pelas atribulações do consulado de Santana, tem de mostrar aos eleitores que é merecedor da sua confiança. Carmona poderá até ter "condições" para cumprir o mandato. Mas o PSD de Marques mendes só terá "condições" de poder vir a ser governo se se mostrar coerente na sua linha de orientação.
Posted by Bruno at 09:47 PM
abril 25, 2007
Claustrofobia Democrática
A cerimónia parlamentar de comemoração do 25 de Abril costuma ser um evento francamente desinteressante. O PCP e o BE costumam falar de como "Abril" não se "cumpriu", e os restantes partidos e o Presidente costumam disputar entre si o lugar de autor do discurso mais aborrecido. Paulo Rangel, deputado do PSD, cortou com essa "tradição". Num dia em que todos enchem a boca com a "liberdade", Paulo Rangel teve a coragem e a lucidez de mostrar como a "liberdade" está ameaçada, como "nunca como hoje se sentiu este ambiente de condicionamento da liberdade", como hoje vivemos uma "claustrofobia democrática". E não apenas devido à "grande apetência do poder executivo para conhecer, seduzir e influenciar a agenda mediática", mas também, como Rangel bem notou, devido à "conjugação de uma grave situação económica com um discurso (...) de auto-elogio maniqueísta, de optimismo compulsivo" que promovem "uma atmosfera propícia ao medo (...) do exercício da liberdade crítica, e da assunção pública da divergência", que tem como resultado o facto de, "não apenas os media", mas também a "sociedade portugesa" ver a sua liberdade "condicionada". O facto de o Primeiro-Ministro, com a arrogância que caracteriza a personagem, ter acusado Rangel e o PSD de "bota-abaixismo" (numa expressão de uma riqueza que apenas fica atrás da "pimenta no rabiosque" de Armando vara) apenas dá razão ao deputado do PSD.
Posted by Bruno at 10:05 PM
abril 23, 2007
Boris Yeltsin

O mundo olha para o ex-líder soviético Gorbachev como um grande estadista. Thatcher, se não me engano, dizia que ele era alguém com quem se podia dialogar. Não duvido. Mas muitos recordam Gorbachev como o homem que teve o mérito de trazer o fim do comunismo soviético. Nada de mais imerecido. Pois o que Gorbachev queria era salvar o comunismo. O processo de "abertura" que conduziu visava obter a sobrevivência da ditadura que comandava, não o seu fim.Ao promover a "abertura", "abriu" a possibilidade lituanos, estónios e outros povos das "repúblicas soviéticas" quisessem abandonar a bonita ficção que lhes havia sido legada décadas antes. O fim da URSS foi uma derrota de Gorbachev, não um mérito seu. Mesmo a sua sensatez aquando da queda do Muro de Berlim atesta essencialmente a sua fraqueza, não a sua vontade ou a sua visão.
Boris Yeltsin, hoje falecido, será certamente recordado pelos "aspectos controversos da sua personalidade", como disse Luís Amado. Pelo seu gosto pelo vodka, pelas suas estranhas danças em público, pelos apalpões a rabiosques femininos. Presumo que ele não se importasse. Mas merece mais. Pois Yeltsin, e não Gorbachev, como disse hoje Lech Walesa, merece ser recordado como o homem que trouxe o fim da URSS, como o homem que libertou a Rússia. Promoveu a CEI e a independência da Rússia (e portanto dos restantes estados bálticos) pois era isso que queria. Promoveu a liberalização da economia russa pois era nela que acreditava. Defendeu (fisicamente) a democracia, pois era o que queria para a Rússia. Claro que governou de forma autoritária, passando por cima das autoridades locais que a ele se opunham. No fundo, quis "libertar" a Rússia "à força", como D. Pedro IV quis fazer com Portugal. Num país com a tradição autocrática da Rússia, seria difícil fazê-lo de outra forma. Mas o que de positivo esse processo teve não foi algo de involuntário, não foi fruto de uma derrota. Foi fruto da sua vontade. Foi uma vitória.
Mas foi uma vitória escassa, e algo manchada. A liberalização resultou num choque brutal para uma economia russa habituada ao dirigismo. E resultou no enriquecimento dos "oligarcas" (que lhe financiaram depois a campanha), mais do que num "paraíso liberal" (digamos que o Chelsea também deve bastante a Yeltsin). O preço que se pagou por essa liberalização foi alto (o autoritarismo de Putin faz parte do pacote de pagamento). Mas convém olhar para o que seria a alternativa. Manter o gigantesco dinossauro que era o Estado russo era dar uma oportunidade de recuperação aos comunistas que Yeltsin afastara. O preço que Yeltsin fez a Rússia pagar foi o preço que achou preferível a esse eventual regresso comunista ao poder. De certa forma, se a tragédia de Gorbachev foi a de as suas políticas terem conduzido o seu país onde ele não queria, a de Yeltsin foi a de o seu país, e as circunstâncias em que este se encontrava, não terem permitido que as suas políticas pudessem ter resultados melhores. Apesar de tudo, não é uma má maneira de ser recordado. E se todas aquelas senhoras tiveram gostado dos apalpões, Yeltsin também não se importará que elas se lembrem dele por isso.
Posted by Bruno at 10:18 PM
abril 22, 2007
No Insurgente
Já pode ser lida a mais recente edição da minha coluna semanal A Semana Política: "Paulo Portas e José Ribeiro e Castro degladiaram-se, esta semana, na RTP. O interesse pelo debate manifestado pelo português comum era semelhante à vontade de José Sócrates “explicar” as confusões em torno da sua licenciatura, ou seja, escasso. Mas isso não impediu os dois candidatos à liderança do CDS/PP de se insultarem um ao outro." A coisa continua, mas não fica muito melhor.
Posted by Bruno at 11:17 PM
abril 21, 2007
A Qualidade da Democracia
Parece que num comício dedicado ao culto de personalidade de José Sócrates, o Primeiro-Ministro terá afirmado que ao PS não interessa "apenas o respeito pelas regras formais da democracia, do direito, ou a realização periódica de eleições", sendo necessária uma "democracia com decência", ou seja, em que os "valores da tolerância e do respeito pelos adversários" sejam respeitados. Não tenho nada contra a "tolerância" ou contra o "respeito pelos adversários". Mas sem o "respeito" pela "democracia formal" não há "respeito pelos adversários". E a partir do momento que o Primeiro-Ministro distingue a "democracia formal" da sua "qualidade", fica a apenas um passo de dizer que a sua "qualidade" justifica à supressão da sua "formalidade", o que na prática, lhe dará uma "qualidade" muito diminuta. Talvez isto não tenha ocorrido ao Primeiro-Ministro, que aliás não se distingue pela sofisticação do seu pensamento. Mas poderá vir a ocorrer a outras cabeças, e o discurso do Primeiro-Ministro, e acima de tudo, o facto de a "opinião pública" o ter aceite como normal, não augura nada de bom no caso de isso vir a acontecer.
Posted by Bruno at 10:25 PM
abril 20, 2007
O Mal Francês
Termina hoje a campanha presidencial francesa. Domingo, dois dos quatro principais candidatos passarão à segunda volta. É certo que há gente bastante exótica a concorrer (o nome de José Bové vem à cabeça), mas só Nicolas Sarkozy (o "moço fofo" dos nossos bloggers, que caso venha a ser eleito está destinado a desiludi-los), Segoléne Royal (senhora dos corações dos jornalistas da RTP), François Bayrou e Le Pen, poderão aspirar a um lugar na corrida a dois final. Por estranho que possa parecer, os dois últimos são os que mais têm em comum.
François Bayrou aparece como um "centrista" apostado em trazer uma "nova forma" de "fazer política", com a qual desapareçam as "velhas" divergências e todos se possam "unir" para encontrar um caminho de futuro para a França. A razão pela qual estas "ideias" ganham uma supreendente adesão por parte do eleitorado francês (as sondagens apontam para um resultado muito superior ao que Bayrou está habituado) é a mesma que explica a adesão à demagogia xenófoba de Le Pen (apesar de surgir apenas em quarto lugar, Le Pen costuma obter resultados nas urnas superiores aos previstos pelas sondagens, e em algumas chega mesmo a obter mais intenções de voto do que obtinha há cinco anos). Ou seja, a desconfiança em relação à classe política francesa, motivada pela crise do país e pela incapacidade dos dois principais partidos (UMP e PSF)encontrarem uma saída para ela. A aparentemente enorme distância entre um "centrismo" conciliador que aparece disposto a governar em colaboração com a UMP e o PSF, e a demagogia da "França para os franceses", esbate-se quando se percebe que se uma parte significativa dos franceses se sente atraída por ambas, é porque ambas prometem a manutenção de tudo o que os franceses vêem como bom (não é em vão que Bayrou aparece como um grande defensor dos "agricultores" e dos generosos subsídios que os alimentam), e uma solução milagrosa para tudo que está mal (a "política de afectos" de Bayrou é uma cura tão eficaz para o decrépito estado social francês como o será a expulsão de imigrantes). O voto em ambos é, cada um à sua maneira, um voto de protesto. E se por acaso, os dois "finalistas" forem precisamente Bayrou e Le Pen, esse será o pior resultado possível para a França.
Em primeiro lugar, porque a passagem de dois candidatos de protesto seria um sinal de que a degradação do seu sistema político teria atingido um ponto praticamente insustentável. Em segundo lugar, porque a esperança depositada nessa escolha acabaria por ser frustrada. Por um lado, se Bayrou e Le Pen passassem, formar-se-ia em torno de Bayrou o mesmo falso consenso democrático que se formou em torno de Chirac, entregando-lhe de mão beijada o poder mas retirando-lhe qualquer autoridade (o mesmo acontecerá, aliás, a qualquer candidato que enfrente Le Pen numa segunda volta que este consiga atingir). Por outro, uma vez no poder, as insuficiências da "nova política consensual" de Bayrou revelariam a sua ineficácia. Como o partido de Bayrou não tem força para suportar um governo que lhe seja "simpático", Bayrou dependeria de um apoio do PSF ou da UMP, ou, em alternativa, de partes de cada um deles. O problema está em que, se é verdade que as questões programáticas são o que menos interessa aos políticos franceses, também é verdade que isso acaba por tornar os acordos mais complicados. Afinal, quando não há ideias para discutir, discutem-se os lugares debaixo da cada vez menos generosa teta do Orçamento, e a partilha do que este tem para oferecer é pouco propensa a consensos. Uma vez obtido um tal acordo, a precariedade do arranjo impediria, na prática, qualquer reforma que este pudesse querer fazer. Uma vez frustrada a esperança na "solução", a descrença apenas se tornaria maior, tornando também mais improvável a hipótese de uma verdadeira solução vir a ser encontrada no futuro.
Mesmo que Bayrou e Le Pen não passem à segunda volta (e ficarem pelo caminho, a crer nas sondagens, é mesmo o mais provável), obterão um apoio significativo, o que já de si não é bom sinal. E qualquer que seja o vencedor, dificilmente terá a capacidade ou sequer a vontade de fazer o que a França precisaria que fosse feito. Domingo não trará a solução para o mal francês. Domingo apenas satisfará a curiosidade de ver a quem calha a "fava" de governar o gigantesco problema que é aquele país, e a de quanto essa "fava" pesará.
Posted by Bruno at 10:06 PM
abril 19, 2007
A Doença de Addison da Democracia
No Insurgente, a minha outra casa blogosférica, está ser realizada uma "sondagem" com a seguinte pergunta: "Quem constitui actualmente a maior ameaça à democracia em Portugal? PNR ou PCP e BE?" Percebo o porquê da questão, tendo em conta o recente frenesim mediático em torno do PNR, e a tradicional condescendência dos jornalistas para com partidos "pouco" democráticos como o PCP e o BE. Mas, em bom rigor, nenhum deles constitui uma ameaça à democracia propriamente dita. A "Europa", enquanto a UE existir e nós a ela pertencermos, irá garantir que a democracia não será substituída por outro qualquer regime, mesmo que o PNR, o PCP ou o BE cheguem ao poder. Essa entrada seria, é certo, um sintoma de uma doença grave da democracia portuguesa, mas não lhe traria a morte. Não traria uma ditadura, mas seria sintomática da sua progressiva degradação. Infelizmente, é algo a que já se assiste, sem que seja necessária a ascensão de partidos como estes três.
De facto, a maior ameaça à democracia não está em corpos estranhos que a queiram enterrar, mas no seu próprio interior, em factores internos que a enfraquecem progressivamente. No fundo, a nossa pertença à "Europa" garante que a democracia não morre, mas essa sobrevivência assegurada acaba por permitir que as circunstãncias que a fragilizam se perpetuem, e em se perpetuando, se tornem cada vez mais graves e cada vez mais difíceis de ultrapassar, como procurei explicar num fraco ensaio numa Atlântico recente (A Estranha Morte da Política Democrática). Em 1987, um deputado do Partido Trabalhista britânico, então ainda em ascensão, Tony Blair, dizia ao The Times que “a verdade se torna quase impossível de comunicar porque a franqueza total, transmitida pelos meios de comunicação de massas, se torna simplesmente numa arma nas mãos dos opositores”. Em economias em crise, com sistemas de protecção social condenados a prazo, mas cujas reformas têm, para os cidadãos, custos significativos no imediato, um político dificilmente pode fugir à tentação de mentir. Quando essa mentira se tornar evidente, terá de viver com as consequências de ter optado por ela, nomeadamente, a revolta dos cidadãos.
Veja-se o caso do actual Governo: A necessidade de vencer as eleições levara o PS a, na campanha, ser no mínimo irresponsável, quem sabe, desonesto, na apresentação de determinadas propostas. Os constrangimentos da governação obrigaram o PS a ir contra algumas dessas promessas, e a necessidade (principalmente com a “mentira” de Durão ainda fresca na memória dos cidadãos) de justificar essas contradições obrigou o PS a mentir quanto à natureza da própria governação, escondendo as razões para as suas propostas, razões essas que poriam a nu a desonestidade da campanha. Para esconder uma mentira, o PS e o Governo lançavam outra para cima da mesa.
O resultado é, como mostra, num livro que merece ser lido (The Rise of Political Lying, Free Press, 2005), o jornalista britânico Peter Oborne, o enfraquecimento do poder dos cidadãos. Ao mentir, um político retira aos cidadãos a possibilidade de emitir um julgamento sobre o futuro político da comunidade. Ao mentir, o político não coloca aos cidadãos a possibilidade de escolher qual o caminho que desejam para a sua comunidade, visto que não lhes diz o que pretende fazer. Por paradoxal que possa parecer, numa época em que têm acesso a muito mais informação do que alguma vez tiveram os seus antepassados, os cidadãos das democracias europeias cada vez menos se pronunciam sobre o que realmente está em questão. Ao mentir, o político retira aos eleitores a responsabilidade pelas suas opções. Quando estes tiverem de pagar o preço das escolhas feitas pelo poder à margem dos mecanismos de responsabilização, a sua confiança nos eleitos diminui, forçando este últimos a mentir para ultrapassarem essa desconfiança.
Os resultados deste ciclo vicioso são óbvios. A crise económica e dos sistemas de protecção social, cuja dificuldade de reformar conduzem à mentira política, agravam-se, o que por sua vez torna ainda mais difíceis as reformas necessárias para as ultrapassar, o que leva os políticos a sentirem uma tentação ainda maior de iludir o eleitorado, conduzindo a uma maior descrença em relação aos políticos, o que dificulta ainda mais as reformas, o que faz agravar a crise na origem do ciclo vicioso. À medida que este avança, e os governantes têm cada vez mais dificuldades em conseguirem o apoio dos eleitores, as condições de vida de todos nós vão-se agravando progressivamente. Sem revoluções, sem mudanças de regime, sem ditaduras. Apenas com crescentes dificuldades quotidianas para todos. O que cria as condições para que os eleitores se sintam atraídos por soluções eleitorais populistas, que nada resolverão. Apenas agravarão a crise, e acima de tudo, a descrença dos cidadãos em relação à política. O ciclo vicioso alarga-se, e as suas consequências são cada vez mais catastróficas.
A maior ameaça à democracia é, de certa forma, ela própria, a maneira como hoje funciona, as circunstâncias em que hoje vive e a falta de capacidade ou coragem dos políticos para as ultrapassarem. Partidos como o BE ou o PNR (o caso do PCP, por razões históricas, é diferente), mais do que uma ameaça, são um sintoma da doença auto-imune que apoquenta não apenas o nosso país, mas todas as democracias europeias.
Posted by Bruno at 10:42 PM
abril 18, 2007
Convencido
Consta que uma parte significativa dos "portugueses" está convencida da santidade do Primeiro-Ministro. Eu também já estou convencido. De que José Sócrates foi favorecido na sua licenciatura na UnI. E se já as contradições entre as várias explicações dadas, as contradições entre os vários documentos relativos à licenciatura, o teste de Inglês Técnico enviado depois da data de licenciatura avançada pelo próprio Primeiro-Ministro, eram suficientes para se pôr em causa a inocência do Primeiro-Ministro neste "caso", a triste conferência de imprensa de hoje apenas fez dissipar todas as minhas dúvidas.
Já vários bloggerscomentaram como foi notório o esforço de ilibar Sócrates de todas as acusaçõeas que lhe são feitas. Mas quem tenha estado atento terá certamente percebido como o senhor da Uni "meteu os pés pelas mãos". Questionado por uma jornalista da TVI, afirmou que a pauta de classificação da cadeira de Inglês Técnico (a do trabalho feito em casa, com frases de um inglês boratiano como "it is not forgotten the necessity"), como pode ser lido aqui) não tinha data, o que aparentemente, não lhe causa qualquer tipo de perplexidade. Afirmou ainda , quase sem querer e sem mostrar qualquer preocupação, que não existia qualquer registo de outra prova de avaliação (exigida pelas regras da UnI) que não o dito "trabalho". Ora, se não há registo de outra prova de avaliação, ela, para todos os efeitos práticos, não foi feita. Como escrevi há uns dias, não há presunção de qualificação. Não é sobre o jornalistas que recai o ónus da prova, os jornalistas não têm de encontrar provas de que Sócrates não realizou outra prova de avaliação. Uma licenciatura só é válida se todas as provas necessárias tiverem sido realizadas de forma satisfatória. O ónus da prova recai sobre o pretenso licenciado. Se não existem registos de que tudo aquilo que se exige a um normal licenciado foi efectivamente realizado, então o aluno em causa está em falta. E se mesmo em falta, lhe foi atribuído o grau de licenciatura, então esta foi-lhe atribuída indevidamente. Se é verdade que a conferência de imprensa pretendia ilibar o Primeiro-Ministro, a verdade é que ela, tendo em conta tudo o que antes já tinha vindo a lume (das incongruências, às relações duvidosas de Sócrates com os seus professores), acabou por nos dizer o suficiente para se perceber que José Sócrates beneficiou da sua posição de deputado e de Secretário de Estado para obter de forma irregular uma licenciatura na UnI. E, mais grave ainda, a confirmar-se a ideia de que o Ministro Mariano Gago terá exercido a sua "influência" (ou seja, uma eventual promessa de não encerrar a UnI) em troca da confirmação da "exemplaridade" do Primeiro-Ministro (estragada, no entanto, pela atrapalhação do senhor da UnI), não será apenas sobre o Primeiro-Ministro que deverá cair o juízo público, mas sobre todo um Governo que não hesitou em usar o poder do Estado para benefício dos interesses privados do seu chefe.
Nixon não caiu por causa dos actos ilgeias no Hotel Watergate. Caiu devido ao encobrimento da verdade que operou posteriormente. Sócrates, tudo leva a crer, incorreu em práticas pouco lícitas em benefício próprio na sua "juventude" (uma "juventude" tardia, mas típica de um produto das "jotas" como é o caso). Mas se essa falha apenas o responsabiliza a ele, o triste espectáculo dos últimos dias responsabiliza todo um Governo, e arrisca-se a causar danos bem mais profundos na credibilidade da classe política portuguesa, já de si pouco nas graças do cidadão comum. A não ser que optemos por ficar adormecidos, e ignoremos a realidade que está já, para quem a queira ver, à frente dos nossos olhos. O que, a acontecer, será um sintoma de algo ainda mais grave.
Posted by Bruno at 09:55 PM
abril 17, 2007
Um Pesadelo
Depois do episódio de hoje do programa de António Barreto na RTP, em grande parte dedicado aos imigrantes em Portugal, fiquei a pensar em algo que já algumas vezes me ocorreu: como deverá ser para um imigrante que se queira legalizar o contacto com os funcionários públicos do SEF? Se nós portugueses, que já estamos habituados ao tratamento que o fuinconário público médio dá ao cidadão comum, trememos (eu pelo menos tremo) sempre que temos de "tratar" de um qualquer "papel" numa qualquer repartição pública, imagine-se o pesadelo que o imigrante enfrenta da primeira vez que se depara com esse Inferno...
Posted by Bruno at 11:25 PM
abril 16, 2007
Ainda Acredita?
Em alguns locais da capital, o cidadão atento poderá encontrar vários cartazes do PSD, chamando a atenção para algumas promessas eleitorais do Governo, e para o seu incumprimento. Por fim, faz-se a pergunta: "Ainda acredita?". À primeira vista, a campanha é positiva. Pois ela chama a atenção para aquele que é o aspecto mais negativo da governação de Sócrates, o incumprimento de promessas eleitorais, ainda para mais associado a uma política de propaganda que visa esconder a realidade dos cidadãos, cujo único resultado, a longo prazo, será a descredibilização da política e a degradação do regime democrático. Mas, apesar desse mérito, a campanha do PSD corre o risco de vir a ser contraproducente. Pois aquele "ainda acredita?" apenas lembra ao cidadão comum a ideia que ele tem de todos os políticos, que mentem e apenas querem "ir para o poleiro". Inadvertidamente, a campanha do PSD poderá acabar por contribuir para o agravemento do problema que visa combater.
Posted by Bruno at 10:17 PM
abril 14, 2007
Sócrates Deve Pedir a Demissão (publicado também no Insurgente)
Se o meu vizinho me acusar de lhe roubar qualquer coisa, tem de o provar. Se eu afirmar que sou médico, cabe-me a mim prová-lo. Pois se há presunção de inocência, não há presunção de qualificação. Uma pessoa não está habilitada a exercer medicina até prova em contrário, só a pode exercer se provar possuir as qualificações necessárias. Por isso mesmo os protestos de José Sócrates de estar perante a caricata situação de ter de "provar a inocência" não fazem sentido. Pois foi ele que afirmou ter um curso, é a ele que cabe provar que o tem, não aos jornais ou aos cidadãos provar o contrário.
Ora, as "explicações" que Sócrates deu na televisão são manifestamente insuficientes. Mais ainda, entram em contradição com factos que entretanto vieram a lume. E o seu comportamento tem-se caracterizado pela dissimulação (a frase acerca do momento em que conheceu um dos seus professores, a ausência de uma menção à sua curta frequência do curso de direito na Universidade Lusíada), não por um esclarecimento satisfatório das dúvidas que surgiram acerca do seu passado. Particularmente graves são os factos que mais recentemente se tornaram do conhecimento público: os diferentes certificados com cadeiras e notas diferentes, e os números de telefone com indicativos que só surgiram em 1999, presentes em documentos datados de 1996, que parecem confirmar a tese de que a sua licenciatura foi objecto de favorecimento pouco lícito por parte da UnI a um deputado e membro de um Governo.
Neste momento, José Sócrates deve pedir a demissão do seu cargo de Primeiro-Ministro. E não apenas por estar em causa um comportamento "pouco digno" por parte de alguém que ocupa um cargo com a importância do de Primeiro-Ministro. Afinal, desde que foi eleito, Sócrates ainda não fez outra coisa que não atirar areia para os olhos dos cidadãos, e até agora não foram muitos os que ficaram incomodados. Deve pedir a demissão, porque à medida que os factos contraditórios (alguns) e comprometedores (todos) sobre o seu passado se tornam cada vez mais evidentes, ou estes acabam por ser enterrados por uma comunicação social servil (o que seria inaceitável, e que justificaria uma imediata intervenção do Presidente da República), ou a discussão em seu torno acabará por corroer a actividade do governo.
Desde 2005 que Sócrates vive no Olimpo, idolatrado como um homem "firme", "competente" e "credível". Mas como diz o filósofo Yorke, "gravity allways wins", e o "bluff" de Sócrates na entrevista à RTP talvez acabe por lhe sair demasiado caro. A multiplicidade de explicações para os mesmo factos mostram uma atrapalhação que contrasta com a "firmeza" que até agora tem sido mostrada aos crédulos. O fantasma de uma licenciatura comprada com favores afecta a imagem de "competência", e as dissimulações e incongruências minam a suposta "credibilidade" do Primeiro-Ministro. Para além do mais, as dúvidas acerca do seu passado concentram a atenção mediática, e se a desviam de temas desconfortáveis para o governo (como as notícias de um crescimento insignificante em comparação com a "Europa", ou de um desemprego cada vez maior), também a desviam da sua propaganda (veja-se como o monólogo propagandístico na entrevista de quarta-feira quase passou despercebido nos telejornais dos dias seguintes, ao contrário do "caso" da licenciatura). E sem a propaganda, este Governo não é nada.
Ao permanecer no cargo, Sócrates vai apenas atrair cada vez mais atenção para o seu passado, e o nevoeiro que paira sobre ele irá fragilizar a acção do governo. E se Sócrates não perceber isto, talvez fosse bom que alguém no PS e no Governo, para bem deles próprios, o fizessem vê-lo. Uma coisa é certa: continue Sócrates no poder ou não, todo este "caso"é apenas mais uma facada na credibilidade da democracia portuguesa, e irá conduzi-la mais uns passos no sentido da sua progressiva degradação.
Posted by Bruno at 09:50 PM
abril 13, 2007
O Erro do Presidente
Nem sempre concordo com o Presidente Cavaco Silva. Não concordo, por exemplo, com a sua análise acerca da prestação do Governo, como não concordo com o seu apreço pela "Constituição" Europeia. São discordâncias que, no entanto, não me fazem arrepender do meu voto. Não votei em Cavaco Silva devido às suas opiniões em relação a estes aspectos. Votei nele, isso sim, por, entre outras razões, o ver como o único que poderia contribuir para evitar que o sistema político português prosseguisse no seu caminho de acentuada degradação aos olhos dos portugueses. Por isso mesmo acho particularmente graves as suas declarações em Riga, defendendo a não-realização de um referendo à "Constituição" Europeia. Pois o que o Presidente fez foi incentivar os dois maiores partidos portugueses a quebrarem um compromisso eleitoral. O que o Presidente fez foi incentivar o PS e o PSD a comportarem-se da forma que os tem descrebilizado aos olhos dos cidadãos. Ao proferir aquela declaração, o Presidente da República fez precisamente o contrário daquilo que deveria ter feito. O que alguém na sua posição e com a sua responsabilidade não poderia nunca fazer.
Posted by Bruno at 09:39 PM
Carteira
O leitor certamente se recordará da polémica em torno da carteira profissional da jornalista Maria João Avillez, após esta ter participado numa campanha publicitária de um banco. Os mesmos senhores que tanto se incomodaram com a suposta incompatibilidade entre a presença nessa campanha e o estatuto de jornalista de Avillez parecem não ver semelhante incompatibilidade entre o estatuto de jornalista de Judite de Sousa e a sua participação numa campanha promovida pelo Governo português. Apesar de tudo, não é de espantar. Jornalistas a servir o Governo é coisa que não falta por aí.
Posted by Bruno at 09:35 PM
abril 12, 2007
Vésperas de Eleições Em França
Há cinco anos, eu estava em Paris cerca de um mês antes das últimas eleições presidenciais francesas. Nas bancas de jornais, multiplicavam-se as fotografias de Chirac e Jospin, lado a lado, à espera do confronto eleitoral. As ruas, essas, eram marcadas pela abundância de pedintes magrebinos e polícias armados até aos dentes, e pela total ausência de mulheres bonitas. Hoje, não estou em Paris, mas imagino que as bancas de jornais estejam agora repletas de fotografias de Sarkozy e Royal (com uma ou outra de Bayrou). E nas ruas, imagino que continuem os pedintes magrebinos, e que, tendo em conta o espalhafato de Sarkozy no Ministério Interior, haja ainda mais polícias armados até aos dentes (como imagino que as mulheres bonitas continuem desaparecidas). Há cinco anos, foi nesse clima que Le Pen conseguiu chegar à segunda volta com Chirac, e se criou o falso consenso democrático que deu o poder a Chirac mas lhe retirou toda e qualquer autoridade. Resta saber se desta vez o cenário de repetirá, e quem terá a "sorte" de ter a "rifa" que há cinco anos saiu a Chirac.
Posted by Bruno at 09:57 PM
abril 11, 2007
Uma Pasta Cheia e a Dignidade do Parlamento
Segundo uma notícia do Sol, tirado do eclipse em que o dito órgão de comunicação social se encontra pelo André Azevedo Alves, o Primeiro-Ministro, na sua entrevista de hoje à RTP, irá levar consigo uma "pasta de documentos" comprovando as suas habilitações literárias, para os mostrar perante as câmeras e assim dissipar todas as dúvidas acerca do seu passado. Claro que, como nota o João Miranda, ninguém rá ler o que lá está efectivamente escrito, podendo portanto "ser a Certidão de Nascimento" que irá impressionar "à mesma". E claro que ao vassalo de serviço não ocorrerá perguntar ao Primeiro-Ministro por que razão não mostra ele esses documentos ao parlamento, para que os deputados, a quem ele, em última análise, responde, e dos quais dependem possam efectivamente lê-los e analisá-los. E nesse caso, deverão ser os próprios deputados a exigirem a Sócrates a disponibilização desses documentos. Por uma simples razão: para defender a dignidade do órgão para qyue foram eleitos. Em toda esta confusão, só de uma coisa toda a gente pode ter a certeza: o Parlamento viu o seu papel de fórum democrático totalmente desvalorizado, e com isso perdemos todos.
Posted by Bruno at 07:23 PM
abril 10, 2007
O Estado Asmático
Vivo com a asma desde os meus três anos, e tendo em conta que não sou uma pessoa de fácil convívio, surpreende-me que ela ainda não me tenha deixado. Mas neste tempo todo, já consegui aprender alguma coisa acerca dela. As crises podem surgir nas mais variadas alturas. Provocadas por certas circunstâncias (esforço físico, por exemplo), ou pela presença de certos elementos que as potenciam (poléns, citrinos, governos PS). Quando surgem, a respiração torna-se difícil, e a única forma de a regular é tomar a milagrosa droga que me dilata os pulmões. Mas trata-se apenas de "aliviar" momentaneamente o meu problema, não de me curar. A asma não desaparece, e limito-me a ficar à espera da próxima crise.
O mesmo se passa com o Estado português. Provocadas por certas circunstâncias (abrandamento da economia mundial, por exemplo) ou pela presença de elementos que as potenciam ( abrandamento da economia, demasiados funcionários públicos, Estado demasiado interventivo, governos PS), as crises podem surgir nas mais variadas alturas. Quando surgem, o normal funcionamento do Estado torna-se difícil, e a única forma de o regular que os nossos governos conhecem é "cortar" nos "privilégios" dos funcionários públicos e dos dependentes do Estado em geral. Mas trata-se apenas de "aliviar" momentaneamente o seu problema, não de o curar. O excesso de àreas em que o Estado intervem não desaparece, como não desaparece o elevado número de funcionários públicos que implicam uma despesa elevada. Os governos PS até vão desaparecendo, mas não serve de nada. A "asma" do Estado continua, e todos nos limitamos a ficar à espera da próxima crise.
Posted by Bruno at 06:38 PM
abril 09, 2007
A Absoluta Necessidade da Maioria
Em tempos, o dr. Mário Soares terá lamentado, de forma célebre, que o PS estivesse repleto de "pessoas" que a ele haviam aderido "porque o PS estava na àrea de poder", que pensavam que "a política era o exercício do poder e não o exercício de oposição", homens "gestores de empresas ou candidatos a tal" ou à "direcção de sectores da administração pública". É uma frase que me merece ser recordada, não só por ser bem ilustrativa da realidade dos primeiros anos do Partido Socialista, mas por explicar a política do actual Governo.
O que a frase mostra é a importância, para o PS, da obtenção de uma maioria absoluta. Partido que cresceu no Estado, precisa do Estado para manter o apoio da sua base social de apoio. E precisa, acima de tudo, de dominar sozinho o Estado, para que não tenha de partilhar as suas já de si limitadas benecesses. A história do Partido Socialista até 2005 é a da incapacidade de obter esse domínio absoluto do Estado, e do preço que foi pagando por esse falhanço.
Houve tempos em que se falou da "mexicanização" de Portugal, do suposto perigo de uma eternização do PS no poder. De facto, de 74 a 78, nunca (excepto aquando da ruptura com o "gonçalvismo") o punho cerrado dos socialistas (não haviam ainda rosas para os lados do Rato) esteve fora do poder. Mas essa aparente demonstração de força escondia a extraordinária fraqueza do dr. Soares e do seu "séquito". Em 1976, o então Primeiro-Ministro queria fazer do PS o "partido-charneira" da "vida política" portuguesa, o único capaz de fazer alianças "à direita ou à esquerda". Não era suficientemente "esquerdista" para que um "dirigente do PPD" não se congratulasse, nesse mesmo ano, com o "triunfo dos democratas", nem "reaccionário" ao ponto de o PCP não o procurar atrair para junto dos seus braços. Mas na realidade, o PS estava prisioneiro na "ponte de diálogo" que ele próprio constituía, pois nada podia fazer a partir dela. Qualquer aliança o retirava dessa sua posição de mediador, juntando-se ou à "reacção" ou à "revolução".
Não que isso impedisse o dr. Soares de encher o Estado com as mesmas "pessoas" de quem, anos depois, se viria a queixar. A crise económica e financeira que o país defrontou, no entanto, impediu-o de governar. Em Novembro de 1977, Soares ainda não via qualquer necessidade de se aliar a um qualquer outro partido com representação parlamentar para solucionar a "crise", que aliás era considerada pelo dr. Salgado Zenha como "artificial". Ainda foi proposta uma "convergência" dos "democratas" (ou seja, PPD, PS e CDS), mas Soares achava (não sem razão) que ela apenas traria a "destruição do PS. De uma aliança com Sá Carneiro, em particular, Soares dizia o pior. Havia supostamente "estalado" o "verniz social democrata" do PPD, e Soares afirmava que não se coligaria com "esse partido que mal se distingue do CDS". Distinguia-se, no entanto, num aspecto essencial: na dimensão eleitoral. O CDS era mais pequeno, e portanto, tinha menos "empregos" para distribuir. E quando a ingovernabilidade arriscava a trazer eleições antecipadas, o PS lá "convergiu" com o CDS. Não durou muito tempo. Eanes puxou o tapete ao II Governo Constitucional. Avisou o CDS, mas não Soares, que se queixaria de que as "bases reaccionárias" do CDS haviam "forçado" os seus dirigentes a denunciarem "unilateral e levianamente" o "acordo de incidência parlamentar" que com tanto sacrificío Soares lhes oferecera para juntos "salvarem" o país.
Rapidamente estaria a queixar-se de outra coisa, dos "oportunistas demasiado apressados e pouco clarividentes" que procuraram "lugares noutras organizações". Fora do poder, não só deixava de poder oferecer "empregos", como tinha de lidar com as lutas internas que ocuparam o PS nos anos seguintes. As divergências em relação a Eanes, à FRS, à forma de conduzir a oposição à AD, à revisão constitucional, tudo isso afligiu o PS enquanto os seus "quadros" não puderam beber da fonte pública. Em 1983, voltariam a ganhar eleições. Mas de novo sem maioria absoluta. Perante uma crise semelhante à de 78, Soares não quis arriscar o "imobilismo" de que então havia sido acusado. E como o adversário já não era apenas o PCP, mas essencialmente Eanes, chamou para ao pé de si, não o pequeno CDS, mas o PSD. Claro que o quis subordinar, como a ruptura que Cavaco Silva acabaria por operar demonstraria. Mas mais uma vez Soares deixava parte dos seus "clientes" à porta dos ministérios, para dar a vez aos do parceiro. Quando caiu o Bloco Central, acabou a paz no Rato.
Nem a vitória de Soares nas Presidenciais serviu de muito ao PS. Os seus novos líderes tinham tudo menos a simpatia de Soares, e até Guterres, que traria o partido de novo para São Bento, teve de enfrentar a hostilidade do Presidente, que não era exclusivamente destinada a Cavaco e aos "cavaquistas". Era um socialista católico (para alguns adeptos do clube, "demasiado católico"), não um "laico" como Soares se orgulhava de ser, e para alguns, nem de um "socialista" se tratava. Claro que a proximidade do poder amansou estas diferenças, mas talvez por elas existirem, Guterres preferiu, uma vez obtida a maioria relativa em 1995, governar sozinho. Uma aliança formal com outras forças (o que, tendo em conta a conjuntura, e a personalidade do então Primeiro-Ministro, significaria uma aliança com o PP de Monteiro), apenas iria significar menos "jobs" para os sedentos "boys" do Rato, e como se viu pela sofreguidão com que deles se serviram nos anos seguintes, esse era um luxo a que eles não se podiam dar. Mas para governar com maioria relativa, teve de, com o seu famoso "diálogo", conciliar todo e qualquer interesse, o que não só lhe deu a duvidosa reputação de "indeciso", como criou as condições do seu futuro fracasso.
Em 1999, a conjuntura económica ainda lhe deu um novo mandato, às portas da maioria absoluta, mas a "conciliação" que teve de promover não só deixaria de ser possível, a partir do momento em que a fraqueza do PS se tornou tão evidente que ninguém quis ser "conciliado" (preferindo explorar todas as deficiências das políticas de Guterres), como, enquanto o foi, saiu demasiado cara. Recorde-se que Guterres começa a perder o favor público a partir do momento em que (com o "Orçamento Limiano") usa os benefícios que o poder gosta de oferecer aos que lhe garantem a sobrevivência, a favor do eleitorado local de um outro partido. Sócrates, que nestas coisas é tudo menos parvo, percebeu como os governos de coligação fragilizam o PS dos "empregos", a verdadeira "alma" do dito, e os de minoria, e o "diálogo" que eles implicam, diminuem a sua margem de manobra.
Por isso, em campanha eleitoral, a maioria absoluta foi o objectivo central do PS. Por isso, no Governo, toda a condução política se subordina à sua renovação em 2009: as suas "reformas" têm como propósito a criação de uma imagem de líder "decidido" que contraste com os seus antecessores (nomeadamente Guterres); os constantes anúncios de novos investimentos visam criar a ilusão de um país que "mexe", que está a sair da "crise", que "acredita"; e quando estes têm tradução prática, aquém, muito aquém do que fora prometido, ou sem os resultados esperados, logo a máquina de propaganda do Governo trata de os maquilhar. Exemplos não faltam.
Mas também esta postura tem um preço. Por um lado, a crispação do "combate" aos "privilégios" acabará por criar descontentamento em tantos lugares que poderá fazer com que o feitiço se volte contra o feiticeiro. Por outro, se não mantiver essa postura, essa imagem de "anti-Guterres", que aparentemente terá seduzido até o dr. Soares, começará a ruir, e com ela o edifício do poder socialista. Mais grave ainda, a ineficácia das "reformas" do Governo não pode ser escondida por muito tempo, e quando se tornar clara, aos olhos de todos os que hoje adormecem no colo forrado por Giorgio Armani do Primeiro-Ministro, a distância entre o que foi repetidamente prometido e o que acabou por ser alcançado, Sócrates não poderá sobreviver. Com ele morrerão os "empregos", e sem eles, o PS que só a custo suporta o "socratismo" entregar-se-á a uma luta bem mais fratricida que a de 78-83 ou a do pós-Bloco Central.
Poderia haver uma solução para este dilema. A honestidade. Se Sócrates quer fugir a este dilema, tem de ser honesto com os eleitores, explicar que as suas propostas têm tantos riscos como benefícios, e que a diferença em relação às da oposição está no diferente tipo de riscos que se está disposto a correr e que género de benefícios se ambiciona colher, sendo que o "melhor dos dois mundos" é impossível de ser conseguido. O problema é que Sócrates não quer correr o risco de que os eleitores escolham outro caminho que não o seu.
Posted by Bruno at 06:51 PM
abril 07, 2007
A Ler
O post do Miguel Noronha, acerca da proposta de privatização da RTP do PSD, e as críticas de Arons de Carvalho.
Posted by Bruno at 09:10 PM
abril 06, 2007
A Ambição de José Sócrates
Segundo o Expresso desta semana, o ex-Primeiro Ministro e actual exilado em Bruxelas, Durão Barroso (José Manuel, depois de admitido no programa de Protecção de Testemunhas da Comissão), estará a tentar convencer o actual Primeiro-Ministro, José Sócrates, a ratificar a "Constituição" Europeia sem realizar um referendo no nosso país. Pacheco Pereira já comentou o carácter anti-democrático do cozinhado que Durão e Sócrates preparam. Mas há ainda outro aspecto desta notícia que merece alguma atenção. Pois caso ela se confirme, ela irá confirmar como este Governo, e o Primeiro-Ministro em particular, pauta a sua acção tendo a sua imagem como prioridade. Sócrates quer fazer da "sua" Presidência da UE um sucesso aos olhos da "Europa", para mais uma vez se engrandecer aos olhos dos eleitores nativos. Tudo o que possa promover a imagem do "Portugal na linha da frente da Europa" será aproveiotado pelo Primeiro-Ministro. Mesmo um gigantesco passo em frente que falhe na presidência seguinte lhe servirá, pois ele será o "homem de visão", o seu sucessor o homem que não teve "pulso" para a conduzir a bom porto. E se Sócrates tiver a oportunidade de conduzir esse "salto em frente", ou seja, se Merkel levar a sua avante e conseguir reatar o processo de ratificação da "Constituição", Sócrates não quererá perder tempo em referendos e discussões públicas. A confirmar-se o cenário que a notícia do expresso permite antever, confirmar-se-à que Sócrates está disposto a quebrar uma promessa eleitoral parapromover a sua imagem. Confirmar-se-à que está disposto a esquecer a democracia para cimentar o seu poder.
Posted by Bruno at 09:35 PM
A Estrada de Damasco de Pelosi
Depois de visitar esse simpático país que é a Síria, Nancy Pelosi passou por Portugal. Sobre a anterior, vale a pena ler o post de Toby Harnden, United States Editor do Daily Telegraph. Ficam aqui alguns excertos:
"As any student of the US Constitution knows, there is one commander-in-chief and that is the president. Attempts by congressional leaders to supplant him weaken America's foreign policy because they allow its adversaries to play one element of the government off against another.
Rightly or wrongly, current US policy is to isolate Syria because of its support for Hezbollah, its interference in Lebanon and its role in allowing foreign fighters into Iraq.
Syria and its allies were clearly delighted by the visit of Pelosi, who is third in line to the presidency (which is why you won't see Bush and Vice President Dick Cheney do anything more dangerous together this side of January 2009 than stroll on the White House lawn).
(...)It is one thing for members of Congress to go on fact-finding missions abroad and to educate themselves on the foreign policy issues they will vote on. But it is quite another to attempt to open up lines of communication between Israel and Syria and attempt a diplomatic magic trick."
Posted by Bruno at 09:10 PM
abril 05, 2007
A Visão do Governo
Segundo o Diário de Notícias de hoje, o Governo "quer organizar uma Expo e um Euro em cada dez anos", ou seja, "um ou dois megaventos" a cada dez anos. É uma notícia interessante, naquilo que revela acerca deste Governo e do que caracteriza a sua "visão" do futuro do país. Por um lado, mostra como este Governo mantêm uma fé desmesurada (e mal direccionada) em "grandes projectos", em verdadeiros "poços" de dinheiros públicos de benefício duvidoso para os contribuintes que os alimentam. E segundo, mostra como o Governo "se vê" no poder, com legitimidade, com razão, para delinear "projectos" a muito longo prazo, como se acreditasse continuar a ser Governo daqui a dez, vinte, trinta anos. É uma hubris que o Governo pagará caro, e os cidadãos ainda mais.
Posted by Bruno at 09:37 PM
Uma Questão de Abertura
Num recente discurso no American Club, o dr. Paulo Portas afirmou que caso fosse eleito, desejaria um CDS/PP "abrindo ao centro-direita e ocupando descomplexadamente espaço". Tendo em conta que nenhum partido deseja excluir eleitores, a afirmação não tem naeda de extraordinário. Mas não deixa de ser curioso que ao mesmo tempo que fala de "liberdade de discussão", de o CDS/PP não ser como "seitas que segregam", enfim, de "abertura", o dr. Portas ter feito grandes esforços para que a organização das eleições directas para a liderança do seu partido fossem entregues a João Rebelo, homem que está para Portas como Luca Brazzi para Vito Corleone, e não tenha aceite uma figura como Lobo Xavier, que garantiria uma equidistância que traria tudo menos problemas para o processo eleitoral interno do CDS. As palavras de Portas podem ficar bonitas nos seus discursos de campanha, mas basta olhar para a sua acção concreta para perceber que não passarão daí.
Posted by Bruno at 09:23 PM
abril 04, 2007
A ERC e a Censura
O famoso "parecer" da ERC sobre do "caso Cintra Torres" já tinha sido suficiente para se perceber, mas a energia com que a dita ERC lançou mãos à obra a propósito das investigações jornalísticas ao percurso académico do Primeiro-Ministro acabam por comprová-lo: os poderes da ERC transformam-na num efectivo mecanismo de censura à liberdade de expressão dos órgãos de comunicação social e dos indivíduos que neles trabalham. E se há questão em que o Presidente da República deve intervir (mesmo que longe dos olhares públicos), está é sem dúvida uma delas.
Posted by Bruno at 09:52 PM
abril 03, 2007
Como a Esquerda Não Percebe a Imigração
No seu artigo do Público (já muito comentado por essa blogosfera fora), o aparentemente muito na moda Rui Tavares mostra-se muito incomodado por, a propósito do muito comentado cartaz do partido das casas de banho, o dr. Pacheco Pereira ter criticado a "hipocrisia da esquerda" em relação à imigração. Pacheco Pereira não precisa de defensores, e nem sequer se era isso que pretendia dizer. Mas há de facto, por parte da esquerda, uma espécie de "hipocrisia involuntária" em relação à imigração. Pois ao mesmo tempo que, cheios de louváveis intenções, enchem os seus tempos de antena com elogios à tolerância e apelos à integração, defendem um modelo social que, dificultando a mobilidade social, entrega esses mesmos imigrantes a uma pobreza crónica, da qual dificilmente conseguirão sair. É precisamente o modelo social que defendem que dificulta a integração que tanto (e bem) anseiam. A longo prazo, a "esquerda" irá perceber como esses seus dois objectivos são incompatíveis, e terá de abandonar um deles. Infelizmente para todos nós, e para os imigrantes em particular, temo que irão abandonar o da integração.
Posted by Bruno at 10:28 PM
Com Quem Portugal Compete
No Prós e Contras de ontem, o dr. Campos e Cunha procurou desvalorizar a questão da competitividade fiscal do nosso país em comparação com os países de leste. O dr. Campos e Cunha está "pouco preocupado" com as empresas que "saem daqui para a Estónia" (um bonito sentimento que os desempregrados certamente agradecem), mas com as que "saem da Alemanha" porque quer é que Portugal possa competir com países do topo europeu, como a dita Alemanha,e em relação a estes, já somos "fiscalmente competitivos". Não ocorre ao dr. Campos e Cunha que as empresas que "saem da Alemanha" possam preferir sair para a Estónia e não para Portugal, precisamente por a Estónia ser mais competitiva a nível fiscal que o nosso país. Não lhe ocorre que a Estónia (ou outros países em situação idêntica) não só nos "tiram" as empresas que já cá estão, como aquelas que optam por nem sequer para cá vir.
Posted by Bruno at 09:56 PM
abril 02, 2007
Uma Questão de Milagres
O senhor Ministro das Obras Públicas, Mário Lino, avisou a oposição de que o governo só recuará na questão da Ota se surgir uma alternativa "milagrosa". Já deu para perceber que o Governo usa a contestação à Ota como uma forma de mostrar como é decidido e não recua perante críticas. E que só por "milagre" conduzirá uma política que não tenha no centro das suas preoucpações a mensagem propagandística a transmitir aos eleitores.
Posted by Bruno at 08:56 PM
A Bela e o Mestre
Sobre o dito concurso da TVI, o Tiago Cavaco não podia ter mais razão ao louvar "um Carlos Quevedo mais solto e justamente cansado da catequese sufragista de Clara Pinto Correia" (o par de vezes em que mandou calar a dita senhora foram dos melhores que já vi em televisão) e "a correcta percepção de Rui Zink que há muito não víamos uma enfermeira tão eficaz quanto a Vera."
Posted by Bruno at 08:49 PM
abril 01, 2007
No Insurgente
Já pode ser lida a mais recente edição da minha coluna semanal A Semana Política: "Durante toda a semana, muitos aguardavam impacientemente pelo confronto. Diziam que era decisivo, e por isso a expectativa era grande. Como o leitor certamente já percebeu, tratava-se do Conselho Nacional do CDS/PP. É verdade que no Estádio da Luz estava em jogo o título nacional de futebol. Mas em Torres Novas, iria decidir-se algo que entusiasma milhões à volta do mundo: qual a forma como irá ser disputada a liderança do partido de Ribeiro e Castro e Paulo Portas." A coisa continua, mas não fica muito melhor. Aliás, como no CDS/PP.
Posted by Bruno at 09:58 PM