Escrito pela mão invisível de Bruno Alves. Comentários e opinião: alves.bm@netcabo.pt

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fevereiro 28, 2007

A Ler

Sobre a necessidade da liberdade de escolha na Educação, os textos do João Miranda e do Luís Silva.

Posted by Bruno at 10:42 PM

(In)segurança

O Primeiro-Ministro José Sócrates escolheu para tema do debate parlamentar deste mês a "segurança interna". Mostra apenas o quão inseguro está, relativamente à prestação do seu governo no que diz respeito a outras àreas, como o Serviço Nacional de Saúde ou o emprego.

Posted by Bruno at 03:17 PM

fevereiro 27, 2007

Dois Anos

O Insurgente faz dois anos, e comemora-os com as contratações de Patrícia Lança, Migas e Alberto Gonçalves. Para mal da instituição, ainda ninguém teve o bom senso de aplicar uma chicotada psicológica a este vosso rapaz, que continua a escrever por lá uma coluna semanal. A mais recente pode já ser lida aqui.

Posted by Bruno at 11:15 PM

A Vã Esperança Em Paulo Portas

Há dias escrevi que "é realmente extraordinário que ainda haja gente disposta a depositar esperança" no regresso de Paulo Portas à intervenção política partidária. E até Vasco Pulido Valente parece abandonar o seu habitual (e louvável) cepticismo, escrevendo no passado domingo que "se o futuro CDS de Paulo Portas for subsersivo, sem ser populista, talvez nos tire um dia desta vil tristeza". Percebo o sentimento de VPV, mas não percebo como se pode ver em Paulo Portas uma possível "subversão" dos "velhos vícios portugueses" cujos meios para a sua cura, de acordo com VPV, "horrorizam o regime estabelecido". Pois Portas, juntamente com Durão e Santana, é apenas e só um exemplar produto desse mesmo "regime estabelecido". Um "regime estabelecido" recheado de políticos que, apreciadores das "lições" e "exames" de Marcelo Rebelo de Sousa (mesmo não gostando do "professor"), prestam mais atenção aos "factos políticos" do que às políticas, mudando de posições como a Itália de governos.

No blog da Atlântico, o Henrique Raposo critica os que, segundo ele, afirmam que "em Portugal um político não pode mudar de ideias e de posições". Nada tenho contra políticos que mudem de ideias (embora possa ter algo contra as ideias). Mas desde que essa mudança seja explicada. Eu percebo por que razão Durão Barroso deixou de ser do MRPP. Eu percebo (mas não concordo), por que razão Andrew Sullivan deixou de apoiar a intervenção americana no Iraque. Ora, o dr. Portas manifestava-se em 1992 contra o Tratado de Masstricht, e a perda de soberania que este trazia em inúmeras àreas, mas já não se incomodava, em 2004, com as perdas de soberania em outras àreas, previstas na "Constituição" Europeia, sem nunca explicar por que razão se tornara "eurocalmo". Como nunca explicou por que abandonou a agenda populista que gritava nas feiras de Portugal, passando, em 2005, a defender um CDS "liberal", que olhasse para um eleitorado mais "urbano" em vez das velhinhas do Minho (onde este "liberal" pôs o Estado a "salvar" uma empresa em crise), para, poucos meses depois, vir dizer que Portugal não era "Chicago". Como não explicou como passou do populismo "anti-políticos" dos seus artigos de jornal à (artificial) "pose de Estado" no Ministério da Defesa. Como não explicou por que razão o ex-director do Independente exigia o escalpe de todo o ministro que fosse suspeito de levar um cobertor da TAP para casa, mas, já suspeito no "caso Moderna", não via (e aqui justificadamente) razão para seguir os critérios que outrora aplicara a outras. É Portas, e não os que o criticam, que "troca de convicções consoante a dança do poder".

Claro que, como o Henrique diz, o "político ou é útil ou inútil. O político ou é necessário ou desnecessário." Claro que posso votar num político que não siga à letra o que eu penso, por achar que ele irá no sentido certo, mesmo não indo suficientemente longe. Claro que para votar num político, não preciso saber se ele realmente acredita no que está a propôr. Mas eu preciso de acreditar que ele vai fazer o que propõe, seja por que razão for. Este é o meu problema com Portas. Portas não irá surgir do nada. Portas não é como Blair no início da carreira, que podia fazer duas pessoas, com opiniões opostas, acreditarem que o "verdadeiro" Blair era o que concordava consigo, e não com o outro. Portas tem um passado. Portas já disse demasiadas vezes uma coisa e o seu contrário, para lhe ser dado o benefício da dúvida. Já disse demasiadas vezes uma coisa e o seu contrário para se poder acreditar que irá fazer o que propõe. E só mesmo o fascínio (que já vem de Soares) dos portugueses pelos "animais políticos" capazes de guardarem tudo e mais alguma coisa nas suas gavetas, só para terem oportunidade de sentar na cadeira do poder, permite perceber como Paulo Portas vê margem de manobra para mais uma aventura.

Posted by Bruno at 10:15 PM

fevereiro 26, 2007

Finalmente Foi A Vez De Scorsese

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O que terá sido mais difícil para Scorsese? Esperar pela sexta nomeação para receber finalmente o muito merecido Óscar (e merece-o também por The Departed), ou ter de aturar uma performance de Celine Dion na noite em que o recebeu?

Posted by Bruno at 10:08 PM

fevereiro 25, 2007

Oscars

Quem serão os vencedores dos Óscars deste ano? Em algumas categorias, o vencedor é prevísivel, noutras, nem tanto. Mas em algumas delas, até é difícil de avaliar quem merece ganhar. Pela segunda vez em poucos anos, estarão, frente a fernte, os dois maiores colossos do cinema actual, Clint Eastwood e Martin Scorsese. Letters From Iwo Jima é um dos melhores filmes de guerra da história do cinema, e Eastwood foi capaz de fazer quatro grandes filmes em quatro anos. The Departed é um fenomenal exercício de Scorsese, um regresso aos seus grandes filmes, e há muito que merecia (e deseja) levar uma estatueta para casa. Na categoria de Melhor Realizador, embora achando que o prémio ficaria bem entregue a qualquer um dos dois, preferia ver Scorsese a ser premiado. Na de Melhor Filme, e já que Letters From Iwo Jima não está nomeado para Melhor Filme em Língua Estrangeira, Clint poderia receber um "prémio de consolação" que ninguém desdenharia. Nessa mesma categoria, a não ser premiado nenhum destes dois, a alternativa seria Little Miss Sunshine, que deverá (e merece) ficar com o Óscar de Melhor Argumento Original geralmente atribuído aos filmes independentes (o de Melhor Argumento Adaptado teria como devido vencedor The Departed, cuja adaptação de um filme de Hong Kong ganha um cunho muito pessoal e muito Bostoniano).

A estatueta de Melhor Actor irá provavelmente para Forrest Whittaker, actor que muito aprecio, mas cujo filme não vi. Em alternativa, talvez DiCaprio seja o vencedor, por um filme em que faz sotaque sul-africano, e não pela brilhante interpretação em The Departed, cuja não-nomeação faz tão pouco sentido como a ausência de Ken Watanabe pelo seu papel em Letters From Iwo Jima. A melhor Actriz deverá ser Helen Mirren, naquele telefilme posto nas salas de cinema que só teve o sucesso que teve por causa da personagem nele retratado. Kate Winslet, por um filme que (ainda) não vi, deverá ficar mais uma vez à espera de uma próxima nomeação. Nos Secundários, estão os grandes esquecimentos do ano. Jack Nicholson e Vera Farmiga, por The Departed, não só mereciam estar nomeados, como mereceriam ganhar. Não estando presentes, a minha simpatia divide-se, para Melhor Actor Secundário, entre Mark Whalberg (The Departed) e Alan Arkin (Little Miss Sunshine). Na categoria de Melhor Actriz Secundária, confesso que gostaria de ver Abigail Breslin (Little Miss Sunshine) levar a estatueta, mas a premiada deverá ser Jennifer Hudson, por uma xaropada musical que deverá também dar a Eddie Murphy (cujas comédias são muito cá de casa) o seu momento de glória. De qualquer das formas, as atenções estarão viradas para o "duelo" Scorsese/Eastwood. Independentemente de quem ganhar (até mesmo que nenhum deles ganhe o que quer que seja), o lugar de ambos na história do cinema americano já está garantido.

Posted by Bruno at 10:10 PM

fevereiro 23, 2007

Um Favor

Leio no Contra a Corrente que João Soares terá afirmado que não se pode "mostrar indisponível" para concorrer a umas eventuais eleições antecipadas na Câmara de Lisboa. Como nota o Carlos, isto apenas quer dizer que João Soares não quer mostra-se indisponível. Pois não só o pode fazer, como seria um grande favor que faria a toda a gente, a começar pelo próprio PS, que certamente teme uma candidatura de Soares quase tanto como uma de Manuel Maria Carrilho.

Posted by Bruno at 11:00 PM

fevereiro 22, 2007

O Preço da Governação de Sócrates

Na Quadratura do Círculo, a propósito dos dois anos da vitória eleitoral do PS de José Sócrates, Lobo Xavier afirmou que os governos que antecederam o actual (ou seja, Guterres, Durão e Santana) foram "Governos desastrosos", e que do ponto de vista do "funcionamento, discurso e organização" este Governo é melhor. Estas palavras de Lobo Xavier parecem ir ao encontro da percepção generalizada da "eficácia" do Primeiro-Ministro, a ideia de que, concorde-se ou não com o que Sócrates faz, ele governa com "eficácia". Mas precisamente por isso, a sua acção é, por paradoxal que possa parecer, mais danosa que a de Santana, por exemplo. A governação de Santana foi bastante danosa para o PSD, ao descredibilizar quase por completo o partido, mas a sua incompetência foi tão evidente (e tão evidentemente vergastada pela comunicação social) que nem teve tempo de prejudicar o país. Já a governação de Sócrates custará ao país um preço bem mais elevado. Pois quando o fracasso dessa governação se tornar evidente (e a governação será um fracasso, pois o seu objectivo é a preservação de um "modelo social" que se está a matar a si próprio), o facto de ela ter sido vista, durante muito tempo, como "eficaz", descredibilizará a classe política, como um todo, a um nível muito superior ao que aconteceu com Santana. O facto de Sócrates desperdiçar condições muito favoráveis apenas agravará o clima de desconfiança que já vai reinando no país. Quando se tornar evidente que as "reformas" do Governo não trazem a "salvação" prometida, os cidadãos dificilmente estarão dispostos a dar o seu apoio a um programa político que exija outras reformas, que a curto prazo poderão ter custos mais elevados. O Governo de Sócrates pode ser mais eficaz dos últimos anos, mas o preço que pagaremos pela sua acção será também o mais elevado.

Posted by Bruno at 11:31 PM

João Marcelino No DN

Parece confirmar-se a saída de João Marcelino do Grupo Cofina, para assumir um cargo de direcção no grupo que controla o Diário de Notícias. O leitor atento conhecerá o apreço que tenho pelo trabalho de Marcelino, mas apesar disso, ou melhor, precisamente por isso, não posso deixar de encarar a notícia com alguma preocupação. Como leitor do DN e da Sábado (bem como de colunistas do Correio da Manhã como Ferreira Fernandes e o Alberto Gonçalves), a ida de Marcelino para o DN é perigosa. Não posso deixar de temer, como leitor dessas publicações, um cenário em que Marcelino não tenha as condições para fazer o que quer do DN, não o conseguindo melhorar, e em que a Sábado, após a saída de Marcelino do cargo de director editorial do grupo Cofina, acabe por perder a qualidade que a tem caracterizado.

Posted by Bruno at 11:07 PM

fevereiro 21, 2007

Paulo Portas ou A Política Em 4-3-3

Há algumas semanas, o dr. Paulo Portas anunciou que iria anunciar, depois do referendo de 11 de Fevereiro, qual a sua posição sobre o futuro do seu partido. Ontem, no seu programa Estado da Arte, esse anúncio iria ter lugar. E o dr. Portas lá veio anunciar que dentro de alguns dias anunciaria o que tinha para anunciar. Mas se não disse a forma como pretende contribuir para que haja um "horizonte de esperança" para o CDS/PP, disse algo que, parecendo acessório, é bem mais importante, porque bem revelador da forma como o dr. Portas encara a política. Ao falar sobre as eleições americanas de 2008, e mostrando um enamoramento por Barack Obama que fica muito mal a alguém que defendeu tão ardentemente a intervenção no Iraque, o dr. Portas afirmou que a eleição de 2008 seria "uma grande eleição". Falou do acto eleitoral de 2008 nos EUA como qualquer adepto de futebol falaria de um Chelsea-Barcelona. Como um espectáculo, não como um confronto de ideias. Pois para Portas, a política é como um jogo de futebol, em que o que interessa é a prestação eleitoral, e não o conteúdo daquilo que se defende (aliás, o fascínio por Obama seria suficiente para mostrar como Portas prefere o vazio, desde que mediaticamente atractivo, ao conteúdo político das propostas de um candidato). Por isso Portas vai ajustando a sua táctica, ora jogando em 4-3-3, ora preferindo o 4-4-2, jogando umas vezes com extremos, outras apostando em interiores, conforme entende ser melhor para as suas ambições, esquecendo-se que, se no futebol se pode dizer que o resultado é mais importante que a exibição, na política, só os que agem de acordo com as suas convicções merecem ficar para a História. Numa altura em que Portas se prepara para intervir activamente no conflito interno do CDS/PP, seria bom prestar atenção a declarações como esta, e perceber o que ela mostra em relação à personagem. O que é realmente extraordinário é que ainda haja gente disposta a depositar "esperança" num "horizonte" sob a sua liderança.

Posted by Bruno at 10:31 PM

fevereiro 20, 2007

Confirmam-se Os Piores Receios

Se a experiência do Adolfo Mesquita Nunes servir de exemplo, confirma-se a veracidade das críticas dos adeptos da "globalização outra": o liberalismo faz mal à saúde.

Posted by Bruno at 10:17 PM

fevereiro 19, 2007

O Erro de Júdice

José Miguel Júdice anunciou a sua saída do PSD. Segundo o Expresso, Júdice considera que o PSD é "hoje muito equívoco", notando-se nele uma ausência de estratégia. Além do mais, considera que o actual Primeiro-Ministro, José Sócrates, "está a ocupar o lugar simbólico que antes ocuparam Sá Carneiro ou Cavaco." Está aqui o erro de Júdice. Sá Carneiro e Cavaco Silva foram verdadeiros reformadores. Sá Carneiro queria uma reforma constitucional, livre da dependência dos militares. Cavaco, apesar de ter criado problemas que ainda hoje temos de resolver (a questão da Função Pública), levou a cabo uma profunda mudança da realidade política portuguesa, abrindo à iniciativa privada uma série de actividades que lhe estavam vedadas (veja-se o caso da televisão, por exemplo). Sócrates não fez nenhuma verdadeira reforma. Fez remendos, habilmente vendidos como ataques a privilégios, para dessa forma provocar contestação, que por sua vez alimentava a ilusão de que estava realmente a mudar alguma coisa. Se Sócrates ocupa algum espaço que outrora coube ao PSD, é o de "parecer fazer" alguma coisa, não o de partido de governo verdadeiramente reformista como o foram o PSD de Sá Carneiro e o PSD de Cavaco. E não deixa de ser impressionante a facilidade com que gente da área do PSD se deixa iludir pelos truques do "animal feroz" socialista. Um dos grandes problemas do PSD, sob as lideranças dos ex-colegas de Júdice na "Nova Esperança" (Marcelo, Durão, e Santana), foi a excessiva preocupação com a imagem. Com a desfiliação de Júdice, o PSD fica com menos um militante a contribuir para o problema.

Posted by Bruno at 09:56 PM

fevereiro 18, 2007

No Insurgente

Já pode ser lida a mais recente edição da minha coluna semanal A Semana Política: "No passado domingo, o resultado do referendo que animou a “sociedade civil” e que permitiu ao governo duas semanas de descanso e rédea solta, lançou luz sobre a profunda divisão do país, entre os que são a favor da despenalização do aborto, os que são contra, e a vasta maioria dos que não quiseram dar a sua opinião. Todos unidos, no entanto, no desejo de que a discussão acabasse nesse dia, e Portugal pudesse regressar ao seu hábito de fingir que é um país normal. Não foi por isso de espantar que, em programas como o Fórum TSF (que esta coluna ouve sempre que pode), o povo falasse de mais um “logro” eleitoral. Pois logo no dia seguinte, começou outra discussão, em torno de como regular aquilo que o referendo aprovara." A coisa continua, mas não fica muito melhor.

Posted by Bruno at 11:09 PM

fevereiro 16, 2007

A Ler

No Observador, o André Amaral chama a atenção para este artigo de Charles Krauthammer sobre Vladimir Putin e o seu discurso em Munique, criticando a política externa dos EUA. Um pequeno excerto:

"There is something amusing about criticism of the use of force by the man who turned Chechnya into a smoldering ruin; about the invocation of international law by the man who will not allow Scotland Yard to interrogate the polonium-soaked thugs it suspects of murdering Alexander Litvinenko, yet another Putin opponent to meet an untimely and unprosecuted death; about the bullying of other countries decried by a man who cuts off energy supplies to Ukraine, Georgia and Belarus in brazen acts of political and economic extortion.

Less amusing is the greater meaning of Putin's Munich speech. It marks Russia's coming out. Flush with oil and gas revenues, the consolidation of dictatorial authority at home and the capitulation of both domestic and Western companies to his seizure of their assets, Putin issued his boldest declaration yet that post-Soviet Russia is preparing to reassert itself on the world stage."

Posted by Bruno at 10:48 PM

fevereiro 15, 2007

Letters From Iwo Jima

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Um conjunto de cartas de soldados japoneses é encontrado numa gruta da ilha de Iwo Jima. Numa delas, Saigo (Kazunari Nimomyia) pergunta se estará a escavar a sua própria sepultura. Era normal que o perguntasse. Em Fevereiro de 1945, aquela ilha seria invadida por forças americanas, e muitos dos soldados japoneses que preparavam a defesa de Iwo Jima acabariam mesmo por morrer ali. O comando das operações militares fora entregue ao General Tamadichi Kuribayashi (Ken Watanabe), que logo altera os planos de defesa, recuando as trincheiras para as dunas na praia e para o imponente monte Suribachi, para que, aquando do desembarque americano, a praia se enchesse de tropas inimigas, tornando assim possível provocar mais baixas. À medida que a batalha se prolonga, começam a faltar água, comida, medicamentos, munições. Os americanos vão avançando. Não só estão em superioridade numérica, como têm melhor equipamento de combate e comunicações mais eficazes. A derrota japonesa torna-se previsível. Os oficiais que desconfiavam de Kuribayashi (que um general americano, em Flags of Our Fathers, havia dito ser o homem mais inteligente naquela ilha) logo pretendem, no espírito militar japonês, o suicídio dos seus homens. Kuribayashi pretende que eles resistam, que recuem nas suas posições, para assim prosseuguir o combate. À medida que a batalha prossegue, os japoneses já não estão apenas a lutar contra os americanos. Estão em conflito consigo próprios, não sabendo se deverão fugir para junto de Kuribayashi, se renderem-se ao inimigo, se explodirem uma granada junto ao peito para acabar com todas as dúvidas de uma vez.

Neste filme de Clint Eastwood, o segundo dos que dedicou à batalha de Iwo Jima, logo salta à vista a interpretação de Ken Watanabe no papel do general cujas cartas, juntamente com as de Saigo, dão nome ao filme e estruturam a sua narrativa. É impressionante a forma como Watanabe equilibra uma aparência gentil e bem disposta de cenas como a que está em conversa com o barão Nishi (Tsuyoshi Ihara), um hipista medalhado olímpico nos Jogos de 1932 em Los Angeles que se juntara às tropas em Iwo Jima, com a firmeza amargurada de alguém que sabe estar à espera da morte. Mais impressionante ainda, a forma como equilibra, numa mesma cena em que um dos seus oficiais castiga Saigo e outro soldado, a dureza com que trata o oficial e a benevolência com que trata Saigo, papel também brilhantemente desempenhado por Kazunari Nimomyia, que com grande discrição consegue transmitir a angústia de um padeiro atirado para o meio de um Inferno de areia negra, cheiro a enxofre e água que em vez de matar a sede, mata homens, tal a sua má qualidade. Também irreprensível está Ihara, e os restantes actores secundários que dão vida aos soldados que a perderiam ali.

Como irreprensível é, como de costume, a realização de Clint Eastwood. Nos seus westerns (desde The Outlaw Josey Wales a Unforgiven, passando por Pale Rider), Eastwood sempre deu grande atenção às paisagens, à beleza dos locais por onde os seus cowboys passam (por isso gostava de os filmar no Outouno), e em Letters From Iwo Jima (mais do que em Flags of Our Fathers) aproveita a aridez da ilha japonesa para fazer o mesmo. O uso da fotografia, a roçar o preto-e-branco, sem perder por completo a cor, apenas acentua essa mesma aridez, chamando mais a atenção para a areia negra, para a paisagem desoladora, para escuridão das grutas onde estão os soldados japoneses. E consegue-o, sem eliminar a profunda beleza de cenas que antecedem a batalha, como a da chegada de Nishi, a cavalo, à praia onde Kuribayashi caminha sozinho, procurando perceber como decorrerá o desembarque americano.

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E, tal como Flags of Our Fathers, Letters From Iwo Jima recupera um dos temas fundamentais da filmografia de Eastwood. Se no primeiro mostrava não só o sofrimento das famílias do soldados como o desaparecimento dos que haviam morrido em batalha, como também o da família "acidental" que se forma entre os soldados, no segundo centra-se no que sentem os japoneses que temem não voltar a ver os seus familiares, mostrando Kuribayashi escrevendo para os filhos sabendo que não os vai voltar ver, ou Saigo, já sem água, sem comida, sentindo-se à beira da morte, mas só preocupado com a filha que nunca viu, nascida só depois da sua partida para a guerra.

Mas o maior mérito de Letters From Iwo Jima é, paradoxalmente, o de nem parecer um filme de Eastwood. O de, sendo um filme de Eastwood do princípio ao fim, com os seus temas, o seu estilo, a sua extrema sensibilidade e emotividade, ser também um filme verdadeiramente "japonês". É difícil ver Letters From Iwo Jima e não pensar que, se Akira Kurosawa tivesse feito (como esteve para fazer Tora!Tora!Tora!) um filme sobre a II Guerra Mundial, ele seria assim (a cena do ataque de infantaria comandado por Kuribayashi lembra a cena final do Kagemusha de Kurosawa). E por outro lado, retrata com grande frieza o espírito militar japonês, a ideia de morrer com honra, preferindo morrer a fugir, preferindo o suicídio à morte às mãos do inimigo. Mas ao mesmo tempo, humaniza-o, olhando-o com compaixão, como na cena em que vários soldados, sucessivamente, rebentam consigo próprios, e Saigo, horrorizado com o que está ver, procura evitar fazer o mesmo, ou naquela em que outro soldado lhe pergunta, num tom envergonhado e culpado, se Saigo se quer render com ele, numa das cenas mais comoventes do filme.

Letters From Iwo Jima ganha em ser visto a par com Flags of Our Fathers, como um conjunto de dois filmes, e não como dois filmes sobre o mesmo tema mas independentes um do outro. E não apenas por algumas cenas de Flags of Our Fathers terem aqui continuidade (por exemplo, os japoneses que se suicidam são os que são encontrados já mortos por soldados americanos no filme anterior), mas essencialmente por o significado dos dois filmes se tornar imediatamente mais claro. Porque o que ambos os filmes mostram, o que os filmes, no seu conjunto, querem mostrar, é o quão semelhantes são os homens de ambos lados, como ilustram duas cenas brilhantes com Nishi (uma em que conversa com um americano capturado sobre a sua estadia na Califórnia, em 1932, sobre a sua amizade com Mary Pickford e Douglas Fairbanks, e outra, a mais comovente de todo o filme, em que traduz para os soldados japoneses uma carta que a mãe desse soldado lhe enviara). De uma lado e de outro, são apenas rapazes, capazes de actos heróicos, generosos ou selvagens. De um lado e de outro, são apenas rapazes, que se emocionam ao ouvir canções da terra tocadas no rádio. De um lado e de outro, são apenas rapazes com uma vida interrompida, deixando mulheres, filhos ou namoradas para trás. De um lado e de outro, são apenas rapazes, todos com mães em casa, que apenas querem que eles voltem. De um lado e de outro, apenas rapazes, lutando para que possam voltar a casa.

É essa a tragédia de Kuribayashi. A de um homem que, tendo estudado na América, tendo tido contacto com a hospitabilidade americana, sabe como é trágica aquela guerra. A de um homem que estivera na terra dos homens que agora defronta, que lá fizera amigos, que lá se maravilhara com os automóveis, cuja beleza descreve aos filhos e à mulher nas cartas que de lá envia com o mesmo entusiasmo com que fala com Nishi sobre o seu cavalo, e que agora lutava contra essa mesma América, sabendo que aquilo que nela admirava (os seus homens, a sua superioridade tecnológica) era precisamente o que o condenaria à derrota, o que o conduziria à morte. Como muitos americanos, como muitos japoneses, não voltaria a ver a sua família, para sempre enterrado algures na areia negra de Iwo Jima.
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Posted by Bruno at 09:38 PM

fevereiro 14, 2007

A Hubris de Obama

É extraordinária a onda de excitação em torno de Barack Obama, senador do Illinois e candidato a candidato Democrata à presidência dos EUA. Obama está há muito pouco tempo no Senado, onde não se destacou pelas propostas apresentadas. Destacou-se, isso sim, por um discurso feito na Convenção Democrata de 2004, a apoiar Jonh Kerry. Na semana seguinte, a The Economist, já falava dele como futuro candidato à presidência. Este fim de semana, anunciou a candidatura há muito prevista. A imprensa ficou logo seduzida (o Público, por exemplo, dedicou-lhe várias páginas e fotografias épicas), se bem que o eleitorado pareça apreciar mais Hillary Clinton (Tim Hames, do Times de Londres, acha que isso mostra que Obama não irá a lado nenhum). Nesse anúncio de candidatura, fez um discurso em que, a dada altura, se comparava, para todos os efeitos práticos) a Abraham Lincoln (citava-o como exemplo da missão que pretende desempenhar caso seja eleito). Em primeiro lugar, não fica bem, a alguém cujo currículo se limita a ter sido eleito há 25 meses para o Senado e ter aparecido no programa de Oprah Winfrey para vender um livro onde alimenta o culto da sua personalidade mediática, comparar-se ao que muitos consideram ter sido o mais influente dos presidentes americanos. Em segundo lugar, é uma comparação que se vê ser desprovida de sentido, mal se olhe para a proposta, por si apresentada, de retirar todas as tropas americanas do Iraque: "no amount of American lives can resolve the political disagreement that lies at the heart of someone else’s civil war", afirmou Obama. Ou seja, Obama propõe deixar o Iraque entregue a uma guerra civil (é o que se conclui das suas próprias palavras), guerra essa que obviamente arrastará as outras potências regionais no Médio Oriente para o meio do conflito, ampliando a sua dimensão e a gravidade das suas consequências (coisa que não se retira das palavras de Obama, talvez por ele não ter consciência disso, o que só as torna mais graves). Por muito "carisma" que Obama possa mostrar, uma coisa é bem evidente: um Lincoln ele não é.

Posted by Bruno at 10:27 PM

fevereiro 13, 2007

A Ler

O artigo do Luís Silva na revista Dia D, "E se tentássemos a liberdade?".

Posted by Bruno at 10:29 PM

fevereiro 12, 2007

Uma Solução Para o Problema Norte-Coreano?

Em Pequim, ter-se-á chegado a um acordo entre a Coreia do Norte e as cinco potências (EUA, China, Rússia, Japão e Coreia do Sul) que desde 2003 procuram uma solução diplomática para a questão do programa nuclear do regime de Kim-Jong-Il. Segundo ouvi na RTP, estes países estão dispostos a oferecer "ajuda energética" em troca do "desmantelamento" do dito programa. É necessário ter em conta que este acordo terá ainda de ser aprovado pelos respectivos governos, mas a sua existência não deixa de ser um sinal positivo na procura de solução pacífica para esta questão. Ou será que não? Durante a presidência de Bill Clinton, os EUA também estabeleceram um acordo com o regime de Pyongyang, em se comprometiam a ajudar o "povo norte-coreano" em troca da interrupção do desenvolvimento de armas nucleares por parte da Coreia do Norte. Desde essa altura, não consta que o povo norte-coreano tenha passado a viver melhor, e se ajudou alguém em alguma coisa, foi ao dar tempo ao regime norte-coreano, para que pudesse prosseguir o seu programa de desenvolvimento nuclear e fazer agora as exigências que os Cinco tiveram de aceitar. Este acordo é sem dúvgida um bom sinal. Resta apenas saber para quem, para o resto do mundo, ou para o regime de Pyongyang?

Posted by Bruno at 10:26 PM

fevereiro 10, 2007

Mais Um Truque Do Primeiro-Ministro

O Governo, na passada quinta-feira, "levantou o véu", nas bonitas palavras do DN, "sobre o que entende serem as funções nucleares do Estado". A saber, "defesa, segurança, magistratura e diplomacia". Esta definição, no entanto, não implica que o Estado se concentre nelas, modificando a natureza do papel que desempenha nas restantes. Apenas significa que essas serão as únicas áreas da esfera de acção estatal em que os funcionários estarão sob o regime de "vínculo por nomeação definitiva". Sejamos justos para com o Governo. É positivo que uma parte significativa dos portugueses que trabalham para o Estado passem a ser contratados como um qualquer trabalhador por conta de outrém no sector privado. Mas é também justo referir que esta mudança, ao contrário do que a máquina de propaganda do Governo quer fazer crer, não representa uma "reforma profunda", muito menos uma redefinição das funções "nucleares" do Estado. Trata-se, apenas e só, de uma reformulação do estatuto de uma parte das pessoas que são pagas pelo contribuinte. Seria até importante que o Primeiro-Ministro elucidasse os cidadãos, e respondesse a duas pequenas questões: Por que razão as funções "nucleares" do Estado precisam de ser desempenhados por "empregados vitalícios", e portanto, menos sujeitos a uma responsabilização pelos resultados do seu trabalho? E por que razão o Estado continua a intervir, directamente e não apenas como garante do acesso e usufruto dos cidadãos, em áreas que o Governo, aparentemente, considera não serem "nucleares"? Duvido que o próprio Primeiro-Ministro tenha uma resposta para tais questões. A propaganda não é muito convidativa à reflexão ou à elaboração de políticas coerentes.

Posted by Bruno at 09:53 PM

fevereiro 09, 2007

Everyday Is Like Sunday

Descansadinho no recato do lar a semana inteira.
Lenine descansadinho

Posted by Bruno at 10:08 PM

fevereiro 08, 2007

O Presidente Que Nunca Foi E O Que Não o É

Al Gore, o primeiro "android american" a candidatar-se à presidência do seu país (como lhe chamou Mark Steyn) veio a Portugal, para mostrar o seu filme a governantes a empresários. Estes só não adormeceram devido aos elevados níveis de adrenalina provocados pela circunstância de terem a oportunidade única de conhecer um nomeado aos Óscares de Hollywood (quero acreditar que alguns preferissem uma Cate Blanchett, mas enfim). Gore até teve a oportunidade de falar com o Primeiro-Ministro, logo no único dia que esteve em terras portuguesas (o líder da oposição, por exemplo, só tem direito a fazê-lo uma vez por mês). E à saída, pressionado pelos jornalistas, lá disse que apoiava os esforços do "presidente". Ora, eu recordo-me de, há uns anos, George W. Bush se ter referido a Aznar como "presidente". Foi a risada generalizada. Era a prova de que Bush era estúpido. Mas foi mais estúpido quem se riu, pois, de facto, Aznar era mesmo "presidente", Presidente do Conselho de Ministros. Agora, Al Gore, que gosta de acreditar que a Casa Branca lhe foi roubada, chamou de "presidente" alguém que, de facto, não o é. E no entanto, não houve risada nenhuma.

Posted by Bruno at 10:53 PM

fevereiro 07, 2007

Estado Liberal

Há dias, o Rui Albuquerque, no Blasfémias, lançou um pequeno desafio "aos liberais da blogosfera portuguesa", o de encontrarem uma resposta para a seguinte questão: "o «Estado liberal» é possível, ou o liberalismo não se concebe no Estado?". Não sendo propriamente um "liberal" (limito-me a concordar com eles), e tendo em conta que o Rui tenciona "voltar ao assunto", meto o meu nariz na discussão.

Em primeiro lugar, é preciso afastar da discussão ideias como "contratos sociais". Parte do conceito de "Estado liberal" está ligado à concepção de uma forma de governo só legítima quando "consentida" pelos seus governados, que cedem poder em troca de direitos. E embora seja concebível que, nos primórdios da existência humana, tenha sido precisamente isso o que aconteceu (os membros de um tribo organizam-se voluntariamente, abdicando de alguma liberdade, em troca de alguma protecção, no sentido lato do termo), nenhum dos governos que conhecemos histooricamente, nasceu do consentimento voluntário dos seus membros, como diz Robert S. Hill no seu artigo sobre David Hume na History of Political Philosophy de Leo Strauss e Joseph Cropsey. Nasceram, isso sim, da força (quer através usurpação do poder, como qualquer forma de governo saída de uma revolução, da conquista territorial, como a Alemanha, da união sobre uma mesma coroa, como o Reino Unido, ou da secessão, como os EUA, por exemplo), mantendo-se através da mesma força (como uma ditadura), do "costume" e da "tradição" (como uma monarquia hereditária) ou da vontade da maioria (como as democracias modernas), limitada ou não por regras constitucionais. Aliás, só o facto de haver não-democratas nas nossas democracias mostra como elas não decorrem de um consentimento dos governados. Um "Estado liberal" não poderá, portanto, ser visto como a única forma de governo legítima, apenas como (no caso dos que o defendem) a melhor, como a mais adequada a um conjunto de valores "morais" (no sentido lato) a que damos primazia. Um "contrato social" derivado de uma particular concepção de um "estado de natureza" não pode ser visto como mais do que uma mera abstracção usada para melhor argumentar acerca dos méritos do modelo de estado que está a ser defendido.

Posto isto, pode-se partir para a análise da questão deixada pelo Rui, que poderá ser colocada de outra forma: poderá haver liberdade sob a autoridade do Estado? Para responder a essa questão, é necessário ver o que é isso da "liberdade". E aqui talvez me distancie dos meus amigos liberais, ao não a ver como algo "natural" e "universal", mas apenas como uma ideia cultural, fruto de uma herança greco-romana e judaico-cristã que formou o Ocidente, e que, com a evolução histórica desse mesmo Ocidente, adquiriu o carácter que hoje lhe atribuímos. Ao vermos os indivíduos como agentes autónomos, com capacidade de julgar o que entendem ser melhor para si (de certa forma, o que é o Bem e Mal) e capazes de fazer uma escolha, entendemos (ou pelo menos, alguns de nós entendem) que esses indivíduos devem ter a liberdade de fazer essa escolha, sem a acção coerciva de terceiros. Entendemos que, por se tratarem de indivíduos autónomos, os membros de uma sociedade deverão poder exercer essa autonomia, associando-se livremente, gozando livremente da propriedade legitimamente adquirida, gozando, enfim, de uma esfera privada, em suma, de várias liberdades. Essas liberdades podem ser vistas como desejáveis por serem "naturais", ou devido aos limites do conhecimento humano (como não somos capazes de responder harmoniosoamente aos interesses de todos os seres humanos, é bom que cada um procure o que entende ser o seu), mas mesmo essas concepções são produtos culturais, frutos de séculos e séculos de história, o que em nada as desvaloriza.

Mas o que conta aqui não é a "origem", a "natureza", da liberdade humana, mas sim aquilo em que ela se traduz. E ela traduz-se, como atrás escrevi, na existência de uma esfera privada onde o indivíduo pode agir sem coerção de terceiros. Não é, obviamente, uma esfera onde o indivíduo possa agir sem constrangimentos (poderá sempre haver competição com outros indivíduos, e as própias escolhas à disposição do indivíduos estão limitadas pelas circunstâncias), mas sim uma esfera em que uma determinada escolha não nos está, à partida, vedada (como não nos está à partida vedada a hipótese de adquirir um Ferrari. Eu posso não ter dinheiro para comprar um Ferrari, ou o meu vizinho pode adquirir o único que resta antes de mim, mas eu não estava proibido de comprar um Ferrari). Ora, o que o Rui pergunta, no fundo, é se a existência de uma autoridade estatal, ou seja, acima do indivíduo, e por natureza, capaz de se impôr a este, elimina ou não a existência dessa esfera privada.

Em parte, é óbvio que elimina. A sua mera sobrevivência depende de uma intromissão na esfera privada do indivíduo. Pois o Estado, para sobreviver, precisa de cobrar impostos, que mais não são que o desvio coercivo de parte da propriedade individual para os cofres do Estado. Para além disso, toda a acção do Estado se traduz numa interferência nas esferas privadas do indivíduo. Resta perguntar se poderia ser de outra maneira. Se os indivíduos poderiam gozar das liberdades atrás referidas, tidas como desejáveis, seja por que razão for, sem a intromissão estatal? E aqui a resposta é negativa. O Estado, ao proibir o homicídio, está a interferir na minha liberdade de pregar um tiro no meu vizinho. Mas ao fazê-lo, está a garantir que o meu vizinho não será alvo de uma acção violenta sobre a sua esfera privada. Ao impedir-me de o ameaçar com uma arma para ele não comprar o Ferrari que resta, O Estado impede-me de exercer uma acção coerciva sobre ele, protegendo a sua esfera privada. No seu Ordem, Liberdade e Estado, o meu caro colega insurgente André Azevedo Alves escreve que Bentham estava enganado ao escrever que "toda a lei é um mal porque é uma infracção contra a liberdade". Na verdade, ele estava errado apenas ao vê-la como um mal. Porque, de facto, qualquer lei limita a liberdade de um indivíduo. O que acontece é que, ao limitar algumas liberdades, potencia outras, sendo, como escreve o André, "uma condição necessária para a sua preservação". O "Estado liberal" (ou seja, um Estado que apenas interfira na esfera privada dos indivíduos na medida em que essa interferência potencie as liberdades individuais), não só é algo possível, como algo de indispensável para que os indivíduos possam gozar das liberdades vistas como desejáveis pelos herdeiros da "tradição liberal" ocidental.

Outra questão é a de qual a forma que esse "Estado liberal" deve tomar. Qual a mais adequada ao "cultivo" dessas liberdades? Há quem veja no velho mundo medieval de pequenas comunidades homogéneas um modelo ideal, outros no mundo imperial do século XIX, com os seus vastos territórios, aquele onde as liberdades individuais melhor prosperavam. Niall Ferguson, por exemplo, nota como a "primeira globalização" pré-1914 beneficiou da autoridade exercida pelo Império Britânico na ampla porção do globo sob o seu domínio, e que teria sido impossível com os proteccionismos sempre sedutores para os mais pequenos estados-nação, ou como o descentralizado Império Habsburgo foi conseguindo harmonizar as suas múltiplas comunidades étnicas, que logo após a sua queda e substituição por múltiplos estados-nação entraram em conflito umas com as outras. Este último, em particular, mostrava os méritos relativos desses espaços multinacionais, não só criando um espaço económico considerável, que evitaria as barreiras levantadas pelas fronteiras dos novos estados-nação, como garantia o exercício de liberdades individuais (circulação, propriedade, etc.) a membros de comunidades étnicas que, na área onde habitavam, estavam em minoria, e que deixaria de gozar após 1918 (por exemplo, os indivíduos de origem germânica na Roménia, para não falar dos judeus).

Porque não, então, repôr essa ordem supracional? A União Europeia, é, de certa forma, essa tentativa. Para muitos defensores da liberdade, essa ideia de uma entidade supracional que consiga derrubar as fronteiras à liberdade de circulação de produtos e pessoas é bastante sedutora. Mas decorre de um pequena incompreensão da sua natureza. Ao contrário de velhas entidades políticas como o Império Habsburgo, elas querem suplantar os estados-nação. O Império Habsburgo detinha uma autoridade que decorria do peso da sua história, reconhecida pelos seus súbditos. Como escreve Roman Joch, numa recente Nova Cidadania, a UE não beneficia de "nenhuma lealdade existencial e política". Se o Império Habsburgo beneficiava da sua estrutura relativamente descentralizada, a União Europeia precisa, para se afirmar como uma entidade supranacional, de retirar poderes aos estados-nação, ou seja, de centralizar poderes. Se o Império Habsburgo beneficiava do peso da história, esta está hoje contra a UE, no sentido em que esta, para se afirmar, tem que ultrapassar o peso da história nacional dos vários estados. A evolução da própria UE é um exemplo disto: de organização destinada a desenvolver as "quatro liberdades", tornou-se numa "fortaleza", num clube proteccionista que interfere cada vez mais na esfera privada dos indivíduos (desde as campanhas "contra ao tabaco" à proibição do brinde no bolo-rei, não há nada que a burocracia de Bruxelas não queira proibir). E interfere cada vez mais na vida dos cidadãos, à medida que estes vão tendo cada vez menos controlo sobre essas intromissões. Pois os poderes que a permitem vão sendo progressivamente transferidos dos parlamentos nacionais para a esfera europeia, onde não são controlados. Os velhos impérios poderão ter sido um melhor habitat para a liberdade do que o são hoje os estados-nação, mas é duvidoso que a UE consiga ser mais adequada, ao "estado liberal" como os defensores da liberdade o concebem, que os nossos estados-nação.

O que nos conduz a outra questão: qual o regime que melhor se adequa a um "estado liberal"? Não falta quem mostre como a democracia, partindo da liberdade de voto, pode pôr em perigo outras liberdades individuais. O André Azevedo Alves dedica uma parte considerável do seu livro (atrás mencionado), a essa questão. De forma a seduzir o eleitor, os agentes políticos tendem a oferecer cada vez mais serviços por parte do Estado, que é assim forçado a interferir cada vez mais na esfera privada dos indivíduos. Podemos ser livres para votar, mas temos menos liberdade quotidiana. O problema está em que uma ditadura, por muito liberal que seja, não comporta um risco menor para as liberdades. Quanto mais não seja, porque, numa ditadura, é mais difícil controlar um eventual abuso de poder. Aos defensores da liberdade resta, portanto, um caminho: defender, no jogo democrático, que o poder democrático deve ser limitado, para que os interesses de uma parte não se sobrepunham à liberdade de outros procurarem satisfazer os seus. Cabe aos defensores da liberdade defender o "Estado liberal" sem o qual, sem a ordem por ele estabelecida, essas liberdades não têm garantia de sobrevivência. Mas precisamente por essa ordem ser tudo menos "natural", nada nos garante que ela possa ser mantida. Só a força dos que a defendem o pode garantir. Neste caso, através da força da argumentação dos que o querem ver em Portugal.

Posted by Bruno at 09:38 PM

fevereiro 06, 2007

Blair

O Público de hoje atribui algum destaque aos problemas enfrentados por Tony Blair com o escândalo do "cash for honours", afirmando que Blair declarou que sairá "até Setembro". Ora, essa promessa poderia estar na primeira página de um Público de Setembro do ano passado, altura em que Blair afirmou que sairia no decorrer de 2007, antes da Conferência do seu partido (em Outubro). Só facto de Blair ter reafirmado essa promessa mostra como é grande a pressão para sair. Alguns deputados do Labour estarão já a pensar num "golpe" contra o Primeiro-Ministro. Tal "golpe" dificilmente poderá ter lugar, ou ter sucesso se for levado a cabo, sem o consentimento e a aprovação de Gordon Brown. Adam Boulton, jornalista do Sky News, explica neste post por que razão Blair não deverá sair antes do Verão: não apenas por querer ainda insistir na prossecução de alguns objectivos, mas também porque ao próprio Brown não interessa fazer já a mudança para a casa do lado em Downing Street.

Posted by Bruno at 10:56 PM

fevereiro 05, 2007

Little Miss Sunshine

lttle miss sunshine

Olive Hoover (Abigail Breslin) é uma miúda de sete anos que tem a oportunidade de participar no concurso Little Miss Sunshine, depois da eliminação da rapariga que a havia vencido na fase regional. O problema é que para que ela possa participar, toda a família vai ter de fazer a viagem de Albuquerque até à Califórnia com ela. A mãe Sheryl (Toni Collete), o pai Richard (Greg Kinnear), um fracassado motivational speaker, o tio Frank (Steve Carrel), o "especialista em Proust nº1 na América", que fracassara até numa tentativa de suicídio, o avô (Alan Arkin) viciado em heroína, e o irmão Dwayne (Paul Dano), que fez um voto de silêncio até conseguir entrar na Força Aérea, irão com Olive até ao local no concurso, todos numa velha carrinha VW mais danificada que o estado psicológico de toda esta gente.

Little Miss Sunshine, primeiro filme da dulpa Valerie Faris/Jonathan Dayton (escrito por Michael Arndt), tem sido o "menino querido" da crítica e de algumas das cerimónias de prémios do circuito americano. Do festival de Sundance até aos prémios do American Film Institute, não tem faltado quem esteja disposto a premiar o filme ou os seus actores (o prémio de melhor elenco do Screen Actors Guild, por exemplo, foi para Litlle Miss Sunshine). Não é em vão. Pois não só o filme consegue manter o difícil equilíbrio de emotividade e inteligência (provocar a primeira sem recorrer a sentimentalismo fácil, evidenciar a segunda sem transformar o filme num pretensioso exercício "cerebral" sem "coração"), como as interpretações de todo o elenco contribuem para a eficaz mistura de drama e comédia do filme de Faris/Dayton. Desde a jovem Abigail Breslin (que já em Signs, um desperdício de filme, mostrara ser capaz de fugir aos problemáticos tiques tradicionais dos child actors), ao brilhante Steve Carrel, passando pelo nem sempre reconhecido Greg Kinnear (um excelente actor), por Alan Arkin e por Paul Dano, todos estão irrepreensíveis nos seus papéis, e muito do que o filme é se fica dever à forma como interagem uns com os outros.

Little Miss Sunshine assemelha-se a esse novo género de filmes, "independentes" à falta de melhor palavra, feita por uma nova geração de realizadores americanos. O seu tom enquadrar-se-ia numa galeria formada pelos filmes de Alexander Payne, Noah Baumbach ou Wes Anderson (especialmente o Wes Anderson do Bottle Rocket de estreia, não tanto os três posteriores), ou ainda pelo Ghost World de Terry Zwigoff. Mas ao mesmo tempo, integra-se numa tradição "clássica" do cinema americano, "renovando-a". E não apenas por ser um road-movie (afinal, Payne já o fizera com About Schmidt e Sideways, e o Broken Flowers de Jim Jarmusch, por exemplo, é ele próprio um road-movie "alternativo"). Acima de tudo, pela sua "moral", pela base do seu enredo. De certa forma, Little Miss Sunshine é um filme familiar como um qualquer filme Disney, mas feito com o humor negro e semi-trágico que, de Payne a Sofia Coppola passando pelos dois Anderson (P.T. e Wes), a "nova Hollywood" tem para oferecer. Por um lado, é um filme sobre a "família", sobre como, "aconteça o que acontecer" (o que neste caso, é mesmo de tudo) os membros da família Hoover ter-se-ão sempre uns aos outros. E por outro, Little Miss Sunshine traz consigo a velha "moral" do tradicional filme familiar, de que, por muito estranhos, "weird" no bem mais expressivo termo americano, que possamos ser, é isso que nós somos, é essa a nossa identidade, o que faz de nós indivíduos, e mudar, procurar ser diferente, é bem mais "weird" do que sermos fiéis à nossa personalidade. A redenção está neles próprios, não numa catártica mudança. Para os Hoover, a estrada de Albuquerque até à Califórnia pode ser longa, e os seus problemas pessoais graves, mas se rodos empurrarem um bocadinho, até com uma carrinha com a caixa de velocidades partida lá conseguirão chegar.

Posted by Bruno at 09:41 PM

fevereiro 04, 2007

No Insurgente

Já pode ser lida a mais recente edição da minha coluna semanal A Semana Política: "Parecia que a violência seria inevitável. Ninguém parecia ser capaz de evitar o confronto físico, as “vias de facto”, como dizem agora os jornalistas. O Líbano, Bagdad, até mesmo uma reunião do executivo da Câmara Municipal de Lisboa seriam cenários mais pacíficos do que a sede da Ajuda de Berço, quando, na passada 4ª-feira, Luís Marques Mendes visitou a dita instituição, e lançou, a um insistente jornalista da RTP, o olhar que um John Wayne dirige a um pistoleiro rival, um Dirty Harry a um traficante de droga, um deputado do CDS/PP ao líder do partido, Ribeiro e Castro. Pois se o Primeiro-Ministro pôde passar a primeira semana de campanha oficial para o referendo de 11 de Fevereiro em visita à China, o líder do PSD não teve a mesma sorte (e muito menos os meios de transporte oferecidos pelo poder e pagos pelo contribuinte)." A coisa continua, mas não fica muito melhor.

Posted by Bruno at 11:22 PM

fevereiro 03, 2007

Blair e o "Cash For Honours"

Sobre as dificuldades enfrentadas por Tony Blair, devido á investigação judicial acerca do "cash for honours" (em que o Labour terá oferecido lugares na Câmara dos Lordes em troca de ajuda financeira ao partido), avle a pena ler os dois posts do jornalista do Sky News, Adam Boulton.

Posted by Bruno at 10:58 PM

Nacionalização

Reza a lenda que durante o PREC, até floristas terão sido nacionalizadas. Agora, com a visita do Primeiro-Ministro à China, pelo menos a crer nas vezes que Sócrates se referiu ao seu nome, até se fica com a ideia de que foi a vez de Cristiano Ronaldo ser nacionalizado.

Posted by Bruno at 10:43 PM

fevereiro 02, 2007

Nós e o Inimigo

Segundo o Daily Telegraph, a fracassada tentativa de rapto de um soldado britânico por parte de um grupo de fundamentalista islâmicos teria como alvo um soldado de religião islâmica. Este pequeno facto revela algo de muito importante no carácter da ameaça que hoje enfrentamos, e que nem sempre é suficientemente tido em conta: para os fundamentalistas islâmicos que nos atacam, um indivíduo de religião islâmica que não partilhe a sua visão integrista da dita, é tão "ocidental", tão "infiel", tão merecedor de ser privado da sua vida (ou até talvez mais, por ser uma espécie de "traidor") como qualquer um de nós. E é por isso que a condescência de um Ken Livingstone, por exemplo, para com clérigos radicais que pregam publicamente a "justiça" do assassinato de judeus, é especialmente grave. Pois essa condescência para com clérigos e organizações radicais coloca numa posição particularmente frágil aqueles muçulmanos que nada querem ter a ver com terroristas e assassinos. Os governos europeus, ao quererem ser "culturalmente sensíveis", ao quererem acomodar a "opinião muçulmana", esquecem-se muitas vezes da parte dessa "opinião" que realmente se quer integrar, ou que até já está integrada, como é certamente o caso de um soldado britânico de religião muçulmana. A melhor maneira de estabelecer uma efectiva e eficaz "ligação" com o "islão moderado" é precisamente criticar abertamente essas organizações, não as tomando como representantes das comunidades imigrantes muçulmanas, mas como inimigas dos países ocidentais e dos muçulmanos que neles querem viver. E juntamente com isto, criar as condições para que um imigrante muçulmano tenha uma oportunidade de ascender socialmente, e não, como acontece com o "modelo social europeu", esteja condenado a viver em bairros isolados onde está à mercê de indivíduos e grupos que querem tudo menos integrar-se e viver em paz com todos nós.

Posted by Bruno at 10:20 PM

fevereiro 01, 2007

Já Nas Bancas

A Atlântico deste mês, com um artigo de Manuel Lucena sobre o referendo de dia 11, um de Vasco Rato sobre o futuro do Iraque, um de Rui Ramos sobre o que até aqui se passou nessa intervenção, um do Luciano Amaral sobre Flags of Our Fathers (um excelente artigo, apesar de não concordar totalmente com o que lá é dito), um artigo do João Pereira Coutinho em que vale a pena ler o que ele escreve sobre Million Dollar Baby, um artigo do André Azevedo Alves sobre a possível independência da Escócia, um artigo de José Manuel Moreira sobre Hayek e Friedman, a excelente crónica do Jorge "maradona" Madeira, o Púlpito do Tiago Cavaco, e um excelente Diário por Pedro Rolo Duarte. Este vosso criado explica como nem tudo é mau no seu insucesso com o sexo oposto.

Posted by Bruno at 11:30 PM