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janeiro 31, 2007
Serviço Público
É curioso como, ao fim de várias semanas e após vários artigos em jornais e revistas (como o Público e a Sábado) terem reposto a "verdade dos factos", para usar uma expressão comum, a RTP continua, a propósito do "caso" de Torres Novas, a afirmar que o pai biológico "não quis a criança". Mesmo após ter sido explicado que mal a paternidade lhe foi legalmente atribuída, o senhor terá reclamado a custódia da criança, a RTP continua a ignorar esse facto. Não está aqui em causa o "caso" em si. Está em causa, isso sim, a informação prestada pelo canal de televisão pago pelos contribuintes. Quer seja por os seus jornalistas estarem distraídos, e ainda não se terem apercebido dos factos relativos ao "caso", quer seja por, sabe-se lá por que razão, optarem por os omitir, a RTP não está a informar os seus telespectadores de forma adequada. Um canal de "serviço público", financiado através dos nossos impostos, está recheado ou de incapazes, ou de mentirosos. Em nenhum dos casos, o "serviço público" estará a ser prestado.
Posted by Bruno at 10:53 PM
janeiro 30, 2007
Mitos
O meu insucesso com o sexo oposto é a prova de que o mito de que uma mulher bonita não pode ser inteligente não passa disso mesmo.
Posted by Bruno at 10:24 PM
janeiro 29, 2007
Uma Longa Campanha 2 (corrigido)
No passado Sábado, escrevi que o anúncio de um novo aeroporto de Beja, por parte do Primeiro-Ministro, era um bom exemplo de como este estava já em campanha eleitoral para as legislativas de 2009. O meu caro colega insurgente André Amaral nota como este "sinal" dado pelo Primeiro-Ministro é apenas e só um "sinal" de como ele continua empenhado nos seus esforços propagandísticos e de dissimulação da sua acção governativa:
"O país anda demasiado entretido com o referendo ao aborto. Entretanto, o Eng. Sócrates vai governando alegremente e sem oposição. Sob o pretexto do combate ao défice público, os impostos indirectos são subtilmente aumentados e os investimentos estatais prosseguem a bom ritmo. Desta vez é o aeroporto de Beja, um projecto importantíssimo. Tão importante que foi preciso criar uma empresa de capitais públicos para nele investir. É muito fácil governar Portugal. O país todo gosta que lhe atirem areia para os olhos. É fácil e, política e intelectualmente, dá lugar a umas ricas férias."
Posted by Bruno at 10:39 PM
O Mais Extraordinário É Ele Estar a Falar a Sério
Miliband wants EU re-branded Eco Union.
Posted by Bruno at 10:34 PM
janeiro 28, 2007
No Insurgente
Já pode ser lida a mais recente edição da minha coluna semanal A Semana Política: "Foi grande a expectativa dos deputados quando foi anunciado que o tema de debate mensal com o Primeiro-Ministro da passada quarta-feira seria o das alterações climáticas. Pois poucos assuntos têm preocupado a classe política como o aquecimento global. Especialmente o aquecimento global do hemiciclo, desde o dia em que as deficiências do sistema do ar-condicionado parlamentar fizeram o suar o Primeiro-Ministro como a oposição ainda não o obrigou." A coisa continua, mas não fica muito melhor.
Posted by Bruno at 11:44 PM
janeiro 27, 2007
Uma Longa Campanha
O Primeiro-Ministro já está com a cabeça em 2009. Aliás, assim acontece desde que ganhou as eleições em 2005. Mas agora, já não tem pudor de o mostrar. O engenheiro Sócrates foi hoje a Beja, onde anunciou mais um grande projecto, um "baixo investimento" que irá supostamente trazer um "grande benefício". Não contesto. Também não confirmo. Pura e simplesmente, não sei. Mas sei, isso sim, que anúncios como o da construção de um novo aeroporto em Beja servem que nem uma luva à agenda do Primeiro-Ministro, permitindo, de uma só vez, mostrar que o mais difícil "já está a passar" (já se podem fazer investimentos), e que o governo aposta "no progresso" (o investimento será um "contributo fundamental para dar um novo posicionamento do Alentejo", o que parece difícil, pois há muito tempo que o Alentejo se posiciona precisamente ali, entre o Ribatejo e o Algarve). Mas o Primeiro-Ministro deveria ter mais cuidado. Pois se, no futuro, tiver de "pedir" mais "sacrifícios", a propaganda que hoje tão bem lhe serve poderá transformar-se num peso demasiado elevado. O Primeiro-Ministro quer fazer uma campanha eleitoral permanente até às próximas legislativas. O problema de campanhas tão longas é que oferecem muitas ocasiões para fazer asneira.
Posted by Bruno at 10:33 PM
janeiro 26, 2007
A Ler
O artigo de Gerard Baker sobre Hillary Clinton. Um pequeno excerto:
"She arranged for the son of a New York policeman sick with lung cancer to be there. As it happened, the man’s father died that day, and the son’s grief became a sad and very visible coda to the event.
This little incident, the skilfully choreographed exploitation of a human tragedy, the cynically manipulated deployment of public sympathy in service of a personal political end, offered a timely insight into the character of the politician who this week launched the most anticipated presidential election campaign in modern history.
There are many reasons people think Mrs Clinton will not be elected president. She lacks warmth; she is too polarising a figure; the American people don’t want to relive the psychodrama of the eight years of the Clinton presidency.
But they all miss this essential counterpoint. As you consider her career this past 15 years or so in the public spotlight, it is impossible not to be struck, and even impressed, by the sheer ruthless, unapologetic, unshameable way in which she has pursued this ambition, and confirmed that there is literally nothing she will not do, say, think or feel to achieve it. Here, finally, is someone who has taken the black arts of the politician’s trade, the dissembling, the trimming, the pandering, all the way to their logical conclusion."
Posted by Bruno at 11:25 PM
janeiro 25, 2007
Marques Mendes Deveria Ter um Blog
O recurso de Marcelo Rebelo de Sousa ao You Tube e aos blogues, bem como a resposta de Francisco Louçã através do mesmo You Tube, causaram um certo (e justificado) furor na blogosfera. De facto, vieram mostrar como este meio permite um contacto directo com uma parte importante do eleitorado (mais diminuta do que se possa pensar, mas com alguma influência nos meios que chegam ao resto do eleitorado), de uma forma menos dispendiosa e provavelmente mais eficaz que as formas de campanha eleitoral tradicionais. É algo a que outros políticos, e especialmente os líderes partidários, deveriam prestar atenção.
Por exemplo: Marques Mendes. A afirmação de Marques Mendes como líder do PSD tem sido difícil. Enfrenta, por um lado, alguma hostilidade de parte significativa do seu partido, e uma parte siginficativa dos que o poderiam ajudar a construir uma alternativa ao actual governo não mostram disponibilidade para tal. Juntamente com a relativa hostilidade da comunicação social ao líder do PSD, ou pelo menos, o desinteresse mediático por tudo o que não tenha a ver com as querelas do partido laranja, esses factores fazem com que Marques Mendes não consiga, por muito que eventualmente queira, apresentar essa mesma alternativa. O que ele necessita é de encontrar uma forma de saltar por cima do partido (com um aparelho mais interessado em lugares do que numa agenda) e da comunicação social (geneticamente interessada na politiquice e cada vez mais seduzida pelo impecável corte dos fatos do Primeiro-Ministro), falando directamente para aqueles que o queiram ouvir. Esse meio, mais do que os tempos de antena, mais do que comícios e colóquios que possam ser realizados, é a blogosfera. Se Marques Mendes quer sobreviver na liderança do PSD, e mais, se Marques Mendes quer fazer alguma coisa com a liderança do PSD, tem de ter um blog.
As vantagens seriam inegáveis. Uma das grandes dificuldades de conduzir uma oposição eficaz decorre da dificuldade de, em televisão, "fazer passar" uma argumentação coerente. Num blog, Marques Mendes poderia criticar mais livremente a actuação governamental, sem estar limitado pelo mero soundbyte, sem ter de falar em apenas trinta segundos. A população de leitores de blogs pode ser limitada, mas o que hoje é dito nos blogs chega rapidamente aos jornais. O que Marques Mendes escrevesse no seu blog seria reproduzido nos jornais, e o factor novidade de um líder partidário ter um blog atraíria alguma atenção mediática que, se bem que temporária, permitiria ultrapassar a dificuldade que Marques Mendes (como qualquer outro líder do PSD numa conjuntura semelhante) tem em fazer-se ouvir.
Mas teria de ser um blog a sério, não como o que dizem que Luís Felipe Menezes tem, nem um mero repositório de textos ou de vídeos, como o de David Cameron no Reino Unido, muito menos uma espécie de agenda pessoal escrita por assessores. Marques Mendes teria de se empenhar na escrita do seu blog, e interagir com os outros bloggers. Teria de escrever posts criticando ou elogiando os posts de outros bloggers, e teria de responder às críticas que muitos deles inevitavelmente lhe fariam. Seria, obviamente, um risco. Se Marques Mendes se revelasse incapaz de debater eficazmente com uns "rapazes de pijama sentados em frente a um computador", toda e qualquer credibilidade que tivesse seria imediatamente perdida. Mas caso contrário, caso se conseguisse afirmar no mundo blogosférico, se conseguisse ver os seus posts discutidos (e não apenas ridicularizados), se conseguisse discutir (mesmo não convencendo parte dos leitores) os posts dos outros, Marques Mendes garantiria para si a simpatia de uma parte da população que, por ser a mais politizada, tem alguma influência na forma como a vida política é tratada na comunicação social, que por sua vez transmite a imagem da vida política que chega à população em geral. E para isso, não precisa de ter o apoio dos deputados carreiristas da sua bancada, nem de se preocupar com a forma como aparece nas televisões. Precisaria apenas e só de ter ideias e vontade de as discutir. No fundo, precisaria daquilo que tem faltado à política portuguesa. Esta seria a oportunidade de Marques Mendes mostrar que tem algo de novo a oferecer.
Posted by Bruno at 10:20 PM
Eixo do Mal
A Coreia do Norte irá partilhar com o Irão dados e informações relativos ao teste nuclear realizado há alguns meses. O Irão acelera na sua caminhada para a obtenção de armas nucleares, e a Coreia do Norte parece estar interessada em ajudar o regime de Teerão. Quando, há uns anos, o presidente americano George W. Bush falou de um "Eixo do Mal" que incluía o Iraque, o Irão e a Coreia do Norte, foi ridicularizado. Como poderia pôr no mesmo saco dois inimigos (Irão e Iraque), e um outro país que com eles nada partilhava em termos ideológicos. Quem ridicularizou o presidente americano não percebeu (ao contrário de Bush) que regimes como os três que referiu não precisam de partilhar nada, para além da comum inimizade aos EUA. Um Irão nuclear interessa à Coreia do Norte, pelo simples facto de não interessar aos EUA. Ao contrário do que muitos dos seus críticos afirmam, Bush percebeu a natureza da ameaça externa que o seu país enfrenta. Se conseguiu enfrentá-la efficazmente ou não, é outra questão.
Posted by Bruno at 10:08 PM
janeiro 24, 2007
A Ler 3
Este post do britânico Iain Dale:
"In a rambling piece about how John Reid is wrong to want to break up the Home Office Blunkett makes a wider point: «The alternative to politics is officialdom. And there is a trend in all three major political parties to believe that if difficult questions of reform need to be answered without damagaing the credibility of politicians, they should be taken out of their hands. Trouble is, you simply can't. Just because someone has been appointed to some agency to make decisions doesn't mean they don't have political views. It means they have kept their head down or - even more damagingly - they have never had to make a decision in their lives. It also means that when they get it wrong they can't be punished by the voters, like politicians are...What we need is quite the opposite - a transparent, open political debate, with decisions taken by politicans who respond to voters' concerns, knowing that if they don't their careers can be ended with the stroke of a pen at election time.»
Politicians must lead the debate and lead public opinion. Delegating responsibility to unelected officials is an easy way out in the short terms, but all it does in the long term is store up problems."
Posted by Bruno at 11:22 PM
A Ler 2
Este pequeno texto do meu colega insurgente André Amaral. Um pequeno excerto:
"Um liberal, que desconfia das mudanças impostas pelo Estado, mas que as aceita quando vindas da sociedade, não simpatiza com aventuras políticas. A dificuldade para o liberal é que, neste cantinho da Europa que nos coube habitar, o governo é demasiado metediço. Excessivamente arrogante. Acha que zela melhor que nós os nossos interesses. Contrariar esta sobranceria não é, pois, nada radical. Trata-se de mera sensatez liberal."
Posted by Bruno at 11:09 PM
A Ler
O comentário de Pacheco Pereira a propósito do debate parlamentar de hoje com a presença do Primeiro-Ministro.
Posted by Bruno at 10:59 PM
janeiro 23, 2007
Alterações Climáticas
Pacheco Pereira já uma vez notou como todos os dias, nos telejornais, é assunto uma qualquer doença. Nos últimos dias, não há telejornal em que a RTP não fale das alterações climáticas que estão a conduzir o mundo ao Apocalipse, e de como Portugal enfrenta condições climáticas "extremas". Todos os dias. Talvez não seja coincidência o facto de, para o debate mensal no parlamento, agendado para amanhã, o Primeiro-Ministro ter escolhido este tema para a discussão (este hábito de ter um tema pré-definido é uma aberração que desvirtua por completo o papel do parlamento como agente fiscalizador do Governo). Depois de dias e dias com a RTP a assustar os telespectadores, o Primeiro-Ministro irá anunciar uma série de medidas que, ninguém duvida, nos trará a Salvação.
Posted by Bruno at 10:21 PM
Sobreaquecimento Cerebral
Parece que alguns cérebros tiveram mais actividade do que alguma vez poderiam suportar, levando-os a não perceber a realidade. O João Miranda explica:
"Tornou-se moda nos últimos tempos dizer que Bush mudou de opinião sobre o Aquecimento Global. Um dos que o disse em público foi Durão Barroso há umas semanas. Já ouvi mesmo quem defendesse que o Bush até já reconhece que o aquecimento global existe.
Esta tese da mudança de opinião pressupõe que Bush acreditava em A e passou a acreditar em (não A). Só que é possível encontrar na internet declarações e relatos que mostram que Bush já reconhecia o aquecimento global em 2001. É possível encontrar relatos do plano Bush contra o aquecimento global proposto em 2002.
Na verdade, há quem esteja tão mal informado sobre questões ambientais que confunde o Protocolo de Kyoto com o combate ao aquecimento global e a posição de Bush em relação ao Protocolo de Kyoto com a posição de Bush em relação ao aquecimento global. Bush mantém a mesma posição sobre as duas questões desde o primeiro dia. Não mudou de opinião."
Convém também acrescentar que a muito anunciada inclusão de uma passagem sobre a redução do consumo de petróleo no seu discurso do Stae of the Union pouco ou nada tem a ver com o aquecimento global, mas sim com a dependência de petróleo proveniente do Médio Oriente, que Bush considera ser uma ameaça à segurança dos EUA.
Posted by Bruno at 10:06 PM
janeiro 22, 2007
Hillary
Nos Estados Unidos, Hillary Clinton anunciou a sua candidatura à presidência. No seu blog, o correspondente do Telegraph nos EUA, Toby Hardnen comenta a esperada candidatura:
"In the land of the permanent campaign, candidates say they're thinking about running, reveal they're discussing it with their families over the holidays, announce exploratory committees and listening tours to ponder further, declare there'll be a formal announcement etc etc when we know all along that they're running.
But already the Democratic race is developing a dynamic of its own that neither Hillary nor anyone else can control. As pollster and strategist Frank Luntz told me for my piece in today's paper, Hillary was bounced.
"She got in the race much earlier than she wanted to and much earlier than a front runner should have done," he said. "But she had no choice - the Obama surge, the Edwards showing in Iowa and New Hampshire and a sense that she was being left behind."
The formerly centrist Edwards is running well to the Left - the best way as a clean-cut white male to generate some excitement against the potential first woman president and the potential first black president.
He has very solid support in Iowa and New Hampshire already and if he can hang in there, he's worth putting some money on.
But Hillary's formidable organisation and Barack Obama's buzz could force him out early. Already, there are signs the Anyone But Hillary crowd will coalesce around Obama."
Posted by Bruno at 10:47 PM
janeiro 21, 2007
No Insurgente
Já pode ser lida a mais recente edição da minha coluna semanal A Semana Política: "Passam-se coisas estranhas nestes país. Nuno Melo disse ser uma vítima de uma vasta conspiração da direcção do seu partido, o Procurador-Geral da República considera, sem ver nisso grande problema, que o “segredo de justiça será sempre violado”, e Odete Santos louvou, na SIC Notícias, um falecido pastor evangélico do sul da América. Mas nada tão estranho como a supreendente discrição com que Francisco Louçã tem participado na campanha para o referendo sobre a questão do aborto." A coisa continua, mas não fica muito melhor.
Posted by Bruno at 11:37 PM
janeiro 20, 2007
O Mais Longe Possível
Francisco Louçã, estranhamente pouco activo no "debate" sobre o aborto (que lhe daria excelentes oportunidades de deixar correr livre a demagogia que tanto aprecia), anunciou que o Bloco de Esquerda iria apresentar um "projecto de lei específico" para a àrea do "combate à corrupção", que recuperaria as propostas, abandonadas pelo PS, do projecto de João Cravinho. Louçã não se ficou por aqui, e acusou o PS de "querer João Cravinho mais longe possível". Estranhamente, não acusou Cravinho de aceitar ser enviado para longe. E presumo que Cravinho não vá obrigado para o cargo que o PS lhe entregou.
Posted by Bruno at 10:47 PM
janeiro 19, 2007
As Comadres Zangadas
Tem sido um espectáculo degradante aquele que Nuno Melo tem dado desde que ontem se demitiu do cargo de líder da bancada parlamentar do CDS/PP, fazendo um papel de vítima ofendida pelo "pérfido" Ribeiro e Castro, quando desde que este tomou posse, Melo e os seus correlegionários pouco mais fizerem que não hostilizar a sua liderança. Nuno Melo gostaria de ver Ribeiro e Castro pelas costas. Está no seu direito, e tem todo o direito de o dizer abertamente. O que já não lhe fica bem é fingir que algumas das suas declarações não são um ataque a Ribeiro e Castro, mas um mero gesto de admiração por Paulo Portas, sem quaisquer segundas intenções. Se quer fazer oposição ao líder do seu partido que o faça, mas que tenha a coragem de o fazer abertamente. Fingir que é um injustiçado por uma liderança que nunca o acarinhou é um acto de baixa politiquice que apenas descredibiliza o seu partido e o próprio Nuno Melo.
Dito isto, o próprio Ribeiro e Castro não está isento de culpas. Deixou-se enredar nos esquemas da bancada parlamentar, tentando resistir à hostilidade permanente que desde o princípio lhe dirigiram, sem nunca a combater. repito o que escrevi neste mesmo blog a 24 de Março do ano passado: Ribeiro e Castro deveria "hostilizar abertamente o grupo parlamentar. Dizer, abertamente, "ou eles ou eu". Obviamente que se arriscava a uma derrota mais que certa. Obviamente que, mesmo que daí saísse vencedor, provocaria uma cisão no CDS/PP que, por perder representação parlamentar, decerto o mataria (o que quer dizer que bastaria esta mais que certa perspectiva para garantir que tal situação nem sequer se colocaria, ou seja, que Ribeiro e Castro seria, como já disse, derrotado). Mas dificilmente encontrará outra saída. Ou a adia, mantendo a ilusão de que pode liderar um partido contra a vontade daqueles que, para todos os efeitos práticos, são os seus porta-vozes, ou a precipita, atirando-se para a derrota."
Posted by Bruno at 10:22 PM
O Mar Salgado e o Miniscente Chamam a Atenção
Para aquilo que o blog, para mim desconhecido, de Olavo Aragão hoje relata, o caso do rapto de uma jornalista portuguesa no Líbano.
Posted by Bruno at 10:02 PM
janeiro 18, 2007
Scoop

Os filmes de Woody Allen podem chegar sempre atrasados a Portugal, mas nunca chegam sem convite. Todos os anos, quase um ano depois de estrear num país civilizado, lá chega uma comédia do senhor, ou um dos seus filmes mais trágicos. E são sempre motivo de regozijo de um grupo de fiéis seguidores. Por muito desinspirado que possa ser, é melhor que muito do que por aí se faz. Devo confessar que cheguei a ter algum receio, desta vez. À entrada do cinema, um espectador apontou para o cartaz de Rocky e exclamou (sem ironia): "Espectacular!!!". Há algo que não está bem quando um filme de Woody Allen apela a um fã de Rocky. Mas enfim, haveria sempre a compensação de poder ver Scarlett Johansson, aqui no papel de Sondra Pransky, uma estudante de jornalismo dos States de férias em Londres, que é contactada por um jornalista que, já morto, recebe a informação de que Peter Lyman (Hugh Jackman) poderá ser o famoso "assassino do tarot" londrino. Juntamente com Sid Waterman (Woody Allen), o ilusionista cujo truque proporcionou o contacto de Sondra com o jornalista falecido, Sondra irá tentar desmascarar Lyman, um jovem e bem-parecido aristocrata inglês. Logo por azar, a jovem americana acabará por se apaixonar por ele, à medida que tudo vai apontando para que ele seja realmente o assassino.
Scoop é uma daquelas comédiazinhas ligeiras que Allen faz melhor que ninguém. Não sendo uma obra-prima, tem diálogos de um humor irrepreensível, e em alguns momentos a interpretação de Allen faz lembrar as de algumas das suas comédias screwball de início de carreira (é um elogio). Mas essa "ligeireza", à falta de melhor termo, não significa "pobreza" (prova de que o que não estava bem era o próprio fã de Rocky). Scoop tem vários dos elementos tradicionais de um filme de Allen, como as dificuldades em manter as relações amorosas (especialmente quando, como neste um filme, uma das partes é um assassino), a Morte (desta vez, a dita até tem uma pequena participação no filme), ou qual a forma mais indicada de conseguir a companhia de uma apetecível jovem de vinte e poucos anos. Para mais, Allen consegue aqui algo que em Matchpoint, o outro filme londrino, não havia conseguido (apesar de Matchpoint ser um filme melhor): tornar Londres uma espécie de personagem do filme, como fazia com Nova Iorque (ao pegar no clássico problema com a condução alleniano e juntando-lhe o facto de se guiar "ao contrário" em Londres).
E depois, há Scarlett Johansson. Se Kenneth Branagh, em Celebrity, fizera da sua interpretação uma espécie de imitação de Woody Allen, Scarlett tenta aqui uma espécie de imitação de Diane Keaton, nos filmes pré-Annie Hall que faz com Allen. E não sendo propriamente uma boa imitação, funciona, precisamente pelo carácter vagamente desorientado que dá à personagem, tudo menos desajustado em alguém que se apaixona por alguém que suspeita ser um assassino (e que disso suspeita porque um morto lho disse). E Allen parece ter resolvido o problema que muitos lhe apontavam, o de parecer inverosímil que as suas personagens ainda conseguissem ficar com a beldade no fim de cdaa filme. Não que isso para mim fosse problema. A ideia de um senhor baixinho, magrinho e de óculos conseguir atrair a atenção de uma Diane Keaton, de uma Winona Ryder, de uma Charlize Theron, de uma Helen Hunt ou de uma Mira Sorvino, sempre me pareceu reconfortante, sabe Deus porquê. Neste filme, a hipótese nem se coloca. O mais perto que Sid consegue chegar de Sondra é fingir ser seu pai (os fãs mais freudianos de Allen poderão ver aqui mais qualquer coisa, mas se nem o mestre Woody o faz, esses fãs deviam seguir os conselhos de um Tony Soprano e "quit that freudian bullshit"). De facto, Allen parece ter conseguido, como Anything Else já o havia mostrado, adaptar a sua personagem (quando por si interpretada) à sua idade, e Scoop, apesar da sua simplicidade, tem o mérito de o comprovar. É claro que não deixa de ser estranho ouvir Allen dizer, por exemplo, que a Morte não deve ser vista como "uma desvantagem". Quando Woody Allen deixa de se preocupar com a Morte, uma pessoa não pode deixar de se perguntar quem será o maior louco: se Allen por ter deixado de se preocupar, se eu por não o acompanhar nesse desprendimento.
Posted by Bruno at 10:04 PM
janeiro 17, 2007
A Ver
Há cerca de um mês descobri o canal de televisão online britânico 18 Doughty Street, que tenho desde então seguido com alguma atenção. Emitindo todas as noites de segunda a quinta-feira, é um canal dedicado ao debate político, e sendo feito quase exclusivamente por membros do Partido Conservador britânico, faz uma análise independente (mas não "neutra") da política britânica, com o habitual desvio para a política americana e o ocasional ataque à UE. Para ver bom debate político, como só se vê na televisão portuguesa às quartas à noite ou quintas ao almoço na SIC Notícias, é só seguir o link.
Posted by Bruno at 10:53 PM
janeiro 16, 2007
Desabafo
O Choque Tecnológico só cria chatices...
Posted by Bruno at 11:50 PM
Fechado no Quarto
A 29 de Dezembro, o Presidente do Conselho de Ministros espanhol, Rodriguez Zapatero, mostrava-se optimista acerca do "processo de paz" com o grupo terrorista ETA, que, com grande insistência sua e elogios da inteligência lusa, havia sido lançado. "Estaremos muito melhor", disse então. No dia seguinte, ocorria um novo atentado em território espanhol. Apesar do claro sinal de que o “processo de paz” havia rebentado com a bomba colocado pelo grupo terrorista, Zapatero ainda falava, apenas alguns dias depois, de um “acidente”, que presume-se, sendo um "acidente", nada punha em causa. Ontem, duas semanas depois, veio falar de um "erro", e apresentou um novo plano para levar a um porto um novo acordo sobre a questão basca.
Este optimismo ilusório a vésperas de acontecimentos trágicos, a relutância em aceitar a quebra dessa ilusão, seguidos de uma espécie de regresso de uma estrada de Damasco, como se esse optimismo e essa relutância nunca tivessem tido lugar, faz lembrar a reacção de Staline (esse grande humanista) quando a Alemanha nazi invadiu a URSS. Era já bastante claro que a invasão estava próxima, mas Staline não queria acreditar. Garantia que Hitler não desrespeitaria o Pacto assinado anos antes. Quando lhe deram a notícia da invasão, Staline não terá conseguido reagir. Não chegou ao ponto de dizer que se tratara de um "acidente", mas culpava Ribbentrop, não Hitler. E queria resolver as coisas "diplomaticamente". Claro que teve de dar ordens para uma resposta militar, mas durante dias, não terá aparecido no Kremlin, não recebeu ninguém, não atendeu qualquer telefonema. Não quisera ver a realidade quando foi avisado de que a invasão estava prestes a ocorrer, não queria ver a realidade agora que ela lhe havia caído em cima. Alguns dias depois, estaria de regresso, garantindo a vitória na guerra que se avizinhava.
Posted by Bruno at 11:50 PM
janeiro 15, 2007
Socialistas Europeus Mostram a Sua Tolerância
Os eurodeputados do Partido Socialista Europeu parecem ter seguido o exemplo outrora dado por João Soares e gritaram “vem aí o fascismo”. Mas quem não estivesse atento certamente terá pensado que eram os próprios socialistas a trazer o fascismo que aparentemente tanto os assusta. Hoje, um novo grupo de partidos de extrema-direita foi formalmente constituído por vários eurodeputados eleitos em 2004. O líder do "Identidade, Tradição e Soberania", Bruno Gollnisch da Frente Nacional de Le Pen, afirmou que o grupo pretende "defender a identidade europeia, as identidades dos vários países-membros, defendendo a tradição europeia permanecendo, no entanto, modernos". E embora tais palavras são de um vazio tal que poderiam ser proferidas por um qualquer Sarkozy, por uma qualquer Royal, ou até por um daqueles fatos Armani que costumam trazer o engenheiro Sócrates dentro, os socialistas europeus tremeram com a perspectiva de terem, no Parlamento europeu, algumas comissões com vice-presidentes deste novo grupo de irrelevâncias.
E logo trataram de fazer alguma coisa. Martin Schultz, o presidente dos socialistas, terá escrito aos responsáveis pelos outros grupos partidários convidando-os a tentarem impedir a constituição do dito grupo, e caso contrário, a boicotarem o acesso dos membros do ITS aos cargos nas comissões parlamentares a que, aparentemente, terão direito, segundo as regras da instituição. Os mesmos senhores que olham para o Parlamento Europeu como a "instituição democrática por excelência" da EU querem negar a um grupo de eurodeputados eleitos pelos "cidadãos europeus" o seu livre direito de associação (algo que os socialistas trazem sempre na boca quando se trata de afagar o ego aos sindicatos), apenas e só por não concordarem (excepto no que toca ao proteccionismo, que apreciam igualmente) com as suas ideias políticas. Bruno Gollnisch pode ser uma figura detestável que gosta de negar a veracidade do Holocausto. Mas os eurodeputados do Partido Socialista Europeu parecem não ter vergonha de esquecer as palavras que sempre disseram a propósito da "Europa".
Posted by Bruno at 10:36 PM
janeiro 14, 2007
No Insurgente
Já pode ser lida a mais recente edição da minha coluna semanal, A Semana Política: "Por alguns dias, o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva teve a oportunidade de fazer o que o comum português gostaria de fazer a título definitivo, respirar o ar de outro país que não Portugal." A coisa continua, mas não fica muito melhor.
Posted by Bruno at 10:20 PM
janeiro 12, 2007
Carlos Daniel
O programa de debate Estado da Nação regressou à antena da RTP, desta vez com apresentação de Carlos Daniel. Carlos Daniel é uma das poucas figuras da nossa televisão pela qual tenho real consideração. Nos programas de discussão de futebol que apresentou, mantinha-se sempre acima da banalidade típica do produto, tendo a vantagem de parecer perceber alguma coisa do que estava a falar, o que é particularmente raro na televisão portuguesa. Do pouco que vi do programa de ontem (a TVI estreava a terceira temporada de House) confirmei a ideia que tinha do apresentador. Para além de ter uma boa noção de quando deve deixar falar um comentador, e quando o deve interromper para colocar uma questão (algo que falta por exemplo, a Fátima Campos Ferreira ou a Judite de Sousa), tem a grande vantagem de ouvir efectivamente o que está a ser dito pelos participantes, de pensar sobre o que os comentadores do programa dizem. É por isso que é capaz de, como aconteceu ontem (com António Filipe), apontar a um comentador a incoerência das suas afirmações. Tal como, por exemplo, Carlos Andrade, ou José Rodrigues dos Santos, Carlos Daniel coloca dificuldades aos seus interlocutores, obrigando-os a dizer qualquer coisa substantiva(ou a ficarem mal vistos se não o conseguirem), mas ao mesmo tempo permite-lhes (desde que eles queiram) "pensar alto", dizer qualquer coisa fora da banalidade tradicional dos representantes partidários nesses programas. A presença de Carlos Daniel na condução do debate político na RTP é uma boa notícia. Temo que, precisamente pelas qualidades que ele traz, não dure muito tempo.
Posted by Bruno at 11:17 PM
If You Want To Be Green, Kill A Cow
Para acabar com aquela que parece ser a grande preocupação dos tempos modernos, o aquecimento global, o governo português pretende que os táxis lisboetas parem um dia por semana. Boris Johnson, com um bocadinho mais de humor (e talvez com mais razão), vê na matança da vaca emissora de flatulência uma melhor solução:
"I have done my homework, and I have come up with a far more effective solution. As ever, I have consulted the ancient texts, and have been reminded that the Greeks and Romans were also convinced of the importance of making a sacrifice before any tricky voyage. You will recall that the Greek task force for Troy actually killed Iphigenia, daughter of Agamemnon, in the hope of guaranteeing good sailing weather — with bad consequences for Agamemnon's conjugal relations.
Now we are only taking a family holiday, and I don't think Zeus or Jupiter would desire anything so extreme. A single cow would be about right. If I were an ancient Roman setting out on a family holiday, I would get some old milker and do her up as if for a party. She'd have her hair washed and combed and cut, and there would be ribbons and purple woollen fillets about her horns.
Then my chums and I would decently cover our heads and we'd drone loads of stuff in Latin and chuck some sacred meal about the place; and then one of us would hold a handful of food under the poor old girl's nose, and as she bent her head to snuffle it up we would take this — praise be! — as a sign that she had assented to her death, and at that auspicious moment she would be whopped hard on the side of the head and her throat would be cut; and then Jupiter would nod, and Olympus would tremble, and the whole family would be able to go off on holidays with a clear conscience.
And the funny thing is that, if we wanted to pay our debt to the great green earth-goddess Gaia, and neutralise the ill-effects of going up in a plane, then, as far as I can see, killing a cow is still exactly the right thing to do, two thousand years later.
I mean it. There are 1.3 billion cows on this planet, and every year each cow produces about 90kg of methane, and as greenhouse gases go, methane is about 24 times worse than CO2 in sealing the heat in the air. According to a recent report by the UN's Food and Agriculture Organisation, agriculture produces 18 per cent of the world's greenhouse gases, as measured in CO2 equivalent — and that, my friends, is more than is produced by the entire human transport industry.
(...)But, of course, people aren't interested in these kinds of facts. They want the religion. They want the sweet moralistic feeling of telling someone to stop doing something. They want to be able to rage about Chelsea Tractors and Tony Blair's flights, and they want to give vent to their feelings of disgust at the whole triumph of Western consumerist capitalism; and what worries me is that, in the end, the moralising mumbo-jumbo becomes more important than the scientific reality.
We face huge decisions, such as whether or not to allow scientists to use human genetic material in animal cells; and I want those decisions taken on the basis of whether or not the advance can help cure disease, not on the basis of "Frankenbunny" headlines.
We should cease our pagan yammering for sacrifice, and look at what the science really demands. It is a sign of our terrifying ignorance that so many would still prefer to plant a heat-producing tree than see the wisdom of the ancients, and kill a flatulent cow."
Posted by Bruno at 10:31 PM
A Maioria Não É a Voz da Razão (corrigido)
O Tribunal Constitucional votou favoravelmente a constitucionalidade da proposta de Lei das Finanças Regionais do Governo socialista. Logo o senhor Ministro das Finanças veio congratular-se diante das câmaras de televisão. Segundo o dito senhor, estava aqui a prova de que o PSD estava errado quando afirmava que esta proposta era inconstitucional. Não faço a mínima ideia se é constitucional ou não, mas sei que o facto de o Tribunal Constitucional ter dito que sim não é "prova" da constitucionalidade da proposta. Em primeiro lugar, porque nem todos os juízes votaram favoravelmente, o que desde logo indica que haveria boas razões para o PSD afirmar o que afirmava. E em segundo lugar, porque uma decisão do Tribunal Constitucional não é a Verdade. è apenas e só o resultado da opinião, informada é certo, mas uma opinião, da maioria dos seus membros. A decisão do Tribunal Constitucional prova que a maioria dos juízes concorda com a opinião do PS, não que o PS tivesse razão.
Posted by Bruno at 10:14 PM
janeiro 11, 2007
Flags of Our Fathers

Em Fevereiro de 1945, forças americanas desembarcam na ilha japonesa de Iwo Jima. O "inafundável porta-aviões japonês" podia ser uma pequena ilha com um insuportável cheiro a enxofre, mas a sua posse seria imprescindível para a planeada invasão aliada ao território japonês, servindo como base aérea das forças invasoras. Os americanos terão tomado rapidamente o monte Suribachi, mas, devido à estratégia defensiva dos japoneses, e apesar da clara desvantagem numérica das forças nipónicas, o confronto prolongou-se até dia 10 de Março. Três aeródromos foram construídos e serviriam de base aos bombardeamentos que os aliados realizariam contra o Japão, mas 17 400 Marines foram feridos em combate, e 5 391 tinham perdido a vida na "Ilha do Enxofre".
Ao quinto de 35 dias de batalha, uma bandeira americana foi hasteada no topo do monte Suribachi. Seria logo substituída por uma outra. Devido ao peso do poste, foram necessários seis homens para o levantar. Seis homens que se tornariam famosos devido à fotografia que lhes foi tirada, e que se tornou um símbolo da vitória que a América desejava obter no esfoçro de guerra no Pacífico. John "Doc" Bradley (Ryan Philipe, que, como Di Caprio, tem vindo, felizmente, a perder o ar amaricado que em tempos ostentou), Rene Gagnon (Jesse Bradford, que não fazia um filme decente desde que em criança participou no subvalorizado King of The Hill de Soderbergh) e Ira Hayes (um para mim desconhecido Adam Beach, no papel de um soldado índio) foram os três desses homens enviados "de volta para casa", para, sendo os "heróis de Iwo Jima" que haviam feito erguer a bandeira americana, conseguissem reunir, apelando às doações dos americanos, os fundos necessários ao esforço de guerra. Os restantes três, como o fuzileiro Mike Strank (Barry Peper, lançando a sua candidatura ao Óscar de Melhor Actor Secundário com uma discretíssima mas exemplar interpretação, como a de Kevin Bacon em Mystic River) haviam já morrido entretanto na ilha japonesa. De volta a casa, ao mesmo tempo que são chamados de "heróis", antes de virem a ser esquecidos como os seus companheiros que morreram em combate, terão de lidar com o sentimento de culpa de terem deixado para trás esses mesmos companheiros.
É comum dizer-se que Clint Eastwood é o "último dos clássicos" de Hollywood. A razão para tal afirmação ser comum está no facto de ser verdadeira. E este Flag of Our Fathers (ao qual se seguirá Letters from Iwo Jima, sobre o mesmo confronto, mas visto do lado japonês) mostra porquê: não é apenas pelo facto de, tal como Saving Private Ryan (do qual também é bastante devedor) de Steven Spielberg (produtor de Flags of Our Fathers), este filme de Eastwood ser um legítimo herdeiro dos grandes filmes de guerra da velha Hollyood da "Era Dourada" dos grandes estúdios (a cena em que, na noite anterior ao desembarque, os soldados escutam uma canção "para pensarem na rapariga que os espera em casa", por exemplo, poderia fazer parte de um velhinho filme de John Ford). A "ligação" de Flags of Our Fathers aos "clássicos" vai para além dos "clássicos" do genre. O pararelo com The Man Who Shot Liberty Valance, por exemplo, é evidente. Todo o filme assenta no facto de aqueles três homens não terem sido os que levantaram a primeira bandeira a ser hasteada, no facto de um dos outros três a quem foi atribuída a presença na fotografia não estar, na realidade, nela presente (havia sido, isso sim, um dos que haviam hasteado a primeira bandeira), ou no facto de ao hastear da bandeira não ter correspondido, como foi a impressão do povo americano, a vitória na ilha (esta chegaria mais tarde). Mas, como no clássico de John Ford, quando se é dado a escolher entre a lenda e a verdade, imprime-se a lenda. E se em termos temáticos, é de Ford que nos lembramos, em termos de estilo, de "linguagem cinematográfica", é também ao velho cinema de Hollywood que Eastwood parece ir buscar inspiração. Veja-se a longa sequência do desembarque em Iwo Jima, e o que Alfred Hitchcock dizia (e fazia) do suspense. Hicthcock não tentava supreender o espectador, dizia ao espectador o que iria acontecer, antes de o mostrar. O espectador sabia que a bomba iria rebentar, enquanto o herói apenas estava a pensar nas pernas da senhora ao lado. Eastwood usa o mesmo artifício. Nós sabemos que os japoneses estão escondidos nos rochedos da ilha, ou em bunkers camuflados nas dunas da praia. Nós sabemos que eles estão à espera que o maior número de soldados americanos desembarque, para que possam depois matar também o maior número deles. Nós sabêmo-lo, porque Eastwood nos mostra. Enquanto isso, os heróis do filme apenas pensam que os bombardeamentos que antecederam o desembarque talvez tenham morto todos os japoneses. Durante todo esse tempo, em que Eastwood nos mostra onde os japoneses estão, em que lentamente vai mostrando as suas armas prontas a disparar (no que faz lembrar o seu velho mestre Sergio Leone, e a lentidão com que a violência surgia nos seus filmes), a nossa angústia de espectador está na antecipação do que vai acontecer. O choque, em vez da fracção de segundo da supresa, demora minutos, os minutos em que imaginamos o que vai acontecer, e os minutos em que vemos a brutal violência que sabíamos estar prestes a eclodir.
A forma como a violência é mostrada é ela própria um exemplo da herança clássica de Eastwood. Nos velhos tempos da censura de Hollywood, era difícil mostrar cenas particularmente violentas. Em filmes como os velhos filmes de gansgters da Warner Bros. esta realidade colocava alguns problemas, pois o seu universo era um universo de violência. Para fugir ao problema, recorriam ao truque usado, por exemplo, no fenomenal The Public Enemy de William Wellman, quando James Cagney entra num restaurante para matar os seus inimigos, mas a câmara fica à porta. Nós ouvimos a violência, os tiros e os gritos de dor, não a vêmos, e é precisamente por estarmos apenas a imaginar o que lá dentro se passa que a sequência nos parece mais aterradora. Eastwood faz o mesmo, numa cena em que "Doc" vai ver o que os "bastards" japoneses fizeram ao corpo do"poor son of a bitch" de um soldado americano. Nós apenas vêmos a cara de Ryan Philipe, e nunca o estado em que foi deixado o corpo do soldado ("Igby", interpretado por Jamie Bell). O "horror" nunca nos é mostrado, apenas o podemos imaginar pelo que vêmos na cara de quem o viu. O efeito é ainda intenso, porque em todo o filme, a violência não é escondida. Eastwood não hesita em mostrar balas a perfurarem cabeças, sangue a espirrar das feridas, cabeças separadas do corpo, intestinos expostos. Ao, naquela cena em particular, e exclusivamente naquela cena, esconder a violência, esconder o "horror", faz-nos pensar o que poderá ser pior do que aquilo que já vimos, e esse é, por paradoxal que possa parecer, o momento mais aterrador do filme.
É verdade que Flags of Our Fathers não é o melhor filme de Clint Eastwood, nem sequer está ao nível de Mystic River ou Million Dollar Baby. Mas é mais uma prova da imensa qualidade do realizador, da capacidade deste de fazer filmes comoventes, sem ceder ao sentimentalismo fácil. Porque acima de tudo, Flags of Our Fathers é um comovente elogio do soldado americano, nem sempre respeitado pelos seus compatriotas, por vezes nem pelos seus superiores, e das famílias dos soldados americanos, que os perdem, que os receiam perder. E é um filme que se insere perfeitamente na filmografia do seu realizador: desde pelo menos The Outlaw Josey Wales, e com raras excepções (Bird, por exemplo), os filmes de Eastwood são marcados pela presença de uma figura paternal, geralmente "adoptiva", e geralmente "acidental" (veja-se Perfect World, Honkytonk Man ou Million Dollar Baby) e o sentimento de perda, que a tragédia que cairá sobre a relação da figura paternal com a figura filial, provoca (Mystic River, por exemplo, assenta quase exclusivamente nesse aspecto). Em Flags of Our Fathers, essa temática repete-se. Em primeiro lugar, com o retrato do sofrimento das famílias dos soldados mortos. Mas acima de tudo, na família "acidental" que se forma entre aqueles soldados. Quando um deles morre, os que sobrevivem perdem um irmão, um pai, um filho, tudo numa só pessoa. É por isso que, sendo aclamados como "heróis" na "casa" à qual regressaram, "Doc", Rene e Ira apenas conseguem pensar naqueles outros soldados, nos verdadeiros heróis de Iwo Jima, os que ficaram lá a combater, e os que já haviam morrido. Os que "lutaram pelo seu país", mas que "morreram pelos seus companheiros", pelos homens que estavam "à sua frente", que lutaram "ao seu lado".
Posted by Bruno at 06:46 PM
janeiro 10, 2007
A Ler
O texto do Fernando Gabriel, Os despojos de Chamberlain.
Posted by Bruno at 10:59 PM
Um Ano
Faz hoje um ano, com panegíricos a Jorge Costa e Aloíso ou a Philip Roth, o blog dos meus caros amigos Paulo Rodrigues Ferreira e João Carlos Silva. Há quem espere uma análise à obra do prof. Bitaites.
Posted by Bruno at 10:48 PM
janeiro 09, 2007
A Jogada Americana no Iraque
Segundo os rumores que correm em Washington e que tiveram eco na comunicação social, o presidente norte-americano George W. Bush irá anunciar amanhã o envio de um reforço de tropas para o Iraque, segundo se diz, de 20 000 soldados. Depois da derrota republicana nas eleições intercalares para o Congresso, e da publicitação das conclusões do Iraq Study Group, Bush anuncia aquela que será provavelmente a última cartada que joga na questão iraquiana antes do final do seu mandato nos primeiros dias de 2009.
A análise desta proposta (ou do que se julga vir a ser a proposta) tem-se centrado nas suas implicações na política interna americana, nas suas consequências no que diz respeito à popularidade do presidente, bem como das suas consequências para a futura eleição presidencial, no que diz respeito à popularidade do "presidenciável" John McCain. O Público fala da "jogada de risco de John McCain". Curiosamente, as implicações que tal medida terá para os Democratas, tem sido ignoradas. A maioria Democrata tem-se demonstrado contra o que se espera vir a ser a proposta de Bush. No entanto, esta é uma medida da responsabilidade exclusiva do presidente. A única coisa que a maioria Democrata pode fazer é não aprovar o reforço do financiamento do esforço militar e de reconstrução no Iraque. Ao fazê-lo, estaria a convidar acusações de deixar vulneráveis os "rapazes" que estão no Iraque, e ao aprovar o financiamento, os congressitas democratas que corram para a Casa Branca dificilmente se poderão descolar da opção de Bush.
No entanto, bem mais importante do que o poderá a proposta implicar no campo de batalha em Washington, são as consequências que irá ter no campo de batalha do Iraque. A The Economist considera que Bush está a "subir a parada", numa opção de "tudo ou nada", em que o presidente estaria disposto a arriscar tudo, até a fama dos Republicanos como o partido mais capaz de defender a América dos seus inimigos, em prol do que seria a única hipótese de sucesso no Iraque. O risco maior, no entanto, e que a Economist ignora, é a de que a estratégia que Bush irá seguir não represente uma subida da parada, não represente um verdadeiro compromisso de Bush com um esforço militar sério para pacificar o Iraque. John Keegan, o reconhecido historiador militar, considera que apenas um reforço de 50 000 tropas será suficiente. E o próprio John McCain, que tem sido associado à nova estratégia do presidente, considera que a pior solução possível seria um reforço diminuto, que poderia provocar um aumento da violência sem garantir uma maior eficácia no seu controlo, e os 20 000 homens são apenas os que ele considera serem necessários em Bagdad, deixando de fora os que teriam de ser colocadas noutras regiões. Se Bush não quer deixar o Iraque entregue a guerra civil, e faz bem em não querer, terá que encarar seriamente o desafio da pacificação e o número de tropas necessárias para este ser bem sucedido.
Posted by Bruno at 10:02 PM
janeiro 08, 2007
Necessidades Particulares
Em Inglaterra, a decisão da antiga Ministra da Educação, Ruth Kelly (actualmente Ministra das Comunidades e Governo Local), de colocar o filho a estudar nuam escola privada tem provocado alguma polémica. Como o Labour é um partido que nutre uma grande "paixão" pela educação pública, sempre que um seu membro opta por colocar os filhos numa escola privada motiva uma série de acusações de "hipocrisia". Ruth Kelly enfrentou o mesmo. Defendeu-se, afirmando que colocou o filho numa escola que responderá às suas "necessidades particulares". É uma escolha de palavras feliz. Um pai identifica melhor que um senhor num ministério da Educação quais as "necessidades particulares" dos seus filhos. Se tiver a liberdade de escolher qual a escola onde colocar esse filho, escolherá, como Kelly fez, aquela que entende responder melhor a essas necessidades. Se o Estado, em vez de financiar as escolas públicas, financiasse os alunos, os pais destes poderiam realmente escolher qual a escola que responde às suas "necessidades particulares", e as escolas teriam de responder a essas necessidades, pois só merecendo a escolha dos pais dos alunos receberão o dinheiro indispensável ao seu funcionamento. Financiadas pelo Estado, respondem perante o Estado. Dependentes da escolha dos pais, respondem perante eles. Ao Estado, deveria apenas caber a função de garantir que a ninguém irão faltar os recursos para poder escolher. Pena que os governantes, estejam eles em Inglaterra ou em Portugal, não percebam como um sistema em que o Estado fornece o serviço educativo, em vez de se limitar a garantir o acesso ao dito, mantém a "desigualdade" e a "injustiça" que pretende combater.
Posted by Bruno at 10:47 PM
No Insurgente
Foi ontem iniciada a minha nova coluna semanal, A Semana Política. O caro leitor pode ir lá lê-la, e aproveitar para ler o resto, que até fica melhor servido.
Posted by Bruno at 10:13 PM
janeiro 05, 2007
Político Às Avessas
No meu texto de ontem, defendi que num ambiente mediático que, na cobertura do confronto político, prefere o incidente, o "sensacionalismo", à argumentação (não apenas os jornalistas que informam os cidadãos, mas também os cidadãos que não querem pensar sobre a informação que lhes é dada), o comportamento mais racional que um político pode demonstrar é aderir a essa preferência pelos fait-divers e pelas acusações, em detrimento da apresentação de propostas alternativas às dos outros partidos. Sendo esse o comportamento que, nas condições em que exerce a sua actividade, mais racional lhe parece ser, dificilmente poderemos esperar de um político que adopte outra forma de agir. Assiste-se a uma esvaziamento da política, que, num ciclo vicioso difícil de ultrapassar, convida ao agravar desse mesmo esvaziamento.
Mas sendo um ciclo vicioso difícil de ultrapassar, não é impossível. Por paradoxal que possa parecer, ele próprio oferece a saída para o poço em que a todos nos coloca. É verdade que a intriga política e os insultos e acusações trocados por políticos são "mediaticamente" mais apelativos do que um debate complexo acerca de uma qualquer questão política, no sentido "nobre" do termo. Mas se do ponto de vista "espectacular" o cidadão comum estará mais receptivo a acusações mútuas do que a discussões filosóficas, essa mesma troca de insultos, de acusações mútuas, ora de incompetência, ora de desonestidade, contribuem para a crescente descredibilização da actividade política. Ora, um político que esteja disposto a comportar-se da maneira inversa à que associamos ao comportamento generalizado dos políticos, poderá conquistar a simpatia popular, fugindo do buraco aberto pelo progressivo esvaziamento da política. Claro que ele não ultrapassará a dificuldade de fazer ouvir um argumento seu num telejornal, nem a improbabilidade de esse argumento ser alvo de reflexão por parte dos cidadãos. Mas um político que faça aquilo que nós não esperamos dele criará um nível de empatia que um político "convencional" (politiqueiro, vivendo nos corredores, especialista na intriga, fã de Marcelo Rebelo de Sousa) não consegue criar. Claro que um político que venha defender a adopção de um flat-tax ou de vouchers para a educação ou para a saúde, não só verá os cidadãos encherem-se de receio da mudança que ele propõe, como os verá pouco interessados em ouvir por que razões esse político entende serem essas soluções as melhores para o país. Será essa a reacção instintiva do eleitor comum. Mas mais tarde, esse mesmo eleitor irá perguntar-se por que razão aquele político tem um comportamento que apenas o parece prejudicar. Irá perguntar-se por que razão aquele político tem um comportamento que tenderá a conduzi-lo para uma derrota eleitoral. E aí, apesar do receio que a mudança por ele proposta certamente lhe provoca, e apesar da pouca disposição que terá para ouvir a sua argumentação, talvez esse eleitor chegue à conclusão de que, se aquele político está disposto a defender algo que lhe pode custar eleições, talvez tenha mesmo razão em relação ao que afirma. Se os cidadãos antipatizam com o comportamento "carreirista" e "politiqueiro" dos políticos que vêem todos os dias na televisão, acabarão por ter uma natural simpatia por um político que fuja a esse modelo.
No fundo, para se sair do ciclo vicioso do progressivo esvaziamento do debate público, precisamos de políticos que, tendo em conta o ambiente mediático em que forçosamente terão de exercer a sua actividade, adoptem o comportamento menos racional. Que estejam dispostos a aturar os insultos e as intrigas de corredor que caracterizam a política moderna, sem se envolverem neles. Que estejam dispostos a defender propostas que assustarão inevitavelmente os eleitores, eleitores esses que num primeiro momento nem sequer estarão dispostos a ouvir por que razão esses políticos defendem essas propostas. Como disse ontem, esperar que um político não se comporte da forma que é, de facto, a mais racional de acordo com as condições que lhe são oferecidas pelas democracias modernas, é, ela sim, uma expectativa manifestamente irracional. Mas a haver saída (e nem sequer é certo que possa haver), ela só poderá estar aí.
Posted by Bruno at 09:48 PM
janeiro 04, 2007
O Esvaziamento da Política
Há certamente quem se sinta tentado a dizer que pela boca morre o peixe. Nos mais variados momentos, nunca o actual Governo se cansou de proclamar o "rigor" e a "verdade" que caracterizavam os seus Orçamentos de Estado. Hoje, o Tribunal de Contas tornou público um parecer que afirma que as contas do Governo apresentavam consideráveis "deficiências", não podendo validar os valores das receitas e das despesas apresentados pelo Governo. O Governo, na pessoa do Ministro das Finanças, já veio defender-se (e a RTP deu bastante tempo de antena no telejornal para que tal acontecesse). O PSD, como seria prevísivel, aproveitou a situação para, aliás como a restante oposição, criticar o Governo e acusá-lo de falta de credibilidade. Não pretendo desvalorizar a questão, mas não deixa de ser curioso (e algo deprimente) que o debate político, hoje em dia, se reduza na sua quase totalidade a questões de contabilidade, e não de "política" propriamente dita. O Tribunal de Contas diz que as contas não estão bem feitas, a oposição aproveita para dizer o mesmo, e o Governo diz que o Tribunal de Contas está errado, e que a oposição está ser oportunista. De verdadeiras opções políticas, de escolhas entre projectos alternativos, ouve-se pouco nos telejornais, pouco entusiasmo motivam na voz dos deputados e restantes responsáveis políticos.
É comum atribuir-lhes as culpas. Dizer que os políticos, em geral, pouca inteligência têm, que lhes faz falta preparação, leituras, conhecimentos de história, filosofia, economia, das àreas com que, de uma forma ou de outra, têm que lidar no exercício da actividade política. Ou, em alternativa, que lhes falta capacidade, vontade, coragem, para apresentarem propostas coerentes que sejam uma alternativa ao que, por não querer dizer nada, se apresenta às pessoas, de forma a afastar o menor número possível delas. São factores reais, e que não devem, de forma alguma, ser subestimados. Mas subestimado não deve ser também outro elemento, que muito contribui para este esvaziamento do debate político. Na realidade, por muito capaz e corajoso que um político possa ser, terá de enfrentar um ambiente pouco propício ao debate político sério. A política, ao contrário do que o prof. Marcelo possa crer, é feita de um pouco mais do que pequenos incidentes e da elaboração de artimanhas conspirativas. Exige argumentação. E argumentação é algo que é difícil fazer passar num telejornal. É certo que o Ministro das Finanças teve bastantes minutos para explicar como as suas contas estavam certas, mas pertence ao Governo, por um lado, e por outro, foram minutos dados a um assunto que agrada ao ambiente generalizado, ou seja, incidentes e acusações mútuas, ora de incompetência, ora de falta de carácter. A argumentação política exige mais. Exige não só tempo (e tempo para todos os participantes no jogo político, não apenas para o governo do momento), mas também "atenção", à falta de melhor palavra. O insulto e a acusação são sempre mais apelativos, mais "sensacionalistas", se se quiser. O argumento exige disponibilidade para ouvir, e para além disso, disponibilidade para posteriormente pensar acerca dele. Ora é precisamente isso que, em grande medida, falta aos jornalistas, que pouca vontade e capacidade têm para tratar assuntos com um qualquer grau de complexidade que seja superior a um recado proveniente de um chefe de gabinete ministerial, e aos cidadãos em geral, que, se preferem a Floribela aos Sopranos, dificilmente estarão dispostos a aguentar três minutos que sejam de uma discussão sobre os méritos relativos de um flat tax ou de impostos progressivos, por exemplo. Na realidade, no ambiente mediático em que vivem os políticos, o mais insignificante fait-divers é uma das poucas oportunidades que eles têm para se fazerem ouvir. No ambiente mediático em que vivem os políticos, o aproveitamento do mais pequeno incidente é precisamente o comportamento mais racional que qualquer um deles pode ter. Pedir a um político que não se comporte da forma que, nas condições em que exerce a sua actividade, lhe parece a mais racional, é isso sim, francamente irracional, apenas uma ilusão. O empobrecimento do debate político, esse, é bem real.
Posted by Bruno at 10:13 PM
janeiro 03, 2007
Comportamentos
Aparentemente, o dr. Teixeira Lopes está preocupado. Nada que não seja normal. Mas desta vez, a coisa parece ser grave. O movimento a favor da despenalização do aborto a que pertence terá, na pessoa de um seu dirigente, convidado Rui Rio a participar. Teixeira Lopes acha que, não sendo esse "o propósito do convite", este poderá acabar por "branquear" o "comportamento" de Rui Rio, e que este último o poderá aproveitar para "ganhar notoriedade". O dr. Teixeira Lopes não explica qual o "comportamento" a que se refere, nem sequer o que ele tem de tão grave para que Rui Rio o tente "branquear". Mas as suas declarações mostram como o dr. Teixeira Lopes ou não tem memória, ou não tem vergonha. Porque a adesão de Rui Rio a um movimento destes é tudo menos surpreendente, é tudo menos uma tentativa de "ganhar notoriedade". O dr. Teixeira Lopes talvez não se lembre, ou talvez o tenha preferido esquecer, para poder agora dizer o que disse. Mas já quando era deputado do PSD, Rui Rio se mostrou favorável à despenalização do aborto. Concorde-se ou não com a sua posição, há muito que Rui Rio defende a despenalização do aborto, e portanto, uma sua eventual adesão a este movimento, em vez de "branquear" o seu passado, é coerente com ele. Se fosse possível dizer de outros políticos o que se pode dizer acerca do "comportamento" de Rui Rio, estaríamos bem melhor, por muito que o dr. Teixeira Lopes não o perceba.
Posted by Bruno at 10:55 PM
janeiro 02, 2007
O Anunciado Fim de Tony Blair (a minha crónica mensal no Insurgente)
Dez anos depois de entrar pela primeira vez em Downing Street como Primeiro-Ministro, Tony Blair irá abandonar o cargo. Podemos duvidar se o seu sucessor será mesmo Gordon Brown ou alguém como John Reid tentará negar ao “punho cerrado” do compatriota escocês a oportunidade de atingir David Cameron, ou se, numas eventuais eleições antecipadas, o “Boy King” Cameron conseguirá não só derrotar o Labour, mas garantir uma maioria segura nos Comuns. Mas não há dúvida que Blair sairá este ano. Quanto mais não seja, porque o próprio o anunciou, quase com um ano de antecedência. Um que leva o Primeiro-Ministro em exercício a anunciar a sua saída, tanto tempo antes de efectivamente sair? O que leva um primeiro-Ministro a anunciar que daqui a um ano, irá abandonar o poder, o que o leva a, na prática, dizer aos membros do seu partido que a sobrevivência política de cada um dos deputados que suportam o seu governo pode vir a depender de muita coisa, menos do sucesso do seu Primeiro-Ministro? Se o fez, foi porque não teve alternativa.
Em 1994, com John Major no Governo, o então líder do Labour, John Smith, morre de ataque cardíaco. Segundo reza a história, Gordon Brown esperaria que Blair o apoiasse na corrida à liderança. No entanto, haveria um considerável apoio em redor de Blair, que terá então decidido avançar ele próprio. Ficou então aí estabelecido o célebre acordo entre Blair e Brown: Brown apoiaria Blair contra Prescott e Beckett, ao mesmo tempo que Blair prometia promover a “agenda de justiça” de Brown, dar-lhe o lugar de Chancellor (que ainda hoje ocupa), e mais importante ainda, a saída do poder em seu favor sete anos depois de ser eleito Primeiro-Ministro. Tudo se passaria como estava previsto. Brown ocupou o seu lugar, e para garantir a promoção da dita “agenda”, foi-lhe dado um enorme poder sobre as políticas dos restantes Ministérios. Esse controlo terá, como supostamente se queixarão alguns fiéis de Blair, feito com que muitas das reformas que o Primeiro-Ministro desejaria levar a cabo ficassem na mesma gaveta em que ele deixara a famosa “Clause Four” do seu partido.
Apenas faltou uma coisa: Tony Blair não deu o lugar a Brown. Blair dependera do apoio do seu colega para garantir uma tomada do poder no seu partido de uma forma relativamente pacífica. E continou dependente desse apoio nos anos seguintes, para não lançar o partido numa guerra interna que certamente o destruíria. Mas era um apoio dado na expectativa de que ele seria pago com a entrada de Brown no Nº 10 de Downing Street. Para mais, o seu alinhamento com a política americana na questão iraquiana motivara a ira de boa parte do grupo parlamentar do Labour. Os apoiantes de Brown esperavam que Blair saísse no Outuno de 2004. Já não era apenas no Labour que a guerra do Iraque provocava descontentamento. Na Primavera de 2004, essa opção de Blair parecia tê-lo condenado ao abandono do poder. Ele próprio terá pensado na demissão. Mas alguns apoiantes (Milburn, Campbell, Clarke, Hewitt) terão convencido o seu Primeiro-Ministro a resistir. Não queriam que Blair “deixasse” Brown “ganhar”. Como terá acontecido também com a sua mulher. E assim, quando Brown estava nos EUA, Blair anuncia que irá cumprir um terceiro mandato, mas que não concorrerá a um quarto. Foi isto que disse aos ingleses. Mas para Brown, a mensagem era outra: não seria agora que a promessa, feita em 1994, seria cumprida.
Para muita gente, este golpe (como o de 94) mostrava a habilidade política de Blair, o seu espírito de sobrevivência conspirativo. Na realidade, um e outro mostravam a sua fragilidade. O anúncio de mais um mandato tinha um preço para Blair. O mesmo preço que tivera de pagar em 1994: depender da boa vontade de Brown. E estava agora bem mais fragilizado do que estivera anteriormente. O fantasma do Iraque fazia temer uma queda nas eleições de 2005. Era preciso que Brown estivesse ao lado de Blair na campanha. Tal como Peter Mandelson se esforçara em 94 para manter Brown a jogar na mesma equipa, Alastair Campbell teve de suar para garantir que Brown não ficaria fora de jogo (consta que Campbell é apreciador do recurso a linguagem futebolísctica como o “jogar na mesma equipa”, “suar” e “fora de jogo” aqui usados). Foi assim criado o “double-act” da campanha de 2005. Mas para que Brown participasse, Blair teve de prometer (publicamente) que iria sair antes do fim do novo mandato. Ao fazê-lo, não estava apenas a colocar-se, mais uma vez, na dependência de Brown. Estava a anunciar aos seus deputados e aos seus ministros que o seu futuro estaria dependente de Brown, não de Blair. Se ele estava de saída, pouco ou nada lhe deviam. Se Brown lhe iria suceder, seria bom que não motivassem a sua ira. Daí a dificuldade que Blair tem tido para fazer passar as suas reformas. Daí a necessidade de manter amigos no Governo. Por isso não pôde demitir Ruth Kelly. Por isso tentou não demitir Charles Clarke, por isso não demitiu Patricia Hewitt. Poderia demitir John Prescott, talvez. Prescott apenas está no Governo porque, em 97, Blair precisava de um exemplar do Old Labour que mostrasse à esquerda do seu partido que não havia mal em não nacionalizar tudo o que se mexesse. Hoje não precisa. Mas demitir Prescott seria admitir que a propaganda que trouxe o Labour ao poder não passava disso mesmo. De propaganda.
Quando Blair tomou o controlo do seu partido, os Tories estavam envoltos em inúmeros “casos”. Algumas práticas pouco lícitas, outras pouco morais. Prescott ficava sempre bastante animado de cada vez que tinha oportunidade acusar a rapaziada da bancada da frente de se entregar a apetecíveis pecados. O “escândalo sexual” de Prescott só não teve mais consequências (não pelo facto de ter traído a mulher, mas por fazer o que ridicularizou há dez anos), porque na mesma semana, algo de mais grave aconteceu. Charles Clarke, Ministro do Interior, ao admitir que um vasto número de criminosos estrangeiros não viu a possibilidade de deportação ser analisada pelo seu Ministério, estava, aos olhos dos ingleses, a mostrar que toda a propaganda securitária do Labour nos últimos anos mais não era que propaganda. Que o partido que seria “duro com o crime” (e com as suas “causas”, convém não esquecer) não havia feito o que lhe competia. Que um partido que não se cansa de limitar as liberdades dos ingleses não terá feito o que devia para limitar a liberdade de “assassinos e violadores”. Patricia Hewitt tem a seu cargo um serviço nacional de saúde deficitário, apesar do brutal aumento de dinheiros públicos no sector. Ao dizer isto, estava apenas a mostrar que o partido que dissera, em 1997, que restavam “24 horas para salvar o NHS”, esteve nove anos a agravar a sua crise. Todos (Prescott, Clarke e Hewitt, como antes Mandelson e Blunkett) mostravam uma coisa: o partido que na era do “tory sleaze” prometera “mudança”, acabava por se sujar tanto ou mais que os seus antecessores. A posterior crise do “cash for honours”, as suspeições em torno do financiamento do partido, de troca de lugares na Câmara dos Lordes por doações ao Labour, apenas agravou esta percepção.
Os acordos que Blair teve de celebrar para subir ao poder, e para o manter, afectaram a sua governação. O mais recente ter-lhe-á mesmo feito perder a autoridade sobre o seu governo. A propaganda que o levou ao poder virou-se contra ele. Descredibilizou-o. É comum dizer-se que o princípio do fim de Blair, a que assistismos nos últimos meses, se deve à sua eternização no poder. Que esse é o destino de todas as carreiras políticas. Já o doutor Powell o dizia. Mas desta vez, não é assim. O declínio de Blair deve-se à forma como se deu a sua ascensão. Em Setembro passado, uma carta assinado por deputados do Labour a pedir a demissão de Blair, e a confusão que o golpe gerou, terão obrigado Blair a anunciar prematuramente a sua saída. Mas o seu fim estava traçado desde que subira ao poder no seu partido, pelo que fez para ganhar o poder no Labour e no Reino Unido. Blair aguentou as dificuldades durante muito tempo, mas foi apenas e só isso que conseguiu.
Posted by Bruno at 10:39 PM