Escrito pela mão invisível de Bruno Alves. Comentários e opinião: alves.bm@netcabo.pt

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dezembro 31, 2006

Tudo o Que É Bom Faz Mal

Como acontece em todos os finais de ano, os jornais gastam inúmeras páginas com o balanço do ano que termina. No Público de hoje, Eduardo Cintra Torres faz o seu balanço do ano televisivo. Uma nota interessante é a que faz acerca da "infantilização" do horário nobre, com programas como Floribela ou Morangos com Açúcar. Numa altura em que a ficção televisiva, por exemplo nos EUA, é de melhor qualidade do que muito do cinema, em que pelo menos o mainstream televisivo é melhor que o mainstream cinematográfico (um filme de Scorsese é tão bom como os Sopranos, mas os Sopranos estão no topo das audiências, e um filme de Scorsese não vende tanto como um blockbuster de Verão), em Portugal, não só a produção televisiva nacional preserva a sua mediocridade, como o que de melhor se faz nos EUA é mantido o mais longe possível do telespectador. Numa altura em que as melhores séries televisivas do EUA são mais complexas que as melhores séries de há uns anos atrás (compare-se um episódio da excelente Hill Street Blues com um dos Sopranos, ou do clássico Cheers com Seinfeld ou Curb Your Enthusiasm, ou o velhinho St. Elsehwere, que há anos passou nas manhãs da TVI, com House, que hoje é transmitido nas madrugadas do mesmo canal), a imbecilidade de um episódio da Floribela transforma um episódio do (engraçado) Duarte e Companhia numa obra-prima. Se no seu livro sobre a televisão, os video-jogos e a internet, Everything Bad is Good For You, o autor Steven Johnson argumentava que esses mesmos elementos, e a sua crescente complexidade, nos faziam mais inteligentes, os canais de televisão portugueses parecem acreditar que tudo o que é bom (séries como os Sopranos, House, Curb Your Enthusiasm, 24, Rome) é mau para nós, só podendo ser transmitido a altas horas da madrugada, ou em canais obscuros como a Dois. Para o horário nobre, só a Floribela. O pior é que, provavelmente, o horário nobre das televisões portugueses com mais audiência tem a Floribela em vez dos Sopranos porque é a Floribela que os espectadores querem ver. Mais valia o Duarte e Companhia.

Posted by Bruno at 10:26 PM

dezembro 30, 2006

O Responsável Pela Pouca Actividade Deste Blog

House

Posted by Bruno at 11:28 PM

dezembro 29, 2006

Entretanto, Nos EUA...

John Edwards, antigo candidato a Vice-Presidente americano de John Kerry nas eleições de 2004, depois de derrotado nas primárias do partido Democrata, anunciou nova candidatura para 2008. Das figuras de peso cuja entrada na corrida seria previsível, a de John Edwards foi a primeira a tornar-se oficial. Se repetir as características da sua campanha de 2004, será difícil haver candidatura mais demagógica que a de Edwards.

Posted by Bruno at 10:05 PM

Fry and Laurie

O FCG recorda, no Guest of Time, um pequeno excerto do velhinho programa de Stephen Fry e Hugh Laurie, que a RTP 2 em tempos transmitiu, e que eu via religiosamente.

Posted by Bruno at 09:45 PM

dezembro 28, 2006

Já nas Bancas

O novo número da Atlântico, com um artigo de Rui Ramos sobre a história do PS e outro sobre o livro do "guerreiro menino", Miguel Noronha sobre as perspectivas económicas de Portugal para 2007, Pedro picoito sobre a viagem de Bento XVI à Turquia, Vasco Rato sobre a hostilidade contra Cavaco, Luciano Amaral sobre o novo James Bond, uma entrevista a Diogo Mainardi, e André Abrantes Amaral em defesa de uma nova aliança atlântica, alargada a Sul, e com um papel especial a desempenhar pelo nosso país. Para além disso, este ser anti-social que vos escreve confessa o seu desejo de evitar o contacto com o mundo exterior para todo o sempre.

Posted by Bruno at 07:11 PM

Já Disponível

A entrevista de Niall Ferguson por Carlos Vaz Marques já pode ser ouvida no site da TSF.

Posted by Bruno at 07:07 PM

dezembro 27, 2006

Tragédia No Porto

A época natalícia parece ser particularmente penosa para os programas informativos dos canais de televisão (e para quem a eles assiste). A falta de assunto, que a inactividade generalizada impõe a partir de dia 22 de Dezembro, parece obrigar os telejornais a repetir todos os anos as clássicas reportagens dos emigrantes que "regressam a casa" no Natal, as clássicas reportagens sobre as pessoas com dificuldades económicas, explorando a pobreza dessas pessoas para encher tempo de antena, as clássicas reportagens sobre as "compras de última hora" (sempre com um tom de censura aos populares entrevistados, por caírem neste suposto pecado português), e as não menos clássicas reportagens de dia 24 sobre quem é obrigado a trabalhar na noite de Natal (sempre com uma piscadela de olho aos próprios jornalistas que nessa noite estejam no estúdio). E mais difícil que encher o alinhamento dos dias que antecedem o Natal, só os telejornais de dia 26. Como o país ainda não regressou à actividade, não há de novo para dizer. Como todas as reportagens de 24 foram já repetidas a 25, já não há mais nada a repetir. Há dois anos, tiveram sorte, com o tsunami asiático, que lhes permitiu explorar até à eternidade a "tragédia". Este ano, como no ano passado, limitaram-se a evocar o acontecimento.

Mas, felizmente, há Rui Rio. E a comunicação social, com especial destaque para a RTP, foi em peso para o Porto, mostrar como este malévolo ditador obrigou os funcionários autárquicos a trabalhar no dia 26, impedindo-os de beneficiar da "tolerância de ponto" que José Sócrates, esse sim, um bom homem, que, "passo a passo" nos vai conduzindo no caminho da "retoma", havia dado, para que os funcionários públicos pudessem passar o dia "com as famílias". Rui Rio, esse, não respeita a santidade da instituição familiar, e com uma crueldade só comparável à que manifesta quando recusa subsídios a grupos cénicos de marionetas de materiais reciclados, colocou perante os funcionários públicos da sua cidade o dramático dilema de irem trabalhar num dia a seguir a um feriado, ou tirarem um de férias para poderem ficar em casa num dia de trabalho. A trágica situação destes oprimidos indivíduos foi (graças a jornalistas que, com coragem, foram trabalhar no dia a seguir ao Natal) denunciada aos portugueses, que assim podem confirmar a natureza demoníaca do homem que usurpou a Câmara do Porto para, segundo dizem, fazer corridas de automóveis antigos. O episódio foi revelador. Ao contrário do que os senhores da RTP possam pensar, a Câmara do Porto não foi a única do país onde não se cumpriu a vontade de Sua Excelência o Primeiro-Ministro, e se trabalhou no dia seguinte a um feriado. Aqui na Câmara de Oeiras, concelho onde este vosso escriba reside, pelo menos alguns serviços, segundo me dizem, estavam abertos ao público no dia de ontem. No entanto, a RTP não foi a correr mostrar como Isaltino Morais é cruel para com as famílias oeirenses (em alternativa, foi mostrar como foi impossível recolher todo o lixo deixado na véspera pelos munícipes). Só mesmo a hostilidade da comunicação social para com o Presidente da Câmara do Porto explica como foi dada tanta atenção a algo absolutamente banal e irrelevante.

Posted by Bruno at 06:38 PM

dezembro 23, 2006

Caro leitor, os próximos dias deverão ser de inactividade. O regresso fica para daqui a alguns dias, até lá, um Bom Natal.

Posted by Bruno at 10:14 PM

Até Onde Faz Correr a Intriga

Questionado se concordava com a afirmação de Marques Mendes de que Sócrates tem um "projecto pessoal de poder", Dias Loureiro responde "não o julgo assim", dizendo mesmo que "até" tem "simpatia" pelo Primeiro-Ministro, por ter essa "qualidade notável" que é "ter ideias" e "coragem para elas". Deixemos de lado o facto de que aquilo que é verdadeiramente notável é Dias Loureiro ver em Sócrates algo mais que a pura ambição politiqueira e a falta de vergonha que lhe permite manipular os eleitores com a mesma eficácia com que a sua roupa é exemplarmente engomada. Esta afirmação de Dias Loureiro mostra como, hoje em dia, no PSD, a animosidade contra a actual liderança faz com que se prefira ignorar o carácter da actual governação, como essa animosidade faz ignorar a imensa diferença entre a imagem que o Primeiro-Ministro quer passar, e a realidade que tão bem tem escondido até dos mais influentes adversários políticos. Assim, será de facto difícil a Marques Mendes conduzir uma oposição eficaz. Mas mais do que a sua suposta "falta de carisma", até mais do que a campanha publicitária do Primeiro-Ministro, deverá culpar a imensa facilidade com que muitos dos seus colegas de partido preferem elogiar o Primeiro-Ministro a ajudar a construir uma alternativa.

Posted by Bruno at 09:42 PM

dezembro 22, 2006

A Ler

Sobre a unânime aprovação parlamentar do "cartão único do cidadão", o texto do Francisco José Viegas. Sobre a curiosa (e curiosamente deixada para estes dias mortos de véspera de Natal) venda, do Estado ao Estado, do Estabelecimento Prisional de Lisboa, os textos (este e este) do BZ no Insurgente.

Posted by Bruno at 10:13 PM

dezembro 21, 2006

Já Não Há Paciência

Devo perder um ano de vida por cada minuto em que oiço a voz de Ana Gomes. Na sua cruzada para provar que o Governo português pouco mais é que um lacaio de Bush, a dra. Ana Gomes terá ficado muito indignada com a reacção do Ministro Luís Amado às acusações da eurodeputada. Ana Gomes considera que o Governo português terá mentido e omitido informação à comissão de inquérito do Parlamento Europeu aos vôos aparentemente pouco secretos da CIA. Luís Amado, por sua vez, terá explicado por que razão alguns dos vôos referidos na lista entregue por Ana Gomes à Visão não haviam sido referidos pelo Governo. A dra. Ana Gomes afirmou depois que "não compreendia" a reacção de Luís Amado, ou melhor, que "só" a compreendia "à luz" da posição (favorável) do dr. Luís Amado em relação à intervenção americana no Iraque. Deixemos de lado o facto da dra. Ana Gomes intervir sobre esta questão como se não percebesse que o governo português depende do parlamento português, e não do parlamento europeu, e que por isso, é ao primeiro que deve responder, e não (forçosamente) ao segundo. O que de imediato salta à vista é a extraordinária arrogância da dra. Ana Gomes, e mais grave ainda, o seu desejo de fazer desta questão uma cruzada pessoal contra os que dela discordaram em relação ao Iraque, contra todos aqueles que a eurodeputada entende serem meros lacaios subservientes do presidente dos EUA.

Posted by Bruno at 10:27 PM

dezembro 20, 2006

A Ler

No Insurgente, o texto do André Amaral sobre as próximas eleições na Escócia, e a possibilidade de este país romper com o Reino Unido. No My Guide to Your Galaxy, do também insurgente Sérgio dos Santos, um texto sobre uma entrevista de uma senhora espanhola "com um cabelo impecavelmente arranjado".

Posted by Bruno at 10:24 PM

A Ouvir

Hoje às 19 horas, na TSF, a conversa de Carlos Vaz Marques com Niall Ferguson, no programa Pessoal e Transmissível.

Posted by Bruno at 11:55 AM

dezembro 19, 2006

A Estupidez Não Tem Fronteiras

Embora nem sempre pareça, a estupidez não é uma característica exclusivamente portuguesa. Um grupo de intelectuais e artistas (conheço algumas pessoas que, como o dr. Prado Coelho quando ouve a expressão "dinheiro dos contribuintes", puxaram da pistola ao lerem estas palavras) assinou uma carta aberta (por esta altura, já toda a gente que conheço deu uso à sua Browning pessoal) apelando a um "boicote cultural" (eu próprio já estou com vontade de pregar um tiro na minha pessoa, embora diga-se, em abono da verdade, que não precisava de sair da sala para encontrar razões para isso) a Israel. Querem estes senhores e senhoras que os mais variados artistas não ofereçam aos cidadãos de Israel a excelsa oportunidade de contemplarem as suas, decerto magníficas, obras, o que entendem poder vir a constituir "um factor de mudança da política" de Israel em relação à Palestina. Aparentemente, estes senhores parecem crer que a mera prespectiva de as suas obras não estarem disponíveis em Israel irá provocar nos seus responsáveis governativos um medo tal, que anos e anos de política externa serão lançados ao mar (enfim, como algumas almas gostariam de fazer a todos os judeus, e o próprio leitor começa a ter vontade de fazer a si próprio, ao se aperceber de qual o género de pessoas com que partilhe este pequeno mundo). Digamos que não é muito provável. Aliás, só o facto de estes senhores serem capazes de um raciocínio tão brilhante como este certamente fará os israelitas agradecerem aos céus (e à política sionista) pela oportunidade de não correrem o risco de deparar com nenhuma das criações destes magníficos espíritos.

Posted by Bruno at 10:45 PM

Prioridades

O Ministro dos Negócios Estrangeiros alemão terá hoje afirmado que as negociações da adesão da Turquia serão uma prioridade da presidência alemã da UE. Até agora, se o foi, não se notou. E a responsabilidade da Alemanha nesse resultado não tem sido pequena.

Posted by Bruno at 10:40 PM

dezembro 18, 2006

Nem Tudo Deve Ser Posto No Mesmo Saco

Tem sido bastante curiosa a forma como os jornais têm tratado a recente agitação no seio do PSD. Como o leitor se recordará, Nuno Morais Sarmento e Rui Rio deram na mesma semana uma entrevista cada um, em que obviamente o futuro do PSD e da sua liderança foi abordado. Nessa mesma semana, Luís Felipe Menezes fez mais uma das críticas que insiste em acreditar serem ouvidas por alguém. E o que é realmente curioso é o facto dos jornalistas não fazerem distinção entre as três intervenções. A entrevista de Rui Rio é constantemente equiparada às intervenções de Menezes e à entrevista de Sarmento, quando Rio, ao contrário dos outros dois, apoiou expressamente o actual líder Marques Mendes. Os jornalistas ou se esquecem deste pequeno mas significativo pormenor, ou fazem por esquecê-lo.

Posted by Bruno at 10:24 PM

dezembro 16, 2006

Na Minha Clínica Manda o Estado

No Expresso de hoje, atribui-se grande destaque à recusa de "cinco grandes clínicas" privadas com serviços de obstetrícia recusarem a possibilidade de oferecerem a realização de abortos às suas clientes, no caso do "Sim" vencer o referendo de Fevereiro próximo. O Ministro da Saúde, Correia de Campos, já veio afirmar que a "lei terá de ser respeitada por todos". Das duas uma, ou o senhor Ministro decidiu abrir a boca para afirmar algo que não necessita de ser afirmado, o que não seria de estranhar num governo tão dado à irrelevância (e a abertura das bocas dos seus membros), ou a sua intenção não era meramente a de constatar o óbvio, mas sim a de avisar as ditas clínicas de que, quer queiram quer não, terão de prestar esse serviço a quem o vier procurar. Eu posso ter alguma dificuldade em decidir o meu voto no referendo de Fevereiro, mas mais dificuldade ainda tenho em perceber como um Governo que parece aceitar o argumento de que "na minha barriga mando eu" não aceite o de que "na minha clínica mando eu". Parece não ocorrer ao senhor Ministro da Saúde que uma clínica privada de saúde é um estabelecimento comercial como outro qualquer. Parece não ocorrer ao Ministro da Saúde que uma clínica de saúde privada ser obrigada pelo Estado a prestar um determinado serviço é o mesmo que obrigar um café a vender um determinado tipo de produto. Parece não ocorrer ao Ministro da Saúde que a lei não deve servir para obrigar as pessoas a fazerem uma coisa, mas para as proibir de fazer outra. A lei serve para proibir o café de vender produtos cujo prazo já expirou, não para o obrigar a vender pastilha elástica (mais, os cafés deveriam ser proibidos de vender pastilha elástica). Como serve para impedir uma clínica de saúde privada (como também o SNS) de prestar cuidados médicos sem condições mínimas, para impedir as clínicas privadas (como também o SNS) de realizarem práticas não aceites pela comunidade médica, não para obrigar as clínicas privadas a prestarem determinados serviços só porque a lei os permite (serviços esses que o SNS, pela sua natureza pública, não puderá negar a quem a ele recorra). Ao ignorar isto, o Ministro da Saúde apenas mostra como o Governo não consegue fugir à tentação, à instintiva tendência socialista, de moldar a sociedade a partir do Estado, a partir da imposição central de comportamentos e acções. Posso não saber como votar no referendo, mas sei que esta propensão socialista para o "design-não-muito-inteligente" da sociedade é algo que não quero para o meu país. E ela ultrapassa em muito esta questão.

Posted by Bruno at 11:00 PM

Frank Johnson

Morreu Frank Johnson, colunista do Daily Telegraph e da The Spectator, autor de algumas das mais bem-humoradas crónicas destas publicações. Fica aqui a notícia da sua morte, bem como o obituário no Telegraph. O The Times publica também um obituário de Johnson.

Posted by Bruno at 10:25 PM

Nova "Aventura"

O nosso Carlos "Macguffin" Carapinha dá a conhecer, no infelizmente pouco activo Contra a Corrente, a sua nova loja na sua velha cidade de Évora.

Posted by Bruno at 09:50 PM

dezembro 15, 2006

Comentários

No programa Quadratura do Círculo, Pacheco Pereira afirmou que a ERC se deveria demitir, tendo em conta o conteúdo do comunicado por esta emitido criticando o driector do Público, José Manuel Fernandes, na sequência das acusações à RTP do colunista desse jornal, Eduardo Cintra Torres. Azeredo Lopes, o presidente da dita Entidade, preferiu não se pronunciar acerca da afirmação de Pacheco Pereira, pois a ERC "não comenta comentadores". Fez muito bem, e esse é um bom princípio. Pena é que não o tenha seguido em relação a Eduardo Cintra Torres, ou a José Manuel Fernandes. Aliás, o comentário de Azeredo Lopes a propósito das afirmações de Pacheco Pereira acaba por, involuntariamente, dar razão a este último: ao ter aludido, em tom irónico, às posições políticas de José Manuel Fernandes, a ERC comentou um comentador. Fez aquilo que o seu próprio presidente afirma não poder fazer. Nem sequer é preciso Pacheco Pereira vir pedir a demissão da ERC. As próprias palavras do seu presidente o exigem. Isto, claro está, se este tiver um mínimo de dignidade e seriedade intelectual. O que, tendo em conta os eventos que deram origem a toda esta polémica, parece pouco provável.

Posted by Bruno at 10:28 PM

dezembro 14, 2006

A Olhar Para 2009

O Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, afirmou que caso o Governo seja bem sucedido "na implementação do Programa de Estabilidade e Crescimento e se se concretizarem as projecções macroecnómicas" que, com grande (e provavelmente exagerado) optimismo, o Governo tem feito, poderão existir "condições" para que o executivo possa "aliviar a carga fiscal sobre os portugueses". Tendo em conta que o Governo prevê (embora não o anuncie com a pompa a que nos habituou noutras alturas, e o Diário de Notícias, simpaticamente, o prefira guardar para o obscuro suplemento de economia) a subida da carga fiscal até 2009, essa descida de impostos fica marcada para esse ano de eleições legislativas. Ou talvez nem isso. Poderá em alternativa prometer, na campanha, uma descida de impostos em caso de reeleição. Uma coisa é clara, no entanto. O Governo prepara cuidadosamente a sua recondução no poder. Mais do que nas "reformas", mais do que no "rigor", o Governo está com o olhos postos nas próximas eleições. Enquanto isso, nós vamos olhando para Carolina Salgado e para o "Jorge Nuno".

Posted by Bruno at 10:47 PM

A Ler

A Ana Cláudia Vicente sobre o Prós e Contras. O texto do Miguel Noronha sobre Pinochet, bem como o do Luís Silva sobre o mesmo assunto. O artigo de Pacheco Pereira sobre o comunicado da ERC a propósito as acusações de Cintra Torres à RTP, publicado na Sábado e reproduzido no Abrupto. E finalmente, o artigo "Realismo irrealista" do Luciano Amaral.

Posted by Bruno at 10:25 PM

dezembro 12, 2006

Memória Curta

Kofi Annan, de saída das Nações Unidas, fez questão de criticar a política externa dos EUA. Segundo Annan, os EUA terão tentado "dominar os outros povos", em vez de, como os grandes países "deverão" fazer, os "servir". Disse ainda o senhor Annan que, se os EUA não apoiarem as instituições internacionais, estas não poderão funcionar eficazmente. Não sei se o senhor Annan se recorda de qual o país que mais contribui financeiramente para a ONU. Não sei se o senhor Annan se recorda de quem paga (isto, claro, se esquecermos as vigarices com o petróleo iraquiano, que nunca incomodaram grandemente o senhor Annan) os ordenados dos funcionários da organização a que o senhor Annan presidiu nos últimos anos. Se há pessoa que deveria ter um bocadinho de vergonha na cara antes de vir falar de abusos de direitos humanos e falta de "serviço" dos "povos", seria o responsável máximo de uma organização envolvida em gigantescos escândalos de corrupção nos países cujos "povos" deveria estar precisamente a "servir".

Posted by Bruno at 10:19 PM

dezembro 11, 2006

O Erro de Bloquear a Turquia

O editorial do Times de hoje, sobre as dificuldades das negociações para a adesão da Turquia à UE, merece ser lido. Acima de tudo, merece ser seguido pelos responsáveis europeus. Ficam aqui alguns destaques:

"For 43 years, Turkey has been knocking at the European Union’s door. Despite being the guardian of Nato’s southern flank, firmly aligned with the West throughout the Cold War, it has watched other states with dictatorial pasts and fragile economies — Spain, Portugal and Greece, and Eastern Europe’s new democracies — push past it in the queue for admission. It has listened to European statesmen extol enlargement, correctly, for expanding the community of stable, prosperous democracies and establishing the EU as a confident, outward-looking player on the global stage. It has worked hard to deprive them of reasons for keeping Turkey’s application on hold, not just through internal reforms but by endorsing, and persuading Turkish Cypriots to agree to, a United Nations plan that would have ended the division of Cyprus if the Greek Cypriots had not then stubbornly rejected reunification.

By the time the EU finally rewarded Turkey’s efforts by promising, in October 2005, to open accession talks and pursue them in good faith, Turkey was entitled to expect its members to keep their word. They have not done so. It has proved impossible even to start negotiating, because Cyprus has blocked the opening of all but one of the 35 “chapters” of the accession dossier until Turkey opens its ports to Cypriot shipping.

It is true that Turkey is legally obliged to open its markets to all EU members, without exception. But the Union is also morally obliged to reciprocate, as it promised it would, by simultaneously ending the trade and travel embargoes on the Turkish Cypriot part of Cyprus. The Greek- Cypriot Government has blocked that, too — and insists it will continue to whatever Turkey does. Far from pressing Cyprus to see reason, the EU has laid all the blame for this absurd dispute on Turkey — and has stubbornly carried on doing so even after last week’s politically brave offer by Ankara to make a unilateral first move towards compromise. At this week’s EU summit, governments are poised to “punish” Turkey by putting large segments of the negotiating agenda in the deep freeze. There they would stay until all EU members decided otherwise.

The EU should do no such thing. The effect, although no one is saying so, could be to keep Turkey out of Europe for the duration. That would suit Angela Merkel, the German Chancellor, and Nicolas Sarkozy, the centre-right would-be president of France; both are openly opposed to admitting Turkey. It would please Austrians, Belgians and Dutch who have become increasingly neuralgic about immigration in general and Muslims in particular. It is their support that Cyprus relies on. But for Europe, even more than for Turkey, this would be an error of historic proportions."

Posted by Bruno at 10:47 PM

A Ler (links corrigidos)

Uma série de textos de Pedro Arroja no Blasfémias: Não gostam uns dos outros, Uma certa cobardia, O espírito público, O vício que o despotismo produz, A Esfera Cívica e Licença.

Posted by Bruno at 10:28 PM

dezembro 10, 2006

Palmela

O site da Causa Liberal teve a gentileza (e acima de tudo, a imprudência) de acolher um texto deste vosso escriba, O liberalismo agrilhoado, sobre o governo do Duque de Palmela entre 1834 e 1835, quase um plágio de Os Devoristas de Vasco Pulido Valente. Pode lê-lo no próprio site, ou se preferir, devido à sua relativa extensão, imprimi-lo e ler no comboio. Sempre será melhor que o livro de Carolina Salgado. Pelo menos, assim espero. Fica aqui o meu agradecimento à Causa, pelo espaço oferecido, e em especial ao Luciano Amaral, cujos comentários (e tempo gasto) permitiram que o texto ficasse um pouco menos mau.

Posted by Bruno at 11:36 PM

Em Vésperas da Batalha

Poucas personagens serão tão representativas do falhanço da recente experiência governativa do PSD (em coligação do CDS/PP) como o dr. Nuno Morais Sarmento. Morais Sarmento, uma ilustre figura dos corredores do PSD, mas relativamente obscuro para a opinião pública, encheu as páginas dos jornais, quando confessou ter um passado de consumo de drogas. A confissão, e a polémica em torno das propostas que, nos primeiros dias do governo, anunciou para a RTP, despertaram o interesse dos media. O seu passado de boxer e a impopularidade do que anunciara fizeram com que logo fosse catalogado como o homem duro do Governo, o exemplo de um governo reformista que não hesitava em tomar medidas duras mas necessárias. Mas rapidamente se viu que aquele leão que rugia ferozmente começava a chorar mal pisava a mais mole relvinha. Com os protestos dos funcionários da RTP, a promessa de manter apenas um canal público de televisão rapidamente foi esquecida, sobrevivendo os dois canais, que, com igual rapidez, passaram a três, com a aquisição, ainda no consulado de Morais Sarmento, da NTV (agora RTP N, mas sempre uma RTP3). Era, para quem quisesse ver, um sinal do que se seguiria. O Governo que prometera não recuar perante as dificuldades cedo começou a temer a impopularidade, e o seu chefe logo preferiria refugiar-se em Bruxelas, entregando o país aos "estados de alma" do "guerreiro menino".

Foi este senhor de sangue na guelra e falta de vergonha na cara que deu, há dias, uma entrevista no DN, criticando o líder do PSD pela sua falta de "carisma" e de "ideias". Mais do que pelo pensamento do dr. Morais Sarmento, a entrevista vale pelo que significa: como foi abundamentemente notado, chegou a hora de tirar Marques Mendes do lugar. Filipe Menezes anda mais mexido (sendo que, infelizmente para todos nós, nunca esteve parado). Santana Lopes, com o lançamento do seu livro, lá foi deixando nas entrelinhas a ideia de que está disposto a voltar a entrar numa corrida pela liderança. Rui Rio foi entrevistado por Judite de Sousa, e embora dizendo que não "planeia" candidatar-se, não põe de parte a hipótese. E Morais Sarmento, o cavalo de batalha desse estranho grupo de individualidades que se destacam pela vontade de poder, pelo espírito conspirativo e pela irrelevância do que dizem, os "barrosistas", lá manifestou a vontade de fazer parte de uma "solução".

Justa ou injustamente, Marques Mendes foi já posto de parte como "candidato a Primeiro-Ministro". Estas movimentações mostram não só como o "povo laranja" o percebe, mas como as suas várias personalidades o percebem e o querem explorar. E acima de tudo, como o PSD se dividirá quando a hora do golpe final contra Marques Mendes chegar. Menezes tentará aproveitar a simpatia que o seu percurso recente tem tido no seio dos descontentes laranja. Santana tentará ir buscar os seus "exércitos", restando saber se a humilhação se dará nas urnas ou antes sequer de a estas se apresentar. Os meninos de corredor que "sempre estiveram" ao lado do dr. Barroso, os tarefeiros que a pedido deste lá foram carregando aos ombros o dr. Santana até este lhes cair em cima, deverão, desta vez, apresentar alguém (se o dr. Arnaut, se o dr. Morais Sarmento, se o dr. Relvas, será matéria a definir). E o grupo de Rui Rio, Manuela Ferreira Leite, António Borges, Aguiar Branco terá de enfrentar novo dilema. Perante a ameaça populista de Menezes (a que se poderá juntar a de Santana), certamente recearão apresentar um candidato próprio, que divida o voto "responsável". Poderão então apoiar, como a entrevista de Rui Rio poderá levar a crer, uma eventual recandidatura de Marques Mendes. Com ele, partilham algo que nenhuma das outras "soluções" apresenta: a noção de que o poder não é tudo, e que foi precisamente a fixação no "poder pelo poder" que pôs o partido no estado em que está. Mas a provável maior atracção que o candidato "barrosista" poderá vir a ter talvez os leve a ponderar a hipótese de a eles se aliarem, de forma a influenciá-los, de forma a promoverem a agenda que eles por natureza não estão interessados em definir. Mas se essa será uma tentação natural, pessoas como Manuela Ferreira Leite (deixada cair por Durão) e Aguiar Branco (ministro de Santana) deveriam saber que ela acabará por custar caro. É certo que ao apresentarem um candidato próprio ou ao apoiarem Marques Mendes, correm um elevado risco de serem derrotados. Mas mais vale perderem uma eleição do que a dignidade.

O pior do cenário nem é a elevada probabilidade de o PSD cair nas mãos do populismo ou da ambição cega. É o facto de Marques Mendes não ter ainda completado o trabalho que, na conjuntura actual, apenas ele pode fazer no PSD, e sem o qual o partido dificilmente poderá fazer algo de minimamente relevante para o país: limpar o partido. Limpar o partido da sua dependência de autarcas populistas, limpar o partido de aparelhistas sem coluna vertebral, acabar de uma vez por todas com o partido que ficou depois dos dez anos de poder cavaquista. Sem o fazer, o partido poderá voltar ao governo, e certamente voltará. Mas uma vez nele, nada de bom para o país poderá deixar, se a sua estrutura depender do actual estado de coisas. A Menezes, isso pouco importará, pois é o actual estado de coisas que lhe interessa. A Santana ainda menos, pois é simultaneamente responsável pelo estado de coisas, e um seu produto. A Morais Sarmento e aos ex-aguadeiros do agora presidente da Comissão, o estado de coisas só faria diferença se alguma vez saíssem dos corredores onde conspiram e vissem um pouco da luz da sol (a que Morais Sarmento viu quando foi fazer "mergulho de estado" para um país africano não conta). O grupo de Borges, Rio e Leite, se ao contrário de todas estas personagens, tem a noção do problema, não tem dentro do partido as simpatias que tem na opinião pública, e não é esta última que elege delegados aos Congressos (o "Zé" e a "Maria", há muito desaparecidos, têm cartão de militante). Marques Mendes, se talvez possa não ter nem "carisma" nem "ideias", ao menos parece estar disposto a colocar a credibilidade à frente da ambição. Ao contrário dos oposicionistas mais excitados, ao contrário dos agora reaparecidos, ao menos percebe que o poder de pouco servirá se apenas se tiver olhos para ele. E, ao contrário dos menos ligados ao aparelho Borges ou Aguiar Branco, ou do recheado de antipatias na comunicação social (factor que assusta sempre) Rui Rio, ou da muito aplaudida nos Congressos mas supostamente "demasiado rígida" Ferreira Leite, Marques Mendes teria, por parte do aparelho, uma simpatia, um benefício da dúvida, que lhe daria condições para impôr a esse aparelho a limpeza que este manifestamente precisa. Se ainda não a perdeu, já não deverá ter tempo para a aproveitar.

Posted by Bruno at 10:09 PM

dezembro 09, 2006

Uma Estratégia Para o Iraque? (a minha coluna mensal no Insurgente)

No mesmo dia em que dez soldados americanos perdiam a vida no Iraque, a comissão liderada por James Baker e Lee Hamilton, nomeada pelo Congresso para desenvolver uma estratégia de saída do Iraque, entregava o seu relatório. Como é normal nas comissões do género, pretendia estabelecer um consenso bipartidário sobre o que fazer a seguir. Pretendia estabelecer um equilíbrio entre posições como a dos congressistas que defendem, como John McCain, um reforço do número de tropas no terreno, e as de membros da ala mais radical do Partido Democrata, que pedem a retirada imediata das tropas americanas.

O Iraq Study Group optou, no entanto, por pôr de parte ambas essas soluções. Preferiu propôr a alteração da natureza da missão das tropas, retirando 16 000 soldados de missão de combate para o treino de tropas iraquianas, juntando-se aos 4 000 que já desempenham a função. Os EUA deveriam ainda exigir do governo iraquiano o cumprimento de objectivos de pacificação e conciliação étnicos, sob pena de retirada americana. Como escreveu, no Times, o editor americano Gerard Baker, o ISG propõe que “quanto mais instável se tornar o Iraque, mais pequeno deve ser o esforço militar americano no país”.

De facto, é logo nestas propostas que o relatório começa a evidenciar problemas. Frederick Kagan coloca a questão nestes termos: If we pull American units out of their combat missions and focus them on training, the security situation in Iraq in the short-term is very likely to deteriorate. There will be a gap between our abandonment of the security mission and the point at which the Iraqis can undertake it themselves. Will the Iraqi government survive such a collapse? Will the American people have still more patience? Ao contrário do que algumas inteligências possam pensar, não é a presença de tropas americanas que provoca a violência, é a rivalidade no seio do próprio Iraque. A retirada americana, ou a retirada de tropas das missões de combate, não diminuirá a violência. Apenas fará com que não esteja lá ninguém capaz de a parar.

Andrew Sullivan, por exemplo, acha que essa deveria mesmo ser a opção a seguir. Entregar o Iraque à guerra civil que os iraquianos “desejam profundamente”. Ao menos, os EUA não sofreriam com isso. Mas, como tentei explicar nos Passos Perdidos do mês passado, uma retirada americana do Iraque faria com que, “para fugirem a um suposto “novo Vietnam”, os EUA deixariam no Médio Oriente uma espécie de “I Guerra”, em que o conflito num país, e o interesse de cada uma das potências regionais nesse conflito, as arrastaria para um confronto em larga escala”, que, “com Israel ali ao lado, podendo ser a todo o momento arrastado para o conflito, acabaria por, forçosamente, trazer consigo um regresso dos EUA ao Médio Oriente.”

É por isto que, como ISG bem notou, a questão iraquiana não pode ser separada da mais lata questão da instabilidade do Médio Oriente. Mas não, como parece ser a opinião dos senhores do ISG, pela “resolução” do problema de Israel com a Palestina. E não apenas por, como escreveu Bronwen Maddox no Times, a defesa de novas negociações entre Israel e a Plestina ignorar o problema de não haver uma liderança palestiniana que esteja disposta a participar. O problema é mais grave. Ao contrário do que, por exemplo, é comum pensar-se nos países europeus, a instabilidade no Médio Oriente não é motivada por um “ressentimento” contra a “ocupação” israelita, facilmente ultrapassável com a cedência de alguns territórios. Se há ressentimento contra Israel, ele é contra a sua própria existência. Algumas cedências israelitas não resolveriam este problema, como não resolveriam a questão do equilíbrio de poder entre as potências regionais e os seus interesses conflituais.

É por essa razão, aliás, que a outra recomendação do ISG, e segundo os seus membros, a “mais importante”, é um erro tremendo. Se a realização de um cimeira com os países vizinhos, por si só, não parece uma ideia descabida de senso, já a proposta de que o Irão e a Síria sejam integrados nela, sem que se lhes coloque qualquer tipo de exigência prévia, desafia a calma do mais ponderado dos homens. Segundo os iluminados, esta recomendação representa o regresso ao realismo kissingeriano, depois dos desvarios neoconservadores. O realismo, como doutrina das relações internacionais, assenta na ideia de que a política internacional deve esquecer factores idealistas, como a natureza dos governos dos restantes países, e olhar apenas para os seus interesses, para a sua força, para o seu poder, e agir de acordo com a forma como, no momento, se equilibram os diferentes países no que as estes aspectos diz respeito. Ora a recomendação de encetar negociações com o Irão é muito pouco realista, precisamente porque ignora que o interesse do Irão, no que ao equílbrio geopolítico na região diz respeito, é precisamente um Iraque instável, no qual os EUA fiquem atolados o máximo de tempo possível, desviando o olhar americano do projecto iraniano de afirmação regional. Claro que os “realistas” poderão afirmar que o Irão não tem interesse em que os EUA abandonem o Iraque (perdendo-se assim o “atoleiro”, e portanto, o elemento de distracção), e que os EUA poderão usar esse factor como forma de pressionar o Irão a ajudar à pacificação no Iraque. Mas seria um bluff que dificilmente funcionaria, pois o Irão certamente tem consciência que os EUA não correriam o risco de deixar o Iraque (ou parte dele, no caso de tripartição do território) transformar-se num satélite iraniano, que, como escrevi no mês passado, desquilibraria a balança regional, com consequências previsivelmente desastrosas. E se, por outro lado, os EUA corressem esse risco, o Irão seria o primeiro a agradecer.

Para mais, a proposta de negociações directas com o Irão ignora um outro aspecto crucial da questão do Médio Oriente, as ambições nucleares desta república islâmica. Afirmar que os EUA devem negociar com o Irão é dizer que os EUA não podem resolver o problema do Iraque sem o Irão, ou seja, é dizer ao Irão que tem a total liberdade para exigir tudo em troca de ajuda no Iraque. É dizer ao Irão que pode adquirir armas nucleares. O que no fundo, é dizer à Arábia Saudita, à Turquia e ao Egipto para fazerem o mesmo. As consequências de uma corrida nuclear no Médio Oriente seriam tudo menos agradáveis. O realismo pareceu não ser suficiente para se perceber este aspecto.

Felizmente, o presidente Bush parece ter consciência destas falhas. Não só afirmou que esperaria ainda pelos relatórios do Pentágono e do Departamento de Estado sobre a mesma questão, como pôs logo de parte a hipótese de negociar com o Irão directamente. Aceitou a realização da referida cimeira regional, mas apenas aceita a presença do Irão e da Síria caso ambos abandonem o apoio a grupos terroristas como o Hezbollah. Mas se é verdade que é positivo que Bush não aceite as contraproducentes recomendações do ISG, é também verdade que continua sem ver uma saída para o problema em que o Iraque se tornou.

Posted by Bruno at 10:44 PM

dezembro 08, 2006

Serviço Público

Uma tal de Carolina Salgado, conhecida pelo facto de ter partilhado o leito com Jorge Nuno Pinto da Costa, e por ter insultado Luís Filipe Vieira, escreveu um livro, onde acusa o antigo parceiro de certas práticas pouco honrosas que já há muito toda a gente lhe atribuí. A RTP foi logo a correr fazer uma entrevista. Alguém escreve um livro onde insinua umas coisas acerca de alguém, e a RTP, com o dinheiro dos contribuintes, faz uma entrevista, a dar eco a essas acusações, e claro está, a promover o livrinho. Serviço público no seu melhor.

Posted by Bruno at 10:22 PM

dezembro 07, 2006

Ségolène

O "fenómeno Ségolène" é absolutamente extraordinário, e revelador do mundo em que vivemos. Numa terra do Norte português, um grupo de socialistas europeus reúne-se num evento cuja irrelevância é comprovada pela ausência de Zapatero ou Tony Blair, ou pela presença de Howard Dean. Ségolène, essa, está cá. E é o único assunto da reunião que merece o destaque da RTP. A senhora não disse nada, a não ser umas frases incompreensíveis até para quem fala francês. A senhora, aliás, nunca disse nada. No entanto, traz "novidade" à política. Parece que é uma "lufada de ar fresco". Não se percebe porquê. Não se percebe, aliás, como se pode caracterizar Ségolène seja com que adjectivo for, tal a absoluta vacuidade do que ela diz e faz. No entanto, onde ela se senta, logo estão as televisões, como um gato aos pés da dona. O "fenómeno Ségolène" mostra no que se transformou a actividade política. Em publicidade. Ségolène é apresentada como "moderna". Como "diferente". E por assim ser apresentada, por assim ser caracterizada, passa, efectivamente, a ser "moderna". Passa a merecer atenção, porque foi dito que merece atenção, não por ter feito algo para a merecer. Alguém disse em tempos que vender um Presidente da República era igual a vender um sabonete. O "fenómeno Ségolène" mostra que, com uma boa máquina publicitária por trás, até um sabonete pode vir a ser eleito Presidente.

Posted by Bruno at 11:00 PM

Judite de Sousa e Rui Rio

Judite de Sousa, a jornalista que um dia ficou embevecida com as palavras do entrevistado Manuel Maria Carrilho, está muito entusiasmada na sua entrevista inquisitorial ao dr. Rui Rio. É verdade que a dra. de Sousa não prima pela inteligência, mas a total deturpação das palavras do entrevistado só pode ser má-vontade, tal o grau de afastamento que as interpretações que a jornalista faz das palavras do Presidente da Câmara do Porto têm do seu real significado. A dra. de Sousa, habitualmente uma das maiores lambe-botistas da pátria, não se coíbe de emitir as suas opiniões, dizendo que o dr. Rui Rio "mata" a cultura do Porto, que as interpretações do dr. Rui Rio do que deve ser o papel de uma autaqruia são "no mínimo estranhas". Ao assistir à entrevista, cheguei mesmo a temer pela saúde da ilustre entrevistadora, tal era a raiva com que se lançava ao entrevistado. Queixou-se de que ele limitava a liberdade de expressão: que só respondia a entrevistas por escrito. Rui Rio afirmou que o Presidente da República também tinha dado uma entrevista por escrito ao JN (que normalmente protesta contra esta exigência de Rio). A dra. de Sousa, indignada, diz que entretanto, o PR já deu uma entrevista a um canal de televisão. Parece não lhe ocorrer que Rui Rio estava, também ele, a dar uma entrevista na televisão. Uma senhora que tem o triste hábito de se pôr de cócoras perante todos os seus entrevistados, hoje, até bateu na mesa de indignação com a "falta de visão" do dr. Rui Rio. Diga-se de passagem, que só abona a favor dele.

Posted by Bruno at 09:39 PM

dezembro 06, 2006

Em Guerra

Na audiência de confirmação da sua nomeação para Secretário da Defesa dos EUA, Robert Gates, questionado por um congressista, afirmou que os EUA "não estão a ganhar a guerra" no Iraque. A afirmação provocou excitadas reacções, a maioria centrando-se na admissão de derrota a que Bush, supostamente, já não pode escapar. Na realidade, as afirmações de gates nada têm de extraordinário. Acima de tudo, porque não são uma admissão de derrota. São uma admissão de que as coisas estão a correr mal. Gates diz que os que os EUA "não estão a ganhar", nunca afirma que já perderam. Mais, afirma que será necessário que as tropas americanas permaneçam no Iraque "por um longo período de tempo", tendo em conta a ausência de "capacidade" das forças de segurança iraquianas para lidarem com a instabilidade a que se assiste no país. Gates poderá afirmar que os EUA não estão a ganhar a guerra. Não só não diz que a perderam, como afirma que é necessário continuar a travá-la.

Posted by Bruno at 11:25 PM

A Moreninha da Liga dos Campeões

A indiscrição do meu caro Tiago Galvão põe a nu (salvo seja) o meu fascínio por essa criação do Senhor que é Inês Gonçalves, a moreninha da Liga dos Campeões, a jornalista da RTPN que apresenta os resumos dos jogos da dita competição europeia. Um portento. Os jogos (na sua maioria), mas especialmente Inês Gonçalves.

Posted by Bruno at 11:18 PM

A Ler

O texto do André Amaral sobre a Rússia, e os dilemas que a conjuntura actual coloca à UE, a última edição da sua coluna Os sinos dobram por nós, no Insurgente.

Posted by Bruno at 10:34 PM

dezembro 05, 2006

A Segunda Vinda da "Constituição" Europeia

O parlamento finlandês aprovou hoje o projecto de "Constituição" Europeia. Discretamente, o obscuro documento vai sendo aprovado por alguns estados-membros, aproximando-se do dia em que os eleitores franceses e holandeses (pelo menos) terão de repetir o referendo, até um dia votarem, "finalmente", SIM. Desorientada, sem saber o que fazer relativamente à Turquia, à Rússia, ou ao Médio Oriente, a UE vai-se preparando para dar um gigantesco passo no escuro, sem que os cidadãos dos países-membros sequer dêem por isso.

Posted by Bruno at 07:25 PM

Propaganda

O telejornal da RTP abre com a notícia de que o Governo havia chegado a acordo com os parceiros sociais quanto a um aumento progressivo do salário mínimo até 2011. O anúncio de aumentos do salário mínimo é sempre popular, e o Governo sabe-o. Esse anúncio torna-se ainda mais eficaz quando, vinte minutos depois, o telejornal regressa ao assunto, para transmitir em directo uma declaração do primeiro-ministro, vangloriando-se do feito, e em que a única pergunta feita pelo jornalista da televisão estatal é feita num tímido tom servil, com uma referências ao novo slogan "flexisegurança", contribuindo assim para o esforço propagandístico do Governo.

Posted by Bruno at 07:20 PM

dezembro 03, 2006

The Good German

George Clooney nasceu na década errada. Aquele homem foi feito para fazer filmes na década de quarenta, não para fazer de médico bem-parecido em séries de TV lamechas da década de noventa (e muito menos de Batman na versão amaricada do outro senhor com nome de piloto de Fórmula 1). Steven Soderbergh, realizador que nasceu na década certa, e poderia fazer filmes em qualquer uma, parece concordar. E talvez por isso tenha resolvido fazer The Good German, em que Clooney, na Berlim pós-II Guerra, representa o papel de um jornalista que procura a sua antiga amante, e se vê envolvido na investigação de um crime. Não só o filme é em "preto-e-branco" (e é uma piscadela de olho a The Third Man de Carol Reed), como se limita a usar tecnologia disponível na Hollywood dessa época, o que obriga os actores a adaptarem o seu comportamento às limitações dessa tecnologia. Clooney, por uma vez, estará na década certa. E com um bocadinho de sorte, talvez não demore muito tempo a estrear por cá.

Posted by Bruno at 09:45 PM

dezembro 02, 2006

A Ler

O texto do Fernando Gabriel, acerca de como os políticos portugueses foram "muito bem sucedidos" na "construção, ampliação e manutenção de um aparelho de Estado", e de como é difícil reformá-lo. E também o comentário do Paulo Gorjão acerca da "flexi-segurança", o mais recente golpe publicitário do governo. Sobre Sarkozy, novo texto, novamente bastante crítico, de David Rennie, desta vez no seu blog.

Posted by Bruno at 06:56 PM