Escrito pela mão invisível de Bruno Alves. Comentários e opinião: alves.bm@netcabo.pt

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novembro 30, 2006

Quem Não Deve Tem Mais a Temer

Diz o povo que "quem não deve não teme". O Público de hoje mostra como o nosso povo está errado. Não só a Direcção-Geral de Impostos "também se engana" (o tom de espanto do título é, ele sim espantoso), como os "contribuintes cada vez têm menos meios de defesa perante o fisco". O Governo do PS, na sua voracidade justicialista, agrava esta fragilidade do contribuinte comum. Tal como o ministro António Costa facilitou o uso de escutas telefónicas, e foi aplaudido, também agora a caça "aos que não pagam" faz aumentar a popularidade do governo. A liberdade individual, por sua vez, vai ficando cada vez mais diminuta. E os que têm mais a temer são precisamente os que não devem.

Posted by Bruno at 10:39 PM

Atlântico Já nas Bancas

A Atlântico deste mês já está nas bancas. Ao que parece, em todas, menos na daqui da terra. Como o leitor, para sua sorte, não é meu vizinho, já pode comprar a sua.

Posted by Bruno at 10:17 PM

novembro 29, 2006

A Meio Caminho e um Passo Atrás

Não deixa de ser algo frustrante que tantas vezes os políticos portugueses apresentem propostas que, tendo aspectos francamente meritórios, fiquem sempre um passo atrás do que seria necessário, deixando por corrigir aspectos particularmente perniciosos de determinada questão, ou que acabem mesmo por ter aspectos francamente contraproducentes. Tanto o Presidente Cavaco Silva como o líder do PSD Marques Mendes, recentemente, nos deram exemplos do que estou a falar.

Em visita ao distrito de Bragança, o Presidente terá "encorajado" o Governo a "reforçar" os poderes do autarcas. Cavaco Silva considera que em àreas como a educação ou a saúde, as autarquias poderão responder melhor às particulares necessidades dos seus cidadãos do que o poderá fazer o Estado central. Neste aspecto, o Presidente tem razão. O problema está em não ter pedido mais responsabilização para os autarcas, para além de autonomia. Dar mais poderes aos autarcas, sem aumentar os mecanismos de responsabilização, é convidar os autarcas ao despesismo e ao aproveitamento eleitoral da política autárquica. Sem fazer com que as autarquias deixem de depender do Orçamento de Estado, e passem a depender dos impostos que venham a cobrar, aumentar os poderes das autarquias terá apenas e só o resultado de aumentar a irresponsabilidade autárquica.

Já Marques Mendes veio afirmar, no passado Domingo, que "parte importante" dos "milhões e milhões de euros" a serem investidos no aeroporto da Ota, um projecto que "não acrescenta competitividade à economia nacional", deveria ser "desviada" para "micro, pequenas e médias empresas", elas sim um "motor da economia". Marques Mendes tem razão ao não querer que o Estado desvie dinheiro das empresas e das pessoas para um projecto megalómano em que ninguém está interessado a não ser que o Estado comporte os riscos do investimento. Mas logo perde a razão ao querer, não que esse dinheiro deixe de ser retirado a essas empresas e a essas pessoas, mas que seja "desviado" para essas tais "micro, pequenas e médias empresas". Marques Mendes, que percebe como é contraproducente desviar dinheiro de actividades que produzem para um cemitério de dinheiros públicos como a Ota já é até mesmo antes de ter começado, parece não perceber que desviar recursos de empresas que produzem para outras empresas ou é irrelevante (se elas não precisarem de dinheiros públicos para sobreviverem) ou contraproducente (se precisarem desses subsídios, essas empresas serão apenas sorvedores de dinheiros públicos, não "motores da economia"). As pequenas e médias empresas que Marques Mendes quer ajudar não precisam de ajuda. Precisam, isso sim, que saiam da frente. A ajuda só atrapalha as que se querem mexer.

Posted by Bruno at 04:03 PM

A Ler

No Insurgente, o texto do André Azevedo Alves sobre as recentes propostas do ministro Agusto Santos Silva para a comunicação social:

"Sendo certo que a intervenção (directa e indirecta) do Estado na comunicação social em Portugal era já extensíssima, as novas medidas configuram a instituição explícita e inequívoca de mecanismos de censura permanente pelo governo Partido Socialista. Quem não julgou que se pudesse chegar a este ponto em Portugal em 2006, tem aqui a clara confirmação do que já se podia intuir há algum tempo. Ficam a faltar os blogs, mas a voracidade censória dos socialistas fará certamente com que não tarde a apresentação de medidas para limitar a liberdade de expressão também neste meio.

Quem pensar que nada tem a temer por não se encontrar entre os grupos agora determinados como alvos preferenciais da censura governamental deve ter em conta duas coisas: primeiro, que quem define os critérios que configuram uma transgressão na prática é (necessariamente) a mesma entidade que institui a censura (ou seja: o Estado); segundo, que uma vez aceite explícita e abertamente o princípio da censura como agora foi feito nada impede que o próprio leque de transgressões seja progressivamente alargado com base nos mais diversos argumentos politicamente correctos."

Posted by Bruno at 03:57 PM

novembro 28, 2006

Ainda a Memória de Joana Amaral Dias

A propósito do texto que ontem aqui escrevi, o Paulo Pinto Mascarenhas considera que a intenção de Joana Amaral Dias, ao criticar a atitude do PCP em relação a Luísa Mesquita e aos outros dois deputados "convidados" a saírem da Assembleia, poderia ser a de fazer "uma crítica indirecta aos procedimentos parlamentares do Bloco de Esquerda". Talvez o Paulo tenha razão. Mas isso não desculpa Joana Amaral Dias, e não atenua a incoerência entre o que ela escreveu e o que fez. Mesmo que a sua intenção com tal artigo fosse a de fazer uma crítica ao seu partido, o que é verdade é que ela aceitou as regras que este impõe. Como deputada, Joana Amaral Dias tratou o seu mandato como pertencendo ao partido, não a ela própria.

Posted by Bruno at 10:35 PM

novembro 27, 2006

A Dra. Amaral Dias Tem a Memória Curta

Anda por aí grande excitação com a remoção de alguns deputados do PCP do Parlamento, devido à vontade manifestada pelo partido de "renovar" a sua bancada parlamentar. No Diário de Notícias de hoje (não consigo aceder ao site), a dra. Joana Amaral Dias junta-se ao coro de protestos. Diz a antiga deputada do Bloco de Esquerda que o "mandato pertence ao deputado", e não "ao partido". Não deixa de ser curioso que a dra. Amaral dias tenha sido deputada por um partido que tem o hábito de rodar os seus deputados como aquela senhora das revistas cor-de-rosa muda de "amor da vida". Não deixa de ser curioso que a própria dra. Amaral Dias tenha sido (se bem me recordo) deputada em substituição de um outro deputado, e tenha sido posteriormente substituída por um outro colega seu. Se o mandato é do deputado, e não do partido, se o deputado não é um mero "peão" do partido, como pode o Bloco de Esquerda mudar os seus deputados a meio dos mandatos, "renovando" a sua bancada parlamentar? Como podem os deputados do BE sair e regressar ao Parlamento, rodando entre si, se o seu mandatpo é individual, se não são meros "peões" do seu partido? Fica sempre bem aos políticos "modernos" e "irreverentes", como os do BE gostam de se ter a si próprios, criticar esse partido "velho" e "caduco" que é o PCP. Mas convinha olhar para a própria casa antes atirar pedras à do viznho.

Posted by Bruno at 10:13 PM

novembro 26, 2006

Sobre Royal e Sarkozy

Parece ter despertado, na alma dos portugueses politizados, todo um renovado interesse pela política francesa. Muito se deve à ascensão de Segoléne Royal, mais um exemplo de como as inteligências pátrias se deslumbram com o brilho do vazio. Mas muito vem já de trás, com o fascínio que Nicolas Sarkozy despertou em muito boa gente. Para se perceber como ambos pouco diferem um do outro, como ambos pouco têm para oferecer, e como o deslumbramento por ambos é francamente imerecido, valeria a pena ler o artigo de David Rennie, correspondente europeu do Telegraph, na última Spectator. Fica aqui um pequeno excerto:

"Sarkozy is becoming something of a pin-up among conservatives outside France. They point to his reformist talk about the need for a ‘break with the past’ and a recent high-profile visit to Washington to pay his respects to President George W. Bush. Given the nannyish instincts of Ségolène Royal, it might seem obvious that Sarko is the man to back, assuming the two come head to head in the presidential elections.

If only it were that easy. There is much evidence that Sarkozy believes in a powerful, interventionist French state, just as Royal does. As finance minister, he organised a state bail-out for the engineering giant, Alstom, and imposed price controls on large supermarkets.

Sarkozy recently rejected calls to scrap France’s wealth tax, levied on any fortune over about £500,000, declaring that he was ‘in favour of taxing those with the most money’, though he has agreed to consider excluding main residences from the tax. He has called for increased protectionism, saying that protection is a word that does not ‘frighten’ him.

It is just that Sarko’s France is not a nanny state like that dreamt of by Ségo, chirping around saving cheeses and nagging people to lag their pipes. Sarkozy stands firmly in the French tradition of the daddy state, if you will — the dark France of ferocious ambition, political feuds and those scary buses full of CRS riot police parked around the back of every other public building.

Both versions of the state are fully French. Some of France’s most successful politicians — Mitterrand comes to mind — have arguably incarnated both the nannyish version of France and the dark patriarchal version at once.

Assuming the election is between Royal and Sarkozy in the end, those two Frances will be divided between two candidates — and for good measure, a man and a woman — of matching ambition. Don’t hold your breath for major reforms or an end to egregious public works, but it does promise to be psychological drama of the highest order."

Posted by Bruno at 10:02 PM

novembro 25, 2006

A Ler

O texto do Fernando Gabriel, no Cachimbo de Magritte, sobre a complicada situação internacional. Numa altura em que o diálogo parece estar outra vez na moda neste lado do mundo, há quem só perceba a linguagem da força. O problema é que esses são precisamente aqueles que temos de enfrentar:

"Os adversários e inimigos do Ocidente são (também) outras culturas, não redutíveis e até talvez incompatíveis com uma base civilizacional de aspiração universal. As linguagens políticas são outras e o discurso político ocidental é traduzido para essas linguagens. Por isso, convinha que governantes e comentadores políticos percebessem, quanto antes, esta “tradução” elementar: cada vez que mencionam a necessidade de “realismo”, Putin, Ahmadinejad, Assad & Co. traduzem para “fraqueza e falta de coragem”.

Os alinhamentos geopolíticos estão a mudar rapidamente e aproximamo-nos de um ponto extremamente perigoso em termos de segurança internacional. Podemos persistir na negação das evidências. Podemos continuar a assumir um geocentrismo político ocidental que já não existe. Podemos insistir em mencionar a “diversidade cultural” como elemento estético, ignorando o imperativo político de conhecer adversários e inimigos. Mas acabaremos por ser confrontados com uma realidade, no mínimo, extremamente desagradável."

Posted by Bruno at 11:33 PM

A Perfeição Governamental

O meu amigo João Carlos Silva escreveu, há já alguns dias, no Setúbal na Rede, um artigo sobre a postura do nosso governo, que vale a pena ler. Um pequeno excerto:

"Por fim, presente em tudo isto, está a arrogância que persiste desde o primeiro momento – em que Vitorino nos recomendou bico calado e deferência – até ao presente momento na atitude do PS no Governo, que debate na Assembleia, nunca com agressividade, nunca com humor, mas sim, sempre, com um irritante tom de quem está a ensinar a governar os partidos à esquerda e os partidos à direita. Não só tomam medidas que de pouco servirão a curto e médio prazo (medidas para qualquer outro prazo seriam esoterismo), crucificando sem piedade o cidadão mais pobre, como as tomam com uma prepotência que provavelmente nunca houve num Governo do pós-25 de Abril.

Perante tudo isto, ficamos a pensar se realmente haverá algum defeito, alguma fragilidade humana, em qualquer um que seja dos elementos que constituem o Governo. Churchill bebia à luz do dia, para não haver dúvidas sobre o seu carácter e a capacidade de errar. Consta que Bush dispensa boa literatura. Até o herói socialista François Miterrand e sua família têm historial de escândalos sexuais e fiscais que deixam qualquer pessoa sossegada, sabendo que ali estava, no mínimo, um humano. Agora de um Governo que não comunica, não ouve, não ajuda, ainda tem a prosápia de ensinar como se devem fazer as coisas e me transmite a ideia de que será impossível algum dia vir a errar, muito sinceramente, de um Governo assim não sei o que pensar."

Posted by Bruno at 11:26 PM

31 da Armada

Depois de uma brutal ofensiva publicitária, certamente possível devido aos vastos recursos do grande capital, já começou o 31 da Armada.

Posted by Bruno at 11:14 PM

novembro 24, 2006

Águas Profundas

Sempre que chove um bocadinho, este país enfrenta o caos. Estes dias não foram excepção. No entanto, não foram apenas as ruas a ficarem alagadas, o trânsito a ficar parado, casas e restaurants inundados. Ontem, o grupo parlamentar do PS aprovou uma lei da Segurança Social que se limita a adiar a resolução do problema da insustentabilidade do sistema. No Líbano, para onde partiram soldados portugueses, um ministro foi assassinado e a guerra civil parece estar a bater à porta. Um antigo espião russo foi assassinado em Londres, havendo fortes suspeitas de que a mando de Vladimir Putin. A RTP ocupou os vinte e seis minutos iniciais do seu telejornal a falar da chuvinha e do vento que o país "enfrentou". Num país a caminhar para o empobrecimento generalizado, com soldados portugueses a caminho de uma guerra civil num país estrangeiro, e um mundo cada vez mais complexo e assustador, a chuva fez-nos ficar submersos pela irrelevância.

Posted by Bruno at 10:37 PM

novembro 23, 2006

Durão e José Manuel Barroso

O Presidente da Comissão Europeia deu uma entrevista à SIC. Nela, para além de afirmar que "gosta muito" de Portugal, Barroso veio defender com grande veemência o fim das "goldens shares" dos Estados da em empresas privadas. É uma opinião que fica bem a Barroso, e será ainda melhor se a Comissão Europeia for bem sucedida na sua intenção de acabar com as ditas. Mas não deixa de ser curioso que, quando foi primeiro-Ministro, nada fez para retirar ao Estado português as "golden-shares" que este detinha. Nem sequer me lembro de alguma vez se ter manifestado contra elas. Talvez não tenha sido apenas de nome que Barroso mudou quando se exilou em Bruxelas.

Posted by Bruno at 10:38 PM

novembro 21, 2006

Ainda Não Teve Conhecimento

O Centro Cultural de Belém cancelou a próxima "Festa da Música", por "falta de verbas". Curiosamente, a Ministra da Cultura, sempre pronta a descer à praça pública para criticar as políticas "economicistas" de Rui Rio para o sector, não parece ter ficado incomodada. Mas talvez siga os critérios de Eduardo Prado Coelho, e como já terá visto Mega Ferreira (director do CCB) num concerto e numa exposição, ache que não há motivo para recorrer aos métodos habituais.

Posted by Bruno at 10:39 PM

Um Excelente Exemplo

A nova "terminologia linguística para o ensino básico e secundário" merece toda a atenção que lhe possa ser dada. Quem queira perceber a necessidade de tirar o máximo de poder possível ao Ministério da educação e às pessoas que no seu interior elaboram estas preciosidades, tem nela um excelente exemplo.

Posted by Bruno at 10:32 PM

novembro 20, 2006

As Intervenções do Presidente

O Paulo Gorjão faz um comentário acertado acerca das intervenções do Presidente da República, e da forma como estas são avaliadas. Segundo o Paulo, "a coerência das suas intervenções percebe-se a longo prazo e não em função das circunstâncias do momento". O "Pacto da Justiça", o seu suposto patrocínio por parte do presidente, não foi, segundo o Paulo, uma mão estendida a Marques Mendes, nem o tom de apoio ao Governo na recente entrevista a Maria João Avillez foi uma rasteira ao líder do PSD. Parece-me que o Paulo tem toda a razão, e já aqui escrevi que o que Cavaco deve fazer (e a sua entrevista pareceu-me ir nesse sentido) é não dar qualquer sinal de apoio à contestação ao governo por parte daqueles que não querem qualquer tipo de reforma, sem hostilizar os que acham que o que o Governo está a fazer também não é suficiente. E, mais do que isso, deve ter uma agenda totalmente independente da dos partidos, introduzindo no debate político um discurso que nenhum deles tem condições para apresentar. Precisamente, por isso, as críticas de Marques Mendes (que, no entanto, teve toda a razão no que disse acerca do Governo) foram um erro. Demonstram que ou não percebe qual deve ser o papel do Presidente na conjuntura actual, ou, mesmo percebendo, não foi capaz de resistir à pressão dos que, no seio do PSD, certamente lhe pediram que não deixasse "passar em claro" a suposta "traição" de Cavaco.

Posted by Bruno at 10:46 PM

novembro 19, 2006

A Boa Velha Rússia

No Insurgente, o André Azevedo Alves já chamou a atenção para a notícia do envenenamento de um opositor de Vladimir Putin, Alexander Litvinenko de seu nome, em Londres, alegadamente levado a cabo no jantar em que se havia encontrado com uma jornalista que afirmava ter informações acerca do assassinato da jornalista Anna Politkovskaia. Na Rússia, os regimes podem mudar mas os velhos hábitos não se perdem.

Posted by Bruno at 09:47 PM

novembro 17, 2006

Diferentes Géneros de Pessoa

Há dois géneros de pessoa: os que admiram os políticos franceses por todos terem escrito pelo menos um livro, e os que admiram os políticos franceses por todos terem dado pelo menos uma facadinha no matrimónio. Claro que há ainda um terceiro, as pessoas que não admiram os políticos franceses.

Posted by Bruno at 10:18 PM

novembro 16, 2006

A Ler

A propósito do caso sobre o qual aqui escrevi há dias, de um pedido de indemnização, por parte de 198 prisioneiros britânicos que foram proibidos de consumir drogas na prisão (e o acordo procurado pelo próprio governo britânico), Daniel Hannan escreve um artigo sobre a forma como documentos como a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, declarações universalistas e abstractas sobre os "Direitos do Homem", conduzem a situações absurdas como esta.

Posted by Bruno at 11:06 PM

A Entrevista do Presidente

Da entrevista do Presidente da República a Maria João Avillez, dois elementos merecem destaque. Em primeiro lugar, o esforço do entrevistado em não entrar em confronto com o Governo, o esforço em acentuar a necessidade de reformar o país, para que essas reformas não tenham que ser feitas em circunstâncias ainda menos propícias. Claro que se poderá discutir se o que o Governo está a fazer são as reformas que o país precisa (na minha opinião, não é). Mas o que o Presidente não quer encorajar é a contestação a qualquer mudança, patente em muitos dos protestos contra o actual Governo. Para mais, um Presidente que enaltece o secretismo na relação com o Governo, a necessidade de não lançar o teor das conversas com o Primeiro-Ministro para a praça pública, de forma a construir um clima de confiança mútuo, quererá certamente, e esta entrevista mostra-o, não dar qualquer sinal público de confronto com o Governo.

O que conduz ao outro elemento merecedor de destaque desta entrevista. Nela, o presidente atribuíu grande importância à estabilidade política. Por outro lado, referiu querer trabalhar para o "sucesso" do país. Em última análise, estas duas preocupações podem entrar em conflito, o que se torna bem mais grave quando, na óptica do Presidente (e na minha), sem estabilidade política o país não poderá ter "sucesso". Elas poderão ser incompatíveis, se o governo não fizer o que o Presidente achar que é necessário para obter esse tal sucesso, o que o obrigaria a entrar em conflito com este. A única forma do Presidente contornar este dilema é intervir para além da agenda do governo. Não opôr-se à agenda governamental, mas destacar temas que nela não cabem. Introduzir no debate político um discurso que, devido aos constragimentos dos partidos políticos, só alguém relativamente liberto como o Presidente pode apresentar. Não sei se o Presidente tem consciência disto. Mas, de acordo com as suas palavras nesta entrevista, o caminho que deveria seguir só pode ser este. Os seus "Roteiros para a Inclusão", justiça lhe seja feita, já apontavam nessa direcção. Resta esperar para ver como conduzirá o resto do seu mandato.

Posted by Bruno at 10:21 PM

novembro 15, 2006

O Jogo Tem Dois Minutos

O futebol é um desporto cruel. Uma equipa pode dominar o jogo durante os noventa minutos. Trocar a bola, fazer passes de calcanhar, estar permanentemente à beira da área adversária, "dar espectáculo". Quem assistir ao jogo inteiro, dirá que essa equipa "deu baile". Mas quem se limitar a assistir ao resumo, terá a impressão inversa. O adversário, que mal tocou na bola, criou mais situações de golo. Talvez tenha até ganho o jogo. Uma equipa poderá ter empolgado mais os seus adeptos, pode ter corrido mais atrás da bola, ter tido a bola mais tempo, mas o adversário, das poucas vezes que nela tocou, chegou sempre à baliza adversária. Pode não ter dominado o jogo, mas teve o seu controlo. Para jogar melhor, não basta "dar espectáculo". Os sábios da bola dizem que o jogo tem noventa minutos. Talvez, mas por vezes, há dois deles que são mais importantes que os restantes oitenta e oito.

O debate de hoje, no Parlamento britânico, a propósito do discurso da Rainha, foi semelhante. Ao assistir em directo, a prestação de David Cameron pareceu brilhante. Ao ver o resumo, horas mais tarde, Blair parecia ter saído por cima. E tal não se deve a um desonestidade jornalísitica na cobertura do debate. Na realidade, se Cameron bem pode ter tido toda a razão no que diz respeito à substância, ao conteúdo da sua intervenção, bem pode ter sido mais espirituoso nas piadas que fez, bem pode ter acertado em cheio nas críticas que fez ao governo de Blair, o Primeiro-Ministro britânico foi bem mais acutilante nos termos que usou para denegrir Cameron. Ao dizer que Cameron será, nas próximas eleições, um "peso-mosca" que enfrentará um "peso-pesado" (Brown), que encontrará um "punho cerrado" à sua frente, Blair foi muito mais eficaz na oferta de soundytes para as televisões do que o líder da oposição. As suas afirmações podem não querer dizer nada, mas passam melhor nas televisões do que o discurso mais recheado de Cameron. Cameron bem pode ter dominado nos noventa minutos, bem pode ter massacrado o desempenho dos governos de Blair e humilhado Gordon Brown, mas Blair jogou para os dois minutos dos resumos.

Este pequeno episódio não deixa de ser curioso, se tivermos em conta que Cameron é geralmente visto como vazio de substância, inteiramente dependente da imagem, da publicidade que faz da sua persona política. Na realidade, todos os problemas que tem enfrentado têm resultado de soundbytes que tem lançado, e que rapidamente se viram contra ele. É a imagem o seu ponto fraco. Globalmente falando, tem razão nos ataques que faz ao Governo de Blair. As poucas propostas concretas que tem apresentado não parecem más (ficando, talvez, um pouco aquém do que poderia fazer, do que seria ideal). Mas no esforço de tornar o seu partido mais "atractivo" à "middle England", Cameron expõe-se demasiado ao ridículo. Expõe-se demasiado aos ataques de Blair e Brown. Mais, inquieta a base de apoio do seu próprio partido, receosa de que este se afaste demasiado das suas convicções. O famoso caso do discurso do "hug a hoodie" é um excelente exemplo disto. Num discurso com um conteúdo francamente tradicionalista, que assentava na ideia de que o crime, a delinquência juvenil, era uma consequência do que ele chamou de "family breakdown", o que passou para os media foi um soundbyte que, mais do que transmitir uma ideia (contrária ao conteúdo do discurso) de que os deliquentes não eram os verdadeiros culpados dos seus actos, mas sim a sociedade, mais do que dar a ideia de um Cameron "politicamente correcto" e sem convicções, mais do que tudo isso, o fez parecer ridículo, e expôs o líder dos tories a uma série de ataques que ainda hopje tem de enfrentar. Ao contrário do que é comum dizer-se, o problema de Cameron, mais do que o conteúdo, é a imagem. Ao longo dos noventa minutos, Cameron parece ter um meio-campo demolidor, sempre virado para a àrea adversária. Nos dois minutos dos resumos, a fragilidade da sua defesa fica à vista de todos. Se esses dois minutos são os que estão no resumo, é porque para quem está a assistir, são eles os mais importantes.

Posted by Bruno at 10:33 PM

novembro 14, 2006

Ameaças Vazias

O Primeiro-Ministro britânico, Tony Blair, proferiu ontem um discurso sobre a sua política externa, onde afirmava a importância de se atrair o Irão e a Síria para o esforço de pacificação e reconstrução do Iraque. O spin que antecedeu o discurso afirmava que Blair não faria nenhuma cedência a qualquer um desses dois países, antes pretendia deixar-lhes bem claro que ou alinhavam com o Ocidente, ou seriam marginalizados. O discurso confirmou tais palavras, especialmente no que diz respeito ao Irão. Blair afirmou que se o Irão estiver disposto a abandonar as suas ambições nucleares, e a deixar de apoiar o terrorismo no Iraque, poderá iniciar uma "parceria" com o Ocidente, para resolver o problema iraquiano. O discurso de Blair foi, apenas e só, um grande erro.

O discurso pretendia, na sua essência, ser um ultimato ao Irão. Ou abandona o seu projecto nuclear, ou terá de ficar isolado. O problema está em que Blair não está em condições de fazer ameaças. A própria exigência de que o Irão deixe de apoiar o terrorismo no Iraque é um reconhecimento de que o Irão cria dificuldades ao Reino Unido, é um reconhecimento de que é o Irão que está numa posição de força. Quando um líder político faz um ultimato, sem ter força para impôr as condições que este estabelece, mais não faz que anunciar o seu desespero. Para o Irão, uma declaração de um Primeiro-Ministro de um país que está em dificuldades ainda maiores que os EUA, em termos miltares, em consequência do esforço de guerra no Afeganistão e no Iraque, que "exige" que Teerão renuncie às suas ambições, é uma declaração de desespero. Ela não indica que o Irão não tem alternativa senão obedecer, indica que o Reino Unido não tem alternativa senão recorrer ao auxílio do Irão. Ao proferir este discurso, Blair apenas fortaleceu a posição negocial do Irão no que diz respeito ao seu programa nuclear. É um erro que poderá vir a custar um preço elevado.

Posted by Bruno at 10:17 PM

novembro 13, 2006

Vícios Privados, Indemnizações Públicas

Segundo o Times de Londres, 198 prisioneiros britânicos poderão vir a indemnizados por terem sido forçados a abandonar o consumo de drogas na prisão. Os prisioneiros alegam que tal imposição viola a Declaração Europeia dos Direitos Humanos, ao "discriminá-los", ao sujeitá-los a um "tratamento desumano", e ao "desrespeitar a sua privacidade", pois, segundo eles, não aceitaram submeter-se a "tratamento" para a sua dependência. O problema está em que o consumo de drogas pesadas é crime, e, por muito privado que ele seja, não pode ser permitido numa prisão. Claro que estes prisioneiros estão no direito de tentarem obter uma indemnização por não lhes ter sido permitido praticar um crime. Cada um tem direito a tentar ganhar dinheiro da forma mais absurda que lhe occorer. Mais grave é John Reid, o Ministro do Interior de Sua Majestade, estar aparentemente disposto (uma sua porta-voz não fez qualquer comentário) a chegar a um acordo com esses prisioneiros. Mais grave é John Reid pretender, com o dinheiro dos seus contribuintes, indemnizar 198 pessoas por não lhes ter dado a oportunidade de praticarem um crime.

Posted by Bruno at 10:18 PM

novembro 11, 2006

À 11ª Hora, do 11º Dia, do 11º Mês

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Posted by Bruno at 11:00 AM

novembro 10, 2006

O PS e o Poder

Quem quiser perceber como funciona o actual governo, como opera o actual Governo, deve prestar atenção ao Congresso do PS este fim-de-semana. Bem sei que é algo de penoso, e há quem tenha mais que fazer. Mas tudo o que lá se passar será bastante revelador. Todo o Congresso será uma imensa sessão de propaganda. Elogios à "coragem" do Governo. Principalmente, elogios à "coragem" do Primeiro-Ministro. Muitas menções ao "esforço de modernização". Um carnaval de ataques a Marques Mendes, com particular acento em adjectivos geralmente usados na comunicação social em tom negativo para o líder do PSD (dessa forma, o PS conseguirá inculcar na cabeça dos eleitores a imagem negativa de Mendes). E Helena Roseta (juntamente com a meia-dúzia de excêntricos que fazem o conjunto de "críticos" da liderança) contribuirá involuntariamente para cimentar a ideia de que o Primeiro-Ministro é um "animal feroz" capaz de ir contra tudo e todos (a greve geral da função pública não poderia ter vindo em melhor altura para o Primeiro-Ministro). No fim da tarde de domingo, Sócrates terá aproveitado bem os três dias de propaganda que marcou para este fim-de-semana. Quanto vier a sair do poder, o PS pagará o preço de tudo isto. Nos próximos anos, e provavelmente durante bastante mais tempo, os cidadãos pagarão bem mais.

Posted by Bruno at 10:20 PM

Hoje

Digo uns disparates sobre a blogosfera no Miniscente.

Posted by Bruno at 10:18 PM

novembro 09, 2006

The Departed

the departed2

Frank Costello (Jack Nicholson) é o chefe de uma organização criminosa de irlandeses de Boston. Um homem que, para chegar onde chegou, teve de fazer com que "muita gente tivesse de morrer". Colin Sullivan (Matt Damon), ainda em miúdo, tornou-se um protegido de Costello. Anos mais tarde, está na Academia da Polícia Estatal de Boston, de onde sairá para uma divisão de combate ao crime organizado, às ordens do capitão Ellerby (Alec Baldwin). Lá, mais não é que um agente infiltrado de Frank Costello. Já William "Billy" Costigan (Leonardo di Caprio) é expulso da mesma Academia. O sargento Dignan (Mark Wahlberg) e capitão Queenam (Martin Sheen) dizem-lhe que ele não "é" um polícia, e que nunca o poderá vir a ser. Oferecem-lhe, devido ao passado da sua família, uma missão, ser um seu agente infiltrado na organização de Costello. Ambos sentem a pressão da sua situação. Ambos dependem da capacidade de mentir para sobreviver. Sullivan apenas parece recear ser apanhado, Costigan sente a culpa de mentir, para além do medo de que Costello o descubra e faça alguma coisa acerca disso. Ambos ficarão numa situação mais perigosa, quando Costello começa a suspeitar de que tem um polícia na sua equipa, e a Polícia Estatal de Boston suspeita ter um agente a servir de informador de Costello.

The Departed é o terceiro filme de Di Caprio com Martin Scorsese. Eu, que fui educado a desprezar Di Caprio, tenho de reconhecer que ele se trata de um excelente actor. O seu desempenho, uma espécie de mistura do Charlie de Mean Streets, Travis Bickle de Taxi Driver e Jake La Motta de Raging Bull, é imaculado. O medo de ser apanhado, a falta de sono, o conflito interior, tudo é visível na sua cara, tudo sai do ecrã e nos acerta na cara como se de um murro se tratasse. Di Caprio tornou-se o novo actor talismã de Scorsese, o novo Keitel, o novo De Niro. E neste filme, dá razão a Scorsese pela escolha. Scorsese, esse, dá razão aos que disseram que ele não estava acabado. Depois de um fraco Gangs of New York e de um bom (mas menor no conjunto da obra) The Aviator, The Departed é o regresso de Scorsese aos grandes filmes.

Duas coisas devem ser tidas em atenção. The Departed, sendo o melhor filme de Scorsese desde Casino, não é um Raging Bull, um Taxi Driver, um Goodfellas, um The Last Temptation of Christ. Não é uma obra-prima. Falta-lhe aquele elemento extra que Scorsese dá aos seus grandes filmes, aqueles momentos de pura emoção resultantes do simples uso da câmera. Mas tal só acontece porque é um filme diferente de todos os outros que Scorsese já fez. Não é um Goodfellas ou um Casino, nem sequer um Mean Streets. Não é um filme sobre a Máfia. É um thriller policial, um género que Scorsese nunca havia abordado (se há filme que se pareça com The Departed, para além do original de Hong-Kong, que nunca vi, é Training Day, não um qualquer da filmografia de Scorsese). Não é um filme que nos lançe no Inferno moral de um Travis Bickle como o fazia Taxi Driver, não é um filme que nos ponha no ringue com um animal como Jake la Motta, ou a simpatizar com criminosos como acontecia com Casino e Goodfellas. É um filme que nos faz sentir o medo de Sullivan, e especialmente Costigan. E neste aspecto é um filme perfeito. É talvez o filme de Scorsese que mais nos agarra à cadeira, com expectativa, até mesmo com receio, do que vai acontecer a seguir (como nenhum outro filme de Scorsese, está repleto de plot twists, sem no entanto abusar do seu recurso, como irritantemente se faz no cinema moderno). Não é um exercício sublime de cinema como é Raging Bull. Mas é um filme que cumpre na perfeição o seu propósito. A sua brutal violência (nunca vi tanto sangue num filme de Scorsese, o que já é dizer muito) ajuda a alimentar o clima de medo, bem como as interpretações, especialmente a de Nicholson. Aliás, a comparação com Training Day não era em vão. Training Day era uma espécie de Apocalypse Now passado nas ruas de Los Angeles, um filme onde, como diz Nicholson em The Departed, não há uma grande diferença entre um polícia e um bandido quando estamos em frente de arma carregada. A personagem de Nicholson é uma espécie de Coronel Kurtz da selva mafiosa de Boston. Um homem que diz mandar, naquelas ruas, mais do que Deus, um homem que à medida que o filme avança parece estar cada vez mais perto da loucura, comendo moscas e aparecendo do nada com a camisa repleta de sangue (há algo de David Lynch nos planos "demonizadores" da personagem de Nicholson). Costigan pode não estar a subir nenhum rio, mas ninguém se espantaria se cabeças decapitadas abundassem logo ao virar da esquina.

Não sendo, como já disse, uma obra-prima, alarga a filmografia de Scorsese a um género que dela estava ausente. E mantendo as características autorais dessa filmografia. The Departed é, em certa medida, e como (em maior ou menor grau) todos os filmes de Scorsese, um drama moral. Como o Charlie de Mean Streets, Costigan é atormentado pelo dilema moral que atravessa: para poder ajudar a apanhar Costello, tem de mentir, algo que diz à sua psiquiátra estar a incomodá-lo. Mais, para ajudar a apanhar Costello, tem de colaborar no assassínio de pessoas, no tráfico de drogas, tem de estar disposto a usar a violência como meio de sobrevivência, adoptar o meio de vida que abomina em alguns dos seus familiares. Se em Taxi Driver Scorsese nos arrastava para o tal Inferno moral de Bickle, em The Departed arrasta-nos para o mundo de violência e medo de Costigan, um mundo cada vez mais violento e cada vez mais assustador à medida que o tempo passa. Costigan, um católico irlandês de Boston, é, bem vistas as coisas, atormentado pela questão que atormenta todos os grandes personagens dos filmes de Scorsese: como viver uma vida justa? Como poder viver uma vida moral, num mundo imoral? Como nos velhos westerns que Scorsese tanto viu em criança, como civilizar sem disparar contra a selvajaria? Como redimir, sem derramar sangue? Será possível fazer o Bem, num mundo em que o Mal também existe? Não será essa a tragédia da existência humana, a impossibilidade de renegar o Mal, apenas e só porque ele existe? Como ser fiel a Deus num mundo em que é alguém como Costello que manda? Talvez Costello tenha razão. Talvez não haja diferença entre um bandido e um polícia, quando se tem uma arma carregada. Talvez todos nós sejamos como ratazanas. Talvez seja necessária uma ratazana para acabar com outra. Talvez não nos reste mais do que esperar que, como se repete incessantemente no filme, o Céu guarde os fiéis que partiram. Que, ao menos noutro mundo, uma vida justa seja possível.

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Posted by Bruno at 09:23 PM

novembro 08, 2006

Vida Portuguesa

Tanto eu como os meus amigos João Carlos Silva e Paulo Rodrigues Ferreira andamos a correr por um lugar de destaque na vida nacional. O problema é que os lugares de destaque na vida nacional têm corrido mais depressa.

Posted by Bruno at 11:38 PM

Atraso e Erro

Donald Rumsfeld foi demitido do seu cargo de Secretário da Defesa americano. Foi a decisão correcta. Foi o dia errado para a tomar.

Posted by Bruno at 11:36 PM

A Ler 2

O artigo do Fernando Gabriel na Dia D, reproduzido no seu Guest of Time.

Posted by Bruno at 11:31 PM

A Ler

Os três textos, intitulados Land of contradiction, do Sérgio dos Santos, sobre as eleições americanas, no My Guide to Your Galaxy.

Posted by Bruno at 11:28 PM

novembro 07, 2006

A Fraqueza do Parlamento

Qualquer pessoa que queira perceber o que está mal no nosso Parlamento, precisa apenas de assisir a um debate como de hoje. Em mais de três horas, aqueles senhores disseram menos do que dizem, em trinta minutos, os senhores deputados britânicos nas sessões semanais de perguntas ao Primeiro-Ministro. As regras do nosso Parlamento convidam aos discursos longos e vazios dos deputados, às perguntas "encomendadas" pelo Governo aos deputados da bancada que o apoia, às intervenções sem o mínimo de interesse para as pessoas que estão a assistir, os cidadãos que estão ali a ser representados. A artimanha hoje usada pelo Primeiro-Ministro contra Marques Mendes só foi possível porque é ele quem tem direito a fazer a intervenção inicial. Ao contrário do que se passa no parlamento britânico, onde o Primeiro-Ministro responde, efectivamente, às perguntas dos deputados, na nossa Assembleia da República, apenas no papel sessões como a de hoje são sessões de perguntas ao Primeiro-Ministro. Ao ser o primeiro a falar, ao ser ele quem abre o debate, o Primeiro-Ministro condiciona de imediato as intervenções dos deputados da oposição (as intervenções dos deputados que o apoiam não precisam de ser condicionadas. A subserviência destes últimos garante ao Primeiro-Ministro que nada de desconfortável virá dali). Ao ser o primeiro a falar, ao ser ele, na prática, o condutor do debate em vez de um mero participante, o Primeiro-Ministro transforma as suas idas ao Parlamento em acções de propaganda quase tão eficazes como os piqueniques que organiza com os empresários seus amigos. A forma como os debates no Parlamento são organizados, as suas regras, fragilizam a democracia, contribuem para a sua degradação. O debate de hoje foi um bom exemplo de como isso acontece.

Posted by Bruno at 10:13 PM

Falta de Respeito 2

O pior sinal de falta de respeito pelos outros deputados, e por inerência, pelos cidadãos, são as perguntas "encomendadas" pelo Governo ao grupo parlamentar que o apoia, como a que Maria de Belém está agora a fazer. Um deputado, mesmo que da bancada do partido do governo, está ali para colocar questões ao Governo, não para ler um papel que pergunta se o governo é ou não "corajoso", ou se vai "continuar a mostrar a determinação que tem demonstrado até aqui", como Alberto Martins costuma fazer, e Maria de Belém parece querer imitar. Ao se prestarem a esse papel de "aguadeiros" do governo, os deputados da bancada do PS diminuem-se a si próprios, menorizam o seu papel, o papel da instituição a que pertencem. Degradam a imagem da actividade política, degradando assim a relação entre os políticos e os cidadãos. O que prejudica mais estes últimos do que os próprios políticos.

Posted by Bruno at 05:51 PM

Memória

José Sócrates afirma não se lembrar de uma intervenção de Heloísa Apolónia que não estivesse carregado de "pessimismo". Não deixa de ser extraordinário que o Primeiro-Ministro se lembre das intervenções de Heloísa Apolónia.

Posted by Bruno at 05:45 PM

A Emenda e o Soneto

Francisco Louçã diz que o Orçamento do Estado deve responder ao problema do desemprego, deve corresponder a uma preocupação com essa questão. A solução que propõe é sugar mais dinheiro aos que criam emprego.

Posted by Bruno at 05:09 PM

Momento de Pausa

Alberto Martins começou a discursar. Melhor momento para ir à casa de banho, só a intervenção daquela senhora d'"Os Verdes".

Posted by Bruno at 04:22 PM

A Inteligência do Primeiro-Ministro 2

Depois do ataque de José Sócrates ao apoio dado por Marques Mendes a João Jardim, o líder do PSD optou por responder, explicando as razões desse apoio. Para além de ter perdido tempo que poderia ter usado a atacar o Orçamento, caiu noutra armadilha do Primeiro-Ministro. É verdade que não caiu no erro, apontado no post anterior, de abrir o flanco a acusações de fugir à questão. Mas se não abriu o flanco direito a tais acusações, ao fazer avançar o esquerdo, para atacar a lei das finanças regionais, abriu-o a ataques por falta de credibilidade. Marques Mendes havia sido bastante eficaz a atacar as "mentiras eleitorais" do PS. Mas toda essa eficácia se perdeu quando Sócrates o acusou de ceder a Jardim por razões partidaristas, por "politiquice". Ainda para mais, ao responder ao ataque de Sócrates, deu-lhe oportunidade de contra-atacar. Deu ao Primeiro-Ministro a oportunidade de centrar o seu confronto com o líder da oposição na questão de João Jardim. Ao obrigar Marques Mendes a responder-lhe ao ataque sobre João Jardim, Sócrates conseguiu anular a eficácia do ataque de Mendes ao Orçamento. Nas reportagens da imprensa escrita sobre o debate, nos resumos na televisão, será a "questão Jardim" o elemento de destaque.

Posted by Bruno at 04:12 PM

A Inteligência do Primeiro-Ministro

Justiça lhe seja feita: o Primeiro-Ministro sabe o que está a fazer. Sabe conduzir o debate, e, como diria um qualquer prof. Marcelo, "marcar pontos". Sócrates, na sua intervenção inicial, acaba de atacar Marques Mendes devido ao seu apoio a Alberto João Jardim na questão das finanças da Madeira. Sócrates sabe que ao atacar desta forma Marques Mendes, está a limitar a margem de manobra da intervenção do líder da oposição. Praticamente obriga Marques Mendes a defender-se, a explicar por que razão apoia Jardim, o que lhe retirará tempo para atacar o governo. Se porventura optar por ignorar o ataque, abre o flanco a acusações de querer fugir à questão. A única maneira de Marques Mendes conseguir controlar os danos do ataque de Sócrates é dizer o que acabei de escrever. É explicar a quem estiver a ouvir a intenção do Primeiro-Ministro ao fazer este ataque. Tal resposta teria a vantagem de permitir um ataque ao Primeiro-Ministro, mostrando a sua natureza conspirativa e "politiqueira", ao mesmo tempo que lhe permitia fugir à questão, sem estar à mercê de um ataque a propósito dessa fuga (depois da acusação de "politiquice", Sócrates não insistiria na questão, e se o fizesse, apenas se prejudicaria a si próprio). Mas até aqui se vê a eficácia da estratégia do Primeiro-Ministro. Mesmo que Marques Mendes optasse por este caminho, e o único que não lhe seria gravemente prejudicial, perderia tempo para atacar o Orçamento.

Posted by Bruno at 03:35 PM

Meios e Fins

Não há político em Portugal que, em se referindo à questão do défice, não diga que o seu controlo é um "meio" para atingir determinados fins, e não um "fim em si mesmo". O Primeiro-Ministro não é excepção, e fê-lo agora mesmo, no debate sobre o Orçamento de Estado. O controlo do défice é um "meio" para ter uma economia em "crescimento" e para "criar emprego". Este é um dos grandes erros de percepção do problema do défice por parte dos nossos responsáveis governativos. Porque o controlo do défice deve ser um "fim em si mesmo". Um défice fora de controlo, finanças públicas deficitárias, significam uma dívida que terá de ser paga mais tarde pelos contribuintes. Um défice público obrigará os cidadãos a pagarem essa dívida no futuro, sob pena de ela aumentar cada vez mais, colocando um ónus sobre as gerações futuras cada vez maior. Fazer com que o Estado pague o que deve, não gaste mais do que tem, e não peça aos que estão para vir que paguem o que os que já cá estão andaram a fazer, deve ser um "fim em si mesmo". O Primeiro-Ministro bem pode atirar muitos números para a discussão, e afirmar que este é um Orçamento de "credibilidade". Mas ao dizer que o controlo das finanças públicas não é um "fim em si mesmo", apenas mostra que não percebe a natureza do problema. E sem perceber a natureza do problema, é difícil ter credibilidade.

Posted by Bruno at 03:11 PM

Falta de Respeito

José Sócrates chegou atrasado ao debate parlamentar sobre o Orçamento de Estado. O português comum dirá que foram apenas cinco minutos. Mas são cinco minutos que demonstram uma falta de respeito pela instituição, em primeiro lugar, bem como pelos seus membros, os deputados eleitos como nossos representantes, e por isso mesmo, em última análise, é também uma falta de respeito pelos cidadãos.

Posted by Bruno at 03:04 PM

novembro 06, 2006

Sobre a Blogosfera

No Miniscente, o Luís Carmelo inicia hoje mais um ciclo de entrevistas sobre a blogosfera, desta vez com a participação de bloggers. Parece que, lá para sexta-feira, o Luís comete a imprudência de dar espaço a uns disparates meus.

Posted by Bruno at 10:07 PM

A Propósito da Pena de Morte de Saddam Hussein

Saddam Hussein foi ontem condenado à morte pelos tribunais iraquianos. A sentença provocou uma considerável polémica nos países ocidentais. Devo dizer que não acho estranho, nem condenável, que os cidadãos de países que não o Iraque manifestem a sua opinião, contra ou a favor da pena de morte. Esta questão é, sem dúvida, um assunto do Iraque (como escreve William Rees-Mogg), e dos iraquianos. A responsabilidade, e a decisão, cabem a eles. Não é por isso que um português ou um inglês vão deixar de ter liberdade de dizerem o que pensam. Mas é por isso, no entanto, por ser um assunto do Iraque e os iraquianos, que é ridículo estar-se a questionar Blair ou Bush sobre o assunto, como se este fosse da sua responsabilidade. Quem é contra a pena de morte terá toda liberdade de criticar a decisão, mas estará a direccionar mal a sua crítica, se a apontar a Bush ou a Blair. O que estes poderão fazer, mais, deverão fazer, é assegurar que os procedimentos dos tribunais iraquianos respeitem as regras mínimas para a existência de uma verdadeira rule of law, e não uma mera inversão da arbitrariedade de Saddam. Mas o que essa lei dita, será o que os iraquianos quiserem que ela dite. Quem não aprecia o resultado, está á vontade para criticar. Mas critique os iraquianos.

Posted by Bruno at 09:45 PM

Iraque e os Redskins

Realizam-se amanhã, nos EUA, as eleições intercalares para o Congresso. Os jornais portugueses, tal como as televisões, não se cansam de dizer que as eleições serão um referendo à política de Bush para o Iraque. Curiosamente, o Times de hoje publica um artigo de Christopher Hitchens, em que este afirma que mais importante que o iraque, são assuntos como a eventual mudança de nome da equipa de futebol (americano) de Washington.

Posted by Bruno at 09:37 PM

Nacionalização da Portugália

Vale a pena ler o texto do Gabriel Silva sobre a anunciada compra da Portugália pela TAP.

Posted by Bruno at 09:32 PM

novembro 05, 2006

Nem Todos Os Franceses São Maus

François Truffaut

Encontrado há uns dias numa livraria lisboeta, e imediatamente trazido para casa.

Posted by Bruno at 10:10 PM

novembro 03, 2006

Sair ou Ficar (publicado no Insurgente)

Numa recente entrevista televisiva, um jornalista perguntou a George W. Bush se ele concordava com o colunista Thomas Friedman, quando este afirmava que, no Iraque, os EUA enfrentavam uma situação semelhante à que haviam enfrentado no Vietnam, aquando da Ofensiva do Tet. O Presidente americano respondeu afirmativamente. Segundo ele, Friedman poderia ter “alguma razão”, visto que existe uma “escalada de violência”, e se está nas vésperas de um acto eleitoral nos EUA. A brigada da retirada rejubilou. O Presidente americano teria confirmado aquilo que eles dizem desde o princípio: os EUA estariam a partir para um “novo Vietnam”, ao invadirem o Iraque. Para um erro tão grande ou maior como o que haviam cometido há décadas. E agora, “até” o próprio Bush se apercebia disso. Nada mais errado. Não perceberam a afirmação de Bush, e por conseguinte, não perceberam o entendimento que ele tem da situação no Iraque.


A 30 de Janeiro de 1968, o exército Vietcong, num dia até aí tido como de tréguas, atacou várias cidades e locais estratégicos vietnamitas. Particularmente famosos foram os bem sucedidos ataques ao palácio de Saigão, ao aeroporto, e à embaixada americana. Particularmente famosos, porque alvo de particular destaque e atenção dos media americanos. Assim, uma ofensiva que custou 40 000 vidas ao exército comunista, foi vista como uma derrota americana. Aproximavam-se eleições presidenciais em Novembro. A pressão mediática em torno da Ofensiva do Tet rapidamente teria o seu impacto no seu da Administração americana. Lyndon Johnson viu dois dos membros do seu gabinete virarem-se contra ele, e contra a guerra. Após as primárias em New Hampshire, Johnson renunciaria à recandidatura à casa Branca. Uma operação militar em larga medida fracassada forçara o ocupante da casa Branca a enfrentar uma significativa pressão interna, como se tivesse sido bem sucedida, como se na realidade se tivesse tratado de uma derrota americana.

Bush, ao aceitar uma comparação com o que os EUA enfrentaram em Janeiro de 1968, não está a aceitar que o Iraque é um erro similar ao do Vietnam, não está sequer a aceitar que o Vietnam foi um erro. Está a reconhecer um paralelo entre o efeito da Ofensiva do Tet, e o efeito dos ataques terroristas do Iraque, na opinião pública americana. Em última análise, está a seguir a ideia de Henry Kissinger de que o Vietnam foi perdido, porque os EUA fraquejaram, não porque não podiam ganhar. Está a dizer que, se se repetir essa atitude, que ele, como Kissinger, vê, essa sim (e não a ida para o Vietnam) como um erro, o resultado no Iraque será o mesmo. Não uma derrota militar, mas uma derrota do “espírito” dos americanos.

Na realidade, a violência no Iraque não pára. Os apelos à retirada também não. E quanto mais a violência continuar, mais estes se repetirão. Estes apelos centram-se nos custos da permanência das tropas do Iraque. Ignoram, no entanto, os custos da retirada. Em primeiro lugar, a violência não diminuiria. A guerra civil continuaria, e provavelmente, sem a presença militar americana, agravar-se-ia, tornando-se num conflito aberto. Num conflito que, em última análise, se arrastaria pela região. A maioria xiita teria certamente o apoio do Irão. Mesmo as por vezes citadas inimizades entre o xiismo árabe (iraquiano) e o xiismo persa dos iranianos seriam irrelevantes, à luz do interesse estratégico de tal apoio. Como escrevia, na The Spectator desta semana, Fraser Nelson, tal proximidade faria do Irão uma superpotência xiita. Uma superpotência regional, que seria uma ameaça para a sunita Arábia Saudita, que, como afirmava um funcionário britânico citado por Nelson, não poderia ficar a assistir à criação de um protectorado iraniano. Quer numa partilha do Iraque por três estados independentes (o cenário comentado por Fraser), quer na manutenção de um único estado (mesmo que federal), o confronto entre as três facções seria inevitável. O interesse na questão forçaria o Irão a participar, e a participação iraniana arrastaria consigo a intervenção saudita. A questão curda, especialmente no caso de se tornar um estado independente, arrastaria a Turquia, causando, no mínimo, um conflito no seio da NATO (talvez com a saída da Turquia, criando um novo problema geoestratégico para os EUA e os países europeus). Tudo com Israel ali ao lado, podendo ser a todo o momento arrastado para o conflito, o que acabaria por, forçosamente, trazer consigo um regresso dos EUA ao Médio Oriente. Para fugirem a um suposto “novo Vietnam”, os EUA deixariam no Médio Oriente uma espécie de “I Guerra”, em que o conflito num país, e o interesse de cada uma das potências regionais nesse conflito, as arrastaria para um confronto em larga escala.

O leitor dirá que exagero. Talvez. Mas a retirada do Iraque, uma retirada motivada por uma reacção às notícias que daí chegam semelhante à reacção à Ofensiva do Tet, teria uma consequência muito mais imediata, e muito mais palpável. Colocaria em perigo os soldados americanos que estariam a retirar no situação mais perigosa que aquela que enfrentam agora, e colocariam os cidadãos americanos (e os dos países europeus) em risco de sofrerem novos atentados. Como explicou Paddy Ashdown, antigo líder dos Liberais-Democratas britânicos, e um insuspeito crítico da intervenção americana, o anúncio de uma retirada imediata provocaria um aumento da violência, direccionada contra as tropas, num momento em que estas estão mais vulneráveis (segundo Ashdown que tem alguma experiência nestas questões, o momento da retirada é, pela própria natureza da operação, o momento em que estas estão mais vulneráveis a ataques, e em que estes podem causar mais baixas). Quanto aos cidadãos americanos e dos países europeus, e a um maior risco de atentados terroristas, basta lembrar as palavras de Bin Laden, que vê os infiéis como um “cavalo cansado” incapaz de lutar, que tudo cede, mal vê um soldado a morrer. Retirar do Iraque por não se conseguir lidar, no terreno, com a violência, e em casa, com as imagens que chegam do terreno, seria confirmar a ideia de Bin Laden. O que só incentivaria os que o seguem a insistirem, a provocarem mais medo, mais mortes, para empurrar o Ocidente cada vez mais para fora do barco. Por todas estas razões, sair do Iraque, agora, acabaria por ser contraproducente. Resta, em ficando, saber o que fazer. E essa é a pergunta mais complicada.

Posted by Bruno at 10:50 PM

novembro 02, 2006

Para Perceber Jardim (alterado)

A "entrevista" de Alberto João Jardim à RTP foi algo de bastante revelador acerca da sua persona política. Graças à habitual nulidade de Judite de Sousa, Jardim conseguiu um tempo de antena de mais de meia-hora, atacando o Governo a torto e a direito, e não tenho dúvidas que, em alguns desses ataques, foi bastante eficaz. Por muito paradoxal que possa parecer (e talvez por isso o Governo não o perceba), a hostilidade generalizada que Jardim enfrenta acaba por o beneficiar, pois ele consegue alimentar-se dela para criar uma imagem de político que enfrenta os "interesses", que até tem a "coragem" de oferecer à jornalista que "correu o risco" de o entrevistar "asilo político" na Madeira, caso sofra "represálias" por o ter entrevistado (nisto, é até muito parecido com Sócrates, que beneficia de toda e qualquer manifestação contra ele, que cimentam a sua imagem de "animal feroz"). Se o Primeiro-Ministro quiser perceber como a polémica com Jardim se pode vir a transformar num tiro saído pela culatra, basta-lhe-à ver esta entrevista.

Posted by Bruno at 09:41 PM

novembro 01, 2006

A "Gaffe" de Kerry

John Kerry, senador norte-americano e antigo candidato Democrata à Casa Branca, num comício na campanha eleitoral que decorre nos EUA, ao discursar sobre a educação nos EUA, afirmou que "if you make the most of it, you study hard, you do your homework and you make an effort to be smart, you can do well. If you don't you get stuck in Iraq." A afirmação tem sido interpretada como uma "gaffe" como uma frase infeliz que um político experiente como Kerry não deveria ter proferido, no fundo, como um erro de cálculo acerca do impacto de tais palavras. O próprio Kerry se refere a essa afirmação como uma "piada fracassada". Mas como Bush acertadamente disse, tais palavras são na realidade um insulto às tropas que estão no Iraque. Por muito que Kerry ache que elas estão lá devido a um erro de Bush, a verdade é que considera, e assim o afirmou, que os indivíduos que as constituem são aqueles que não se esforçaram na escola, que não fizeram os trabalhos de casa, enfim, que nada fizeram para serem "espertos". Isto não é uma gaffe, não é um erro. É uma afirmação reveladora da arrogância de alguém que tem a boa sorte (ou o mérito, pois até para beneficiar da fortuma da mulher é necessário ter o mérito de a conseguir convencer a casar) de ser rico, do desprezo que nutre por aqueles que não têm o mesmo status que ele, da arrogância de alguém que, de cada vez que é criticado se socorre do seu passado militar com a mesma rapidez com que lançou as suas condecorações para o lixo.

Posted by Bruno at 10:21 PM

A Ler

O artigo de Miguel Monjardino, na Sábado, sobre o costume, em vários dos países que participaram na Grande Guerra, de usar uma papoila (de plástico) ao peito, nas semanas que antecedem o Dia do Armistício (11 de Novembro, e até ao Remembrance Day (em Inglaterra e outros países que têm como Chefe de Estado Sua Majestade, como o Canadá) em homenagem aos que morreram ao serviço desses países. Monjardino acaba o seu artigo apelando ao uso da dita papoila em Portugal. Já por várias vezes comentei, cá por casa, ter vontade de usar a dita papoila (como aqui, no ano passado, comentei a inexistência de uma comemoração do Armistício). Como diz Monjardino, também muitos portugueses morreram nos campos da Flandres. E eu, que tenho o hábito de, no Remembrance Day, assistir à parada dos veteranos das várias guerras em que o Reino Unido esteve envolvido, e à cerimónia de homenagem que se segue, também gostaria que neste país se praticasse esse costume de lembrar a nossa História. Confesso, no entanto, que me sentiria algo embaraçado de usar a papoila ao peito, quando mais ninguém o faz. Como habitual utente de transportes públicos, já sei que toda a gente ficaria a olhar, perguntando-se por que razão eu teria aquilo no peito. E se há coisa que dispenso, é ter os olhos dos que comigo partilham o metro e o comboio postos na minha pessoa. Por isso, e só por isso, não irei seguir o apelo de Monjardino. Mas o seu artigo merece ser lido.

Posted by Bruno at 10:03 PM