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agosto 31, 2006
No Direction Home
A Dois está a dar (e continuará amanhã) o documentário de Martin Scorsese sobre Bob Dylan, uma absoluta obra-prima que vale a pena ver.
Posted by Bruno at 11:30 PM
Atlântico nas Bancas
Já está nas bancas o novo número da Atlântico. O artigo deste que vos escreve deveria ter como título "Bruno Alves Não Está Bem" e não o mero "Não Está Bem" que foi publicado. O próprio texto deveria ter começado com "Não estou, de facto", e não com a repetição de "Não está bem". A ideia era ridicularizar-me por usar a linguagem de Mário Jardel, não a de um ouvinte do Fórum TSF. O título era a única coisa decente do artigo, e nem isso ficou como deveria ser. Felizmente, o resto da revista vale mesmo a pena ler. Artigos de Rui Ramos (sobre a "direita dura" e uma conversa com António Carrapatoso sobre o "Compromisso Portugal"), Luciano Amaral (sobre Fidel Castro) Fernando Gabriel (sobre a questão pertolífera e a sua influência no equílbrio geo-estratégico mundial) João Marques de Almeida (sobre o 11 de Setembro) e Maria Fátima Bonifácio (sobre a Universidade portuguesa, uma triste realidade que conheço bem).
Posted by Bruno at 12:36 PM
agosto 30, 2006
Independente
O Independente de sexta-feira será o último. Como leitor, tenho pena. Como leitor de jornais em geral, ainda mais. Para o bem e para o mal, o Independente marcou um determinado período da imprensa portuguesa. Mais: para o bem e para o mal (e aqui, será em grande parte para o mal), a história política do Portugal dos anos noventa do século passado terá de reservar um papel para este jornal. Sexta-feira é também um pouco de história que chega ao fim.
Posted by Bruno at 10:02 PM
Entrevistas Blogosféricas
No Miniscente (blog nascido no mesmo dia deste em que vos escrevo), o Luís Carmelo inicia hoje uma série de entrevistas sobre a blogosfera e o impacto da dita nos entrevistados, que certamente valerá a pena seguir. Quanto mais não seja, porque inicia na blogosfera portuguesa a publicação regular de entrevistas (o Luís havia já trazido para a blogosfera a velha tradição dos folhetins). O primeiro entrevistado é Carlos Zorrinho, Coordenador Nacional da Estratégia de Lisboa e do Plano Tecnológico, e senhor capaz de conceber frases como "conduz-me a uma certa ausência de fronteira, mas ao mesmo tempo traduz um sentido de limite em continuo, associado ao próprio conceito de esfera" ou "na tectónica da actualidade, os rumores da rede ajudam a prever (e a precaver) os terramotos noticiosos".
Posted by Bruno at 09:51 PM
Um Ano
O Origem das Espécies, do Francisco José Viegas, faz um ano.
Posted by Bruno at 09:48 PM
agosto 29, 2006
O Erro Europeu
Como escrevi aqui ontem, a maioria das pessoas que se pronuncia, nas televisões, acerca da possibilidade de Portugal participar na força da ONU que será enviada para o Líbano, è contrária à dita, pois essa não é a "nossa guerra". Curiosamente, a "Europa" quer participar, mas participará tendo na cabeça a ideia que aquela guerra não é "nossa". A UE quer participar, pois quer afirmar-se politicamente, quer mostrar que é capaz de ser uma "potência". Os seus responsáveis viram aqui uma oportunidade de o fazer. Mas cometem o erro de pensar que irão numa missão de paz em que serão encarados como uma força neutra. Viram a crise no Líbano como uma oportunidade em parte por crerem que a sua "neutralidade" lhes permitiria serem mais eficazes na manutenção da paz, pois os libaneses estariam dispostos a atribuir-lhes maior legitimidade. A "Europa", de facto, não se cansa de condenar Israel, e Zapatero, pelos vistos, é um apreciador do lencinho glorificador do terrorista. Mas isso de pouco lhes valerá. Ao contrário do que os seus líderes possam pensar, o hezbollah não verá a força da ONU composta por soldados de países da UE como uma força "neutral", que apenas está ali para assegurar a paz entre as duas partes. Para o Hezbollah, as forças da UE são tão inavsoras como Israel. Os cidadãos dos países europeus são tão infiéis e tão merecedores do empurrão para o mar como os israelitas. No Líbano, as forças da UE serão um alvo a abater, ou um escudo a utilizar, pelo Hezbollah. Serão, não uma uma força de manutenção da "paz", mas um inimigo numa guerra. Se os líderes europeus percebessem isto, talvez a força que vão enviar pudesse ter alguma utilidade. Assim, faz apenas parte de uma ilusão, que custará vidas e trará tudo menos paz à região.
Posted by Bruno at 10:01 PM
agosto 28, 2006
De Bem Com Todos
Há boas razões para suspeitar da missão da ONU ao Líbano, bem como boas razões para estar contra o envio de tropas portuguesa para participar na dita missão. Mas a pior de todas, a que menos sentido faz, e claro, a partilhada pelo maior número participantes nos programas da voz povo nas televisões, é a de que Portugal não deve participar na missão no Líbano, pois aquela "não é a nossa guerra". O erro está em que aquela guerra também é nossa, por muito que nós não a vejamos dessa forma. Os portugueses bem podem pensar que nós "estamos de bem com todos", e talvez estejamos. Mas não é por isso que estão todos "de bem" connosco. E os que querem apagar Israel de mapa certamente não estão "de bem" connosco, quanto mais não seja porque, para eles, somos, tal como Israel, "território perdido". "Território a reconquistar". A "apagar do mapa". E isso deveria ser razão suficiente para não "estarmos de bem" com eles. E que aquela guerra também deveria ser a "nossa guerra".
Posted by Bruno at 05:44 PM
A Ler
No Espumadamente, um texto sobre a (muito portuguesa) arte de "falar mal".
Posted by Bruno at 12:13 AM
agosto 26, 2006
Revolução de Agosto 3
Completando o comentário de ontem: há um outro paralelo que justifica a opção do PCP, que mostra como ela é legítima, a nomeação de Santana Lopes como Primeiro-Ministro, sem recurso a eleições antecipadas. Apesar de Durão ter saído, a legitimidade do mandato dos deputados, e do mandato do presidente, permitia que estes escolhessem um novo Primeiro-Ministro, sem novas eleições. Quem, como eu, defendeu que Santan Lopes devia ser nomeado (contrariado, mas defendi), tem de aceitar que o PCP escolha um sucessor para Carlos Sousa sem novas eleições. Se alguma coisa é criticável em tal opção do PCP, é a contradição com a postura assumida contra a nomeação de Santana, e não a opção em si.
O PCP devia, no entanto, ter uma coisa em consideração: embora tendo, ao contrário do que tem sido argumentado, toda a legitimidade para fazer o que fez, poderá ter de pagar um preço por isso. O que fazer (citemos Lenine), então? O que Santana (Santana, não Sampaio) devia ter feito: pedir a convocação de eleições antecipadas, para não correr o risco de ficar "manco" de legitimidade aos olhos do eleitorado, mas só depois de ser dada posse ao sucessor de Carlos Sousa, para não confirmar a ideia (implícita nas críticas que têm sido publicadas) de que os órgãos representativos eleitos ao mesmo tempo que o anterior detentor do cargo (os vereadores neste caso, como a Assembleia da República no caso da fuga de Durão) não perdem a legitimidade do seu mandato, só porque o chefe do executivo mudou. Para que fique bem claro que a democracia não acaba nas caras que aparecem nos cartazes de campanha.
Posted by Bruno at 01:49 PM
agosto 25, 2006
Revolução de Agosto 2
Como é sabido, o PCP , na melhor das tradições soviéticas, levou avante (não fui particularmente original, eu sei) um pequeno golpe palaciano na autarquia de Setúbal, lançando Carlos Sousa para a clandestinidade. A opção do partido tem provocado alguma comoção. Tudo porque consideram que o PCP desrespeitou o eleitorado, ao substituir o Presidente da Câmara escolhido por esse mesmo eleitorado, sem o recurso a novas eleições. Sinceramente, não acho isso particularmente escandaloso. Quando Santana Lopes foi ocupar o cargo de Primeiro-Ministro, Carmona Rodrigues foi para a autarquia lisboeta, não sendo realizadas eleições antecipadas. Quando Isaltino Morais foi para o Governo, Teresa Zambujo substitui-o em Oeiras, sem eleições antecipadas. No Porto, aconteceu o mesmo quando Fernando Gomes se juntou a Guterres.
Dirá o leitor que se tratam de casos diferentes, pois nesses casos, as pessoas saíram de sua livre vontade, sendo substituídas porque haviam ido ocupar outro cargo. Mas também em Setúbal Carlos Sousa saiu de livre vontade. Se ele quisesse, poderia ter continuado. Optou por sair. Contrariado, empurrado, mas optou por sair quando poderia ter optado por ficar. O partido mais votado, o partido que o escolheu e o substituiu, optou por escolher outro Presidente sem realizar eleições antecipadas. Uma série de pessoas, eleitas nas mesmas eleições em que Carlos Sousa foi eleito, optaram (ou foram levados a optar por um partido a que aderiram de livre vontade, o que torna as decisões dos membros do PCP tão válidas como as de membros de outros partidos) por escolher um sucessor sem interromperem o mandato para o qual foram eleitas. Dirão que o eleitorado não teve uma palavra a dizer nessa decisão, sendo forçado a aceitar um líder do executivo camarário que não escolheram. É verdade, mas terá uma palavra a dizer nas próximas eleições, onde poderá não escolher o candidato do PCP por temer que o PCP se veja livre dele, como o eleitorado do Porto optou por não escolher Fernando Gomes quando este tentou regressar.
Aliás, o PCP tem tanta legitimidade para não recorrer a eleições antecipadas como o PSD e o PS teriam para se entenderem de modo a formar um novo executivo, sem esse mesmo recurso. Optaram por não correr esse risco, como optaram por não forçar (como poderiam ter feito) a ida a eleições. Os senhores vereadores, mandatos pelo eleitorado por quatro anos, optaram por cumprir o seu mandato até ao fim, ou pelo menos prolongá-lo por alguns meses, independentemente das mudanças no executivo. A representação funciona assim. O eleitorado escolhe pessoas que tomam decisões em seu nome durante um determinado período de tempo, mesmo que esses eleitores não gostem dessas decisões. Funciona assim, e não é menos democrática por isso. Os representantes poderão ser penalizados pelos representados nas próximas eleições, sejam elas daqui a uns meses ou daqui a uns anos. Agora, que no caso de Setúbal, os representantes, pertençam eles à CDU, ao PS ou ao PSD, merecem ser penalizados pelas suas opções nesta "crise" de Verão, isso merecem.
Posted by Bruno at 10:11 PM
agosto 24, 2006
A Ler
O comentário de David Rennie a uma entrevista (que pode ser lida aqui) de um membro do Hezbollah ao jornal francês Liberation:
"There’s an interesting interview today with a senior Hezbollah official in Libération, the French newspaper, in which he makes clear his belief that France isn’t that serious about disarming his militia – which is why Hizbollah regards France as “a friend”."
Não faço este destaque para ridicularizar a política externa francesa. Faço-o, isso sim, para reforçar aquilo que escrevi ontem. Uma força da ONU, se não tiver como propósito claro o desarmamento do Hezbollah, e se não tiver liberdade e condições para o fazer, estará a fazer de si própria um escudo do hezbollah, servindo, na prática, de auxílio a esse grupo. E para tais propósitos, a morte de soldados será demasiada cara.
Posted by Bruno at 09:59 PM
Renovadores e Ortodoxos
Um pequeno comentário a propósito do afastamento de Carlos Sousa da autarquia de Setúbal: não deixo de me espantar com a facilidade com que os jornalistas pátrios transformam qualquer problema interno do PCP num conflito entre "renovadores" e "ortodoxos".
Posted by Bruno at 09:52 PM
agosto 23, 2006
Tropas Portuguesas no Líbano
Ps, PSD e CDS mostram-se favoráveis à intenção do Governo enviar tropas portuguesas para o Líbano. Em condições normais, também eu seria. Não me chocaria, como o leitor certamente imaginará, se Portugal quisesse ser um verdadeiro aliado de Israel contra os grupos (Hamas, Hezbollah) e países (Irão, Síria) que o querem destruir. Por isso, seria favorável a que Portugal enviasse, como enviou para o Iraque ou para o Afeganistão, militares voluntários para, na medida das diminutas capacidades do nosso país, ajudar à defesa de Israel(e neste caso, do Líbano), desarmando o Hezbollah. No entanto, não é isso que está em causa. O que está em causa é o envio de soldados portugueses para o meio de uma confusão em que, à excepção de Israel e do Hezbollah, ninguém sabe muito bem o que fazer. Enviar soldados portugueses para o Líbano é enviá-los numa missão pouco clara, onde não deverão estar mandatados para desarmar o Hezbollah, apenas para ajudar o exército libanês a fazê-lo. Serão assim alvos do Hezbollah, não tendo a autonomia para desarmar um grupo que será, no terreno, um inimigo. Para mais, a força da ONU, se não for capaz de ajudar o exército libanês, ou se este não tiver vontade de ser ajudado (se estiver em conluio com o Hezbollah, por exemplo), ficará encurralada numa região de onde um grupo terrorista ataca Israel, servindo de escudo desse mesmo grupo terrorista contra a resposta que Israel será forçado a dar. Tendo em conta a conjuntura actual, e como certamente exclui lutar ao lado do Hezbollah, a força da ONU ou é enviada para lutar ao lado de Israel, ou não servirá para nada. Ou é enviada para desarmar o Hezbollah ou expulsá-lo do Sul do Líbano (que era o objectivo de Israel), ou estará a ser enviada para servir de escudo involuntário do Hezbollah. Se fosse para lutar contra o Hezbollah (na prática, ser aliado de Israel), e se existissem condições para isso, Portugal estaria a mostrar compreender que a luta de Israel contra os terroristas é também a nossa luta. Que o inimigo de Israel, por maior ou menor simpatia que se tenha pela política deste país, é um inimigo comum. Seria perigoso, as vidas dos voluntários seriam colocadas em perigo, mas a missão serviria para alguma coisa. Para servirem de treino de tiro ou de escudo ao Hezbollah, mais vale ficarem em casa.
Posted by Bruno at 10:14 PM
agosto 22, 2006
A Mão Escondida do Irão
O Irão respondeu hoje ao ultimato da ONU, a propósito do seu plano nuclear, afirmando que está disposto a entrar em negociações. A resolução aprovada pelo Conselho de Segurança, recorde-se, oferecia a esse "elemento estabilizador" do Médio Oriente que, segundo a França, é o Irão, uma série de incentivos, em troca do fim do seu programa nuclear. Esta nova vontade de negociar irá certamente dar a muita gente razões para estarem optimistas, acreditando que haverá aqui uma oportunidade para evitar um Irão nuclear, e simultaneamente, um confronto militar. No entanto, ainda um dia antes, Ali Khamenei fazia declarações bastante decididas, afirmando que o Irão não iria ceder, prosseguindo o seu plano de enriquecimento de urânio. Aparentemente, ninguém acha isto estranho.
O Irão parece estar a jogar de forma dúplice. Resta saber o que tem em mente. Resta saber o que pretende esconder. Uma coisa é clara: para dentro, os líderes iranianos mostram não querer ceder. Para fora, mostram abertura para um entendimento. Um cenário possível, e certamente mais agradável, é o de, embora estando dispostos a ceder, os líderes iranianos terem de, a nível interno, dar a entender uma posição de força. Outra possibilidade é a de não estarem dispostos a ceder, dizendo que sim apenas para ganhar tempo. O problema está em que é difícil saber a qual corresponde a verdade. E quaisquer garantias que o Irão possa dar à ONU de que o seu comportamento correponde à primeira hipótese, a sua duplicidade faz com que tais eventuais garantias sejam pouco credíveis.
Ainda menos credibilidade terão, se se tiver em atenção o comportamento externo do país. Não falo apenas das famosas intervenções do seu Presidente, mas do apoio directo ao Hezbollah. Um Irão com capacidade nuclear é uma ameaça, não só por as poder vir a utilizar, mas até pela mera chantagem que com ela poderá exercer, sobre Israel e sobre o Ocidente em geral. Esse comportamento explica não só por que razão será prudente desconfiar do Irão nas negociações que agora se seguirão, mas também como será perigoso permitir que esse país adquira capacidade nuclear.
O problema da questão iraniana está no pouco controlo que o Ocidente tem sobre a situação. Ao contrário do que o comum crítico dos EUA possa pensar, de nada valerá uma predisposição de Washington para o diálogo, se o Irão quiser uma guerra. E um Irão que eventualmente ignore ameaças de intervenção militar, caso avance com o seu programa nuclear, apenas estará deixar claro que, com armas nucleares, irá agir ainda mais como um pária. Um Irão que ignore ameaças que visem impedi-lo de desenvolver o seu programa mostra uma predisposição para a guerra, que será maior e mais grave se vier realmente a adquirir armas nucleares. O que as recentes posições do Irão escondem é a total vulnerabilidade dos restantes países. Basta o Irão querer um confronto militar, que esse confronto militar acabará por acontecer. E poderá vir a querer esse confronto militar quando já tiver armas nucleares. E nós pouco podermos fazer para o evitar.
Posted by Bruno at 10:06 PM
agosto 21, 2006
A Festa do Pontal
Tem razão o Paulo Gorjão ao desvalorizar o comício do Pontal, e o espectáculo proporcionado por Luís Felipe Menezes e Mendes Bota. Apesar da minha tenra idade, ainda me lembro de ver na televisão grandiosos comícios na dita povoação algarvia. Mas hoje em dia, é impossível ver tanta gente num comício partidário. O que faz com que estes se tornem contraproducentes, devido às imagens televisivas da reduzida assistência, que dão a ideia de um partido "desmobilizado". Marques Mendes certamente terá percebido isso, como terá percebido também que a sua presença seria irrelevante, e que portanto mais valia não ir. E a prova disso foi a irrelevância da prestação de Menezes. Se um comício partidário já interessa pouca gente, um comício da oposição interna de um partido é ainda menos atractivo. Da ida de Menezes ao Pontal nunca poderia ser transmitida a imagem de um potencial líder alternativo, mas apenas a de uma tentativa desesperada de aparecer, premiada com um imenso desinteresse popular. Pior, a única ideia que ficou na cabeça de quem viu imagens do arraial foi a da triste figura de um senhor que um dia chorou num Congresso do partido e de um outro, antigo "cantor pimba", ambos a tentarem provar que existem (consta que as cinco pessoas que assistiram ficaram com dúvidas). A imagem de Marques Mendes pode ser má, mas é certamente melhor que a destas duas excelências.
Posted by Bruno at 05:23 PM
agosto 20, 2006
Revolução de Agosto
Prepara-se um golpe palaciano na Moscovo portuguesa: PCP pondera substituição de presidente e vereador da Câmara de Setúbal.
Posted by Bruno at 09:51 PM
agosto 19, 2006
Clinton
Confesso que fiquei impressionado pelo destaque hoje atribuído pelo Público ao aniversário de Bill Clinton. Duas páginas dedicadas ao homem, seguidas de uma terceira que, não sendo sobre ele, vai a reboque do seu aniversário. O fascínio que este homem provoca em muita boa gente não cessa de me fascinar a mim. Claro que há a desculpa de os 60 anos de Clinton servirem para dar destaque ao envelhecimento dos baby boomers. Mas ele poderia ser feito no aniversário, por exemplo, de Spielberg (mencionado nessas páginas, é certo, mas de forma lateral), que quer se queira quer não, teve uma influência tão grande ou maior (por muito diferente que tenha sido) que a de Clinton. Tal destaque, tal associação, entre os 60 anos de Clinton, e os 60 anos dos baby boomers, mostra como, para muito boa gente, Clinton é o símbolo dessa geração. E é isto que me espanta, ou melhor, é isto que me desperta interesse. Como Clinton conseguiu criar de si uma imagem que permite que seja visto como o símbolo de uma geração. Dirão que ter sido Presidente dos EUA explica muita coisa, mas Bush ocupa o cargo e isso quase só lhe traz ódio, e não admiração. Na realidade, Clinton deve mais ao "fuma, mas não inala", ao saxofone tocado na MTV, ao "I feel your pain", do que ao exercício do cargo. Deve o seu destaque à sua imagem, à sua persona pública, mais que aos méritos da sua carreira política. No fundo, como uma estrela de rock ou de Hollywood. Para isso, sinceramente, mais valia Spielberg.
Posted by Bruno at 09:46 PM
agosto 18, 2006
Pergunta
É impressão minha, ou o Banco de Portugal está transformado numa espécie de SNI do engenheiro Sócrates?
Posted by Bruno at 10:09 PM
agosto 17, 2006
E Se...?
A propósito de um post de João Távora no Corta-Fitas, questionando-se acerca do que teria acontecido caso D. Carlos e D. Luís Felipe não tivessem sido assassinados, vale a pena ler os textos de João Miguel Almeida e (mais irónico) de Fernando Martins, todos no Amigo do Povo.
Posted by Bruno at 11:02 PM
agosto 16, 2006
Planos
Numa recente edição da revista The New Yorker, Seymour M. Hersh publica um artigo onde afirma que os EUA e Israel haviam delineado planos para bombardear o Hezbollah "muito antes" do recente conflito. O mundo civilizado foi invadido por um descomunal sentimento de indignação. O dr. Daniel Oliveira, por exemplo, já veio mostrar como os ignaros foram ("mais uma vez", claro), "enganados". O dr. Oliveira é que deve estar enganado. Pelo menos não se apercebe do simples facto dos países terem planos de guerra contra determinados inimigos, para, na eventualidade de um conflito surgir, saberem o que fazer. É óbvio que Israel e os EUA tinham planeado bombardeamentos contra o Hezbollah. Quando um grupo terrorista afirma querer empurrar os cidadãos de um país para o mar, os governantes desse país tomam as devidas precauções, de forma a que o tal grupo nunca venha a conseguir fazer o que pretende. Isto não quer dizer que esses mesmos governantes sejam uns malévolos belicistas, sempre prontos a enganar "os mais puros", nas palavras do turista Oliveira (convém no entanto assinalar que a sua viagem à Síria é um bom sinal. Mostra que já recuperou das lesões que contraiu quando o Muro lhe caiu em cima). É apenas um sinal de que são responsáveis. O dr. Oliveira, por exemplo, sabe o que fazer no caso da sua casa ser palco de um incêndio. O facto de ter mais ou menos previsto o que fazer no caso de uma emergência não quer dizer que anda atrás do seguro. Quer apenas dizer que quer estar preparado para essa eventualidade. Os EUA, por exemplo, certamente terão planos para o caso de serem atingidos por um míssil norte-coreano, sabendo o que fazer e como contra-atacar. Mas claro que para o dr. Oliveira, este é apenas mais um sinal do carácter malévolo do Império. Mas o dr. Oliveira pode ter a certeza que a Síria, país ao qual parece devotar grandes simpatias, também terá, e com toda a legitimidade, planos de guerra contra Israel. Será que o nosso Daniel também acha isso uma vergonha? Ou acha que é uma simples precaução, uma inevitabilidade tendo em conta a natureza "belicista" dos "sionistas"? Se considerar a primeira hipótese, é sinal de que não tem cérebro. Se preferir a segunda, de que não tem vergonha. É só escolher.
Posted by Bruno at 10:20 PM
agosto 14, 2006
A Precaridade do Cessar-Fogo
Entrou hoje em vigor o cessar-fogo patrocinado pela ONU para a crise no Médio Oriente. A partir de hoje, Israel cessa as suas acções militares, em simultâneo com o Hezbollah, esperando que uma força da ONU (15 000 homens) ocupe o sul do Líbano, criando a "zona-tampão" que Israel pretendia assegurar, para impedir que essa mesma área fosse usada pelo Hezbollah como plataforma para atacar Israel. A essa força juntar-se-ia o exército libanês, com o propósito de desarmar o Hezbollah (a força internacional, de acordo com a França, não partilhará essa responsabilidade). Apesar de até agora, tudo parecer estar a correr de acordo com as intenções da ONU, nada garante que assim continue a acontecer. Antes pelo contrário. A precaridade dete cessar-fogo salta à vista de qualquer um, e um reacender do conflito é praticamente inevitável.
Em primeiro lugar, é importante ter em conta que Israel ainda não resgatou os dois soldados cujo rapto trouxe o início do conflito. E não só os resgatou, como na resolução da ONU que definiu as condições cessar-fogo não ficou definida a entrega desses mesmos soldados. É de duvidar que Israel esteja disposto a sacrificá-los, o que significa que se o Hezbollah não os entregar rapidamente, Israel possa reiniciar as hostilidades, por muito que a resolução da ONU proíba acções "ofensivas" por parte de Tel Aviv.
Outra das razões pelas quais este cessar-fogo é pouco sólido reside na própria natureza da força internacional que deverá ocupar o Sul do Líbano. Em primeiro lugar, tem sido afirmado que só daqui a um mês ela se instalará na região, o que significa um mês de indefinição e tensão. Em segundo lugar, o número de homens que a compõe poderá não ser suficiente. Não só o número de homens previsto é inferior ao que os EUA e Israel desejavam, como ainda não está garantido que os 15 000 previstos pela ONU estejam à sua disposição. Dos países que já garantiram uma participação na força, nenhum contribui o suficiente para que tal número possa ser atingido.
Há, ainda, que ter em conta a natureza dos problemas com que a força internacional terá de lidar. Se o Hezbollah garante ir respeitar o cessar-fogo, nada disse quanto a abandonar a zona do sul do Líbano onde a força internacional de instalará, e muito menos mostrou vontade de se desarmar. Isto significa que, para cumprirem os seus propósitos, tanto o exército libanês como a força da ONU terão, muito provavelmente, de enfrentar o Hezbollah no campo de batalha. Numa reportagem no Telegraph de ontem, Toby Harnden lembrava os 250 mortos da Unifil às mãos do Hezbollah. Resta saber se os governos do Líbano, ou os da França e da Espanha (os que se comprometeram a participar) estarão dispostos a sacrificar vidas de soldados seus na obtenção de um objectivo que é um objectivo de Israel, num esforço visto por opiniões públicas hostis a Tel Aviv como um esforço dos seus países em prol de Israel.
O mais provável é que não estejam. O que significaria que a força que agora entrará no Líbano terá uma eficácia semelhante à Unifil que há tanto tempo lá está, ou seja, nula. Aí, o Hezbollah teria razão em, como tem feito, declarar vitória. Aí, numa situação semelhante à que antecedeu o conflito, teria a libertar para permancer numa zona da qual supostamente teria de ser expulso, mas donde ninguém o afasta. Aí, teria liberdade para continuar a atacar Israel. E aí, ninguém esperaria outra coisa que não uma resposta israelita (se houve, como diz Olmert, um "triunfo diplomático", ele está na garantia da resolução da ONU a Israel de poder agir "defensivamente", dando a Israel uma cobertura diplomática para a sua defesa até aqui inexistente). E aqui reside o elemento que deveria fazer pensar os responsáveis dos países que entregarão soldados à força da ONU. Se não forem capazes ou não estiverem dispostos a combater o Hezbollah, ficarão perdidos no meio do conflito, encurralados entre um hezbollah contra o qual nada fizeram, e um estado de Israel que tem de se defender do Hezbollah que ninguém trava.
Posted by Bruno at 06:18 PM
agosto 13, 2006
O Mundo em Guerra
Quando o conflito no Médio Oriente estalou, Newt Gingrich, antigo líder dos republicanos no Congresso americano, terá afirmado que o mundo poderia estar às portas da III Guerra Mundial. As declarações de Gingrich tem sido, na melhor das hipóteses, ridicularizadas, e na maior parte dos casos tidas como mais uma prova do suposto apetite bélico dos "neo-conservadores do Pentágono". Deviam, no entanto, ter sido encaradas com maior prudência. Deviam, acima de tudo, ter sido encaradas como um aviso a ter em conta. Porque, ao contrário do que os pacifistas europeus tendem a pensar, o destino do mundo não está nas mãos de Bush. Ao contrário do que as boas consciências tendem a pensar, uma eventual III Guerra Mundial não depende só de nós (Ocidente em geral). O que as declarações de Gingrich, se vistas com serenidade, nos lembram, é que se nos quiserem colocar numa III Guerra, essa será uma realidade á qual não poderemos fugir. Os nossos adeptos da diplomacia dos bons sentimentos parecem não colocar a hipótese do Irão atacar Jerusálem, por exemplo, ou ordenar ao Hezbollah um atentado em Londres, cenários que obrigariam um agravamento do conflito.
Ao contrário do que os mais entusiasmados adeptos da neutralidade pensam, os defensores da guerra do Iraque não são uns "amantes da guerra", obcecados com a conquista de novos poços de petróleo. São, isso sim, pessoas que por variadas razões, consideraram que a intervenção no Iraque era necessária. Não olham, por isso, para o cenário especulado por Gingrich com satisfação, como certamente Gingrich também não. Mas o que é realmente trágico é que podemos ser arrastados para esta situação, mesmo não a querendo. Numa guerra, para que dois inimigos se enfrentem, basta que um tenha vontade de o fazer. É por isso que o pacifismo não funciona. E é por isso que as boas consciências se deveriam preocupar mais com o Irão do que com os "neo-conservadores" ou "esse Bush".
Posted by Bruno at 09:55 PM
agosto 12, 2006
Vizinhanças
No Expresso de hoje, Daniel Oliveira presenteia-nos com a sua muito particular visão do que se passa no Líbano. Oliveira considera que é "ganância por terra" que um artigo do Haaretz atribuía a Israel o factor que impede uma solução pacífica parea o conflito com o Líbano. Parece que no pensamento de Oliveira, o Líbano é um país com um "exército de brincadeira", o que até é verdade, mas que tal acontece porque Israel não dá ao Líbano "garantias de defesa do seu território". Aparentemente, "à falta de melhor", Oliveira nota que o Hezbollah é visto como "a única força capaz de defender as fronteiras". A ideia que dá é que Daniel Oliveira acredita que é do interesse de Israel que o Hezbollah domine o sul do Líbano. Não ocorre ao nosso panfletário preferido que Israel até gostaria de ver o exército do Líbano a controlar o sul do país, e a afastar o Hezbollah da região. Não lhe ocorre que Israel estaria muito interessado em que o exército do Líbano não fosse de brincadeira, desde que o seu entretenimento não fosse atacar o norte de Israel. Não lhe ocorre que Israel teria gostado muito que a força da ONU que esteve presente no sul do Líbano ao longo de décadas tivesse efectivamente cumprido o seu papel, em vez de servir de escudo ao Hezbollah. Não lhe ocorre que se o Hezbollah, e não o Líbano, tem o controlo do sul do país, é porque a Síria que o Daniel tanto gostou de visitar fez do Líbano um país de brincadeira, e o Irão fez dos membros do Hezbollah os seus soldadinhos de chumbo, perdão, de dinamite. Não lhe ocorre que para que o Hezbollah seja desarmado, o necessário não é arranjar quem defenda o Líbano do seu "belicoso vizinho" Israel, mas arranjar quem tenha capacidade e vontade de lutar contra o Hezbollah (o Líbano não tem tido, pelo menos, uma das duas). Não lhe ocorre que Israel faça "excursões punitivas" ao Líbano, não porque este tenha as suas "portas escancaradas", mas por este ter dentro delas um grupo que faz do assassínio de israelitas o seu único propósito. Não lhe ocorre que o Hezbollah não nasça da vontade espontânea de um povo acorrentado pelo opressor sionista, mas da promoção do dito por outros dois países que pouco quiseram saber da intergidade das fronteiras libanesas, como não lhe ocorre que o fizeram para destruir Israel, e que por isso, Israel tem de se defender.
Posted by Bruno at 09:52 PM
agosto 11, 2006
A Guerra 2
Uma das perguntas que os jornalistas do Sky News mais repetiram ao longo do dia de hoje aos seus entrevistados foi a de se eles pensavam que os atentados ontem fracassados haviam sido motivados pela política externa britânica e americana. A maioria dos entrevistados pensava que sim, mas evitou dizê-lo, fazendo-o por meias palavras, que permitiram que todos percebessem o que eles pensavam, sem que eles tivessem de o dizer (parece de mau tom fazer críticas políticas em dias destes). E é seguramente isso que pensa a vasta maioria da opinião pública. O governo britânico obviamente nega qualquer relação. Mas não devia. É evidente que há uma relação entre a política externa dos EUA e do Reino Unido, e as tentativas de atentados terroristas contra esses países. Ela apenas não é relevante.
Ao contrário do que as boas gentes poderão pensar, o inimigo dos terroristas não é só o "Grande Satã" americano e seu "caniche" Blair, nem apenas os "judeus sionistas" que supostamente bebem o sangue de criancinhas árabes, mas todos aqueles que não vivem de acordo com o modelo de vida que eles consideram ser o único aceitável aos olhos de Alá, e portanto, o único aceitável à face da terra. Para o provar estão os atentados contra países de maioria muçulmana que tenham "traído" os seus "irmãos" ao aliarem-se ao "monstro" sedento de petróleo e apreciador de Coca-Cola. O inimigo é, em sentido lato, o "Ocidente". É tudo aquilo que esteja politicamente "a oeste" da sua visão do mundo, por poucos graus que sejam. Os alvos que escolhem são os que consideram estar mais frágeis, ou que causem mais mossa ao inimigo. Numa guerra o inimigo é aquele contra quem se combate, o alvo é o local onde se atinge esse inimigo. A razão pela qual o Reino Unido é atacado, em vez da Bélgica, por exemplo, não está em os britânicos serem vistos como o inimigo, e a Bélgica não. Ambos fazem parte do inimigo. A razão está em que os terroristas vêem o Reino Unido como um alvo mais desejável.
A razão para essa distinção entre os britânicos e os belgas reside na política externa britânica, é certo, mas essencialmente na atitude hostil que grande parte da sua população tem para com a dita. Os terroristas sabem que se fizerem um atentado no Reino Unido, ou nos EUA, logo os jornalistas farão a pergunta: "acha que estes atentados foram motivados pela guerra do Iraque?". É a hostilidade britânica contra a sua própria política externa que a torna um alvo apetecível, como foi a hostilidade da vasta maioria do povo espanhol contra a política externa de Aznar que tornou a Espanha num alvo apetecível há dois anos. E se não fossem aviões do Reino Unido ou dos EUA, seriam os aviões ou os comboios de outro país qualquer, tal como se não tivessem sido os comboios espanhóis teriam sido os de outro país qualquer. Como o têm sido os comboios e as ruas de muitos outros sítios nos últimos anos. É por isso que, ao contrário do que diz o nosso Ministro da Administração Interna, nós, em Portugal, não podemos ficar descansados. Independentemente da nossa bem-intencionada política externa, fazemos, aos olhos dos terroristas, parte do tal Ocidente que eles tanto odeiam. Fazemos parte do inimigo. Nunca se sabe quando poderemos vir a ser um alvo.
Posted by Bruno at 10:07 PM
agosto 10, 2006
A Guerra
No Abrupto, Pacheco Pereira escreve que "a guerra, mesmo que não o queiramos admitir, está em curso". Só não admite, só não vê, quem não o quer fazer. Os acontecimentos de hoje são prova disso. No Reino Unido, vinte e um suspeitos de terrorismo foram detidos, por alegadamente estarem prestes a levar a cabo uma tentativa de pirataria de doze aviões, que fariam explodir em pleno vôo, sobre o Atlântico e cidades americanas. Como dizia alguém no Sky News, a escolha não é inocente. Os aviões ou outros meios de transporte são escolhidos como alvo por duas razões: causam um elevado número de mortes, e provocam um enorme transtorno nos restantes cidadãos, ao dificultarem a sua mobilidade. As imagens dos areoportos britânicos são uma prova disso.
Segundo vários especialistas, a probabilidade deste golpe ter sido planeado pela al-Qaeda é grande, não só por ser semelhante a um realizado por essa organização nas Filipinas, mas pela dimensão que teria caso tivesse sido bem sucedido, só semelhante ao 11 de Setembro. Aqui, como dizia outro comentador ao Sky News, há razões para algum optimismo. A óbvia comparação com o 11 de Setembro leva a verificar que, se o primeiro foi bem sucedido, o mesmo não aconteceu agora, o que poderá indicar que os serviços de informação estão melhor preparados para enfrentar a ameaça terrorista.
No entanto, será necessária alguma prudência. No momento em que escrevo, a política britânica está ainda à procura de outros cinco suspeitos de ligação a esta tentativa de atentado. Nos EUA, o nível de alerta mantém-se elevado, tal como no próprio Reino Unido. Nada nos garante que, nos próximos dias, novas tentativas não sejam levadas a cabo. Para além do mais, o que hoje se passou não é um incidente isolado. Faz parte, como diz Pacheco Pereira, de uma guerra, uma guerra que continuará mesmo que a Inglaterra condene Israel, mesmo que os EUA abandonem o Iraque, tal como começou antes dos EUA invadirem o Afeganistão ou o Iraque. Por muito mal sucedida que esta tentativa tenha sido (até agora), por muito mal ou bem sucedidas que futuras tentativas venham a ser, elas existirão, elas irão ocorrer. Elas não acontecem por nós as provocarmos, mas porque os seus autores as querem levar a cabo.
A propósito, na última Spectator, Melanie Phillips avançava com a possibilidade do Hezbollah uma série de células adormecidas no Reino Unido, ou de um eventual ataque iraniano a Jerusálem nas próximas semanas. Qualquer destes casos, quer por acção directa do irão contra Israel, quer do Hezbollah ligado ao mesmo Irão, provocaria uma crise grave, à qual seria díficil escapar. Ao contrário do que a brigada da retirada quer fazer crer, a "escalada da violência", a "escalada do terror", não está nas nossas mãos. Infelizmente, estamos à mercê de quem a quiser provocar, a não ser que, como hoje, eles sejam impedidos de o tentar.
Posted by Bruno at 06:57 PM
agosto 09, 2006
A UE e o Médio Oriente
No Público de ontem, Álvaro Vasconcelos colocava algumas reticências a um eventual envio de uma força militar da União Europeia para o Líbano. Vasconcelos considera que a "política europeia" para o Médio Oriente "não se pode confundir nem como a da Administração Bush nem com a de Israel", e que não deve deixar de "diferenciar entre as diferentes correntes islamistas", visto que, se as "amalgamar", poderá "ser vista como enquadrando-se na estratégia americana de guerra global contra o terrorismo". Vasconcelos parece ter alguma dificuldade em compreender a natureza do problema. Se os EUA amalgamaram "na mesma nebulosa forças tão distintas como a al-Qaeda, o Iraque de Saddam Hussein ou o Hamas e o Hezbollah" foi porque apesar de todas as diferenças entre tais forças, elas tinham algo em comum, a sua hostilidade para com os EUA e Israel. Por partilharem objectivos, que os EUA e Israel entendem como uma ameaça aos seus Estados, foram "amalgamadas". E se Vasconcelos não quer que uma força europeia seja "confundida" com uma força que sirva a política externa israelita, então terá que reconhecer que ela não pode ser enviada, ou que será irrelevante no terreno. Porque qualquer força europeia terá como objectivo a criação de uma "zona-tampão" no Sul do Líbano, objectivo que é também o de Israel. A "Europa" não poderá participar sem perder, como escrevia no mesmo jornal Nuno Peres Monteiro, a sua "aura de neutralidade". Tal como para os EUA a al-Qaeda e o Iraque fazem parte da 2mesma nebulosa", para o Hezbollah, uma força da UE será um inimigo tão hostil como Israel. Não me choca, devo dizer, uma participação europeia na resolução do conflito, não me choca que se envie uma força militar. Mas é preciso ter consciência que, na prática, tal força será uma aliada de Israel. Se não o for, será tão irrelevante como a força da ONU que está no Líbano desde o final dos anos 70, e cuja inutilidade é comprovada pela própria situação que agora se enfrenta.
Posted by Bruno at 10:15 PM
agosto 08, 2006
Caminhos
Parece que José Saramago e Boaventura Sousa Santos subscreveram um qualquer manifesto de apoio a Cuba. No caso de Boaventura, nada que espante, pois há muito que se sabe que, na ilha de Cuba, a única coisa que o preocupa e ofende é Guantanamo. Já quanto a Saramago, tenho uma dúvida. Saramago não escreveu, há cerca de dois anos, quando "descobriu" que em Cuba o regime assassinava reconhecidos "dissidentes", uma carta aberta, afirmando que, por muito que admirasse a "revolução cubana", a partir daí, os caminhos da sua pessoa e da dita "revolução" se "separavam"? Pelos vistos, reconciliaram-se.
Posted by Bruno at 10:45 PM
A Ler
As respostas do meu caro Tiago Galvão a um inquérito qualquer sobre sexualidade feminina.
Posted by Bruno at 10:39 PM
agosto 07, 2006
Aniversário
Ficam aqui os parabéns à Isabel, pelo aniversário do seu Miss Pearls
Posted by Bruno at 06:40 PM
agosto 06, 2006
A Liberdade de Discriminar
Na Irlanda, país apesar de tudo civilizado, uma empresa definiu como sua política a não-contratação de fumadores. A Comissão Europeia terá dito que não tem nada contra. A questão tem, como seria de esperar (e louvar), provocado comentários críticos. O editorial do Público, e os posts de Jorge Ferreira e Francisco José Viegas. Devo dizer que acho a opção da dita empresa uma estupidez, e um sinal (mau) dos tempos (péssimos). Mas partilho a posição da Comissão Europeia. Também eu acho que o dr. Barroso e os seus colegas não têm nada a ver com quem a empresa escolhe ou deixa de escolher. O problema é que se uma empresa dissesse que não queria contratar mulheres, homossexuais, ou rapazes magros (somos, devo dizer, um grupo bastante hostilizado pela sociedade), talvez a Comissão Europeia achasse que seria uma intolerável medida discriminatória, talvez adequada à América "selvagem" (ou seja, tudo excepto Nova Iorque e Califórnia), mas não à Europa "tolerante". Ora eu acho que qualquer empresa pode contratar quem quiser. O que implica que seja livre de não contratar quem não quiser, seja mulher, homem, ou alguém que não se queira deixar agrilhoar pelo espartilho das definições de género. Seja fumador, viciado em chocolate ou vegetariano (neste último caso, merecerá mesmo ser ostracizado). Se uma empresa preferir contratar um mau trabalhador em detrimento de um bom trabalhador que pertença a um destes grupos, por que razão deverá alguém impedi-la de o fazer? Será a própria empresa a pagar por isso.
É isto, aliás, que os engenheiros sociais não costumam perceber. Se verdadeiramente existir discriminação, se alguém não contratar uma mulher de olhos verdes por ela ser uma mulher, ou por ter os olhos verdes, quando ela seria uma boa aquisição, o próprio discriminador será penalizado (e merece, visto que uma mulher bonita de olhos verdes nunca é de deitar fora). O próprio acto discriminador é penalizador. Se a dita mulher for uma má profissional, por exemplo, por que razão haveria de ser contratada? Só porque o contratador teria receio de ser processado por descriminição? As pessoas tendem a fazer as suas escolhas de acordo com o que julgam ser os seus próprios interesses. Se em vez dos seus interesses elas derem prioridade aos seus preconceitos, é problema seu. Não deixa de ser uma estupidez não contratar um fumador (ou uma mulher de olhos verdes) só por ele ser fumador (ou por ela ter os olhos verdes). Mas a estupidez não devia ser proibida. Muito menos na "Europa". O que seria de mais de metade dos governos do continente, por exemplo?
Posted by Bruno at 10:04 PM
agosto 05, 2006
A Confusão do CDS
Confesso que não percebo por que razão Ribeiro e Castro foi almoçar com Manuel Monteiro. Em primeiro lugar, porque não consta que o actual líder do CDS/PP seja um grande apreciador do único militante da Nova Democracia, tendo, segundo creio, procurado afastar-se do CDS quando Monteiro transformou o seu antigo partido num sindicato de pescadores de jaquinzinhos apoiado por taxistas anti-políticos (o leitor dir-me-á, com razão, que todos os taxistas são anti-políticos). Em segundo lugar, porque seria de esperar a confusão que obviamente se seguiu. Quem, no CDS/PP, vá almoçar, jantar, ou que quer que seja, com o dr. Monteiro, está a convidar a ira de todo e qualquer militante que não tenha estado presente na confraternização. Não por ciúme, atenção, não por vontade de estar presente. O que nos conduz à terceira razão pela qual não percebo a atitude de Ribeiro e Castro. Ninguém, no seu perfeito juízo, procura a companhia de Manuel Monteiro. Mas mais estranho ainda é o facto de um almoço com o dr. Monteiro, figura que constitui uma das maiores irrelevâncias pátrias, seja o tema de maior importância para o CDS. O CDS parece, de facto, pouco recomendável. Enfim, nada que espante num partido que, segundo relatos (não é um campo da vida social que conheça bem), empresta o nome a uma praia na Costa da Caparica.
Posted by Bruno at 09:29 PM
agosto 03, 2006
O PS e as Liberdades
Agora que o Governo socialista foi avante com a sua ideia de divulgar uma lista de devedores ao fisco, seria bom lembrar o anterior Governo socialista, e a sua acção no que diz respeito às escutas telefónicas. Convém lembrar que, na sua voracidade justicialista, o PS alargou o recurso às escutas telefónicas. O Governo socialista do engenheiro Guterres, pelo seu então Ministro da Justiça e hoje verdadeiro cérebro do governo socrático, António Costa, abriu a possibilidade de recurso às escutas telefónicas, em inúmeros casos em que anteriormente tal possibilidade não estava aberta. Sabe-se no que deu, e Pacheco Pereira lembra-o hoje na Sábado. E todos nos lembramos como o PS não mostrou qualquer pudor quando chegou a altura de se insurgir contra os "abusos" que ele próprio havia permitido. Hoje, na sua voracidade jsuticialista, o governo socialista de José Sócrates quer expôr os devedores ao fisco à vergonha pública. Esperemos para ver o que acontece quando a famosa "lista" for a fonte de um qualquer "caso". O exemplo das escutas não augura nada de bom.
Posted by Bruno at 09:54 PM
A Ler
O texto do Sérgio dos Santos a propósito das reacções ao artigo que escreveu na Dia D (que pode ser lido aqui)
Posted by Bruno at 09:45 PM
agosto 02, 2006
Eixos e Arcos
Tony Blair, Primeiro-Ministro britânico, havia anunciado ontem à tarde que, num discurso que se seguiria, iria afirmar que o Reino Unido necessitava de uma "reponderação" da sua política no Médio Oriente. No discurso, afirmou que existia um "arco do extremismo", que só poderá ser vencido por uma "aliança da moderação". Blair considera que só essa aliança poderá "pintar um futuro diferente", um futuro de "harmonia" na região. O discurso foi logo visto por alguns como uma crítica implícita aos EUA, e à política seguida pelo próprio Blair no Médio Oriente. Um dos seus críticos no seio do Labour veio já afirmar que Blair havia "visto a luz", que havia percebido que "não é condenando uma comunidade inteira" que se luta "contra o terror". Se com este discurso Blair pretendia dizer que é preciso apelar aos que, no seio dos países árabes, estão contra os extremistas que os governam ou pretendem governar, tal discurso não traz nada de novo, visto que esse é um objectivo há muito delineado tanto por Blair como por Bush. Se a ideia do discurso era, de facto, fazer um mea culpa quanto ao Iraque, é um erro, e significará que Blair se deixou enamorar pela ideia de que só há violência no Médio Oriente porque "nós" a provocamos ao "ofender" os nativos (ideia expressamente criticada no próprio discurso). Mas o mais provável é que esta seja mais uma tentativa de Blair deixar mais um soundbyte que fique para a História, que acalme os que o críticam por ser subserviente a Bush, sem ofender a amizade política do Presidente americano. Mas se for esse o caso, o seu "arco do extremismo", que pretende ser um substituto do "Eixo do Mal" bushista, é um rotundo falhanço. Porque, apesar da caricatura, a frase de Bush identificava muito bem a natureza do problema que os EUA enfrentavam, enquanto a de Blair é, na melhor das hipóteses, uma expressão vazia, ou, na pior, um erro de percepção do que se está a passar.
Quando Bush falou de um "Eixo do Mal" composto pelo Irão, o Iraque e a Coreia do Norte, identificou-os como estados que, procurando adquirir armas de destruição massiva, poderiam fornecê-las a grupos terroristas, que, por sua vez, não hesitariam em usá-las. No 11 de Setembro, os EUA perceberam isso mesmo. Nenhum terrorista hesitaria em usar aquilo que estivesse à sua disposição, e portanto, a única maneira de evitar os danos por ele provocados seria impedir que qualquer terrorista ganhasse acesso a essas armas. Logo foi acusado de simplismo. Logo lhe lembraram que entre a Coreia e o Irão, muitas diferenças haviam, e que entre o Iraque e a al-Qaeda elas não seria menores. Mas ignoraram o que Bush não ignorou. Que, apesar de todas essas diferenças, uma coisa os unia a todos: a sua hostilidade para com os EUA.
A expressão "Eixo do Mal" era particularmente feliz, devido ao paralelo que estabelecia com as forças do Eixo da Segunda Guerra. Era esse paralelo que, longe de ser simplista, melhor retratava a natureza do problema que o 11 de Setembro deixara a nu. Se muitas diferenças existem entre o Irão e a Coreia do Norte, elas também existiam entre as forças do Eixo. Para a Alemanha Hitleriana, certamente os japoneses não seriam um modelo de pureza racial. E para estes últimos, a Itália e a Alemanha não seriam alvo de grandes simpatias. Aliás, a relutância do Japão em se comprometer com elas certamente o demonstra. Tinham, no entanto, um inimigo em comum. Mais uma vez, os EUA. A queda da França e da Holanda às mãos dos alemães deixara as colónias asiáticas destes países à mercê da fome expansionista dos japoneses. Estes receavam um contra-ataque americano, e procuraram então o apoio anteriormente oferecido por Hitler. Quando o Japão atacou Pearl Harbor, Roosevelt percebeu a natureza do problema. Apesar das muitas diferenças entre as forças do Eixo, uma reacção americana era necessária para que o que acontecera "nunca mais se repetisse". Que, apesar das muitas diferenças entre eles, todo o Eixo era um inimigo, quanto mais não fosse por estarem unidos por um pacto. E de facto, quando os EUA declararam guerra ao Japão, logo a Alemanha cumpriu o compromisso que estabelecera, declarando guerra aos EUA.
O uso da expressão "Eixo" foi feliz, pois chamava a atenção para aquilo que os EUA viam como a chave para enfrentar a situação: que era a partilha da hostilidade aos EUA o que motivava estes estados e os grupos terroristas, e não as muitas diferenças entre eles. Que era o mútuo interesse em ferir os EUA que, dada uma oportunidade, certamente atrairia esses estados a armarem grupos terroristas. E que a única maneira de parar estes últimos, seria diminuir a capacidade desses estados, seria impedi-los de armarem esses terroristas.
O problema do discurso de Blair é que o soundbyte funciona enquanto soundbyte, mas pouco diz em relação à natureza do problema. Ele sim, e não o de Bush, é simplista. Porque, ao dispensar o paralelo com o Eixo, dispensa a atenção às diferenças entre as partes do dito. Ao falar de um "arco de extremismo", trata as suas partes como um todo homogéneo, em vez de um grupo díspar de forças e estados, unidos por um ódio comum ao Ocidente em geral e aos EUA em particular. Para mais, ao afirmar que é necessária uma "aliança da moderação", está ou a dizer algo irrelevante, ou a cometer um grave erro. Ao querer derrotar regimes como o iraniano, é óbvio que os EUA querem que os "moderados" obtenham o poder. Se é a esse tipo de "aliança" que Blair alude, ela já existe há muito tempo. Mas se, por essa "aliança", pela necessidade de parecer "equilibrado" na forma como lida com o Médio Oriente, Blair queira dizer que a prioridade dos países aliados deve estar na percepção que os árabes têm das suas acções, e não na eficácia das mesmas, então estará a cometer um erro.
Não quero estar a ser injusto para Blair. Mas a sua velha ânsia de agradar a todos (neste caso, aos que se opõem à sua política externa, e ao aliado americano), faz com que o conteúdo do seu discruso se perca na sua ambiguidade. Percebo que, para a "rua árabe moderada" seja isso o que for, imagens diárias de libaneses mortos não são o melhor convite a um apoio a uma intervenção ocidental. Mas convém que Blair perceba que, o que para nós ocidentais é um sinal de "moderação", destinado a não "alienar" os "moderados", é visto pelos "extremistas" do "arco" de que ele fala, como sendo um sinal de fraqueza. Tenho plena consciência que, como Blair diz, a falta de uma solução para o confito israelo-palestiniano é uma motivação para o "Islão reaccionário". Percebo que, se uma solução for encontrada para esse problema, esse "Islão reaccionário" perca um factor de legitimação aos olhos de muita gente. Mas é preciso também perceber que a falta de uma resolução tem vindo do lado do tal "islamismo reaccionário", ou até do "moderado" que a União Europeia tem apoiado. Basta lembrar Arafat. É preciso também perceber que a ocupação israelita de Gaza era vista como um factor de "humilhação árabe", e que a retirada israelita desse território, em vez de ser um factor deslegitimizador do terrorismo, foi visto como um sinal de fraqueza israelita por esses mesmos terroristas. Percebo que, como Blair diz, uma solução militar não será definitiva. Mas talvez seja altura de perceber que, das soluções diplomáticas, do "reaching-out" aos "hearts and minds", também será díficil encontrar uma solução. Que o "reaching out" aos "corações" dos "moderados" incentiva os terroristas, que o vêem como sinal de fraqueza, tal como uma reacção dura poderá levar muitos dos tais "moderados" a dar razão aos terroristas. Talvez seja altura de perceber que, independentemente do que fizermos, este problema durará muito tempo. E que a única coisa a fazer, por agora, talvez seja procurar minorar os estragos. E isso, o "Eixo do Mal" explicava melhor que o "arco do extremismo".
Posted by Bruno at 09:50 PM
agosto 01, 2006
Curiosamente
Segundo parece, uma comissão responsável pelo "modelo de negócio" do aeroporto da Ota chegou à conclusão que os custos do dito serão "muito superiores" aos que se esperavam, ou seja, aos que o Governo anunciou. Curiosamente, o Governo não realizou qualquer cerimónia para publicitar tal conclusão. E curiosamente, ela foi divulgada em Agosto, bom mês para se anunciarem más notícias. Nada que espante. E um aviso para que mantenhamos os nossos olhos abertos nos próximos tempos.
Posted by Bruno at 10:29 PM