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junho 30, 2006
A Ler
O texto de Miguel Frasquilho, sobre o estudo que o Governo terá sobre a mesa, e cujas conclusões pondera aplicar, acerca da simplificação do sistema fiscal. Pena que a reacção do PSD (pelo menos, aquela de que tive conhecimento) não tenha tido como conteúdo aquilo que escreveu Frasquilho, que considera que "até agora, a promoção da justiça social e a redistribuição dos rendimentos tem sido maioritariamente feita através da fiscalidade. Porém, ao enveredar pela simplificação, o que se tem verificado a nível internacional é um caminhar na direcção de promover a justiça social e a redistribuição de rendimentos pelas classes mais desfavorecidas pela via da despesa pública, de forma transparente, através da inclusão de rubricas especialmente criadas para o efeito no Orçamento do Estado. Ora, do que até agora se sabe da proposta do Governo, nada aponta para que (i) as taxas do IRS possam vir a descer, compensando os contribuintes pela eliminação dos benefícios fiscais em já referidos e assegurando a não perda de receita fiscal; (ii) a justiça social passe a ser promovida do lado da despesa pública."
Note-se ainda este ponto frisado por Frasquilho: "assim, para além de um aumento (errado) de impostos, se o que hoje foi noticiado for por diante, trata-se de mais uma machadada na credibilidade deste Governo em particular, e dos políticos em geral, pois, como sabemos, não foi só o PS que prometeu uma coisa e depois fez outra em matéria fiscal…" Frasquilho, para além de criticar o Governo, critica também o seu próprio partido. É verdade que o faz criticando uma política que foi contrária ao que ele havia defendido, criticando a subida de impostos que foi contra o "choque fiscal" que ele defendia (convém não esquecer, no entanto, que esse governo tinha uma margem de manobra, relativamente a Bruxelas, muito menor do que tem o actual governo, coisa que Frasquilho não diz). Mas apesar disso, Frasquilho nota os efeitos negativos das opções tomadas pelo seu próprio partido, e como elas afectaram as condições de governabilidade do país. E também por isso, tem muito maior legitimidade para criticar o actual governo por as agravar ainda mais. Falta mais gente assim nos partidos.
Posted by Bruno at 10:51 PM
Mundial na Imprensa
Os melhores textos sobre o Mundial de futebol têm sido, sem dúvida nenhuma, os de Ferreira Fernandes na Sábado. Os de Rui Baptista, no Público, prometeram, com aquela da vizinha velha que sabia antecipadamente os resultados dos jogos de Portugal, mas os seguintes não estiveram ao mesmo nível. E nenhnum texto de nenhum outro cronista ou jornalista chega aos pés da crónica de Ferreira Fernandes sobre o golo de Maxi Rodriguez.
Posted by Bruno at 10:45 PM
junho 29, 2006
Uma Cegonha, e um Ministro do Desporto
Era ontem uma da manhã quando a electricidade faltou. Sempre que a electricidade falta nesta terra (ou seja, regularmente) tenho a vida transformada num Inferno. Não sei viver sem a dita. Ao que parece, a coisa não foi só por aqui. O que logo me fez lembrar da famosa cegonha que electrocutou (para além dela própria) o governo de Guterres. Pior, só mesmo o governo de Santana Lopes, derrubado pela demissão de um Ministro do Desporto.
Posted by Bruno at 10:25 PM
A Ler
O artigo de Pacheco Pereira no Público de hoje (finalmente alguém diz com clareza que não é difícil fazer oposição a Sócrates), também disponível no Abrupto.
Posted by Bruno at 10:20 PM
Atlântico

Está já nas bancas a Atlântico deste mês, com um artigo de Rui Ramos sobre a Guerra Civil de Espanha, de Luciano Amaral sobre o falhanço das "Terceiras Vias", de João Miranda sobre a descentralização, dois de Nuno Garoupa (sobre a nossa Constituição e sobre Zapatero), André Azevedo Alves sobre a vigilância em Londres, e, já com "Vinte e Dois", este que vos escreve.
Posted by Bruno at 10:10 PM
junho 28, 2006
O Referendo
Segundo o Público, o referendo sobre a despenalização do aborto realizar-se-á no próximo mês de Janeiro. Nada ilustra melhor a razão pela qual questões de governação não devem estar sujeitas à votação directa por parte dos cidadãos. Esta questão nunca se irá resolver. Em Janeiro, teremos o segundo referendo. Se voltar a ganhar o "Não", daqui a oito anos, os defensores do "Sim" voltarão a dizer que as circunstâncias se alteraram, e que novo referendo deverá ser efectuado. Se ganhar o "Sim", nada impede os defensores do "Não" de, daqui a alguns anos, invocarem as mesmas "novas circunstâncias", que decerto motivarão novo referendo. Percebo que o Presidente da República não queira bloquear um referendo que é desejado por uma maioria parlamentar. Mas acima de tudo percebo por que razão essa maioria parlamentar quer um referendo. Terá mais dois meses em que o Governo que apoia terá rédea solta, mais dois meses em que o Governo que apoia se encontrará livre do escrutínio público, camuflado pela cortina de demagogia a que inevitavelmente se assistirá.
Posted by Bruno at 10:13 PM
junho 27, 2006
Responsabilidades
Um soldado israelita foi raptado, segundo se crê, por três grupos terroristas palestinianos, no passado domingo. Terão exigido, em troca do fornecimento de informação acerca do soldado (não terão sequer confirmado que o têm sob o seu poder), a libertação de todos palestinianos com menos de 18 anos ou do sexo feminino que se encontram presos em Israel. Israel, obviamente, não cedeu à chantagem terrorista, e estará a preparar uma invasão militar à Faixa de Gaza, para resgatar o soldado. Segundo as informações dos serviços secretos egípcios, pelo menos um dos grupos envolvidos no rapto, as Brigadas Izzedine Al-Qassam, está ligado ao Hamas, partido no governo palestiniano. nada nisto comove os jornalistas portugueses. Na SIC Notícias, às 13 horas, temia-se que a "reacção israelita" fosse "pôr em causa" o "processo de paz" no Médio Oriente. Não lhes ocorre que o rapto de um soldado israelita (e a morte de outros dois) também não seja grande ajuda.
Posted by Bruno at 06:18 PM
junho 26, 2006
A Ler
Não deve haver lei em Portugal que prejudique mais a vida das pessoas que a lei do arrendamento. Era assim com a anterior, e muito provavelmente, assim continuará a ser com as alterações introduzidas pelo actual Governo. Curiosamente, em Inglaterra, entrou em vigor uma nova lei na área da Habitação, que não deve ficar atrás da nossa. Vale a pena ler este artigo do TCS, e sobre a mesma lei, o artigo de Charles Moore no Telegraph de Sábado.
Posted by Bruno at 05:47 PM
Mundo Moderno
O Presidente da República realizou o seu Roteiro para a Ciência. No Público, afirmava-se que o Presidente se tinha voltado para o "país de sucesso". Num país em que o Estado penaliza os que o têm, e impedem muitos outros de o virem a ter. A Ministra da Educação anunciou que as escolas em zonas problemáticas poderão contratar livremente os seus professores. Ignora-se por que razão a Ministra considera esta uma boa medida só para algumas escolas, e não para todas. As autarquias irão ter autonomia para baixar em 3% a taxa de IRS. Deveriam, isso sim, ter a responsabilidade de cobrarem os seus impostos para cobrirem a totalidade das suas despesas, para que a competição entre as várias autarquias não fosse apenas para descobrir qual a mais irresponsável. Um estudo terá revelado que lojas de medicamentos sem receita médica vendem esses medicamentos a uma preço mais elevado que as farmácias. O coro protestou, esquecendo que o mercado é assim mesmo. Cada um vende o que tem ao preço que quiser cobrar, e cada um compra apenas e só aquilo que entender por bem comprar. Em Timor, Xanana e Alkatiri mostram as virtudes do semi-presidencialismo. A ONU, sempre em cima do acontecimento, teme um desastre humanitário no Darfur. Sentimento equivalente aos EUA manifestarem, agora, receio de uma atentado nas Twin Towers de Nova Iorque.
Posted by Bruno at 05:43 PM
junho 23, 2006
O Regresso do Guerreiro Menino
Santana Lopes irá, no próximo mês de Julho, pôr termo à suspensão do seu mandato de deputado, e voltará a ocupar o seu lugar em São Bento. São boas notícias. Especialmente para o PS. Sempre que Santana abra a boca, será ridicularizado pelos deputados do PS, ou pelo próprio Primeiro-Ministro. Marques Mendes, esse, certamente não terá ficado contente quando soube. Por um lado, a ridicularização de Santana será sempre a ridicularização do PSD. Por outro, a presença de Santana no hemiciclo funcionará um pouco como a de Paulo Portas na bancada do CDS/PP. Funcionará como uma ameaça permanente. Como uma sombra irritante. Diga-se de passagem que Marques Mendes não está isento de culpas nas dificuldades que enfrentará com o regresso do "guerreiro menino". Ao não o ter provocado, ao não ter hostilizado abertamente Santana, Marques Mendes deu-lhe margem de manobra. Não o derrotou de vez. Agora, vai ter que o aturar. E isso dificultará ainda mais o seu objectivo de credibilização do PSD.
Posted by Bruno at 10:45 PM
junho 22, 2006
O Erro do Roteiro
O Presidente da República realizou esta semana o seu Roteiro para a Ciência. Roteiro que tem o mesmo problema que tem, por exemplo, o discurso kennedyano do Presidente. Por duas vezes, escrevi aqui que, apesar do Presidente afirmar que os portugueses devem deixar de perguntar ao Estado o que este pode fazer por eles, e perguntarem-se o que podem fazer por si próprios, existe um problema maior, o do Estado não os deixar fazer o que poderiam querer fazer por si próprios, ou até pelo seu vizinho. Com o Roteiro, regressa o problema. O Presidente elogia o empreendedorismo no desenvolvimento científico e a sua aplicação na indústria. Mas parece esquecer que é o Estado quem consome recursos que, dessa forma, deixam de estar disponíveis para que aqueles que os criam os possam investir nessa investigação científica. Esquece que é o Estado quem cria barreiras a esse empreendedorismo. Esquece, por exemplo, que o Plano Tecnológico, que até elogia, implica uma transferência de recursos das empresas que os produzem para as que os consomem. Perpetuando as escolhas erradas de umas, e bloqueando o desenvolvimento das empreendedoras. Perpetuando o atraso, prejudicando quem o Presidente elogia.
Posted by Bruno at 10:47 PM
junho 20, 2006
Aviso
A não ser que algo de muito revelante aconteça, este blog regressará à actividade na quinta-feira...
Posted by Bruno at 05:44 PM
junho 19, 2006
O Dilema do PS
Já se sentem os primeiros tremores. Ontem, o Diário de Notícias trazia nas suas páginas um par de reportagens acerca dos supostos abalos que o suposto "choque ideológico de Sócrates" teria provocado no seio do Partido Socialista. Vitor Ramalho, dirigente da Federação socialista de Setúbal, queixa-se de que Sócrates terá cedido a uma "subalternização do ideário" de esquerda, o que, "em muitas situações", faz com que seja difícil "percepcionar o que distingue um partido da direita social-democrata de um partido de esquerda de matriz socialista". No mesmo dia, o Público dava atenção às críticas de um eurodeputado socialista, Manuel dos Santos, aos "critérios liberais" do Governo. De acordo com o dito, o Governo apresenta-se, "por vezes", como uma "comissão liquidatária", o que presumo seja a principal característica do liberalismo a que Manuel dos Santos se terá referido.
Estas críticas não representam uma verdadeira oposição a Sócrates no seio do PS. Mas, se juntarmos estas declarações às críticas que têm sido feitas à acumulação, por parte do Primeiro-Ministro, da coordenação política do partido com o seu cargo governativo, tem-se a noção de que há um certo incómodo de alguns socialistas motivados pela política governativa. Por agora, pouco mais podem fazer que não seja criticar questões organizativas e apontar, como fez Manuel dos Santos, a marcelista (de Rebelo de Sousa, não de Caetano) "má-explicação" das medidas. Mas são sinais que vêm dar razão ao artigo de Pedro Adão e Silva na última Atlântico.
Adão e Silva considera que o Governo, ao seguir uma política que faz aquilo que o "realismo obriga" a fazer, está a fragilizar a sua "relação com a sua base social". É óbvio que, num partido que fragiliza a sua relação com a sua base social de apoio, as oposições internas se movimentam, contra a política "realista" que vai contra os interesses, ou o "ideário", dessa base social de apoio.Esta parece ser uma situação da qual o PS não pode sair. Parece, e será, mas poderia não ser. Um programa verdadeiramente reformista colocaria o PS no centro do regime. Marginalizaria a sua base social de apoio, mas ganharia outra. Seria o fim do PS como o conhecemos, mas seria o garante de um PS firmemente instalado no poder.
Mas para isso, seria necessário que o Governo fizesse realmente alguma coisa. Ora, apesar da retórica dura de alguns Ministros, e da propaganda do chefe, o PS pouco ou nada está a mudar. Está a fazer remendos, mas o tecto é o mesmo e vai continuar a chover dentro de casa. O que o PS está a fazer é, no fundo, procurar manter aquilo que Joaquim Aguiar chamou de "promessa distributiva". Aguiar considera que o comportamento do eleitorado português se tem caracterizado pela transferência de voto de um partido para outro, de cada vez que o partido que ocupa temporariamente o poder deixa de ter a margem de manobra para manter viva a ilusão que constitui essa promessa. Se o PS cortasse realmente com essa ilusão, em vez de procurar diminuir alguns dos seus excessos, pensando que talvez assim, possa manter tudo fundamentalmente como está, poderia sair deste ciclo vicioso de paralisia democrática. Como não o faz, inevitavelmente, deixará de poder manter a ilusão dessa promessa. E aí, o eleitorado, como fez em 2002, virar-se-á para o PSD. Um pouco antes, será o próprio PS que se irá virar contra si próprio. A política demasiado "liberal" para satisfazer os fiéis ao "ideário de um partido de esuerda de matriz socialista", mas insuficientemente liberal para mostrar ao eleitorado que a ilusão não passa disso mesmo, fará com que o partido perca apoio num lado, sem que ganhe noutro. E aí, já não serão apenas Vitor Ramalho ou Manuel dos Santos a queixarem-se do "pragmatismo" de Sócrates, ou da "má-explicação" das políticas. Aí, meio partido lutará contra o resto. E o país estará na mesma. Ou pior.
Posted by Bruno at 04:45 PM
junho 18, 2006
Mundo Moderno (publicado no Insurgente)
Um tal de António Guterres, conhecido dos portugueses por um dia ter visitado África com Angelina Jolie, terá dado uma entrevista a um diário nacional. À excepção de Pulido Valente, ninguém leu. O único que perdeu alguma coisa foi, obviamente, Pulido Valente. Parte do PS tem criticado José Sócrates por dirigir a coordenação política do partido ao mesmo tempo que governa o país. Eu proponho que deixe de governar o país, e passe a concentrar-se na direcção do partido. Infelizmente, o partido não pensa assim. O que só mostra que não é o mais indicado para nos governar. Uma senhora viu ser-lhe negada a nacionalidade portuguesa que desejava obter, por entre outras coisas, não saber o nome de um ministro. Presumo que muitos portugueses perderão a sua nacionalidade nos próximos tempos. Helena Lopes da Costa, uma daquelas figuras que Santana Lopes trouxe para a ribalta, afirmou que o PSD de Lisboa se terá transformado numa "agência de empregos". Pena que não se tenha usado a si própria como exemplo, porque teria convencido mais gente. A Fatah incendiou o parlamento palestiniano, ao mesmo tempo que no Ocidente se continua a culpar Israel pelo estado daquele país, com paixão tão acesa como o referido incêndio.
Posted by Bruno at 10:07 PM
junho 17, 2006
Os 100 Dias do Presidente
Muito do que poderia dizer acerca do início do mandato do presidente da República mais não seria do que uma repetição do que escrevi a propósito do seu "Roteiro para a Inclusão". Com ele, o Presidente está a promover uma agenda alternativa à do Governo. Ao invés de Soares, não está a promover uma agenda contrária à do Governo, de oposição ao Governo. Ao contrário de Sampaio nos tempos de Guterres, não está a repetir a agenda do Governo. Está a promover, isso sim, uma outra agenda, uma agenda que não pretende competir com a do Governo, nem sequer fragilizá-lo, mas que pretende, isso sim, introduzir uma série de questões, e um discurso perante essas questões, que têm estado ausentes da competição política quotidiana.
Por isso mesmo, as suas recentes declarações de crítica subliminar ao Ministro da Agricultura e de apoio à Ministra da Educação foram um erro. O Presidente não se devia ter pronunciado sobre essas questões. Um Presidente que quer promover uma agenda como a que tem vindo a promover, e que o pretende fazer fora da luta partidária quotidiana, tem que se manter afastado desta última. O Presidente não se devia pronunciar acerca de questões governativas, a não ser através dos vetos que entenda por bem aplicar às propostas aprovadas pelo Parlamento. Qualquer outra afirmação, seja ela favorável ou de crítica ao Governo, apenas banaliza a "palavra" presidencial. Um Presidente que quer usar a "palavra" como um elemento que ajude a mudança não pode correr o risco de banalizar aquilo que pretende que seja a sua arma.
Posted by Bruno at 09:45 PM
Pequeno Desabafo Acerca da "Construção Europeia"
Aquilo que os europeístas mais entusiastas desejam é, no fundo, fazer uma Bélgica em ponto grande. Não augura nada de bom, porque a Bélgica não é mais que uma França em ponto pequeno.
Posted by Bruno at 09:38 PM
junho 16, 2006
Retratos do Trabalho na Argentina*
*Perdoe-se o título roubado...
Posted by Bruno at 10:46 PM
junho 15, 2006
Chantagem
Continuo, caro leitor, no tema da "Constituição Europeia" e os esforços para a reanimar. No Público, referem-se os vários caminhos que as várias pessoas animadas por esse voluntarista espírito de pontapé para frente (perdoe-me a metáfora futebolística, mas as constantes idas para o café para ver os jogos têm o seu efeito) traçam para essa reanimação. Guy Verhofstadt, Primeiro-Ministro belga, por exemplo, acha que os países que ainda não ratificaram a Constituição devem fazê-lo já, para que se reúnam os vinte necessários para, citando as palavras da jornalista do Público, "obrigar os restantes a encontrar uma solução". Guy Verhofstadt deseja que um conjunto maioritário de países possa obrigar um conjunto minoritário a adoptar políticas que não desejam adoptar. Por isso é favorável a uma "Constituição" que alarga o número de áreas em que isso seria possível. Como pelo menos dois países não desejam uma Constituição que permita que isso aconteça, Guy Verhofstadt quer exercer sobre os países que não a aceitaram, e os que possam vir a não aceitar, a chantagem de fazer depender a sua pertença à UE da aceitação da Constituição. Parece não ocorrer a Verhofstadt que haja quem queira pertencer a UE, tal como ela está (já nem falo dos que gostariamn de outra forma de organização). Não lhe parece ocorrer que a UE só deve existir na medida em que todos os seus membros queiram que ela exista, como não lhe parece ocorrer que ao chantagear um Estado, dizendo que ou aceita a "Constituição" ou será obrigado a sair, o que se está a fazer é, seja qual for a escolha, obrigá-lo a abandonar o quadro em que ele deseja pertencer à UE. Ao fazê-lo, Verhofstadt está a ir contra tudo aquilo que a "Europa" deveria ser, um espaço de cooperação política entre os Estados, na medida em que eles estejam dispostos a cooperar. Enfim, nada de espantar nesse baluarte da liberdade que é a Bélgica.
Posted by Bruno at 09:44 PM
junho 14, 2006
Referendo Europeu
O leitor certamente saberá da vontade que uma série de gente tem de reanimar a "Constituição Europeia". Segundo me disseram, a última ideia desta boa gente é a realização de um referendo europeu, no mesmo dia em todos os países membros. Não ouvi a declaração, e sabendo como a linguagem dos euroburocratas e seus entusiastas é pouco clara, não sei bem o que querem dizer com isto. Se querem que todos os países realizem os seus referendos no mesmo dia, não vejo grande problema, embora seja mais um exemplo daquela tendência pouco democrática que Bruxelas tem de só respeitar o voto quando o voto vai no sentido que Bruxelas deseja. Outra coisa seria a realização de um referendo a nível europeu. Tal ideia presssuporia a existência de uma efectiva cidadania europeia, coisa que não existe. O meu voto não tem de ser misturado com o voto de um alemão, de um francês ou de um inglês, como o deles não tem de ser misturado com o meu. Não há razão para que a maioria de um país que rejeita a Constituição seja obrigada a aceitá-la, só porque a maioria do conjunto de todos os outros a deseja. Como não faz sentido que a Constituição avance contra a vontade de algum dos Estados. Como não faz sentido que se insista em algo que dois países já rejeitaram. Fazê-lo seria, numa "Europa" cada vez mais afastada dos cidadãos, acentuar o que essa "Europa" tem de pior.
Posted by Bruno at 04:41 PM
Selecção Nacional
Saiu hoje, para todos aqueles que tiverem o bom senso de comprar, o livro que junta as crónicas do Alberto Gonçalves.
Posted by Bruno at 04:37 PM
junho 13, 2006
Basta Ver a RTP
No DN, leio que nos EUA, está em curso uma investigação, realizada pelo organismo de regulação dos media, a uma série vídeos, conhecidos como Video News Releases, usados pelo Executivo americano ("esse Bush", portanto), que, segundo a notícia, consistem de vídeos publicitários realizados pelo Governo, mas destinados a serem emitidos, nos telejornais, "como se fossem reportagens verdadeiras". Enfim, quem ctiver o hábito de ver a cobertura noticiosa das iniciativas do Governo feita pela RTP fará uma ideia do que se trata.
Posted by Bruno at 03:33 PM
junho 12, 2006
Uma Questão de Zelo
Parece que o Estado está a ser bastante eficaz na aplicação da penhora de salários de devedores ao fisco, que instituíu há uns tempos. Faço uma pequena pergunta: o Estado é tão zeloso com o dinheiro que deve aos contribuintes como parece ser com o dinheiro que os contribuintes devem ao Estado?
Posted by Bruno at 11:12 PM
junho 11, 2006
The Nightclub Years
Posted by Bruno at 10:36 PM
junho 10, 2006
Portugal e os Portugueses
Nas comemorações do Dia de Portugal, tanto o Presidente da República como o Primeiro-Ministro afirmaram que "o país será aquilo que todos fizermos por ele". O Primeiro-Ministro considera mesmo que o discurso do Presidente possibilitará "vencer o pessimismo de alguns que não respeitam sequer o facto de dez milhões de portugueses estarem a dar o seu melhor". O Primeiro-Ministro tem um particular ódio aos pessimistas. enfim, deixêmo-lo ter. Cada um tem os seus ódios de estimação (no meu caso, toda e qualquer pessoa, a começar por mim próprio). O problema está em que esse ódio pelos "velhos do Restelo" lhe tolda um pouco a visão. Impede-o de ver que o Estado, apesar de todo o optimismo dos políticos que o ocupam, é o primeiro a não respeitar os esforço dos portugueses (esqueçamos o número, que é duvidoso) que de facto dão o seu melhor. Porque os cidadãos que procuram esforçar-se, os portugueses que procuram fazer algo pela sua vida, vêem serem-lhes criados, pelo Estado, uma série de obstáculos. Em Portugal, quem quer cortar com o vício de tudo esperar do Estado, é penalizado. É aprisionado. É obrigado a dispender esforço e imaginação para se desviar dos tentáculos do polvo estatista. Se o Primeiro-Ministro quer maior consideração por aqueles que "dão o seu melhor", dê o exemplo. Faça com o que Estado deixe de lhes complicar a vida.
Posted by Bruno at 09:29 PM
O Adeus de Zidane

Há quem pense que a grande tragédia do Mundial de futebol que ontem se iniciou é a lesão de Rooney. Outros pensam que ela reside na selecção italiana, na forma como desperdiça alguns dos melhores jogadores num dos sistemas mais defensivos que o homem pode conceber (essa é uma tragédia eterna). Outros ainda vêem-na na presença, no meio da elite do futebol mundial, de selecções como o Togo, Trinidad e Tobago ou Portugal. Não querendo desvalorizar as opiniões de toda esta gente, nada disto se compara ao adeus de Zidane. Zidane irá abandonar o futebol. Irá "pendurar as botas", como dizem os reaccionários da bola (a bola, como tudo na vida, tem os seus reaccionários). Este é motivo de pesar para todos aqueles que gostam de futebol. A partir de dia 9 do próximo mês (se não mais cedo), o futebol de Zidane não será mais que uma recordação ou um momento de nostalgia naqueles jogos de celebridades com Michael Schumacher ou Boris Johnson.
Zidane não é um jogador como os outros. Um jogador normal, mesmo um incrivelmente superior, tem de se movimentar. Tem de ir buscar a bola, tem de se desmarcar, tem que evitar o defesa adversário. Enfim, tem de fugir. Pode fazê-lo muito bem, como fazia Figo, ou vai fazendo Kaká, por exemplo. Mas é um fugitivo. Zidane não. Zidane apenas precisa de ter a bola. E quieto, porque a idade já não dá para mais, continua com a bola. Esqueça as origens magrebinas do jogador, e os seus preconceitos em relação aos provenientes dessas comunidades, caro leitor. Zidane joga uma espécie de futebol aristocrático, com um leve desprezo pelos seus plebeus adversários. Eles que corram. Que venham contra ele. Que lhe tentem tirar a bola. Que ele, sem sair do mesmo sítio, os tirará do caminho. É esta a diferença. Um jogador normal deixa o adversário para trás. Zidane tira-os do caminho.
Compare-se Zidane com outro dos melhores jogadores do mundo, o seu colega de selecção Henry. Henry corre. Henry sua. O que, muito provavelmente, produzirá um odor pouco agradável. Zidane não. Zidane não sua. O leitor por certo objectará. Dirá que já viu o suor de Zidane a escorrer na sua camisola. Garante que Zidane sua, que sua "como um cavalo" (vejo que o caro leitor também é um reaccionário da bola, e, no caso de ser do FC Porto, ainda ninguém o convenceu de que o futebol não acabou naquele dia, caído na relva ao lado do Pavão). Mas, caro leitor, está enganado. Aquilo que vê na camisola de Zidane, não é suor, é transpiração. Pois Zidane não sua, transpira. Transpira futebol. E cada finta, cada passe por entre três defesas, é um bocadinho de perfume que ele exala para gáudio dos que têm a sorte de estar a ver. E vai fazê-lo pela última vez, nos próximos dias. O que interessa a lesão do Rooney ao lado disto?
Posted by Bruno at 12:20 PM
junho 09, 2006
A Meio Caminho
A Ministra da Educação é o elemento deste Governo que mais elogios recebe. Convenhamos que, com a companhia que tem, não é difícil. E a sua voracidade reformadora é notória. Mas tenho as maiores dúvidas quanto à justiça desses mesmos elogios. Muitas das medidas da sra. Ministra, como aliás, muitas das medidas do Governo, pecam pela sua insuficiência, por ficarem aquém do que seria necessário, contribuindo para a sua ineficácia. Um bom exemplo está no anúncio hoje feito pela Ministra, de que as escolas passarão a ter uma maior autonomia para definirem as suas estratégias na àrea da matemática, autonomia essa que passará pela liberdade de contratar professores, por exemplo.
A ideia é positiva. Mas mais positiva seria se fosse mais longe. Por que razão a Ministra acha que o ensino da Matemática nas escolas melhorará se estas tiverem a liberdade de escolher os seus professores, de definir a sua carga horária, mas não alarga essa liberdade a outras disciplinas? Se o modelo organizativo falhou na matemática, falhou certanmente no resto. Para além de que essa liberdade de pouco vale sem responsabilidade. A liberdade de uma escola só será realmente eficaz se as escolas forem responsabilizadas pelas escolhas que fazem, se forem responsabilizadas pelos resultados que as suas opções acabarão por produzir. Se dependerem desses resultados para continuar a sua actividade. E isso só acontecerá se os pais poderem avaliar se determinada escola é ou não merecedora do seu dinheiro.
Esta medida anunciada pela Ministra é bastante reveladora do carácter deste Governo do PS. O PS não pode fugir da realidade. Percebe que aquilo que tem vindo a defender desde sempre não funciona. Mas não pode cortar com isso, porque continua a acreditar no mesmo em que sempre acreditou. O PS não pode defender um sistema educativo que, financiado na totalidade pelo Estado ou não, assente o financiamento das escolas (e portanto, a sua sobrevivência) na escolha dos pais, e não nos critérios da 5 de Outubro. Que assente a prestação do serviço (a educação) nas escolhas feitas pelas escolas, e no julgamento que os pais fazem acerca dessas escolhas, e não nas imposições da 5 de Outubro. Por isso, limita-se a ficar a meio caminho. O que terá um de dois possíveis resultados. Ou os benefícios que daí poderão resultar ficarão também a meio caminho, ou, pior ainda, o aumento de liberdade de escolha das escolas, sem o aumento da sua responsabilidade (e dos pais) acabará por alimentar as más escolhas, sem premiar as boas.
Posted by Bruno at 02:24 PM
junho 08, 2006
A Ler
Ainda sobre a posição de Manuel Pinho em relação à oferta da Brisa, o que escreveu no Arte da Fuga o Adolfo:
"Tenho pouco contra as concentrações desde que o mercado funcione e seja ele a ditá-las. Posso até compreender, por isso, que se defenda a relativização das leis da concorrência, que são muito mais do que meras reguladoras, antes impõem um programa político concreto. Isto, claro está, no pressuposto claro de que o mercado é aberto e sem interferências estaduais desnecessárias.
Mas a decisão do Ministro Manuel Pinho, se contextualizada no âmbito de tudo quanto o Governo tem vindo a dizer quanto a economia, concentrações, OPA's e coisas que tais, tem pouco que ver com a necessidade de arejar o mercado, permitindo o seu funcionamento. Pior do que isso, a decisão do Ministro demonstra a facilidade com que um Ministro ou um Governo, por capricho ou programa político, conseguem desautorizar as leis que o Estado fez, as Autoridades independentes que o Estado criou e os interesses que o Estado prometeu proteger.
A economia, como a nossa vida em geral, não se compadece com caprichos destes, comodamente vestidos de interesse público."
Posted by Bruno at 10:38 PM
junho 07, 2006
Competição
Parece que a Brisa queria comprar 40% de uma outra empresa, de seu nome, AEA. Parece que a Autoridade para a Concorrência chumbou a compra. E parece que o senhor Ministro da Economia, dr. Manuel Pinho, entendeu por bem autorizar a dita compra. A menor concorrência não perturba o senhor Ministro. Segundo ele, esse pequeno óbice é claramente compensado pelos "interesses da economia nacional" que tal situação irá satisfazer. Segundo o Ministro, este negócio irá permitir que as empresas em causa ganhem "maior competitividade internacional". Em Portugal pensa-se muito da seguinte forma: em vez de termos muitas empresas a competir umas com as outras, por que não criamos (com a bênção do Estado) uuma grande empresa, que possa, "dessa forma", competir a nível internacional. O raciocínio é curioso. Tentemos aplicá-lo a outra situação.
O campeonato português de futebol terá a partir da próxima época 16 clubes competindo entre si. O campeão da última época, o FC Porto, irá também competir na Liga dos Campeões, contra os melhores clubes da Europa. Para quê dispersar recursos (jogadores) por 16 equipas? Para quê ter equipas portuguesas a competir entre si, quando poderíamos ter uma grande equipa a competir internacionalmente? Acabemos com o campeonato nacional. Deixemos o FC Porto, sozinho, permitindo que se "redimensione" com os recursos adquiridos às outras equipas, para poder lutar contra gigantes como o FC Barcelona ou o AC Milan. Os espectadores serão prejudicados? Terão menos jogos para ver? Só poderão ver jogos com bilhetes mais caros? Não vejo qual é o problema. Há anos que, por termos uma só companhia eléctrica, a EDP, pagamos a electricidade mais cara do que provavelmente pagaríamos se existisse escolha, e não é por isso que a situação mudou. Afinal, temos de ter capacidade de competir internacionalmente. Mesmo que isso prejudique os consumidores nacionais. O raciocínio parece ridículo se aplicado ao futebol. Parece ridículo porque é ridículo. Mas não é só para o futebol.
Posted by Bruno at 09:55 PM
junho 06, 2006
Ironias
Na RTP, os rapazinhos do PNR, os mesmos que há tempos fizeram uma manifestação pedindo um "Portugal Limpo", sem imigrantes, ao mesmo tempo que faziam um minuto de silêncio pelos "portugueses assassinados na África do Sul", imigrantes noutro país como as pessoas que a rapaziada quer expulsar com tanto vigor nacionalista, essas mesmas inteligências, procuravam explicar como o "movimento nacionalista" tinha beneficiado (palavra demasiado complexa para o rapaz, convém referir) da sua "internacionalização". O paradoxo escapou-lhe por completo.
Posted by Bruno at 09:24 PM
junho 05, 2006
Auto-Estima
O Sérgio Aires rejubila com as palavras da mulher de Luis Figo, em entrevista a uma revista de fim de semana. Disse Helen Swedin, de seu nome, que em Portugal, os homens "tratam [as mulheres] como mulheres" e que isso as faz "sentir bem". Pelos vistos, na Suécia, "homens e mulheres são demasiado iguais em tudo". O Sérgio quer que, para bem das suecas, o Ministro dos Negócios Estrangeiras proceda à rápida "importação" das meninas, o que teria, segundo ele, a vantagem de aumentar a "auto-estima" dos nossos concidadãos. Falo por mim. Nada tenho contra a vinda do maior número de suecas possível. Sou um grande apreciador do modelo escandinavo. Mas duvido que tal boa notícia contribuísse para a minha auto-estima. Para isso era necessário que a admiração fosse recíproca, o que (até para bem da auto-estima das meninas suecas) duvido que aconteça.
Posted by Bruno at 06:47 PM
junho 04, 2006
Passos Perdidos (coluna mensal no Insurgente
A Ilusão Socrática
Ao contrário do que muito boa gente pensa, e o próprio quer fazer crer, José Sócrates é tão socialista como os seus antecessores no PS.
"Passos Perdidos" não é apenas o nome de uma divisão do nosso Parlamento. Nem sequer apenas o título do espaço mensal que hoje se inicia. É uma expressão que caracterizaria muito bem o passado recente deste país. De há dez anos para cá, este país teve, de formas diferentes, excelentes oportunidades de dar os passos que necessitava dar para sair do buraco para que caminhava. Do buraco no qual se encontra hoje. Foram passos que ficaram perdidos nas páginas dos poucos comentadores que foram aconselhando as reformas que esses passos representavam. Guterres governou durante anos de prosperidade e benesses europeias. Optou por alimentar os vícios do Estado e dos que vivem à custa do Estado, em vez de emagrecer o primeiro, transferir os segundos para o sector privado, e libertar os restantes do sufoco em que vivem. Durão, com o descalabro a que chegou Guterres, teve outra oportunidade de ouro. Ao contrário de Guterres, não tinha um país a atravessar um período de "vacas gordas". Mas o "pântano" deixado pelo antecessor permitir-lhe-ia, caso tivesse tido coragem, vontade ou capacidade, fazer aquilo que nenhum outro havia feito. Não teve coragem nem capacidade, certamente. E vontade, só teve a de se ir embora a meio. Como Guterres. Seguiu-se Santana, do qual nem vale a pena falar. Chegou Sócrates. E pouco tempo depois, era já, aos olhos de muitos, um exemplo de "coragem". De "vontade". De "capacidade". Há quem considere que é Sócrates o homem que irá dar os passos que têm ficado perdidos no caminho deste país. Há quem pense que ele já os está a dar. É pena, mas tal impressão não passa de uma ilusão.
Esquecem-se da campanha que lhe deu o poder. Para Sócrates, bastava ter "confiança" para que o país "crescesse". Bastava "voltar a acreditar". E a maioria acreditou. Acreditou que não eram necessárias reformas para que o país não continuasse na decadência em que está. Que não era preciso mudar para que as coisas melhorassem. Como acredita agora que mais uma subida de impostos pode resolver o desequilíbrio das finanças públicas. Como acredita agora que não é preciso reestruturar o Estado para que o seu peso não se torne incomportável. Como acredita agora que não é necessário retirar ao estado um determinado número de obrigações que ele hoje suporta, para que os cidadãos possam ter a oportunidade de prosperar individualmente.
Porque, tal como a maioria que acreditou em Sócrates continua a acreditar nisto, é nisto que o próprio Primeiro-Ministro acredita. Acredita que, não cabendo ao Estado participar na economia, é a sua função "conduzir" os privados na direcção certa. Acredita que cabe ao Estado ser o "pastor" do rebanho dos cidadãos. Basta olhar para a prática deste Governo. O primeiro Orçamento que apresentou era um conjunto de medidas ou irrelevantes, ou contraproducentes. O melhor que fez foi eliminar o tratamento desigual de alguns cidadãos por parte do Estado (a equivalência da idade de reforma dos funcionários públicos à dos restantes cidadãos), o que dificilmente se pode qualificar de uma grande medida reformadora. Os grandes projectos de investimento público que apresentou mostram a sua natureza dirigista. As alterações na área da habitação são um bom exemplo do carácter socialista do actual governo. O Governo não está a ocupar o espaço de outra área política que não a sua. Se os outros se sentem "roubados" é porque em pouco se distanciam do estatismo do PS. De liberalizador o Governo não tem nada. Mesmo a questão das farmácias ainda se terá de ver no que vai dar na prática. Pois pode ser como tudo o que este governo tem feito. Uma ilusão que vem alimentando.
Como explicar então o sucesso que o Primeiro-Ministro parece ter? Como explicar a sua popularidade? A situação da oposição não é explicação suficiente. Durão também enfrentou uma oposição terrivelmente fragilizada. A eficaz propaganda do Governo, a fábrica de ilusões que ele constitui, também não basta por si só, até porque, à medida que as expectativas que alimenta vão sendo contrariadas, como se viu quando o governo foi forçado a aumentar os impostos, como se viu na questão da refinaria de Sines, e como se verá certamente em inúmeros casos futuros, o Governo paga o dobro daquilo que com ela ganha. Poderá pensar-se que, no fundo, o país não quer as reformas. Não quer a "liberalização". Quer apenas, como o Primeiro-Ministro, salvar o "Estado Social", mesmo que à custa de menor riqueza (e menores benefícios do dito "Estado Social". Se há coisa que este Governo percebeu foi que o "Estado Social" possa sobreviver, para que possa desempenhar todas as funções que hoje desempenha, tem de dar menos a cada um dos muitos que dependem dele). Não duvido que essa seja a vontade do "país". Será certamente a vontade dos 60% que Medina Carreira diz viverem à custa do Estado. Mas Durão e Santana em nada se distinguiram de Sócrates neste aspecto (só o facto de Sócrates estar a fazer o que faz prova que eles pouco ou nada mudaram), e não beneficiaram de particular popularidade por causa disso.
Resta uma explicação. Os "passos" que têm ficado "perdidos". Ou melhor, a imagem que deixaram os que os perderam. Sócrates é popular porque parece "fazer". Quando se foi antecedido por Guterres, Durão e Santana, cada espirro parece um sinal de "coragem", de capacidade para agir. Quando se foi antecedido por Guterres, Durão e Santana, qualquer medida que seja tida como "difícil" para os cidadãos, é logo tida como virtuosa, mesmo que constitua um factor de empobrecimento generalizado, quando existem alternativas que, no mínimo, dariam a alguns a oportunidade de melhorar as suas vidas (as recentes alterações nas pensões são um exemplo desta confusão entre a "dificuldade" de uma medida e a sua "virtude"). Após uma sucessão de líderes políticos que contribuíram como ninguém para a descredibilização da classe política, a imagem de Sócrates, por muito ilusória que seja, é sempre vista como algo melhor que o passado. O que é realmente trágico, é que quando a ilusão socrática for vista enquanto tal, enquanto uma ilusão (e isso inevitavelmente acabará por acontecer), a descredibilização será ainda mais profunda. Depois de Santana, tudo tinha que ser melhor. Quando se vir que não é, parecerá ainda pior. Sócrates pagará por isso. Mas o país pagará mais. Se até aqui os passos se perderam, depois, dificilmente haverá alguém para os dar.
Posted by Bruno at 10:21 PM
junho 03, 2006
Suprapartidarismo
Cavaco Silva vetou a proposta de lei da "paridade" para as mulheres no parlamento, e logo as boas consciências rejubilaram. Já têm desculpa para atacar o "Presidente da direita". No Público, a jornalista Sofia Branco entrega-se a um esforçado exercício de condenação do Presidente, por este ter dito que "queria ser o Presidente de todos os portugueses", e no entanto, se ter alinhado com o "posicionamento ideológico" dos "partidos de direita". Deixemos de lado o facto de, em pelo menos um dos "partidos de direita" até existirem pessoas a favor da tal "paridade", e de nos partidos na "esquerda", haver gente que é contra. Sofia Branco tem uma curiosa interpretação do que significa ser suprapartidário. Para ela, mal o Presidente rejeitou uma proposta do Governo, revelou o seu oculto reaccionarismo. Por essa ordem de ideias, todas as propostas que não vetou teriam sido um sinal de que ele não era "suprapartidário", que estaria a assumir posições "em tudo consonantes" com o do partido do Governo. Daqui se conclui que para que fosse realmente "suprapartidário", o Presidente não deveria tomar posição. nem devia vetar, nem deixar passar as propostas. Sofia Branco não percebe o limite do seu raciocínio, e como tal, não se apercebe da imensa estupidez que o constituí. Quando Cavaco promete ser suprapartidário, quer dizer que a sua acção política não terá como objectivo entregar São Bento a um partido, como pelo menos um dos seus antecessores se esforçou por fazer. Ser "suprapartidário", para Cavaco, significa julgar cada proposta de acordo com o que entende ser melhor para o país, não para os interesses de um determinado grupo que luta pelo poder. O que implica alinhamentos, sejam à "esquerda", sejam à "direita", sejam onde for. É para isso que o cargo existe. Se não se aprecia as características do dito cargo, mude-se o regime para um regime parlamentarista, por exemplo. Mas presumo que o que Sofia Branco gostaria que mudasse seria o nome do ocupante do Palácio de Belém. Está no seu direito, aliás. Eu, por exemplo, gostaria que mudasse o do ocupante do Palácio de São Bento.
Posted by Bruno at 09:53 PM
Shine On, You Crazy Diamond
Acabou há pouco a primeira parte do concerto de Roger Waters (ao que parece, a única que a SIC Radical vai transmitir). Deixemos de lado a escusada diatribe anti-Bush, que apesar de tudo, se salvou pelo solo do guitarrista Snowy White. Roger Waters está velho. Visivelmente. A voz já não dá para tudo. Já lhe dói. Waters só ganha com isso. Quando canta a frágil Mother, uma voz mais fraca consegue, paradoxalmente, dar ainda mais força à canção. Ao cantar coisas como Wish You Were Here, Shine on You Crazy Diamond, Get Your Filthy Hands Out of My Desert, Southampton Docks, Fletcher Memorial Home, e a outra cançãozinha de The Final Cut cujo título não me recordo, canções sobre a perda de amigos, sobre a perda de vidas, ao cantá-las com a voz de um velho, de quem já perdeu amigos, de quem já viu vidas próximas serem perdidas, de quem está cada vez mais próximo de perder a sua, Waters consegue dar-lhes uma "alma" que elas ainda não tinham quando as cantava com melhor voz. Como citava o Eduardo, the sun is the same in a relative way but your older. E está melhor por isso.
Posted by Bruno at 02:12 AM
junho 02, 2006
Eu Não Vou

Mas por causa deste senhor, tenho alguma pena.
Posted by Bruno at 10:15 PM
junho 01, 2006
O Roteiro do Presidente
Nos últimos dias, o Sr. Presidente da República viajou por algumas regiões do país, no âmbito do seu "Roteiro para a Inclusão". O Presidente terá centrado o seu discurso nos mesmos temas que focou a 25 de Abril. Em Alcoutim, afirmou que o envelhecimento e o isolamento são um "peso na consciência colectiva", peso esse que não permite que se possa "confiar apenas no Estado para resolver todos os problemas". O Presidente entende que, para enfrentar os problemas para os quais tem chamado a atenção, será necessário "mobilizar as boas vontades de todos. Daqueles que têm, para ajudar aqueles que não têm". Que é necessário "trabalhar da base para o topo". Entende que é necessário criar uma "base produtiva" que permita um maior crescimento económico. Tudo isto dando destaque às "boas práticas locais", que o Presidente entende serem um exemplo para o resto do país.
Tal como o discurso no 25 de Abril, este "Roteiro" do Presidente motiva alguma perplexidade de muita gente. Estão espantados que seja o Presidente da "direita" a preocupar-se com a "exclusão social". Espantam-se que seja o "contabilista", frio e rígido, a preocupar-se com a pobreza. Por outro lado, Pacheco Pereira, no último Quadratura do Círculo, considerou que Cavaco teria começado pelo "mais fácil", e que será inevitável a confrontação com problemas muito mais sérios quando o "Roteiro" chegar às zonas urbanas. Apesar de bastante distintas nos seus méritos (a primeira é um exemplo do simplismo característico do nosso jornalismo, a segunda sinal da consciência da gravidade e complexidade dos nossos problemas sociais), estas duas reacções têm uma mesma resposta. Esta iniciativa do Presidente é mais que uma isolada acção de propaganda. É, isso sim, uma parte de uma acção que visa, a longo prazo, introduzir no debate político um novo discurso. Com este "Roteiro", o Presidente pretende passar por cima do pobre combate partidário, para criar as condições necessárias para que possa surgir uma solução política para estes problemas.
A discussão sobre as "questões sociais" está contaminada pela premissa de que cabe ao Estado resolvê-los. De que existe um problema de "distribuição de riqueza", e que cabe ao Estado "redistribuí-la", de forma a torná-la mais "justa". É normal que haja quem pense assim. O problema em Portugal é que não há quem pense de outra forma. A única discussão gira em redor de quem possuí o melhor critério de qual é a "redistribuição" mais "justa", ou, mais pobre ainda, quem é mais "competente" para conduzir a "redistribuição" que todos entendem ser necessária. O que Cavaco vem dizer é algo de muito diferente. O que Cavaco vem dizer é que esta premissa, em torno da qual todo o debate acerca da "questão social" tem girado, está errada.
Cavaco veio dizer que o Estado não tem a capacidade para resolver todos os problemas de exclusão, e principalmente, não tem a capacidade de resolver os problemas de exclusão mais acentuados, como os associados à velhice e à desertificação. É certo que diz algo que o PSD diz há muito tempo. Que é necessário desenvolvimento económico para que a pobreza possa diminuir. Mas diz muito mais. Diz que a resolução dos problemas sociais deve ser procurada da "base para o topo". Ora, isso só acontecerá se existir a consciência de que indivíduos, famílias, comunidades, empresas, organizações de solidariedade, têm obrigações e um lugar anterior ao do Estado. Que o Estado só deve agir onde e quando os primeiros falharem. E que, no seio do Estado, deverão estar primeiro as juntas de freguesia, só depois as autarquias, só depois o Governo.
É isto que o Presidente faz quando destaca as "boas práticas locais". Está a dizer aos portugueses que, em locais como Alcoutim, onde as populações não conseguem por si só sair da pobreza relativa em que se encontram, e onde o envelhecimento generalizado dessa mesma população acentua a sua pobreza, a autarquia pode responder aos problemas concretos de uma forma eficaz. Este não é um problema de "redistribuição", é um problema de acção, de vontade, de responsabilidade. Onde os indivíduos não conseguem, por si só, adquirir e manter um nível de vida com um mínimo de qualidade, e as famílias ou a comunidade não conseguem garantir esse nível mínimo aos seus, as autoridades locais devem concentrar nessas necessidades a sua atenção e os seus esforços.
O Presidente percebe que muitos dos problemas que a sociedade enfrenta são problemas "crónicos". Problemas que permanecem junto dos indivíduos que por eles são afectados muito para além do dia em que lhes surgem. O desemprego ou a pobreza associada ao envelhecimento, por exemplo. Mais, percebe que a acção do Estado acaba por gerar à volta daqueles que quer ajudar um ciclo vicioso do qual eles dificilmente podem sair. De um interior cada vez mais pobre, vai saindo a população jovem em busca de melhores condições de vida, nas grandes cidades. Deixa para trás uma população envelhecida, que, com a saída dos mais jovens, vê a sua terra perder ainda mais dinamismo, ficando ainda mais pobre. O Estado tem de entrar em acção, enchendo a classe média de impostos, de forma a suportar os brutais encargos sociais. Isto tem como efeito quase imediato a incapacidade dessas mesmas classes médias ajudarem os seus pais quando estes entram na reforma. Paradoxalmente, o Estado, ao sobrecarregar a classe média de impostos, faz com que precise de gastar mais dinheiro, pois ela deixa de poder, por si só, suportar simultaneamente os seus encargos e parte dos encargos dos seus país já reformados. O Estado vê-se assim forçado a garantir a subsistência a mais gente, o que implica que dê menos a cada um, ao mesmo tempo que retira mais a cada um dos que contribuem para esse esforço. O que por sua vez contribui para o empobrecimento generalizado da população, acentuando a sua dependência do Estado. E daqui, nunca mais se sai.
Cavaco percebeu isto. Percebeu que deste ciclo vicioso de empobrecimento e dependência só se pode sair com um maior desenvolvimento económico. O que só será possível se os indivíduos forem mais livres. Se eles poderem ter a oportunidade de lucrar com o risco que estiverem dispostos a correr. E percebeu também que, em vez de concentrar no Estado o auxílio aos que ficam para trás nessa corrida, se deve libertar os indivíduos para que eles possam desempenhar um papel nesse auxílio. Que se deve criar um sistema fiscal que não penalize as famílias de classe média, para que estas não abandonem os seus idosos ao cuidado de um Estado que nem de si próprio sabe cuidar. A mobilização de "boas vontades" de que o Presidente fala só significa algo se significar isto. Se significar a libertação dos indivíduos, famílias e associações voluntárias, para ajudarem aqueles que possam ajudar.
Mesmo os problemas urbanos que Pacheco Pereira refere (presumo que problemas como os associados ao consumo de drogas, à criminalidade, à habitação precária) têm como solução, ou parte dela, algo dentro da mesma linha. Uma economia mais aberta à iniciativa, para que essas pessoas tenham uma oportunidade de sair desse ambiente. Para que os imigrantes, por exemplo, não fiquem entregues eternamente a bairros degradados de onde não podem sair, devido à fraca mobilidade social que uma economia demasiado rígida implica. Por uma "acção social" mais aberta à iniciativa, menos sujeita a regras impostas centralmente, para que aqueles que querem e sabem como ajudar tenham a oportunidade de o tentar fazer, por outro meios que não a sucção da sua riqueza por parte do Estado. E por autarquias com maiores responsabilidades e mais mecanismos de responsabilização, para que sintam a necessidade de dar resposta aos problemas dos seus munícipes, e sejam penalizados se não o fizerem.
Algo que as boas consciências sempre gostam de referir é a "responsabilidade social das empresas". Normalmente, com isto querem dizer que é da "responsabilidade" das empresas entregar parte substancial dos seus lucros ao Estado, para que este os possa "redistribuir" de acordo com o critério abstracto de "justiça" das boas almas que o ocupem em determinado período. Por isso se dizia que, quando alguém fala em "responsabilidade social das empresas", os seus accionistas deveriam segurar as carteiras. Mas as empresas podem ter uma "responsabilidade social", sem que sejam forçadas a segurar as suas carteiras. Desde que se lhes dê a liberdade para que elas possam acordar com os seus trabalhadores esquemas individuais de protecção, sem passar pela coerção dos sistemas públicos. Ou que se lhes dê a liberdade (ou seja, que não sejam sufocadas por impostos) em grau suficiente para que possam participar, na medida da sua vontade e capacidade, na procura de soluções para os problemas particulares das comunidades onde se inserem.
Nada disto se costuma ouvir em Portugal. E Cavaco certamente percebeu que, num país domesticado pelo Estado, num país que depende do Estado, este tipo de discurso só poderá ser aceite pelas pessoas se elas passarem muito tempo a ouvi-lo. Cavaco tem dez anos para o fazer. O discurso no 25 de Abril parece ter sido um primeiro passo dado pelo Presidente. Este "Roteiro para a Inclusão" parece ser o segundo. E mesmo que não seja esta a intenção de Cavaco, o que é verdade é que o seu discurso abre um caminho para quem quiser apresentar aos eleitores um modelo de sociedade diferente. Uma sociedade onde eu possa ter uma vida melhor, mas também o meu vizinho. Onde me caberá também a mim ajudar o meu vizinho, mas também porque terei mais condições para o poder ajudar se tal for necessário. Falta é alguém que queira seguir nesse caminho que o Presidente, voluntária ou involuntáriamente, está a abrir.
Posted by Bruno at 09:52 PM