Escrito pela mão invisível de Bruno Alves. Comentários e opinião: alves.bm@netcabo.pt

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maio 31, 2006

Coesão Social

No seu programa televisivo, o dr. Paulo Portas afirmou que, em muitos locais, as farmácias são elementos de "coesão social" quase únicos. Devo dizer que o dr. Portas tem razão. Tome-se como exemplo a farmácia de Caxias, que o dr. Portas até deve conhecer. Nada contribui para a coesão social da terra como aquela farmácia. Nada socializa as boas gentes desta povoação como aquela farmácia. Por ali, trocam-se receitas de culinária, conselhos de educação dos filhos, rumores acerca da vizinhança, enfim, os mais variados assuntos. A comunidade encontra na farmácia o seu centro nevrálgico de comunhão. Pena é que não se atendam os clientes.

Posted by Bruno at 09:57 PM

maio 30, 2006

A Ler

O texto do Guest of Time (e insurgente)Fernando Gabriel, que partindo da selecção sub-21 (ou a "sub-selecção 21", como ele escreve), acaba na "avaliação" dos professores. E, no género "futebolístico", o texto de Pedro Boucherie Mendes sobre Hugo Viana. Quase exclusivamente pelas frases finais: "Há jogadores que precisam de muito mimo para se emanciparem do medo. Hugo Viana está há muito tempo longe de casa."

Posted by Bruno at 10:05 PM

maio 28, 2006

Blood Simple

Matar é fácil. Pior é limpar a porcaria a seguir. É certo que estou a falar apenas e só de uma barata, mas não deixa de ser verdade.

Posted by Bruno at 09:36 PM

maio 27, 2006

Feira do Livro

Estive hoje na Feira do Livro. O que quer dizer que tive de enfrentar um Inferno de gente (menos do que é costume, certamente por causa do jogo da selecção), de calor, suor, males vários. Vim com peso nas mãos e a carteira mais leve. E acima de tudo, sem condições para escrever o que quer que seja que faça um mínimo de sentido. Como aliás, o leitor poderá constatar.

Posted by Bruno at 09:37 PM

maio 26, 2006

Os Barrigudos

Não sei se o leitor já viu o anúncio. Não, não me refiro ao anúncio a a um automóvel em que um jovem maridinho devolve a sua mulher ao pai, por não ter gostado da experiência, e que António Barreto lançou para a fogueira. Refiro-me a um outro, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, cuja "missão" é "salvar os barrigudos". No dito anúncio, um cidadão inglês residente em Portugal, após alguns anos numa antiga república soviética a experimentar as maravilhas do comunismo, interpreta uma espécie de David Attenborough, relatando em inglês (convenientemente dobrado para a nossa língua) os hábitos societais de uma comunidade de "barrigudos", reunidos, de calção de banho Speedo, em cima das rochas, qual comunidade de leões marinhos geralmente observados em documentários da BBC. Tornou-se, portanto, socialmente aceitável equivaler os "barrigudos" a uns animais que "grunhem", não "falam", que ficam sentados na praia no meio dos seus, enquanto as esbeltas figuras da sociedade exibem a sua manifesta perfeição. Já há dias, a mesma associação pôs umas crianças magrinhas a fazer exercício, mostrando às televisões como eram mais saudáveis que os tais "barrigudos". Enfim, como Munique em 36, mas menos coordenado e menos loirinho (afinal, estamos a falar de Portugal). Há muito que se caminhava para aqui. Os "barrigudos" iam sendo progressivamente tratados como "doentes", como gente que precisava de ser "salva". No anúncio televisivo da Fundação Portuguesa de Cardiologia, até já deixaram de ser gente. São criaturas grotescas. Animais. O passo seguinte é retirar-lhes direitos. O Estado deixará de pagar o tratamento de doenças associadas à obesidade, por exemplo. Afinal, para quê tentar salvar "criaturas" que voluntariamente se entregam a tão manifesta abjecção? O leitor considera que exagero. Que nunca niguém defenderá tamanha barbaridade. Mas eu pergunto: há dez anos, se eu lhe perguntasse se os "barrigudos" precisavam de ser "salvos", se os "barrigudos" se assemelham às figuras principais do BBC Vida Selvagem, o leitor responderia que sim?

Posted by Bruno at 09:56 PM

maio 25, 2006

O Passo que Falta

O PSD anunciou recentemente uma série de propostas para a área da educação. Por um lado, o PSD propõe que a direcção da escola seja entregue, por decisão conjunta de pais e professores em assembleia de escola, a um "profissional de mérito individual reconhecido para a função", ou seja, entregar a direcção das escolas a um gestor e não a um professor. Por outro, o PSD propõe também que as famílias tenham total liberdade para escolher a escola para os seus filhos, desaparecendo o condicionamento do local de residência ou trabalho dos pais. isto para além de dar maior liberdade a cada escola no desenvolvimento do seu programa educativo. Posta de parte, pelo PSD, foi a hipótese de introdução do cheque-ensino, considerada, pelo porta-voz Pedro Duarte, como "talvez o modelo ideal, mas reconhecemos que o país ainda não está preparado, nem tem condições financeiras para isso". O PSD percebeu uma coisa. O Estado não tem a capacidade para gerir o "sistema educativo". Falta o passo seguinte, o passo que Pedro Duarte diz não ser adequado ao estado de espírito do país. Pois se o PSD percebe que o Estado não tem capacidade para gerir o "sistema educativo", falta ao PSD perceber que a independência das escolas só será eficaz quando elas dependerem das decisões individuais dos pais, e não do financiamento do Estado.

A opção pelos cheques-ensino pode ser feita de duas maneiras. Uma aplicação universal, em que o Estado paga a todos, mesmo aqueles que só por si o podiam fazer, o recurso a um estabelecimento de ensino, sendo que caberia a cada família a decisão acerca de qual o estabelecimento que iria receber esse dinheiro. Ou poderia o estado dar dinheiro apenas àqueles que não têm rendimentos que permitam aos seus filhos aceder ao sistema educativo, mas mantendo a liberdade de escolha de todas as famílias, que colocariam o seu dinheiro (seja o seu, seja o que o estado lhe deu) apenas e só na escola da sua escolha. Pois só assim cada escola e cada família seriam responsabilizadas.

Quando uma escola é financiada pelo Orçamento de Estado, a sua sobrevivência depende, não da satisfação daqueles a quem os seus serviçlos se destinam (os alunos e os seus pais), mas da satisfação do Ministério da Educação. Uma escola que recebe o seu dinheiro, o dinheiro que sustenta a sua actividade, directamente do Estado, não concentra a sua atenção na satisfação das exigências dos seus "clientes", mas na satisfação das exigências do Estado. Mas se cada família puder decidir qual a escola que receberá o seu dinheiro (seja ele seu ou um cheque que o Estado lhe atribuiu), em vez de o entregar a um Estado centralizador que depois o distribuí de acordo com o seu critério, ou sem critério algum, a escola que recebe esse dinheiro será obrigada a responder às exigências das famílias que lhe entregam esse dinheiro, sob pena de elas optarem por o entregar a uma escola concorrente. Tal modelo, para além de responsabilizar a escola pelo seu programa educativo, teria ainda o mérito de responsabilizar também as famílias, que teriam de ajuizar se determinada escola vale o dinheiro que dão pelo serviço que ela presta.

Posted by Bruno at 10:03 PM

Nas Bancas

A Atlântico deste mês. Com Rui Ramos, Luciano Amaral, Maria Filomena Mónica sobre a Casa da Música, Tiago Cavaco e a primeira blasfémia de Maria, André Azevedo Alves e os Tories, e maradona (com minúscula), sobre o Mundial de Futebol.

Posted by Bruno at 09:55 PM

maio 24, 2006

O Preço (In)certo

O artigo do Miguel Noronha na Dia D desta semana pode ser lido no Insurgente.

Posted by Bruno at 10:44 PM

New Blogs on the Block

Do Luís Silva, Luís Marvão e Miguel Noronha, o Videoclip Lounging, para a educação musical das massas. E no Arrastão, o muito aguardado regresso a estas lides do panfletário-mor do reino, o Daniel Oliveira. E a coluna dos links aqui ao lado cada vez mais desactualizada.

Posted by Bruno at 10:12 PM

maio 23, 2006

Marques Mendes e o PSD

Marques Mendes tem sublinhado várias vezes os sucessos recentes do PSD. A vitória nas autárquicas e a vitória nas Presidenciais. A segunda, ao contrário do que o líder do PSD quer fazer crer, é relativamente irrelevante para o projecto político do PSD. Mas a vitória nas autárquicas, essa não. Essa foi de facto, um sucesso. E foi um sucesso não tanto pelos resultado propriamente dito, mas pela imagem que Marques Mendes passou. Ao não apoiar certos candidatos, Marques Mendes conseguiu, em pouco tempo, apagar a maior ameaça ao partido, a falta de credibilidade que havia sido herdada do consulado santanista. A vitória de Cavaco Silva nada trouxe de novo. O bom resultado nas autárquicas foi decisivo.

O mais difícil teria que ser feito a seguir. Cimentar essa credibilidade. Ao contrário do que se tornou comum dizer, a acção governativa do PS oferecia condições particularmente favoráveis para o fazer. O estilo propagandístico do Governo permitiria à oposição oferecer um contraste mais sóbrio. Bastava para isso apresentar um linha coerente, e que, como dizia Manuela Ferreira Leite, criticasse o PS por não fazer o suficiente, e não por fazer de mais. Aqui reside outro problema de Marques Mendes, as críticas internas. As críticas de Menezes não ferem a credibilidade que Marques Mendes quer conquistar. As de Ferreira Leite sim. Mas quem lhe faz oposição é Menezes, não Ferreira Leite. E Mendes, legitimamente receoso de perder o lugar, e constantemente retratado nos media como líder a prazo, sente a pressão, sente-se obrigado a fazer uma "oposição vigorosa", que o leva a criticar o que não deve, o que motiva as críticas de Ferreira Leite, que mesmo não sendo uma sua opositora, acaba por o ferir muito mais.

Para afastar essa pressão da oposição interna, que acaba por o conduzir a uma linha que motiva as críticas de gente que lhe é próxima, Mendes precisava de limpar o partido. Precisava de ter entrado em confronto directo, não só com Menezes, mas com o líder de muitos que apoiam o autarca de Gaia, ou seja, Santana Lopes. Para isso, precisava de tempo, para os atacar. Para os provocar. Ao marcar as directas para uma data tão próxima do Congresso que as instituíu, deu a esses adversários a desculpa perfeita para se manterem escondidos, permitindo que continuem a exercer essa pressão que tanto o danifica, que o danifica por o conduzir à perda de apoio daqueles que estavam e estão dispostos a dar-lho.

Posted by Bruno at 03:04 PM

maio 22, 2006

Marcelo

Parece ser convicção generalizada que Marcelo Rebelo de Sousa será candidato à liderança do PSD em 2008. Há até quem veja isso com bons olhos. Curiosamente, aquando da apresentação do livro do André Azevedo Alves, discuti essa eventual candidatura com o André Amaral e o Gabriel Silva.

O leitor atento saberá que não nutro grande apreço pelo professor. Nunca esqueço que Marcelo um dia elogiou Nuno Morais Sarmento por este ter mantido dois canais na RTP quando havia anunciado que iria privatizar um. Note-se que Marcelo não elogiou a solução que acabou por ser adoptada, elogiou isso sim o facto de ele ter conseguido faezr o contrário do que havia anunciado. Elogiou a hipocrisia. Elogiou a incoerência. Elogiou a falta de vergonha. Nisto, tanto eu como o André e o Gabriel concordávamos. Marcelo não se distingue pela riqueza do seu pensamento político. O Gabriel dizia mesmo que foi o gosto pela politiquice que "matou" Marcelo. Mas tal como Cristo foi crucificado uma vez e voltará para castigar os pecadores, também Marcelo poderá descer à Terra uma segunda vez. E aqui, como dizia Vasco Rato no Independente desta semana, talvez fosse um melhor Primeiro-Ministro que candidato.

Nisto, eu o Gabriel e o André concordávamos. Marcelo poderia, na falta de um pensamento político solidificado, conseguir reunir em seu redor uma equipa de qualidade, essa sim, capaz de bem governar, protegida pela figura tutelar de Marcelo. Mas restaria um problema. Quando as coisas começassem a correr mal (e correriam mal. Se fizesse o que é preciso, enfrentaria descontentamento. Se não fizesse, acabaria por ter de pagar o agravamento da crise), alguém obcecado pela conspiração, pela politiquice, pela habilidade para dizer uma coisa e fazer outra, certamente deixaria cair essa equipa que eventualmente construíria em seu redor.

Restava apenas uma hipótese. Paradoxalmente, essa fixação politiqueira de Marcelo poderia acabar por ser benéfica. A ambição de Marcelo poderia ser benéfica. Marcelo poderia pensar na história. Poderia acabar por ser um governante firme, capaz de conduzir uma política que fosse ao encontro das necessidades do país, e mais importante ainda, capaz de aguentar a condução dessa mesma política, não por acreditar que ela seria a melhor, (porque não acredita), mas por querer ficar na história enquanto um governante firme. Enquanto alguém que não teve medo de perder eleições. Como alguém que conseguiu pedir "sangue, suor e lágrimas". Se Marcelo alguma vez for líder do PSD, se alguma vez for Primeiro-Ministro (o que não duvido)esta é a única hipótese de isso não se traduzir numa desgraça para este país. Pouco provável.

Posted by Bruno at 06:34 PM

maio 21, 2006

Agenda

Há dois assuntos sobre os quais queria escrever: a possível candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa à liderança do PSD, e o Congresso do PSD. Marcelo fica para amanhã. Para escrever sobre o Congresso, preciso de tempo, e uma leitura do que os jornais têm para dizer. Terça-feira, devo ter esse texto. A não ser que aconteça alguma coisa de mais relevante.

Posted by Bruno at 11:16 PM

Patriotismo e Futebol

Na próxima terça, na Casa Fernando Pessoa, discutir-se-á a relação entre patriotismo e futebol. Se todos nós, portugueses, teremos de ser adeptos da nossa selecção. Em primeiro lugar, nós portugueses, não temos, enquanto tal, de ser o que quer que seja. Quem não gosta de futebol não torce por ninguém. E se torce, é porque no fundo, no fundo, até gosta um bocadinho (excepto as mulheres, as mulheres que não gostam de futebol, que torcem por causa da histeria que por agora aí anda). Quanto aos que gostam de futebol, aos que gostam realmente de futebol, também não têm qualquer obrigação de torcer pela "nossa selecção". Claro que gostam que ela ganhe, mas não só isso tem pouco a ver com o terem nascido aqui, como até nem é o mais importante.

Devo confessar que até já estive contra a selecção. Euro 2004. Já não podia com os festejos aqui na rua por cada miserável vitoriazinha que se ia conquistando (aliás, se não escrevi sobre futebol na altura foi por causa da histeria. A ver vamos se no Mundial a coisa não se repete). Quis que Portugal perdesse todos os jogos. À excepção de dois. O primeiro, porque a barulheira ainda não tinha começado. E o último, porque já que tinha aturado aquilo tudo, ao menos que não fosse em vão. Em ambos os jogos, no entanto, a selecção conseguiu o feito de perder, apesar de ser a única equipa de futebol em campo. O que só veio dar razão às minhas preferências nos jogos anteriores.

Conheço gente que me censurou as simpatias. "Nem pareces português" disseram-me, e não o disseram como o elogio que tal frase deveria constituir. Mas por que razão devo apoiar forçosamente a selecção, só porque nasci aqui? Não "sou do Sporting" porque nasci em Lisboa. "Sou do Sporting" porque vi o Balakov a jogar no Sporting quando eu era pequeno, porque vi o Figo, o Valckx, o Paulo Sousa, e mais tarde o Pedro Barbosa. Porque o Bobby Robson era o treinador. Porque sim. Por razões que ninguém sabe. E como "sou do Barcelona" por causa do Stoichkov, do Laudrup, do Guardiola. Como "sou do Milan" por causa do Van Basten, do Rijkaard, do Gullit. Do Manchester United por causa do Schmeichel e do Cantona. E do Ajax porque em cassetes de vídeo do meu tio vi o Cruyjff lá jogar. Como "sou de Portugal" porque lá jogavam (e jogam) uma série de jogadores que não estão juntos em mais lado nenhum. O Figo, o Rui Costa, o Deco, o Paulo Sousa, e até rapaziada de que envergonho de gostar como o João Pinto ou o Paulo Bento (repare, caro leitor, como o Deco é o único jogador pós-Euro 2000 que aqui incluo. Não é por acaso). Mas "sou de Portugal" como "fui" da Holanda do Bergkamp, da Itália do Maldini, da Inglaterra do Shearer, e até da França do Zidane (só o Tour de France e o futebol justificam elogios à França da minha parte). E como "serei" neste Mundial de uma série de gente.

Mas mais que a obrigação do patriotismo no futebol, irrita-me o patriotismo emprestado a favor do Brasil. Tal como o leitor, eu ainda me lembro de inúmeros falhanços da selecção portuguesa nas qualificações para fases finais de Mundiais. E aí, sem oportunidade de pôr bandeirinhas nas janelas, o povo português mostrava a solidariedade com o "povo irmão". Ora, eu não era nascido em 82. Sócrates, para mim, é mesmo só nome de filósofo e Primeiro-Ministro. Zico era um velhinho que jogava no Japão. E Telé Santana um nome que aparecia nos livros dos "Escuteiros-Mirim" da Disney (aprendi mais coisas sobre o futebol brasileiro nestes livrinhos que em Nelson Rodrigues). E não sendo nascido em 82, eu não vi nenhuma selecção brasileira cujo treinador não desperdiçasse o inegável talento dos seus jogadores. A de 98, que perdeu na final, e merecia ter perdido antes. A de 94, que ganhou (e que eliminou a Holanda, no único jogo decente que fez), e a de 2002 ganhou mas não devia ter ganho, e onde o seu seleccionador conseguiu pôr aquela gente a jogar mal (o que poderia parecer impossível, mas esse foi o mesmo homem que pôs Portugal a empatar com o Lichtenstein, o que explica tudo) excepto nos quartos de final contra a Inglaterra, e a partir daí, tendo em conta a concorrência, já nem valia a pena entrar em campo, que o título já estava entregue. E irritava-me que a populaça me fizesse apoiar equipas estragadas única e exclusivamente pelos seus treinadores só porque os seus jogadores falam uma língua parecida com a nossa (brasileiro não é português, meu irmão). Este ano sim, o Brasil merece ser campeão (o Parreira, que deve o título de 94 a Baggio, e não a si próprio, já percebeu que o melhor que tem a fazer é não dar ordens aos seus jogadores).

O leitor aficionado do futebol certamente perceberá aquilo que os adeptos de desportos mais aristocráticos, como o ténis, já perceberam há muito tempo. O que interessa é a forma como se joga, e aafinidade que surge devido à forma como alguém jogou. Um adepto de ténis não torce por um jogador só porque sim. Torce por ele porque ele joga bem. No futebol, devia ser assim. Garrincha achava que o golo estragava o futebol. Não chego tão longe. Mas, de facto, interessa-me pouco quem marca mais. Como o Francisco José Viegas dizia numa entrevista a Carlos Vaz Marques, acerca do seu personagem Jaime Ramos, mais do que as vitórias do meu clube, eu gosto é dos "Cubillas" dos meus clubes e das minhas selecções. O Jaime Ramos do Francisco José Viegas só tinha o Cubillas do FC Porto. Eu tenho vários em vários sítios. Menos no Benfica. Um sportinguista, por muito pluralista que seja nestas coisas, nunca vê com bons olhos o que quer que seja do Benfica. Até uma derrota do Benfica, só por ser do Benfica, incomoda, quanto mais uma empate ou uma vitória, ou um golinho que seja. Do Benfica, só se aceitam faltas de comparência. O Rui Costa que me perdoe.

Posted by Bruno at 09:50 PM

maio 20, 2006

Desabafo do Dia de Um Apreciador de Futebol de Longa Data (e morador de uma zona próxima do Estádio Nacional)

O pior que nos trouxe o Euro 2004, pior ainda que a ideia de que Scolari tem uma vaga noção do que é o futebol, pior que a ideia de que o Miguel até é um bom jogador, pior que as bandeirinhas nas janelas, pior que tudo isso, foi ter, como dizem as meninas da SIC, "trazido as mulheres para o futebol". Ter "trazido" para "o futebol" as mulheres que não gostam, que não passaram a gostar de futebol. As mulheres que vão fazer parte da "mais bela bandeira do mundo", mas que não querem deixar os maridos ver a Final da Liga dos Campeões (por causa da novela). Ao contrário do que elas pensam, o Estádio Nacional não é o Centro Comercial Colombo.

Posted by Bruno at 10:41 PM

O Part-Time no Parlamento

O PS quer que a hipótese de um deputado pedir a suspensão temporária do seu mandato, alegando razões pessoais, profissionais ou partidárias, seja eliminada. A proposta é, pura e simplesmente, ridícula. Porque, como o leitor certamente saberá, as regras estipulam que tais pedidos estão sujeitos ao parecer da Comissão de Ética. Se o PS não quer que um senhor deputado (ou uma senhora deputada, convém não esquecer a paridade) suspenda o seu mandato pelas razões atrás descritas, tem bom remédio: vota contra essa suspensão. Caso a caso, pode avaliar o pedido. E caso a caso, ver se ele é "abusivo" ou não. Mas mais relevante que as intenções do PS, são alguns dos comentários que se fizeram a propósito da questão. Veja-se, por exemplo, o artigo de Marina Costa Lobo no DN de hoje. Costa Lobo considera negativo que os deputados possam estar em "part-time" no Parlamento, desenvolvendo simultaneamente carreiras mais proveitosas financeiramente. Percebo o argumento de Costa Lobo. Mas não partilho a sua visão. Costa Lobo considera que a qualidade dos deputados deveria ser "aferida (...) pelo seu desempenho no cargo", e não pela "sua carreira fora do parlamento". Não discordo. Só não percebo é por que razão o deputado deve ser impedido de desenvolver outra actividade. Tendo em conta o pouco que os deputados ganham, se não tiverem a oportunidade de receberem outros rendimentos, muitos deles optarão por receber mais dinheiro nos seus sectores profissionais, e abandonarão o Parlamento.

Se o PS quisesse realmente "dignificar" o Parlamento, deveria acabar com a possibilidade de um deputado votar em assuntos que dizem directamente respeito à sua actividade profissional (a "efectiva promiscuidade de alguma grande advocacia, ao mesmo tempo participante num orgão de fiscalização do Estado e clientelar desse mesmo Estado" a que se refere Pacheco Pereira). Tudo o resto, deveria estar sujeito apenas a dois juízos: ao do próprio deputado, e ao dos eleitores. Se existissem círculos uninominais, o eleitor poderia emitir o seu juízo acerca do comportamento do seu deputado. Assim, ele poderia faltar todos os dias, ou estar lá permanentemente. Trabalhar nas comissões ou nem squer participar no plenário. Seria uma escolha sua. Mas sempre sabendo que estaria sujeito às escolhas dos eleitores, e não à amizade do líder distrital ou do chefe partidário. A medida proposta pelo PS não "dignifica" ninguém. Serve apenas e só para o nosso Primeiro-Ministro demonstrar mais uma vez que anda a "pô-los na ordem", coisa que o eleitorado manifestamente aprecia. O que é triste é que o grupo parlamentar do PS se preste a servir de carrasco (também) de si próprio. Não dignifica muito a instituição onde trabalham.

Posted by Bruno at 10:12 PM

maio 19, 2006

O Filme que Interessa

Começou o festival de Cannes, e com ele, a histeria à volta do Código da Vinci. Isto, quando o dito festival assistirá à estreia de um outro filme, esse sim verdadeiramente merecedor de atenção. Refiro-me a Marie Antoinette de Sofia Coppola. A menina Coppola, como o fiel leitor saberá, é muito cá de casa. Com os seus dois filmes, a rapariga mostrou que o talento não tinha ficado todo para o pai. Com o terceiro, ela teria de mostrar que os dois não haviam sido apenas um fogacho juvenil, mas sim o princípio de uma carreira sólida no novo cinema americano. E o que decidiu fazer a menina Sofia? Um filme de época sobre Marie Antoinette. Parece estranho. Parece arriscado. Mas se funcionar, Sofia Coppola poderá falhar em todos os filmes que fizer depois, que terá, com os três primeiros, garantido o seu lugar na lista dos melhores da sua geração. Tanto Lost in Translation como o anterior Virgin Suicides se centravam na solidão adolescente ou pós adolescente das personagens femininas. No filme de estreia, esse sentimento tinha consequências trágicas, no seguinte, Scarlett Johansson encontrava na figura do quarentão Bill Murray uma fugaz fonte de consolo para os seus dramas existenciais. Um filme de época, biográfico, poderá parecer uma peça fora deste puzzle. Mas o facto da personagem ser uma jovem mulher, estrangeira, praticamente sozinha (como as irmãs Lisbon de Virgin Suicides) num país que não o dela (como a Charlotte de Lost in Translation), poderá, se bem sucedido, trazer a este filme uma marca autoral que consagrará definitivamente Coppola. O risco que ela correu é grande. Se o filme for tão bom como os dois anteriores, o risco terá compensado. Há, no trailer, um pequeno pormenor que me leva a crer que sim. Fico à espera da estreia em Portugal. Sabe Deus quando.

Posted by Bruno at 09:54 PM

maio 18, 2006

A Ilusão Europeísta

O dr. Durão Barroso, actual Presidente da Comissão Europeia que o leitor português recordará da sua curta experiência como Primeiro-Ministro deste país, deu uma entrevista ao programa da BBC Sunday A.M de Andrew Marr. Barroso considera, ou pelo menos disse que considera, que com o alargamento, a UE necessita de fazer reformas no que respeita à sua estrutura institucional. Reformas cujo sentido seria de entregar mais poderes a Bruxelas e diminuir o número de àreas sujeitas a votação por unanimidade dos estados-membros. Para ilustrar a sua opinião, afirmou que, desde 1992, as exportações do Reino Unido para os dez novos membros da UE aumentaram 400%. E que para "manter este mercado", a UE precisa de "um processo de tomada de decisão mais dinâmico". Este raciocínio é curioso. Porque é bastante revelador de uma forma de pensar muito própria da Comissão Europeia, muito própria dos europeístas mais excitados, muito própria de uma certa visão da política.

Deixemos de lado o facto de Durão Barroso considerar que se conseguiria um processo de tomada de decisão mais dinâmico ao afastar esse processo dos cidadãos e das suas tomadas de decisão individuais (o mercado é tanto mais dinâmico quanto mais livres forem os seus cidadãos). Concentremo-nos apenas no raciocínio atrás citado. Durão considera muito positivo que as exportaçõpes britânicas para os países de leste tenham aumentado na proporção que referiu. E considera que para as manter nessa dimensão é necessário mudar o conjunto de regras sob as quais tal situação decorreu. Não lhe ocorre que as regras que pretende substituir não tenham impedido aquilo que ele considera ser positivo, e que no seu entender jsutifica a alteração das tais regras. No curioso raciocínio de Durão, o facto de algo positivo se ter verificado é precisamente a razão para modificar as regras sob as quais tal se verificou. O velho ditado futebolístico "em equipa que ganha não se mexe" é ignorado por Durão. Em "equipa que ganha", Durão acha que se "mexe", e "mexe-se" precisamente porque "ganha". O mais provável é que deixe de "ganhar", precisamente porque se "mexeu" demasiado.

Todo o processo de "construção europeia" tem sido assim. Trouxe paz à Europa. Manteve anos e anos de prosperidade. No entanto, o que tais resultados indicam aos europeístas mais entusiasmados não é o de que o conjunto de circunstâncias que o permitiu deva ser preservado, mas que é necessário caminhar em frente. Em Bruxelas, não se prefere o familiar ao desconhecido, os proveitos do tentado à sedução da promessa de proveitos ainda maiores. Não se considera que o risco de alterar os equilíbrios que permitiram a obtenção de determinados bens possa ser demasiado alto, ao não só trazer benefícios maiores como a estragar os que já havima sido alcançados. Considera-se, isso sim, que a verificação de determinados resultados considerados positivos legitima a alteração das regras que os permitiram.

A integração europeia permitiu a consolidação das democracias europeias, ao transferir o tradicional equilíbrio de poder no continente dos campos de batalha para as reuniões dos Conselhos de Ministros. Permitiu consolidar a prosperidade dos estados europeus ao permitir que cada estado defenda o seu interesse nacional na maior cooperação possível com os seus vizinhos. O que levou os órfãos de Monnet a quererem retirar cada vez mais poderes dos estados nacionais. O que os levou a quererem sujeitar um cada vez maior número de questões políticas a uma decisão maioritária, e não unânime. O que se traduz, na prática, no fim da cooperação entre os estados, entre o avanço em função do menor denominador comum entre todos os membros, na imposição, por parte daqueles com maior poder, da sua vontade, por muito contrária que seja à dos restantes. Tem sido este o caminho europeu, o caminho da bicicleta de Dellors. Usar o que de bom se alcançou para mudar o que permitiu que esses bens fossem alcançados. É o caminho mais curto para a perda do que de positivo ele ainda vai tendo.

Posted by Bruno at 10:53 PM

Demoras

O comum politizado português costuma queixar-se do vasto tempo que dista entre a realização de eleições legislativas e a tomada de posse de um novo Governo. Com razão. É costume olhar-se para o Reino Unido e a celeridade com que as coisas se processam por lá. Faz-se bem em olhar para as terras de Sua Majestade. Mas não há comparação. Por lá, é normal que não se demore tanto tempo a pensar na formação de um Governo. Não se depende tanto dele, e portanto, pouco importa quem o constitui. Por cá, em que o Governo em tudo manda, é bom que se pense bem em quem dele deve fazer parte. Pena é que seja necessário isso acontecer. Pois torna irrelevante a questão. Governo que muito tem para fazer é Governo que muito irá estragar. Todos os cuidados na sua formação são infrutíferos, pois por muito bons que os seus membros sejam, não poderão evitar a asneira que é inerente à função que desempenham. É por isso que todo aquele tempo em que esperanmos que um Governo tome posse é uma perda de tempo. Se é para estragar, que se estrague de uma vez, para que a desgraça seguinte possa vir um pouco mais cedo. Mas o português, politizado ou não, arranja sempre consolo. Normalmente, no mal dos outros. Diz o nosso povo (para usar as palavras de Santana Lopes) que "com o mal dos outros posso eu bem". De facto, o português pode bem com o mal dos outros. Mais, não conseguiria viver sem ele. Podem bem com o seu mal, desde que o dos outros seja maior. O comum politizado português não é excepção. É por isso que, de cada vez que desespera com o tempo que dista entre a realização de eleições legislativas e a tomada de posse de um novo Governo, lhe basta pensar em Itália para ganhar um modesto orgulho na mediocridade pátria.

Posted by Bruno at 10:19 PM

maio 17, 2006

Post Para Amanhã

Durão Barroso no último Sunday A.M. da BBC.

Posted by Bruno at 11:09 PM

A Ler

Sobre a decisão do tribunal Europeu de justiça de obrigar o NHS britânico a pagar uma operação no estrangeiroa uma cidadã que não conseguiu ser operada no país, o que escreveu o Miguel Noronha.

Sobre as alterações que o governo quer introduzir no mercado do arrendamento, os posts do Luís Silva, JCD, João Miranda e Helena Matos

Posted by Bruno at 11:00 PM

Dia D

Apesar do atraso (só hoje li), não podia deixar de referir os artigos dos insurgentes António Amaral e Fernando Gabriel na Dia D da passada segunda-feira.

Posted by Bruno at 10:55 PM

maio 16, 2006

Preocupações

O Primeiro-Ministro está bastante contente com o que a OCDE veio dizer. Parece que, segundo um indicador observado pelo mesma organização, a economia portuguesa irá, nos próximos meses, enfrentar um "ponto de viragem". O Primeiro-Ministro considera que tal notícia é um sinal de uma retoma "lenta mas gradual" da economia, e claro, um rude golpe para os "maledicentes" que querem mal ao governo, e presume-se, ao país. Não quero duvidar da capacidade da OCDE para a futurologia, e muito menos do optimismo do Primeiro-Ministro. Acho, isso sim, que o regozijo do Primeiro-Ministro é bem revelador da orientação da sua governação, da forma como o Governo encara a sua função e os desafios que enfrenta.

Para o Governo, como para os seus antecessores, o que interessa é o "crescimento". É a "retoma". Nada importa, desde que a economia cresça. Mesmo que esse crescimento seja ilusório, como em grande parte o foi nos últimos anos. Ao contrário do que o Governo possa pensar, o que deveria ser prioritário não seria o crescimento, mas sim os problemas estruturais da sociedade. Crescer, de certa forma, é fácil. Basta injectar dinheiros públicos para a economia. A curto prazo, até é capaz de resultar. E até é capaz de conquistar uns votos. Claro que virão falar os "maledicentes". E dirão, com razão, que tudo não passa de uma ilusão. Que esse "crescimento" é irrelevante, se a longo prazo, nada for mudado (e que se for obtido dessa forma, até será contraproducente). Se os sorvedores de dinheiros públicos que são muitos dos serviços estatais não forem profundamente reformados (alguns) ou privatizados (os restantes). Se a Segurança Social continuar a ser o beco sem saída que é. Se nada mais que acções de cosmética e cerimónias de propaganda for feito.

O governo centra a sua acção no "crescimento", num objectivo a curto prazo. Considera que, desde que ele exista, nenhuma crítica é legítima. Ignora, ou pretende ignorar, que sem resolver os problemas que a "maledicência" aponta, nem a tal "retoma" que o governo vê estar a chegar poderá evitar o empobrecimento dos cidadãos.

Posted by Bruno at 10:32 PM

maio 15, 2006

Mundo Moderno (a minha insurgência desta semana)


O Governo anunciou que o anúncio que havia feito de um apoio a um investimento numa refinaria em Sines mais não foi que uma precipitação. Aparentemente, não se terão confirmado as promessas do empresário que o promovia. Ao invés, confirmou-se que, no que diz respeito ao Governo, uma coisa é o que diz, outra coisa é a realidade. O PSD, por sua vez, andou entretido a falar do "exterminador implacável de maternidades" que supostamente será o nosso Governo, e acusá-lo de ser "economicista". O que mostra que, se há coisa que falta no PSD, é um bocadinho de vergonha. O dr. Carrilho, um cruzado da democracia, lançou um livro. Que condena a importância dada pela comunicação social ao minuto do seu vídeo de campanha em que surge "a Bárbara" (de quem, recorde-se, o PS e o povo de Lisboa gosta muito) e o "pequeno Diniz", que apesar de considerar irrelevante, Carrilho optou por não excluir. Por todo o Continente, celebrou-se o Dia da Europa. Por todo o Continente, se ignorou o Dia da Europa. O que leva a que as boas almas da Comissão considerem que é preciso impulsionar o projecto europeu, em vez de terem a prudência que a falta de interesse que o dito projecto atrai recomendaria. Na Palestina, alguns meses sem ajudas financeiras começam a provocar uma crise humanitária, mostrando que aquele país não consegue viver sozinho. As boas consciências culpam Israel, sem olhar para a corrupção dos líderes palestinianos ou para a guerra civil que por lá ocorre. Em mais um passo para cimentar a sua já de si imensa credibilidade a ONU elegeu para a sua Comissão dos Direitos Humanos simpáticos e acolhedores países como a China, a Rússia, a Arábia Saudita, o Paquistão, e Cuba. Em França, continua o espectáculo, com Villepin a ser acusado de acusar Sarkozy da prática de condutas pouco honrosas. O que pelo menos garante que Chirac terá alguma companhia no avião em que, imediatamente após o fim do seu mandato, terá de entrar, para evitar ser preso.

Posted by Bruno at 07:44 PM

maio 13, 2006

O Lugar do Poder

A Comissão Europeia está preocupada com o futuro da ilusão que sustenta a sua existência. Parece que uma sondagem recente terá revelado que apenas 49% dos cidadãos dos países membros da UE considera que a presença na União é algo de meritório. Isto depois dos ainda recentes, se bem que aparentemente ignorados, desaires nos referendos francês e holandês. Para a Comissão, importa agora "sair do impasse". É hora de "impulsionar o projecto europeu". E para o fazer, a Comissão pretende que as questões de justiça e combate ao crime passem, ao contrário do que acontece agora, a estarem sujeitas a votação por maioria qualificada, sem direito a veto dos países membros. O que, para além de impulsionar o projecto europeu, impulsionaria também a asneira. Deixemos de lado o facto de que se um país exerce o seu direito de veto, é porque o seu governo entende que aquilo que está a vetar vai contra o interesse do seu país, e que acabar com o direito de veto é forçar os governos a aceitarem algo que eventualmente considerem errado. Sujeitar as questões de justiça e combate ao crime a um processo de decisão por maioria qualificada é, em questões que afectam directamente as liberdades individuais dos cidadãos, transferir o poder para uma esfera cada vez mais distante desses mesmo cidadãos. Ao se retirar aos governos a liberdade de vetarem políticas que afectem as liberdades dos seus cidadãos, está-se a retirar a esses cidadãos a possibilidade de responsabilizarem alguém por essa decisão. Está-se a retirar aos cidadãos o meio de defenderem as suas liberdades. Está-se, lentamente, a matar a Europa que conhecemos, um espaço de liberdade individual, em nome de uma "Europa" mítica, utópica. Mais unida, mas menos livre. É o problema das utopias. A (ilusória) perfeição não deixa grande espaço para a liberdade.

Posted by Bruno at 09:38 PM

maio 12, 2006

House

A TVI tortura-me às quintas-feiras. Devido às minhas obrigações, as minhas sextas-feiras começam às 6h30 da manhã. Ao contrário de famosos madrugadores, eu não acho isto natural. Para mais, a TVI obriga-me a, na noite de quinta para sexta, só me deitar às duas da manhã. Tudo por causa de uma sériezinha chamada House. Por causa daquela hora de boa televisão (no caso de ontem, duas horas de boa televisão), passo um dia inteiro a sofrer. Mas vale a pena. E não por cada episódio me conseguir manter acordado a horas pouco convidativas para a minha pessoa. Gosto do House, o doutor propriamente dito. Gosto da personagem, da pouco habitual circunstância de a personagem principal de uma série televisiva ser, basicamente, um gajo execrável. Da ainda menos habitual circunstância da personagem execrável ver confirmadas todas as opiniões negativas acerca da espécie humana (veja-se o caso de Archie Bunker, o percursor do dr. House, que no fim de cada episódio, era sempre dado como vencido nas discussões, a quem era sempre dada uma lição). Mas devo confessar que outras razões motivam o sacríficio semanal. A jovem que faz de dra. Cameron. A rapariguinha do House. Jennifer Morrison, de seu nome. Uma espécie de Kirsten Dunst dos pobres (Kirsten Dunst é menina para classe alta). Enfim, qualquer pessoa que aprecie (como a dra. Cameron aprecia no dr. House) a falta de consideração pelas pessoas em geral e a falta de paciência para o que quer que seja, merece a minha atenção. Mesmo que não passe tudo de um papel. E depois, há outras razões, mais visíveis (abaixo). E por causa dela, e do pouco sono que a TVI me obrigou a ter na noite passada, hoje não escrevo nada para além disto.

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Posted by Bruno at 10:00 PM

maio 11, 2006

Carrilho e Santana

Manuel Maria Carrilho dará, hoje à noite, uma entrevista à RTP. certamente a propósito do seu novo livro, onde relata a forma como se orquestrou a suposta conspiração que levou o bom povo de Lisboa a não votar maioritariamente nos inúmeros caracteres de ideias que tinha para oferecer autárquicas. É verdade que Carrilho não tem "andado por aí". Mas que também gosta de pensar que se move sempre "contra ventos e marés", lá isso gosta. No fundo, é um outro "menino guerreiro".

As semelhanças entre Carrilho e Santana não são poucas. Um é mais intelectual e cosmopolita, enquanto o outro é mais down to earth e camisa aberta no peito. Mas ambos usaram a sua pasta na cultura para construir clientelas, e conquistar apreço por parte da comunicação social. Ambos quiseram usar a Câmara de Lisboa como uma plataforma para mais altos vôos (só um teve essa oportunidade). Ambos viram a sua carreira política alimentada pela comunicação social. E ambos se queixaram dela quando caíram. Logo, na entrevista de Carrilho, certamente veremos o mesmo que se viu nas "entrevistas da vida" de Santana: o seu único erro foi confiarem nas pessoas, têm pena que os eleitores não tenham compreendido o que eles queriam fazer, mas claro, foram enganados pela comunicação social e os seus inúmeros inimigos. A não perder, portanto.

Posted by Bruno at 03:34 PM

maio 10, 2006

Apoio

Junto-me ao meu caro companheiro geracional Tiago Galvão (que no meio de uma série de referências futebolísticas ignora vergonhosamente a Holanda, nem que fosse apenas a de 74), e declaro publicamente o meu apoio à greve de fome de Garotinho.

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Posted by Bruno at 10:39 PM

A Ler

O artigo do André Amaral na última Dia D, disponibilizado por ele no seu Observador.

Posted by Bruno at 10:37 PM

maio 09, 2006

Sementes e Colheitas

O mais interessante em toda esta "polémica" da refinaria de Sines reside no facto do Governo estar a pagar, pela primeira vez (embora, diga-se, de forma ligeira), o preço da sua estratégia de governação. O preço da estratégia de "venda" da sua governação. O preço da sua propaganda. E não apenas por, como notou o João Miranda, ao se terem envolvido na cerimónia de propaganda que tratou o investimento de Patrick Monteiro de Barros como uma prioridade estratégica, ter "fragilizado a sua posição negocial". Mas também, e essencialmente, por, com um tratamento noticioso que acentua a discrepância entre a atitude inicial do Governo e a atitude presente, ter havido, da parte dos eleitores, a percepção de que os anúncios do Governo não passam de intenções, e que muito é preciso ver até que eles se concretizem. Aquilo que o Governo tem conseguido, com a sua estratégia de propaganda, é receber elogios pela sua aparente "vontade de fazer". O que esta "polémica" mostra é que da "vontade" ao "fazer" ainda vai uma longa distância. O Governo alimenta expectativas com os anúncios, defrauda-as quando o que foi anunciado não se confirma. Semeia propaganda, para colher elogios. Mas acaba por colher frustração. Desilusão. Quando o Governo começar a cair, começará a cair por aqui. E consigo arrastará a (pouca) credibilidade que resta à nossa classe política. E este sim, é o maior problema de tudo isto.

Posted by Bruno at 10:10 PM

maio 08, 2006

A Hora de Trabalhar

Nas eleições locais da passada quinta-feira em Inglaterra, o Labour entrou em colapso. Com o receio de ser empurrado para fora do poder. Blair apressou-se a remodelar o seu governo, sem que com isso conseguisse evitar o confronto com o seu grupo parlamentar (tem uma reunião hoje à noite, onde supostamente será confrontado, por alguns deputados, com a necessidade de marcar uma data para sua anunciada saída do Governo). Quem conseguiu um excelente resultado foram os Tories. Essee resultado, a forma como foi conseguido, e aquilo que se deve seguir, merece alguns minutos de atenção.

É certo que Cameron foi incrivelmente beneficiado com as recentes notícias de "trapalhadas" e escapadelas de membros do Governo. Mas se delas beneficiou foi porque conseguiu passar uma imagem de alguém em quem as pessoas podem confiar. Percebo aqueles que (em Inglaterra e não só, basta ver os meus caros colegas do insurgente, e até eu próprio, por vezes) acham que Cameron é demasiado marketing e pouca substância. Mas, no pouco tempo que teve, foi forçado a enfrentar um problema, a falta de confiança dos eleitores no seu partido. Os resultados que teve na passada semana levam a crer que, nisso, foi bem sucedido.

No entanto, não basta. E, conquistado esse objectivo, tem de começar o assalto ao poder. E, mais que isso, se quiser fazer alguma coisa com o poder que pretende vir a conquistar, tem de começar a delinear, e a apresentar, uma alternativa ao actual governo britânico. E, nesse sentido, foi positiva a sua iniciativa de hoje, ao marcar uma conferência de imprensa, que pretende ser regular (mensal, creio), aberta a questões dos jornalistas.

Poderá parecer mais um golpe de marketing. Mais uma forma de garantir uns minutos na televisão. De facto, garante. Mas é um golpe arriscado. Para quem é acusado de ter pouca substância, não é difícil de adivinhar que tipo de perguntas lhe serão feitas nos próximos tempos. Não é difícil de imaginar que Cameron terá de responder a inquisitoriais acusações dos jornalistas acerca da falta de políticas do seu partido. E a única forma de a isso responder será ter políticas, e ser capaz de as apresentar. Se não o fizer, os minutos na televisão não lhe servirão de nada. Por isso acho que estas conferências não serão uma mera operação de marketing. Porque não podem ser uma mera operação de marketing.

Aliás, hoje anunciou já que serão entregues, nos próximos tempos, alguns dos relatórios dos grupos que estão a fazer a revisão das políticas do partido. E um deles, o de George Osborne sobre a política fiscal, consistirá, segundo Cameron, de "flatter and simpler taxes". A confirmar-se, será uma boa notícia.

Posted by Bruno at 06:59 PM

Mundo Moderno (publicado ontem no Insurgente)

Evo Morales, grande líder boliviano, quer fundar uma "Comunidade Anti-Imperialista das Nações", com a simpática colaboração de Cuba e da Venezuela. Tão preocupado com o suposto excesso de poder dos EUA, não hesita em exercer o seu, para prejuízo da liberdade e prosperidade dos seus cidadãos. Também pouco preocupados com os cidadãos estão Chirac Villepin e Sarkozy, entretidos a incriminarem-se mutuamente nos mais variados "casos". Já Tony Blair e os seus companheiros (e inimigos) no Labour estão preocupados com os eleitotes britânicos, principalmente com o facto de cada vez menos deles votarem no seu partido. Por cá, algumas almas ficaram espantadas ao descobrirem, num título de primeira página de um diário, que a pouca mobilidade interna agrava o deemprego. O Governo certamente responderá obrigando os desempregados a aceitar qualquer emprego em qualquer zona do país, sem corrigir os factores que impedem essa mobilidade, dificultando assim a vida às pessoas. Patrick Monteiro de Barros, emporesário, está disposto a investir numa rerfinaria em sines e numa central nuclear em local incerto. Está disposto a investir, desde que o risco do investimento não seja dele.

Posted by Bruno at 06:51 PM

maio 07, 2006

3 Anos de Abrupto

Não querendo desvalorizar os excelentes blogs que já por cá andavam, e os excelentes blogs que por cá aparecerem, sem este, muitos de nós não estaríamos aqui. Eu não estaria aqui.

Posted by Bruno at 09:49 PM

maio 06, 2006

Ainda o CDS/PP

Noto uma coisa no CDS/PP. A ausência de vontade de avançar de algumas figuras importantes. Não me refiro à rapaziada da "banda", que só não se candidatam porque acham que agora não é a altura certa. Refiro-me aos que verdadeiramente não têm vontade de ocupar a liderança do seu partido. A pessoas de qualidade, com ideias, para o partido e para o país, pessoas que regularmente, na comunicação social, se esforçam por dar a conhecer essas ideias, mas que nunca se candidatam a líder do seu partido. Penso, por exemplo, nos irmãos Queiró, no dr. Lobo Xavier, no dr. Nogueira de Brito (o que menos aparece), em Anacoreta Correia, em Maria José Nogueira Pinto. Gente que não se cansa de, nas televisões e nos jornais, dizer que rumo querem ver ser seguido pelo partido, mas que, logo na frase seginte, diz que não se quer candidatar, que não têm disponibilidade, não têm vontade, ou que nunca pensaram nisso, ou que nem sequer mencionam essa hipótese, por nem sequer a terem colocado. Acho curioso. E tenho pena. O CDS/PP não é propriamente o partido pelo qual nutro uma maior "simpatia". Mas com algumas dessas pessoas, talvez isso mudasse.

Posted by Bruno at 06:08 PM

Fazer Futuro (publicado no Insurgente)

Faça-se um exercício engraçado. Compare-se o teor da moção ao Congresso do CDS/PP "Fazer Futuro", e o teor do discurso do seu primeiro subscritor, João Almeida. Compare-se a qualidade da primeira, com o vazio do segundo. Compare-se as ideias e o projecto da primeira, com a banalidade do segundo. faça-se a comparação, e ficar-se-á com aideia que João Almeida pouco ou nada teve a ver com a elaboração da moção que subscreve. Faça-se a comparação, e ficar-se-á com a ideia que João Almeida nem sequer compreende muito bem o que a moção diz. Faça-se a comparação, e ficar-se-á com a ideia de que o CDS/PP, para "Fazer Futuro", talvez só com Ribeiro e Castro (veja-se o seu excelente discurso, que defendeu bem melhor as ideias da moção do seu opositor, do que o discurso do próprio). Talvez. Se o deixarem.

Posted by Bruno at 06:05 PM

maio 05, 2006

Relegitimações

No mesmo fim-de-semana, os líderes do PSD e do CDS/PP procuram a sua relegitimação como líderes do seu partido. Um através de directas, outro através de um Congresso. O primeiro sem oposição, o outro sem a verdadeira oposição. Na prática, dali não sairá relegitimação nenhuma. Ribeiro e Castro pouco mais poderia fazer. Desde o princípio, nunca teve condições para fazer o que quer que seja com o partido, e não terá sido suficientemente hábil para as criar. Enfrenta uma oposição mais ou menos declarada, que o prefere ver a arder do que a candidatar-se agora. E caso se tivesse candidato, Ribeiro e Castro seria derrotado. Faça o que fizer, Ribeiro e Castro não pode liderar, no verdadeiro sentido do termo.

Já Marques Mendes poderia ter evitado a sua situação. Mas cometeu um erro grave. Marcou as eleições para uma data demasiado próxima do Congresso que as aprovou. Dando assim a desculpa que os opositores queriam para não avançarem, e assim anularem o factor de legitimação que as directas poderiam trazer a Mendes. Se as tivesse marcado para daqui a alguns meses, tal desculpa não teria razão de ser. E para além disso, Mendes teria tempo para provocar Santana Lopes a sair da usa toca, coisa que, como já escrevi aqui, seria essencial para limpar de vez aquele partido. Assim, marcando as directas para hoje, retirou à partida todos os benefícios que elas poderia trazer. É pena.

P.S.: Quando, há duas ou três semanas, ridicularizei a candidatura do João Almeida, o Francisco Mendes da Silva teve a gentileza de, logo no dia seguinte, me enviar a moção que suporta essa candidatura. Para minha supresa, e como depois foi sendo dito por aí, e se descontarmos o discurso "geracional" (escusado) e o capítulo dedicado à vida interna do partido (pobrezinho), a moção é bastante boa. O pior que poderia acontecer às ideias que estão lá defendidas seria a eleição do "João" para a liderança do CDS/PP.

Posted by Bruno at 09:46 PM

maio 04, 2006

Moussaoui

Foi ontem anunciada a pena de Zacarias Moussaoui, acusado de estar ligado aos atentados terroristas de 11 de Setembro. Não foi condenado à morte, mas apenas a prisão perpétua. Independente das minhas considerações pessoais acerca da pena de morte (contra), esta foi mesmo a melhor decisão. Para Moussaoui, a morte seria um motivo de glória pessoal, não algo que ele receasse. Assim, o tribunal negou-lhe essa glória. Acertadamente. Para mais, e como diz no seu blog Alec Russel (correspondente do Telegraph em Washington), ter condenado Moussaoui à morte seria confirmar, aos olhos da habitual brigada anti-americana, a imagem de uns EUA, e de um presidente em particular, que adoram a pena de morte. Assim, já não terão oportunidade para criticarem os EUA com uma agressividade maior que aquela que dirigem aos terroristas.

Posted by Bruno at 09:52 PM

Number Ten

No Eurosport, Boris Johnson está a jogar futebol pela Inglaterra, contra a Alemanha. Com o número Dez nas costas.

Update: o Boris (perdoem-me a familiaridade) acabou de mandar uma cabeçada nas partes baixas de um jogador alemão. Um autêntico Paulinho Santos das Ilhas.

Posted by Bruno at 12:24 AM

maio 03, 2006

A Importância da Politiquice (ou O Destino de Blair) (actualizado)

Quando era mais novito, o meu interesse pela política era meramente competitivo. O que me interessava era precisamente aquilo que a maior parte das pessoas abomina na política, ou seja, a competição pelo poder, e as estratégias conspirativas dos partidos e dos seus chefes. À medida que fui envelhecendo, fui ganhando maior interesse por coisas um pouco mais substanciais. Para mal dos meus pecados, comecei a querer saber do papel do Estado, das vantagens e desvantagens da integração europeia, e assuntos do género. Enfim, questões de governação. Ganhei até um certo desprezo pela política de corredor e pelo entusiasmo propagandístico tão do agrado dos partidos portugueses. Passei a achar que eram bons assuntos para o prof. Marcelo, e que portanto, mereciam a indiferença que os programas do dito motivavam. No entanto, a "politiquice" deve merecer atenção. A competição pelo poder, e o que os políticos fazem para o obter, deve merecer atenção, porque afecta a forma como o usam. E basta olhar para Tony Blair, por exemplo, e para aquilo por que ele tem passado, para o perceber.

Em 1994, com John Major no Governo, o então líder do Labour, John Smith, morre de ataque cardíaco. Segundo reza a história, Gordon Brown esperaria que Blair o apoiasse na corrida à liderança. No entanto, haveria um considerável apoio em redor de Blair, que terá então decidido avançar ele próprio. Ficou então aí estabelecido o célebre acordo entre Blair e Brown: Brown apoiaria Blair contra Prescott e Beckett, ao mesmo tempo que Blair prometia promover a "agenda de justiça" de Brown, dar-lhe o lugar de Chancellor (que ainda hoje ocupa), e mais importante ainda, a saída do poder em seu favor sete anos depois de ser eleito Primeiro-Ministro. Tudo se passaria como estava previsto. Brown ocupou o seu lugar, e para garantir a promoção da dita "agenda", foi-lhe dado um enorme poder sobre as políticas dos restantes Ministérios. Esse controlo terá, como supostamente se queixarão alguns fiéis de Blair, impedido que muitas das reformas que o Primeiro-Ministro desejaria levar a cabo, ficassem na mesma gaveta em que ele deixara a famosa "Clause Four" do seu partido.

Apenas faltou uma coisa: Tony Blair não deu o lugar a Brown. Blair dependera do apoio do seu colega para garantir uma tomada do controlo do seu partido de uma forma relativamente pacífica. E continou dependente desse apoio nos anos seguintes, para não lançar o partido numa guerra interna que certamente o destruíria. Mas era um apoio dado na expectativa de que ele seria pago com a entrada de Brown no Nº 10 de Downing Street. Para mais, a sua aliança com a política americana na questão iraquiana motivara a ira de boa parte do grupo parlamentar do Labour. Os apoiantes de Brown esperavam que Blair saísse no Outuno de 2004. Já não era apenas no Labour que a guerra do Iraque provocava descontentamento. Na Primavera de 2004, essa opção de Blair parecia tê-lo condenado ao abandono do poder. Ele próprio terá pensado na demissão. Mas alguns apoiantes (Milburn, Campbell, Clarke, Hewitt) terão convencido o seu Primeiro-Ministro a resistir. não queriam que Blair "deixasse" Brown ganhar. Como terá acontecido também com a sua mulher. E assim, quando Brown estava nos EUA, Blair anuncia que irá cumprir um terceiro mandato, mas que não concorrerá a um quarto. Foi isto que disse aos ingleses. Mas para Brown, a mensagem era outra: não seria agora que a promessa, feita em 1994, seria cumprida.

Para muita gente, este golpe (como o de 94) msotrava a habilidade política de Blair, o seu espírito de sobrevivência conspirativo. Na realidade, um e outro mostravam a sua fragilidade. O anúncio de mais um mandato tinha um preço para Blair. O mesmo preço que tivera de pagar em 1994: depender da boa vontade de Brown. E estava agora bem mais fragilizado do que estivera anteriormente. O fantasma do Iraque fazia temer uma queda nas eleições de 2005. Era preciso que Brown estivesse ao lado de Blair na campanha. Tal como Peter Mandelson se esforçara em 94 para manter Brown a jogar na mesma equipa, Alastair Campbell teve de suar para garantir que Brown não ficasse fora de jogo (consta que Campbell é apreciador do recurso a linguagem futebolísctica como o "jogar na mesma equipa", "suar" e "fora de jogo" aqui usados). Foi assim criado o "double-act" da campanha de 2005. Mas para que Brown participasse, Blair teve de prometer (publicamente) que iria sair antes do fim do novo mandato. Ao fazê-lo, não estava apenas a colocar-se, mais uma vez, na dependência de Brown. Estava a anunciar aos seus deputados e aos seus ministros que o seu futuro estaria dependente de Brown, não de Blair. Se ele estava de saída, pouco ou nada lhe deviam. Se Brown lhe iria suceder, seria bom que não motivassem a sua ira. Daí a dificuldade que Blair tem tido para fazer passar as suas reformas. Daí a necessidade de manter amigos no Governo. Por isso não pôde demitir Ruth Kelly. Por isso não pode agora demitir Charles Clarke, como não pode demitir Patricia Hewitt. Poderia demitir John Prescott, talvez. Prescott apenas está no Governo porque, em 97, Blair precisava de um exemplar do Old Labour que mostrasse à esquerda do seu partido que não havia mal em não nacionalizar tudo o que se mexesse. Hoje não precisa. Mas demitir Prescott seria admitir que a propaganda que trouxe o Labour ao poder não passava disso mesmo. De propaganda.

Quando Blair tomou o controlo do seu partido, os Tories estavam envoltos em inúmeros "casos". Algumas práticas pouco lícitas, outras pouco morais. Prescott ficava sempre bastante animado de cada vez que tinha oportunidade acusar a rapaziada da bancada da frente de se entregar a apetecíveis pecados. O "escândalo" de Prescott só não tem mais consequências (não pelo facto de ter traído a mulher, mas por fazer o que ridicularizou há dez anos), porque na mesma semana, algo de mais grave aconteceu. Charles Clarke, Ministro do Interior, ao admitir que um vasto número de criminosos estrangeiros não viu a possibilidade de deportação ser analisada pelo seu Ministério, estava, aos olhos dos ingleses, a mostrar que toda a propaganda securitária do Labour nos últimos anos mais não era que propaganda. Que o partido que seria "duro com o crime" (e com as suas "causas", convém não esquecer) não havia feito o que lhe competia. Que um partido que não se cansa de limitar as liberdades dos ingleses não terá feito o que devia para limitar a liberdade de "assassinos e violadores". Patricia Hewitt tem a seu cargo um serviço nacional de saúde deficitário, apesar do brutal aumento de dinheiros públicos no sector. Ao dizer isto, estava apenas a mostrar que o partido que dissera, em 1997, que restavam "24 horas para salvar o NHS", esteve nove anos a agravar a sua crise. Todos (Prescott, Clarke e Hewitt, como antes Mandelson e Blunkett) mostravam uma coisa: o partido que na era do "tory sleaze" prometera "mudança", acabava por se sujar tanto ou mais que os seus antecessores. Depois das eleições locais de quinta-feira, o destino de todos eles será conhecido. Se os resultados forem maus, será de esperar uma remodelação. Se os resultados forem muito maus, Blair terá de especificar, publicamente, a data em que irá entregar o poder a Brown. Se nda fizer, num cenário ou no outro, um grupo de deputados estará disposto a promover uma revolta contra o primeiro-Ministro. Mais uma vez, Blair está refém da boa vontade de Brown,e tem de fazer tudo de forma a que ele não a perca.

Os acordos que Blair teve de celebrar para subir ao poder, e para o manter, afectaram a sua governação. O mais recente ter-lhe-á mesmo feito perder a autoridade sobre o seu governo. A propaganda que o levou ao poder virou-se contra ele. Descredibilizou-o. É comum dizer-se que o princípio do fim de Blair, a que estamos, certamente, assistir, se deve à sua eternização no poder. Que esse é o destino de todas as carreiras políticas. Já o doutor Powell o dizia. Mas desta vez, não é assim. O declínio de Blair deve-se à forma como se deu a sua ascensão. E por isso a forma como um político sobe ao poder é importante. Por isso é importante compreender as ambições de um político. Compreender os estratagemas que usa para o obter e manter. Compreender a forma como vende a sua imagem. Porque todos esses aspectos afectarão a forma como governa. Ou como não governa. No fundo, os problemas que cria.

Posted by Bruno at 10:17 PM

maio 02, 2006

Uma Porta Aberta

Tem sido abundantemente afirmada a ideia de que, com Cavaco Silva na Presidência, o PSD perde margem de manobra. Pedro Ferraz da Costa, por exemplo, refero-o no DN de hoje. Percebo o argumento, mas não acho que seja inteiramente verdade. Mais, acho que com o seu recente discurso no 25 de Abril, Cavaco Silva abriu uma porta para a oposição, nomeadamente para o PSD. Um PSD "à deriva", como tem sido caracterizado nos últimos tempos o partido laranja, poderia aproveitar o caminho traçado pelo discurso do Presidente. Não sei se há lá quem se tenha apercebido da abertura da dita porta, e muito menos sei se lá haverá alguém que tenha vontade de a atravessar. Mas ela está lá.

Uma coisa deve ser tida em conta: a percepção que os cidadãos em geral têm do Presidente. Não do actual em particular, mas do cargo em si. A ideia de neutralidade que os portugueses, erradamente, vêem no cargo. A ideia do "guardião do regime". Do "orientador do regime". Da "voz" de "todos os portugueses". Quando o Presidente falou do objectivo de conciliar a "modernização" com o fim do desemprego crónico, da pobreza extrema dos idosos, e do incumprimento, por parte das famílias e da comunidade, das suas obrigações sociais, do fim da exigência de maiores sacríficios aos que não podem enfrentar mais privações, o Presidente está a traçar os objectivos "do regime". Do país. De "todos". Nessa ideia de orientador do regime, o Presidente não pretende trazer as soluções, pretende isso sim, apontar para os problemas, e dizer aos "gestores do momento" que questões devem ser enfrentadas.

Quando o Presidente disse o que disse, o comum português pouco ou nada se preocupou em saber se o discurso era "de esquerda" ou não. Pouco se preoucuparam com a ausência de soluções. Viram, isso sim, a enunciação de alguns problemas, que o Presidente deseja que os partidos procurem resolver. Esperam, como espera o Presidente, que os partidos proponham formas de atingir os objectivos por ele traçados. É esta a oportunidade do PSD. Tomar o discurso do Presidente como ponto de partida. Citá-lo constantemente. Mostrar como a acção governativa não permitirá que os objectivos aí enunciados sejam cumpridos. E afirmar que a única forma de o conseguir será através da liberalização do mercado de trabalho, da diminuição do peso do Estado, da diminuição da carga fiscal sobre as famílias da classe média, alterando o papel do Estado de forma a que este se concentre naqueles que não podem passar por mais privações, para utilizar as palavras do Presidente.

Utilizar o discurso do Presidente como ponto de partida, como alicerce de um programa de oposição e de governo, seria uma forma de credibilizar, aos olhos do cidadão comum, esse programa. Numa cultura política como a nossa, a "colagem" ao discurso do Presidente não será vista como uma demonstração de falta de autonomia, como certamente receia Marques Mendes. Será vista, isso sim, como uma manifestação de atenção às preocupações de "todos", expressas pelo Presidente de "todos" (uma ilusão, é certo, mas uma ilusão abundantemente partilhada). E caso este caminho fosse seguido pelo PSD, para além de ter boas hipóteses de ser bem sucedido, até acabaria por seguir no sentido certo. Duvido que aconteça.

Posted by Bruno at 10:26 PM

maio 01, 2006

Dia D

Na Dia D desta semana, o caro leitor poderá encontrar o artigo "No poupar é que está o ganho" do Luís Silva.

Posted by Bruno at 05:54 PM

Mundo Moderno (a minha insurgência desta semana)

No dia 25 de Abril, o Presidente da República não usou um cravo na lapela. As boas gentes entraram em alvoroço. O que disse mais acerca das boas gentes do que acerca do Presidente. Por sua vez, na Madeira, prosseguiu-se com o espectáculo que vem entretendo os "cubanos" há anos. O Primeiro-Ministro anunciou alterações no esquema de pensões. Uma coisa não mudou. O caro leitor continua ser obrigado a sujeitar-se a um esquema falido. Outra coisa não mudou. O Estado continua a poder alterar livremente as condições em que o obriga a sujeitar-se a esse esquema falido. Segundo o Diário de Notícias, a despesa nacional é a que mais cresce desde 2002. Um crescimento inversamente proprocional ao da credibilidade do Estado, que não pára de diminuir. O Irão ameaçou abandonar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Tendo em conta que não o tem respeitado, não se percebe muito bem onde estará a diferença. O perigo, esse, só não vê quem não quer.

Posted by Bruno at 05:50 PM