Escrito pela mão invisível de Bruno Alves. Comentários e opinião: alves.bm@netcabo.pt

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abril 30, 2006

Morreu Jean-François Revel

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Posted by Bruno at 10:00 PM

abril 29, 2006

Descredibilização do Estado

Há, em toda esta questão das mudanças aplicadas pelo governo no sistema de Segurança Social, um elemento que não tem sido suficientemente focado: a total descredibilização do Estado, da "pessoa" Estado, enquanto parte numa relação contratual. O Primeiro-Ministro bem pode garantir que, com estas alterações, assegura que os jovens de hoje terão acesso a um sistema público de Segurança Social. O Ministro Vieira da Silva bem pode assegurar que está a estabelecer as regras que irão determinar a futura compensação de quem vier a descontar. Bem podem dizê-lo, que a sua palavra vale pouco. Porque tal como as medidas que estas vêm substituir, elas poderão vir a ser substituídas. Tal como agora o Estado anulou as expectativas que os indivíduos tinham quando entraram para o sistema, poderá, direi mesmo, irá, anular as expectativas que agora alimenta quando tal se tornar necessário. É essa a natureza deste "contrato". Uma das partes tem o poder de unilateralmente condicionar os termos do contrato. O Estado tem o poder de unilateralmente alterar os termos do contrato. Estas medidas põem a nu aquilo que só não vê quem não quer ver, acerca do que é o sistema de Segurança Social. Um contrato que o Estado pode desrespeitar. Um contrato com o qual os cidadãos são forçados a se comprometer.

Posted by Bruno at 09:58 PM

Cadernos Blasfemos

Cadernos Blasfemos

Já está disponível (aqui) o primeiro dos Cadernos Blasfemos, O Investimento Público- A Ota, o TGV e outros sintomas de Elefantíase. Graças ao simpático convite dos "blasfemos", o caro leitor poderá encontrar, para além dos textos do Blasfémias, um texto deste vosso escriba, bem como dos outros convidados André Abrantes Amaral e Luís Aguiar Conraria. Ainda não tenho o meu exemplar (está a caminho, julgo eu), mas o caro leitor pode pedir já o seu. É um bom investimento.

Posted by Bruno at 09:44 PM

abril 28, 2006

Dificuldades e Virtudes

Há anos que a despesa pública não para de aumentar. A Segurança Social foi objecto de mais uma das suas múltiplas salvações. Durante o consulado de Guterres, desperdiçou-se uma oportunidade de resolver estes e outros problemas antes que eles se tornassem demasiado graves. Na posterior experiência de Durão Barroso, quando já era difícil fazer pior, fingiu-se que havia coragem para mudar, mas a única coisa a mudar foi a residência de Durão. Com Santana Lopes, ninguém percebeu muito bem o que se passou.

Com um passado como este, de inacção e adiamento da resolução dos problemas, de ilusão e sucessiva venda de banha-da-cobra, não espanta que qualquer medida tida como "difícil" seja logo recebida como um sinal de coragem, como algo necessário, como algo acertado. Foi assim com a subida de impostos levada a cabo pelo Governo. Foi assim com a suspensão temporária da progressão automática das carreiras dos funcionários públicos. Medidas irrelevantes (como a segunda), ou contraproducentes, como a primeira. Como contraproducentes foram as medidas ontem apresentadas para "resolver" o problema da Segurança Social. São medidas "difíceis"? São com certeza. Serão corajosas? Duvido. Serão boas medidas? Não são. Traduzem-se (tal como a subida de impostos) num empobrecimento dos portugueses. Que poderia ser evitado. Ou, pelo menos, poderia dar-se a liberdade para que uns pudessem tentar evitá-lo, ajudando os que não o conseguissem. Ao contrário do que o Governo quer fazer crer, a dificuldade de uma medida não a transforma automaticamente numa medida virtuosa. Esse é o truque que o Governo usa para fazer passar a sua agenda. Só cai quem quer.

Posted by Bruno at 10:04 PM

abril 27, 2006

Expectativas e Opções

O Governo apresentou uma série de medidas para resolver os problemas da Segurança Social. É com elas que o Primeiro-Ministro espera garantir a sustentabilidade do sistema. Isto porque o Primeiro-Ministro não concorda com "aqueles" que pensam que o Estado deveria permitir aos cidadãos escolher fundos de capitalização privados. O Primeiro-Ministro considera que tal opção não seria "correcta", visto que neste tipo de sistemas, "a contribuição é fixa, mas a retribuição indeterminada". Não duvido. Mas é ou não verdade que as medidas hoje apresentadas se traduzem na alteração do valor da retribuição esperada pelos indivíduos, no momento em que aderiram ao sistema de pensões? É ou não verdade que de nada lhes valeu a suposta estabilidade que a ausência de dependência do lucro que lhes foi prometida? É ou não verdade que, na prática, o valor daquilo que um indivíduo irá receber do sistema público de pensões no dia em que efectivamente se reformar, é tão "indeterminado", é tão imprevísivel, como aconteceria num sistema privado? É ou não verdade que seria preferível, que seria bem mais justo, que um indivíduo pudesse optar por se sujeitar à incógnita inerente a um sistema privado (com a segurança,uma rede, de uma contribuição mínima estatal), mas uma incógnita que ele terá capacidade de gerir, uma incógnita cuja responsabilidade é, em última análise, sua, em vez de ter se sujeitar à incógnita inerente a um sistema ao qual ele não pode fugir?

Posted by Bruno at 10:23 PM

Atlântico

Já está nas bancas o novo número da Atlântico, com um artigo do Luciano Amaral sobre o Iraque, uma reportagem de José Pedro Zuquete a partir de Jerusálem, e Maria Filomena Mónica acerca da Família. Um pequeno aviso: a minha habitual crónica "Vinte e Um" não está na sua habitual página 53, onde está o "Púlpito" do Tiago Cavaco, erradamente atribuído à minha pessoa. Andem, caros leitores, até à página 58, onde aí assim, poderão encontrar o meu objecto de humilhação mensal. Ou então, fiquem-se mesmo pela página 53 e pela crónica do Tiago, que ficam melhor servidos.

Posted by Bruno at 12:27 PM

abril 26, 2006

O Estado e os Cidadãos

Há um elemento do discurso do Presidente da República que não deveria surpreender ninguém. O seu apelo ao consenso, ao abandonar das divergências, não é nada de novo no discurso da figura. É, na modesta opinião deste vosso escriba, o que de pior nela existe. Mas, como já disse, não é surpreendente. Não é nada que eu não soubesse, e que não tivesse pesado na minha decisão de votar no senhor.

Apesar de este elemento ter tido algum destaque na imprensa, o que mais comentários motivou no discurso do Presidente foi a sua referência às "questões sociais". Segundo o Chefe de Estado, existe em Portugal uma grave "dupla exclusão do envelhecimento e da pobreza", sendo o nosso país aquele em que existem as "formas de pobreza" mais "persistentes" da União Europeia. Características que o Presidente vê como uma manifestação de "injustiça social", cuja correcção só poderá ser efectuada, como terá (segundo o próprio Cavaco) afirmado o Conselho Europeu, com "crescimento económico, competitividade, criação de emprego".

Ao contrário do que diz o Público, a "crise económica" não foi ignorada. O discurso apenas reflectiu a percepção de que a tal "injustiça social" é uma manifestação da crise económica. O desemprego crónico, a pobreza no interior do país, a pobreza dos idosos, são manifestações da deficiente capacidade que o país tem para se adaptar à conjuntura económica.

O que o Governo tem estado a fazer é a agravar esta situação. O que o Governo tem estado a fazer é a empobrecer progressivamente os portugueses. Exige-lhes mais, para lhes dar menos. Aumentou os impostos, para cortar nos benefícios. A questão das pensões que deixaram de estar isentas de impostos é sintomática. O Estado obriga alguns cidadãos a pagar impostos pelo dinheiro que já entregaram ao Estado anos antes. Este caminho traduz-se numa ainda maior rigidez da economia, que por sua vez conduz ao tal desemprego crónico que Cavaco vê como "injusto", e à dependência estatal (e precária) de grande parte da população.

Num quadro como este, não há "estrutura familiar" que possa dar o "apoio" que o Presidente considera (e bem) dever ser o seu papel. A sobrecarga de impostos é tal, que não é possível a determinadas famílias responsabilizarem-se pelos seus membros mais velhos. As consequências estão à vista de quem quiser ver. O Governo tem, de facto, mostrado alguma preocupação com os elementos mais necessitados da sociedade, e o próprio Presidente o reconhece. Reconhece também a necessidade de prosseguir o esforço que tem sido levado a cabo, mas que "não é moralmente legítimo pedir sacríficios a quem viveu uma vida inteira de privação".

Ora, só há uma forma de conseguir que os elementos mais desprotegidos da sociedade vejam a sua situação melhorada, que o desemprego crónico deixe de ser uma inevitabilidade para grande parte da população, que as famílias voltem a ocupar o seu papel na protecção dos seus, e se deixe de exigir mais sacríficios aos que já passaram por privações, ao mesmo tempo que o crescimento económico indispensável à realização destes fins possa ser promovido. A solução passa pela liberalização do mercado de trabalho, facilitando o despedimento para facilitar a contratação. Pela diminuição do peso do Estado, para diminuir a sobrecarga fiscal sobre as famílias da classe média. Permitir que todos os indivíduos possam escolher livremente os seus planos de reforma privados, libertando-se do espartilho estatal, por sua vez libertando o Estado de obrigações que não pode cumprir, e que apenas o forçam a exigir mais do que aquilo que os cidadãos se podem dar ao luxo de dar. Tudo isto permitindo que o Estado se concentre naqueles onde se deve concentrar. Nos mais desprotegidos. Nos idosos sem famílias. Nos indivíduos afectados pela incapacidade competitiva de certos sectores da economia. Naqueles que, sendo os que mais precisam de protecção, os que realmente a não podem dispensar, se vêem ignorados por um Estado mais preocupado em sugar os recursos de todos os outros, para se alimentar a si próprio.

Não sei se era isto que o Presidente tinha em mente. Martim Avillez Figueiredo parece achar que sim. O André Azevedo Alves parece achar que não. Quer seja essa a sua intenção, quer não, o caminho que o país terá de percorrer será este. Caso contrário, será, de facto, possível manter o actual modelo do Estado. Esse tem sido, aliás, o esforço do actual governo. Mas, como diz Rui Ramos no Público de hoje, continuaremos a empobrecer. Esta é uma escolha que temos de fazer. Infelizmente, não há "superação" das "naturais divergências ideológicas" que resolva este problema.

Posted by Bruno at 10:22 PM

abril 25, 2006

Discurso

Queria escrever algo acerca do discurso do Presidente da República. Queria, no entanto, ler o discurso, e o que a imprensa amanhã dirá, pois não o ouvi na íntegra, sabendo dele só que vi no Telejornal (a questão de não se poder pedir mais sacríficios aos mais necessitados e de com isso conjugar as reformas que são necessárias). Ficará, então, para amanhã, esse meu texto. Só espero que entretanto, ninguém diga o que conto aqui dizer.

Posted by Bruno at 09:42 PM

Sociedade de Mercado

O dr. Vera Jardim, no seu discurso de hoje, disse que o PS, "orgulhoso" por "ser europeu", não quer uma "sociedade de mercado", dominada, segundo ele, "pelo desejo do lucro". Depreende-se que o deputado não nutra particular admiração pelo tipo de sociedade a que aludiu, e que considere o lucro como a fonte de todos os males e elemento causador da selva brutal que seria a sociedade sem o "modelo social europeu". Não percebo o porquê de Vera Jardim olhar com tão maus olhos para a tal "sociedade de mercado". Uma "sociedade de mercado" é uma sociedade em que o valor de uma determinada coisa é aquele que cada indivíduo está diposto a dar por ela. Uma sociedade como a nossa é uma sociedade em que o valor de muitas coisas é aquele que o Estado obriga as pessoas a dar por elas.

Posted by Bruno at 09:32 PM

abril 24, 2006

Dia D

A revista que acompanha o Público às segundas-feiras oferece hoje dois artigos, dos meus caros André Azevedo Alves (A Constituição do Nosso Atraso) e João Caetano Dias (O Expresso do Oriente), e respectivas fotografias como special treat para as fãs femininas.

Posted by Bruno at 09:15 PM

Mundo Moderno (a minha coluna no Insurgente)


Nos seus carros, a caminho do Algarve, os cidadãos portugueses ouviram que alguns dos indivíduos com quem partilhavam as alegrias do trânsito pascal eram deputados da Nação. Obviamente, ficaram chocados. O PS, por exemplo, pretende diminuir o número de plenários na Assembleia. Ou seja, quer diminuir a oposição. Esquecendo-se que um dia terá de lá voltar. Parece que alguns ficaram também chocados com o que um relatório da OCDE e outro do Banco de Portugal vieram dizer acerca do país. O Governo, por sua vez, encontrará neles a desculpa para fazer o contrário do que é preciso fazer. Quem tem feito bastante, para não variar, são as autarquias. 1/5 delas terá já esgotado os limites de endividamento a que estão obrigadas. Imagino que muitas outras se juntarão, e que acabem por ultrapassar os ditos limites. A complacência para com este comportamento, por sua vez, parece ser ilimitada. Como ilimitada parece ser também a falta de vergonha na ONU, cujo Secretário-Geral, após um atentado em Israel, entendeu por bem apelar às duas partes que dialogassem, parecendo ignorar que só uma delas considerou o assassínio de vários inocentes como sendo um acto de "legítima defesa". Certamente para preparar a sua própria "legítima defesa", o Irão está a formar bombistas suicidas. O Ocidente, ao não ligar, parece querer seguir o mesmo caminho dos ditos indivíduos.

Posted by Bruno at 09:14 PM

abril 23, 2006

A Bota e a Perdigota

O dr. Marques Mendes afirmou que o Governo deveria "arrepiar caminho" no que diz respeito à sua política económica e financeira. Que deveria promover cortes na despesa e diminuir o peso do Estado. Obviamente, concordo com o que diz o líder do PSD. Mas também me recordo de ouvir o dr. Marques Mendes acusar o Governo de "perseguir" os funcionários públicos, a propósito das mesmas reformas que agora parece achar (e bem) tímidas. Não percebo como estas duas atitudes podem ser compatíveis entre si.

Posted by Bruno at 09:43 PM

abril 22, 2006

Escrita Inteligente

O leitor certamente que sabe isto. Os telemóveis têm uma funcionalidade (como agora se diz) fascinante, que dá pelo nome de "escrita inteligente". Eu não duvido. Aliás, acho que a escrita é mais inteligente que eu, porque eu não consigo fazer nada com aquilo. Não discuto os méritos da dita modalidade de escrita. Mas prefiro que a escrita do meu telemóvel seja o mais estúpida possível. Ao menos faz aquilo que eu lhe mando fazer. Que é para isso que eu a quero.

Posted by Bruno at 10:22 PM

Porteiro, Deixa-me Entrar

Pacheco Pereira faz uma referência à carreira musical de Mendes Bota. Em tempos, também tive nas mãos um exemplar das qualidades artísticas do ex-deputado. Em cassete, como Mendes Bota deve ser ouvido. Não me recordo, é certo, de hinos à paz em África, e de duetos com ex-colonizados. Mas lembro-me, e bastante bem, do glorioso refrão "ó porteiro deixa-me entrar/ que eu não tenha nada para te pagar".

Posted by Bruno at 10:11 PM

abril 20, 2006

Promessas

Há pouco tempo, Marques Mendes "desafiou" o Governo a garantir que não iria aumentar novamente os impostos. Apesar de, convenientemente, o "desafio" ter sido ignorado, o Ministro das Finanças disse, numa entrevista a Judite de Sousa, que achava que essa opção seria errada e negativa para o país. Marques Mendes tinha razões para lançar esse desafio. O Governo já uma vez havia dito que não aumentava os impostos, quebrando depois essa promessa. Se se comprometesse novamente a não os aumentar, e de novo quebrasse o compromisso, arriscar-se-ia a perder por completo a sua credibilidade. Ao querer forçar o Governo a garantir que não aumentaria os impostos, puxava o tapete ao dito. Quando Teixeira dos Santos afirmou que essa seria uma opção errada, esse tapete saiu do sítio. O Governo não caiu, porque ainda não deu um passo. Mas se o der, cai directamente no chão, sem nada que ampare a queda.

De facto, já se começa a falar em novas subidas de impostos. É coisa que se vai ouvindo, em conversa, como sendo uma possibilidade a levar a sério num período não muito distante. E a conjuntura até poderá dar a desculpa que o Governo precisa. O petróleo caro, o relatório da OCDE que diz que a política governativa é meritória mas não suficiente. Mas essa desculpa é apenas aparente. Como disse hoje Marques Mendes, o aumento da despesa pública não se deve ao aumento do petróleo, mas sim à falta de reformas. E o que o relatório da OCDE diz é que Portugal precisa de se tornar mais competitivo, objectivo que dificilmente será cumprido com um novo aumento de impostos. Desculpa é coisa que o Governo não terá.

Mas a propaganda do Governo consegue tudo. Para evitar que consiga transformar esta realidade numa desculpa para aumentar novamente os impostos, é preciso que a oposição intervenha. E que intervenha desde já. Que desde já comece a avisar que vem aí um aumento de impostos. Que desde já comece a avisar que a justificação que o Governo poderá pretender utilizar é falaciosa. Que desde já comece a "martelar" nisto. Se o fizer, e se o Governo efectivamente aumentar os impostos, dificilmente uma segunda "mentira" será obscurecida pela propaganda, como aconteceu com a primeira.

Posted by Bruno at 10:19 PM

A Ler

Como de costume, o texto do meu caro colega insurgente Fernando Gabriel acerca da questão do Irão.

Posted by Bruno at 10:15 PM

abril 19, 2006

Buscas

Juro que isto é verdade: alguém do Ministério da Cultura acedeu a este blog através da busca "escrever assunto agradável a um amigo". Gosto de acreditar que se tratou da própria ministra, desejando dar ao dito amigo a boa notícia de que havia escorraçado alguém para lhe arranjar um tacho.

Posted by Bruno at 10:44 PM

Ajudas

Uma jovem pertencente a uma daquelas organizações que vêem nos EUA a fonte de todo o Mal, e em Israel o filho dilecto do Satã bushista, interpela-me na rua, perguntando-me se eu não queria "ajudar os Direitos Humanos". Eu, apesar de sentir a eficaz chantagem emocional da menina, declino a oportunidade. A razão é simples. Se nem a mim próprio me consigo ajudar, quanto mais ajudar abstracções...

Posted by Bruno at 10:28 PM

Double Standards

Da leitora RMR, a propósito do atentado em Tel-Aviv, chega-me o seguinte e-mail:

"Já todos sabemos que as coisas são mesmo assim. Os israelitas, façam o que fizerem, são/serão sempre os maus da fita. Pode ter a certeza de que muito boa gente por cá vai aceitar a "justificação". Aliás, tal não acontecerá devido à higienização da Comunicação Scocial, pela qual não se fazem perguntas fracturantes para que o bom povo não avalie certos espécimes que por aqui pululam. O que fica bem é defender o diálogo com os terroristas (aliás activistas, combatentes pela liberdade, insurgentes, etc) e dizer que eles, coitados, são assim por causa da "muita miséria", como diz o Mário Soares. Os mais "prafrentex" dirão que os "porcos sionistas" tiverem o que mereciam. Perante tudo isto, o que me entristece ainda mais é ter noção de que, com este presente, o futuro não se afigura optimista. É como a história do polícia e do criminoso: se o primeiro alveja o segundo, é uma prepotente agressão da autoridade opressora (condimentada com racismo se o atingido não for branco). O contrário dá direito a um destaque de tipo "choroso" - não usava colete à prova de bala, a arma encravou, etc. Tudo bem esmiuçado, a culpa ainda acaba por ser do governo anterior que comprou os tais submarinos (o item mais falado nas entrevistas com a população) em vez de equipar a sua polícia."

Posted by Bruno at 10:24 PM

abril 18, 2006

Responsabilidades

O João Miranda toca num ponto interessante, quando se refere ao "caso" das faltas dos deputados. De facto, mais importante que as faltas em si, é a falta de responsabilização do comportamento dos deputados. Faço uma pequena comparação com Inglaterra. Há alguns meses, George Galloway, deputado, entrou numa das muitas versãos do Big Brother lá do sítio. Durante várias semanas, faltou ao Parlamento. Acima de tudo, porque pode. Não precisa de estar lá todos os dias, só vota naquilo que quer votar. Mas o registo dos seus votos é público. O facto de ter faltado quando se deu uma votação importante relativa à sua circunscrição eleitoral é conhecida. E como, em Inglaterra, os deputados são eleitos em círculos uninominais, os seus eleitores, plenamente conscientes do comportamento do seu representante, poderão, nas próximas eleições, penalizá-lo. Votar noutro candidato. George Galloway faz aquilo que muito bem lhe apetece. Mas será responsabilizado directamente por isso. Os nossos deputados fazem o que o partido lhes manda, sem qualquer forma de serem pessoalmente responsabilizados pelo seu comportamento. Os maus não são penalizados, e os bons não são recompensados. A mediocridade, obviamente, ganha.

Posted by Bruno at 11:55 AM

abril 17, 2006

Legítima Defesa

Após o atentado de hoje em Tel-Aviv, segundo me pareceu ouvir, reivindicado pela Jihad Islâmica, um porta-voz do Hamas terá dito que o bombista agiu, apenas e só, em "legítima defesa". Quem não soubesse, fica a saber. Para o Hamas, um atentado terrorista contra inocentes israelistas não é mais que um acto de "legítima defesa". Para o Governo palestiniano, um atentado terrorista contra inocentes israelitas não é mais que acto de "legítima defesa". Espera-se que, quando o governo israelita agir em legítima defesa (sem aspas), contra um inimigo que pensa assim, as boas consciências não venham manifestar o desagrado que hoje optaram por manter escondido. Ou que, pior ainda, nem sequer sentiram.

Posted by Bruno at 05:49 PM

abril 15, 2006

Os Bloggers Rejubilam

O CDS/PP já tem o seu Luís Felipe Menezes.

Posted by Bruno at 09:53 PM

abril 14, 2006

Awareness

Parece que Kylie Minogue, cantora pop e companheira imaginária de milhares de adolescentes por esse mundo fora, enfrentou (e superou) as agruras do cancro da mama. No Sky News, uma senhora de uma qualquer organização de ajuda às pessoas que sofrem do mal em causa tecia grandes elogios a Minogue, pela forma como teria ultrapassado a fase difícil da sua vida. Mais, por estar a contribuir para que um maior número de pessoas se tornasse, e passo a citar, "breast aware". Convém dizer que Minogue já contribuía para o breast awareness de todo o mundo há alguns anos, não precisando de ser afectada pela doença para o fazer. Era, digamos, uma questão de porte natural. E devo dizer que eu próprio sou bastante breast aware. À distância, é certo. Mas aware. Seja dos de Minogue, seja dos de quem for.

Posted by Bruno at 09:42 PM

abril 13, 2006

Ensinamentos

A farda escolar é mal vista por toda a gente. A esquerda, em geral, vê-a como um sintoma reaccionário, como um saudosismo de sistemas elitistas e orientados para a opressão do espírito. Os liberais tendem a vê-la como um factor igualizador, que pretender apagar as diferenças entre os vários indivíduos. Como bom conservador, discordo da esquerda e dos liberais. Sei ver os méritos da farda escolar. Em primeiro lugar, o sintoma reaccionário e o saudosismo de sistemas elitistas e orientados para a opressão do espírito. E em segundo, o facto do uso da farda esconder, sem eliminar, as diferenças entre os indivíduos. O bom conservador, como eu, não quer eliminar as diferenças. Não quer que um rico e um pobre tenham o mesmo dinheiro. Quer que o rico e o pobre tenham aquilo que merecem ter. E quer que, independentemente de serem ricos ou pobres, tenham um igual tratamento. É isso que a farda permite. Faz com que as diferenças sociais, normais e inevitáveis, se expressem de uma forma que conduza, numa escola, à marginalização dos pobres (ou dos ricos), devido ao diferente vestuário que inevitavelmente decorre dessas diferenças. O que, aliás, poderá permitir uma maior ascensão social dos pobres através do seu mérito. Ainda para mais, como não acho que o Estado deva ter escolas, a adopção da farda seria uma opção da escola, dando portanto aos pais total liberdade de não escolherem uma escola com farda, se não fosse esse o seu interesse.

Mas vem tudo isto a propósito de Ruben Carvalho. Confesso que tinha preconceitos em relação ao senhor. A vasta maioria deles, acabaria por ser confirmada. Afinal, o homem é comunista. Noutros casos, confesso, Ruben Carvalho revelou-se uma agradável surpresa. Lembro-me, de numa crónica de Vasco Pulido Valente, ter lido rasgados elogios à figura. O choque foi grande. Não era o género de pessoa que eu esperava ser alvo dos raros elogios de VPV. Precisamente por isso, comecei a prestar maior atenção ao senhor. Em primeiro lugar, Ruben Carvalho não se limita a repetir a "cassete" comunista. Qualquer pessoa que tenha prestado alguma atenção à sua campanha autárquica terá percebido que há ali pensamento, há ali trabalho. E para além disso, Ruben Carvalho tem coisas interessantes para dizer, fora do confronto político. Deve ser um bom companheiro à mesa de um restaurante. O seu artigo de hoje, por exemplo, sobre blogs americanos, não é o exemplo típico daquilo que se espera de um militante do PCP. A sua participação, há tempos, num programa da TSF sobre fados (assunto que me é completamente estranho) ainda o será menos, até porque Ruben carvalho mostrava conhecimento de causa, e até conseguiu tornar o assunto interessante para alguém como eu.

Perguntará o leitor: porque razão me lembrei da utilidade da farda escolar, a propósito do artigo de Ruben Carvalho? A razão é simples. Ruben Carvalho é, ele próprio, produto da imposição do uso do fardamento. E é produto dessa imposição num local onde, anos mais tarde, este vosso escriba acabaria por ser. Numa reportagem da Sábado acerca de Marcelo Rebelo de Sousa, descubro que, tal como o Professor, também Ruben Carvalho se sentou naquelas carteiras desconfortáveis onde anos mais tarde, eu me sentaria.

Depois de três anos de penalização do meu trabalho e humilhação por parte da minha professora pelo simples facto de eu ter lido um livro (aparentemente, eu não estaria a "ser criança", e teria "muito tempo para ler livros quando fosse adulto"), a minha escola primária fechou. Visto que faltava um ano para terminar o famigerado ciclo, quase toda a minha turma, juntamente com a minha opressora professora, se mudou para o estabelecimento de ensino onde o prof. Marcelo havia sido educado. A já famosa "Bertinha" (convém, caro leitor, explicar-lhe, coisa que a Sábado não fez, que o nome desta senhora deve ser carinhosamente lido como "Begtinha", tendo em conta a peculiar forma de falar da dita) acolheu-nos como só um espírito reaccionário acolhe: bem. Para mim, era um mundo diferente. Aulas de inglês (que não precisava, em virtude das circunstâncias familiares), em vez de francês (já nessa altura a Gália me perturbava). A rigidez nas regras. A ideia de que o trabalho deve ser valorizado. A ideia de que a ambição é uma coisa bonita. E a farda. Por um ano, estive em casa. Tudo aquilo me parecia ser como o mundo deveria ser. Ali, era igual às filhas do dr. Rogeiro. Apesar de elas terem estado lá a vida toda (um ano mais curta que a minha, se bem me lembro), e eu ter acabo de chegar, a única diferença entre nós estava no trabalho feito (e no facto de eu saber da existência delas, e elas ignorarem por completo a minha, o que só abona a favor delas e da educação que o pai lhes terá dado). E, apesar de nesse ano, pouca ou nenhuma educação recebi nas aulas (o espírito gaullista da minha professora não se adaptou ao ambiente "velho PSD" que se respirava naquelas reaccionárias salas), tive o mais marcante ano da minha formação.

Devo-o, acima de tudo, à farda. Aquela rígida imposição que, por muito paradoxcal que possa parecer, visa incutir um forte espírito individualista na criança que a usa. Ruben Carvalho também deve saber do que estou a falar. Embora, devo confessar, a minha fé nas virtudes que a "Bertinha" se esforçava por transmitir aos alunos da sua escola tenha ficado um pouco abalada no dia em que descobri que Luís Represas também tinha passado por lá.

Posted by Bruno at 10:28 PM

abril 12, 2006

Primavera

Sei do apreço generalizado pela Primavera. Faço no entanto parte daquela camada de gente que, no aparecimento das florezinhas, vê apenas sofrimento. Alergias. Asma. Nariz entupido. Noites sem dormir. O que explica a pouca actividade que se têm tido por aqui (isso, e o enésimo visionamento de Brideshead Revisited em versão televisiva). Disto, o governo não me quer proteger. Posso garantir-vos que a Primavera me causa males maiores que o fumo dos outros.

Posted by Bruno at 10:32 PM

A Ler

O que escreveu o meu caro colega insurgente FCG acerca da questão iraniana.

Posted by Bruno at 10:30 PM

ABC

O novo blog do meu "patrão" Paulo Pinto Mascarenhas.

Posted by Bruno at 10:25 PM

abril 11, 2006

Ordem, Liberdade e Estado

Ordem Liberdade e Estado

O meu caro co-blogger André Azevedo Alves lança amanhã (no Porto) o seu livro Ordem, Liberdade e Estado. Quem quiser, passe pelo Rivoli às 21h30. Eu terei de esperar pela cerimónia na capital, e pela chegada do livro à Fnac.

Posted by Bruno at 10:14 PM

Itália

Tenho evitado escrever sobre as eleições italianas. Em parte devido a um certo desconhecimento de causa. Não é uma realidade que siga com grande atenção, e uma cobertura jornalística que se limita a dizer que Berlusconi é vigarista e Prodi só peca por não ter "carisma" não é a melhor forma de aprender. Para mim, Itália sempre foi um país estranho. Quando era pequeno, Itália era coisa sobre a qual só ouvia a propósito de algumas coisas: o futebol, a Fórmula 1, os governos que se sucediam a ritmo vertiginoso, e as prisões e fugas dos seus políticos. Hoje, pouco mudou. Berlusconi é vigarista? Não duvido. Não fez nada para reformar um país à beira de uma grave crise? É verdade. Mas Prodi defende o contrário daquilo que se devia fazer. Parece que será Prodi o vencedor.À distância, fica-se com a ideia de que os vencedores são apenas aqueles que terão um outro país com quem gozar, para além da França.

Posted by Bruno at 10:00 PM

abril 10, 2006

Palestina

A reunião poderia não ter interesse para o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros. Mas os restantes responsáveis pela política externa dos seus respectivos países lá se reuniram para discutir as ajudas financeiras à Palestina, e como lidar com o governo do Hamas. Sobre o assunto, vale a pena ler o que David Rennie escreveu no seu blog:

"Empty rhetoric alert. A maddening buzz-phrase has caught on among EU leaders discussing the new Hamas-led government in the Palestinian territories.

Europe, the line goes, cannot send money directly to Hamas, because it is on the EU terror list. But, it continues, Europe cannot stop all aid, because that would "punish" Palestinian voters for their democratic choice.

I'm in Luxembourg today, at an EU foreign ministers' meeting, where Jack Straw, the Foreign Secretary, give a bravura rendition of the buzz-phrase. "We do not wish to punish the Palestinian people for the decision they freely made to elect a Hamas-dominated government," he said. Um, why not?

(...)At the risk of sounding contradictory, I did not actually support those sanctions on Austria (other EU leaders refused to shake hands with the Austrian chancellor, basically) - much as I disliked the sound of Mr Haider.

Mr Haider broke no law, and Austrians chose him democratically. I did not admire his supporters, but that is a different matter. Life is also, on balance, going to get harder for the Palestinian people, in all sorts of ways, now that they have elected a terrorist government, so there will be some suffering on the back of their democratic choice.

Perhaps all I am saying is that I wish Britain's Foreign Secretary and other EU politicians would stop making it sound as though electing Hamas was a blameless act."

Posted by Bruno at 06:51 PM

abril 08, 2006

Sócrates no Olimpo

O pormenor já foi abundantemente notado. O Primeiro-Ministro vive no Olimpo. Enquanto os seus Ministros repetem asneira atrás de asneira, enquanto se entretêm a comentar os "desabafos" uns dos outros, e a invejarem as competências do parceiro do lado, o Primeiro-Ministro limita-se a mostrar o seu carácter divino. Com ele, apenas temos acção. Coragem. Determinação. Para quê comentar as desavenças de seres menores como aqueles que estão às suas ordens? Para quê sequer agir quanto à manifesta falta de senso de pelo menos um deles? O propósito é óbvio. O Primeiro-Ministro mantém-se afastado de tais confusões, para não manchar a sua imaculada figura política.

A imagem pública de Sócrates dificilmente poderia ser melhor. Toda a gente lhe reconhece vontade. Toda a gente lhe reconhece capacidade de "fazer", e acima de tudo, a capacidade de "vender" aquilo que "faz". Ao não descer ao grau comezinho dos "desabafos" dos seus ministros, Sócrates mantém-se acima da lama. Enquanto os seus Ministros perdem credibilidade. E enquanto o contraste entre Sócrates (o "Chefe") e os seus Ministros (os subordinados) aumenta. Aliás, dificilmente Sócrates poderá querer passar para a História de outra forma que não esta: que todos os erros, que todos os problemas, da sua governação, lhe sejam completamente alheios. Que ele "fique" como um grande Primeiro-Ministro, um grande chefe, que só teve o grande azar (mas não a culpa) de ter incompetentes e invejosos sob o seu iluminado comando.

Não duvido que seja isto que passa pela cabeça do Primeiro-Ministro. Duvido, isso sim, que ele tenha sucesso. Porque o "azar" de ter incompetentes e invejosos sob o seu comando é também culpa sua. Como Primeiro-Ministro, Sócrates é responsável pelas decisões dos seus Ministros. É responsável pelas suas desavenças. E é responsável pelos problemas que estas eventualmente tragam. É verdade que Sócrates se mantém "limpo" ao não comentar os "casos" que animam os jornais, e é verdade que se mantém "limpo" ao mostrar indiferença perante as asneiradas do Ministro dos Negócios Estrangeiros. Mas ao não fazer nada, permite que os conflitos se agravem. Ao não fazer nada, permite que a posição do Ministro dos Negócios Estrangeiros fique cada vez mais fragilizada, arrastando consigo a própria política externa do país. E isso é responsabilidade sua. Não é um azar. Por agora, ninguém nota. À medida que tudo se agravar, será a ele que se pedirão contas.

Não posso dizer que tema pelo futuro do Primeiro-Ministro. Preocupa-me, isso sim, o que daí pode advir. Preocupa-me que Sócrates contribua para uma ainda maior descredibilização da classe política portuguesa. Sócrates tem aqui uma grande responsabilidade. Depois das fugas de Guterres e de Durão, e do inqualificável período de Santana, a imagem "competente" de Sócrates foi vista por muito boa gene como uma benção. Por um lado, facilitou-lhe a vida. Mas por outro, faz com que se ele cair, dificilmente alguém poderá voltar a subir. Com a sucessão de Guterres, Durão e Santana, desceu-se tão baixo que não era difícil subir muito. Mas quanto mais alto se sobe, maior é a queda. Sócrates aparece como o político "decidido", figura que, desde Cavaco estava ausente da política portuguesa. Quando a sua imagem se degradar, como inevitavelmente acontecerá, se ele se mantiver afastado dos problemas do Governo, não será apenas ele que cairá do seu pedestal. Trará consigo a pouca confiança que os cidadãos ainda vão tendo em quem os governa. Qualquer reforma que se queira fazer, depois disso, não passará de uma ilusão. Uma ilusão como a imagem de Sócrates.

Posted by Bruno at 09:45 PM

abril 07, 2006

Escolas e Autarquias

Segundo a TSF, a Ministra da Educação terá garantido ao país que nenhum escola fecharia sem a concordância da respectiva autarquia. O que, a ser verdade, apenas quererá dizer uma coisa: nenhum escola irá fechar. A razão é simples. Num quadro ideal, parece-me apenas e só sensato que a autarquia tenha uma palavra a dizer quanto ao que se passa, e ao que se deixará de passar, nas escolas que estão no seu "território". Terão, em princípio, uma melhor capacidade de perceber os problemas particulares do seu concelho. O problema está em que a sua palavra não é minimamente responsável. O dinheiro que as autarquias gastam nas suas escolas não é dinheiro que as autarquias têm de cobrar. É dinheiro que o Orçamento de Estado lhes dá. O que faz que o único elemento que os autarcas têm de ter em conta, quando tiverem de dar uma "palavrinha" quanto ao eventual fecho de uma escola, será o voto dos seus munícipes. O custo de manter aquela escola não o preocupa, porque não é ele que cobra os impostos que o cobrem. O autarca sabe que não tem qualquer elemento de responsabilização. Sabe que pode "defender a terra", sem ter de pagar o preço.

Posted by Bruno at 09:56 PM

abril 06, 2006

Mostrar Serviço

Os espectadores mais atentos da Quadratura do Círculo certamente já terão reparado no pormenor. Quando o tema em discussão é um dos muitos assuntos em que a propaganda governamental é bem sucedida nos seus intentos, o dr. Jorge Coelho conversou sempre com o Ministro do sector. E essa conversa permiti-lhe assegurar que as reservas que Pacheco Pereira e Lobo Xavier eventualmente levantem são infundadas. Já quando a discussão se centra em qualquer elemento que seja negativo para o Governo, o dr. Jorge Coelho avisa sempre que só sabe "aquilo que veio nos jornais". Em todos os programas, isto repete-se. Todos.

Presumo que quanto à questão da visita de Freitas do Amaral ao Canadá, Jorge Coelho não tenha falado com ninguém, e que portanto só saiba o que leu nos jornais. No entanto, não deixou de dizer que, caso Freitas não tivesse ido ao Canadá, os mesmos que o criticam por ter ido, tê-lo-iam criticado por ficar em Portugal. Ao contrário do que Jorge Coelho possa pensar, isso não iliba o Ministro. Se Jorge Coelho quis insinuar, como me pareceu (e pelo que Carlos Andrade disse a seguir, não fui o único), que Freitas não tinha outra escolha que não fazer a viagem, para mostrar que, como diria Bill Clinton, "sentia a dor" dos repatriados, então, isso não abona nada a favor do Ministro. Um Ministro cuja preocupação cimeira é mostrar que "se preocupa", um Ministro que coloca a sua preocupação com as críticas que determinada conduta (ficar em Portugal, e tratar o problema através dos normais círculos diplomáticos) poderá trazer, acima da eficácia da sua acção, é um mau Ministro. É um Ministro que coloca a sua imagem pessoal à frente da imagem do seu país, que coloca a sua sobrevivência política acima da boa governação. Só que às vezes o feitiço vira-se contra o feiticeiro. Talvez fosse bom Jorge Coelho ter uma conversinha com Freitas.

Posted by Bruno at 10:11 PM

abril 04, 2006

Bizarrias

Parece que a Comissão Europeia liderada por José Manuel Barroso (nome belga de um senhor que talvez conheça, chamado Durão) comunicou ao Governo português que este tem dois meses para se ver livre da golden share que detém na Portugal Telecom. E aparentemente, não irá seguir o "método ONU" de ficar zangada e escrever uma carta a dizer o quão zangada ficou. Nada disso. A Comissão Europeia parece mostrar vontade de seguir o modelo "western", ameaçando o Governo com um processo no Tribunal de Justiça. O Ministro das Finanças, no entanto, não se deixou amedrontar. O Primeiro-Ministro não é o único animal feroz do Governo, ficamos nós a saber. Segundo o dr. Teixeira dos Santos, Portugal não "desistirá" das golden share que detém, e está disposto a "utilizar os mecanismos jurídicos de que dispõe para defender o seu ponto de vista e a sua posição". Tudo porque, entende o Ministro, as golden share não são uma "bizarria portuguesa". Confesso que não sei se são uma bizarria exclusiva do nosso país, ou sequer se são uma bizarria ou apenas algo errado. O que é certamente bizarro é que o Governo esteja disposto a gastar dnheiro num processo que sabe que vai perder. Que o Governo esteja disposto a gastar dinheiro público num processo cujo desfecho mais que certo será uma derrota dos interesses daqueles que gostam de usar algumas empresas como plataforma dos seus programas políticos, e como agências de emprego dos seus fiéis.

Posted by Bruno at 09:51 PM

abril 03, 2006

Mundo Moderno (publicado ontem no Insurgente)


O Primeiro-Ministro anunciou o plano de simplificação da burocracia estatal. No entanto, não lhe ocorreu a simplificação da propaganda com que apresentou o dito plano. Propaganda é coisa com a qual o Governo não tem cuidados de poupança. Quem também não teve grande cuidado esta semana foi o Ministro dos Negócios Estrangeiros. Tendo em conta o que ouviu em "alguma comunicação social", Freitas do Amaral não hesitou em manifestar o seu desagrado relativamente à forma como alguns emigrantes portugueses teriam sido tratados pelo Governo canadiano. Sem qualquer vergonha na cara, foi de seguida forçado a engolir as suas palavras, como o país inteiro se vê forçado a engolir a sua incompetência e a sua ânsia de aparecer. Ânsia que se parece ter perdido em Luís Felipe Menezes, que decidiu não se candidatar à liderança do PSD. Talvez por ter percebido que a melhor oposição que poderia fazer seria manter-se ausente, descredibilizando a própria corrida eleitoral. Credibilidade que Marques Mendes continua a querer que seja o centro da condução da sua liderança, mas que perde irremediavelmente de cada vez que faz declarações como as que fez relativamente à questão das manternidades, cuja demagogia será certamente atestada pela semelhança com as de Manuel Alegre. Em França, os "jovens" estão na rua, para, como dizia a The Economist, terem um emprego certo à saída da Universidade, e não apenas dois anos depois. Villepin tentava sobreviver. Sarkozy mostrava a sua hipocrisia, e Chirac fazia a sua pequena emboscadazinha aos dois. Ficam todos bem uns para os outros. Os "jovens", Villepin, Sarkozy e Chirac. Mas com a violência que se espalha pelas ruas de Paris, talvez os franceses possam imitar os portugueses, e pedir exílio político no Canadá. Teriam mais razões para isso.

Posted by Bruno at 07:32 PM

abril 02, 2006

A Ler

O editorial de hoje do Sunday Telegraph, acerca do Irão e das suas ambições nucleares:

"But what, you might ask, has any of this to do with us? The answer is that Iran's nuclear ambitions go well beyond the regional. Two years ago, the mullahs deployed Shahhab-3 ballistic missiles, with a range of 800 miles. Last October, this newspaper revealed that Teheran was receiving clandestine shipments of missile technology from North Korea. The best estimate is that Iran will have the bomb by 2008.

This is not some symbolic goal: the ayatollahs are building nuclear weapons because they want to use them. President Ahmadinejad has called for the annihilation of Israel. His adviser, Mohammad Ali Ramin, wants to export military technology to the 150 countries that he believes would back Iran against the West. Another adviser, Hassan Abbasi, has - in addition to calling Britain the "mother of all evil" - observed that, once George Bush leaves office, the West will return to its traditional quiescence.

He is probably right: for the past decade, the EU has pursued a policy of "constructive engagement" with Iran. In what must stand as his single greatest failure, Jack Straw has repeatedly visited -Teheran, hoping naively to coax the mullahs out of their nuclear ambitions."

Posted by Bruno at 10:24 PM