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janeiro 31, 2006
Israel e o Hamas
Sensatamente, os países da União Europeia, tal como os EUA, avisaram o Hamas, recente vencedor das eleições palestinianas, de que as ajudas que têm sido dadas à Autoridade Palestiniana terminariam, caso o Hamas não renunciasse às suas práticas terroristas e não aceitasse o direito de existência de Israel. Segundo o que ouvi na RTP, o Hamas entendeu por bem ignorar o aviso. Tendo em conta que daqui poderão resultar tempos ainda mais atribulados na região, convém não esquecer uma coisa. Convém não esquecer que Israel cedeu algumas das suas pretensões, no sentido de assegurar o fim do conflito com a Palestina, ao mesmo tempo que garantia para si as condições de segurança que os seus responsáveis políticos entendiam ser necessárias. Convém não esquecer que quem votou maioritariamente num grupo que defende a aniquilação do país vizinho foi a grande parte do eleitorado palestiniano. Convém não esquecer que, se o conflito se agravar, quem quis a guerra foi o Hamas, e que o país que procurou a paz, Israel, tem todo o direito de se defender. Convém não esquecer.
Posted by Bruno at 10:14 PM
janeiro 30, 2006
Vasco Pulido Valente
No Espectro, Vasco Pulido Valente junta-se a Constança Cunha e Sá.
Posted by Bruno at 09:16 PM
Mundo Moderno (o meu texto semanal no Insurgente)
Cavaco Silva foi eleito Presidente da República. Apesar disso, as inteligências pátrias consideram que ele, no fundo, perdeu. Modernidades. Alegre foi o segundo mais votado. Tendo em conta que a sua campanha foi de um vazio impressionante, o único comentário que se pode fazer acerca dela será a propósito do seu resultado. O seu discurso foi interrompido pelo do Primeiro-Ministro, que afirmou não ter reparado que Alegre discursava, visto ter demorado muito a chegar à sala de imprensa, em virtude de ser forçado a andar de muletas. Foram portanto as muletas a amparar a sua falta de educação e de vergonha. Soares foi o terceiro mais votado. Aparentemente, também vai andar por aí. Jerónimo de Sousa foi andando, e de sorriso em sorriso, arranjou mais razões para sorrir. Razões essas que parecem ter fugido a Francisco Louçã. Os resultados deram razão a Joana Amaral Dias, uma das grandes vencedoras da noite eleitoral: Soares era de facto o melhor candidato possível para o BE. O futuro ex-Presidente, Jorge Sampaio, fez um discurso insurgindo-se (salvo seja) contra as "restrições gritantes às liberdades e aos direitos dos cidadãos" provocadas pelas escutas telefónicas. Nada contra. Apenas estranho que este discurso tenha vindo de alguém que em tempos veio defender a inversão do ónus da prova para alguns crimes. Num telejornal, ouvi falar da criação de uma "polícia ambiental", para lidar com "crimes contra a qualidade de vida". Não ficou claro se, para a dita agir, será necessário ao ambiente apresentar queixa. No mesmo telejornal, informava-se a populaça do facto de "as autoridades aconselharem o uso de roupas quentes" para enfrentar os dias frios da semana. O povo agradece. Até então, o recurso a roupas quentes nos dias frios era-lhe inteiramente desconhecido.
Posted by Bruno at 09:15 PM
janeiro 29, 2006
Curb Your Enthusiasm
Começa amanhã, na Dois, a genial série de Larry David. A não perder. Já vi.
Posted by Bruno at 10:08 PM
janeiro 28, 2006
Comprado

O novo livro de Pacheco Pereira. Só não sei é se estarei na apresentação. A mais que provável presença de uma multidão desencoraja-me, mas enfim...
Posted by Bruno at 09:55 PM
janeiro 27, 2006
Como Lidar Com o Hamas
As reacções dos governos (europeus e americano) à vitória do Hamas têm sido sensatas. Aceitar o resultado. Mas deixar bem claro que não se poderá tolerar uma manutenção da política terrorista da organização, nem o seu compromisso com a procura da aniquilação do estado de Israel. Nos próximos tempos, certamente se ouvirá muito boa gente a afirmar que é necessário estabelecer laços com o novo poder palestiniano, de forma a atraí-lo para o consenso em redor da paz. Convém não esquecer que foi isso que a UE fez durante anos com a Autoridade Palestiniana comandada por Arafat. Convém não esquecer que a corrupção da Autoridade Palestiniana comandada por Arafat, corrupção essa que muito boa gente diz estar na origem da derrota da Fatah e do apoio popular que o Hamas goza, foi durante anos alimentada por essa UE dialogante e cheia de boas intenções. Tal como Bush fez com Arafat, a melhor forma de lidar com o Hamas não é com ele dialogar, de forma a atraí-lo. É ignorá-lo. Isolá-lo. Não alimentar os seus vícios. Forçando-o a aceitar o mínimo tolerável. O direito do estado de Israel a existir. E só quando isso for aceite pelo Hamas, tratar a organização como alguém com quem se pode dialogar. Até lá, são um grupo terrorista, que como tal, não merece nada.
Posted by Bruno at 09:42 PM
janeiro 26, 2006
Sobre a Palestina
Penso que em tempos escrevi que o facto de o Hamas tencionar concorrer às eleições na Palestina representava um sinal de fraqueza da organização, forçada a procurar nas urnas uma legitimidade que sentia não conseguir através das armas. Se não o escrevi, pelo menos pensei-o. Hoje, penso que estava enganado. A corrupção promovida pela Fatah ao longo de anos, e a fraqueza de Abu Mazen, incapaz de se impôr aos seus radicais inimigos internos, conduziram a vitória de hoje de uma organização terrorista. Como escreve o meu amigo Paulo, estamos na presença de "um desastre". A questão é simples, e foi posta pelo meu quase-vizinho jcd: como pode Israel negociar com quem pensa, escreve" a favor da aniquilação da sua existência? Tenciono escrever amanhã alguma coisa sobre o assunto. Até lá, limito-me a repetir as palavras do meu amigo João: "Com um líder alucinado no Irão e com um partido como o Hamas no poder na Autoridade Palestiniana, o mundo parece estar a dar uma grande volta. E, porque esta é uma altura de decisões, há que definir o que cada um quer, o que cada um de nós está disposto a dar pelas escolhas. Porque, a menos que se queiram converter ao Islão ou tenham um burguês repúdio pelo Estado livre de Israel, só há um lado a escolher. E eu há muito que escolhi o meu."
Posted by Bruno at 10:22 PM
Sobre o Irão
Vale a pena ler o post de Anton la Guardia. Um pequeno excerto:
"Isfahan converts uranium into uranium hexafluoride UF6, which in its gaseous form is spun at high speed in the centrifuges to extract the fissile isotope. So if Isfahan is destroyed, then Iran would have no domestic source of UF6.
Its well-protected centrifuges would stand idle in their bunkers. Moreover, nuclear experts say that while enrichment facilities can be rebuilt and hidden from inspectors, a uranium conversion factory is harder to conceal.
A neat solution, perhaps. But Iran knows its own vulnerabilities - and according to the IAEA it has started to build bunkers under Isfahan to protect its UF6. More on this will follow."
Posted by Bruno at 10:14 PM
Chris Penn (1965-2006)
Os cinéfilos dividem-se em dois grandes grupos. Os que hoje disseram que o irmão do oscarizado Sean Penn havia morrido, e os que em tempos comentaram o facto do irmão de Chris Penn ter ganho um Óscar. Orgulho-me de me contar entre os segundos.
Posted by Bruno at 10:07 PM
janeiro 25, 2006
A Oportunidade e o Sucesso
N'O Espectro, Constança Cunha e Sá escreve o seguinte:
"Em Portugal, a “sociedade civil”é um produto do Estado que a emprega e a subsidia e lhe garante o essencial. O país, na sua generalidade, “sociedade civil” incluída, remedeia-se à custa do Estado. Ao contrário do que os liberais apregoam, o Estado, entre nós, não está na origem dos problemas: é chamado a resolução dos mesmos. Para assegurar o emprego à custa da competitividade. Para evitar falências. Para garantir os direitos consagrados na Constituição. Para distribuir subsídios que promovam a cultura, investimentos aos empresários e iniciativas da “sociedade civil” que não existe, nem se manifesta se não à custa do Estado."
Não pretendo contradizer CCS. Em Portugal, "sociedade civil" é nome sem ser sujeito. Escreve-se, mas não existe. É uma ilusão alimentada pelo mesmo Estado do qual supostamente se deveria libertar. CCS não poderia ter mais razão. Apenas não considero, como me parece que CCS considera, que tal situação desqualifique a adopção de políticas liberais em Portugal. Apesar de defender uma liberalização política no nosso país, não considero (talvez seja por isso que não sou um liberal, apesar de concordar com eles) que essa opção traga consigo, forçosamente, o sucesso. Mas trará certamente a oportunidade. Oportunidade essa que não existe no modelo estatista que hoje temos. Mas se a oportunidade passaria a existir, não passaria disso mesmo. E poderia ser desperdiçada. Os empresários portugueses poderão ser demasiado ineptos, as empresas poderão ser demasiado ineptas, enfim, todos nós poderemos ser demasiado ineptos. E assim, não há modelo, por mais propício ao desenvolvimento que seja, que nos salve. Mas o mais provável é que uns sejam ineptos, mas que outros, talvez a maior parte, talvez a minoria, soubessem aproveitar essa oportunidade. E no fundo, é só isso que os liberais (e os que, como eu, apenas com eles concordam) querem: uma sociedade na qual os melhores sejam premiados. Uma sociedade onde quem souber ou tiver a sorte de aproveitar as oportunidades, o possa fazer. Um liberal não promete que isso aconteça. Porque ao contrário do que pensam os estatistas, não há maneira dos agentes políticos garantirem o crescimento, ou o sucesso dos seus cidadãos. Aliás, essa incapacidade é, ela própria, a razão de ser da defesa do modelo liberal.
Posted by Bruno at 10:18 PM
janeiro 24, 2006
Sócrates e as Presidenciais
Corre por aí a ideia de que o engenheiro Sócrates terá lucrado muito com o resultado das Presidenciais de domingo. Segundo o raciocínio, o Primeiro-Ministro, com a sua maquiavélica mente de animal feroz, teria conseguido eleger o "seu" Presidente, simultaneamente matando de uma só cajadada dois coelhos políticos. Percebe-se a ideia. Mas não se pode concordar. Nada mais ingénuo, nada mais errado. Não discuto que o engenheiro Sócrates preferisse o Presidente Cavaco Silva a qualquer uma das duas outras hipóteses, e não duvido do seu suposto "maquiavelismo" (carácter é coisa que não se vê por ali, é certo. Mas o Nicolau não tem culpa). Mas não duvido também que o resultado é, em si, politicamente mortal para Sócrates. Em primeiro lugar, como escrevia ontem António Barreto, o resultado de Alegre demonstra como parte do eleitorado socialista, parte da base social de apoio a este Governo, está descontente com a sua política. E em segundo lugar, a vitória de Cavaco, por muito que este eventualmente venha a estar em sintonia com o Primeiro-Ministro, cria um factor de desconforto que não deve ser ignorado.
Já o escrevi. Convém recordar o percurso deste governo. Desde antes de o ser. Elemento em comum? A encenação. A campanha eleitoral do PS centrou-se na ideia da "confiança". Era preciso "voltar a acreditar". E "os portugueses", como é seu costume, acreditaram. Acreditaram que o "optimismo" era suficiente para dispensar medidas duras. Que a confiança seria suficiente para continuarem a ser alimentados pelo Estado. Que como Santana já não haveria ninguém. Quando o Governo foi eleito, nova encenação. Era necessário aumentar os impostos, para salvar o "Estado social". De facto, era. Quem quer que o Estado seja o pai omnipresente da sociedade, tem de ter consciência que isso depende de impostos, que serão cada vez maiores com o passar dos anos. Mas tal como durante as eleições fingiu não saber isto, o Governo fingiu depois estar surpreso e chocado com a situação real.
O Governo tinha, no entanto, duas enormes vantagens. Por um lado, a memória de Santana, que predispunha as pessoas a certos sacríficios. E a maioria absoluta que goza permitia-lhe alguma margem de manobra. Lembro-me até de um terceiro ponto: tinha uma parte significativa da oposição, PSD e CDS/PP, disposta a dar apoio a determinadas medidas. E o que fez o Governo? Como escrevi aqui na altura, introduziu medidas insuficientes, por um lado, e contraproducentes, por outro. Pretendia um equílibrio complicado de obter, entre a necessidade de tomar certas medidas, e não provocar descontentamento. Assim, procurou dividir o mal pelas aldeias, para que não se dissesse que privilegiava este ou aquele. Mas sem, no fundo, mudar nada de estrutural. Nada do que era realmente preciso mudar.
Ao contrário do que propagandeava, o Governo não resolvia nada. Mas as dificuldades que haviam sido impostas eram vistas como necessárias e justificadas por boa parte da população. Mas ao anunciar os seus megalómanos projectos de "investimento público", o Governo desperdiçou tudo isto. A encenação de que esse investimento público era a chave do desenvolvimento não estava em sintonia com a encenação das medidas difíceis que "estavam a combater o problema". E desde então, a "confiança", que era a base (ilusória) deste governo, tem-se dissipado. Mais uma vez, nada que espante. Mas grave, num país que, para além de maus governos, tem sofrido com a incapacidade destes para durarem até ao fim.
Realizaram-se eleições autárquicas. Como dizia Vasco Pulido Valente na altura, o mau resultado do PS limitou a "legitimidade material" do Governo por si apoiado. Desde que o engenheiro Guterres introduziu a moda de entender qualquer eleição como um referendo à continuidade de um governo (situação agravada com a dissolução levada a cabo por Sampaio), a margem de manobra deste é reduzida. O que, mesmo tendo em conta que este é um mau Governo, é extremamente grave, pois subverte o normal funcionamento de uma democracia, impedindo qualquer Governo, seja ele bom ou mau, de cumprir o seu mandato. No fundo, de governar. Mas se Sócrates não parece ter noção de que o investimento público não é a chave do sucesso, já de politiquice entende. E bem. Sabe o que é preciso para obter e conservar o poder. E sabe o que representou a demissão do seu inspirador político. Sabe, portanto, que as eleições autárquicas seriam entendidas por grande parte do eleitorado como um referendo sobre a continuidade de um Governo que, não por ser mau, mas devido às suas contradições, está ferido de morte. Sabia, portanto, que por ter perdido as autárquicas, não podia perder as presidenciais.
Por isso mesmo se deixou embrulhar, como disse, mais uma vez, VPV, na candidatura de Soares. Não tinha outra solução. Mas ao embarcar nela, assinou a sua sentença. A vitória de Cavaco Silva (agravada pelo segundo lugar de Alegre), será sempre entendida, se não por todos, pelo menos por parte significativa do eleitorado, como uma derrota do Governo. Como um voto de desconfiança no Governo. Com a moda inaugurada por Guterres, seria o fim do dito. Mas Sócrates sabia também, por muito que tenha fingido não saber, que Soares não era a sua salvação. Soares candidatou-se para defender o "seu" PS. O PS contra o "revisionismo social-democrata" que ele vê em Sócrates. Uma eventual vitória de Soares teria representado a vitória de alguém que se iria meter em tudo, e em tudo ir contra o pouco que este governo possa fazer de bom, ou sequer de menos mau. Sócrates estava entalado entre um candidato que não lhe colocaria entraves a certas medidas (por muito que eventualmente as considere insuficientes), mas cuja vitória seria entendida como uma vitória contra o Governo, e um candidato que, embora apoiado pelo partido do Governo, pouco ou nada partilha com este último.
Não me interprete mal, caro leitor. O governo dificilmente cairá, até porque Cavaco sabe as consequências que tal teria para a saúde da democracia portuguesa. Mas pior que um mau Governo, só um Governo que se arrasta apesar de já morto. Um Governo que apenas procura aproveitar o tempo em que ainda o é, para dominar o aparelho de Estado. Para alimentar as suas clientelas. Para levar a cabo os projectos que alimentam aqueles de desses projectos dependem. Um Governo que, mesmo não existindo, pretenderá ocupar tudo o que existe no Estado. Com Cavaco, entre a espada (a hipótese de dissolução por estar a governar mal, que não me espantaria em Cavaco) e a parede (a hipótese de dissolução devido ao descontentamento popular, que embora não seja do gosto de Cavaco, poderá a partir de certo ponto ser a única alternativa.) Isto porque mesmo que assegure, o que seria acertado da parte de Cavaco, não considerar a hipótese de dissolver o parlamento, a ameaça será sempre sentida por Sócrates. Por muito que Cavaco queira ajudar o governo a ajudar o país, a fragilidade do primeiro é perigosa para o estado do segundo. Não pelo destino do Governo. Mas porque irá agravar as condições de governabilidade deste país. E sem essas condições, qualquer governo que queira (pouco provável) realmente reformar o estado de coisas, não terá margem de manobra sequer para o tentar.
Posted by Bruno at 10:34 PM
janeiro 22, 2006
Presidenciais
Cavaco Silva foi eleito Presidente. Manuel Alegre foi o segundo mais votado. Soares o terceiro. Jerónimo de Sousa manteve a idelidade do seu eleitorado. Louçã foi quinto, com um resultado que, ao que julgo, foi inferior ao do seu partido nas últimas legislativas. Garcia Pereira não existe. Algusn comentários.
Louçã
Quando Jerónimo de Sousa avançou, Francisco Louçã sentiu-se obrigado a avançar também. Cometeu aqui um erro. Se não se tivesse candidatado, teria condenado Jerónimo à irrelevância. Assim, deu-lhe um adversário directo. E como Louçã não poderia competir com Jerónimo, condenou-se á derrota pessoal. O que poderá mudar muita coisa no seio do grupelho, onde as diferenças só não vieram ainda ao de cima, devido aos bons resultados. O resultado de Louçã poderá ser o princípio de um período de convulsão no BE. A presença de Joana Amaral Dias na candidatura de Soares é apenas um pequeno indicador.
Jerónimo
Consolidou o eleitorado tradicional do seu partido. Mas tem um mérito que não se pode negar. Convém não esquecer a forma como o PCP era encarado, na liderança de Carlos Carvalhas, pela comunicação social. Quase esquecido. Ridicularizado quando lembrado. Objecto de antipatia generalizada. E convém ter ainda em mente a forma como a escolha do próprio Jerónimo de Sousa para Secretário-Geral foi encarada. A forma como o seu passado de operário era mencionado, num tom irónico e menorizador (um pouco como as origens humildes de Cavaco Silva), ou a caracterização da sua pessoa como um "ortodoxo" agarrado ao passado, prometiam uma continuação do tratamento do seu partido como até então havia ocorrido. Mas o facto é que Jerónimo de Sousa (embora no que diz respeito ao PCP a questão seja mais duvidosa) tem sido alvo de grandes simpatias. Isso já havia sido notório, e comentado, nas últimas legislativas. Suspeito que as eleições presidenciais irão apenas e só acentuar este fenómeno. O carácter unipessoal da eleição, e a presença de Jerónimo nos vários debates, atrairá sobre si uma atenção, e simpatia, que o PCP, enquanto partido, dificilmente conseguiria atrair. Se é verdade que a sua campanha é feita para fazer passar a mensagem do PCP, é também verdade que o facto de Jerónimo de Sousa se apresentar enquanto "Jerónimo de Sousa", e não como "Secretário-Geral do PCP", facilita o aproveitamento dessa onda de apreço de que tem sido alvo. É algo de extraordinário, conquistado com todo o mérito pessoal. Em muito pouco tempo, Jerónimo de Sousa, com os seus discursos, a sua postura nas ruas, e as suas prestações televisivas, conseguiu inverter uma tendência de muitos anos, no tratamento comunicacional do PCP. O seu resultado nestas eleições é um bom exemplo.
Soares
Soares passou anos a dizer que não se candidataria. Continuo a achar que mesmo nessa altura, queria ser candidato. Mas sabia duas coisas: se anunciasse essa candidatura demasiado cedo, perderia "dinâmica de campanha" ao afastar o factor "novidade" demasiado cedo; e sabia também que essa sua candidatura poderia ser vista com maus olhos por parte significativa do eleitorado, visto ter já exercido o cargo, e também devido à sua idade. Soares tinha então de esperar que surgisse o "vazio na área da esquerda". Para então avançar, dizendo que não tinha alternativa. Que apenas cumpria o dever que o seu passado lhe impunha. Foi o que fez. Foi empurrando gente que sabia não ter vontade de ocupar o cargo. Guterres. Vitorino. Até Alegre. Manuel Alegre foi dizendo várias vezes que não tinha qualquer interesse em se candidatar. E foi precisamente Manuel Alegre a estragar os planos de Soares. Alegre, a dada altura, afirmou que estava disponível para avançar, caso o PS assim quisesse. Só depois Soares fez a sua declaração, afirmando que iria escutar "os portugueses", para decidir se aceitava o "pedido" do PS para se candidatar ("pedido" esse feito já depois da declaração de Alegre). Não existia qualquer "vazio". Alegre já lá estava. Ao fingir que não, Soares conseguiu apenas duas coisas: afastar a simpatia de alguma opinião pública, devido à forma como tudo foi conduzido, e afastar os eleitores mais à esquerda, com a sua colagem ao PS. Se tudo tivesse corrido como Soares pretendia, apareceria como um candidato da "esquerda". Do "povo de esquerda", não de um partido de esquerda. A disponibilidade de Alegre fez com que Soares precisasse de um "pedido" prévio do PS. Assim se percebem as sucessivas declarações de gente que lhe é (agora) próxima, pressionando Sócrates. Apesar de Soares (tal como o seria também Manuel Alegre) ser um candidato desconfortável para a a actual liderança do PS, a necessidade desse "pedido" colou Soares ao PS. Mais, colou Soares ao actual Governo. Impedindo parte do "povo de esquerda", o "povo de esquerda" que considera Sócrates neo-liberal, o "povo de esquerda" ao qual o Mário Soares das manifestações contra o Iraque apelaria, impedindo-os de efectivamente apoiar Soares. Para além disso, os efeitos que Soares tinha vindo a querer evitar precipitaram-se. Muita gente mostrou algumas reticências à sua candidatura, precisamente pelo facto de Soares já ter ocupado o cargo e devido à sua idade. E, acima de tudo, o factor "novidade" perdeu-se muito cedo. Soares foi obrigado a avançar pela declaração de Alegre. Foi assim obrigado a fazê-lo muito mais cedo do que Cavaco. Abrindo a este último os caminhos da atenção dos media quando finalmente se candidatasse. Assim, foi praticamente obrigado a conduzir a sua campanha da forma como a conduziu. Agressiva. Sem conteúdo. Condenada ao fracasso que se verificou. Mas há outra coisa a dizer. Num momento do país em que Guterres fugiu na primeira oportunidade que teve, em que durão Barroso fugiu à primeira oportunidade que teve, Soares candidatou-se a uma eleição em que se arriscava a ser pesadamente derrotado. Num país que tem sido governado por rapazinhos, Mário Soares foi um homenzinho. Derrotado, e ainda bem. Mas um homenzinho.
Alegre
Alegre, pela génese da sua candidatura, poderia ter contribuido para a introdução no debate de uma série de temas que poderiam contribuir para um esforço de credibilizaçãoda política. Como fez na sua campanha para a liderança do PS, Alegre poderia ter chamado a atenção para o predomínio da imagem sobre a substância na política moderna, poderia, por não depender de um aparelho partidário, adoptar uma postura de maior preocupação com a defesa de um conjunto de ideias (certas ou erradas, não é isso que aqui está em questão) do que com os resultados que esse conjunto de ideias poderia obter. Mal começaram os debates, Alegre desperdiçou essa oportunidade. Devido a uma mistura de inabilidade e impreparação, Alegre deixou-se enredar nas vacuidades discutidas pelos adversáios e pelos jornalistas, e cometeu uma série de erros factuais que muito o prejudicaram. Mal começou a perder terreno, começou a queixar-se de "discriminação" por parte da comunicação social, de estar a ser deliberadamente prejudicado, numa atitude que em nada o distinguiu de Soares. Foi uma oportunidade desperdiçada. O resultado que teve só é bom para as guerras internas do PS. Para o resto, é tão irrelevante como a sua candidatura acabou por ser.
Cavaco
Cresci com Cavaco Silva Primeiro-Ministro. Não posso deixar de dizer que não fui indiferente ao facto de o meu primeiro voto em alguém (anteriormente, só tinha votado em branco) ter sido em Cavaco Silva. Mas um certo realismo também é necessário. Desde muito cedo que se instalou a ideia de que Cavaco Silva seria eleito. Ao contrário do que muita gente quis crer, isto em nada facilitou a vida do Presidente (já se pode falar assim de Cavaco). Precisamente porque na cabeça das pessoas, ele já era Presidente. Qualquer declaração que fizesse era escrutinada como a declaração de um Presidente, limitando-o muito. Impedindo-o de conduzir uma campanha que criasse um efeito não apenas mobilizador (que o foi), mas de mudança. E que por outro lado, criou uma grande expectativa quanto à sua futura presidência. Expectativa essa que, devido a essa ausência de um efeito de mudança, e até devido à natureza do cargo (por muito que Cavaco queira mudar, sem um Governo que partilhe com ele essa vontade, ela de nada lhe serve), dificilmente poderá ser satisfeita. Com realismo, resta esperar sensatez. Que Cavaco procure sensibilizar o governo para os reais problemas do país. Que procure limitar os desvarios estatistas e despesistas do Governo. Que contribua, acima de tudo, para a credibilização da classe política. Em suma, que faça aquilo que mais ninguém poderia fazer.
Posted by Bruno at 10:45 PM
janeiro 21, 2006
Amanhã
Um grupo de pessoas reuniu-se para discutir a melhor forma de levar a cabo um golpe de estado, no caso de amanhã, os eleitores não darem a Cavaco Silva a oportunidade de levar a cabo o seu. Por isso, hoje não há aqui grande actividade. Amanhã, sensivelmente a partir das 21, estarei no Insurgente, para a incansável cobertura da noite eleitoral. Mais para o fim de noite, escreverei aqui um texto, comentando os resultados. Até lá, votem Cavaco. Se precisarem, tapem a cara com a mão esquerda, e ponham a cruzinha com a direita. Mas votem Cavaco.
Posted by Bruno at 10:27 PM
janeiro 20, 2006
Match Point

A bola atravessa o ecrã em câmera lenta. Uma voz discorre acerca de como muito na nossa vida depende da sorte que se tem ou não. Por vezes, a bola bate na rede, e passa para o outro lado. Por vezes, cai no nosso. Em nenhum destes momentos, dependemos de nós. Por sorte ou falta dela, Chris Wilton (Jonathan Rhys-Meyers), um ex-tenista cansado do circuito profissional, regressa a Londres, onde conhece Tom Hewett, herdeiro de uma família da upper-class londrina. A irmã deste, Chloe (Emily Mortimer), acaba por se apaixonar por Chris, ao mesmo tempo que este, por sorte ou por azar, não consegue deixar de pensar na noiva de Tom, a americana Nola (Scarlett Johansson). Já casado com Chloe, que anseia engravidar, Chris começa a traí-la com Nola, já separada de Tom. Por sorte ou falta dela, resta-lhe uma escolha. Entre a vida rotineira mas abastada vida com Chloe, ou a paixão por Nola. Mais do que a escolha, a sorte ou falta dela obrigá-lo-à a ter de viver com o peso dessa escolha.
Há quem diga que este é o regresso de Woody Allen aos bons filmes, depois da suposta mediocridade dos últimos anos. Ignorem-nos. Não devido à qualidade ou ausência dela no filme em causa. Mas na ausência de capacidade desses críticos para avaliar Woody (desculpem-me a familiaridade). Allen não faz maus filmes. E portanto, é impossível regressar aos bons, porque nunca os deixou de fazer. Há alguns que apenas são melhores que outros, e alguns que são verdadeiras obras primas. Sejam passados em Veneza, Paris, Nova Iorque ou Londres, no futuro ou no século XIX russo, nenhum é mau. Mas será ou não, como dizem os críticos que podem falar do senhor, o melhor desde Deconstructing Harry? É. Está ao nível de Husband and Wives (com o qual partilha o tom áspero), ou Crimes and Misdemeanours (com o qual partilha a preocupação moral)? Não. Vale a pena ser visto? Sim.
A mudança de Nova Iorque para Londres não afectou Allen. Fê-lo mudar. É um filme mais chuvoso. Onde se fala de caça e idas à ópera, e não de tardes nos Hamptons e artigos da New Yorker. Mas onde quer que uma pessoa esteja, todos vamos morrer um dia. Quem é que quer saber onde isso acontece? E Allen parece não se ter ressentido pelo facto de ter de trabalhar com uma equipa essencialmente britânica. Antes pelo contrário (há por vezes no trabalho de câmera, na lentidão em que esta se move, uma sensibilidade que não será estranha a quem tenha visto a versão televisiva de Brideshead Revisited). Rhys-Meyers, que desconhecia, faz um trabalho competente. Suficientemente toff, suficientemente Notting Hill Tory para ser convincente como alguém capaz de vencer no meio da upper classe britânica, mas com uma cicatriz no sobrolho a deixar subentendida uma origem mais council-house (repare, caro leitor, no esforço que estou a empregar no sentido de tornar este texto no mais pretensioso que já alguma vez escrevi). Brian Cox (interpreta o patriarca dos Hewett) e Emily Mortimer fazem um trabalho sem mácula, discreto como se pedia para os seus personagens. E depois há Scarlett Johansson. Nada podia ser mais perfeito. Scarlett Johansson num filme de Woody Allen. Scarlett Johansson. Podia escrever o seu nome por parágrafos e parágrafos, que nunca seria de mais. Veja leitor: Scarlett Johansson. cansou-se? Claro que não. Pede-me até que repita. Mas tenhamos calma, meu caro, e voltemos à jovem Scarlett. Se Naomi Watts (para quando, Woody?) é a Perfeição feita mulher, Scarlett Johansson é a Tentação posta no ecrã para quem quiser sucumbir. E aquela voz? Aquela voz faz-me coisas que nem eu consigo compreender.
Mas não é apenas na troca de Nova Iorque por Londres e na escolha da nova musa (tão inspiradora, no passado, só Diane Keaton) que este filme se diferencia dos restantes. É também no tom. É, muito mais que muitos outros, muito mais um filme "moral" que uma comédia. Um filme acerca de como pouco depende da nossa vontade aquilo que se passa na nossa vida. E de como aquilo que depende da nossa vontade é, por vezes, trágico. Muito mais do que Deus, do que a "justiça", é a nossa consciência que pesa sobre as nossas escolhas. Podemos racionalizar tudo como muito bem quiseremos. Mas essa é apenas uma necessidade que temos para aliviarmos o peso que carregamos. Podemos ter sorte, e a bola cair do outro lado. Podemos ter sorte, e ninguém nos fazer pagar pela pancada. Mas bastamos nós próprios para sentirmos a culpa.
Posted by Bruno at 10:36 PM
janeiro 19, 2006
50 Anos
As pessoas fazem de mim a ideia de que opto por me manter fechado do mundo exterior. O facto é que faço por isso. Por me manter o mais possível afastado do mundo exterior. E por as pessoas terem de mim essa percepção. Há quem diga que desperdiço a minha "juventude". Que o que faço agora é o que farei quando tiver 50 anos de idade. E que devia aproveitar os meus modestos vinte e um anos. Mas faço uma pergunta. Se aos 50 anos inevitavelmente me espera a lista de actividades reclusivas a que me dedico presentemente, para quê perder tempo com as restantes? Se sei que as farei aos 50 anos, para quê esperar?
Posted by Bruno at 10:19 PM
janeiro 18, 2006
Santana
Descobri hoje que Pedro Santana Lopes escreveu ontem um artigo no DN. Um abraço para o dr. Santana Lopes. Gostei muito do seu artigo. Especialmente dos excertos em que diz que não responde ao actual Presidente antes de este sair do cargo, seguido de críticas directas a Sampaio, e em que escreve que não declara qualquer apoio a Cavaco Silva, nem o ataca, para logo de seguida dizer que Cavaco Silva também não o apoiou a ele em 2005, quando ele teve de remar contra ventos e marés. E claro, do seu post-scriptum, onde afirma que JPP (presumo que Pacheco Pereira), ALX (Lobo Xavier?), ASL (deve ser Ana Sá Lopes) e JPC(só estou a ver o nosso João Pereira Coutinho, a não ser que o milionário também se tenha manifestado) falam de "mortes e vidas políticas", quando eles próprios nunca "viveram nada", e claro, nunca "ganharam" nada. PSL, que já ganhou eleições, ainda não ganhou juízo. Nunca perca essa alegria, caro Pedro (perdoe-me a familiariedade, especialmente porque nunca vivi nada, e muito menos alguma coisa ganhei). Obrigado por ser quem é.
Posted by Bruno at 10:24 PM
janeiro 17, 2006
Polícia e Proximidade
Numa entrevista ao programa da Rádio Renascença e da RTP, publicado no Público de ontem, o Ministro da Administração Interna veio defender uma "revisão dos dispositivos territórios da GNR e da PSP", segundo um "conceito de policiamento de proximidade". Infelizmente, não explicou o que queria dizer com esse conceito. Talvez porque ele próprio não sabe o seu signficado. Segundo o que me dizem, por "policiamento de proximidade" entende-se a organização das forças policiais em esquadras mais pequenas (o PS parece arrepender-se das "super-esquadras" dos anos 90, que eram um exemplo de como o PS consegue ser tão ou mais demagógico que muita "direita" nas questões da segurança), com um patrulhamento policial mais presente e habitual nos bairros, fazendo com que esses polícias sejam conhecidos (e vistos) pelas pessoas. Se for isso, parece-me bem. Mas se for, e mesmo que não seja, o Ministro da Administração Interna deveria aprender com o exemplo americano, exemplo esse que David Davis, na sua campanha para a liderança dos "tories" ingleses, já tinha defendido, e que o seu vitorioso opositor pretende aplicar caso venha a ser eleito Primeiro-Ministro. Devia seguir o exemplo americano de instituir a eleição directa das autoridades policiais locais pelos membros da comunidade. Com isso, o Ministro da Administração Interna obrigaria esses responsáveis policiais a adaptarem o seu policiamento, e a organização da força a seu cargo, às específicas necessidades das populações que policiam. Obrigá-los-ia a responder às preocupações que os membros dessa comunidade sentem. E a serem responsabilizados se não o fizessem. Pois se não o fizessem, ou se não o fizessem com o sucesso pretendido, correriam o risco de serem derrotados na eleição seguinte. Sem essa forma de responsabilização das autoridades policiais, não existe uma verdadeira "proximidade". Porque se as autoridades policiais não forem eleitas pelas comunidades que policiam, por muito "próximas" que estejam delas, dependem do Ministério da Administração Interna, não dos cidadãos. Se as autoridades policiais não forem eleitas pelas comunidades que policiam, por muito próximas que estejam delas, continuarão a servir o Ministério da Administração Interna. Não os cidadãos.
Posted by Bruno at 10:14 PM
janeiro 16, 2006
Explicações
As sondagens mais recentes têm vindo a atribuir a Manuel Alegre o segundo lugar, à frente do dr. Soares. Para além de consequências mais graves para o engenheiro Sócrates (e para o engenheiro Sócrates, o segundo lugar de Alegre é bem pior que a eleição de Cavaco), tal resultado, a confirmar-se, trará um pequeno problema a Soares. Há muito que as queixas de eleições pouco limpas, de imparcialidade comunicação social, deixavam entender que Soares atrbuiria a eleição de Cavaco a esse suposta "falta de verdade democrática". Mas se para os mais crédulos e dispostos a acreditar, essa acusação explicaria a eleição de Cavaco, ela não explica, nem para essas pessoas, a derrota perante Alegre. A noite de 22 será algo muito pouco edificante.
Posted by Bruno at 11:02 PM
Causa das Coisas
Também novo, embora como uma espécie de continuação do anterior, é novo blog dos meus amigos João, Paulo e Tiago. A ler.
Posted by Bruno at 10:58 PM
Novos Blogs
Através do blog de Constança Cunha e Sá, descubro o blog de Pedro Boucherie Mendes. Os dois serão leitura habitual.
Posted by Bruno at 10:50 PM
Mundo Moderno (o meu mais recente texto no Insurgente)
O Ministro das Finanças disse a meio de um programa de televisão que daqui a dez anos o sistema de Segurança Social estava falido. Alguns elogiam o Ministro por se ter apercebido do problema. Outros receiam que ele não o resolva. Outros acham que não há nada para resolver. Todos pagam. A Justiça continua a ver a sua credibilidade a afundar-se. Souto Moura mantém-se à superfície, como se não tivesse qualquer responsabilidade. Responsabilidades é o que o Primeiro-Ministro não quer que lhe seja atribuído pela derrota de Soares nas eleições Presidenciais. Por isso, lá foi cumprir o seu "dever" (Sócrates dixit) de participar na campanha. O Irão insiste no seu programa nuclear. Finalmente, a "Europa" deixou de insistir em declarar que tudo estava sob controle. Resta saber o que fará. Por agora, estão zangados, e vão escrever uma carta a dizer o quão zangados estão. Koffi Annan, por sua vez, não está zangado. Talvez fique se os EUA ou Israel façam alguma coisa para resolver o problema. O Primeiro-Ministro austríaco vai insistindo na "Constituição Europeia". Para ele, a dita não está morta. Presumo que pense que apenas está a dormir. Presumo também que Angela Merkel considere que o resultado dos referendos francês e holandês deva ser encarado como um empate. Nicolas Sarkozy, menino querido de muitos direitistas portugueses, considera que o "dumping fiscal" não deve ser permitido na UE. Ou seja, Sarkozy não quer mexer no "modelo social" francês, e, à boa maneira francesa, quer obrigar os outros países a copiar a desgraça. Um conjunto de ex-líderes africanos juntou-se num "fórum", ao que parece, para contribuir para o desenvolvimento do continente. Pelo que se conhece da espécie, os ex-líderes africanos juntaram-se para contribuírem para o desenvolvimento das suas fortunas pessoais. Em Inglaterra, pensava-se julgar um indivíduo (a queixa foi, entretanto, retirada) por este ter dito a um polícia que o cavalo deste último era "gay" (não se estando a referir à sua hipotética boa disposição). Não consta que o cavalo tenha manifestado desagrado. O comentário foi, no entanto considerado ofensivo. No mundo moderno, chamar um cavalo de "homossexual" parece ser tão grave como chamar um homossexual de "cavalo". Para as boas consciências, "homossexual" é, portanto, um "insulto".
Posted by Bruno at 10:47 PM
janeiro 15, 2006
A Guerra de 2007
No Telegraph, Niall Ferguson escreve um artigo como um futuro historiador relatando os eventos que teriam conduzido à guerra de 2007. Apesar do teor especulativo do artigo, vale a pena ler. Não é tão pouco provável assim que a especulação de Ferguson se acabe por confirmar:
"With every passing year after the turn of the century, the instability of the Gulf region grew. By the beginning of 2006, nearly all the combustible ingredients for a conflict - far bigger in its scale and scope than the wars of 1991 or 2003 - were in place.(...)
(...)Under different circumstances, it would not have been difficult to thwart Ahmadinejad's ambitions. The Israelis had shown themselves capable of pre-emptive air strikes against Iraq's nuclear facilities in 1981. Similar strikes against Iran's were urged on President Bush by neo-conservative commentators throughout 2006. The United States, they argued, was perfectly placed to carry out such strikes. It had the bases in neighbouring Iraq and Afghanistan. It had the intelligence proving Iran's contravention of the Non-Proliferation Treaty.
But the President was advised by his Secretary of State, Condoleezza Rice, to opt instead for diplomacy. Not just European opinion but American opinion was strongly opposed to an attack on Iran. The invasion of Iraq in 2003 had been discredited by the failure to find the weapons of mass destruction Saddam Hussein had supposedly possessed and by the failure of the US-led coalition to quell a bloody insurgency.
Americans did not want to increase their military commitments overseas; they wanted to reduce them. Europeans did not want to hear that Iran was about to build its own WMD. Even if Ahmad-inejad had broadcast a nuclear test live on CNN, liberals would have said it was a CIA con-trick.
So history repeated itself. As in the 1930s, an anti-Semitic demagogue broke his country's treaty obligations and armed for war. Having first tried appeasement, offering the Iranians economic incentives to desist, the West appealed to international agencies - the International Atomic Energy Agency and the United Nations Security Council. Thanks to China's veto, however, the UN produced nothing but empty resolutions and ineffectual sanctions, like the exclusion of Iran from the 2006 World Cup finals.
Only one man might have stiffened President Bush's resolve in the crisis: not Tony Blair, he had wrecked his domestic credibility over Iraq and was in any case on the point of retirement - Ariel Sharon. Yet he had been struck down by a stroke as the Iranian crisis came to a head. With Israel leaderless, Ahmadinejad had a free hand.
As in the 1930s, too, the West fell back on wishful thinking. Perhaps, some said, Ahmadinejad was only sabre-rattling because his domestic position was so weak. Perhaps his political rivals in the Iranian clergy were on the point of getting rid of him. In that case, the last thing the West should do was to take a tough line; that would only bolster Ahmadinejad by inflaming Iranian popular feeling. So in Washington and in London people crossed their fingers, hoping for the deus ex machina of a home-grown regime change in Teheran.
This gave the Iranians all the time they needed to produce weapons-grade enriched uranium at Natanz. The dream of nuclear non-proliferation, already interrupted by Israel, Pakistan and India, was definitively shattered. Now Teheran had a nuclear missile pointed at Tel-Aviv. And the new Israeli government of Benjamin Netanyahu had a missile pointed right back at Teheran.
The optimists argued that the Cuban Missile Crisis would replay itself in the Middle East. Both sides would threaten war - and then both sides would blink. That was Secretary Rice's hope - indeed, her prayer - as she shuttled between the capitals. But it was not to be.
The devastating nuclear exchange of August 2007 represented not only the failure of diplomacy, it marked the end of the oil age. Some even said it marked the twilight of the West. Certainly, that was one way of interpreting the subsequent spread of the conflict as Iraq's Shi'ite population overran the remaining American bases in their country and the Chinese threatened to intervene on the side of Teheran.
Yet the historian is bound to ask whether or not the true significance of the 2007-2011 war was to vindicate the Bush administration's original principle of pre-emption. For, if that principle had been adhered to in 2006, Iran's nuclear bid might have been thwarted at minimal cost. And the Great Gulf War might never have happened."
Note-se o último parágrafo. Segundo Ferguson, este é ano para resolver o problema. Antes que ele surja. À distância, talvez esse ano devesse ter sido o de 2003. À distância, pode-se dizer que deveria ter sido o Irão o alvo da coligação, e não o Iraque. Já não é a primeira vez que o escrevo. Mas cada vez mais essa impressão se vai confirmando. A dificuldade de levar a cabo tal acção, no entanto, será grande (leia-se, volto a referir, o texto do FCG). Podemos é não ter alternativa.
Posted by Bruno at 11:02 PM
janeiro 14, 2006
Ouvir
Numa recente entrevista, o candidato Louçã afirmou que, caso fosse eleito, não iria residir no Palácio de Belém. Ou seja, Louçã quis com isso dizer que Cavaco não deveria residir em Belém. O Palácio de Belém é, segundo Louçã, um mero local de trabalho, e não um sítio onde o presidente se deva "isolar". Presumo até que o candidato Louçã aconselhe Cavaco a deslocar-se de transportes públicos da sua casa para Belém, com o modesto propósito de "ouvir" os portugueses. Parece ser uma convicção comum, a de que os políticos devem andar nas ruas, onde podem ouvir o que o cidadão comum pensa e sente. O dr. Louçã já o disse várias vezes, e muitos jornalistas não se cansam de o repetir. Para eles, o motorista é o grande culpado do fosso entre governantes e governados. Tudo isto me ultrapassa. Eu ando todos os dias em transportes públicos. E não fiquei a conhecer as considerações políticas dos restantes utentes da CP e do Metro. Apenas sei que alguns lêem o 24 Horas, todos falam constantemente ao telemóvel, e há senhoras que pensam que Schwarzenegger é o Presidente "lá da América". Ando de transportes públicos, e não "oiço" os portugueses. Mais, faço um esforço para não os ouvir. Infelizmente, já entrei em contacto com alguns membros da espécie, e a experiência não tem sido positiva. O que ouvi dos portugueses que conheço não me faz querer ouvir o que pensam e sentem os restantes. No entanto, há por aí muito boa gente que atribuí grande valor a este acto. Há quem fale das "conversas de café" como um indicador da vontade popular mais fiável que as sondagens. O candidato Soares até faz da função auditiva promessa eleitoral. Este é aliás o seu maior erro. Se há coisa de que me apercebi nos portugueses com os quais me vi forçado a contactar, foi que são os primeiros a reconhecer que não merecem ser ouvidos. A começar por mim.
Posted by Bruno at 09:59 PM
janeiro 13, 2006
Reforma das Reformas
O Ministro das Finanças foi a um programa de televisão para um momento de propaganda, e aproveitou para dizer que daqui a dez anos ninguém iria receber a sua pensão de reforma. Assim, como uma vírgula no meio de uma frase, disse o senhor Ministro que as expectativas de inúmeros cidadãos não seriuam confirmadas pela realidade. Que anos e anos de contribuições não serviriam para nada. Nada aliás, que muita gente não tivesse já dito. Que um sistema de segurança social público era absolutamente insustentável. Houve quem, apesar de criticar a forma despreocupada como o Ministro fez a sua afirmação, o louvasse por finalmente se ter apercebido do problema. Está-se agora em condições, dizem, para se levar a cabo as reformas necessárias. Optimismo. Condenado à desilusão. Convém não esquecer a forma como este Governo opera. Grandes declarações. Excitadas afirmações. Pelas quais recebe grandes elogios. Pequenas acções. Abracinhos. Que passam despercebidos. A forma como o Ministro fez as declarações, de forma bombástica, num programa de televisão e não no parlamento, anunciando a catástrofe sem apresentar qualquer medida para a evitar, não foi um deslize. Fou força do hábito. Está no sangue deste Governo. Tal como quando "resolveu" o problema do défice, o governo traça um cenário dantesco. Tal como quando "resolveu" o problema do défice, logo afirma que terá a coragem de tudo fazer, de fazer o que mais nenhum outro fez. Tal como quando "resolveu" o problema do défice, certamente não tomará medidas que não sejam na melhor das hipóteses inconsequentes, na pior, contraproducentes. Deixando tudo na mesma. Dificultando ainda mais a efectiva resolução dos problemas.
Posted by Bruno at 09:57 PM
janeiro 12, 2006
"Rivers of Blood", a "Incubadora" e o Futuro do PSD
O Reino Unido do pós-II Guerra vivia marcado pelo controlo e planificação estatal. O Partido Conservador via surgir uma geração de novos membros, que em grande medida marcariam os anos seguintes. Iain Macleod, Angus Maude, ou Enoch Powell. Membros do One Nation Group, publicam, em 1954, um panfleto declarando que "para se atingir" o objectivo de criar maior riqueza, "o pêndulo" político teria de voltar a apontar para "um sistema mais competitivo", para o ambiente económico de "laissez-faire" do período anterior às duas Grandes Guerras. Queriam, acima de tudo, que o estado deixasse de interferir nos mais pequenos aspectos da vida das pessoas, que o estado deixasse de bloquear os seus maiores desejos. Eram gente à frente do seu tempo. Em 1957, Harold Macmillan subiria ao poder, e não seria a visão de Powell a conduzir a política do seu partido no Governo. Macleod e Powell ainda tiveram tempo de promover uma reforma das rendas, eliminando o controlo das rendas de todas as novas casas e das mais caras das antigas (ainda hoje em Portugal a ausência de um verdadeiro mercado de arrendamento lança milhares no endividamento quase vitalício). Mas uma recessão em 1958 levaria o governo a promover uma intensa subida da despesa pública, garantindo inúmeros subsídios ao sector da indústria. E essa política conduziria ao pedido de demissão de Powell. Nos anos 60 continuaria a desempenhar uma série de importantes funções no seu partido, dentro e fora do Governo, chegando mesmo a candidatar-se para a liderança. Ted Heath seria o vencedor. O contrário daquilo em que Powell acreditava estava agora no poder. Anos mais tarde, Tatcher falaria de Powell como uma grande influência na política que aplicou após a saída de Heath. Porque razão não terá tido Powell a oportunidade ser ele próprio a aplicá-la? A resposta está no ano de 1968. Num discurso sobre a imigração proveniente de países da Commonwealth, Powell faz uma alusão aos "rios de sangue" que supostamente viriam com ela. Heath demite-o do governo-sombra. Nunca mais ocuparia qualquer cargo de relevo.
Há frases que nunca mais largam o seu autor. Powell nunca mais veria o seu desligado dos seus "Rivers of Blood". Se tivesse querido arriscar a candidatura a qualquer cargo importante, a mera referência a essa expressão seria o suficiente para o aniquilar. O mesmo se passa com Santana Lopes. Que está, inclusivé, numa situação bem poior que Powell. Em primeiro lugar, não tem sequer metade da inteligência. Em segundo, porque tem muito mais que uma expressão a pesar sobre o seu futuro. Seja o "guerreiro-menino", seja a "incubadora", seja "a traição", sejam "as três vezes" que Sampaio lhe terá negado a dissolução, Santana estará para sempre ligado a inúmeros momentos pouco felizes que só por si lhe garantirão a derrota em qualquer disputa política em que eventualmente se queira envolver.
Era a isto que Pacheco Pereira se referia quando dizia ontem que Santana já não pode "fazer estragos no país". A sua experiência de governação é o suficiente para garantir que nunca mais a poderá repetir. Mas como também referiu Pacheco Pereira, Santana pode ainda fazer estragos num sítio. No seu partido. Porque para isso não precisa de ganhar o que quer que seja. Basta-lhe "andar por aí". Coisa que, ao que parece, tenciona fazer. Para quem acha que o país precisa de reformas profundas, e que só o PSD as pode fazer, mas para isso precisa também ele de se reformar profundamente, não são boas notícias.
A questão está em que também no PSD, Santana Lopes está queimado. Caso se queira candidatar à liderança, bastará ao seu opositor relembrar a "incubadora" ou o "guerreiro-menino" e Santana estará derrotado. Por muito que as "bases" gostem mais de Santana do que as "elites", elas estão preocupadas em ganhar, e a mera menção de tais expressões lembrar-lhes-á a dimensão da derrota trazida por Santana e o preço que pagam por ela. É por isso que, como Pacheco Pereira também referiu, Marques Mendes deve "chamar" Santana para o defrontar nas eleições directas. Para resolver a questão de uma vez por todas. Para "limpar" o PSD de uma vez por todas. Claro que para isso, precisa de hostilizar Santana previamente. Precisa, a partir de agora, de o provocar, de o ofender, de o marginalizar. Obrigando-o a concorrer. Atacando-o pessoalmente, para o atingir onde lhe dói, no ego. Jogando sujo para o levar a concorrer, e jogando sujo para o derrotar. O que traz a Marques Mendes um outro problema.
Pouco tempo após a sua vitória na corrida para a lidernça do partido Conservador, David Cameron está já á frente das sondagens no Reino Unido. Tal só é possível devido à onda de interesse que essa corrida gerou. Interesse esse que só foi possível devido à forma como ela se processou. Onde todos os candidatos pareciam ter uma genuína estima pelos seus adversários, onde os principais concorrentes pareciam estar genuinamente dispostos a ajudar o seu opositor caso fossem por eles derrotados. E isso só foi possível após o trabalho realizado pelo anterior líder, Michael Howard. O PSD, para poder promover as reformas que o país precisa, terá de primeiro gerar uma onda de interesse similar. Terá de mostrar primeiro que a corrida à liderança é uma corrida para o próximo Primeiro-Ministro, e não uma sucessão de ataques pessoais. Mas antes disso, precisa de se "limpar". E para isso precisa, como escrevi atrás, de ter o seu actual líder a jogar sujo contra Santana.
A questão é simples, mas o problema é complicado. O anunciado regresso de Santana apenas quer dizer uma coisa: que para o PSD mudar, para assim poder mudar o país, Marques Mendes não poderá vir a ser Primeiro-Ministro. Porque terá se queimar definitivamente, para criar as condições para que o PSD volte ao poder com condições para mudar. Terá de lutar contra Santana Lopes, de uma forma que muito prejudicará a sua imagem, e que pouco dignificará o partido. De uma forma que, mesmo que eventualmente lhe permita chegar ao poder, nunca lhe dará condições para o exercer. Se Marques Mendes quiser ter um lugar na História, terá de perceber que só poderá ser o homem que se sacrificou, para entregar o poder ao seu sucessor. O homem que perdeu, mas que criou as condições para o sucessor ganhar. É a única coisa que pode fazer. E é o único que o pode conseguir. Poderão pensar que é algo de somenos importância. O próprio Marques Mendes poderá pensar que é fraca consolação. Não é. Se o perceber, o PSD e o país só terão a lucrar.
Posted by Bruno at 10:06 PM
janeiro 11, 2006
O Regresso do Menino
Parece que o Guerreiro-Menino deu uma entrevista ontem. Confesso que não vi, (digo isto sem a ironia usada por Cavaco. Quem o chama de crispado devia ter visto o seu maravilhoso número digno do melhor cinema mudo, fingindo não saber de quem Santana Lopes se tratava) mas pelos relatos, não perdi muito. Consta que Santana Lopes falou apenas de um assunto, ele próprio. De cada vez que o nome "Cavaco" saía da sua boca, Santana apenas queira dizer: "eu". "Eu". "Eu". Três vezes, tantas quanto Jorge negou a Pedro. O guerreiro-menino disse que ia andar por aí. Parece que sim. Para quem ainda tivesse dúvidas, a questão interna do PSD ainda não está resolvida. Santana ainda acha que pode voltar. Era o pior que poderia acontecer ao PSD, e consequentemente ao país, que não teria o PSD que precisa para mudar. Em princípio, a próxima corrida à liderança será feita através de eleições directas. Para resolver o problema que Santana constitui, é preciso derrotá-lo. De vez.
Posted by Bruno at 10:08 PM
A Ler
O texto sobre o problema das ambições nucleares do Irão, escrito pelo FCG no Insurgente. Não concordo a 100% (parece-me que o FCG atribui prioridade à mudança do regime no Irão, em detrimento do desarmamento, enquanto eu tenho a posição inversa), mas vale a pena ler pelo retrato do problema.
Posted by Bruno at 10:01 PM
janeiro 10, 2006
Sintoma
Não será estranha ao leitor mais atento a minha intenção de votar em Cavaco Silva nas próximas eleições presidenciais. Nos últimos dias, uma série de de sondagens que têm vindo a público dão a Cavaco Silva uma intenção de voto de mais de 60%. Apesar da boa notícia, estas sondagens reflectem um problema. Não por supostamente convidarem o eleitorado cavaquista a ficar em casa, por estar certo da vitória. Mas por aquilo que tal margem representa. Uma vontade de consenso, que mais não é que um cansaço da política. Uma vontade de consenso, de quem espera que os problemas desapareçam se as divergências se apagarem. Uma vontade de consenso, quando o que o país precisava era de conflito. De discutir. De se partir ao meio. Só dividindo, poderia Cavaco trazer consigo uma onda de mudança. Só assim a vitória de Cavaco poderia ter um efeito "regenerador" no sistema político. A confirmarem-se os resultados previstos pelas sondagens, a vitória de Cavaco não é mais que um sintoma da doença. É pena. E acima de tudo um desperdício.
Posted by Bruno at 09:41 PM
janeiro 09, 2006
Século XXI
"É inaceitável que isto ainda aconteça no século XXI". É a frase mais ouvida ao comum cidadão português. Seja "isto" o que for. Despedimentos, fábricas fechadas, diminuição dos salários, ou derrotas do Benfica. Para o nativo, tudo isso deveria ter terminado com a viragem do século. Era o caso de uma sindicalista hoje, que considerou "inaceitável" que "isto", a deslocalização de uma fábrica, fosse "possível no século XXI". Comovedora fé no progresso, que considera desajustada dos tempos modernos a permanência das desilusões da vida. Comovedora, mas trágica. Porque, com o tempo perdido no final do século XX a acreditar que "isto" já então não era consentâneo com o ar do tempo, com todo um país que se foi convencendo de que o próprio passar dos anos deixaria para trás o que quer que "isto" fosse, o início do século XXI será marcado essencialmente por "isto". Por fábricas que fecham. Empregos que se perdem. Salários que baixam. Com mais ninguém de quem nos queixarmos senão de nós próprios.
Posted by Bruno at 11:36 PM
Mundo Moderno (o meu regresso à actividade no Insurgente)
O ano mudou. O mundo ficou na mesma. Em Portugal, metade do país não trabalhou na segunda-feira, porque o ano havia mudado de Sábado para Domingo. Uma empresa espanhola é accionista da EDP. Como tal, quer ter assento no Conselho de Administração da empresa. Uma empresa italiana é accionista da GALP. Pretendia adquirir mais acções. Os espíritos nativos vociferam. O Presidente da República convoca o Minstro do sector para uma audiência, com o intuito de ser esclarecido, numa excitada e escusada atitude que pareceu esquecer que existem reuniões semanais com o Primeiro-Ministro precisamente para esse propósito. Estão em causa os "centros de decisão nacionais". Os candidatos a substituí-lo aplaudem. Ficamos avisados. Um deles, o dr. Soares, continua a pedir debates. Aparentemente, deseja "discutir muitos outros assuntos". Pena que não aproveite o tempo que gasta a pedir debates para falar dos assuntos de que pretende falar nos hipotéticos debates. O mesmo dr. Soares queixa-se do Expresso, porque acha que tem razões de queixa. Teria razões para se queixar de Sócrates, mas não pode. Teria razões para se queixar de si próprio, mas não o percebe. A presidência da UE foi entregue à Áustria. Aparentemente, segundo declarações do seu chefe de Governo, não lhe custa acreditar que é possível fazer avançar a "Constituição Europeia". Custa, isso sim, ouvir alguém iludir-se dessa forma. E custará muito mais pagar a persistência dessa ilusão. Sharon é forçado por doença a abandonar o seu cargo numa altura em que havia alterado quase por completo o panorama político israelita. A grandeza que lhe é (agora) amplamente reconhecida nada pode contra a Morte. Há coisas que nem a Modernidade consegue apagar. A fragilidade humana é uma delas.
Posted by Bruno at 11:22 PM
Mudar
Conheço quem queira mudar o país. Conheço quem queira mudar de país.
Posted by Bruno at 11:07 PM
janeiro 07, 2006
Dr. Freud in Reverse
O austríaco reduzia tudo a sexo. Eu reduzo o sexo a nada.
Posted by Bruno at 11:06 PM
janeiro 06, 2006
Timidez Política
Há dias, na Civilização, David Cameron, novo líder dos Conservadores britânicos, fez um discurso alinhando os princípios que irão guiar a nova orientação política do seu partido na área da Saúde. Cameron afirma que "os mais ricos e saudáveis tem o dever de ajudar os mais pobres e vulneráveis". Afirma que o seu partido não quer mudar isto, quer apenas tornar o Sistema Nacional de Saúde (NHS) mais eficaz, mias capaz de ajudar aqueles que precisam de ser ajudados. E considera que, para isso, precisa de eliminar a proposta apresentada nas últimas eleições, a criação de um "cheque" que pagaria metade dos custos de uma operação num hospital privado àqueles que estavam à espera dessa mesma operação no NHS, reorientando a política do seu partido no sentido de manter o NHS como um serviço gratuito, para todos, quando a ele recorrerem.
A proposta da eleição anterior não era de facto a melhor. Na prática, resultaria no alívio de metade dos custos daqueles que, muito provavelmente os poderiam pagar na sua totalidade. Cameron percebeu isso, e propõe que o partido passe defender uma maior independência dos hospitais, eliminando a política de objectivos definidos centralmente pelo Governo, e, em vez de ajudar alguns sair do NHS, permitir que os privados ajudem a satisfazer as necessidades de todos os que precisem de a ele recorrer. Para alguém que, na campanha para a liderança do seu partido, afirmou que o seu partido, consigo na liderança, iria "libertar as pessoas", visto que "confiava na capacidade das pessoas para escolher o que é melhor para si", esta orientação parece ficar um pouco aquém das possibilidades.
Não é só o facto de, como notou o responsável pelo "think-tank" Reform, a longo prazo, um sistema de saúde gratuito para todos ser insustentável, que foi ignorado por Cameron. Cameron ignorou que, para além da proposta apresentada nas eleições anteriores, e a actual, existem mais alternativas. Deixemos de lado a hipótese de o Estado deixar de ser o prestador do serviço, passando apenas a ser o garante de acesso a esse serviço para aqueles que, só por si, a ele não podem aceder. Cameron certamente terá consciência que esta proposta poderia ser encarada como demasiado radical, e a sua apresentação acabaria por não trazer qualquer benefício. Deixemos de lado a questão de se será a melhor opção permitir que aqueles que podem pagar uma operação no privado possam ter acesso gratuito ao serviço público, à semelhança daqueles que não têm alternativa. Mesmo que Cameron queira manter um NHS gratuito para todos, incluindo aqueles que o podem pagar, existiria uma outra alternativa, que ou não lhe ocorreu, ou que ele preferiu ignorar.
Cameron quer mais independência para os hospitais e para quem neles trabalha. Com essa maior liberdade, espera que os hospitais respondam mais eficazmente aos problemas particulares que cada um deles enfrenta, mas também que, ao definirem estratégias e diferentes formas de organização interna, ofereçam diferentes tipos de serviço. No fundo, espera certamente motivar concorrência entre os hospitais, para através dessa concorrência, permitir uma melhor oferta de serviço. Esquece um outro elemento. Esquece aqueles a quem o serviço se destina, ou seja, o doente. Esquece-se que é a ele que cabe a avaliação de qual o serviço que melhor responde às suas necessidades. Esquece-se de dar a quem recorre ao NHS a liberdade de fazer essa avaliação. E tal só seria possível se o Estado deixasse de financiar o hospital, e passasse a financiar o doente.
Os hospitais passariam assim a ser obrigados, não só a competirem com o serviço oferecido pelos outros, obrigando-os a melhorá-lo, como também a estabelecerem os seus próprios preços, permitindo ao doente avaliar qual a melhor oferta. Na realidade, a questão é a seguinte: será que o serviço prestado por determinado hospital vale ou não o seu custo? Esse juízo só poderá ser feito por quem esteja interessado nesse serviço, ou seja, o doente, e só poderá ser feito se o doente poder comparar o valor desse serviço com o do hospital ao lado. E isso só será possível se os hospitais forem obrigados a cobrar os seus preços, fomentando concorrência. O valor de uma coisa é aquele que alguém está disposto a atribuir a essa coisa. Não é algo absoluto. Não é algo que o Estado possa definir. É algo que depende do julgamento dos indivíduos que necessitem dessa coisa. E que portanto, varia de indivíduo para indivíduo.
Se Cameron quer que o NHS seja gratuito para todos, basta-lhe que defenda que o Estado financie todos aqueles que a ele queiram recorrer. Desde que não defenda o financiamento dos hospitais, mas sim o financiamento do doente. Pois só assim poderá dar, aos que recorrem aos hospitais, a mesma liberdade de escolha que quer dar aos que neles trabalham. Pois só assim confiará igualmente nas pessoas que prestam os cuidados médicos, e nas pessoas que a eles recorrem. Apesar de manter o erro de fazer os contribuintes pagarem o acesso a esses cuidados aos que o poderiam pagar só por si.
Posted by Bruno at 11:45 PM
La Guardia
Como não sou rico, não posso comprar o Telegraph todos os dia. Só faço quando algo de muito relevante acontece (embora leia diaramente a opinião). Sempre que em Israel acontece alguma coisa, procuro os textos de Anton La Guardia. Ontem, descobri o blog deste senhor, Editor Diplomático do Telegraph, cuja leitura aconselho.
Posted by Bruno at 11:35 PM
janeiro 05, 2006
Sharon
Durante anos, a mesma frase se ouviu, a mesma frase se leu. Só poderá haver paz entre Israel e a Palestina, se Sharon e Arafat saírem de cena. Arafat perdeu os vícios. E sem que Sharon perdesse os dele, sem sequer que ele saísse de cena, uma oportunidade para a paz surgiu. Houve quem tivesse ficado chocado. Quem não compreendesse como fosse possível. Via-se assim que aquilo que muitos diziam (o interesse de Israel está em assegurar a sua segurança, é apenas necessário que haja vontade nesse sentido por parte da Palestina) era verdade. É trágico que, depois de ir contra o seu próprio partido para levar avante os seus propósitos, virando do avesso a política israelita, Sharon venha muito provavelmente a ser forçado pela doença, eventualmente pela morte, a abandonar o seu lugar na chefia do governo do seu país. Ao contrário do que muitos diziam, na sua saída, não estará um caminho seguro para a paz, mas um provável regresso à turbulência. Mais que um lugar na História para Sharon, perde-se uma oportunidade.
Posted by Bruno at 10:50 PM
Equívocos
O Rodrigo Moita de Deus, que ao contrário do seu Divino homónimo, não é omnipresente, e infelizmente, também não omnisciente, diz: "Os meus amigos liberais esqueceram-se que os mercados servem as comunidades e os países. Os países e as comunidades não têm de servir os mercados." Eu, que não sou exactamente um liberal, costumo concordar com eles, sejam ou não amigos do Rodrigo. E nisto, tal volta a acontecer. Concordo, por exemplo, com o que escreve o Adolfo, quando diz que "o interesse público alegadamente visado pelo Estado nem sempre corresponde ao interesse geral. Pelo contrário, ele corresponde à forma como os indivíduos decisores, no âmbito das suas esferas de decisão regidas pelos seus próprios interesses e valores, encaram o dever ser social, pelo qual se sentem responsáveis mas perante o qual assumem um grau de responsabilidade bastante inferior ao dos indivíduos que gerem o seu destino." Os mercados deverão servir as comunidades e os países, diz o Rodrigo, e não o inverso. A questão seguinte está em definir quem é que faz o juízo acerca de como poderá o mercado servir a comunidade e os países. Quem é que o decide? O Rodrigo acha que o Estado, no interesse da comunidade e do país, pode, por exemplo, impedir a entrada no mercado de novos concorrentes. Eu, e presumo que os amigos liberais do Rodrigo concordarão, acho que se esse novo concorrente trouxer benefícios suficientes a um número suficiente de pessoas, sobreviverá. Se não o fizer, não sobreviverá. Se servir o interesse da comunidade, ou pelo menos de parte significativa dela, apenas lucrará com isso. Se não servir, será penalizado com o insucesso, não sendo necessário qualquer tipo de intervenção estatal para impedir a sua entrada à partida. A intervenção do Estado não faz com que o mercado sirva o que que quer que seja. Elimina o mercado, para satisfazer um interesse particular. Mesmo que essa não seja sequer a sua intenção.
Posted by Bruno at 10:28 PM
janeiro 04, 2006
O Poder e o Povo
Uma empresa espanhola é accionista da EDP. Como tal, quer ter assento no Conselho de Administração da empresa. Uma empresa italiana é accionista da GALP. Pretendia adquirir mais acções. Os espíritos nativos vociferam. O Presidente da República convoca o Minstro do sector para uma audiência, com o intuito de ser esclarecido, numa excitada e escusada atitude que pareceu esquecer que existem reuniões semanais com o Primeiro-Ministro precisamente para esse propósito. Para que possa ser esclarecido acerca daquilo que deseje ver esclarecido. Mas claro, estão em causa os interesses nacionais. Os "centros de decisão" nacionais. Dos quais não podemos abdicar. O Governo, apesar de menorizado pela atitude presidencial, parece não discordar. O mesmo Governo, e também o mesmo Presidente, mostraram-se favoráveis ao projecto da "Constituição Europeia", e defendem uma federalização da dita. Em suma, defendem uma progressiva entrega de poderes do parlamento português à esfera de Bruxelas. Nestas duas atitudes aparentemente incompatíveis, há um elemento comum. É ou não verdade que em ambas, se limita a margem de liberdade dos cidadãos? É ou não verdade que, para que os "centros de decisão nacional" sejam protegidos, os cidadãos são impossibilitados de escolher qual o destino do seu dinheiro, são impossibilitados de, como consumidores, decidirem se a entrada de capital estrangeiro em empresas portuguesas é ou não benéfica para a qualidade do serviço prestado? É ou não verdade que, com a entrega de cada vez mais poderes a uma entidade, a um poder, não controlado pelos cidadãos, o Parlamento português impede as pessoas que o elegeu de terem uma palavra a dizer na avaliação das decisões políticas que as afectam? É ou não verdade que na nacionalista protecção dos "centros de decisão nacional" e na internacionalista "realização do ideal europeu", um elemento comum, as liberdades dos cidadãos, está a ser ignorado? A verdade é que em relação a ambas, os seus defensores estão errados. E os cidadãos estão a ser prejudicados.
Posted by Bruno at 10:05 PM
janeiro 03, 2006
Ouro do Brasil
Para as novas gerações, "Brasil" é fonte de jogadores de futebol de categoria duvidosa que pululam nas equipas dos escalões secundários. Tempos houve em que "Brasil" foi sinónimo de ouro. Vindo do Brasil, chovia ouro em Portugal. E consta que o dito foi desperdiçado com uma sofreguidão proporcional à dimensão das remessas que chegavam. Assim lembrou ontem o dr. Miguel Portas, numa emissão do programa Prós e Contras. O dr. Portas comparou ainda esse desperdício com o mais contemporâneo desperdício de fundos comunitários. Infelizmente, não se ficou por aqui. Se tivesse, não haveria razões para o criticar. Pena é que as ideias do dr. Portas não primem pela adequação à realidade. Para o dr. Portas, tanto o caso do ouro brasileiro como o dos fundos são um exemplo da culpa, a atribuir às nossas elites, pela nossa pobreza e pelo nosso atraso. O dr. Portas considera que esse dinheiro foi mal gasto. Acha que a Coroa (primeiro) e o Estado (depois) tomaram más decisões relativamente ao destino desse dinheiro. O que não ocorre ao dr. Portas é que a dependência do Estado (e antes, da Coroa) tem como consequência uma maior sujeição aos erros das pessoas que o ocupam. Ao contrário do que ontem quis fazer crer Miguel Portas, e como disseram Pacheco Pereira e Filomena Mónica, a "culpa" do atraso de Portugal não está nas elites que conduziram mal o rebanho. Está numa cultura que conduz as pessoas a, de boa vontade, se entregarem a um rebanho comandado por elites que elas próprias entendem ser medíocres. Está na total ausência de uma tradição de liberdade e responsabilidade individual. As elites poderão ser, como diz Miguel Portas, medíocres. Mas se as pessoas não fossem tão dependentes do Estado como o são, e como o foram da Coroa, a mediocridade das elites que ocupam o Estado e que serviram a Coroa seria muito menos nociva.
Posted by Bruno at 10:29 PM
janeiro 02, 2006
Sair de Casa
Tenho um sonho. Ao contrário do sonho do dr. King, não envolve interacção multi-racial. Aliás, não envolve ninguém. Não discrimina. Exclui todos por igual. Numa sitcom britânica de boa memória, Game On, um dos personagens nunca saía do prédio onde vivia. Desde que vi o primeiro episódio que soube o que queria fazer da minha vida. Não sair de casa. Não ver ninguém. Não ouvir ninguém. Não ter de enfrentar o semelhante. Especialmente o semelhante. Se a Humanidade fosse um bocadinho mais diferente de mim, talvez eu gostasse mais dela. Assim, não quero ter de enfrentá-la. Preferia ficar em casa. Sempre. Estar longe das pessoas. Das pessoas que nunca se calam. Das que nunca falam. Das que cheiram mal. Das que têm demasiado perfume. Das que não têm cheiro. Das que não têm cérebro. Das que não têm nada. Das que querem que eu dê alguma coisa. Das que me querem dar outra. Sem ver mulheres feias, porque incomodam. Sem ver mulheres bonitas, porque se incomodam comigo. Sem ver homens, porque nos incomodamos mutuamente. Sem me perguntarem se conheço a Palavra do Senhor. Sem me tentarem convencer que o Dito é uma invenção. Sem ninguém para me exigir uma declaração das Finanças só para eu poder ir à casa de banho. Sem ter de ir à casa de banho por ter ido às Finanças. Tudo desde que vi essa série. No último episódio, essa personagem é arrastada para fora do prédio, por uma banda de um apartamento vizinho que iria dar um concerto, e que precisou dele para servir de vocalista. Com o sofrimento que enfrentou por abandonar o recato do lar, passou o concerto todo a gemer. Não cantou. Uivou. No dia seguinte, a sua prestação era elogiada pela crítica, como uma metáfora para o homem moderno. Eu também sou arrastado para fora de casa. Todos os dias. Apenas não recebo elogios da crítica. Não sou uma metáfora. Sou a cara chapada da falta de vontade. Para tudo. Para o que quer que seja.
Posted by Bruno at 09:41 PM