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dezembro 31, 2005
Ano Novo
Hoje, milhões de portugueses preparam-se para uma noite de festa. Tudo porque uma convenção estabelecida em tempos idos faz do dia de hoje o último do ano. Esta noite, gritarão, num misto de alegria e bebedeira, "adeus 2005; olá 2006". É certo que para o português tudo é motivo de festa, até mesmo a derrota de uma equipa portuguesa na final de um campeonato de futebol (um abraço para o senhor Scolari). Mas isso não explica o que se passa numa série de outros países. Pois não é só em Portugal que a alegria se solta e o alcóol percorre as veias. Para mim, isto é inexplicável. Milhões de pessoas celebram o final do ano. Para mim, qualquer celebração é incompreensível. A do final do ano ainda mais. Parecem considerar que com o final de um ano, todos os problemas que enfrentaram ao longo do dito se afastarão. Festejam, por acharem que, com o andar do ponteiro, não é só o ano que muda, mas também a sua vida. E por isso festejam, como se não houvesse amanhã, ou como se o amanhã que haverá fosse independente do dia anterior. E assim, esperando começar bem o ano, com toda a alegria que manifestam nas reportagens televisivas em que dizem olá às suas mães, envergonhadas com a triste figura dos filhos, festejam. Celebram. Entram. No ano. E de tanta festa, entram mal, começano o ano a sofrer com a ressaca da festa da noite anterior.
Posted by Bruno at 10:16 PM
dezembro 30, 2005
Freitas e a Constituição
O dr. Freitas do Amaral, Ministro dos Negócios Estrangeiros, afirmou que a "Constituição Europeia" não tinha viabilidade. Louvável sinal de sensatez. Freitas considera que "fez-se um texto enorme, confuso, cheio de anexos, com centenas de artigos, com centenas de páginas, que ninguém lê, que ninguém é capaz de ler, que ninguém tem pachorra para ler, que não diz nada aos cidadãos europeus". Tem razão. O problema é que Freitas considera que "será preferível pôr entre parênteses as questões mais controversas e encontrar um denominador comum, porventura menos ambicioso, mas que permita dar um passo em frente". Nada contra a procura de um denominador comum. Tudo contra os passos em frente. Freitas percebeu que a "Constituição" não tem pernas para andar. E percebeu que isso se deve ao próprio carácter do projecto. Mas não percebeu que mais "passos em frente", mais passos no sentido da centralização, mais passos federalizantes, apenas agravam os problemas da União Europeia. Ainda não percebeu que, por exemplo, o facto de franceses e ingleses se oporem por razões diametralmente opostas à "Constituição", a melhor prova que os passos em frente desejados por Freitas são um erro tremendo. Freitas do Amaral prefere que a "Constituição" seja um "Tratado", não por achar que o projecto federalizante, que o primeiro termo implica, seja uma imprudência, mas para que o carácter desse projecto, mantendo-se intacto, seja mais "vendável". Está no seu direito. Mas está errado.
Posted by Bruno at 10:40 PM
Isto Não é Uma Piada
Fiquei supreendido por Pacheco Pereira ter incluído na sua lista das "péssimas coisas" deste ano o programa de António Vitorino na RTP. Não tanto por considerar o dito programa como algo "péssimo", mas o ter visto o tempo suficiente para emitir uma opinião. Eu tentei, mas não consegui. As pessoas podem pensar que exagero, para menosprezar Vitorino. Mas não. Tentei, uma vez, ver o programa de Vitorino. Passado um minuto, mudei de canal. Sem exagero. E não conheço ninguém que já tenha prestado alguma atenção ao que lá tenha sido dito. Aliás, esta é a primeira referência que vejo ser feita ao Notas Soltas, se exceptuarmos as colunas da programação televisiva.
Posted by Bruno at 10:18 PM
dezembro 29, 2005
A Campanha e a Credibilização
A dificuldade da situação que o país enfrenta está à vista de todos aqueles que não queiram manter os olhos tapados. O imenso peso do Estado, as consequências que tal implica, a insustentabilidade da segurança social, do sistema nacional de saúde, a ineficácia da justiça, tudo isto é evidente para quem não queira fugir à evidência. Como é evidente que uma eventual resolução destes problemas terá forçosamente de passar por uma série de medidas que custarão muito a muita gente. Essas pessoas só estarão dispostas a aceitá-las se acreditarem na virtude dessas mesmas medidas. Se forem convencidas dos méritos dessas medidas. Se tiverem confiança nos políticos que eventualmente as venham a colocar na agenda. Hoje em dia, nenhum político, ou pelo menos nenhum político com responsabilidades, avança com tais propostas. Mas nenhum terá condições para as implementar enquanto um outro elemento não tiver sido conquistado. Enquanto não for feito um esforço no sentido de credibilizar a classe política. Quem esperava que tal credibilização pudesse partir destas eleições presidenciais, certamente olhará para esta campanha como um enorme desperdício.
Nem todos os candidatos poderiam contribuir para essa eventual credibilização. Jerónimo e Louçã são demasiado minoritários para terem algum efeito nesse sentido. E, sendo candidatos "anti-sistema", pertencentes a partidos colocados nas margens do espectro político, qualquer apreço pelas suas propostas e pela sua postura é uma manifestação de descrença nos "políticos" desse sistema, da parte de quem manifesta esse apreço. Soares é demasiado majestático para se preocupar com esses problemas mundanos. Soares candidata-se para defender o seu feudo, o seu grupo no seio do PS, as suas ideias acerca da "cidadania global" e da "Europa Unida", o seu direito natural de propriedade privada sobre o Palácio de Belém. O resto é para gente que "não lê livros para ler dossiers". Para mais, tem contribuído como ninguém para acentuar a descredibilização que se vai notando. Todas as suas declarações dizendo que Cavaco não falava, que Cavaco parecia uma esfinge, que Cavaco estava "hirto" e "nervoso", todas as declarações acerca do perigo que espreita a eleição de Cavaco, e até a sua prestação no debate onde a sua "energia" terá "encostado Cavaco às cordas", não tiveram outro efeito que não acentuar, na opinião pública, a ideia de que "os políticos" estão mais preocupados com as suas tricazinhas do que "com as pessoas".
Alegre, pela génese da sua candidatura, poderia contribuir para a introdução no debate de uma série de temas que poderiam contribuir para esse esforço de credibilização. Como fez na sua campanha para a liderança do PS, Alegre poderia chamar a atenção para o predomínio da imagem sobre a substância na política moderna, poderia, por não depender de um aparelho partidário, adoptar uma postura de maior preocupação com a defesa de um conjunto de ideias (certas ou erradas, não é isso que aqui está em questão) do que com os resultados que esse conjunto de ideias poderia obter. Mal começaram os debates, Alegre desperdiçou essa oportunidade. Devido a uma mistura de inabilidade e impreparação, Alegre deixou-se enredar nas vacuidades discutidas pelos adversáios e pelos jornalistas, e cometeu uma série de erros factuais que muito o prejudicaram. Mal começou a perder terreno, começou a queixar-se de "discriminação" por parte da comunicação social, de estar a ser deliberadamente prejudicado, numa atitude que em nada o distingue de Soares.
Cavaco até poderia lucrar com esta situação. A sua imagem de homem rigoroso, competente e que quer "falar do futuro" para "ajudar Portugal a vencer" contrasta com as atitudes dos seus opositores. Esse contraste favorece-o, e a sua vitória poderia ser um factor dinamizador da tal credibilização. No entanto, o próprio Cavaco é afectado pelo discurso dos outros candidatos. Como toda a cobertura da campanha se centra nos ataques pessoais e nos exageros que todos fazem relativamente a Cavaco, este é constantemente questionado acerca disso, nunca podendo fugir do assunto. Se o faz, avançando com alguma ideia, é acusado de se querer intrometer na esfera governativa, sendo obrigado a responder a essa acusação, eliminando o efeito que procura ao tentar afastar-se desse tipo de discurso. Nada disto o impedirá de ganhar. A certeza da sua vitória é aliás um dos factores que obriga os seus adversários a atacá-lo sem um pingo de vergonha. Mas grande parte do que essa vitória poderia trazer ter-se-á perdido no vazio da campanha eleitoral.
Posted by Bruno at 10:11 PM
dezembro 28, 2005
Cameron e Geldof
David Cameron, novo líder dos Tories, criou um grupo de trabalho para delinear uma série de políticas para combater a pobreza nos países menos desenvolvidos. Desse grupo de trabalho, fará parte Bob Geldof. Para quem nunca tenha ouvido David Cameron a falar sobre o assunto, a notícia é preocupante. Para quem conheça algumas declarações de "Dave", é estranho ouvir isto. Ainda num recente debate parlamentar, Cameron criticou a inundação de subsídios que alimenta a agricultura europeia (a expressão é minha) devido às consequências negativas que tem para os países africanos, e afirmou que mais do que ajuda que mais não é que financiamento de ditadores locais deveria ser substituído por abertura dos mercados. É portanto estranho, e algo preocupante, que Bob Geldof, promotor de angariações de fundos para a compra de frotas de Mercedes de sanguinários déspotas, seja convidado pelo "boy wonder". Mas, na minha modesta opinião, não há razões para tal.
Em primeiro lugar, Bob Geldof, que ao longo destes anos todos a lidar com o problema não ganhou juízo, terá tido tempo para aprender alguma coisa. Passou a conhecer as estatísticas, contactou com várias organizações. Para quem queira tratar do problema, a experiência de Geldof pode dar jeito. O problema estará, claro, nas suas opiniões. Mas Geldof não irá chefiar o tal grupo. Será apenas mais um dos seus membros. E em segundo lugar, o grupo não tem poder para definir qual a política do Partido Conservador nessa área. Essa responsabilidade cabe ao ministro-sombra Andrew Mitchell, que foi director de campanha de David Davis (tudo menos um socialista, portanto), e que ainda recentemente declarou que "Big government, high taxation, simply throwing money at Africa; These are not the answers. European Union Reform, accountable aid and free trade- that is what is needed -Conservative values. Make no mistake this is Tory territory." Ou seja, Geldof irá dar conselhos, que poderão ser convenientemente ignorados caso contrariem a política definida pelo responsável pela área (esta é aliás a razão pela qual as recentes declarações de Oliver Letwin sobre a "redistribuição de riqueza" são absolutamente irrelevantes, a não ser que venham a ser secundadas ou pelo "shadow chancellor" George Osborne, defensor do "flat-tax", ou pelo próprio Cameron, muito próximo de Osborne). Por último, ainda hoje, na sua declaração a propósito da criação deste grupo, Cameron destacou claramente a questão dos direitos de propriedade como forma de "empowerment" (não sei como melhor traduzir isto) dos mais pobres. Ou seja, colocou ênfase naquilo que merece ênfase.
E há outro elemento que convém ter em conta. Cameron quer que o seu partido fale do problema da pobreza em África. Quer se queira quer não, Bob Geldof tem monopolizado a questão. Cameron, ao tratar deste assunto, nunca poderia evitar Geldof. Qualquer declaração de um membro dos Tories sobre o assunto seria imediatamente seguida da reacção de Geldof à dita. Para isso, mais vale ouvi-lo dentro de portas, do que tê-lo a fazer ruído. Geldof está limitado, e não tem poder que compense essa limitação. Não é um responsável político. É uma "ajudinha". É, aliás, normal que Cameron queira tratar do assunto. Percebeu, e bem, que o assunto preocupa as consciências da "rua". Resta saber se quer tratar do assunto com ideias diferentes, e melhores, que aquelas que têm monopolizado o discurso sobre a questão. Espero que seja o caso. E até creio que será, tendo em conta o que conheço. Acima de tudo, espero não me enganar.
Posted by Bruno at 10:06 PM
dezembro 27, 2005
Incómodos
Um espectro paira sobre todo o Portugal. Por todo o país, da "direita" à "esquerda", já todos perceberam que Cavaco Silva será eleito Presidente da República. Da "direita" à "esquerda", muitos manifestam o seu desagrado com a perspectiva. Alguns, mais à "direita" do que à "esquerda", estão desagradados, mas não o manifestam. À "direita", o incómodo deve-se ao facto de não considerarem Cavaco como sendo "suficientemente" de "direita". A "esquerda", unida no incómodo, divide-se quanto às razões que o motivam. Para uns, quer ser Primeiro-Ministro. Ponto final. Para outros, quer ser Primeiro-Ministro, o que até nem seria mau, não fosse ele "neo-liberal". Para outros, "ele não lê livros". A todos, esperam dez anos de incómodo. Podia ser pior. A mim, por exemplo, incomoda-me o cargo, independentemente de quem o ocupe. E o cargo não tem limite de mandatos.
Posted by Bruno at 10:32 PM
dezembro 26, 2005
Ilusões
Na sua pregação natalícia, o Primeiro-Ministro afirmou que "o país não avança continuando a viver de ilusões". O Primeiro-Ministro tem toda a razão. Pena que tenha sido isso precisamente o que o Primeiro-Ministro tem andado a oferecer às pessoas. Durante a campanha, ofereceu a ilusão de que bastaria "voltar a acreditar" e agora vende a ilusão de que bastarão os "sacrifícios" conjunturais para salvar o Estado Social. Aliás, o resto da frase do Primeiro-Ministro é bastante reveladora. Não só não poderíamos continuar com "ilusões", como Portugal não poderia continuar a viver de "sucessivos adiamentos". O que também é verdade. Pena é que a única coisa que o primeiro-Ministro não adiou foi a decisão de continuar a alimentar a ilusão de que o desenvolvimento do país se fará com grandes obras públicas, alimentadas pelos desígnios propagandísticos do poder político. Pena que todas as decisões que tomou, até mesmo as mais difíceis, não façam outra coisa que não adiar a resolução de todos os problemas que Portugal precisa de resolver.
Posted by Bruno at 09:48 PM
dezembro 23, 2005
Este blog, apesar de infiel, é reaccionário. Não tem fé em Deus, mas lamenta-se por isso. Não voltará antes de dia 26. Até lá, um Bom Natal para todos os meus caros leitores.
Posted by Bruno at 09:50 PM
dezembro 22, 2005
Do Que Fala Cavaco
O dr. Soares tem um problema com Cavaco. E não é só o facto de "ele", segundo o que supostamente dirão os "amigos" que Soares tem por essa Europa fora, "não ter conversa". O problema, para Soares, é que Cavaco fala sobre coisas que são da competência do Governo. Eu também tenho um problema com Cavaco. Não me aflige muito, porque em nada interfere com o que eu acho que Cavaco poderá trazer para a Presidência. Mas não deixa de dar sinais da sua existência. Não mata a minha intenção de votar em Cavaco, mas mói. Não se trata é do problema que tanto parece afectar o dr. Soares.
Claro que o dr. Soares não acredita naquilo que diz. Sabe muito bem, até porque o fez, que o Presidente pode falar de áreas como o emprego, a competitividade, etc. Mas vamos deixar a sinceridade de Soares de lado. Finjamos, for argument's sake, que o dr. Soares pensa aquilo que diz. Como dizia Lobo Xavier na Quadratura do Círculo (Flashback para os saudosistas, Central de Informação para Jorge Coelho), se é verdade que o Presidente não tem competências específicas nessas áreas, convém que tenha ideias. O facto de Cavaco as ter não obriga o Governo a segui-las. Ora, o meu problema com Cavaco não está em "ele" falar dessas áreas, e muito menos em ter ideias acerca delas. O meu problema está em que o prof. Cavaco fala dessas áreas, sem dizer que ideias tem para elas. Na realidade, quando o prof. Cavaco fala destas questões, o conteúdo das suas afirmações são "objectivos", e não "ideias". Cavaco quer uma economia competitiva, mas não diz se o modelo que o irá conseguir envolve mais ou menos Estado, mais ou menos iniciativa privada. Quer melhor Educação, mas não diz se a pretende obter com reformas centralistas feitas a partir da 5 de Outubro, ou se se deve adoptar um esquema com maior liberdade e responsabilização para escolas e encarregados de educação.
Este era o debate que o país precisava. A discussão acerca de que tipo de sociedade queremos. Cavaco não o faz, e eu tenho pena que não o faça, especialmente tendo em conta o seu passado. Mas, convenhamos, a "culpa" não é sua. Como já aqui escrevi, é a própria natureza do cargo que condena a discussão a generalidades. Quando um Presidente toma uma posição que é contrária à do Governo, fala-se de conflito institucional, se não se compromete com uma posição clara, acusam-no de se condenar à irrelevância. Em ambos os casos, provavelmente, terão razão. O que diz mais acerca da natureza do cargo do que acerca da conduta de quem o ocupa em determinado período. É apenas e só natural que Cavaco Silva não se queira comprometer demasiado, como aliás nenhum outro candidato "sério" (Jerónimo e Louçã não contam para o que aqui se está a discutir) quer. É natural, mas custa ouvir. Porque é o contrário do que seria necessário.
Posted by Bruno at 10:19 PM
dezembro 21, 2005
O Debate 2
Do leitor Jorge Bento, chega-me o seguinte mail, enviado ainda ontem, pouco depois do fim do debate entre Cavaco e Soares:
"É verdade o spin já começou, onde vimos falta de educação e de ideias, os spin doctors da TV viram grande energia e Soares ao ataque...... Nunca esperei ver Soares tão submisso e sem argumentos e o Cavaco a rir-se à frente de Soares na TV, à espera que este falasse das suas ideias para o futuro e o Soares a responder que já lá ia, que ainda tinha muito tempo, e volta de falar da governação do Cavaco......... parecia um programa sobre Cavaco na 1ª pessoa e com Soares a imitar Cavaco, "eu também percebo de economia". Hoje não tenho dúvidas, Cavaco limpa à 1ª........."
O Jorge tem toda a razão. A pobreza do debate de ontem foi confrangedora, e a falta de educação de Soares evidente. Mas há um elemento que é preciso ter em conta. A postura de Soares é, em grande parte, motivada pelas circunstâncias. Soares tem sido forçado a atacar Cavaco, a provocar Cavaco, a ofender Cavaco, devido à necessidade que teve de justificar a sua candidatura como uma reacção ao "perigo" que aí vinha, e a enorme vantagem que o suposto "perigo" tem nas intenções de voto. O que impressiona é que Soares dá a ideia de não desgostar daquilo a que foi obrigado a fazer...
Posted by Bruno at 10:18 PM
dezembro 20, 2005
O Debate
Mais do que um retrato dos candidatos (que também o foi), o debate de hoje foi um retrato do actual estado de coisas. Quer se queira quer não, a eleição está terminada. Está terminada, porque na cabeça das pessoas, e principalmente, na cabeça das pessoas da comunicação social, Cavaco Silva já venceu. E isso viu-se muito bem no debate de hoje, onde a discussão foi apenas sobre uma coisa: Cavaco Silva. Um debate entre Cavaco e Soares poderia ser algo de realmente estimulante, tendo em conta a importância histórica das figuras. Mas para que tal acontecesse, seria necessário que as circunstâncias fossem diferentes. Seria necessário, por exemplo, que a eleição estivesse renhida, o que favoreceria o debate de ideias, ao não forçar Soares a, como aconteceu hoje, centrar a sua acção no ataque mesquinho a Cavaco.
O debate foi revelador dos candidatos ao, no que diz respeito a Soares, mostrar aquilo em que consiste a sua "habilidade" nos debates. Dizer o que for preciso no momento, independentemente de poder estar a entrar em contradição com o que disse apenas uns minutos antes. Por exemplo, quando diz que Cavaco tem vergonha da sua família política e, poucos minutos depois, diz que a sua candidatura é a da vingança, do ajuste de contas com a derrota de Fevereiro. Foi também revelador do ódiozinho pessoal que Soares não consegue abandonar, visível, por exemplo, na deselegante afirmação de que ele conhecia os que "eles" (chefes de governo europeus) diziam "dele" (de Cavaco). Revelador de Cavaco, mostrando como alguém que, na acção governativa foi capaz de rupturas e desagradar a metade de um país para realizar o que a outra metade o mandatou para fazer, é, paradoxalmente, extremamente receoso de se comprometer com o que quer que seja, em campanha (embora aqui,a natureza do cargo contribua para tal indefinição).
A única questão que, por isso, motivou alguma discussão, foi o passado de Cavaco Silva. Foi a história. O que mais uma vez, mostra como as coisas estão. Mostra que dificilmente poderá passar pelo cargo da Presidência a resolução do que quer que seja. Mas mostra também como Soares entende o exercício do cargo presidencial. Ao discutir a sua acção como Presidente durante a governação de Cavaco, Soares mostrou como entende o acto de "ouvir", como uma acção de propagação do eco do descontentamento da "rua", em protesto contra o governo. Se Soares acha que Cavaco será fonte de instabilidade, qualquer pessoa com ouvidos percebe que Soares não poderá ser outra coisa.
Quem ganhou o debate? Isso é assunto vazio, para os especialistas da vacuidade se entreterem a discutir. Pior que estes debates, só mesmo o spin que se lhes segue.
Posted by Bruno at 10:23 PM
dezembro 19, 2005
Blair em Cheque
Num debate parlamentar acerca das negociações do orçamento da UE para os anos de 2007 a 2013, o Primeiro-Ministro britânico, para justificar o não-cumprimento dos objectivos que tinha definido à partida para esta negociação (diminuir o peso desse orçamento, numa altura em que todos os países europeus estão a gastar de mais, e a endividar-se de mais; conseguir uma reforma profunda da PAC; e no caso de nenhum dos anteriores merecer o apoio dos restantes países, garantir que o "cheque britânico" se mantivesse intacto), afirmou que o referido "cheque", mantendo-se intacto no que diz respeito a todas as despesas da PAC, e mantendo-se intacto no que diz respeito aos fundos dos Quinze, era apenas cortado nas despesas relativas aos fundos de coesão e desenvolvimento dos novos países membros, de forma a, aumentando a contribuição britânica, ajudar estes mesmos países. Os desejos de Blair são louváveis. Mas infelizmente, a sua fé nestas medidas como forma de os realizar não está bem orientada. O orçamento da UE não é o instrumento para o conseguir. E não só por, como disse nesse debate David Cameron, a Irlanda, mais rica per capita que a Inglaterra, receber (per capita) mais fundos que novos membros como a Lituânia, a Eslováquia e a Polónia. E não só por o maior beneficiário per capita deste Orçamento ser, como diz o editorial do Telegraph, o Luxemburgo. Mas essencialmente porque, muito mais que o dinheiro fácil dos Fundos europeus, os cidadãos dos novos países membros beneficiariam de uma profunda reforma da política em que Blair não tocou. De uma reforma de uma Política Agrícola Comum que gasta cerca 40% do orçamento da UE em cerca de 4,5% da força produtiva europeia. De uma reforma de uma Política Agrícola Comum que, para além de privar do seu sustento os agricultores dos países mais pobres do mundo, ao aumentar os preços daquilo que produz, prejudica todos os consumidores de todos os países europeus, especialmente os dos novos membros, que, por serem em geral mais pobres, são também particularmente afectados por esta injustiça.
Posted by Bruno at 10:15 PM
A Ler
No Insurgente, o texto Democracia: sem representação, não há participação do André Abrantes Amaral. Embora mereça ser lido na totalidade, fica aqui um pequeno excerto:
"A democracia não é todos podermos decidir a todo o instante sobre tudo. Isso é utopia. Democracia é ser-nos dada a possibilidade de escolher, para um período de tempo determinado, quem vai decidir sobre a vida em comunidade. Se o poder de decisão deverá incidir em muitas ou poucas áreas, isso já é tema para socialistas e liberais. O que interessa agora à discussão é que todos escolhemos. Todos nos podemos candidatar, mas apenas os que vencerem, governam durante determinado período de tempo, findo o qual se repetirá a eleição.(...)
(...)Uma única nota chamando a atenção para que, nem sempre, nas democracias parlamentares, o poder legislativo é engolido pelo executivo. Um caso paradigmático é o britânico. Tal sucede, a meu ver, devido ao sistema uninominal de eleição dos deputados que lhes dá uma legitimidade directa e não totalmente dependente da vontade do líder partidário. Por essa razão, entendo que o parlamentarismo apenas pode funcionar nessas condições e a sua alternativa credível ser o sistema presidencial, onde existe verdadeira separação de poderes."
Posted by Bruno at 09:51 PM
Mundo Moderno (a minha mais recente insurgência)
Na campanha presidencial, Soares foi agredido por um veterano do Ultramar. Por sua vez, os cidadãos foram agredidos pelo vazio da discussão entre os vários candidatos. O plano tecnológico, apesar de estar apenas a dar os primeiros passos, começa já a cumprir a sua promessa de fornecer aos nativos 150 mil empregos. Para já, deu três, e isto só na liderança do dito. Está, portanto, no bom caminho. O Governo anunciou o projecto do TGV, lançando o país numa vertiginosa viagem até ao descalabro. Na discussão do orçamento da UE, Tony Blair aceitou uma redução do famoso choque britânico em troca de uma mera (e provavelmente vã) promessa francesa de no futuro se vir a reformar a PAC. Consta que a viagem do Primeiro-Ministro britânico para Bruxelas terá sido assaz demorada, visto que ele fez o caminho todo de joelhos. Foi uma semana em cheio para a França. As declarações do Primeiro-Ministro iraniano relativamente a Israel demonstram um genuíno esforço de aproximação à política externa do Eliseu. E as "manifestações" dos "activistas" na cimeira da OMC são uma clara manifestação de apreço por todo um espírito "rive gauche". Não só nas reivindicações proteccionistas como no estilo animado em que as tornam públicas. George W. Bush afirma que as informações sobre a existência de armas de destruição massiva no Iraque estavam erradas, mas que a sua decisão havia sido, no seu entender, a correcta, e logo as boas consciências fazem tornar verdade a mentira de que ele terá afirmado que os seus argumentos estavam errados. O que diz mais acerca das boas consciências do que acerca de George W. Bush. Enquanto que no Iraque, proliferam os sinais da opressão invasora do imperialismo bushista. Esta semana, a inumanidade chegou ao ponto de milhares de homens e mulheres iraquianos terem sido forçados a exercer o seu direito de voto nas primeiras eleições parlamentares.
Posted by Bruno at 09:46 PM
dezembro 18, 2005
Cheque Britânico
Sobre esta matéria, vale a pena ler o editorial do Telegraph e o do Times. Um excerto do Telegraph:
"Hypothesise that, when his fellow heads of Government called his proposals "unacceptable", he had replied: "Fine: don't accept them, then", and that the talks had concluded without issue. Conjecture that, in consequence, the EU budget had dried up altogether. Who would have been the big losers?
The main victims would, of course, have been EU officials. Also feeling the pinch would have been the swarm of consultants and contractors who live off Brussels subsidies. Some farmers would have faced an immediate shortfall in their incomes, although their home countries would soon have made up the difference, doubtless relieved at no longer having to recycle the money through Brussels.
For the rest of us, life would carry on: the sky would not fall in, Christmas would not be cancelled. Indeed, it would be an especially happy Christmas for British taxpayers. Relieved of the need to hand over £12 billion a year to the EU, we should be able to abolish inheritance tax and capital gains tax, and still have enough left over to scrap stamp duty.
Why, then, was the Prime Minister determined to strike a deal at any price? He claimed yesterday that refusing to surrender a chunk of the rebate - ie, holding to his own stated position - would have "wrecked our relationship" with the rest of Europe. But there is no evidence that EU subventions benefit the citizens of the recipient states; on the contrary, they arrest development and encourage corruption."
Um excerto do Times:
"In the early hours of yesterday he returned from Brussels clutching a piece of paper that represents his deal on the European Union budget. When the French start praising Tony Blair’s negotiating stance you know something is wrong. According to Jacques Chirac, the French president, the prime minister had made a “legitimate but politically difficult” gesture. Philippe Douste-Blazy, the French foreign minister, was a harsh critic of Britain’s budget proposals in the run-up to the Brussels summit. After Britain’s concessions he praised Mr Blair for risking a political battle at home to put the interests of Europe first.(...)
(...)Three years ago Mr Blair allowed himself to be ambushed by Messrs Chirac and Schröder, the then German chancellor, over the common agricultural policy budget for the period to 2013. Since French farmers receive 22% of CAP handouts, France was understandably keen on the deal which it regarded as set in concrete. Why then did the prime minister allow himself, and British taxpayers, to believe that agreement could be reopened in return for a surrender of part of Britain’s historic EU rebate? Why did he tell business leaders at the CBI conference three weeks ago that the rebate would remain as long as “distortions of expenditure under the CAP” were unreformed?
Nobody would argue with Mr Blair’s sentiments about the wasteful and anachronistic CAP, which is inflicting damage well beyond Europe’s shores. World Trade Organisation talks in Hong Kong are on the brink of collapse because of the inability of Peter Mandelson, the EU trade commissioner, to give ground on agriculture. But why did the prime minister hold out the hope of a rebate-for-CAP reform deal when there was no prospect of him securing it? He is just not that good a negotiator.
The prime minister’s second error was alienating the new EU members in eastern Europe with his pre-summit proposal that spending on them, rather than the CAP, be cut. Yesterday Mr Blair insisted: “We can’t ask the poorer countries of central and eastern Europe to pay the rebate on British spending because that would obviously be wrong.” So why did he first propose a plan that was clearly against their interests? As it is, many fear that new EU spending will go on grandiose projects rather than fostering enterprise and economic independence. Does it really serve our interests for Budapest to have a better Underground system than London, paid for by British taxpayers?
Britain will pay more into the EU, our net contribution rising from £3.5 billion to nearly £6 billion a year. The British rebate has been shaved by £1 billion a year. And for what? Next to nothing. It would have been better for Mr Blair to walk away than agree this deal. He, however, was anxious not be seen as an EU wrecker — that would not be good for his so called “legacy”. Next door in 11 Downing Street, as he watches the prime minister negotiating away Britain’s interests, Gordon Brown is fuming. He is right to be."
Posted by Bruno at 10:20 PM
dezembro 17, 2005
Escusado
Houve, na campanha de Cavaco Silva, dois momentos que poderiam, e deveriam, ter sido evitados. Não contribuem em nada para o debate, nem sequer para a imagem que Cavaco Silva quer passar de si próprio. O primeiro foi o seu comentário quanto ao "tom" ("azedo", se bem me recordo das suas palavras) do debate entre Soares e Alegre. Cavaco não deveria ter feito tal declaração. Visto que esta é mais própria da campanha que Soares tem feito, e pouco digna de alguém que, como Cavaco, se pretende afastar do jogo sujo da política que ele associa aos "profissionais da política". O segundo foi o "jantar com as mulheres". Não sei se este estava já planeado antes do início da campanha. Se estava, não deveria estar. Se não estava, constituiu uma escusada cedência a uma das mais demagógicas "críticas" que têm sido feitas a Cavaco, a de que este não havia "dedicado uma única palavra às mulheres". Críticas dessas não devem ser respondidas por Cavaco, nem muito menos devem condicionar a sua agenda. Fazê-lo é não só colocar a sua candidatura numa espécie de subserviência aos outros candidatos, com uma espécie de necessidade de auto-justificação perante as críticas destes, como acaba também por atribuir autoridade e credibilidade a argumentos sem qualquer sentido. É certo que muito provavelmente, nada disso custará votos a Cavaco, visto que não só a generalidade dos eleitores não é sensível a estas questões, como, mesmo que fosse, Cavaco está numa posição tão confortável, que tais atitudes dificilmente seriam suficientes para o colocar atrás dos outros candidatos. Mas também por isso, essas mesmas atitudes eram algo completamente escusado.
Posted by Bruno at 10:19 PM
A Ler
O texto do meu amigo João, acerca do livro de Pacheco Pereira A Sombra (estudo sobre a clandestinidade comunista) (que, tal como os vários volumes da biografia de Cunhal, ainda não li). Um pequeno excerto do que escreveu o João:
"Para quem está familiarizado com os métodos da cosa nostra, da mafia siciliana, o perigoso mundo da clandestinidade poderá parecer um mundo semelhante. Na verdade é. Pelo menos num sentido: nunca se sabe quem é o amigo e quem é o inimigo, portanto o perigo pode vir de qualquer lado."
Vale a pena ler. O que o João escreveu, e a crer no que ele diz, o livro.
Posted by Bruno at 09:32 PM
dezembro 16, 2005
George W. Bush
No Público de ontem, podia ler-se que "Bush admite que argumentos para a guerra do Iraque estavam errados". Assim versava o título da notícia. Já o seu corpo dizia algo ligeiramente diferente. O que Bush havia dito era que "muitas das informações que justificaram a guerra do Iraque estavam erradas". De facto, não é bem a mesma coisa. A primeira implica um arrependimento, a ideia de que não se devia ter agido daquela maneira. A segunda, aquela que Bush realmente disse, apenas diz que as informações em que a decisão se baseou estavam erradas. O que, se atendermos ao resto das declarações do Presidente dos EUA, não quer dizer que a decisão estava errada. O que Bush diz é que "tendo em conta o passado de Saddam(...) considero que a minha decisão foi a melhor". Como muito bem nota Miguel Monjardino na Sábado desta semana, o problema do Iraque não começou em 2003. Começou nos anos 90, e dura há 15 anos. Aliás, o próprio facto de não se terem descoberto as armas de destruição massiva são um exemplo de como o regime saddamita era perigoso. Porque ainda está por explicar por que razão Saddam não colaborou "incondicionalmente" com as inspecções da ONU, como exigia a resolução do CS, se essas armas não existiam. Das duas uma: ou as armas existiam, e entretanto foram enviadas para outro sítio, ou não existiam, e Saddam queria criar a ilusão de que as detinha, para se elevar na balança de poder da região. Seja qual for o cenário verdadeiro, um elemento é comum: Saddam era um factor desestabilizador da região. E por isso, a decisão de George W. Bush foi a correcta.
Posted by Bruno at 06:50 PM
dezembro 15, 2005
Acabado de Ver
No Hollywood, um bem conseguido filmezinho, intitulado The Last Days of Disco, do realizador desse outro pequeno mas agradável filme Barcelona. O de hoje (para além de ter no elenco esse actor de culto que é Chris Eigeman, de filmes como o delicioso Mr. Jealousy, de Noah Baumbach), tem a vantagem de contar com Chloe Sevigny, ainda para mais a interpretar uma personagem vagamente reaccionária...

Posted by Bruno at 10:43 PM
dezembro 14, 2005
O Que Significa Liberalizar
Se há equívoco que a esquerda portuguesa gosta de alimentar, quer seja porque realmente crê naquilo que diz, quer seja porque finge que acredita naquilo que diz, é aquele que parte do pressuposto de que os que defendam uma liberalização da economia e da sociedade portuguesas querem, no fundo, fazer o jogo dos empresários. É o equívoco que está na base de toda a retórica de Jerónimo de Sousa, por exemplo, ou nas "chamadas de atenção" de Louçã para o facto de na lista de apoiantes de Cavaco Silva se contarem inúmeros empresários. Claro que a esquerda tem boas razões para pensar isto. Os próprios empresários pensam assim. Para eles, liberalizar significa que o Estado sairá da frente, em alguns domínios, mas dará um empurrãozinho por trás nuns, e servirá de escudo dianteiro noutros. Para os empresários, é bom que o Estado passe a cobrar menos impostos, mas continue a dar subsídios, e continue a defender os "centros de decisão nacionais", alimentando a mediocridade pátria, apenas pelo facto de ser "nossa". No entanto, há por aí muito boa gente que, quando fala de liberalização, quer mesmo dizer liberalização. Não quer dizer "favorecer os ricos", não quer dizer "ajudar os empresários". Quer dizer "liberalizar". Que defende que o papel do Estado seja reduzido. Que se reduza ao que mais nenhum outro pode fazer. Que não favoreça as empresas em geral, ou umas empresas em detrimento das outras (com os recursos sugados às restantes através dos impostos), nem, como na velha retórica comunista, favoreça o "proletariado" em detrimento das "classes possidentes". Mas que sirva de àrbitro na competição entre estes indivíduos, entre estes grupos, e todos os restantes, que o discurso simplista de quem vê o mundo como algo em que tudo se divide entre os que têm e os que não têm, ignora. E em que as diferenças entre eles sejam fruto do resultado dessa competição. E não do favorecimento ou marginalização estatal.
Posted by Bruno at 05:00 PM
dezembro 13, 2005
Sobre Jerónimo
A forma como Jerónimo de Sousa tem "aparecido" na comunicação social é um dos fenómenos mais curiosos dos últimos tempos. Convém não esquecer a forma como o PCP era encarado, na liderança de Carlos Carvalhas, pela comunicação social. Quase esquecido. Ridicularizado quando lembrado. Objecto de antipatia generalizada. E convém ter ainda em mente a forma como a escolha do próprio Jerónimo de Sousa para Secretário-Geral foi encarada. A forma como o seu passado de operário era mencionado, num tom irónico e menorizador (um pouco como as origens humildes de Cavaco Silva), ou a caracterização da sua pessoa como um "ortodoxo" agarrado ao passado, prometiam uma continuação do tratamento do seu partido como até então havia ocorrido. Mas o facto é que Jerónimo de Sousa (embora no que diz respeito ao PCP a questão seja mais duvidosa) tem sido alvo de grandes simpatias. Isso já havia sido notório, e comentado, nas últimas legislativas. Suspeito que as eleições presidenciais irão apenas e só acentuar este fenómeno. O carácter unipessoal da eleição, e a presença de Jerónimo nos vários debates, atrairá sobre si uma atenção, e simpatia, que o PCP, enquanto partido, dificilmente conseguiria atrair. Se é verdade que a sua campanha é feita para fazer passar a mensagem do PCP, é também verdade que o facto de Jerónimo de Sousa se apresentar enquanto "Jerónimo de Sousa", e não como "Secretário-Geral do PCP", facilita o aproveitamento dessa onda de apreço de que tem sido alvo. E que é, diga-se de passagem, algo de extraordinário, conquistado com todo o mérito pessoal. Em muito pouco tempo, Jerónimo de Sousa, com os seus discursos, a sua postura nas ruas, e as suas prestações televisivas, conseguiu inverter uma tendência de muitos anos, no tratamento comunicacional do PCP. O que é preocupante é que isto ocorra enquanto as suas ideias continuam as mesmas.
Posted by Bruno at 10:13 PM
Debate Cavaco/Jerónimo
bem sei que ainda não houve o debate Cavaco/Soares. Mas o de hoje até pareceu "o" debate.
Posted by Bruno at 09:54 PM
dezembro 12, 2005
Bilhete de Identidade
Parte dos elogios a Bilhete de Identidade, livro de memórias de Maria Filomena Mónica, consiste na afirmação de que este é um livro como não existe em Portugal. De facto, é verdade. Não é comum escreverem-se autobiografias nestes moldes em Portugal. Mas não é isso que faz do livro um livro bom ou um livro mau. Não é a mediocridade da produção literária portuguesa que faz de algo menos medíocre uma obra-prima, e uma obra-prima não merece ser avaliada em comparação com a mediocridade reinante. Mas o que também convém ser dito é que o livro de Maria Filomena Mónica merece alguns dos elogios que tem recebido. Que mereceria, diga-se de passagem, se fosse escrito noutro país, e provavelmente com uma sinceridade que não existe em muitos dos que a elogiam.
Há, no livro, um aspecto histórico que, embora secundário, embora servindo apenas como pano de fundo, não deixa de ser interessante. Há, no relato da sua infância e da adolescência, uma caracterização do catolicismo do período, bem como (embora de forma menos "tipificada", devido ao carácter peculiar da família de Filomena Mónica) da vida familiar das classes altas lisboetas dos meados do século XX. As memórias de férias passadas com amigos e amigas de algumas destas famílias dão alguma luz a alguns dos seus hábitos, da forma como as "meninas" e os "meninos" ricos viviam. E acima de tudo, o contraste com os que viviam de forma diferente, um aspecto que terá impressionado Filomena Mónica na sua juventude, choque esse que é bom notório no livro. Este é aliás um dos aspectos mais interessantes do livro. A forma como as impressões da juventude são vistas com alguma distância, como aspectos formadores do carácter. O seu corte com a religião, o descobrir, "através do olhar dos outros", que "era bonita", a iniciação sexual, o casamento (outro período da vida de Filomena Mónica que serve de retrato de um período particular, da forma como a instituição "casamento" era encarada, evidente na dificuldade dos seus pais e das pessoas do seu estrato social em encarar o posterior divórcio), a ida para o estrangeiro, a relação com a política. E em último lugar, está, em Bilhete de Identidade, um retrato da intelectualidade esquerdista de finais dos anos 60/princípios de anos 70, fruto do convívio com gente como António Pedro Vasconcelos, João César Monteiro e Vasco Pulido Valente.
Mas mais do que um retrato do tempo (ou "dos tempos") vivido por Maria Filomena Mónica, Bilhete de Identidade é um livro com passos profundamente comoventes. A sua relação com a avó (uma carta que esta lhe envia para Inglaterra), com o seu pai (as palavras que este lhe dirige, já nos anos 80, em Santa Apolónia), e com a sua mãe (a carta que esta escreveu ao pai, para, na eventualidade da sua morte, este entregar aos filhos, para que "os pequenos" ficassem "cientes do amor que, entre eles, sempre existira"). E claro, a sua relação com Vasco Pulido Valente. Ao contrário do que muito boa gente diz, não me parece que haja qualquer invasão da privacidade de VPV. Mais, parece haver nas palavras de Filomena Mónica, um genuíno carinho por VPV, tal como um genuíno lamento perante a dificuldade de viver com ele, apesar dos aspectos positivos. Aliás, a descrição das (acesas) trocas de palavras entre os dois são, por vezes, engraçadíssimas (para quem as lê, pelo menos). Por exemplo, logo no início do livro, quando Filomena Mónica relata o dia em que contou a VPV estar a escrever as suas memórias, e este lhe diz não precisar de catárses (o que leva a autora a dizer que VPV insinuava que ela precisava), motivando um dos (aparentemente habituais) duelos de berraria entre os dois. O que faz com que eu não deixe de ter pena que VPV não precise de catarses. Se há alguém de quem gostava de ler uma autobiografia, era a dele. E não só pela forma como caracterizaria aqueles com quem conviveu. Mas essencialmente, pela forma como se caracterizaria a si próprio. Os seus textos autobiográficos, em Retratos e Auto-Retratos, e em Esta Ditosa Pátria, são dos melhores e mais hilariantes que já li.
Posted by Bruno at 10:01 PM
dezembro 10, 2005
Irão
Do leitor Jorge Bento:
"O presidente iraniano voltou a tecer comentários agressivos sobre Israel. Desta vez não usou o termo «riscar do mapa» mas afirmou ter dúvidas de que tenha havido o holocausto e de que os judeus tenham sido cremados pelos nazis. Mahmoud Ahmadnejad disse mesmo que Israel é um «tumor».
O chefe de Estado iraniano fez estas declarações numa entrevista à televisão pública iraniana. Na entrevista, Mahmoud Ahmadnejad disse ainda que Israel devia ser transferido para a Áustria ou para a Alemanha.
As declarações do presidente iraniano já suscitaram a condenação dos EUA e da União Europeia. Também a chanceler alemã, Angela Merkel, classificou estas declarações como «inaceitáveis».
P.S. Algumas perguntas:
1.Afinal Bush tinha razão, o Irão faz parte do eixo do mal?
2.Quem é que em Portugal, recentemente disse que Paulo Portas era um tumor que devia ser estirpado?
3. Israel pode considerar-se em estado de pré-guerra com o Irão que ainda recentemente afirmou que Israel devia ser varrido do mapa?
4. Se Israel fizesse um ataque preventivo, não estaria no seu direito?
5. Será que é possivel pacificar a região e o Iraque sem neutralizar pela força o Irão?
6. Qual o país do leste que recentemente vendeu misseis ao Irão? E tecnologia nuclear?
7. A ONU deve continuar queda e muda, em relação ao Irão?
8. Mário Soares ainda acha que os EUA são o maior perigo à paz mundial?"
Posted by Bruno at 10:10 PM
Em Cheque
A proposta britânica para o orçamento da UE tem motivado animada discussão. E não sem alguma razão. Embora não sem alguns equívocos. Muito boa gente está indignada com o facto do Reino Unido pretender manter intacto o seu "rebate". No entanto, ninguém parece estranhar o facto de um país como Portugal, que tem vindo a sugar o dinheiro dos contribuintes germânicos, esbanjando-o com igual afã de seguida, manter os benefícios que detinha, enquanto os novos membros vêem as suas perspectivas reduzidas. O que é um facto é que toda a gente vê o dito "rebate" como um anacronismo. Até o próprio Reino Unido. Mas o que só o Reino Unido parece perceber, enquanto os restantes não finjem não o conseguir, é que é um anacronismo que decorre de um outro. Da PAC. Blair tem sido muito claro. O "rebate" não é sagrado. É um mecanismo que corrije algo que o Reino Unido vê como uma injustiça na distribuição do financiamento da UE. A forma de anular esse mecanismo é eliminar aquilo que este pretende corrigir. É isso que Blair tem dito. Se a PAC for renegociada, o "rebate" também o será. Se algo está a bloquear as negociações, são as "reticências" dos advogados da "UE potência agrícola" (ideia que seria hilariante se não fosse trágica), em renegociar a dita PAC. Claro que, e é bom ter isto em conta, Blair não está isento de culpas nesta situação. Porque se não me engano, Blair era já Primeiro-Ministro quando o Reino Unido se comprometeu com a anterior renegociação da política agrícola, e se comprometeu com ela até 2013. Se há alguns anos não teve a coragem ou a vontade de a renegociar, se há uns anos foi cúmplice na manutenção do anacronismo que hoje tanto critica, está agora a pagar o peço de tal atitude. O pior é que não é só ele que paga.
Posted by Bruno at 09:48 PM
dezembro 09, 2005
Nacionalidade
No seu debate com o Prof. Cavaco Silva, o dr. Louçã partilhou com quem o quis ouvir o drama "do pequeno Nélson de 9 anos", filho de emigrantes africanos que "chorou quando Portugal perdeu contra a Grécia" (presumo que, pobre rapaz, tenha chorado das duas vezes) mas que não pode jogar no clube da terra porque há um limite de estrangeiros. O dr. Louçã estava visivelmente comovido. Não se indignou contra a iliberal proibição de um clube de inscrever quantos estrangeiros quiser. Quer que o pobre rapaz possa ter a nacionalidade portuguesa. Exige uma nova lei da nacionalidade. Ora, eu sou o mais favorável possível a uma revisão da dita lei. Quem quer ser português, deve poder sê-lo. Até porque demonstra um espírito de sacrifício que é no mínimo louvável. Eu por exemplo, há muito que quero deixar de ser. E de cada vez que via gente a delirar com a selecção portuguesa no Euro 2004, o sentimento aumentava de intensidade.
Posted by Bruno at 10:48 PM
dezembro 08, 2005
Diferenças
Houve um curioso momento no debate de há pouco entre Soares e Jerónimo de Sousa. Este último afirmou que a "concertação social" não era, em si, nem um bem nem um mal. Tudo dependeria daquilo que fosse concertado. Já Mário Soares afirmou que discordava de Jerónimo, que entendia que a concertação social era um bem, pois juntar à mesma mesa patrões e trabalhadores sob a mediação do estado fazia as "coisas andarem para a frente". Pode parecer insignificante, ou até um aproveitamente demagógico da parte de Soares. Mas não é. Estas duas afirmações representam uma genuína e profunda diferença entre Soares e Jerónimo. Uma profunda e genuína diferença na forma como vêem o mundo e a política. A afirmação de Soares reflecte a sua fé Iluminista numa Solução universal, na possibilidade de conciliar os interesses de todos os membros de uma comunidade política. Para Jerónimo, o mundo não é assim. Bem, Jerónimo de Sousa vê a política como um conflito. Mal, vê-a como um conflito de classes. Mal, vê na na "vitória" de uma das supostas classes sobre a outra a solução para o dito conflito. Mas reconhece a existência desse conflito, e a impossibilidade de harmonizar as partes numa solução conciliatória. Pode parecer uma questão sem importância, mas não é. É fundamental para perceber o carácter político de cada uma das candidaturas.
Posted by Bruno at 09:53 PM
dezembro 07, 2005
A Questão dos Exames
É recorrente. Seja qual for o Governo, os exames nacionais do 12º ano são sempre tema de discussão. Seja por que razão for. Desta vez, o Governo do engenheiro Sócrates e da muito elogiada Ministra da Educação lembraram-se de colocar a hipótese de deixar de ser obrigatória a realização do exame de Português, que passaria a ser apenas realizado por aqueles que tivessem essa disciplina como elemento específico de avaliação, no que diz respeito à sua entrada no sensino secundário. Para além do progressivo facilitismo que se tem vindo a instalar (do qual muito "beneficiei", diga-se de passagem), há um elemento a ter conta. Sempre que esta questão dos exames é discutida, há sempre alguém que levanta a questão dos resultados nos exames como forma de legitimação (ou melhor, de não-legitimação) da sua realização. Ainda há pouco, na SIC, um senhor professor argumentava, em defesa da hipótese levantada pelo Governo, que a realização de exames nacionais não trouxe melhorias na qualidade da educação dos alunos.
Há aqui um pequeno equívoco. Ao longo de anos e anos, os sucessivos programas de governo para a área procuraram introduzir o seu particular caminho para o paraíso na Terra. Todos viram na Educação a chave para o sucesso, e todos acharam que, da 5 de Outubro, poderiam encontrar o modelo certo para construir o futuro. Terá passado pela cabeça de poucos a possibilidade de uma solução universal ser impossível, e que seria melhor dar o máximo possível de liberdade às escolas para desenvolverem os seus projectos, cabendo aos pais a responsabilidade de entre eles escolher, e às universidades de estabelecerem os seus próprios critérios de admissão de alunos. E que ao Estado caberia, no máximo, o estabelecimento de um mínimo de regras de exigência. Nada disso lhes foi ocorrendo. E durante anos, o "eduquês" tomou conta da política educativa, e procurou-se, de forma "pedagógica", "motivar" e "potenciar" a "criatividade" do aluno e o "divertimento na aprendizagem". Só nos anos de Durão Barroso se procurou restaurar um pouco de exigência no meio do caos, mas a fuga do dito senhor deixou cair tudo. E o "eduquês" está de volta. E em nenhum outro aspecto ele se evidencia, como na premissa de que o exame é "pedagogicamente" errado, pois não é a "solução" para os problemas de "défice educativo" das "nossas crianças". De facto, não é. Em primeiro lugar, porque duvido que haja uma solução. Em segundo lugar, porque não é para isso que eles servem. Eles servem, isso sim, para avaliar os alunos que os realizam. Pura e simplesmente, para isso. Avaliar os alunos. Claro que para os nossos "pedagogos", isto de "avaliar" coloca demasiada pressão sobre os jovens. O que é necessário é "envolvê-los" numa "atitude positiva e dessassombrada" perante "o acto de aprender". Tudo palavras bonitas. Tudo um grande vazio. E um preço demasiado alto a pagar.
Posted by Bruno at 10:34 PM
dezembro 06, 2005
Mr. Cameron, Mr. Cameron
Ao fim de uma animada campanha, o Partido Conservador britânico elegeu como seu novo líder David Cameron, 39 anos, até agora ministro-sombra para a Educação, relegando para segundo lugar David Davis, ministro-sombra do Interior. Em fases anteriores da corrida, foram sendo eliminados (por esta ordem), Malcolm Rifkind, Ken Clarke, e Liam Fox.
À partida, David Davis era o meu favorito, logo seguido de Liam Fox. Eram os que conhecia melhor, e em geral concordava com muitas das suas posições. David Davis tinha uma agenda profundamente liberal, que na sua àrea ministerial, combinava uma interessante dureza para com o crime com um igualmente interessante libertarianismo civil. Fox, ministro-sombra dos Negócios Estrangeiros, tinha sólidas posições de política externa, e demonstrava uma sensibilidade para certas questões ditas sociais, como por exemplo questões ligadas a doentes mentais, reformados, e deficientes, sem colocar o Estado como santo milagreiro. David Cameron era alguém que via com grande desconfiança. Parecia-me uma espécie de candidato vazio, centrado únicamente na imagem e numa retórica de mudança sem qualquer implicação prática. A sua (excelente) campanha fez-me mudar de opinião.
Cameron, em vários discursos e intervenções televisivas (como os debates na BBC e no Sky, e a entrevista com Jeremy Paxman), demonstrou ter, não só uma noção dos problemas que são necessários enfrentar (as suas intervenções relativas aos desafios da globalização são um bom exemplo), como uma noção do que é necessário fazer para melhor apresentar as suas propostas. Apresentando as suas propostas de um forma que coloca a sua candidatura numa posição que não permite que esta seja considerada uma candidatura da "esquerda" ou do "centro" do partido, como aliás a de Davis dificilmente pode ser catalogada como a da "direita". Na questão europeia, Cameron era bastante mais radical, por exemplo. Mas foi uma campanha que, progressivamente, foi convencendo muita gente. E este é um factor a ter em conta, pois vai ser necessário convencer muitos mais para que os tories possam faltar ao poder (ainda para mais, sabendo que os Tories precisam de muitos mais votos que o Labour para conseguirem ter o mesmo número de deputados). É verdade que David Davis tinha uma agenda que ia, no seu essencial, no sentido daquilo que por aqui se defende. Mas cometeu um erro grave ao, quando propôs um corte de impostos, ter atribuído (a quatro/cinco anos das eleições) um valor concreto a esse corte. Para um partido que tem (ainda) problemas de credibilidade, atitudes dessas têm apenas um consequência: provocam a desconfiança do eleitorado. Cameron percebe isso. Por isso defendeu um ideário, um conjunto de ideias (bastante claras, e não apenas algo vago) que irão ser o alicerce da estratégia dos Tories nos próximos anos, sem fazer promessas que não poderão mais tarde ser cumpridas. E mesmo as diferenças de política relativamente a Davis, nomeadamente quanto à possível adopção de vouchers, são mínimas. Isto para além do facto de ser um elemento muito próximo de Cameron, George Osborne, o grande defensor da adopção do flat-tax. Muito simplesmente, qualquer um dos dois candidatos finais seria do meu agrado. E o próprio Liam Fox seria, do meu ponto de vista, uma excelente escolha. O que estes últimos meses de campanha no Partido Conservador demonstram é, essencialmente, que os Tories são, de novo, um partido intelectualmente interessante.
No entanto, o mais díficil começa agora. Amanhã, Cameron terá já de enfrentar Tony Blair no debate semanal nos Comuns. E terá de, nos próximos dias, formar o governo-sombra. Seria importante, para a eficácia e para a credibilidade do seu partido, que conseguisse reunir todos os grandes valaores do seu partido em seu redor. Que consiga ter David Davis e Liam Fox em lugares relevantes. Que consiga o regresso de William Hague, e trazer para a linha da frente gente de valor como David Willetts ou Alan Duncan, e gente nova como Osborne ou Julie Kirkbride (jovenzinha que um dia vi no Sky e me levou a apontar o seu nome para não me esquecer, de tanto gostei do que tinha dito). Uma coisa é certa. Tem condições que, desde Thatcher, nenhum outro teve. Resta aproveitá-las. Pelo que vi hoje, vai conseguir.
Posted by Bruno at 09:28 PM
dezembro 05, 2005
25 de Novembro
No Prós e Contras, Otelo fala da "revolução burguesa" e da "revolução socialista", das "massas populares" e da "acção revolucionária". Do que Portugal se livrou...
Posted by Bruno at 10:39 PM
Rice e a CIA
Na TSF, a voz de serviço mostrava a sua indignação por Condolleeza Rice, Secretária de Estado americana, não ter "respondido a uma pergunta objectiva" acerca da existência ou não de prisões secretas em território de países europeus. Para lamento das boas consciências, é óbvio que não diz se essas prisões existem ou não. E por razões muito simples. Se as prisões secretas existirem, será óbvio que os EUA as pretendam manter secretas, e portanto não possam confirmar a sua existência. E se não existirem, é provável que, no entanto, seja do interesse americano deixar no ar a dúvida. Porque ao negar esta informação de segurança interna particular, faria com que todas aquelas que não negasse nem confirmasse fossem tidas como verdadeiras. Assim, nada se confirma, nada se desmente, porque há mais em jogo que as boas consciências e o que quer que pese sobre as ditas.
Posted by Bruno at 10:11 PM
O Debate
Não é um debate. É uma entrevista feita por dois jornalistas a dois entrevistados. E se um debate poderia ser esclarecedor, esta entrevista a dois candidatos torna-se algo francamente desinteressante, onde os candidatos se limitam a repetir muito do que têm dito, e os jornalistas perdem grande parte do tempo a questioná-los acerca das coisas que os animam (aos jornalistas), as tricazinhas, e quem dorme ou não descansado. Mais valia terem adoptado o modelo de debate das últimas presidenciais americanas, com cada pergunta a ser colocada a ambos, e não com as suas intervenções a serem conduzidas por aquilo que os jornalisrtas perguntam, e não pelas intervenções um de ambos. O modelo escolhido apenas contribui para tornar ainda menos interessante uma campanha que infelizmente não tem sido nada do que deveria ser.
Posted by Bruno at 10:03 PM
Mundo Moderno (a minha insurgência desta semana)
Na semana em que um grupo de insurgentes se reuniu em animado almoço para discutir quais as melhores formas de tomar o poder (fica aqui uma nota de louvor para a já mítica Filipa, apreciável elemento da serventia), o dr. Louçã afirmou, certamente que "olhos nos olhos", que "os círculos uninominais excluem as mulheres". Mostrando assim que os proporcionais, infelizmente, não excluem a demagogia. A UE realizou uma cimeira para ajudar ao desenvolvimento do mundo árabe. Pena que o mundo árabe não estivesse muito interessado. O problema parecia estar na definição de "terrorismo". Segundo um tal José Manuel Barroso, o conflito israelo-palestiniano inquina o debate sobre a questão. Efeito para o qual a UE contribui, ao dar o seu aval a uma intolerável equivalência entre os terroristas palestinianos e o estado de Israel. Quem parece não estar muito preocupado é Ariel Sharon, que já conseguiu contar com o apoio de Shimon Peres, para choque das boas consciências que sempre diabolizaram o primeiro. As mesmas boas consciências que em tempos criticaram os EUA pela sua ingerência nos assuntos internos do Iraque, e que manifestam agora a sua desaprovação pelo facto do estado iraquiano prever a pena de morte (em relação à qual sou contra) no caso de Saddam vir a ser considerado culpado. Sobre as boas consciências não pesa a coerência. O PS, preocupado com Alegre, manifesta o seu desagrado por este não ter votado o Orçamento. Alegre mostra a sua satisfação por provocar desagrado no PS. Judite de Sousa entrevistou Alegre, e gastou parte considerável da entrevista a discutir Soares. Entrevistou Soares, e teria gasto parte considerável do tempo a discutir Alegre, mas Soares não deixou. Entrevistou Louçã, e não gastou qualquer tempo a discutir Joana Amaral Dias. É pena. Joana Amaral Dias é bem mais interessante que qualquer coisa que Louçã tenha para dizer. Judite de Sousa entrevistou Cavaco, e o meu candidato afirmou que "duas pessoas sérias, com a mesma informação, têm de concordar" premissa racionalista que não deixa de ser preocupante. Das duas uma: ou os seus adversários não são pessoas sérias, ou Cavaco poderá, desde que todos tenham a mesma informação, chegar a concordar com eles. Por exemplo, com Francisco Louçã. Ora aqui está algo que faz com que me seja difícil dormir descansado.
Posted by Bruno at 10:02 PM
dezembro 04, 2005
Sá Carneiro
"No aeroporto, onde chega por volta das 19 horas e 20 minutos na companhia de Snu e de António Patrício Gouveia, espera uns minutos por Amaro da Costa. Sá Carneiro, pontual por excelência, detesta esperar. Mas com Adelino... já se sabia, os atrasos eram normais. Ao fim de dez minutos Amaro da Costa e sua mulher chegam à Portela e todos juntos dirigem-se para perto da zona militar do aeroporto, onde se encontra estacionado o pequeno Cessna.
Já dentro do avião, para onde entram pouco antes das 19 horas e 35 minutos, constatam que parece haver alguns problemas. O piloto, depois de dez minutos de tentativas de arranque, solicita à transportadora aérea portuguesa uma geradora para auxiliar na «mise-en-marche». Ao fim de sete minutos, o motor direito pega finalmente. Mas o esquerdo, só se porá em movimento 22 minutos depois.
Entretanto, quando são vinte horas e vinte e nove minutos, um dos pilotos pede à Torre de Controlo, que averigue na TAP se se mantém as reservas em nome do Primeiro-Ministro. Da Torre comunicam ao Cessna que aguarde. Vão saber. Mas quatro minutos depois, o segundo motor arranca e o piloto pede para descolar imediatamente.
O piloto escolhe tomar a pista mais curta à qual chega às vinte horas, 16 minutos, e 30 segundos, descolando finalmente do solo 12 segundos depois.
Oito segundos são passados quando o pequeno avião se desvia da sua rota normal, baixa a sua asa esquerdae começa e perder altitude."
Mria João Avillez, Solidão e Poder, Cognitio
Posted by Bruno at 06:54 PM
Simples Sopros
É o nome do novo blog da regressada (salvo seja) senhora minha mãe.
Posted by Bruno at 06:52 PM
dezembro 03, 2005
Ser Presidente
Tempos houve em que esperei que destas eleições presidenciais saísse uma animada discussão. Em parte porque esperava uma campanha efectivamente bipolarizada, entre dois candidatos em confronto político claro. E achava que essa campanha poderia ser útil ao país, ao motivar uma discussão que dificilmente poderia ocorrer noutras circunstâncias. O problema é que essa bipolarização não ocorreu. O que coloca uma dificuldade adicional a Cavaco Silva. Muito boa gente diz que Cavaco Silva está numa posição confortável, em que lhe bastará gerir a sua vantagem até ser eleito. Em que até nem precisa de dizer muito. É um erro pensar assim. Não é que Cavaco Silva não precise de dizer muito. Pura e simplesmente, não pode dizer muito. Porque Cavaco já é Presidente. Para todos os efeitos, a ideia de que ele será o vencedor das eleições já se instalou na cabeça das pessoas, e mais importante, na cabeça dos jornalistas. Que o tratam como se ele já fosse Presidente. Que tratam as suas palavras como as palavras de um Presidente. O que faz com que tudo o que Cavaco diga esteja sujeito a um escrutínio muito superior ao de um simples candidato. Para todos os efeitos práticos, Cavaco já não se está a candidatar. Está a exercer o cargo. O que, numa campanha eleitoral, é um fardo pesado. Que impõe limitações extremamente difíceis de gerir.
Posted by Bruno at 10:20 PM
dezembro 02, 2005
Sebastião
Qualquer português deveria nutrir um particular ódio por El-Rei D. Sebastião. Graças a ele, não há dia em que não tenhamos de ouvir alguém acusar alguém de estar à espera do dito.
Posted by Bruno at 10:11 PM
Bashing USA
Do leitor Jorge Bento, chega-me este texto:
"Ao ler o seu post sobre Kyoto, lembrei-me de um artigo que vem na Atlântico sobre o mundo ocidental e a Europa dos nossos dias em que a coragem dos princípios e do bom senso se esconde perante a arrogância politicamente correcta do multiculturalismo e do relativismo. Quando prémios Nobel como Harold Pinter dizem que os USA são piores que os nazis porque querem dominar o mundo (recorde-se que este senhor é judeu logo não desconhece o Holocausto), um famoso filósofo francês (não recordo o nome) disse aquando do 11/09 que "todos nós (intelectuais de esquerda, presumo) quisemos que isso acontecesse" , já para não falar no Chomsky, Negri, M.Moore etc, que permanentemente apontam o dedo acusatório à nossa cultura e ao nosso modo de viver, rescrevendo a nossa história contemporânea à sua medida, interrogo-me que loucura colectiva se está a apoderar do mundo ocidental? Que aplaude e premeia estes loucos de caserna, anarquistas de esquerda e órfãos das utopias totalitárias, revisionistas do pior que a história do Séc.XX teve. Será possível, a nossa sociedade continuar a fechar os olhos a estes revisionistas (hoje 30 anos depois do PREC em que ser de direita é quase uma vergonha em Portugal) arriscando-se a que a utopia totalitária comunista/socialista volte a renascer daqui a uns anos? Perante a passividade de todos nós. Será que a história da Europa se voltará a repetir, depois dos fascismos que originaram 2 guerras mundiais, vamos ter que levar com os órfãos dos amanhãs que cantam, em versão anti-global?"
Posted by Bruno at 10:03 PM
dezembro 01, 2005
Os Candidatos e o Cargo
É revelador que o aspecto mais interessante da presente campanha presidencial seja a sua gritante falta de interesse. E esse é o aspecto mais interessante pois mostra muito do que é o Portugal de hoje. Mostra não só o apreço de parte da classe política pela demagogia e pelo confronto estéril. E não só o carácter da nossa comunicação social, que trata o vazio por "tu". Essencialmente, mostra o carácter do sistema político português. É notório o esforço que Cavaco Silva, Mário Soares e Manuel Alegre fazem para não se comprometerem com qualquer posição relativamente à agenda governativa. Como é notório que só Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã se esforçam para falar de tudo o que diga respeito ao Governo. É aliás para isso que se candidatam. Não para serem eleitos Presidente. Quem quer ser Presidente, emite opiniões, mas não relativamente ao Orçamento, não relativamente à Ota, etc. São criticados por isso. Mas estão no seu direito. Nem sequer sei se será criticável. Mas é sintomático do carácter do cargo que pretendem ocupar. O facto de assim agirem, e o facto de serem criticados. Por que razão não emitem opiniões sobre o Orçamento? Porque não querem entrar em conflito com o Governo. Por que razão são criticados? Por condenarem a disputa eleitoral a uam discussão sobre o "perfil" e a personalidade. A acção política dos candidatos é portanto como a dos Presidentes já eleitos. Ou são acusados de promover o conflito, ou de se condenarem à irrelevância. E é o próprio sistema político que torna esta situação inevitável. Porque ao dar a duas instituições (Presidente e Parlamento) igual legitimidade, faz com que de cada vez que o Presidente discorde da maioria parlamentar, se abram as portas do conflito institucional. E este é um problema ao qual o Presidente, seja ele qual for, não poderá fugir. Será algo que terá de gerir. Sendo que essa gestão não depende apenas dele. E este é um elemento a ter em conta na escolha eleitoral. Preferia uma clarificação do sistema, no sentido de uma parlamentarização (e não, como alguns cavaquistas de ocasião pretendem, uma presidencialização, porque numa democracia representativa, a representação dos cidadãos está essencialmente no parlamento). Mas nada disso está em questão nesta eleição. A questão está, isso sim, em quem é que poderá lidar melhor com a situação que inevitavelmente se terá de enfrentar. Sem que seja certo que alguém o possa verdadeiramente conseguir.
Posted by Bruno at 09:13 PM