Escrito pela mão invisível de Bruno Alves. Comentários e opinião: alves.bm@netcabo.pt

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novembro 30, 2005

Optimismo

Aos microfones da TSF, o dr. Rogério Alves, bastonário da Ordem dos Advogados, manifestou o desagrado com os inúmeros conflitos que marcaram 2005. Espera que 2006 traga mais optimismo e confiança. E, à semelhança do que, segundo ele, se passou com o Euro 2004, espera que esse aumento de confiança venha da prestação da selecção portuguesa de futebol. Porque, segundo o sr. bastonário, o que poderia dar mais confiança a Portugal que não a possibilidade de "sermos os melhores entre os melhores"? São sentimentos bonitos, mas que ficam muito mal ao sr. bastonário. Em primeiro lugar, porque a selecção portuguesa de futebol não vai ser campeã mundial. E em segundo lugar, mesmo que fosse campeã mundial, dificilmente viria daí algum de bom. Na melhor das hipóteses, teríamos noites de festa até às tantas e desperdício de horas de trabalho para ver os jogos. Mas pelo vistos, continua a haver por aí muito boa gente a pensar que a "confiança" do país depende dos resultados desta ou daquela equipa de futebol.

Posted by Bruno at 09:57 PM

novembro 29, 2005

Kyoto

Sobre o assunto, vale a pena ler o artigo (que toca ainda noutros assuntos), no Telegraph de hoje, de Mark Steyn:

"Meanwhile, how are things looking in the United States? As you'll recall, in a typically "pig-headed and blinkered" (Independent) act that could lead to the entire planet becoming "uninhabitable" (Michael Meacher), "Polluter Bush" (Daily Express), "this ignorant, short-sighted and blinkered politician" (Friends of the Earth), rejected the Kyoto treaty. Yet somehow the "Toxic Texan" (everybody) has managed to outperform Canada on almost every measure of eco-virtue.

How did that happen?

Actually, it's not difficult. Signing Kyoto is nothing to do with reducing "global warming" so much as advertising one's transnational moral virtue. America could reduce its greenhouse-gas emissions by 87 per cent and Canada could increase them by 673 per cent and the latter would still be a "good citizen of the world" (in the Prime Minister's phrase) while "Polluter Bush" would still be in the dog house, albeit a solar-powered one."

Posted by Bruno at 05:31 PM

Mundo Moderno (a minha insurgência de domingo passado)

O dr. Louçã ocupou parte significativa da sua semana a demonstrar a sua preocupação com as faltas de um Secretário de Estado enquanto exercia um qualquer mandato numa qualquer autarquia do Portugal profundo. Ao dr. Louçã, por seu lado, nunca faltam pretextos para pedir a demissão de alguém. Já o mesmo não se pode dizer do seu sentido de proporção. A quem tem faltado um pouco de perspicácia é ao dr. Santana Lopes, que escreveu um artigo no Expresso, que não terá outro resultado que não fazer do seu autor motivo de chacota durante alguns dias. E não só por ter sido publicado no Expresso. O dr. Soares disse a quem o quis ouvir que não deixaria que ninguém mexesse nos "direitos adquiridos" das pessoas. Segundo o próprio, as pessoas poderão, portanto, dormir descansadas. Coisa que não tem acontecido com o Primeiro-Ministro, desde que ouviu estas palavras do "seu" candidato. Freitas do Amaral fez animadas declarações contra a política europeia do Reino Unido, fazendo o trabalho sujo de Chirac. Como, no nosso país, já temos portugueses e a subordinação à França, para sermos como o Luxemburgo, só nos falta a riqueza. Riqueza essa que o Governo parece acreditar que virá com a Ota. Pena é que parte da pouca que temos vá ser despejada no projecto, para lucro dos que com ele querem lucrar sem correrem o risco de nele investir. Em França, para além de terem agradecido as palavras de Freitas do Amaral, o panorama político agita-se. O PSF pôs de lado as diferenças que separavam os seus membros, para poder enfrentar o partido de Chirac, Villepin e Sarkozy. Para quem perder as próximas eleições, resta um consolo. Seja qual for o partido do novo presidente, o socialismo será sempre vencedor. Em Israel, não se sabe quem será o vencedor das próximas eleições. Sabe-se, isso sim, que dificilmente as coisas ficarão na mesma. Sharon saiu do seu partido para defender aquilo que o seu partido não queria que ele defendesse. Fica, neste espaço geralmente marcado pela maledicência, o elogio que essa atitude merece.

Posted by Bruno at 05:28 PM

novembro 28, 2005

Julgar Cavaco

Um fenómeno curioso na presente campanha presidencial está relacionado com o julgamento que diferentes pessoas têm feito de Cavaco Silva. E não só as suposições que os seus adversários fazem das suas supostas intenções "ultra-presidencialistas". Tanto do lado das pessoas que, como eu, apoiam Cavaco Silva, como de alguns dos seus críticos, se ouvem argumentos algo desajustados.

Por exemplo: um dirigente da UGT (que, sensatamente, parece dar liberdade de voto aos seus membros) veio hoje manifestar o seu apoio a Cavaco Silva. Entre os vários argumentos que utilizou, usou o argumento dos resultados que Cavaco obteve aquando do exercício do cargo de Primeiro-Ministro. O argumento de que "nunca, desde que Cavaco Silva abandonou S. Bento, o país voltou a crescer como cresceu então". Nada tenho contra o facto do dirigente da UGT apoiar Cavaco Silva. Acho muito bem que o faça. E não quero contestar a dimensão do crescimento de que Portugal beneficiou nos anos de governação de Cavaco. Apenas acho que esse é um argumento sem grande validade. Por um lado, esse crescimento não se deve apenas às políticas do governo de Cavaco. E não só por dificilmente ter sido possível sem as ajudas da CEE que forma injectadas no nosso país. Mas também porque, ao contrário do mito, o "sucesso" de uma economia não depende unicamente das opções políticas do Estado. Não depende única e exclusivamente da opção governamental de intervir ou não. Depende das opções dos vários indivíduos, e da capacidade destes para as executar. Se o Portugal dos anos 80 fosse recheado de inaptos, dificilmente poderia ter havido o tal "sucesso". Quando muito, as opções de um Governo poderão colocar mais ou menos obstáculos a esses indivíduos. O que importa fazer é um julgamento, não tanto do sucesso das políticas, mas sim qualitativo, um julgamento político, das opções tomadas. Ou seja, considerar qual a relação entre o estado e os cidadãos estabelecida por essas opções, e fazer um julgamento acerca do carácter (político) dessa relação. E mesmo esse é um julgamento sobre o passado. Julgamento esse que pode trazer alguma luz para o que hoje se debate. mas que não deixa por isso de ser redutor. O que deve estar em causa é também o que Cavaco Silva propõe hoje, e aquilo que tenciona fazer.

Chego agora ao que é dito por alguns críticos de Cavaco. Não falo dos que "argumentam" que ele irá "desvirtuar" o regime. Falo precisamente dos que dizem o contrário. Dos que dizem que ele não irá mudar nada. Têm toda a razão. De Cavaco não virá a Salvação. Em primeiro lugar, porque a Salvação Terrena não é possível (e a da Alma depende de Deus, que tenho dúvidas que exista). Em segundo lugar, porque as mudanças que poderiam, e deveriam, ser promovidas neste país não dependem de Cavaco. Dependem do Governo. É certo que Cavaco poderá "ajudar" a promover essas mudanças, fazendo propostas ao Governo. mas em última análise, a a decisão caberá a este último, e sem ele nada poderá ser feito. A única maneira de Cavaco dar a volta a esta questão seria demitir o Governo e esperar que o substituísse um outro mais favorável a uma agenda efectivamente reformista. Ora, não só isso poderia acabar por ter o efeito inverso, colocando o mesmo Governo de novo no poder, ou pior, um governo ainda mais estatista, como, mesmo que surtisse o efeito desejado, teria um efeito pernicioso. Cavaco certamente percebe que mais um mandato legislativo abruptamente terminado antes do prazo apenas contribuiria para uma ainda maior degradação das condições de governabilidade. Percebe que isso contribuiria ainda mais para instalar na cabeça dos eleitores a ideia de que um Governo não recebe uma legitimidade para quatro anos, fiscalizada pelo Parlamento, e limitada pela lei, mas sim uma legitimidade permanentemente escrutinada, sempre dependente do favor popular e da interpretação que deste último o Presidente fizer. Percebe que dessa forma, nenhuma reforma realmente significativa poderia ser levada a cabo.

Porquê então votar Cavaco? Não porque vá mudar alguma coisa, mas porque tem consciência do que não pode ser feito. Tem consciência do modelo político que não deve estar na base das decisões. Tem consciência daquilo que o país tem de enfrentar, e daquilo pelo qual não se deve optar para o poder fazer. A comunicação social tem dito que os candidatos não têm dito nada. Isto porque não têm feito comentários relativos a questões específicas de governação. Mas o que é realmente importante para me fazer dizer aquilo que eu digo acerca de Cavaco não é o que ele eventualmente pense acerca do Orçamento. É isso sim, o que ele pensa acerca da globalização. É aqui que ele se distingue de Soares. E não só em termos de capacidade de análise, como na questão do orçamento, que por uma questão de formação Cavaco está mais vontade. Mas em sim termos eminentemente políticos. Em termos de que tipo de sociedade se quer. E acima de tudo, de que tipo de sociedade não se quer. E o que Cavaco não quer é uma sociedade fechada, que procure reagir à competição não competindo. É por isso que se deve votar Cavaco. Sem exageros. Sem entusiasmos injustificados. Mas sem problemas de consciência. Porque se um qualquer Governo, quiser, efectivamente, mudar alguma coisa, não será Cavaco a impedi-lo.

Posted by Bruno at 10:14 PM

Sobre a Polémica dos Crucifixos

Não devia existir Ensino Público.

Posted by Bruno at 10:13 PM

Woody

Por enquanto, ainda não estreou por cá o novo (embora já esteja outro na forja) filme de Woody Allen, que tem o mérito adicional de contra com a colaboração de Scarlett Johansson. Mas vale a pena ler o artigo do João Pereira Coutinho sobre o mestre. Tudo certíssimo, apesar da pequena injustiça para com Scorsese.

Posted by Bruno at 10:06 PM

novembro 27, 2005

Equívocos

Parece que houve em Barcelona uma qualquer cimeira para cimentar as relações entre a União Europeia e os países àrabes. Pena que, aparentemente, os países árabes não tenham tido grande vontade de cimentar as ditas relações, ou sequer de participar na cimeira. Quem não se escusou a participar, embora de fora, foram os sempre bem intencionados movimentos alter-globalistas. Estes são contra as conclusões da cimeira. Não querem a "invasão" do "capital" europeu aos países árabes. Presumo que, bem intencionados que são, queiram o desenvolvimento desses países. Pergunto-me como o poderão conseguir sem o tal "capital".

Posted by Bruno at 10:08 PM

novembro 26, 2005

Ainda Bem

Ouvi Manuel Alegre criticar Cavaco Silva por este não ter feito, no seu manifesto, qualquer referência "às mulheres", e aos seus "direitos". Como Manuel Alegre, também não ouvi o prof. Cavaco fazer qualquer referência ao tema. Ao contrário de Manuel Alegre, acho bom sinal. Prefiro um candidato que não faça referências aos "direitos das mulheres". Sinal de que para o dito candidato, são apenas pessoas. Que não merecem nem mais nem menos referências, nem mais nem menos direitos, que qualquer outra.

Posted by Bruno at 09:32 PM

novembro 25, 2005

George Best

george best.bmp

De George Best, conhecia apenas algumas velhas imagens de velhos golos, em velhas cassetes vídeo para aficionados do "beautiful game". Por exemplo, o famoso golo pela Irlanda do Norte (que só hoje soube ter sido anulado. Erradamente, por sinal), em que Best rouba a bola ao guarda-redes inglês Gordon Banks. E, claro, as histórias. As histórias que qualquer miúdo que goste de futebol gosta de ouvir. E repetir, como se tivesse estado presente no dia e no estádio onde aconteceram. De como, na final da Taça dos Campeões, contra o Benfica, em 1968, depois de fintar Costa Pereira, guarda-redes benfiquista, Best pensou em dirigir-se até à linha de golo, parar, e cabecear (agachado, presumo) para golo. Como nos jogos de rua. Acabou por não o fazer. Garrincha, provavelmente, teria tentado. Mas se aqui Best se diferenciou do brasileiro, acabou por ter destino igual. Como Garrincha, George Best nasceu para jogar futebol. Mas, como Garrincha, estava também na sua natureza aquilo que destruiria o seu talento nato. Como Garrincha, deixou o álcool destruir-lhe a carreira. Hoje, no dia em George Best morreu, os jornais britânicos traziam já inúmeros textos de homenagem. Como se de obituários se tratassem. Como se Best, antes de ter realmente falecido, já há muito estivesse morto.

Posted by Bruno at 10:12 PM

...Outros Começam

Os blogs individuais do Rodrigo Adão da Fonseca e do Rui Albuquerque.

Posted by Bruno at 10:09 PM

Uns Acabam...

Hoje chega ao fim o Blog de Esquerda.

Posted by Bruno at 10:05 PM

novembro 24, 2005

Modern Conservatism

"(...)measures you take to help people who have got into difficulties may make it more likely that more people will get get into those difficulties in future. But this problem is not a conclusive case against welfare provision. Consider how we would drive if car insurance was not compulsory but prohibited. There would be fewer accidents but those wich did occur would be fiancially catastrophic. We have decided that in this case, therefore, moral hazard is the lesser of the two evils.

This dillema reveals what one might call the paradox of integration at the heart of the debate about the effect of the elfare state on values. We provide money to people in need so they can afford to participate in the life of society. But if they become dependent on state finance and lose any sense of control over their own lives, they may not be really integrated into society after all, It was the great fear of the Victorians that the price of eliminating poverty was the spread of pauperism. This danger can never entirely disappear, but it is much reduced if we support a welfare based on the principle of mutual insurance. The it is clearly a device for helping us and our families through the life cycle."

David Willetts, Modern Conservatism, Penguin Books, 1992. Um interessante livro, sobre a história, os princípios, e as políticas do conservadorismo inglês, por uma das principais figuras do actual Partido Conservador.

Posted by Bruno at 10:15 PM

A Ler

Os dois comentários de David Justino acerca das sondagens hoje publicadas.

Posted by Bruno at 10:10 PM

novembro 23, 2005

O Que Fará Cavaco

O fenómeno mais curioso do acompanhamento desta campanha presidencial é a conjugação de duas críticas a Cavaco Silva: ora é um candidato que defende um programa de governo, que propõe de mais para o cargo não-executivo que pretende ocupar, ou está ausente, não responde, se remete ao silêncio. Uma reportagem de hoje da TSF conseguiu ter no seu conteúdo as duas. Segundo o jornalista, Cavaco é demasiado específico. Propõe tudo e mais alguma coisa. Simultaneamente, não diz nada acerca de como irá exercer o mandato. Com toda a sinceridade, acho que Cavaco tem sido muito claro. Não se referindo a propostas governamentais específicas, Cavaco enumera uma série de questões que gostaria de ver implementadas em Portugal. Não é por não dar a sua opinião acerca da OTA que a sua campanha é vazia, nem é por dar uma opinião acerca de qual deveria ser a atitude de Portugal e das empresas portuguesas perante a globalização que apresenta um programa de governo. E quanto à forma como irá exercer o seu mandato, mais claro ainda tem sido: ao contrário de Sampaio, a sua acção não estará assente numa proliferação de discursos vagos e inconsequentes. Em parte, o modelo do que será a sua intervenção como Presidente está naquela que tem sido a sua participação pública nos últimos dez anos. Pronunciar-se-à poucas vezes, para que as intervenções que faça tenham eco e impacto. Discursar todos os dias faz com que se deixe de ouvir o que está a ser dito, e Cavaco sabe-o. E para além desse aspecto, a intervenção de Cavaco será exactamente aquela que tem vindo a defender: a apresentação de propostas ao Governo, nas reuniões com o Primeiro-Ministro, e pedidos de legislação sobre determinados temas, ao Parlamento. É esta a colaboração entre Presidente e Governo de que Cavaco tem falado. Não há aqui qualquer vazio, e muito menos deriva presidencialista. O que não implica que Cavaco não venha, obviamente, a exercer o seu poder de veto, em determinadas situações. O caro leitor dirá que Cavaco não esclarece quais serão essas situações. Mas a resposta é simples. Naquelas propostas que Cavaco considere serem prejudiciais ao clima de credibilidade e confiança que quer ver instalado. O caro leitor pergunta que tipo de propostas serão essas. Podia responder que só se poderá saber quando elas forem feitas. Mas para quem conheça o percurso e as opiniões recentes de Cavaco Silva, não será difícil conceber que tipo de questões irão merecer esse eventual veto.

Posted by Bruno at 10:36 PM

Impagável

Há muito que não ouvia o impagável dr. Garcia Pereira. Hoje ouvi-o, na TSF. Acusando o dr. Sampaio de ser um "soberano autoritário". Que "desrespeita a Constituição". E porquê? Porque não recebeu o dr. Garcia Pereira em Belém, como fez com os outros candidatos à Presidência. Não sou grande apreciador do dr. Sampaio, como o leitor atento saberá. Mas as afirmações de Garcia Pereira são, pura e simplesmente, ridículas. Que eu saiba, não há nada na Constituição que obrigue um presidente da República a receber os candidatos à sua sucessão. É uma opção do Presidente. Que opta por receber aqueles que considera candidatos sérios, e não vagamente folclóricos, como Garcia Pereira ou José Maria Martins.

Posted by Bruno at 10:18 PM

novembro 22, 2005

O Problema da Idade

Quando Mário Soares anunciou a sua candidatura à Presidência da República, escrevi aqui que a questão da sua idade era, para mim, irrelevante. O que já não é irrelevante é a forma como Soares e os seus apoiantes lidam como o facto da questão da idade ser relevante para parte do eleitorado. E o que também é um facto é que têm lidado muito mal. Soares teria três formas sensatas de tratar a questão publicamente. Poderia tratar a sua idade avançada como uma virtude. Reclamando-a como uma vantagem, trazendo experiência para o cargo. Poderia fazer uma declaração afirmando que não considerava o assunto relevante, e que por isso nunca mais se referiria a ele, por muito que os jornalistas eventualmente insistissem. Ou poderia fazer uma declaração, mais ou menos nestes termos: "Sei que a minha idade é uma desvantagem. Que já não tenho a frescura física de outrora. Mas apesar disso, aquilo que defendo é mais importante, e faz com que eu entenda que me deva candidatar." Qualquer uma delas seria melhor que aquilo que Soares e os seus apoiantes estão a fazer. A cada referência que fazem acerca de quão "jovem de espírito" é Soares, este e os seus apoiantes estão apenas a chamar a atenção para algo que parte do eleitorado vê como um problema. E estão a chamar atenção para esse elemento, sem que o vejam como uma virtude ou algo irrelevante. Estão implicitamente a reconhecê-lo como um problema, sem mostrarem que ele é compensado por outro factor qualquer. Não mostram que é um bem, não mostram que não interessa, não mostram que é um mal menor compensado por outros bens. Apenas mostram que o vêm como uma fragilidade da candidatura. Uma incompetência da campanha soarista, a juntar à conduta absolutamente vergonhosa e prejudicial (para o próprio e para o país) que a tem marcado.

Posted by Bruno at 10:03 PM

novembro 21, 2005

Irrelevância

Nas páginas do Público de hoje, o empresário Henrique Neto vem manifestar-se contra o famoso "plano tecnológico" do engenheiro Sócrates. Independentemente das razões que o levem a pensar desta forma, esta sua afirmação vem mostrar como o "plano tecnológico" é irrelevante. O "plano tecnológico" visa aumentar a competitividade das empresas. Se as empresas não estão, seja porque razão for, interessadas nas "estratégias" delineadas pelo tal plano, este não servirá para nada, pois não irá a lado nenhum. E mais irrelevante será caso os empresários estejam interessados nelas. Porque se estiverem interessados, o governo não precisa de as promover. Se elas forem compensadoras para os empresários, o Estado não precisa de deslocar recursos de outras actividades para beneficiar as previstas no "plano". E se as estratégias do plano não forem compensadoras, a não ser que o risco esteja no Estado e não nas empresas, o que se está a fazer é a desviar os recursos daquelas actividades que subsistem por si, para aquelas que só sobreviverão através do parasitismo do subsídio. O que as afirmações de Henrique Neto vêm mostrar, mesmo que não fosse essa a sua intenção, é que o melhor que o Estado tem a fazer para incentivar a competividade, não é apontar o caminho. É sair da frente.

Posted by Bruno at 10:10 PM

Mundo Moderno (a minha habitual Insurgência dominical)

O mundo moderno é, em larga medida, incompreensível para mim. E não só os assuntos relativos ao género feminino, cuja ignorância devo à pouca vontade, por elas demonstrada, de me permitir um esclarecimento. Há toda uma gama de aspectos da sociedade actual que ultrapassa os limites da minha compreensão: o Ministério da Educação está preocupado com o insucesso escolar. Para o combater, cria uma avaliação alternativa, que permita chutar para a frente os que não conseguiram progredir. Uma campanha televisiva anti-tabagista assenta no pressuposto de que arrancar viscosidades das fossas nasais e colá-las ao objecto mais próximo é um acto menos repulsivo do que o de fumar. O Governo vai aumentar o salário mínimo, acabando por prejudicar precisamente aqueles que quer proteger. Uma notícia afirma que dirigentes do PS e do CDS mantiveram conversas acerca de uma eventual substituição do Procurador-Geral da República. O procurador indigna-se com a violação do segredo de justiça. Não o preocupa o facto de conversas normais entre duas pessoas serem escutadas e gravadas. Não o preocupa o facto da privacidade de alguém ser invadida para denegrir a pessoa em causa. Um soldado português morre no Afeganistão. As boas consciências culpam o Governo português. Nem uma palavra para os autores do atentado. Cavaco Silva deu uma entrevista. Soares continua a pedir que fale. Para quem quer ser um "ouvidor", era bom que começasse pelo seu adversário. E continua a pedir debates. Pergunto-me o que irá dizer quando estes efectivamente se realizarem? Nessa altura, aquele que tem sido o assunto central da sua campanha já não fará sentido. No Brasil, o PT quer Lula como candidato à presidência no próximo ano. Nos EUA, há quem queira Hillary Clinton para 2008. Em Espanha, há quem tenha querido Zapatero. Mais, há quem mantenha essa opinião. Na Bélgica, há quem acredite que vive num país diferente da França. Na França, há quem acredite viver num país civilizado. Tudo isto me ultrapassa. Apesar de tudo, a semana trouxe boas notícias. Na Alemanha, já há governo. O acordo de coligação demorou a ser feito, mas já existe. A ruptura será muito mais rápida.

Posted by Bruno at 09:34 PM

novembro 20, 2005

Acontecimento

no direction home

Posted by Bruno at 10:43 PM

novembro 19, 2005

Estado Policial

O Expresso noticia que dirigentes do PS mantiveram conversas com dirigentes do CDS/PP, no sentido de demitir o actual Procurador-Geral da República. O Primeiro-Ministro declarou que "o Governo não apresentou qualquer proposta de substituição do Procurador". Estou esclarecido. Os tais contactos existiram. Já o Procurador-Geral entendeu por bem manifestar o seu lamento com "mais uma violação do segredo de justiça". Curiosamente, não parece preocupá-lo que o Ministério Público escute e registe conversas privadas, sobre assuntos que não constituem matéria ilícita. Que eu saiba, não é crime dirigentes de partidos procurarem um entendimento no sentido de pressionar politicamente o Presidente da República substituir um Procurador. Apesar disso, as autoridades entendem por bem registar o conteúdo dessas conversas privadas, permitindo que alguém, numa altura em que as trapalhadas da instituição dirigida por Souto Moura estiveram de novo na ribalta, as torne públicas,desviando as atenções para a suposta falta moral dos dirigentes desses partidos. Num estado de direito civilizado, uma conversa que não versa sobre matéria ilícita não pode ser registada por quem a escuta (e essas escutas são sujeitas a critérios bem definidos). Um Estado em que conversas entre políticos são gravadas, registadas, e usadas por alguém como arma política, é um Estado Policial. É um Estado totalitário. Em que a liberdade das pessoas depende da vontade de quem tem o poder de controlar as suas vidas. Isto para além do facto de situações como esta apenas ajudarem a afastar ainda mais as pessoas do exercício da política. Nenhuma pessoa de bem pode estar interessada em ver a sua vida escrutinada por alguém (que niguém sabe muito bem quem é), que não é responsabilizado, e que pode, sempre que entender, usar aquilo que ouve como arma política.

Posted by Bruno at 10:42 PM

Novidades

Manuela Ferreira Leite, Eduardo Catroga e Miguel Beleza não gostaram que o PSD tivesse votado contra o Orçamento de Estado. A direcção do PSD não gostou que eles não tivessem gostado. O dr. Miguel Macedo, por exemplo, já veio a público manifestar a sua indignação. Até porque "muitos daqueles que acham que nos devíamos ter abstido são aqueles que nos acusam de não fazer oposição ou que queriam impôr uma data limite para o prof. Cavaco Silva ser candidato." Fico a saber, pelo dr. Miguel Macedo, que perigosos anti-cavaquistas como Manuela Ferreira Leite, Eduardo Catroga, e Miguel Beleza, quiseram impôr uma data limite a Cavaco Silva.

Posted by Bruno at 10:33 PM

Esforço

Na sua crónica desta semana no Expresso, o João Pereira Coutinho critica a proposta do Ministério da Educação de criar uma avaliação alternativa para os alunos repetentes em risco de chumbar uma segunda vez. Critica ainda os "valores", "comportamentos" e "atitudes" que os professores costumam arranjar para passar os alunos que não merecem passar. Tem toda a razão. Mas devo aqui confessar que também eu já fui premiado pelo meu "esforço". E não apenas uma singela vez. Recorrentemente. Durante anos e anos. Chutado para a frente. Apesar de nada me qualificar para abandonar o ensino primário. Felizmente, numa só disciplina. Educação Visual. Exactamente. Não sou muito coordenado. O cérebro até funciona bem. Apenas tem algumas dificuldades na transmissão de ordens ao resto do corpo. Sou uma aberração evolutiva. É como se não tivesse polegares oponíveis. O acto de segurar uma régua e traçar uma linha é algo que está para além das minhas capacidades. Consigo segurar uma régua. E consigo fazer um traço. Mas não consigo cumprir as duas acções ao mesmo tempo. Os meus leitores poderão pensar que exagero. Posso garantir-vos que não. Que a conjugação dos actos de segurar uma régua e de traçar uma linha é para mim uma impossibilidade instransponível. De mãos, sou uma desgraça. Coisa que qualquer rapariga poderia corroborar, se me tivesse dado a oportunidade de lhe mostrar toda a minha inabilidade.

Posted by Bruno at 10:11 PM

A Ler

Todo o Diário do Tiago Galvão, "conservador, deprimido e abstémio". Uma pequena amostra:

"O único crime que eu não sou capaz de cometer é o adultério, mas apenas devido a condições extrínsecas, o que não abona muito a favor da minha personalidade."

P.S.: gostava mais do template antigo...

Posted by Bruno at 10:03 PM

Lamento

Este fim-de-semana, não vou poder ver a maratona da 3ª série do 24.

Posted by Bruno at 09:57 PM

novembro 18, 2005

Soldado Perdido

Já o escrevi várias vezes. Duvido que tivesse coragem de lutar pelo meu país, de me arriscar a morrer numa guerra. Tenho por isso uma genuína admiração por qualquer militar. Não sou, portanto, indiferente à notícia da morte de um soldado português em missão no Afeganistão. É por isso que considero que declarações como as do dr. Louçã são profundamente ofensivas, para a memória do soldado falecido, e para a sua família. Porque o dr. Louçã, ao se vangloriar de sempre ter sido contra a presença portuguesa no Afeganistão, ao querer aproveitar-se politicamente da morte deste soldado, ao querer responsabilizar directamente os governos portugueses pela morte deste soldado, não o trata como um herói (como acontece nos países civilizados, com qualquer soldado falecido em batalha). Menoriza-o. Menoriza-o, porque pretende ignorar que o soldado falecido tomou uma decisão voluntária de participar nessa missão. Consciente dos perigos que ela acarretava. Tendo a coragem de correr esse risco. Não merece que o tratem como um mero peão de governos supostamente maléficos que colocam a vida dos seus cidadãos em risco para se curvarem perante o imperialismo ianque "desse Bush". A sua família, e os seus camaradas, aqueles que lá ficaram e aqueles que cumprem missões noutros locais, também não.

Posted by Bruno at 10:06 PM

novembro 17, 2005

O PSD e o Orçamento

A polémica em redor da orientação de voto do PSD relativamente ao Orçamento de Estado é de simples resolução. Manuela Ferreira Leite tem toda a razão. O PSD deveria ter-se abstido. Mesmo tendo em conta que o Orçamento é um documento político, e não meramente técnico. E nem é preciso concordar com Manuela Ferreira Leite, quando a ex-Ministra afirma que o Orçamento reflecte um esforço na contenção da despesa (convinha à direcção do PSD ter em conta que esta é uma afirmação política, antes de atacar Ferreira Leite). Mesmo que o PSD apresentasse uma orientação política liberal, radicalmente oposta à do PS (o que não acontece), não deveria votar contra, mas sim abster-se. Em termos muito simples: "não concordamos com a orientação política que está por trás deste Orçamento. Portanto, não podemos votar a favor. Mas, dentro do possível, estamos dispostos a colaborar com o Governo, no sentido de minorar os aspectos que consideramos mais negativos, para os quais apresentaremos propostas alternativas no decorrer do debate na especialidade." Esta seria o melhor caminho possível para o PSD, e para o país.

Para o PSD, porque permitiria credibilizar o partido aos olhos do eleitorado. Afastaria a noção de que se está a fazer oposição "just for opposition's sake". O PSD deve ter em conta que, depois do consulado de Santana Lopes, tem de fazer um esforço maior que qualquer outro partido no sentido de actuar, e de parecer actuar, de forma responsável. Marques Mendes percebeu isso nas autárquicas, ao não se querer associar politicamente a alguns candidatos. É estranho que agora não mostre essa sensatez. A credibilidade da posição do PSD relativamente a esta matéria é ainda mais frágil, tendo em conta os elogios iniciais que foram feitos ao documento. Das duas uma, ou esse juízo foi apressado, ou os deputados do PSD estão a votar contra a sua consciência, apenas e só por "politiquice". Em ambos os casos, é a sua credibilidade que fica posta em causa. Nada disso aconteceria se a posição do PSD tivesse sido aquela defendida por Manuela Ferreira Leite, nos termos que aqui propus.

E seria melhor ao país, por duas razões. Caso o PS estivesse disposto a aceitar a colaboração do PSD, poder-se-ia talvez evitar alguns desses aspectos mais negativos. Se o PS não quisesse colaborar, cairia sobre os seus ombros o peso da responsabilidade por tal situação. Quem pareceria, nesse caso, ter cedido à "politiquice", em sacríficio dos interesses do país, seria o Governo, não a oposição. A segunda razão é simples. O PSD, ao apostar na sua credibilização, poderia acelerar o seu regresso ao governo. E com um capital de confiança dos eleitores que lhe permitiria, caso a sua direcção estivesse interessada, promover uma série de reformas que hoje ninguém tem sequer coragem de referir, quanto mais de levar a cabo. Porque se não for o PSD a promovê-las, dificilmente será outro. Foi tudo isto que o PSD sacrificou, com a sua conduta relativamente a esta questão. Manuela Ferreira Leite tem toda a razão.

Posted by Bruno at 10:09 PM

Parabéns

Desta vez, é o Babugem, do campo-de-ouriquense Ricardo Gross, a fazer dois anos.

Posted by Bruno at 10:01 PM

novembro 16, 2005

Desilusões

Mário Soares afirmou hoje ter ficado desiludido com a entrevista de Cavaco Silva. Eu confesso que tenho ficado desiludido com o comportamento de Mário Soares. Não que tencionasse votar nele. Mas esperava da parte de Soares uma campanha um pouco mais séria. Não tão assente em ataques pessoais e em questões vazias. Esperava as habituais diatribes contra globalização, contra "esse Bush", a favor do "verdadeiro socialismo", etc. Mais, temia o sucesso dessa sua atitude, como aliás cheguei aqui a escrever. Muito boa gente via no radicalismo de Soares um handicap para ele. Ao contrário, eu pensava que esse radicalismo poderia apelar a uma parte significativa do eleitorado, que vê na globalização um sinónimo de "imperialismo americano", e nos EUA um sinónimo de "tudo o que há de mau". Soares tem, no entanto, optado pela mesquinhez, pela tricazinha. Joana Amaral Dias escreveu ontem no DN um artigo afirmando que só Soares poderia trazer uma revitalização da vida política. Na realidade, o dr. Soares tem, com a sua conduta, contribuido, como nenhum outro candidato presidencial, para agravar a descredibilização da classe política. Se não existissem mais razões (e do meu ponto de vista, elas não faltam), estaria aqui um motivo suficiente para não votar em Soares.

Posted by Bruno at 10:24 PM

novembro 15, 2005

Exemplo

Há dias, no Reino Unido, uma sondagem, que tinha como universo os potenciais eleitores dos Tories, colocava David Davis na frente da corrida para a liderança do partido. Uma outra, que tinha como universo os membros do partido (ou seja, os votantes na corrida em questão) colocava como futuro vencedor David Cameron. São resultados curiosos. Porque os membros do partido Conservador são geralmente considerados pela imprensa como muito mais "à direita" do que o eleitorado em geral, sendo que David Cameron, normalmente caracterizado como um "centrista", parece ser o favorito dos militantes (supostamente extremistas), e David Davis, caracterizado como "o candidato da direita", como o favorito do mais "moderado" universo do eleitorado. O que é um bom exemplo de como os rótulos que a imprensa hoje em dia coloca nos agentes políticos são erróneos.

Outro exemplo que a actual campanha para a liderança dos Tories nos dá é o das vantagens que, hoje em dia, um partido terá em realizar eleições directas para a sua liderança. Ao obrigar os candidatos a empenharem-se numa campanha relativamente prolongada, permite que os eleitores (não apenas os membros do partido, mas aqueles que o partido terá de convencer para chegar ao governo) conheçam muito melhor aquilo que os ditos candidatos defendem. Permite testá-los. Não só as suas ideias, mas a sua conduta política. Muito provavelmente, se a eleição para a liderança dos Tories se processasse como, por exemplo, acontece no PSD, em Congresso, dificilmente David Cameron teria convencido muito boa gente, que, como eu, o via como uma espécie de Tony Blair, que não dizia nada, para não se comprometer. No decorrer da campanha, David Cameron tem-me vindo a convencer de que é precisamente o contrário. Alguém que não só tem toda a razão acerca de questões como a necessidade de uma maior abertura à globalização, ou de não entregar à UE mais poderes que deveriam pertencer aos parlamentos nacionais, mas também alguém que tem a plena consciência de como credibilizar um partido que há muito perdeu essa credibilidade. Ao ponto de, neste momento, não saber em quem depositar a minha preferência de espectador; se em David Davis, se em David Cameron (e seria muito mais complicado se Liam Fox ainda estivesse na corrida). Em suma, as eleições directas permitem aos membros de um partido uma maior consciência das qualidades e dos defeitos dos seus potenciais líderes. Isto para além de, ao atrair uma atenção relativamente prolongada por parte dos media, fazer com que o eleitorado em geral fique mais familiarizado com as suas propostas, funcionando, quando há bons candidatos (como é o caso dos Tories), como um factor de credibilização e revitalização do partido. Um exemplo que o PSD, o único partido que, por razões históricas, pode ter em Portugal um papel semelhante ao que os Tories tiveram no Reino Unido com Thatcher, deveria seguir. É a única forma, aliás, de poder vir a ter esse papel.

Posted by Bruno at 10:28 PM

novembro 14, 2005

A Resposta

Tiago Geraldo respondeu-me. Passo a transcrever:

"Eu podia começar por partilhar com o mundo o meu genuído desprezo por tudo aquilo que disse. Podia não. Começo mesmo: quero partilhar com o mundo o meu genuíno desprezo por tudo o que V. Exa. disse.
E agora, vamos por partes.
Para meu grande desgosto, parece que foi o único a não perceber que 80% do texto era irónico. O «culto da sesta» está embutido nesse mesmo espírito, como que simbolizando o «nacional-porreirismo» (e.g. “o deficit não é uma prioridade”) de que o dr. Soares tão garbosamente faz bandeira.
Quanto à questão do esforço há por aí uma compreensão extensiva que eu não subscrevi de forma alguma. Disse apenas que Cavaco era daqueles que se esforça por cumprir o dever. É V. Exa. que faz do que ali se diz uma interpretação «a contrario sensu». Mas isso, claro, está no seguimento do julgamento que V. Exa. faz dos 10 anos de Soares em Belém que, pela amostra, soa positivo.
A noção de «dever» está directamente associada ao conceito de «competência funcional». Não sei se V. Exa. tem ou não formação jurídica. Provavelmente não. Se tivesse não engendrava tamanha elucubração sobre a matéria. Competência funcional é um conceito jurídico e não consta que figure em livretes sobre gerontologia.
De resto, o meu post não prosseguia qualquer pretensão de exaustividade. Não será obviamente apenas pelo arrazoado que ali alinhavei que me comprometo publicamente com o apoio à candidatura de Cavaco Silva. Há mais, mas não é o seu esclarecimento que me procupa, como deve facilmente compreender.
A citação do mail endereçado a Pacheco Pereira é reveladora. Mas da sua parte. Glorificar o pastiche é sempre a solução dos mais fracos. Não escondo que me arrependo de algumas coisas do que escrevi. Não escondo que houve excesso verbal, a resvalar para o disparatado. Mas esse mail teve um contexto próprio. Era um daqueles dias em que estava com a esquerda e percebia que um homem às vezes se atire a outro. Sabe quais são? Pelo conteúdo dos posts, tenho a certeza que sim.
A alteração do meu post não durou mais do que dois minutos. O hiato temporal não é tal que mereça acusações de desonestidade ou outros desregramentos. Escrevi o texto no Word com finais alternativos. Copiei o errado. Acontece. Não há nada de transcendental em tudo isto (e não houve nos seus textos qualquer espécie de responsabilidade: menos Margarida Rebelo Pinto por favor).
Depois, falta à verdade com a triste e prepotente assunção de poderes mediúnicos. «Se eu não soubesse que ele até me lê». Mas V. Exa. sabe alguma coisa? Pensa. E pensa mal. Entrei uma vez nesse atoleiro de mau português e por advertência de interposta pessoa. De resto, e se me permite, reservo-me o direito de não entrar em casas tão mal frequentadas. Em primeiro lugar, porque prezo muito o bom português (tenho uma estima muito grande por quem sabe usar um artigo definido no local certo). E no seu caso, ou a mão é invisível ou o teclado incompetente. Em segundo, porque me enfastia a prosa baça e cambaleante. O problema deve ser meu mas a má escrita aborrece-me. No que a V. Exa. diz respeito, deixa-me em estado de calamitosa perturbação. E em terceiro, porque V. Exa. faz parte daquele grupo de meninas e meninas que se leva demasiado a sério. Que se empenha com ares de grande dignidade nas análises, diagnósticos e observações com uma comoção confrangedora, crendo convictamente de que vale realmente muito (há por aí um auto-endeusamento que me causa náuseas). Ainda por cima, descurando leituras essenciais. O resultado são textos mal-escritos e sem graça.
Veja se lê Eça ou Ramalho Ortigão. Pergunte aos papás por João Chagas. E, por favor, pare de tentar salvar o mundo.
Não tente (peço-lhe peroradamente), não tente salvar-me a mim, encher a minha «cabecinha vazia», sedenta de clarões e rasgos de humanismo, com essa pestilenta presunção. Não procure ser mais um daqueles «idiotas da objectividade», da seriedade sem escolhos, de tom grave e imperturbável, que ditam ao mundo o que é certo ou errado. É que eu, ao contrário do que diz V. Exa., sou um tipo honesto. E gente honesta costuma ser particularmente sensível a reproduções grosseiras de desonestidade."

Primeiro que tudo, quanto à alteração do texto, peço desculpa se nada teve a ver com o que escrevi (embora não perceba a referência a Margarida Rebelo Pinto). Em segundo lugar, sim, o mau português prolifera por aqui. Um misto de preguiça e ignorância. Quanto ao "auto-endeusamento", peço-lhe desculpa, meu caro, mas está enganado. Não acho que Deus exista, e muito menos o veria na minha pessoa. Depois, quanto às minhas extrapolações (será assim que se escreve?), peço desculpa se me enganei ao atribuir-lhe uma intenção de caracterizar Soares como "senil". Talvez me tenha deixado enganar pelo que escreveu sobre Paulo Pedroso, dizendo que, e passo a citar para que não substitua o texto por uma qualquer versão alternativa guardada no Word: "Ana Gomes tem razão. Paulo Pedroso será um dia Primeiro-Ministro. Do Portugal dos pequeninos." Qual é o conceito jurídico aqui, meu caro? Uma pergunta: o que quer dizer com "Era um daqueles dias em que estava com a esquerda e percebia que um homem às vezes se atire a outro. Sabe quais são? Pelo conteúdo dos posts, tenho a certeza que sim." ? É que, muito sinceramente, não, não sei. Outra pergunta: quais são as tais leituras essenciais que me faltam (começo a perceber a referência a Margarida Rebelo Pinto)? Mas deixe-me também dizer-lhe uma coisa: se tomei o seu "arrazoado" pelas razões que o levam a apoiar Cavaco Silva, é porque nunca lhe li nada que tivesse um pouco mais de substância. E há muito que me alertaram para os seus escritos, meu caro. Que ao contrário do efeito que os meus lhe provocam, nunca me enfastiam. Rio-me sempre. Uma última questão: O que o terá levado a pensar que faço um balanço positivo da Presidência do dr. Soares? Posso-lhe garantir que não. Posso escrever mau português, mas acho que até tenho algum juízo.

Mais uma vez peço desculpa se cometi alguma injustiça (e pelo mau português), escreva sempre. E que ganhe Cavaco Silva.

Posted by Bruno at 10:41 PM

Razões das Dificuldades

O Governo propôs hoje um aumento de 3% do salário mínimo. A CGTP queria um aumento maior. Como o Miguel escreveu, apenas dificulta a entrada no mercado de trabalho. A mera existência de um salário mínimo coloca fora do mercado de trabalho os indivíduos que cumpram funções cujo custo desse salário mínimo não é entendido pelo potencial empregador como sendo compensado pelo benefício que eventualmente possa trazer, mas que de outra forma poderiam criar postos de trabalho, caso potencial empregador e potencial empregado chegassem a acordo quanto ao salário a ser pago. O aumento do salário mínimo apenas aumenta o número de possíveis postos de trabalho nessa situação. Se os desejos da CGTP fossem satisfeitos, esse resultado seria ainda mais grave, ainda mais penalizador para aqueles que se pretende proteger. No entanto, a proposta do Governo será entendida por uma parte do eleitorado como insuficiente. Alguma contestação, por pequena que seja, será inevitável. o Governo do PS terá de enfrentar uma antipatia de parte do eleitorado, que não vê satisfeitas as suas pretensões. E não só devido às exigências demasiado altas e irrealistas da CGTP. Mas também devido a problemas que o próprio PS e o próprio Governo causaram. Por razões ideológicas, e por razões de prática política. O PS, pura e simplesmente, não pode dizer o que eu aqui escrevi. Não pode explicar, às pessoas que reivindicam um aumento do valor do salário mínimo, que esse aumento seria causador de desemprego. Ideologicamente, isso seria incompatível com a identidade política do PS. Por isso é obrigado a explicar o aumento relativamente reduzido (mas que não deixará de dificultar o acesso ao mercado de trabalho) com as dificuldades financeiras que o país atravessa. E é aqui que a prática política do Governo lhe cria dificuldades. O anúncio de projectos como o da Ota e do TGV são entendidos como incompatíveis com a necessidade de austeridade que se invoca para justificar o aumento reduzido do valor do salário mínimo. Essa incompatibilidade no discurso oficial do Governo provoca descontentamento. O Governo apenas se pode culpar a si próprio. Mas quem pagará será o país.

Posted by Bruno at 10:08 PM

Dois Anos

O blog do meu caro colega Insurgente André Amaral está de parabéns.

Posted by Bruno at 10:07 PM

Mundo Moderno (a mais recente das minhas semanais insurgências)


Um indivíduo esperou dois anos por um julgamento, parte significativa deles em prisão preventiva, para o tribunal acabar por entender que não havia razões suficientes para ele ser sequer acusado. Um outro foi alvo de buscas em sua casa, ao mesmo tempo que o próprio Procurador afirmava não haver qualquer razão para suspeitar dele. Um outro ainda está há vários meses à espera de ser ouvido pela primeira vez acerca de um crime de que é suspeito. O sistema de justiça, por sua vez, terá de esperar muitos mais até ter alguma credibilidade. José Saramago afirma que não participará em eventos oficiais em que Cavaco Silva esteja presente, caso seja eleito. A Juventude Popular decide não apoiar Cavaco. A ambos, o país mostrou a sua indiferença. A ambos, Cavaco agradeceu. No debate parlamentar sobre o Orçamento, Louçã continuou a sua campanha presidencial. Na campanha presidencial, continuou a sua demagogia parlamentar. Sem diferenças, para não se confundir. No Reino Unido, o governo de Tony Blair pretendia viabilizar uma lei permitindo a detenção, durante 90 dias sem acusação formada, de indivíduos suspeitos de terrorismo. A maioria dos eleitores estava a favor. A maioria do Parlamento estava contra. Blair acusou os últimos de ignorarem os primeiros. Ignorando ele próprio que a função do Parlamento não é a de seguir a opinião pública, e que se fosse, então não seria preciso para nada. Michael Howard pediu a demissão de Blair. Segundo ele, Blair perdeu a autoridade sobre o seu partido. Isto dito pelo mesmo homem que sairá em Dezembro da liderança dos Conservadores. Em França, os "jovens", certamente "frustrados" com a sua "condição social", foram fazendo arder mais uns carros durante a semana. Chirac, Villepin e Sarkozy, certamente frustrados com a sobrevivência política uns dos outros, procuraram queimar-se mutuamente. A culpa, claro está, é das "políticas neo-liberais". De Bush, certamente, porque em França não há "políticas neo-liberais".

Posted by Bruno at 10:05 PM

novembro 13, 2005

David Cameron

Por falar em David Cameron, aproveito para deixar aqui o link para o artigo que hoje publica na mesma edição do Telegraph.

Posted by Bruno at 11:27 PM

PJ O'Rourke

No Telegraph de hoje, pode-se ler um artigo do brilhante PJ O'Rourke. Apesar de achar que é um pouco injusto relativamente a David Cameron (que me está a convencer cada vez mais, principalmente depois do apoio declarado por William Hague, antigo líder, e por Liam Fox, senhor por quem tenho bastante consideração), vale sempre a pena ler o que O'Rourke escreve, mesmo que apenas pelo bom humor. Uma pequena amostra:

"The British Conservative Party is looking for a saviour, which is understandable - it needs one. But can either of the two Davids, Cameron or Davis, save the Tories? Personally, I'm a Davis man. He's my kind of guy. He's the one who educated himself. It doesn't take much to do what Cameron did, which is to get a good education at the best private school in the country. Davis managed to get himself educated at a lousy state school. That takes commitment."

Posted by Bruno at 11:20 PM

Revelador

Reparo que, depois do meu post de ontem, o Tiago Geraldo optou por não me responder. Está no seu direito. Preferiu alterar ligeiramente o texto, sem avisar os leitores de que o fez, precisamente na frase que citei na crítica que lhe fiz. Se eu não soubesse que ele até me lê, até poderia pensar que se tratava de uma coincidência. Onde ontem se lia "o Professor, como provam dez anos de governo, é daqueles que se esforçam genuinamente por cumprir o dever", lê-se agora "o Professor Cavaco, como provam dez anos de governo, tem bem presente a noção de dever". Sem se dar ao trabalho de me responder, altera a frase de maneira a eliminar o contexto da crítica que lhe fiz. Elimina, por exemplo, a palavra "esforçam", a que dei algum destaque no meu post. Que lhe faltava um bocadinho de cabecinha, já tinha dado para perceber. Percebe-se agora que também lhe falta honestidade.

Posted by Bruno at 10:17 PM

novembro 12, 2005

Competências

Há, na área política do dr. Mário Soares, o hábito de criticar um adversário político através da sua menorização moral. Para os jacobinos que o apoiam, e para o próprio Soares, o adversário é sempre um "fascista", ou um "democrata pouco consolidado", ou pior que isso, "um economicista". Pior que essa atitude do dr. Soares e dos seus apoiantes, só criticar o dr. Mário Soares em termos semelhantes. É precisamente isso que, infelizmente, Tiago Geraldo (se não me engano, autor de um e-mail publicado no Abrupto, criticando Pacheco Pereira por fazer biografias de Cunhal, um inimigo, em vez de Sá Carneiro, do seu partido, pormenor que se diz tudo acerca da figura) fez no Pulo do Lobo, num texto de um vazio tão grande que torna impossível não esbarrar nele.

O Tiago, depois de criticar, e bem, a atitude soarista de auto-atribuição de uma superioridade moral, cai no erro de menorizar o dr. Soares por este ser, segundo rezam as crónicas, preguiçoso. Menoriza o dr. Soares por este, supostamente, dormir a sesta. E a única razão que invoca para se votar em Cavaco Silva é a de que "o Professor, como provam dez anos de governo, é daqueles que se esforçam genuinamente por cumprir o dever" (compare-se, por exemplo, com texto anterior, de Paulo Tunhas, em que este faz uma análise qualitativa do dscurso dos vários candidatos, como forma de justificar o seu voto). O que o Tiago aqui faz é exactamente o mesmo que fazem os apoiantes de Soares. Para estes, Cavaco é menos democrata que o socialista. Para o Tiago, Soares não se esforça tanto pelo país.

Mais do que um exercício levemente hipócrita, o texto do Tiago reflecte uma atitude perigosa em democracia. Ao contrário do que o Tiago parece pensar, em democracia não importa "sobretudo a capacidade e a competência funcional dos candidatos" (forma envergonhada do Tiago insinuar, erroneamente, que Soares está "senil"). Em democracia, importa sobretudo, ou melhor, devia sobretudo importar, os projectos políticos, as suas consequências práticas, e a avaliação que cada cidadão faz destes elementos. É precisamente devido a estes factores que eu apoio Cavaco Silva. Porque faço um julgamento acerca daquilo que ele defende, e do modo como poderá aplicar aquilo que defende.

A atitude do Tiago, ao colocar a ênfase na competência, ou pior, no "esforço" que supostamente, só Cavaco fará (como do outro lado, no apreço pela democracia que Soares demonstrará), é uma atitude que abre as portas à pior das demagogias. Já aqui o escrevi várias vezes. Não estou a apontar a "competência" como um factor negativo. Nem sequer a defender que não deve ser um factor a ter em conta na atribuição de cargos políticos. Mas digo que a concentração única e exclusiva neste factor como critério de selecção por parte de um eleitor desvirtua a democracia, e é um sinal da sua fragilidade.

Numa democracia representativa como a nossa, é suposto que a luta pelo poder político se processe através de eleições, realizadas num determinado intervalo de tempo. E o que é suposto estar em causa nesses actos eleitorais é o confronto entre dois ou mais conjuntos de propostas, que devem ser julgadas pelos eleitores, que escolherão os seus representantes consoante estes defendam ou não as propostas que julgam mais adequadas.

Ao escolherem alguém pela sua "competência", "independentemente das suas ideias", relativizando aliás a importância destas ("cada um tem as suas", diz o povo), os eleitores estão a menosprezar o elemento central da democracia, a competição pelo poder através do debate de diferentes propostas políticas. E ao fazê-lo, estão a eliminar a política. Ao eliminar da equação que conduz à escolha de um seu representante político o elemento "político", as ideias que ele defende, o eleitor está-se a colocar numa posição perigosa. Está-se a colocar à mercê daquilo a que Tocqueville chamou de "despotismo democrático", a entrega progressiva das liberdades dos cidadãos a um demagogo, a alguém que se apresenta como capaz de as conduzir. Como alguém "competente". E como as ideias não entram na equação que conduz o processo de escolha ("cada um tem as suas"), pouco ou nada interessa a impraticabilidade do que esse hipotético demagogo defende, ou sequer o carácter eventualmente iliberal e anti-democrático dessas mesmas ideias.

Não estou a afirmar que o Tiago defende ideias anti-liberais e anti-democráticas. Muito menos que defende um demagogo. Aparentemente, ele defende Cavaco Silva, tal como eu. E eu não considero Cavaco Silva um demagogo. Apenas digo que a argumentação do Tiago se presta a equívocos. Que mais do que a competência e o carácter de Cavaco Silva, interessam as suas ideias, e a forma como ele irá conduzir o seu mandato. É por estas razões, que já aqui expliquei de forma mais alongada, que defendo a candidatura de Cavaco. E devia ser por estas razões que o Tiago deveria defender Cavaco Silva. Não por razões tão vazias quanto as que parecem motivar os apoiantes de Soares que pensam que Cavaco não é democrata. Até porque o candidato que ambos apoiamos não merece.

Posted by Bruno at 09:46 PM

novembro 11, 2005

Armistice and Remembrance

No Abrupto, leio o mail de um leitor, lamentando-se do facto de em Portugal, não se comemorar, como por exemplo nos países anglo-saxónicos, o Dia do Armistício, que hoje, à 11ª hora, do 11º dia, do 11º mês, se celebrou. Especialmente quando o nosso país participou na Grande Guerra, e muitos soldados portugueses lá perderam a vida (pelo que leio no Quarta República, parece que no Porto há gente que resiste). Por cá, não andamos com as papoilas ao peito. É pena. Não podia concordar mais com o lamento do leitor do Abrupto. Aproveito para, a propósito disto, deixar aqui um pequeno momento de publicidade institucional, para os eventuais interessados. No próximo domingo, os súbditos de Sua Majestade celebrarão o Remembrance Day, em memória de todos aqueles que morreram em todas as guerras, ao serviço de Sua Majestade e dos seus súbditos. Os canais de noticiosos britânicos (o Sky, a BBC World) costumam, de manhã, transmitir as cerimónias. Para quem quiser ver, e imaginar que vive num país civilizado.

Posted by Bruno at 10:03 PM

novembro 10, 2005

Os Problemas de Soares

Há alguns anos que, em conversa (e acho que cheguei a escrevê-lo, na morada antiga), eu vinha dizendo que Mário Soares seria candidato presidencial, ou que, pelo menos, desejava sê-lo. Achava até que o seu percurso recente lhe permitiria tornar-se um candidato simpático, não só para os eleitores tradicionais do PS, como para gente mais à esquerda (como se pode ver, aliás, pela presença de Joana Amaral Dias na sua candidatura). Como explicar então os maus resultados que Soares tem dito nas sondagens? Precisamente pelas limitações que Soares se auto-impôs, ao querer ser candidato, mas dizendo o contrário, por entender ser o melhor caminho a seguir.

Soares passou anos a dizer que não se candidataria. Continuo a achar que mesmo nessa altura, queria ser candidato. Mas sabia duas coisas: se anunciasse essa candidatura demasiado cedo, perderia "dinâmica de campanha" ao afastar o factor "novidade" demasiado cedo; e sabia também que essa sua candidatura poderia ser vista com maus olhos por parte significativa do eleitorado, visto ter já exercido o cargo, e também devido à sua idade. Soares tinha então de esperar que surgisse o "vazio na área da esquerda". Para então avançar, dizendo que não tinha alternativa. Que apenas cumpria o dever que o seu passado lhe impunha. Foi o que fez. Foi empurrando gente que sabia não ter vontade de ocupar o cargo. Guterres. Vitorino. Até Alegre. Manuel Alegre foi dizendo várias vezes que não tinha qualquer interesse em se candidatar. E foi precisamente Manuel Alegre a estragar os planos de Soares. Alegre, a dada altura, afirmou que estava disponivel para avançar, caso o PS assim quisesse. Só depois Soares fez a sua declaração, afirmando que iria escutar "os portugueses", para decidir se aceitava o "pedido" do PS para se candidatar ("pedido" esse feito já depois da declaração de Alegre).

Não existia qualquer "vazio". Alegre já lá estava. Ao fingir que não, Soares conseguiu apenas duas coisas: afastar a simpatia de alguma opinião pública, devido à forma como tudo foi conduzido, e afastar os eleitores mais à esquerda, com a sua colagem ao PS. Se tudo tivesse corrido como Soares pretendia, apareceria como um candidato da "esquerda". Do "povo de esquerda", não de um partido de esquerda. A disponibilidade de Alegre fez com que Soares precisasse de um "pedido" prévio do PS. Assim se percebem as sucessivas declarações de gente que lhe é (agora) próxima, pressionando Sócrates. Apesar de Soares (tal como o seria também Manuel Alegre) ser um candidato desconfortável para a a actual liderança do PS, a necessidade desse "pedido" colou Soares ao PS. Mais, colou Soares ao actual Governo. Impedindo parte do "povo de esquerda", o "povo de esquerda" que considera Sócrates neo-liberal, o "povo de esquerda" ao qual o Mário Soares das manifestações contra o Iraque apelaria, impedindo-os de efectivamente apoiar Soares. Para além disso, os efeitos que Soares tinha vindo a querer evitar precipitaram-se. Muita gente mostrou algumas reticências à sua candidatura, precisamente pelo facto de Soares já ter ocupado o cargo e devido à sua idade. E, acima de tudo, o factor "novidade" perdeu-se muito cedo. Soares foi obrigado a avançar pela declaração de Alegre. Foi assim obrigado a fazê-lo muito mais cedo do que Cavaco. Abrindo a este último os caminhos da atenção dos media quando finalmente se candidatasse. Assim explica o que neste momento se passa com a sua candidatura. Foi a forma como ela teve de ser lançada que lhe traçou o destino. Poderia ter sido de outra forma? Provavelmente não.

Posted by Bruno at 10:46 AM

novembro 09, 2005

Amanhã

Uma ligação à internet demasiada lenta conjugada com um sono demasiado grande, fazem com que hoje não escreva nada. Amanhã, cá estarei, com um texto sobre a candidatura de Mário Soares, e, talvez, um outro sobre a situação em França.

Posted by Bruno at 11:29 PM

novembro 08, 2005

Relevância

Nas jornadas parlamentares do CDS/PP, Lobo Xavier afirmou que o PS (e o PSD) não têm falado verdade aos portugueses: porque mantêm a ilusão de que os actuais sacríficios terão como objectivo a restituição do estado anterior de coisas, em que o Estado tudo dá, quando na realidade, esse modelo está falido e a tendência é para piorar, e por manterem a ilusão de que a cobrança de impostos serve para promover a justiça social, quando na realidade servirá "para financiar o Estado quanto às suas actividades essenciais e para tornar a economia de um país pequeno, periférico, mais competitiva", sendo que, acrescento eu, a verdade é que actualmente não cumpre nem um nem outro. Na TSF, António José Teixeira achou que o que nesta intervenção merecia comentário seria a crítica de Lobo Xavier aos governos do PSD em coligação com o CDS/PP. Não digo que ela não exista. Apenas noto a importância que Teixeira lhe deu. Bem reveladora, aliás, da ideia que a generalidade dos jornalistas faz do que é a política: mais do que as ideias e o conteúdo, a "tricazinha". Mesmo quando os políticos (o que infelizmente é raro) demonstram a atitude inversa.

Posted by Bruno at 10:21 PM

Uma Pequena Correcção

Ontem, por engano, escrevi que tinha sido Vitor Martins a antecipar-se a Jirinowski na atribuição de culpas ao nosso George W. pelo que se está a passar em França, quando o nome do senhor é Vitor Ramalho. Aqui fica a correcção.

Posted by Bruno at 10:15 PM

novembro 07, 2005

Estava a Ver Que Não

Vitor Martins, na SIC Notícias, acaba de dizer que quando um presidente americano promove uma guerra preventiva contra um país, estamos a criar "um caldo de cultura" que conduz a situações como a de França. A culpa é "desse Bush".

Posted by Bruno at 09:47 PM

Mundo Moderno (publicado ontem no Insurgente)

Na semana passada, a hora mudou. O país, no entanto, ficou na mesma. Diz-se que os funcionários públicos passarão a ser aumentados em função do seu mérito. Diz-se todos os anos. Nunca se fez. O governo diz que está a prever a possibilidade de compensar os funcionários públicos pelo aumento da sua idade de reforma, através da atribuição de mais alguns dias de férias aos que tiverem mais de 60 anos. Admitindo, dessa forma, o facto do Estado não precisar de muitos dos funcionários públicos que emprega. Cavaco diz que não é político profissional. Soares diz que sim. São políticos diferentes. O que só abona a favor de Cavaco. O Presidente da República (o actual) diz que Portugal precisa de empresários que corram riscos. O que não diz é que o Estado precisa de eliminar os obstáculos que cria aos que querem arriscar. Quem se arrisca a não ter oportunidade de correr muitos mais riscos é Tony Blair. Depois de David Blunkett ter quebrado o código de conduta ministerial, Blair afirmou publicamente que se dependesse de si, Blunkett não teria de se demitir. O que diz bastante acerca do senhor em causa. Para além disso, como Blair já anunciou que este será o seu último mandato, o futuro político dos membros do seu governo já não depende do futuro do seu actual líder, levando à divisão do dito (do governo, não de Blair). Na Alemanha, nem sequer há governo para ficar dividido. A França, país onde os seus líderes políticos também estão mais preocupados com o seu futuro do que com o conturbado presente que o país vai enfrentando, já não está sozinha na luta contra o imperialismo de Bush. E não, não estou a falar de Miguel Sousa Tavares, que finalmente escreveu um artigo sem mencionar o texano. Falo de Diego Armando Maradona, que manifestou o seu desagrado pela presença "desse Bush", no seu país. Por sua vez, vários argentinos (presumo que "jovens") manifestaram a sua concordância com "El Pibe", destruindo lojas e restaurantes imperialistas, onde trabalham argentinos que estarão agora no desemprego. Percebo o sentimento de Maradona. Afinal, a droga causa estragos a qualquer um. Já muito boa gente anda por aí a dizer o mesmo que ele, e a única coisa que tomou foi uma boa dose de Boaventura Sousa Santos. O que, diga-se em abono da verdade, também não deixa ninguém em bom estado.

Posted by Bruno at 09:28 AM

novembro 05, 2005

O Problema

Os acontecimentos dos últimos dias, em França, merecem atenção. O que se está a passar é grave. Há uma série de elementos que devem ser analisados, e uma série de comentários que devem ser feitos. Em primeiro lugar, os motins nos arredores de Paris (e que já se espalharam a outros locais) não são culpa do modelo social europeu. São culpa das pessoas que neles estão envolvidas. São culpa de pessoas que, como escrevia ontem o Luís, não aceitam a autoridade civil do Estado do país onde vivem. Pessoas que se auto-isolam da comunidade onde deviam procurar inserir-se. Pessoas cuja deslocação dos seus países de origem não é motivada pelo desejo de adoptar o modo de vida do país para o qual se dirigem, mas apenas beneficiar da prosperidade relativa que aí encontram. Não se trata de um desejo de manutenção de um traço identitário próprio, mas sim da afirmação cultural de um traço identitário assente na rejeição da identidade do país que os acolhe. Dirão que nem todos os imigrantes de origem arábe são assim. Que muitos desejam vivamente deixar para trás o modo de vida opressivo dos seus países de origem. Não contesto. Mas essas pessoas ficam à mercê dos que não querem. Ficam à mercê dos grupos de radicais que gritam contra a suposta decadência moral do Ocidente. Ficam à mercê dos grupos de radicais e de vândalos que impõem a sua própria lei nos bairros onde essas comunidades se isolam. E aqui é que entra o "modelo social europeu". Devido à baixa mobilidade social que lhe é inerente, o "modelo social europeu" agrava este problema. Agrava este problema, ao condenar aqueles que querem beneficiar do modo de vida ocidental, da liberdade que o Ocidente lhes permite, à opressão dos que, vivendo nesse Ocidente, o rejeitam. Pior ainda, condena os seus filhos a esse ambiente. Condena os filhos dos que quiseram viver em liberdade a essa cultura de violência e rejeição do mundo ocidental. Condena-os, a eles que nunca souberam o que é a brutalidade de muitos dos regimes dos países de origem dos seus pais, condena-os a serem seduzidos por uma ideologia radical, que lhes dá uma ilusão de "sentido", de "unidade das coisas", de "explicação da realidade" e de "salvação". Condena-os a viverem permanentemente isolados, e a quererem viver isolados. É esse o problema que a França enfrenta todas as noites. Um problema que se esteve a desenvolver durante anos. Um problema que a generalidade dos países europeus enfrentará mais tarde ou mais cedo, se continuar a assobiar para o lado, como têm feito até aqui. Se continuarem a fechar os olhos a quem desrespeita a sua lei e o seu carácter político. E se continuarem a ignorar aqueles que escolheram viver nos países onde não nasceram, porque queriam viver como se vive nesse país. Pessoas que, precisamente por isso, mereciam mais a nossa atenção.

Posted by Bruno at 10:09 PM

novembro 04, 2005

Esquerda Moderna

Sócrates sempre afirmou ser "um homem de esquerda". Moderna. Mas esquerda. Houve quem não soubesse muito bem o que isso queria dizer. Poderão, finalmente, ter uma ideia mais clara. A velha esquerda, nos idos de 75, nacionalizou a banca e os seguros. A esquerda moderna, por sua vez, nacionaliza os enlatados.

Posted by Bruno at 10:55 PM

Ouvidor

Poucas declarações recentes do dr. Soares terão sido tão reveladoras como a do "ouvidor". Para quem conheça o pensamento de Mário Soares, e tenha em conta o seu percurso, nomeadamente, a forma como conduziu o seu segundo mandato presidencial, percebe bem o que Soares quer dizer com "ser um ouvidor". Primeiro que tudo, significa "ouvir os portugueses". O que significa "ouvir aqueles que protestam". O que quer dizer que Soares não só "ouvirá" como ampliará os protestos de quem procura resistir às (tímidas) reformas do Governo. Como fez na altura de Cavaco. "Ser um ouvidor" significa, apenas e só, ser um foco de resistência às reformas.

Posted by Bruno at 10:42 PM

A Ler

O post Integração, do Luís Silva.

Posted by Bruno at 10:06 PM

novembro 03, 2005

Questões

Pergunto, às pessoas que afirmaram que os motins em New Orleans eram a prova da falência do "modelo neo-liberal", se os motins em Paris não serão, por essa ordem de ideias, a prova da falência do "modelo social-europeu"?

Posted by Bruno at 10:26 PM

De Excluídos a Selvagens

No Abrupto, escreve José Pacheco Pereira:

"Basta haver um ar de revolta social contra o “sistema”, um ar de “multiculturalismo” revolucionário dos “deserdados da terra” contra os ricos (os que tem carro, os pequenos lojistas, os stands de automóveis, os pequenos comércios), para a velha complacência face à violência vir ao de cima. Fossem neo-nazis os autores dos tumultos e a pátria e a civilização ficavam em perigo, mas como são jovens muçulmanos da banlieu, já podem partir tudo. Não são vândalos, são “jovens" reagindo à “violência policial”, são “vítimas” do desemprego e do racismo dos franceses, justificados na sua "revolta", e têm que ser tratados com luvas verbais e delicadeza politicamente correcta. Os maus são as forças da ordem, os governantes, os polícias, os bombeiros e todos os que mostram uma curiosidade indevida pelos seus bairros de território libertado.

No fundo, não é novidade nenhuma. Há muitos anos que é assim, que estas questões são tratadas com imensa vénia, não vá os “jovens” zangarem-se e vingarem-se. A culpa é nossa, não é?"

Curioso, curioso, foi o que se passou na RTP. António Esteves Martins, um particular ódio de estimação meu, começou a sua intervenção caracterizando "os jovens" como um grupo de excluídos, condenados ao desemprego por serem estrangeiros, o que provocava o caldo de cultura onde qualquer coisa pode despoletar a violência. De seguida, iniciou a sua conversa com um emigrante português (vereador naquela zona). Referiu-se às notícias de que estariam portugueses envolvidos nos tumultos. Aí, Esteves Martins, sempre ele, diz que tais notícias não fazem sentido. Tudo porque a comunidade portuguesa, "que nunca causou problemas", não se iria associar a "um grupo de selvagens". No decorrer de escassos minutos, Esteves Martins passou da complacente caracterização dos "jovens" como uns "excluídos" para a algo racista de "uns selvagens". Ainda bem que não foi um qualquer "neo-liberal" a dizer isso, senão seria logo apelidado de fascista.

Posted by Bruno at 10:08 PM

novembro 02, 2005

Fernando Rosas, Hoje e Sempre

O dr. Rosas escreve hoje no Público um bonito texto intitulado "O cavaquismo, ontem e hoje", onde discorre acerca do "neo-cavaquismo". Noto que, para as boas gentes do BE, o prefixo "neo" tem um significado diferente (um "significado outro") daquele que a turba lhe costuma atribuir. Para a rapaziada do BE, sempre familiarizada com as novas verdades, "neo" significa "mau", e não "novo". "Neo-liberalismo", "neo-cavaquismo". Só dispensam o "neo" quando se referem a Bush, que consideram tão mau que nem sequer precisa de um prefixo. Mas perco-me. O dr. Rosas segue o exemplo da esquerda em geral, considerando que a "solitária mais-valia com que o candidato Cavaco Silva se apresenta é a economia". A esquerda em geral, e o dr. Rosas em particular, comete o erro de dar atenção ao prof. Marcelo. Bem sei que, sendo uma das maiores irrelevâncias deste país, o dr. Marcelo é difícil de ignorar. Mas atribuir valor ao que ele afirma, diz mais acerca dos que o fazem do que acerca do professor. Um dia, o prof. decidiu partilhar, com quem o ouvia, que considerava que Cavaco seria um bom presidente porque "percebia de finanças". A partir daí, colou-se à candidatura de Cavaco a ideia que esta seria centrada na economia. Vejo que a rapaziada da esquerda presta grande atenção ao dr. Marcelo, e pouca ao dr. Cavaco. Se o seu manifesto peca por alguma coisa, é por tratar de demasiados assuntos, e não por se cingir à economia. Aliás, nos discursos que Cavaco tem feito, a ideia central é eminentemente política: a necessidade (política) de serem levadas a cabo uma série de reformas e a dificuldade (política) que, em democracia, essa implementação inevitavelmente enfrentará. E Cavaco considera que, devido à sua experiência (política), será a pessoa indicada para ajudar na promoção dessas mesmas reformas. O dr. Rosas ou não percebe isto, ou não quer perceber. Nenhuma das duas abona a seu favor.

Posted by Bruno at 10:07 PM

novembro 01, 2005

A Expressão de Rio

Parece que no Porto a liberdade de imprensa está em perigo. Que se avizinham medidas comparáveis à nacionalização de órgãos de comunicação social. Pelo menos, assim pensa o Gabriel Silva do Blasfémias. E tudo porque Rui Rio declarou que, a partir de agora, só responderá às questões dos jornalistas por escrito, para que as suas palavras não sejam deturpadas. Não há aqui qualquer limitação da liberdade de imprensa. A imprensa pode escrever aquilo que quiser acerca de Rui Rio, desde que não seja difamação, sob pena de ter de enfrentar um processo em tribunal. Mas tal como a imprensa tem o direito de escrever o que quiser sobre Rio, ou de lhe perguntar o que quiser, Rio tem o direito de falar como quiser. Tem o direito de responder às perguntas que os jornalistas fizerem, da maneira que quiser. Se quiser responder só por escrito, é uma escolha sua. Tal como será uma escolha sua não querer responder a essa mesma pergunta. E não há aqui limitação nenhuma de uma qualquer liberdade. Não há aqui nenhuma semelhança com o que "muitos camaradas" fazem para "manter o poder". Há apenas a vontade de, como escreve o Fernando Albino, tratar da relação com a imprensa de uma forma séria e profissional. Nada de estranho, a não ser para um país pouco habituado à seriedade e ao profissionalismo.

Posted by Bruno at 10:17 PM