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outubro 31, 2005
O Ódio ao Mérito
Percebo que as pessoas não simpatizem com Cavaco Silva. Não é propriamente um figura que seja simpática. Não acho que esse seja um critério importante, mas percebo o sentimento. Percebo que as pessoas não gostem politicamente de Cavaco Silva. Que alguns o achem demasiado estatista, ou que outros o achem "neoliberal". Mas há uma certa animosidade contra Cavaco que me incomoda. No último Eixo do Mal, José Júdice dizia que, ao contrário de Cavaco Silva, Mário Soares não tem qualquer influência da cultura anglo-saxónica. Clara Ferreira Alves diz que se Cavaco teve essa influência, não se nota. Deixemos de lado o facto de Ferreira Alves estar errada. Essa influência nota-se, e, como dizia Júdice, isso só abona a favor dele. O que aqui realmente se nota, ainda mais do que a influência anglo-saxónica em Cavaco, é o preconceito de Ferreira Alves, e da classe bem-pensante portuguesa, contra o "contabilista de Boliqueime". Aquela ideia que se estabeleceu de que Cavaco não tem cultura. Ideia essa, preconceito esse, que esconde um preconceito maior. Um preconceito contra o mérito. Contra aqueles que, de origens relativamente humildes, conseguiram subir na vida através do trabalho. Nada tenho contra o privilégio. O privilégio é o mérito dos antepassados. Mas, e precisamente por isso, não tenho nada contra o mérito. Contra aqueles que conseguiram dar aos seus filhos mais do que eles próprios tiveram. O facto de Cavaco Silva ter conseguido vir de Boliqueime e chegar a Primeiro-Ministro, e eventualmente Presidente, deveria ser um exemplo para as pessoas. Um exemplo de como o trabalho, o esforço, nos pode dar uma vida melhor que aquela que seria de esperar à nascença. Não é razão suficiente para votar nele? Claro que não. Mas também não é razão para o considerar indigno de ocupar o cargo, como os bons velhos herdeiros da tradição republicana e jacobina parecem considerar. Diz mais acerca destes últimos do que acerca do tal "contabilista".
Posted by Bruno at 10:36 PM
Mundo Moderno (texto publicado ontem no Insurgente)
Nesta semana, o relatório da ONU acerca do assassinato do ex-Primeiro-Ministro libanês conheceu a luz do dia. Parece que a Síria esteve envolvida no dito. Parece que a ONU está muito zangada. Irá, certamente, escrever uma carta a dizer o quão zangada está. Tony Blair, por sua vez, parece estar zangado consigo próprio. E não só por, como disse há tempos atrás, desejar ir sempre mais além nas reformas que realiza. Pelo contrário. Desta, até quer voltar atrás. Na educação, prepara um grande plano que em grande medida não é mais do que reinstalar aquilo que apagou quando chegou ao poder. O conflito interior é algo que atinge muitos políticos. É sempre bom lembrar que, por cá, Luís Felipe Menezes disse em tempos que queria combater o populismo. Quem não tem tais problemas é o Bloco de Esquerda. Ainda bem. O que seria de campanhas como a das "grandes fortunas" e "pequenas reformas" se o BE tivesse um pouco de preocupação com o populismo e a demagogia? Ou até mesmo só um bocadinho de vergonha na cara? Quem também não tem vergonha na cara é a brigada da retirada. No Iraque, a Constituição "imposta" por "esse Bush" foi aprovada por 78% dos votos. A brigada não se comove com os números (coisa de "contabilista", como dizem os seus membros a propósito de outro assunto). Diz que o mais díficil está para vir. É a mesma brigada da retirada que há dois anos falava do Armagedão às portas de Bagdad. Quem parece que também passou pelas portas de Bagdad, e terá lucrado com isso (ainda nos tempos de Saddam) é George Galloway. O deputado britânico é alvo, no Senado americano, de novas acusações de ligações a Saddam. Saddam, ele próprio, também está ser julgado. Chirac está a ficar preocupado. Está a perder aliados, embora deposite alguma esperança no presidente iraniano. Quem não perde aliados é Lula da Silva. Parece até que o bom povo cubano terá, com a liberdade com que em massa fugiu da Florida em direcção ao baluarte do progresso, contribuído financeiramente para a campanha do Presidente (o brasileiro, não o cubano, que é tão consensual no seu país, que nem precisa de eleições). A brigada da retirada irá certamente protestar contra esta ingerência cubana na vida interna de um país soberano. Em Inglaterra, uma jovem adolescente terá cometido suicídio, após ter obtido informações acerca de como o fazer através da Internet. O Sky News falava da crescente tendência dos jovens para conduzirem "vidas paralelas", potencialmente perigosas, através da Internet. Eu próprio não consigo escapar. De dia, pacato estudante moderamente tarado. De noite, entusiasmado bloguista vagamente reaccionário. O mundo moderno não vê com bons olhos a segunda actividade.
Posted by Bruno at 10:30 PM
outubro 30, 2005
Discursos
No seu último discurso, o dr. Louçã manifestou a sua preocupação com a forma como os candidatos de esquerda estão a conduzir a sua campanha. Segundo Louçã, Jerónimo de Sousa não faz um discurso sem o atacar a ele (Louçã) e Manuel Alegre; Manuel Alegre não faz um discurso sem atacar Soares; e Soares não faz um discurso sem atacar Alegre. Louçã não gosta que isso aconteça. E faz um discurso a atacá-los a todos, por todos se atacarem uns aos outros. A ironia da situação parece escapar ao dr. Louçã. E se não lhe escapa, a falta de vergonha não o incomoda.
Posted by Bruno at 10:43 PM
outubro 29, 2005
Franceses
Não gosto de piadas sobre franceses. Nunca acho graça. Nada daquilo que se diz acerca dos franceses tem piada. É apenas a triste verdade.
Posted by Bruno at 10:06 PM
A Ler
Acerca da notícia de que a campanha de Lula Silva terá beneficiado de um financiamento por parte do Governo cubano, o post do Claudio no Insurgente.
Posted by Bruno at 09:57 PM
outubro 28, 2005
Irão
Imagine, caro leitor, o que seria se um Primeiro-Ministro israelita afirmasse publicamente que queria ver o Irão riscado do mapa. Imagine as inúmeras comparações com Hitler. Apesar das inúmeras críticas, não se fizeram comparações destas. Por um lado, ainda bem. Comparações dessas são sempre uma estupidez. Mas não deixa de ser curioso que, por muito menos, se compara não poucas vezes a Estrela de David à cruz suástica. Quanto à questão em si: espero que as boas consciências percebam, com estas declarações, aquilo que Israel enfrenta (ler, sobre isto, este texto do Henrique Raposo). E que percebam por que razão não se pode deixar o Irão obter acesso a armas nucleares. porque se, de facto, não é preciso riscar o Irão no mapa, seria bom que o Irão que está no mapa não pudesse apagar outros países que dele fazem parte. E quanto ao actual regime iraniano, podia fazer companhia ao do seu vizinho e antigo rival.
Posted by Bruno at 10:24 PM
Absolutamente Extraordinário
Pedro Santana Lopes está neste momento a falar na SIC Notícias acerca das várias candidaturas presidenciais. Mas o assunto de que realmente está a falar é apenas um: ele próprio.
Posted by Bruno at 10:16 PM
outubro 27, 2005
Satisfação
Tenho alguma consideração por Manuel Alegre. Consideração essa que se perde quando o dito (ou membros da sua candidatura) fazem declarações como as que hoje foram feitas à propósito da sondagem publicada pelo DN, considerando que o seu resultado era motivo para "ficar satisfeito". Muito sinceramente, como é que é possível ficar satisfeito quando a sondagem prevê para Alegre um resultado de 13,8%, quando Cavaco tem 48,8% das intenções de voto, só porque o colca à frente de Mário Soares? Tal afirmação dá a entender que, mais do que defender as suas ideias, e mais do que querer conquistar a presidência, o que a candidatura de Alegre parece pretender é "chatear" Soares. Não abona muito a favor de Alegre.
Posted by Bruno at 10:33 PM
Concordância Ideológica
Vejo que o Francisco Mendes da Silva também é um grande apreciador do pensamento de Helena Bonham Carter.
Posted by Bruno at 10:29 PM
outubro 26, 2005
A Imprensa e as Presidenciais
Começa a correr por aí a ideia de que a candidatura de Cavaco Silva à Presidência está a "ser carregada às costas" pela comunicação social. Em certa medida, é verdade. Mas não porque a comunicação social em massa o deseje ver em Belém. A razão é outra, bem mais simples. Neste momento, a candidatura de Cavaco é a que "vende". O silêncio estudado de Cavaco foi muito bem gerido. Teve um enorme sucesso. Criou uma enorme expectativa relativamente ao esperado anúncio de candidatura. Foi essa expectativa que gerou a atenção dedicada pelos media a esse anúncio. A razão pela qual a candidatura de Soares não despertou tanta atenção por parte das televisões nestas últimas semanas (até à apresentação do manifesto) foi a quase total ausência de novidade. Soares, que há muito se queria candidatar, teve de se antecipar a Alegre, para poder manter a ficção de que não teve outra alternativa senão avançar, para preencher o suposto vazio da esquerda. Ao ter que avançar tão cedo, esgotou cedo a sua margem de manobra para criar "novidade". A sua gestão mediática ficou fragilizada.
Agora, se nessa medida, se pode dizer que candidatura de Cavaco tem tido mais eco na comunicação social até agora, duvido que esse "favorecimento" se mantenha até ao fim. À medida que todos tiverem já avançado, à medida que a verdadeira campanha se for desenrolando, as várias simpatias dos vários orgãos de comunicação social virão naturalmente ao de cima. Uns continuaram a ver Cavaco com melhores olhos. Todos puxarão para cima Jerónimo, que passa bem em televisão. Louçã terá a cobertura favorável que geralmente tem. Alegre atrairá holofotes apenas pelo facto de ser um incómodo (o que o tornará um incómodo ainda maior). Soares, esse, poderá ter alguns problemas. Soares tem simpatias naturais na comunicação social. Tem da parte desta uma benvolência que poucos conseguem. Mas a questão da idade já se instalou (muito por culpa dos seus apoiantes, que não param de dizer o quão "jovem" ele é, chamando a atenção para uma questão que deveria ser ignorada), e o recurso ao fantasma do "revanchismo", de tão injustificado que é, começa também a cair mal. Mas aí, apenas se tem de queixar de si próprio.
Posted by Bruno at 10:41 PM
outubro 25, 2005
Gente Séria
Parece que o Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público irá entregar, na próxima semana, um "relatório" sobre o estado da Justiça em Portugal, à Comissão dos Direitos Humanos da ONU. De acordo com a prosa, "o actual ataque feito aos magistrados do Ministério Público pode colocar de certa forma em causa a própria independência do sistema judicial. Hoje existe um profundo desequilíbrio entre o conjunto de direitos e deveres que restam no nosso estatuto depois de todas estas alterações legais que o Governo introduziu". Parece-me que, "de certa forma", o dr. Cluny (o autor destas bonitas palavras) está a colocar em causa a própria inteligência das pessoas que o estão a ouvir. Se os senhores do Sindicato fossem pessoas sérias, não se prestavam a figuras destas. E se os senhores da ONU forme pessoas sérias (duvidoso), rir-se-iam na cara de quem entregar este "documento".
Posted by Bruno at 10:11 PM
outubro 24, 2005
A Ler 2
A chamada de atenção, do João Vacas, no Quinto dos Impérios:
"O Times publica hoje uma entrevista ao Presidente da Comissão Europeia cujo título é 'We cannot hide. EU must accept globalisation or we are nothing'. A LUSA traduziu esta primeira frase da seguinte forma: 'Globalização: Europa deve fazer-lhe frente ou não será "nada" '- Durão Barroso. Erro simples ou puro preconceito ideológico?"
Posted by Bruno at 10:36 PM
A Ler
No Insurgente, o texto "É para atestar..." do LA:
"A Inspecção-Geral de Educação está a levantar processos disciplinares a alguns professores de Bragança por terem tentado obter destacamento baseando-se em motivos de saúde que, pelos vistos, não se teriam demonstrado correctos.
Certamente os professores que pediram destacamento por motivos de saúde tiveram de obter atestados médicos da sua condição clínica. Se agora se levantam processos disciplinares a alguns destes funcionários públicos do ministério da educação, como analisar o acto médico que serviu de suporte ao pedido e a responsabilidade do médico nesta certificação de incapacidade?"
Posted by Bruno at 10:24 PM
Mundo Moderno (publicado ontem no Insurgente)
O Mundo está repleto de "coisas bonitas", como diria Artur Jorge (ou Fátima Felgueiras). Comemora-se o Dia Mundial Contra a Fome. A ONU convida Robert Mugabe para falar sobre o assunto. Realiza-se uma Cimeira Ibero-Americana. As boas consciências revoltam-se contra o "bloqueio" a Cuba. Curiosamente, não manifestaram grande preocupação com o regime ditatorial que vigora nessa mesma ilha. Uma questão de prioridades. As mesmas prioridades que fazem com que as boas consciências (provavelmente as mesmas) se preocupem com a diminuta protecção dos direitos de Saddam Hussein no julgamento que agora se iniciou. Por cá, o governo apresentou o Orçamento de Estado. Orçamento de "verdade", disse o Governo. Martim Avillez Figueiredo diz que os números não traduzem as palavras. Facto. Que traduz toda a atitude do governo desde que começou a governar. Maldade contra Soares: o Orçamento foi apresentado no mesmo dia em que a candidatura do ex-presidente havia planeado uma cerimónia propagandística. Maldade contra Alegre: o PS não quer apoiantes de Manuel Alegre nas reuniões de preparação da candidatura de Soares. Seria pouco correcto, explicou Jorge Coelho. José Lello traduz para o povo: andavam a "parasitar" o partido. Sempre edificante. Maldade contra o PS: Alegre diz que não precisa do PS para nada. Percebo perfeitamente. Eu dispenso-os a ambos. Já o Presidente da República apelou a que os portugueses votassem com consciência nas presidenciais. E que esta seria a sua última declaração sobre o assunto. O país agradece. Agradece o conselho. Agradece que não fale mais sobre o assunto. E ficaria ainda mais agradecido se tal silêncio se estendesse a tudo o resto.
Posted by Bruno at 10:18 PM
outubro 22, 2005
Ilusões e Convulsões
As boas consciências de esquerda têm mostrado preocupação com o facto de existirem quatro candidaturas contra Cavaco Silva (aquilo que eles próprios dizem ser). Veja-se Eduardo Prado Coelho. EPC, estalinista convertido cavaquista convertido alegrista, acha absurda a proliferação de candidaturas da esquerda. Considera que deveria haver uma só candidatura, que unificasse a esquerda. Sentimento compreensível. Mas meramente ilusório. Ignora que "a esquerda" não é uma coisa una, homogénea, mas sim um conceito abstracto que engloba muita coisa praticamente incompatível. Ignora que dentro desse conceito, existem genuínas diferenças, impossíveis de unificar. O mesmo, aliás, se passa à "direita", onde só não existe outra candidatura porque se sabe que teria poucas hipóteses, para além de que "pareceria mal", e como essa gente se preocupa demasiado com o "parecer", entendem por bem ficar quietos. Mas voltemos à esquerda. Preocupados com a dita proliferação, têm ainda a esperança que pelo menos Louçã e Jerónimo desistam. Outra ilusão. Não vão desistir. E para perceber porquê basta perceber o porquê de se terem candidatado.
Jerónimo anunciou primeiro a sua candidatura. Percebeu o capital de simpatia que havia conquistado nas legislativas (confirmado nas autárquicas), e percebeu que o poderia explorar nas presidenciais. Com uma candidatura de Jerónimo, Louçã percebeu que não poderia ficar atrás. Não podia dar tempo de antena ao PCP, sem que o BE o tivesse também. Ou seja, o PCP candidata-se para ter tempo de antena de protesto contra o Governo, e o BE candidata-se para não ter menos tempo de antena que o PCP. O que quer dizer que Louçã só poderá desistir, se Jerónimo o fizer antes. E não o fará, por uma razão muito simples. É-lhe absolutamente indiferente o nome do vencedor das eleições. Para o PCP, são todos igualmente "de direita". E aqui começam os problemas de Louçã. Sempre se disse que Louçã vale mais que o Bloco. Talvez. Mas duvido que Louçã valha mais que Jerónimo. O que provavelmente implicará que irá ter um mau resultado. Deixará de valer mais que o BE. O que mudará muita coisa no seio do grupelho, onde as diferenças só não vieram ainda ao de cima, devido aos bons resultados. A candidatura de Louçã poderá ser o princípio de um período de convulsão no BE. A presença de Joana Amaral Dias na candidatura de Soares é apenas um pequeno indicador.
Posted by Bruno at 10:40 PM
outubro 21, 2005
Sobre Cavaco
Em Novembro do ano passado, Jorge Sampaio dissolvia a Assembleia da República. Na semana anterior, Cavaco Silva havia escrito o famoso artigo da "boa e má moeda". Achei, na altura, que seria necessário que Cavaco tomasse uma posição, acerca do futuro do seu partido e do país. Que afirmasse, por exemplo, que se o PSD marcasse um Congresso Extraordinário antes das eleições legislativas que se seguiriam, ele se candidataria. Ninguém teria dúvidas que esse Congresso seria imediatamente marcado. E ninguém teria dúvidas acerca de uma eventual vitória de Cavaco sobre Santana Lopes. Cavaco seria hoje Primeiro-Ministro. Um PSD liderado por si venceria o PS de Sócrates. Na altura, eu via com bons olhos este cenário. Achava, como continuo a achar, que Cavaco promoveria algumas das reformas que o país necessita, e não da forma minimalista adoptada pelo actual Governo. Percebo, como aliás perceberia na altura, que essa não fosse a vontade de Cavaco. Achei que, no entanto, deveria ter tomado uma posição. Que deveria ter falado, apoiando outra pessoa, para possibilitar uma mudança na liderança do PSD, para não entregar de mão-beijada o poder ao PS. Por isso escrevi que nunca votaria em Cavaco. Porque o que eu queria era ter podido votar nele nas eleições de Fevereiro. Parvoíce escrita a quente. Em príncipio, votarei Cavaco. Sou um potencial eleitor seu, como não sou de mais nenhum candidato. As razões estão na sua declaração de ontem, conjugada com o próprio percurso político do candidato.
Não nego o carácter estatista de Cavaco Silva. Sei que é responsável pela aberração que é o sistema de remunerações da função pública. Sei do seu apreço por esse mito que é o "investimento público". Mas conheço também as suas declarações em que afirmou que esse modelo era já insustentável. E acima de tudo, reconheço o papel liberalizador que teve na sociedade portuguesa. Dirão que qualquer um o faria. Que a entrada na então CEE tornaria tudo inevitável. Talvez. Mas o que é verdade é que nessa altura, o PS rejeitava ainda a revisão da Constituição, no sentido de anular a "irreversibilidade das nacionalizações". Não é portanto líquido que qualquer tomasse as mesmas opções que Cavaco tomou. E mesmo que fosse, isso não retira o mérito de quem, efectivamente, promoveu essas mudanças.
Cavaco tem consciência que o país precisa de menos Estado. Poderá querer mais Estado do que eu gostaria, mas quer menos do que aquilo que existe. Tem consciência da absoluta necessidade de levar a cabo uma série de profundas reformas. Mais. Tem consciência das tremendas dificuldades que, em democracia, qualquer Governo terá em as levar a cabo. Tem consciência que a crescente desconfiança dos eleitores relativamente à classe política ainda as dificulta mais. Tem consciência que a imagem positiva que hoje em dia uma grande parte do eleitorado tem do seu passado lhe garante a credibilidade que o eleitorado não reconhecerá a muitos mais. Uma imagem que lhe garante as condições, que eventualmente mais ninguém terá, para falar em dificuldades, sem provocar desconfiança e ressentimento.
Este é um elemento a ter em conta. Convém não esquecer o elevado grau de degradação ao qual chegou, não só o sistema político em geral, como este jovem governo em particular. Como o Governo esbanjou a benevolência do eleitorado (e da oposição respeitável) trazida pelas medidas necessárias que implementou, com o anúncio de projectos megalómanos e nomeações de méritos duvidosos. Convém não esquecer como essas medidas são, ainda, insuficientes. Cavaco é, dos vários candidatos, o único que percebe a necessidade dessas reformas. Mário Soares, se tivermos em conta o precedente do seu segundo mandato, aliado ao seu percurso recente, tudo fará para se intrometer em tudo, com a sua agenda de Porto Alegre, a "defesa da utopia", e o "verdadeiro socialismo" (o "verdadeiro PS" que ele acha ter sido afastado por Sócrates). Alegre não é muito diferente. E os outros quererão mais Estado. Só Estado. Cavaco quer menos. E tem a credibilidade que permitirá ajudar a promover essas reformas.
Convém, no entanto, ter em conta que pouco depende da vontade exclusiva de Cavaco. As únicas reformas que poderão avançar serão aquelas que o PS estiver interessado em fazer. Mesmo que Cavaco procure convencer Sócrates da sua necessidade, elas dependerão da vontade deste último. Cavaco não poderá fazer com que o processo reformador ande mais depressa. Ou melhor, poderia. Poderia, se dissolvesse a Assembleia, e permitisse que outro governo com um programa mais liberal tomasse o poder. Cavaco, no entanto, percebe que isto seria contrapoducente, como mostra a sua referência à "importância da estabilidade". Cavaco percebe que mais um mandato legislativo abruptamente terminado antes do prazo apenas contribuiria para uma ainda maior degradação das condições de governabilidade. Percebe que isso contribuiria ainda mais para instalar na cabeça dos eleitores a ideia de que um Governo não recebe uma legitimidade para quatro anos, fiscalizada pelo Parlamento, e limitada pela lei, mas sim uma legitimidade permanentemente escrutinizada, sempre dependente do favor popular e da interpretação que deste último o Presidente fizer. Percebe que dessa forma, nenhuma reforma realmente significativa poderia ser levada a cabo.
O que poderá então Cavaco fazer? O que nenhum outro candidato fará. Viabilizar as medidas positivas que o Governo pretenda fazer avançar. Bloquear os eventuais despesismos, e rejeitar as nomeações duvidosas. E ajudar a estabilizar o sistema político. Mesmo que eu ache que ele deveria ser mudado, isso não implica que eu deseje o descalabro do dito. Não desejo. O que Cavaco não poderá fazer, será instalar um paraíso liberal em Portugal. Aliás, aqueles que dizem que ele o deveria fazer não desejam que ele o faça. Desejam, isso sim, criar-lhe problemas. Não o pode fazer, porque tal não depende única e exclusivamente da sua vontade. Tal dependeria de um Governo que pensasse da mesma forma. Isto leva-nos a outra questão. Para mudar Portugal, um presidente como Cavaco será uma ajuda. Mas um Governo diferente do de José Sócrates ajudaria muito mais.
Posted by Bruno at 10:39 PM
outubro 20, 2005
Cavaco
Depois do anúncio da candidatura de Cavaco, já se podem fazer comentários mais sérios acerca da dita. Por falta de tempo, e para aproveitar para ler os eventuais comentários nos jornais de amanhã, não o farei hoje. Em princípio, amanhã, ou, o mais tardar, Sábado, direi o que penso acerca do assunto. Digamos que é o meu "tabu" pessoal.
Posted by Bruno at 10:33 PM
Mais Um Exemplo
Parece que o actual Ministro das Finanças terá deixado em aberto a possibilidade de vir a instalar portagens em algumas SCUTs. Acho muito bem. Mais, até gostaria que não fosse uma mera possibilidade em aberto, mas sim uma realidade. E gostaria que fosse em todas, e não em algumas. Mas convém não esquecer o que disse o PS enquanto não estava no Governo, e o Ministro António Mexia pretendia introduzir essas mesmas portagens. Convém não esquecer as críticas que o PS fez. E convém não esquecer o que o PS disse na campanha eleitoral. Que as SCUTs eram uma forma de promover o desenvolvimento do interior "esquecido". O leitor mais irado poderá chegar à conclusão de que o PS está ele próprio a esquecer-se do interior. Mas não. Deverá apenas e só chegar à conclusão de que o PS foi demagógico na oposição e na campanha eleitoral. E deverá também chegar à conclusão de que, por ter sido demagógico, terá agora muito mais dificuldades em aplicar medidas absolutamente razoáveis, e mais, absolutamente aconselháveis e justas. Mais um exemplo de como a demagogia, se é verdade que por vezes pode trazer vitórias, acaba sempre por ter de ser paga. Neste caso, pagará também o PS. Em todos, paga sempre o país.
Posted by Bruno at 10:15 PM
outubro 19, 2005
Política e Privacidade
Chegam-me a casa a primeira e a última página do Correio da Manhã de ontem, para poder ler o ilustre camarada Alberto Gonçalves. Na última página, leio que David Blunkett, Ministro do Trabalho do Reino Unido, corre o risco de ser demitido, "devido a mais um 'affaire'". Segundo o Correio da Manhã, "Sally Anderson, a jovem de 29 anos com quem se envolveu, contou à imprensa que manteve relações sexuais com o ministro e este não tirou as meias nem a camisa e fez amor na posição convencional". Agradeço ao Correio da Manhã tais informações. Nota-se em Blunkett uma meritória disposição conservadora, por ter "feito amor na posição convencional". As convenções são para manter e cultivar. Mas não há disposição conservadora que redima um evidente mau gosto. E não tirar as meias (o termo conservador é "peúga") e a camisa aquando da entrega ao pecado é imperdoável. No entanto, pergunto qual será a relevância de tudo isto? Será a vida privada de um político algo que deve ser vigiado pelos jornais, e mais, algo que deva ser motivo de eventual demissão, como o Correio da Manhã diz poder acontecer com Blunkett? Esta questão tem tido algum eco com os rumores que, no mesmo país, têm corrido acerca de David Cameron, candidato à liderança dos Tories. Segundo os ditos, Cameron terá, na Universidade, consumido drogas pesadas. O consumo de drogas por parte de um político é, sem dúvida, um assunto relevante. Mas relevante se ocorrer enquanto ele é político, enquanto esse consumo possa afectar a sua prestação. Mesmo que os rumores sejam verdadeiros, o consumo passado de drogas em nada afectaira a prestação actual de Cameron, que portanto, etrá o direito de manter privado um facto da sua vida que em nada interfere com a sua actividade política. Tal como tem o direito de o divulgar, se quiser. Mas será uma escolha dele, porque não afectando o exercício público das funções, é um assunto relativamente ao qual não há qualquer legitimidade para se invadir a privacidade de Cameron.
Cameron não respondeu a estes rumores. Fez bem. No entanto, estas polémicas fazem colocar a questão: o que deve ser público, e o que deve ser privado, na vida de um político? Michael Portillo escreveu, no Sunday Times, a propósito desta questão. Portillo cita o caso de Blunkett, dizendo que, sendo que nenhum dos dois é casado, e mesmo que fossem, que importância teria isso para a sua função política? Portillo compara esse caso com a o famoso "caso Profumo", em que aí sim, existia um problema de verdadeiro interesse público, visto que haveria um problema de segurança nacional.
Portillo vê no constante aparecimento de notícias como as que têm envolvido Blunkett e Cameron uma tentativa de dificultar a acção política dos visados, por meio de um processo de humilhação e suspeição públicas. Não nego. Mas há outros elementos, não tão ligadas às intenções por trás da divulgação de notícias como estas. Primeiro, e como o própio Portilllo diz, os escandâlos de índole sexual revelam uma atitude de vigilância da moral tradicional, quando essa moral tradicional vai perdendo (mal ou bem, não é isso que aqui interessa) em certos sectores da sociedade. Na prática, estamos a exigir dos políticos um modelo de "virtude" moral, privada e não apenas pública, que não exigimos a nós próprios ou aos restantes cidadãos que não ocupem cargos públicos. Mais, exigimos a esses políticos uma "virtude" moral privada cuja defesa, no discurso desses mesmos políticos, acusamos de moralista e autoritária. Quando Bagão Félix falava de "defender a família", a unanimidade das novas verdades acusava o dr. Bagão de ser fascista. Quando um político gosta de sair à noite e disfrutar dos prazeres do sexo oposto, como se dizia de Santana Lopes, ou "faz amor na posição convencional com uma jovem de 29 anos" com quem não é casado, como Blunkett, essa mesma unanimidade abandona as novas verdades, e bate no peito exigindo políticos que sejam "um exemplo". Não apenas um exemplo daquilo que esses próprios políticos defendem publicamente (uma exigência de coerência perfeitamente legítima) mas um exemplo daquilo que essa unanimidade repentinamente considera ser um modelo de virtude.
O que tal atitude representa é uma total invasão da privacidade de um político. Dirão que é preço a pagar pelo exercício de um cargo político. Eu direi que estão errados. Tal atitude pressupõe que o exercício de um cargo político é uma actividade que implica o pagamento de um preço. Esta atitude revela uma postura anti-política, que não vê a actividade política como algo que deve ser valorizado, mas sim atacado e, literalmente, castigado com a privação de determinadas liberdades. E é uma atitude que traz também para essa mesma actividade política o lançamento do rumor como arma, a difamação como forma de conduta, a chantagem como meio para atingir um fim. Tudo isto tem apenas uma consequência. Afastar da actividade política aqueles que, tendo valor para tal, não estão interessados em ter a pairar sobre si a ameaça de ver a sua privacidade devassada, como se, por cumprirem aquilo que deve ser entendido como um serviço público, fossem merecedores de uma pena. Porque a privação da liberdade individual é isso mesmo, uma pena. E não ter o direito de proteger, da curiosidade alheia, uma esfera da sua vida, não é mais nem menos do que uma privação da liberdade desse indivíduo.
Posted by Bruno at 09:27 PM
outubro 18, 2005
Europa e Populismo (publicado no Insurgente)
No Charlemagne da The Economist desta semana (artigo para assinantes), escreve-se acerca das críticas que Governos como o de Jacques Chirac têm feito à Comissão Europeia e ao seu Presidente, um tal de José Barroso, que aparentemente terá sido primeiro-Ministro de um pequeno estado-membro da UE. Segundo a revista, essas críticas reflectem a dificuldade que esses Governos têm em aceitar a realidade da globalização, em promover as reformas que seria necessário levar a cabo. Numa altura em que a Comissão procura conseguir alguma modernização do "modelo social europeu", e em que os eleitorados desses países estão pouco interessados em suportar os eventuais custos das mudanças que essas reformas implicariam, estamos perante uma receita para a desgraça. Economias em estagnação, o eleitorado a protestar, e os Governos a culpar a Comissão. Como a própria revista afirma, os protestos dos Governos contra a Comissão, feitos "em casa", não são nada de novo. Todos nos habituámos ao discurso do Primeiro-Ministro vindo de um Conselho da Europa, dizendo que foi obrigado a aceitar aquela medida que o eleitorado não gosta, para o país não ficar para trás no comboio da Europa. Claro que agora, o protesto é para impedir reformas, e não para as passar sem enfrentar o protesto popular, como era o caso do que acontecia no passado. Mas no entanto, o problema é o mesmo. O elevado número de assuntos cuja decisão passa pela Comissão, e não pelos Estados nacionais e os seus parlamentos. Porque ao colocar tamanhas responsabilidades na Comissão, e não nos Estados, ao se afastar destes últimos as responsabilidades, afasta-se também deles a responsabilização. Um Governo sem responsabilidade numa àrea, é um Governo que não pode ser responsabilizado. É um Governo que tem margem de liberdade para demagogicamente criticar uma outra entidade, por coisas que escapam à vontade política, seja dos Governos, seja da Comissão (o caso dos despedimentos na Hewlleth-Packard em França). Este é um elemento que é geralmente esquecido na análise da integração europeia. Por muitas vantagens que tenha trazido, contribuiu também para o clima de crescente desresponsabilização dos agentes políticos. O que por sua vez, contribui para o crescimento do clima onde reina a demagogia. Esse elemento da integração europeia, ao contrário de outros, não trouxe qualquer benefício.
Posted by Bruno at 10:37 PM
Elogio
Numa altura em que toda a gente dispara sobre José Ribeiro e Castro, eu faço-lhe um elogio. As suas declarações acerca do Orçamento de Estado proposto pelo Governo merecem-no. Ribeiro e Castro afirmou que este era um orçamento tipicamente socialista, que quer resolver o problema das contas públicas "mais pelo lado da receita do que pelo da despesa", e critica também os cortes em áreas que correspondem a funções de soberania. Ribeiro e Castro tem razão nas críticas que faz. Mas nem é isso que importa aqui. Num altura em que a discussão sobre assuntos de política econonómica se centra em aspectos acima de tudo técnicos, como se a política económica fosse uma ciência, uma actividade onde fosse possível encontrar uma (realço o termo "uma) resposta, e não um ramo da actividade política, onde é preciso fazer escolhas, Ribeiro e Castro fala, pura e simplesmente, de política. As críticas ao Orçamento, feitas por Ribeiro e Castro, que se concorde com elas quer não (e eu concordo), são críticas políticas. Discutem os critérios, os valores, subjacentes às opções políticas do Governo. Não se reduzem ao aspecto técnico (importante, mas não exclusivo). Mas também não se reduzem a um vazio que soa bem aos microfones da televisão, nem à demagogia que anima o espírito dos mais em sntonia com as novas verdades. Faz falta.
Posted by Bruno at 10:10 PM
outubro 17, 2005
O Que Realmente Importa
Oiço uma jovem dizer que está "em busca" do seu "eu interior". Não a percebo. Com toda a sinceridade, já acho o "eu exterior" dela suficiente agradável. Acusem-me de futilidade. Mas esse é que é realmente importante. É aliás por isso que, ao contrário da jovem, não tenho qualquer interesse em descobrir o meu "eu interior". Se nem sequer tenho grande apreço pelo "exterior"...
Posted by Bruno at 10:33 PM
Reformas Mais Que Necessárias
A lista de links aqui ao lado está cada vez mais parecida com o "modelo social europeu". Há muito que está desajustada da realidade. Há muito que as mudanças necessárias são adiadas devido à dureza que essas mudanças implicariam. Esse adiamento faz com que essas mudanças, cada vez mais necessárias, sejam cada vez mais dificeís de fazer.
Posted by Bruno at 10:28 PM
outubro 16, 2005
Utopia e Realidade
No seu blog, o Claudio Tellez escreve acerca da falácia inerente ao pensamento utopista tradicionalmente mais ligado à "esquerda". Mais propriamente, escreve acerca do pressuposto de base da atitude utopista, a ideia de que a função da actividade política deve ser o cumprimento de um ideal acerca dos arranjos de determinada sociedade. Diz o Claudio:
"A utopística, que corresponde a pensar o mundo de acordo como ele deveria ser, mas pautando o pensamento pelas possibilidades concretas de realização dessas alternativas (segundo Wallerstein), parte da suposição arrogante de que o pensamento de esquerda possui a autoridade moral para determinar como as coisas realmente deveriam ser. A falha da utopística está justamente aí: será que uma idealização de como as coisas deveriam ser corresponde de fato às melhores alternativas? Que sejam todos pluralistas, porém à nossa maneira. É nessa contradição pretensiosa que o esquerdismo contemporâneo se respalda e se propaga."
Mais: se essas alternativas, tendo em vista o cumprimento efectivo do tal "ideal", serão aplicadas num mundo real, será necessário que essas mesmas alternativas sejam respostas reais, concretas, para problemas reais, concretos. Não só, como diz o Claudio, não será possível um acordo acerca de quais alternativas serão as melhores, como também o próprio pressuposto de que a acção política parte de uma idealização da sociedade está errado. Para citar John Kekes (é escusado dizer por palavras minhas o que já foi dito em palavras mais que suficientes), "If realistic politics is sucessfull, ideal theories are not needed. And if realistic politics is unsucessfull, ideal theories are of no help."
Posted by Bruno at 10:01 PM
outubro 15, 2005
Extraordinário
Dizem os jornais deste país que o Governo poderá vir a recorrer a receitas extraordinárias para cumprir o valor do défice proposto. Nada tenho contra as receitas extraordinárias. Quanto mais o Estado vender melhor, pois quanto menos tiver, menos coercivo será. Mas mais extraordinária que as receitas é a falta de vergonha do Governo. Convém não esquecer que o mesmo PS que hoje ocupa o Governo criticou por variadas vezes os Governos anteriores por recorrerem a soluções iguais. Deamgogicamente, acusavam-nos de batota. Agora, têm de fazer o mesmo. O que não tem mal nenhum. Mas deixa uma lição. Um partido da oposição não deve usar argumentos demagógicos para condenar opções políticas às quais poderá ser forçado a recorrer quando mais tarde ocupar o Governo. Não me preocupa o actual Governo em particular. Preocupa-me a governabilidade. Porque esta atitude diminui as condições de governabilidade. A demagogia utilizada pelo PS na oposição conseguiu instalar na cabeça de boa parte dos eleitores a ideia de que as receitas extraordinárias eram algo quase ilegítimo. Quase uma malfeitoria. Para esses mesmos eleitores, a possibilidade do PS recorrer agora à mesma medida que antes criticou é apenas e só mais uma razão para não confiar na classe política. Isso, mais que ter prejudicado os Governos anteriores, e mais que prejudicar o Governo actual, prejudica o país. Seria bom que o percebessem.
Posted by Bruno at 10:34 PM
outubro 14, 2005
Reacção Errada
Foi hoje notícia a decisão da Autoridade da Concorrência num processo relativo à prática de cartelização por parte de várias empresas do sector farmacêutico. Segundo a notícia, a Autoridade terá contado com a colaboração de uma das empresas envolvidas. A dita empresa, a Johnson&Johnson, mereceu por esse facto uma série de elogios. Inês Serra Lopes, no Independente, diz que a atitude da dita empresa foi "a opção certa de uma multinacional séria quando percebe que, afinal, actua num mercado que leva as suas regras a sério". A própria Autoridade afirma que essa colaboração "é louvável e insere-se no próprio desígnio do estabelecimento de uma verdadeira cultura de concorrência". Sinceramente, tais elogios eram dispensáveis. Se se tratasse de um multinacional "séria", não se envolveria num processo ilícito como é cartelização. Se estivesse interessada no "desígnio do estabelecimento de uma verdadeira cultura de concorrência", não se teria envolvido numa actividade de contrário a esse desígnio como a cartelização. A Johnson&Johnson é, apenas, a "criminosa" que, para ter uma pena mais leve, fornece provas que ajudam à condenação dos "cúmplices". Atitude legítima, tanto da parte de quem procura a condenação, como de quem procura uma pena mais leve. Mas não algo que seja propriamente merecedor de grandes elogios.
Posted by Bruno at 10:35 PM
outubro 13, 2005
Má Opção
Parece que o PS se prepara para efectuar alterações à lei eleitoral, no sentido de impedir que indivíduos que estejam envolvidos em processos judiciais se possam candidatar. Se tal medida for de facto aprovada, constituirá um erro tremendo. Porque uma coisa é um partido não querer apoiar determinado candidato, outra coisa é impedir esse mesmo indivíduo de se candidatar, quando este, visto que não foi ainda condenado, continua a ser inocente até prova em contrário. Marques Mendes percebeu que, após o consulado de Santana Lopes, o problema do PSD seria, acima de tudo, um problema de credibilidade. E portanto, fez uma escolha, política, de não apoiar aqueles candidatos que estavam envolvidos em processos judiciais. O líder do PSD estava no seu direito de não querer que o seu partido se associasse a tais candidaturas. Mas essa opção do PSD, ou do seu líder, não retirava qualquer direito a esses mesmos indivíduos. Estes continuavam a ter o direito a se candidatarem, caso o quisessem. Não haviam sido condenados, não haviam sido privados da sua liberdade. O que tal medida representaria seria uma privação da liberdade de um indivíduo, numa altura em que não há razões para que isso aconteça, visto que teremos de presumir que esse mesmo indivíduo é inocente, até que ele eventualmente seja condenado. Em nome da "moralização", aplicar-se-ia uma medida imoral.
Posted by Bruno at 11:21 AM
outubro 12, 2005
A Ler
Acerca da questão dos impostos municipais (cuja adopção defendi aqui há alguns dias), escreve o André Amaral no Insurgente:
"Ao receberem as suas receitas directamente do Estado central e não dos seus habitantes, os municípios são financiados pelos cidadãos de todo o país. No entanto, esses mesmos cidadãos não podem penalizar o mau uso do seu dinheiro por um autarca de outro município. Ou seja, um habitante de Faro, não penaliza Fátima Felgueiras pelo uso indevido dos dinheiros públicos. Assim sendo, está legitimado o regabofe. Um autarca que saque aos outros o máximo que puder, vence sempre a eleições no seu concelho. Ele retira ao país, não apenas para si, mas para a população do seu concelho. Quem não vota em quem trás para casa mais do que é merecido?"
Posted by Bruno at 10:50 PM
outubro 11, 2005
Não Dever e Temer
"Quem não deve não teme", diz o povo. Diz mal. Voltou a dizer quando o nosso Presidente falou da hipótese de se inverter o ónus da prova em casos de crimes económicos. E tal como o Presidente da República, o povo estava errado. A ideia de que "quem não deve não teme" pressupõe confiança no Estado. Mais que confiança, pressupõe fé. Fé em que o Estado não cometa erros. Mas como o Estado é feito de homens, é tão propenso a erros como o são aqueles que o Estado fiscaliza. E aí, quem tem mais razões para ter medo são precisamente aqueles que "não devem". Pois um erro do Estado poderá penalizar aqueles que obedecem à lei. Poderá penalizar quem não deve ser penalizado. Para além disso, a expressão "quem não deve não teme" pressupõe ainda outro tipo de fé no Estado: fé em que o Estado não abuse do poder que detém, penalizando deliberadamente quem não merece ser penalizado. Lembre-se por exemplo, as acusações que o PS fez ao Governo de então aquando do "caso Casa Pia". Medidas como a que o Presidente da República defendeu dariam ao Estado um imenso poder, permitindo ao partido que conjunturalmente detivesse esse poder a hipótese de o usar para atacar o partido conjunturalmente na oposição. Veja-se o que tal medida significaria. Qualquer pessoa detentora de uma fortuna de determinada dimensão seria culpada até prova em contrário de um qualquer tipo de crime económico. Isto representa uma intromissão brutal e imoral do Estado na esfera privada dos seus cidadãos. Estes deixariam de ser donos da sua liberdade. Ela passaria a pertencer ao Estado. Não exagero. O Estado poderia retirá-la à sua vontade. Não teria que lhes apresentar razões para o fazer. Mais, teriam que ser esses cidadãos a apresentar razões para que o Estado não a confiscasse. O Estado seria, mais uma vez, detentor de um poder imensamente brutal, e imensamente imoral. E quanto maior for esse poder, mais brutais e mais imorais serão os erros ou os abusos desse poder. E quem terá mais razões para temer serão precisamente os que não devem. Os que menos fizeram para merecer esse temor.
Posted by Bruno at 10:24 PM
Regresso
A vontade de dizer mal do dr. Soares e de José Peseiro foi mais forte que ele. Agora no Blasfémias, o regresso do meu quase vizinho JCD.
Posted by Bruno at 10:19 PM
outubro 10, 2005
Sobre as Leituras e as Ilações
O somatório dos votos, ao contrário daquilo que os senhores jornalistas gostam de fazer crer, não forma uma "vontade geral". Ao contrário do que disse o senhor Portas há uns anos, o facto de o PSD, aquando da vitória de Durão, não ter tido maioria absoluta não significou que "os portugueses" queriam o CDS no governo, em coligação com o PSD. Significou que uma maioria das pessoas queria o PSD no governo, mas que essa maioria não foi suficiente para formar governo sozinho. O somatório dos votos individuais numas eleições é apenas isso, o somatório dos votos individuais, e não a expressão de uma "vontade geral". A "vontade geral", por muito que isso custe aos nossos políticos e jornalistas nas noites eleitorais, não existe. Se o governo eleito não tiver uma maioria absoluta, isso não significa que "os portugueses" queiram um governo desse partido, mas sem maioria absoluta. Apenas significa que não houve um número suficiente de portugueses que tenha escolhido esse partido. Numa democracia, a escolha e a formação de um governo não se fazem a partir de uma vontade geral. Numa democracia, uma minoria sujeita-se à escolha de uma maioria, enquadrada pela lei. E ao fim de quatro anos, as pessoas podem escolher outra vez. E aí, aqueles que forem escolhidos pela maioria governam, e os que foram escolhidos pela minoria ficam na oposição. Esse tipo de interpretações da "vontade geral" é ainda mais abusivo em eleições autárquicas. Terão "os portugueses" querido penalizar o Governo? Ou quiseram escolher o que julgavam ser o melhor candidato? Alguns votaram tendo os seus olhos unicamente postos no seu concelho. Outros votaram contra a política do Governo. E dentro deles, alguns tê-lo-ão feito por a acharem "neoliberal", outros por razões diferentes. Todas opções individuais que, somadas, resultam apenas na soma de opções individuais. Todas motivadas por diferentes razões. Motivações essas cuja dimensão não podemos medir, porque no voto é apenas expresso o resultado das escolhas dos indivíduos, não as razões que as motivam. Tudo muito complicado para muitos dos nossos jornalistas.
Posted by Bruno at 10:25 PM
Sobre Carrilho
Na SIC Notícias, ontem, Ricardo Costa dizia que Carrilho seria um mau candidato a qualquer eleição. Isto porque as pessoas "não gostam dele", e "não gostando" dele, "nada feito". Não tenho ilusões quanto à espécie humana. E tenho consciência que o voto de muitas pessoas é motivado por muitas outras razões que não a concordância com as propostas do candidato escolhido. Mas isso não implica que um candidato que não consiga motivar uma simpatia pessoal por parte dos eleitores esteja condenado à partida, como Ricardo Costa parece pensar. Por exemplo, duvido que muita gente "goste" de Cavaco Silva, e Cavaco conseguiu duas maiorias absolutas. A falta de simpatia pessoal pode ser ultrapassada se se conseguir chamar a atenção para outros factores. Se se conseguir convencer as pessoas de que aquilo que está ser defendido é a melhor opção. Ora, o problema de Carrilho é que o seu gigantesco ego o leva a considerar que bastaria o elemento pessoal para ele ganhar. Que bastaria ele aparecer para que a sua suposta magnanimidade conduzisse o bom povo à adesão em massa ao seu "projecto". A sua campanha era uma campanha centrada na promoção pessoal de Carrilho, centrada no "homem cosmopolita" com "provas dadas" no Ministério da Cultura, e que visava apenas e só a promoção pessoal a partir da sua acção na Câmara, caso tivesse sido vencedor. O problema de Carrilho não foi o facto de as pessoas "não gostarem" dele, mas sim o facto de o total vazio que foi a sua campanha ter implicado a total concentração das pessoas na sua personalidade. É isso que convém ter em conta. A derrota de Carrilho não significa uma "derrota das ideias" perante o irracionalismo dos eleitores, mas sim a derrota do vazio demagógico que foi a sua campanha.
Posted by Bruno at 10:02 PM
outubro 09, 2005
Sobre o Porto
O leitor atento saberá que fico especialmente satisfeito com a vitória de Rui Rio. Ainda não se sabe se terá ou não maioria absoluta, mas mesmo que não a tenha, a manutenção do resultado obtido há quatro anos será sempre um bom resultado, especialmente se tivermos em conta os inúmeros conflitos em que esteve envolvido. Quando se faz uma campanha e uma governação de ruptura, os bons resultados são bem mais meritórios. Quanto ao dr. Assis, não é, de forma alguma, o dr. Fernando Gomes ou o engenheiro Nuno Cardoso. Mas isso não o iliba da demagogiazinha que andou a praticar durante toda a campanha. As promessas quase diárias. A referência à "relação com essa grande insitituição do Porto que é o FCP". O assobiar para o lado aquando dos incidentes do Aldoar. Tudo exemplos de atitudes que alguém que se orgulha (com todo o mérito) de combater populismos como o de Felgueiras, deveria evitar. Por último, uma pequena observação: tenho um prazer especial em ver João Teixeira Lopes falhar o seu objectivo de ser eleito vereador.
Posted by Bruno at 10:15 PM
Sobre Lisboa
Tenho pena que Maria José Nogueira Pinto tenha tido um resultado tão baixo como aquele que teve. Pareceu-me ser a melhor candidata, a que melhor programa tinha, e aquela que teve a postura mais séria durante a campanha. A vitória de Carmona Rodrigues seria, há vários meses, algo inimaginável. Não foram poucas as pessoas que me diziam que tinham consideração pelo senhor, mas que achavam que ele acabaria por ser penalizado pela sua associação a Santana Lopes. Apesar do mérito que Carmona certamente terá, convém não esquecer o dr. Carrilho, que desperdiçou, quase exclusivamente devido à sua atitude, à forma como conduziu a campanha, a oportunidade de ser eleito. Não deixa de ser bom sinal que nem sempre a demagogia funcione.
Posted by Bruno at 10:05 PM
A Ler
A Nata da Política Nacional e Um Grande Derrotado, no Lusitano.
Posted by Bruno at 09:43 PM
Diferença
O dr. Miguel Portas acha que a vitória de Valentim Loureiro em Gondomar e de Isaltino Morais em Oeiras são grandes derrotas do PSD. Se é um facto que o PSD deixa de ter o poder nessas autarquias, é também verdade que isso se passa porque o PSD não fez em gondomar e em Oeiras o que o BE fez em Salvaterra de Magos. Para o PSD, parece que há coisas mais importantes que ganhar. Para o BE, vale tudo. É essa a diferença. Muito mais importante que as vitórias.
Posted by Bruno at 09:38 PM
outubro 08, 2005
Sobre as Autarquias
Hoje é dia das televisões e dos jornais fingirem que o país parou. Hoje, todos os jornais e televisões fingem que não houve campanha eleitoral nas últimas semanas. No entanto, a propósito dessa mesma campanha eleitoral, existem alguns pontos, acerca das autarquias e do modo como elas funcionam e deviam funcionar, que merecem algumas considerações. A forma como a campanha decorreu, a forma como muitos dos assuntos dos vários concelhos foram debatidos, permitem chegar a algumas conclusões.
Em primeiro lugar, como é possível que candidatos que passaram semanas a insultarem-se uns aos outros possam fazer parte do mesmo executivo camarário? A forma proporcional como os executivos camarários são forçosamente formados é uma das maiores aberrações do nosso sistema político. Em primeiro lugar, porque força gente com programas diametralmente opostos a fazer parte de um executivo comum. E não há razão para que o partido vencedor não forme o executivo que quer. O lugar para a proporcionalidade seria na Assembleia Municipal, se esta tivesse efectivos poderes de controlo (o facto de não ter é outra aberração). Ao que o sistema actual conduz é à inexistência de uma oposição, quer porque os partidos que a poderiam formar fazem parte do executivo ou porque lhes foram entregues lugares nas empresas camarárias, no bom velho sistema de compadrio que Portugal tanto aprecia.
Outro aspecto que foi bastante comum entre os vários candidatos às várias autarquias foi o das inúmeras e grandiosas promessas. Pormenor esse que é revelador de um dos mais importantes aspectos do sistema autárquico: os autarcas têm poucas responsabilidades efectivas, e pior, não são efectivamente responsabilizados por nada. Pouco lhes resta fazer senão construir estradas, prédios, recintos desportivos e rotundas, ou prometer atrair investimento para o concelho (como, ninguém diz). E como são em grande parte alimentados pelo Orçamento de Estado não se responsabilizam pelos custos das grandiosas obras que prometem. A escolha autárquica seria muito mais importante, e merecedora de maior atenção, se as autarquias deixassem de ser alimentadas pelo orçamento de Estado, e não pudessem ser financiadas por outro meio que não os impostos que eventualmente cobrassem. E só assim se poderia, como deveria ser feito, transferir uma série de responsabilidades, hoje do Estado central, para as autarquias.
Um último aspecto tem a ver com o espectro que paira sempre sobre as eleições autárquicas: o da "leitura nacional" dos resultados. Para um Governo, nada pior. O medo de um mau resultado pode levar a uma de duas (ou até a ambas) atitudes, qual a mais nefasta: uma governação demagógica, tendo em vista um aumento de popularidade, ou o apoio aos inúmeros caciques locais, de cuja vitória a importância das secções dos partidos vai dependendo. Só vejo uma solução para isto: que seja adoptada a proposta feita há tempos por Rui Rio, de realizar as eleições autárquicas em ocasiões diferentes para cada concelho, o que faria com que essa eleição fosse exclusivamente tratada como deveria ser, como uma eleição local.
Nada disto será feito nos tempos mais próximos. A irresponsabilidade continuará. A degradação será cada vez mais intensa. Mas mudar custaria demasiado a demasiada gente.
Posted by Bruno at 10:54 PM
outubro 07, 2005
O Mundo É Outro
Na Sábado, Sérgio Figueiredo escreve o seguinte:
"A Turquia quer entrar, os EUA querem que entre e a Europa desde o início que inventa desculpas para a receber.(...)que assim evita o confronto civilizacional com o Islão(...) mesmo faltando a principal das razões para a adesão: a Turquia não é um país europeu."
Primeiro que tudo, convém dizer que a "Europa" não quer a Turquia. Como diz o João Pereira Coutinho no Expresso, a "Europa" finge que negoceia com a Turquia para, através dos referendos que alguns países planeiam fazer, lhe puxar depois o tapete. Em segundo lugar, convém dizer que, de facto, a adesão da Turquia é um imperativo estratégico na luta contra o fundamentalismo islâmico. Em terceiro lugar, convém dizer que Sérgio Figueiredo tem razão. Só uma pequena parte da Turquia faz parte, geograficamente falando, do continente europeu. E perante tudo isto, convém perceber que o "projecto europeu" tal como foi concebido inicialmente, está desajustado da realidade.
Concebida como uma organização regional, a "Europa" procurava responder a duas questões estratégicas essenciais no imediato pós-II Guerra: pacificar as relações entre a França e a Alemanha, e impedir o avanço da União Soviética. Era um projecto político que se restringia ao âmbito regional, porque era nesse espaço do continente europeu que se jogava o futuro dos países que o conceberam, e daqueles que posteriormente foram aderindo. Hoje em dia, o Mundo é outro. Um Mundo onde os países asiáticos muito mais populosos que nós florescem com o mercado livre internacional. Um Mundo onde o fundamentalismo islâmico oferece uma via de contestação aos regimes autoritários dos países do Médio Oriente. Mas a "Europa" está na mesma. Fechada. Comércio livre, só entre os seus muito protegidos cidadãos. Atitude perante a globalização? Uma muito eufemística tentativa de a "humanizar", em vez de a aproveitar. E perante a ameaça do fundamentalismo islâmico, prefere criticar Bush a apoiar a única democracia que vai existindo num país de maioria muçulmana.
A "Europa" como organização política regional que procura centralizar a tentativa de resolução dos problemas dos seus cidadãos está a morrer. Está a morrer, porque o Mundo para o qual foi concebida já morreu há muito. O que seria necessário seria uma cooperação muito mais aberta. Mais aberta, não só no sentido de não centralizar poderes na pouco controlável autoridade de Bruxelas, e mantendo-os nos parlamentos nacionais representativos dos seus respectivos cidadãos, mas mais aberta no sentido de possibilitar uma verdadeira cooperação entre todos aqueles que querem ser livres. Um verdadeiro comércio sem fronteiras entre os países que nele estivessem interessados, independentemente da sua região ou continente. E uma genuína vontade de, em comum, se defenderem de inimigos comuns. É para isso que os EUA caminham, na sua relação com a China, com a Índia, o Japão ou a Austrália. Aos países europeus, só lhes cabe responder se querem ou não participar. A atitude perante a Turquia será apenas um pequeno sinal: se cumprir os requisitos que lhe são exigidos, não há razão nenhuma para não se aceitar a sua adesão.
Posted by Bruno at 10:49 PM
Excelente
No Vício de Forma (tenho as minhas suspeitas em relação a quem é o autor), o post Vergonha:
"Há um louco na minha rua que se comporta como um louco. Tem o aspecto e a agressividade de um louco. E assusta-me como os loucos quase sempre nos assustam. Mas quando saio de casa de manhã e o apanho, numa representação degradante, a fazer as necessidades na rua, o que ele faz é levantar bruscamente as calças, muito embaraçado com a minha presença. Uma pessoa perde o juízo mas não perde a vergonha."
Posted by Bruno at 10:27 PM
Sobre Lisboa
O fenómeno é curiosíssimo. Maria José Nogueira Pinto e Ruben Carvalho têm recebido inúmeros elogios de "todos os quadrantes", como dizem os senhores jornalistas. No entanto, a dimensão prevista para o voto que irão receber, é pequena. Só vejo duas explicações. Muitas das pessoas que elogiam Maria José Nogueira Pinto estão na mesma situação que eu ou os meus pais: teriam todos o gosto de votar na "tia Maria José", mas não estão inscritos em Lisboa (tal como teríamos todo o gosto de votar em Rui Rio mas não estamos inscritos no Porto). Outra razão possível será o receio que os potenciais eleitores lisboetas da "tia Maria José" tenham receio de Manuel Maria Carrilho, e votem em Carmona, e os potenciais eleitores lisboetas de Ruben Carvalho tenham receio de Carmona, e prefiram votar Carrilho. Era por isso que, como disse João Marcelino ontem na RTPN, Maria José Nogueira Pinto seria uma excelente candidata numa coligação mais alargada. Assim, será pena que perca aquela que é a melhor candidatura.
Posted by Bruno at 10:00 PM
outubro 06, 2005
Pergunta
E Bárbara Guimarães, não aparece nas sondagens?
Posted by Bruno at 10:14 PM
Duplicidade
Na Quadratura do Círculo, o dr. Jorge Coelho afirmou que, relativamente aos incidentes do bairro do Aldoar, Rui Rio era tão culpado como os agressores, por ter entrado no bairro sabendo que iria ser insultado e alvo de tentativas de agressão. Como o assaltado que é tão culpado como o assaltante, porque se não carregasse dinheiro consigo, não teria sido assaltado, ou a mulher violada que é culpada de atiçar a luxúria do violador. No entanto, o dr. Jorge Coelho não é único a pensar que Rui Rio é tão culpado como os autores daquela pouca vergonha. Não são poucos os que nos meios de comunicação social afirmam que o dr. Rui Rio provoca o conflito, e que é por isso responsável pelos incidentes que envolvem gente que está contra ele. Admitamos que sim. Esse raciocínio ignora a responsabilidade que essa gente tem ao ceder a essa suposta "provocação" que as boas consciências gostam de atribuir ao dr. Rui Rio. Mas o mais curioso é que essas mesmas pessoas que hoje criticam o dr. Rui Rio por ter provocado a ira do bom povo do Aldoar, em tempos, elogiaram o dr. Assis por ter enfrentado o bom povo de Felgueiras, que havia marcado uma vigília para o exacto momento da visita do corajoso dr. Assis à terra do bom povo felgueirense. Não percebo qual a diferença entre uma situação e outra. Ou melhor, percebo. É fruto da tradicional duplicidade das boas consciências. Já não espanta. Mas continua vergonhosa.
Posted by Bruno at 09:57 PM
outubro 05, 2005
Lapsos 3
Em Lordelo, o padre local ameaçou demitir-se, caso o PSD vença a eleição na localidade, como forma de protesto pelos atrasos nas obras da paróquia. Estranhamente, o Bloco de Esquerda não se queixou de uma "inaceitável interferência da Igreja na campanha eleitoral". Certamente, um mero esquecimento. Selectivo.
Posted by Bruno at 10:09 PM
Lapsos 2
Um senhor que faz parte da lista do PSD em Felgueiras entendeu por bem dizer, na RTP, que a candidatura do PS na mesma autarquia não poderia ter condições para a governar, visto que estava fragilizada pelo facto de existir uma candidatura como a de Fátima Felgueiras, que lançava o partido, ou pelo menos, as estruturas locais do dito, numa "guerra interna". O senhor que faz parte da lista do PSD em Felgueiras, involuntariamente, disse que os candidatos do PSD em Gondomar, ou Oeiras, não terão condições para governar, pelo facto de existirem candidaturas como as de Isaltino ou Valentim, que lançam o partido, ou pelo menos as suas estruturas locais, numa "guerra interna".
Posted by Bruno at 10:03 PM
Lapsos
O dr. Assis e o dr. Carrilho, na simplicidade de pensamento que o curso de Filosofia transmitiu a ambos, consideram que será bom para os respectivos concelhos nos quais se candidatam que o Governo e o Presidente da Câmara eleito pertençam ao mesmo partido. Involuntariamente, ambos disseram que entre o Governo português, e o Governo regional da Madeira, não há grandes diferenças. Agradeço o aviso.
Posted by Bruno at 09:59 PM
outubro 04, 2005
Carrilho
Não gosto de Carrilho. Nunca gostei. Chamem-me preconceituoso. Serei. Mas Carrilho é como os franceses: confirma todos os meus preconceitos. Escrevi há tempos que a candidatura de Carrilho seria uma candidatura propagandística, e que caso fosse eleito, o seu mandato seria uma mandato propagandístico, tendo em vista "vôos mais altos". Em relação à forma como a candidatura se tem processado, e de como o dr. Carrilho se tem comportado, acho que não vale a pena dizer que tinha razão. Quanto ao segundo aspecto, parece que Lisboa terá a sorte de eu não poder vir a verificar a exactidão do que disse.
Posted by Bruno at 11:04 PM
Bizarro World
Há coisas que eu nunca esperei que acontecessem. Por exemplo, as ocasiões em que concordei com Miguel Sousa Tavares. Nunca esperei que acontecesse. Mas aconteceu. Poucas vezes, é certo. Mas algumas. Outra coisa que nunca esperei ver: uma crónica de Eduardo Prado Coelho sobre futebol. Não que haja algum mal nisso. Pelo contrário. Apenas nunca imaginei que tal fosse possível.
Posted by Bruno at 10:52 PM
outubro 02, 2005
The Right Way
Começa amanhã a conferência anual do Partido Conservador britânico. Este ano, com renovado interesse, visto que se começa a disputar a corrida para a liderança do partido. Dentro de algumas semanas, começarão as nomeações feitas pelos deputados, que qualificarão os dois candidatos com mais nomeações para uma eleição directa aberta ao voto de todos os militantes. Durante o Verão, fui lendo os vários discursos e artigos publicados pelos candidatos que iam surgindo, ou que se adivinhavam: Malcolm Rifkind, Kenneth Clarke, Liam Fox, David Cameron e David Davis. Preferência? David Davis.
Malcolm Rifkind também tem "something of the night". Tem a aparência de um vilão dos velhos filmes de série B britânicos, factor que fica sempre bem num Tory. E até tem algumas ideias que merecem atenção: limitar as funções do Governo ao que só ele pode fazer, e mesmo essas, entregá-las, sempre que possível, às autoridades locais, em detrimento do Governo central. Tem o óbice de ter sido contra a guerra do Iraque, e o facto de todas as boas ideias que defende serem partilhadas em geral pelos outros candidatos, faz com que estas não compensem essa falha.
Ken Clarke tem a imagem Churchilliana, e a postura política de Heath. É gorducho, fuma charuto, insulta os outros. Tudo qualidades apreciáveis. Mas é um euroentusiasta, que esteve contra o Iraque e que defende o isolacionismo como forma de evitar o terrorismo, e diz-se (aqui confesso que não o conheço bem) que é apreciador do estatismo.
Liam Fox merece atenção. Ministro-sombra dos Negócios Estrangeiros, conheço bem o que pensa acerca da "guerra contra o terrorismo" e acerca da "Europa". Conheço e gosto. Para além disso, defende impostos baixos, menos governo, atenção à Defesa. Tem ainda a vantagem de ter um pensamento conhecido em áreas como o ambiente e sistema de saúde que costumam conquistar a atenção dos eleitores. Tem ainda a postura, a atitude, certa: tem poucas hipóteses de ganhar, mas avança para defender esse conjunto de ideias. Poderia ter dúvidas entre ele e David Davis. Mas a questão das suas diminutas hipóteses fazem com que essa questão nem se coloque. Um bom futuro Ministro-sombra de uma área chave na equipa de David Davis.
Quanto a David Cameron: é o jovenzinho que Michael Howard queria impingir à rapaziada. Geralmente associado ao outro jovenzinho George Osborne (que está a estudar a hipótese da introdução do flat-tax), é dos modernisers. Era o que tinha melhores exemplares femininos na sessão de apresentação da candidatura. Embora seja um factor a ter em conta, não chega. E Cameron, dizendo algumas coisas interessantes, tem um problema: a leitura que faz do problema do seu partido. Cameron considera que o problema dos Tories não é as suas políticas, porque Blair adoptou as políticas dos Tories, e é por isso que ganha. Para Cameron, o problema dos Tories é um problema de imagem. O problema de Cameron está em ele não perceber que Blair adoptou uma versão envergonhada das políticas dos Tories, e que portanto, não têm a mesma eficácia nem a mesma coerência. Não compreende que a missão de um partido é conseguir convencer o eleitorado de que aquilo que esse partido defende é a melhor opção, e não adoptar políticas só porque as sondagens indicam que as pessoas parecem gostar. Tentar imitar Blair poderá conduzir os Tories ao poder, mas para quê tirar Blair, se for para fazer o mesmo? Com Blair, ao menos, há alguém com quem implicar.
Resta David Davis. Davis tem fama de arruaceiro. De conspirador. Mas parece-me ser o que apresenta mais e melhores ideias. Já o conhecia da televisão, onde era presença regular num programa que costumava ver, no qual participava na sua qualidade de Ministro-sombra do Interior. Foi aí que fiquei a conhecer algumas das interesses ideias que tinha para essa área. Tinha a tradicional postura dura contra o crime (elogiava o passado de ministro do interior de Michael Howard), combinando-a com um libertarianismo civil interessante: manifestou-se contra a proposta de introdução de BI's, criticou as medidas anti-terroristas que muitos entendiam ir contra as tradições do rule of law britânico, e mostrava-se favorável à eleição, por parte das populações, dos chefes das polícias das suas respectivas localidades (como os xerifes americanos). Nestes últimos meses, fiquei a conhecer as restantes propostas. Quanto à Europa, defende a devolução de poderes aos parlamentos nacionais. Foi (e é) favorável à guerra do Iraque. Defende uma limitação das funções do Governo, e em àreas como a Saúde e a Educação, é um grande defensor dos vouchers, como forma dos mais pobres terem acesso aos serviços aos quais, no sistema universalista do Estado como prestador de serviços (e não como mero garante dos mesmos), só os ricos podem aceder, pois são os únicos que têm recursos para, no fundo, pagar duas vezes (nos impostos, e nas instituições privadas às quais recorrem). Parece-me, mais uma vez, o que melhor compreende a profunda insustentabilidade do "modelo social europeu", e a profunda injustiça que, para choque das boas consciências, lhe é inerente. E que melhor percebe a forma de o reformar.
Independentemente dessa minha preferência, há um pequeno comentário que merece ser feito. Estes são cinco candidatos (poderão ser seis, se, como se prevê, avançar a candidatura dos "Torieban", a rapaziada que acha que os fundamentalistas islâmicos têm razão quanto à "decadência moral" das nossas sociedades), que apresentam, e discutem, propostas claras, e em muitos casos, diametralmente opostas. Propostas que permitem que uma escolha clara seja feita. Era este tipo de disputa política que eu gostaria de ver em Portugal. Independentemente de quem acabasse por ser escolhido.
Posted by Bruno at 09:45 PM
outubro 01, 2005
Sobre Oeiras
A campanha autárquica de Oeiras tem sido deprimente. Barulho na rua, com os carros munidos com altifalantes, com musiquinhas alusivas aos candidatos, não tem faltado. Cabecinha, é que já é mais difícil de encontrar. E aqui, a grande responsabilidade é dos candidatos que competem contra Isaltino Morais. Porque se eu posso considerar que a "questão ética" é razão suficiente para não votar em Isaltino (e não é a única), isso não faz com que ela seja suficiente para votar em qualquer um dos outros candidatos. A missão dos ditos deveria ser a de me convencer de que o que eles planeiam é a melhor opção. Ora, o que esses candidatos têm feito é, essencialmente, atacar Isaltino pela "questão ética", e, em alguns casos, acusá-lo de outras coisas menos dignas. Das poucas vezes que dizem alguma coisa de concreto, mais valia que não tivessem aberto a boca. Promessas de inúmeras "grandes obras" (que também não faltam no programa de Isaltino, diga-se) e de "atracção de investimentos" para o concelho são a habitual demagogia fácil que enche as autárquicas neste país. Existem duas excepções. O programa da CDU, e o programa do CDS/PP. O da CDU não diz nada. É um vazio. O que manifestamente é pouco para convencer quem quer que seja, a não ser quem já esteja convencido à partida. O do CDS é o programa mais minimalista de todos. O mais sério. O que diz alguma coisa que não as habituais promessas que, pior do que se tornaram promessas por cumprir, só mesmo se forem promessas cumpridas, e todo aquele dinheiro for desperdiçado. Apesar disso, o programa de Isabel Sande e Castro não é ideal. Ainda tem as habituais referências às "instalações para desporto escolar" que são prometidas por todos (salvo raras e abençoadas excepções) os candidatos em todas as autarquias deste país. É, sem dúvida, o menos megalómano de todos. Mas não deverá ser suficiente para me impedir de votar em branco.
Posted by Bruno at 09:49 PM
Publicidade Institucional
Aviso o caro leitor que aos sábados, por volta das 15h30/15h45, a RTP Memória não dá antigos Festivais da Canção ou blocos informativos do tempo do PREC, mas sim Monthy Python's Fliyng Circus. A não perder. It's a man's life in the army...
Posted by Bruno at 09:45 PM
A "Outra" Candidatura
Na corrida para as presidenciais, há uma candidatura da qual todos falam, menos o próprio candidato. A outra candidatura. A de Cavaco. Que todos sabem existir. Mas há ainda uma outra. Que ninguém sabe se existe. Ou se vai existir. Da qual pouco se tem falado. Até esta noite. Telmo Correia, candidato à liderança do CDS/PP derrotado no último Congresso, afirmou que o CDS/PP não deveria pôr de parte a hipótese de avançar com uma candidatura própria. Telmo Correia considera que estas são as eleições da regeneração do sistema político, e que por isso, o CDS/PP não deve estar de fora, porque o CDS não é "de desistir".
Há duas coisas que não são ditas, mas que convém não fingir que não se sabem. A primeira, de que se está a falar de uma candidatura de Paulo Portas. A segunda, de que tal candidatura, ou pelo menos esta afirmação de Telmo Correia, tem como alvo mais próximo o líder do seu partido, Ribeiro e Castro. Só assim se explica a ideia de que o CDS "não deve estar de fora", como se o apoio a Cavaco não fosse uma tomada de posição. O que é um facto é que a mera discussão no foro partidário de uma eventual candidatura de Portas coloca um problema a Ribeiro e Castro. Recorde-se que no Congresso, a moção de Ribeiro e Castro traçava um perfil de candidato a apoiar, perfil esse feito à medida de encaixar em Cavaco Silva. Se Ribeiro e Castro, colocado perante a hipótese de uma candidatura de Portas, se mantiver fiel à letra da sua moção, será demagogicamente acusado de "estar de fora", e condenar o CDS/PP à irrelevância. Se fizer o contrário, terá de justificar a sua mudança de posição, criando em seu redor uma imagem de fragilidade perante a oposição interna. Este poderá ser, infelizmente, o princípio do fim da liderança de Ribeiro e Castro no CDS/PP, e do bom caminho que estava a traçar para esse partido.
Mas outra pergunta se poderá colocar: que valor terá esta eventual candidatura? Que méritos terá? O que poderá ou não acrescentar? A resposta encontrar-se-á a partir da relação que esta candidatura estabelecerá com dois elementos: com as candidaturas da "esquerda", e com a de Cavaco Silva. Ligadas as estas duas formas de agir, as questões do sistema político e da reforma do país.
Vejamos primeiro a relação da candidatura de Paulo Portas (mais uma vez, é dele que estamos a falar) com as candidaturas da esquerda. A candidatura de Portas estará continuamente a relembrar a dissolução de Sampaio. Mais do que relembrá-la, ameaçará revertê-la. Irá sempre lembrar que, com o precedente de Sampaio, quer seja por considerar que o Governo perdeu o apoio popular, quer seja por considerar que o Governo está a governar mal, qualquer Presidente terá legitimidade para dissolver o Parlamento, mesmo que neste exista uma maioria estável. Caso fosse eleito, Paulo Portas não iria regenerar o sistema político. Iria apenas alimentar-se da instabilidade que é inerente a esse mesmo sistema. O que, por sua vez, apenas alimentaria ainda mais essa mesma instabilidade.
E quanto a Cavaco? Cavaco terá um pequeno problema na sua candidatura (acerca do qual escreverei futuramente), a visão que se tem dele como um keynesiano, amante do modelo social europeu e das ilusões que este alimenta. Muitos dos (poucos) que consideram que Portugal precisa de reformas liberalizantes profundas, poderão olhar com algum cepticismo para a candidatura de Cavaco. Poderão não o considerar capaz, ou sequer com vontade, de promover essa reforma do país. A questão está em se Paulo Portas poderá representar esse eleitorado com fome de liberalização. No fundo, como agirá uma candidatura de Paulo Portas perante a candidatura de Cavaco Silva? E aqui temos uma base sobre a qual responder: a acção de Cavaco Silva como Primeiro-Ministro, e a atitude de Paulo Portas perante a mesma. Uma atitude que, através do seu porta-voz Manuel Monteiro, não foi mais do que um aproveitamento demagógico dos prejudicados pela mudança que se verificou no país, com a entrada na CEE, e de um populismo anti-políticos nas questões do vencimento dos deputados. Hoje em dia, aquilo que não precisamos é resistência demagógica à mudança e uma postura que contribua para uma ainda maior descredibilização dos agentes políticos, e que coloque em causa a permanência na actividade política dos poucos com alguma qualidade que nela se vão mantendo.
Para mais, o percurso político de Paulo Portas enquanto líder do CDS/PP foi um percurso de tudo, menos o de um liberal, como por vezes se tentou fazer passar (conforme os dias. Noutros dizia que Portugal não era Chicago). Convém não esquecer que muitas das propostas emblemáticas do CDS/PP na sua liderança, independentemente do seu mérito ou demérito, como a das pensões dos ex-combatentes, eram propostas que, na prática, se traduziam no aumento da despesa e do peso do Estado. É evidente que eram áreas onde o dr. Portas considera que o Estado deve estar, ao contrário de outras. E que, não tendo o CDS/PP capacidade (por falta de dimensão) de diminuir esse peso estatal nas outras áreas, procura responder aos problemas que identifica como aqueles a que o Estado deveria responder. No entanto, o dr. Portas nunca alertou no seu discurso para este pormenor, nunca alertou para os custos dessas mesmas iniciativas. E há ainda o exemplo da intervenção estatal em indústrias que sem essa intervenção não sobreviveriam, da qual o dr. Portas tanto se orgulhou em campanha eleitoral.
Paulo Portas não será o candidato da regeneração do sistema político (que não se regenerará. Ou é substituído, ou morre). Nem o candidato da liberalização (cada vez mais necessária, e cada vez mais difícil de levar a cabo). Será o candidato de muito daquilo que o actual sistema tem de mau. Da demagogia. Do marketing vazio. Da transformação ao sabor da corrente mediática (é extraordinário como em três anos, o eleitorado do dr. Portas passou das senhoras das feiras aos "jovens empresários"). Caso Portas acabe mesmo por avançar, haverá certamente quem se deixará enganar.
Posted by Bruno at 12:13 AM