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setembro 30, 2005
Provas
Parece que o engenheiro Sócrates disse a Rui Rio, a propósito das pouco edificante bagunçada do Aldroal, para "se deixar de fitas" e insinuações, visto que o PS sempre se havia pautado pelo maior civismo. Tal como o seu candidato, dr. Assis, o nosso Primeiro-Ministro esquece (ou ignora) os exemplos passados de situações como esta em que pessoas ligadas ou afectas ao PS estiveram envolvidas. Presumo que, tal como o também esquecido (ou escassamente informado)dr. Assis, o nosso Primeiro-Ministro peça provas ao dr. Rui Rio. No Acidental, o Paulo Pinto Mascarenhas mostra as imagens do que se passou. Imagens que mostram muito do que as televisões não mostraram. E muito do que as televisões não mostraram é precisamente o mais esclarecedor: gritos de "PS! PS!", bandeiras do PS , etc. Tal como escrevi ontem, parece-me que aqueles senhores deixaram bem claro de que lado estão. Só não vê quem não quer. Aqueles que realmente perderam a calma, ou que realmente estão a fazer fita.
Posted by Bruno at 10:35 PM
E Para Governar?
No Acidental, o Rodrigo escreve acerca da sondagem que hoje coloca o PSD à frente do PS. Diz o Rodrigo que Marques Mendes bem poderá ser o próximo Primeiro-Ministro, apenas porque "tem a próxima senha". E que "nem precisa de fazer muito. Antes pelo contrário, como ele já percebeu." Não duvido que o Rodrigo tenha razão. Que ficar sem fazer muito seja o melhor caminho para voltar ao Governo. O que já tenho dúvidas é que seja suficiente para ter condições para governar. O que prova o que se tem passado com o Governo de eng. Sócrates é que quem transmite ao eleitorado a ilusão de que o Paraíso redistributivo é possível, será atirado em direcção ao Inferno, quando tiver de tomar medidas que, por muito tímidas que sejam, são tudo menos confortáveis para os iludidos.
Posted by Bruno at 10:23 PM
Estranho
Miguel Sousa Tavares escreve um artigo no Público, acerca das greves no sector da Justiça e da caravela D. Fernando e Glória, sem qualquer referência a "esse Bush".
Posted by Bruno at 10:16 PM
setembro 29, 2005
Calma
As cenas verificadas ontem (e hoje) no Porto, com insultos e tentativas de agressão a Rui Rio, são graves. Mas não espantam. Infelizmente, não são nada de novo. Os exemplos dos últimos quatro anos são vários. Francisco Assis parece que se esqueceu desses exemplos. Exemplos de situações em que pessoas ligadas ao PS incitaram indivíduos a levarem a cabo este tipo de comportamentos. Assis, pedindo "calma" a Rui Rio, diz que este tem de apresentar provas de que pessoas afectas ao PS estão envolvidas. Segundo o Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado, o vereador da CDU, Rui Sá, até terá apresentado essas provas. Não seria preciso. Quando Francisco Assis levou com um saco de lixo na cabeça, não apresentou provas relativas aos autores do lançamento do dito saco de lixo. Estes últimos deixaram bem claro que eram grandes apreciadores da dr. Fátima Felgueiras. Tal como os senhores moradores do bairro do Aldoar deixaram bem claro em quem tencionavam votar. Não digo (nem o disse Rui Rio) que o dr. Assis seja directamente responsável pelo que se passou. Duvido que ele controle todos os militantes ou simpatizantes do PS. Mas precisamente por isso se aconselhava calma ao próprio dr. Assis. Fazer de conta que o PS Porto não tem uma história repleta de situações como esta nos últimos quatro anos, e ignorar aquilo que os próprios autores dela dizem, não dignifica o dr. Assis. Não que ainda lhe reste muita dignidade. Rol de promessas mais extenso (e mais demagógico), só mesmo o do dr. Carrilho.
Posted by Bruno at 10:13 PM
A Ler
O editorial de Martim Avillez Figueiredo no Diário Económico, sobre a questão do mercado energético português. Um pequeno excerto:
"A razão? Bem simples: sempre que as decisões sobre qualquer sector económico dependem mais da iniciativa do Estado do que da dinâmica natural do mercado é inevitável que as decisões tenham pouco de racionalidade económica e ainda menos de estratégia de gestão. Parece lenga-lenga liberal, mas é assunto sério: em Espanha, o Governo estava empenhado numa solução de dispersão accionista pelos vários ‘players’ na energia. Recuou no instante em que o mercado apontou caminho diferente - esse da Opa da Gás Natural sobre a Endesa.
Pergunta óbvia: mas o mercado sabe tudo? Não sabe, e essa é justamente a sua grande virtude: se as circunstâncias mudam, o mercado muda com elas.
O que se discute, portanto, não é mais ou menos teoria liberal, mais ou menos responsabilidades do Governo. É gestão pura: não se pode dirigir nenhuma empresa fechando os olhos ao terreno em que esta se move. Seria como um jogador de xadrez mover as peças sem olhar o jogo do adversário.
Ou seja, o problema português é discutir abordagens de esquerda ou de direita sobre tabuleiros em que devia limitar-se a aceitar que um jogo nunca pode ser decidido por um único jogador, sobretudo se esse jogador é o Estado.
Seria bom que estas hesitações governativas significassem isso mesmo: o Governo sabe que está no momento de sair de cena. Infelizmente, nada nos leva a acreditar que assim seja..."
Posted by Bruno at 10:10 PM
setembro 28, 2005
Pergunta
Sempre que na Assembleia se discute a questão do referendo acerca da legislação relativa ao aborto, o PS demonstra a grande vontade que tem em "resolver a questão". Resolver a questão é, aparentemente, realizar o referendo, "para que se mude a lei". Os deputados entram de seguida em animadas discussões. Nenhum faz a pergunta que tanto aqueles que são favoráveis à alteração da lei, como aqueles que são contra, deveriam fazer: o que pretende o PS fazer se, realizado o referendo, o resultado for o mesmo da última vez?
Posted by Bruno at 10:26 PM
setembro 27, 2005
Conselhos Seguidos
Uma das notícias do dia é a da decisão da Volkswagen de não construir na Autoeuropa o novo modelo, preferindo construí-lo na Alemanha. O líder do PCP, Jerónimo de Sousa, havia manifestado preocupação pelos efeitos que essa decisão (nessa altura ainda desconhecida) poderia ter na Autoeuropa, nomeadamente na situação laboral dos seus empregados. Imagino que Jerónimo não tenha ficado contente. Nem tudo está perdido. Jerónimo tem razões para se consolar. O PCP ainda tem influência. O PCP ainda é ouvido. Mesmo que apenas na Volkswagen, que seguiu à risca a doutrina do PCP acerca da deslocalização, mantendo postos de trabalho num país em que eles são mais caros, em detrimento de uma transferência para um país sub-desenvolvido e assente na mão-de-obra barata.
Posted by Bruno at 10:27 PM
Promessas
Um grande abraço para o dr. Carrilho. Estou a gostar muito da sua campanha. O meu momento preferido foi o daquela senhora que lhe perguntou, do alto da sua varanda, "então, não diz bom dia?". Ainda há ironia neste país. O bom povo também gosta. Carrilho leva, juntamente com os inúmeros caracteres de ideias, a sua mulher (o bom povo prefere "esposa") Bárbara Guimarães. Curiosamente, ambos deixaram a vergonha em casa. O que Carrilho não deixou em casa foi uma série de promessas. Uma delas é a de trazer 8500 empregos e 500 empresas para Lisboa (lido no DN). O mais provável é que nem o próprio dr. Carrilho acredite no que está a dizer. Se acreditar, imagino que o que o dr. Carrilho pretenda fazer seja criar 500 empresas autárquicas, que no total, terão 8500 empregos, pagos pelo contribuinte. Mas certamente cosmopolitas. Não se pode esquecer do cosmopolitismo.
Posted by Bruno at 10:17 PM
Lisboa é Gente
Mas se fosse um bocadinho menos era mais agradável.
Posted by Bruno at 10:16 PM
setembro 26, 2005
Ainda Sobre Alegre
Há, na maneira como Manuel Alegre conduziu toda a questão da sua candidatura, uma pequena questão que o fragiliza. A declaração de há algumas semanas atrás, em que Manuel Alegre afirmava que, naquelas circunstâncias não se candidatava, apesar de minutos antes, ter traçado um retrato negríssimo (em muitos aspectos certeiro) da realidade do país. Fragiliza-o, porque cola à sua candidatura, posteriormente anunciada, uma de duas imagens: uma de oportunismo, ou uma de "vingança pessoal" contra Soares. Ao fazer um discurso falando de um país à beira do abismo, e não se candidatando, Alegre deu a ideia de que não considerava a situação grave que ele próprio entendia ser a actual, como elemento suficiente para motivar a sua candidatura. Ao voltar atrás, no preciso momento em que uma sondagem lhe atribui um resultado próximo de Soares, Alegre transmite uma imagem de quem desvaloriza uma situação tão grave como aquela que ele disse ser a que o país atravessa, agindo mais em função do resultado em perspectiva do que em função daquilo que pensa ser a realidade, e daquilo que pensa ser necessário fazer para a alterar. Imagem essa que apenas ajuda a consolidar a ideia que muitos têm da sua candidatura como uma "birra" contra Soares e Sócrates. Alegre tem coisas sérias para dizer. Nunca votaria nele, porque não concordo com aquilo que defende. Mas muito do que disse na sua candidatura à liderança do PS demonstrava uma preocupação séria e fundamentada com o estado da democracia, nomeadamente a crescente importância dada pelos aparelhos partidários à vitória eleitoral, em detrimento da competição entre ideias distintas. Ao conduzir desta forma a apresentação da candidatura, Alegre dá a ideia de ter uma postura semelhante aquela que ele próprio entende ser nociva para a democracia. Com isso, é o seu próprio discurso que perde.
Posted by Bruno at 10:18 PM
setembro 25, 2005
Sobre Alegre
Acerca de Manuel Alegre, e da sua candidatura, têm corrido duas teses acerca das razões que motivaram essa mesma candidatura. A primeira trata-a como uma espécie de vingança pessoal contra Soares, como uma birra. Esta visão ignora a vontade que Manuel Alegre tinha de se candidatar, vontade essa que havia já sido expressa antes de Soares ter avançado, e a presença de genuínas diferenças políticas entre os dois (Soares como adepto da alter-globalização, Alegre defensor de um republicanismo idealista), mesmo que se limitem, e não penso que seja assim, a questões de postura e de comportamento. A segunda tese vê a candidatura de Alegre como uma forma de dinamizar a esquerda contra Cavaco. É o próprio Alegre que o diz. Mas ao contrário do que pode querer fazer crer, o "inimigo" de Alegre não apenas "o candidato da direita". É óbvio que Alegre não quer ver Cavaco eleito. Mas há também uma clara vontade de Alegre de defender a sua visão da "esquerda". A única pessoa que percebeu isso, ou pelo menos, o afirmou publicamente, foi o líder do CDS/PP, Ribeiro e Castro, quando disse que estava aberto o campeonato da liderança da esquerda. A candidatura de Alegre, como a de Soares (e as de Jerónimo e Louçã) têm, como é óbvio, o objectivo de conquistar Belém. Mas tem o objectivo de conquistar Belém para a sua visão da "esquerda". Não só contra o "candidato da direita", mas também, ou essencialmente, contra as concorrentes visões da "esquerda". Soares candidata-se para defender o "seu" PS, o "verdadeiro" PS, o PS que Soares quer ver a lutar contra a globalização e pela utopia, e que entende ter sido raptado pela actual liderança (e pelas anteriores). Alegre candidata-se para defender o "verdadeiro" PS, o PS da "ética republicana", dos grandes ideais e dos exemplos morais, O PS que propôs na sua candidatura à liderança do PS. Jerónimo candidata-se para aproveitar o tempo de antena para criticar o PS, que "é tão de direita como o PSD", e para "defender os trabalhadores". E Louçã candidata-se para aproveitar o tempo de antena para defender a esquerda dos "novos problemas sociais", dos "temas fracturantes". Para se perceber a confusão que existe hoje à "esquerda" relativamente às presidenciais, é preciso perceber isto.
Posted by Bruno at 09:58 PM
setembro 24, 2005
24

Com a maratona de episódios da segunda série do 24, sofre este blog. Não li jornais, acabei de descobrir que Manuel Alegre anunciou a sua candidatura, estive um dia inteiro desligado do mundo real. Amanhã, cá estarei...
Posted by Bruno at 10:21 PM
setembro 23, 2005
Para Memória Futura
Aproxima-se dos EUA novo furacão. A área que será atingida cobre sensivelmente a distância entre Houston (Texas) e, novamente, New Orleans (onde as inundações já começaram, devido à fragilidade dos diques provisórios entretanto construídos). Se a desgraça se repetir, a brigada inquisitória voltará a culpar Bush por não ter assinado Quioto, e por não ter tomado as devidas precauções, quer elas tenham sido tomadas ou não, e quer isso seja da responsabilidade de Bush ou dos governos estaduais ou autoridades locais (não sei quais são as responsabilidades de quem). Dirão que "esse Bush não aprendeu nada". Se as coisas correrem menos mal, a dita brigada nem sequer colocará a hipótese de algo ter sido, afinal, aprendido. Dirá que se deve ao facto de, desta vez, o Texas ser o atingido, por serem os amigos "desse Bush" e a indústria do petróleo os atingidos, e não os pobres, como se o Texas não tivesse pobres (ou New Orleans não tivesse ricos e amigos de Bush). Em nenhum dos casos, terão em conta o único factor que é inevitável: a dimensão e força do fenómeno natural em causa.
Posted by Bruno at 10:23 PM
setembro 22, 2005
Distracção ou Má-Vontade
Assisti ao debate na SIC Notícias com os candidatos à Câmara Municipal do Porto. O dr. Francisco Assis e o dr. Teixeira Lopes gostaram muito da entrevista do dr. Paulo Morais à Visão. Não só gostaram, como lhe atribuem grande credibilidade. Paulo Morais fala de pressões, e tanto Teixeira Lopes como Francisco Assis acreditam que houve pressões. E partem do princípio de que o facto de Paulo Morais não fazer parte da lista de Rui Rio se deve a essas mesmas pressões. Não sei se sim, nem se não. Mas sei que é muito estranho que, para quem dá tanta importância e credibilidade à entrevista do dr. Paulo Morais, tanto Assis como Teixeira Lopes tenham ignorado o excerto da dita em que o dr. Paulo Morais se refere a Rui Rio, afirmando que este é um exemplo de seriedade. As perguntas que os dois senhores do PS e do BE (sinceramente, já não sei qual deles é de qual, tal é a sintonia entre eles) fazem a Rui Rio, a propósito da dita entrevista, não precisam de ser respondidas por Rui Rio. Já foram respondidas. Por Paulo Morais. Na entrevista. Feita depois do anúncio da lista à qual Paulo Morais não pertence. Assis e Teixeira Lopes não repararam. Não sei se por distracção se por má-vontade.
Posted by Bruno at 10:13 PM
setembro 21, 2005
O Valor do Debate
Nos debates parlamentares com a presença do Primeiro-Ministro, gosto sempre de ouvir as intervenções do líder da bancada parlamentar do PS, Alberto Martins. Não que sejam de conteúdo meritório. Mas precisamente por serem sobre nada. Traduzidas, as intervenções de Alberto Martins, não são mais do que uma oportunidade para o referido senhor dizer ao Primeiro-Ministro que o considera um poço de virtude, ao que o Primeiro-Ministro responde dizendo que sim, que é um poço de virtude. Hoje o dr. Alberto Martins disse também que o PSD estava contra o "pacote" apresentado pelo governo, que o PSD estava "assustado", por saber que o dito "pacote" era um "programa de sucesso". Para o dr. Alberto Martins, não só o Primeiro-Ministro é um poço de virtude, como o PSD apenas quer o mal do país. O PSD sabe que o Primeiro-Minsitro é um poço de virtude, e sabe que o Governo está correctíssimo. Mas o PSD não gosta de pobres (o PSD é como "esse Bush"). O PSD quer o fracasso do Governo. Quer que as pessoas sofram, e está "assustado" por saber que o Governo está transformar Portugal num Paraíso. Podia ser má-vontade do dr. Alberto Martins. Não é. É um pouco mais grave. É apenas e só reflexo da forma como o dr. Alberto Martins, e a generalidade das pessoas, a começar nos próprios agentes políticos, entendem a política e o seu exercício.
Essa postura do dr. Alberto Martins é apenas e só reflexo do entendimento da política como uma técnica, como algo em que existe uma Solução para todos os problemas de uma sociedade, Solução essa que poderá ser racionalmente descoberta, não percebendo que a política implica escolhas. Não percebendo que cada opção política, por muitos benefícios que traga, implica também custos. E não percebendo que o exercício da actividade política, numa democracia, se baseia precisamente na competição entre grupos que entendem que os custos das propostas políticas que cada um deles defende são compensados pelos seus benefícios. Quando não se concebe a ideia da política como uma actividade que implica escolhas entre duas ou mais propostas, cada uma implicando os seus respectivos custos e benefícios, as discordâncias políticas não são vistas como legítimas. Se alguém não concorda, ou é porque não "percebe" a virtude das políticas de um Governo, ou é porque quer o seu fracasso, apesar de saber que ele está certo. Porque se se parte do princípio de que a política é uma técnica, em que é possível encontrar uma Solução racional para os problemas de uma sociedade, a discordância só é possível se fruto de fraco raciocínio ou ruindade.
Assim, os agentes políticos que partem deste pressuposto (embora chegando a conclusões diferentes acerca de qual é a tal Solução racional), em vez de argumentarem em redor dos méritos das suas propostas, e das razões pelas quais consideram que os custos das mesmas são compensados pelos seus benefícios, centram esses "argumentos" na integridade moral do seu opositor. O opositor não gosta de pobres. O opositor está ao serviço da banca. O opositor está ao serviço dos sindicatos. O opositor está ao serviço dos aparelhos. Ou o opositor é estúpido e pouco sofisticado como "esse Bush". Esta postura é grave e perniciosa, pois ao centrar-se na "estatura moral" dos intervenientes, torna a discussão política numa mera troca de acusações pessoais. O que tem o efeito de descredibilizar ainda mais os agentes políticos e a própria actividade política. Tem o efeito de dar ainda mais razões aos eleitores para pensarem (e agirem em conformidade com esse pensamento) que "eles" são "todos iguais", e que se ocupam a insultarem-se uns aos outros. Esta postura dos agentes políticos é uma postura demagógica, e que apenas convida a mais demagogia. É uma postura que, embora no curto prazo não prejudique quem a exibe, acaba por, no longo prazo, prejudicar todos. Prejudica a própria democracia, por diminuir, ao convidar a demagogia, as condições de governabilidade do país. E, perante isto, não há confiança e optimismo que nos salve.
Posted by Bruno at 10:11 PM
Barbaridades 2
A propósito do meu post de ontem, o meu amigo João (que, aproveito para dizer, começou a escrever também no Bonfim) escreve acerca das barbaridades proferidas pelos habitantes da mais moscovita das cidades portuguesas, acerca desse Bush. Diz o João (e pela amostra, com razão) que os ditos são bem mais expansivos que os senhores jornalistas. E imagino que sejam também bem menos apelativos que Susana André.
Posted by Bruno at 10:04 PM
setembro 20, 2005
Barbaridades
Ouvi, na SIC Notícias, pela voz da jornalista Susana André, que os EUA planeavam, para daqui a uns anos, uma nova ida humana à Lua, numa operação visando a preparação de uma ida a Marte. Disse a senhora jornalista que tal façanha dependeria de um vasta parte do orçamento federal, "numa altura em que todos os recursos são necessários" (estou a citar) na ajuda às vítimas do Katrina. Os senhores jornalistas, e os senhores que escrevam as notícias lidas pelos senhores jornalistas, deveriam prestar mais atenção ao que escrevem e dizem. Talvez evitassem dizer barbaridades como esta. Que não deixam de o ser, só por serem ditas por Susana André (gosto muito do trabalho dela). Em primeiro lugar, os gastos na ajuda às vítimas do Katrina não são incompatíveis com a existência da NASA, nem com o orçamento desta. E em segundo lugar, convém notar que a expressão "todos os recursos são necessários", referindo-se ao orçamento federal, e à porção deste que deverá ser aplicada na ajuda às vítimas do furacão, é tudo menos verdadeira. Dirão os leitores mais em sintonia com as novas verdades, que tudo não passa de uma figura de estilo. Que a expressão "todos" não quer, realmente, dizer "todos". Respondo-lhes que sim. Os leitores que tratam as novas verdades por "tu" (embora "verdade" não queira dizer "verdade", e "tu" seja uma palavra de significados múltiplos) têm razão. Não passa de figura de estilo. E o problema é precisamente esse. Demasiadas figuras de estilo. Demasiada criação. Pouca atenção prestada à matéria acerca da qual se está a falar. No mundo alternativo criado pelos discurso criativo dos jornalistas dos novos tempos, Bush é a Maldade em pessoa. Não gosta dos pobres. Não gosta de pretos. Não gosta de ninguém, a não ser austronautas e cowboys, especialmente se combinados. Prefere gastar dinheiro na NASA do que a ajudar vítimas. Prefere dar dinheiro à NASA, "numa altura em que todos os recursos são necessários" para ajudar as vítimas. É este o mundo que criam. O mundo que queriam. A não ser que todo o discurso dos senhores jornalistas não queira dizer nada. Hipótese que me parece estar mais perto da realidade, sendo que "realidade" quer dizer isso mesmo.
Posted by Bruno at 10:16 PM
setembro 18, 2005
Eleições na Alemanha
São já conhecidas as projecções dos resultados das eleições alemãs. Aquilo que elas revelam é bastante interessante, e merece ser analisado. A CDU (de Merkel) e o SPD (de Schroeder) terão obtido o mesmo número de deputados no Parlamento, e tendo em conta os resultados obtidos pelos partidos mais pequenos, uma destas três hipóteses acabará por se concretizar: um governo de Grande Coligação CDU/SPD; um governo de coligação da CDU com os Liberais e os Verdes; um governo de coligação do SPD com os Liberais e os Verdes. O que significa isto? Qualquer que seja a hipótese que acabe por se concretizar, as reformas que teriam de ser aplicadas na Alemanha, ou seriam adiadas, ou acabariam por ser aplicadas a meio-gás, em versões amputadas, em consequência de um programa de governo de menor denominador comum entre as partes. Para perceber o que de realmente significativo isto implica, é importante ter em conta o desenrolar dos acontecimentos da campanha eleitoral, até chegarmos ao resultado de hoje: a CDU gozava de uma vantagem significativa. Merkel apresentou Paul Kirchoff como futuro Ministro das Finanças, e este fez uma série de declarações defendendo soluções no mínimo polémicas, como a questão do flat-tax. Simultaneamente, Schroeder, que se demitiu por parte do seu partido não apoiar a sua agenda de reformas, começou a fazer campanha com uma plataforma anti-reformas, em defesa do status-quo. A subida quase repentina do SPD anti-reformista, acompanhada da descida da CDU associada às propostas reformistas de Kirchoff, permite-nos observar uma coisa: a dificuldade que existe hoje em apresentar um programa de governo reformista. O sistema político alemão, e a dependência de coligações que dele decorre, cria complicações que lhe são particulares. A constante necessidade de um largo consenso, não só entre partidos, mas entre partidos e associações sindicais e laborais, tornam complicado o aparecimento de um projecto de ruptura. Mas existem aqui aspectos que são comuns a todas as democracias europeias. Um sistema social de protecção elevadíssima está a tornar-se, progressivamente, insustentável, mas grande parte do eleitorado resiste às reformas que tal situação implica. Assim, em duas semanas, o voto na CDU desceu, à medida que um projecto mais ambicioso de reformas se começou a tornar público, e o voto no SPD subiu, à medida que Schroeder começou a utilizar o seu demagógico discurso anti-mudanças. Tal como em Portugal, relembre-se, o PS ganhou as eleições, por maioria absoluta, com um programa que não era mais que a defesa da manutenção de todos os privilégios existentes. A Alemanha tem a vantagem de ser um país rico. Pode dar-se ao luxo de perder vinte anos sem fazer reformas necessárias. Portugal não. Portugal não pode perder vinte anos sem que várias reformas sejam postas em prática no nosso país. Porque Portugal é um país pobre. Que nem sequer se pode dar ao luxo de ter a Alemanha a perder vinte anos sem reformas.
Posted by Bruno at 09:57 PM
setembro 17, 2005
União
O dr. Almeida Santos entendeu por bem comparar Cavaco Silva a Salazar. A razão(para além da escassa capacidade argumentativa do histórico)? Cavaco faz esforço para se afastar dos partidos. Salazar também não gostava deles. Não ocorre ao dr. Almeida Santos a possibilidade de não se gostar do estado a que chegaram os partidos, e simultaneamente, nada ter contra a democracia e um sistema partidário. Isto para além de que não há mal nenhum em um candidato presidencial se querer destanciar do partido A ou B. Aliás, não deixa de ser estranho que o dr. Almeida Santos apoie um candidato que quer "unir os portugueses". É que o dr. Salazar também queria. E o problema estava precisamente aí. Demasiada vontade de união. Incompatível com a variedade de opiniões e de partidos.
Posted by Bruno at 10:04 PM
Apoios
Chegou ao meu conhecimento o facto de José Castelo Branco ter declarado o seu apoio ao dr. Mário Soares: "Vou apoiar o dr. Mário Soares. Seria uma majestade no trono. Uma rainha-mãe." Se fosse preciso alguma razão para votar em Cavaco Silva, aqui está ela. Embora o apoio do General Ramalho Eanes a este último possa gerar algumas dúvidas...
Posted by Bruno at 09:59 PM
Back in Black
No Blog dos 300 (número que, a cada dia que passa, está mais perto de vir a corresponder ao peso dele), o senhor meu pai.
Posted by Bruno at 09:55 PM
setembro 16, 2005
O Governo e a Lei
O caso da aceitação, por parte do Presidente da Assembleia da República, da proposta apresentada pelo Governo e pelo grupo parlamentar do PS, relativamente ao referendo sobre a questão do aborto, é mais um exemplo de a quão baixo se desceu neste país. Não pela pergunta, que ao contrário da proposta anterior, é sensata e clara. Ao contrário da anterior, percebe-se aquilo que está ser perguntado, a pergunta faz sentido, e é possível colocar a cruz no "Sim" ou no "Não" sem ter receio de estar a votar em algo que não é bem aquilo que se pensa. É mais um exemplo do baixíssimo degrau comportamental deste governo, porque tanto o Governo, como o grupo parlamentar do PS (que apresentaram a proposta), como o Presidente da Assembleia (que a aceitou), todos eles, sabem estar a ir contra a lei. Todos eles sabem que estão a ir contra a Constituição. Todos eles sabem que não podem fazer aquilo que estão a fazer. Mas fazem-no. Ou porque querem desviar a atenção de elementos menos positivos da sua actuação, ou porque não têm mesmo qualquer respeito pelas regras mínimas de uma democracia. Nenhuma das hipóteses abona muito a favor das partes em causa.
Posted by Bruno at 10:37 PM
Estaríamos Melhor
Hoje, no Público, Miguel Sousa Tavares vocifera contra o governo, criticando com toda a justiça e razão a pouca vergonha que o Governo demonstra ao usar o Estado em favor do partido que o apoia e dos seus membros, e ao procurar controlar, com o aparelho do seu partido, todo o aparelho do Estado. Sousa Tavares é um comentador único. Extraordinário. Extraordinário em como consegue estragar algo que diz com toda a razão, como o consegue estragar devido aos seus ódios pessoais, e à forma irreflectida e descabelada como fala deles. Veja-se a seguinte passagem: "Felizmente, não vivemos ainda na América de Bush, mas roça quase os limites da desonestidade intelectual pretender ver esta nomeação de Oliveira Mrtins um acto coerente de gestão e uma garantia de acrescida independência do Tribunal de Contas". Infelizmente, não estamos na América de Bush. Porque na América, seja a de Bush, de Clinton, de Kennedy, de quem quer que seja o Presidente, a vergonha que se tem visto em Portugal é muito mais complicada de levar a cabo. Porque, como MST muito bem sabe, qualquer indivíduo nomeado para um qualquer cargo público relevante (Supremo Tribunal, embaixador nas Nações Unidas) é forçosamente sujeito a rigorosas sessões de inquérito no Congresso, e a um parecer elaborado por esse órgão, votado pelos apoiantes do Executivo e pela oposição, e isto num país em que, muitas vezes, o Congresso é controlado pelo Partido do candidato derrotado nas Presidenciais. MST sabe isto, e sabe-o muito bem. Mas era preciso falar mal "desse Bush", até porque, como se sabe, basta olhar para a cara dele para se vêr que é mais estúpido que Bin Laden, e para isso, MST até nem se importa de estragar o resto do seu artigo com uma desnostidade intelectual semelhante à que pretende criticar. É pena.
Posted by Bruno at 10:13 PM
setembro 15, 2005
A Natureza do Terror
A al-Qaeda terá "declarado guerra" aos xiitas do Iraque, por estarem a "colaborar" com o "invasor infiel". Era altura de se começar a perceber: o alvo desta gente não é o imperialismo americano, não é o exército ocupante. São todos aqueles que não vivem de acordo com os preceitos que estes assassinos gostariam de ver aplicados. Incluindo aqueles que estes terroristas afirmam estar a libertar da tal ocupação. Claro que quem não quis perceber isto antes, também não o irá perceber agora. Mas as desculpas começam a ser cada vez mais escassas. E claro que estaremos, muito provavelmente, no início de uma nova escalada de violência no Iraque. Mas está é também uma oportunidade que não deve ser desperdiçada: uma oportunidade da comunidade muçulmana que não deseja uma "guerra santa" contra tudo e todos, condenar, inequivocamente, aqueles muçulmanos que matam "infiéis" e outros muçulmanos, em nome da religião que dizem estar a defender. Se o Islão não é sinónimo de terrorismo, esta é altura de o provar. E talvez assim se possa começar o resolver o problema.
Posted by Bruno at 10:18 PM
A Ler
No Arte da Fuga, este texto do António Amaral acerca da Segurança Social. O money-quote:
"(...)se o esquema fosse honesto, cada um de nós poderia comparar o dinheiro que o Estado nos subtrai "para nosso bem", e regalias a que nos dá direito, com o que o mercado pode oferecer. E poderíamos querer optar por alternativas que nos garantissem uma vida mais adequada às nossas necessidades, ambições e espectativas. E diríamos, com justiça, que o Estado socialista limita a nossa liberdade económica e castra o nosso direito à procura do nosso bem-estar."
Posted by Bruno at 10:14 PM
setembro 14, 2005
A Desonestidade do Presidente da Comissão
A ONU está reunida. Cimeira comemorativa dos sessenta anos da instituição. À excepção das iniciativas do Fórum Novas Fronteiras, as cimeiras da ONU são os eventos em que o maior número de banalidades é partilhado com quem quiser ouvir (poucos, tanto no caso da ONU como do Novas Fronteiras). Nada tão cheio de vazio como os discursos proferidos numa Cimeira da ONU. No espírito do acontecimento, Durão Barroso, ex-Primeiro-Ministro de Portugal, e Presidente da Comissão Europeia, resolveu escrever um artigo no Público. "A generosidade da Europa", intitulava-se. Durão elogia, como o próprio título nos anuncia, a generosidade da "Europa". A dado passo, pergunta: "Quando é que os EUA se decidem a ajudar os mais pobres?". Claro que Durão sabe que os EUA já "ajudam" os mais pobres. Mas Durão queria mais. Está no seu direito. Como estão, aliás, os cidadãos dos EUA e os seus governantes, que não têm qualquer responsabilidade perante quaisquer outros cidadãos (e o dinheiro dos seus impostos) que não os do seu país, de não querem o mesmo que Durão quer. Durão orgulha-se do facto de "80% deste aumento [o aumento, por parte dos países do G8, da ajuda aos países sub-desenvolvidos] ser proveniente da UE e dos seus Estados-membros". Não me custa a crer que os países da UE membros do G8 sejam aqueles que mais dinheiro dão para esses países. Mas tratar o somatório das contribuições de 4 países como se fossem as de um só (comparando-se assim com a suposta avareza dos EUA e restantes membros do G8) é no mínimo desonesto. Mas a desonestidade do Presidente da Comissão não se fica por aqui. Do alto da superioridade moral que a sua condição de "europeu" supostamente lhe concede, o dr. Barroso lança um repto: que todos os países abram as suas fronteiras aos produtos dos países menos desenvolvidos, que "sigam a vontade" da UE de suprimir os subsídios agrícolas, e que dupliquem a ajuda a esses países. Comecemos por esta última. Duplicar a ajuda é duplicar o desperdício, ou em alternativa, a frota de Mercedes dos ditadores dos países supostamente ajudados. Em qualquer dos casos, dispensável. Mas não há aqui desonestidade. Apenas ingenuidade. Mas Durão é desonesto ao vir defender a abertura dos mercados (uma política que de facto, deveria ser adoptada), numa altura em que os tão generosos países da UE fecham os seus mercados aos textêis chineses, prejudicando os pouco abastados indivíduos que trabalham nas fábricas que os produzem (para além dos consumidores nacionais). E quanto à supressão dos subsídios agrícolas, poderá muito bem ser uma "vontade" de Durão, mas dificilmente o será dos governantes franceses, por exemplo. Durão sabe que essa vontade não é partilhada, nem será satisfeita, mas não hesita em tomá-la como exemplo da tal "generosidade" da tal "Europa", entidade acerca da qual Durão Barroso fala como se realmente tudo fosse consensual no seu seio. Como se ela realmente estivesse unida, como se crê no casulo formado pelos gabintes de Bruxelas.
Posted by Bruno at 09:53 PM
setembro 13, 2005
Governo e Autárquicas
O Público de ontem dava grande destaque às próximas eleições autárquicas. Na segunda página, podia ler-se o título "O primeiro teste à resistência de José Sócrates". Este título demonstra bem que se instalou quase por completo a ideia de que as autárquicas são vistas como uma espécie de eleições legislativas intercalares. Que se instalou a ideia de que o somatório dos resultados de eleições locais traduz um significado nacional. Aliás, parece que essa ideia é partilhada por eleitores e eleitos, em simultâneo. O resultado é simples. É impossível governar. Bem ou mal. E é por isso que a ideia de Rui Rio, lançada há algum tempo, de realizar as eleições autárquicas em várias datas, uma para cada autarquia, ao longo de um largo período de tempo, me parece bastante sensata. Não só poderia libertar um governo da tentação de promover políticas eleitoralistas, para agradar às suas estruturas distritais, como impossibilitaria uma leitura nacional das eleições autárquicas. Como acontece com quase tudo o que parece sensato neste país, dificilmente está proposta será tida em conta.
Posted by Bruno at 10:27 PM
Sofrimento
Segundo leio, Michael Jackson terá escrito uma canção em homenagem às vítimas do furacão Katrina. Será isto a modernidade? Hoje em dia, canta-se por tudo. Para combater a pobreza. Para combater a guerra (ignorando o paradoxo). Para derrotar Bush. Para tudo, menos para fins realmente nobres. Ainda sou do tempo em que se cantava por uma de duas razões: pela música (coisa um pouco amaricada, e tão condenável como as cantorias de solidariedade) ou pelas gajas. Já ninguém canta e toca por causa das gajas. Especialmente Michael Jackson, um não-apreciador. Michael Jackson, no entanto, preocupa-se. Com as vítimas do Katrina. E principalmente com a sua carreira. Mas fica a pergunta: não terão as vítimas do Katrina sofrido o suficiente? Mais, não terá todo o mundo sofrido o suficiente? Não será uma canção de Michael Jackson completamente dispensável?
Posted by Bruno at 10:06 PM
setembro 12, 2005
Revelador
Segundo o Sunday Times, o Primeiro-Ministro britânico Tony Blair tem vindo a ser aconselhado a transformar o Holocaust Memorial Day num outro dia, intitulado Genocide Memorial Day, em que o Holocausto será relembrado em conjunto com os mortos na Palestina, Tchetchénia e Bósnia. É bem notória a tentativa de equivaler a atitude de Israel perante a Palestina à política de extermínio delineada pela Alemanha nazi. Que diz mais acerca de quem a procura fazer do que acerca do seu alvo. Nada que supreenda em quem considera que uma homenagem ao número gigantesco de pessoas chacinadas metodicamente deve ser encarado como uma forma de discriminação sobre outro grupo de pessoas.
Posted by Bruno at 10:06 PM
Um Ano
Os parabéns à rapaziada do Office Lounging (em particular ao Luís Silva, o único que conheço pessoalmente) pelo aniversário.
Posted by Bruno at 09:59 PM
setembro 11, 2005
9/11

Posted by Bruno at 10:03 PM
setembro 09, 2005
O Governo Está Morto
O espectáculo dado ontem, pelo Primeiro-Ministro e parte significativa do seu Governo, em Tróia, é um elemento bem revelador do carácter desse mesmo Governo. Não por causa do "interruptor falso". E não só por ser revelador do país que é Portugal, o facto de aquilo que, sendo um investimento privado, deveria ser importante para os seus investidores, ser tratado como um acontecimento político. Mas precisamente por se ter tratado de um espectáculo. Porque é isso que este governo faz. Espectáculo. Tal como o fazia o de Santana Lopes. A música épica. Os anúncios de fim de crise. Os apelos do Ministro da Economia ao investimento privado, como se a função do investimento privado não fosse o lucro de quem investe, mas a prossecução dos fins políticos de um Governo (isto para não falar de que não é por causa de apelos que se investe ou deixa de investir). Tudo um enorme vazio. Que já não espanta. E se espantou no passado, só espantou quem antes esteve a dormir.
Convém recordar o percurso deste governo. Desde antes de o ser. Elemento em comum? A encenação. A campanha eleitoral do PS centrou-se na ideia da "confiança". Era preciso "voltar a acreditar". E "os portugueses", como é seu costume, acreditaram. Acreditaram que o "optimismo" era suficiente para dispensar medidas duras. Que a confiança seria suficiente para continuarem a ser alimentados pelo Estado. Que como Santana já não haveria ninguém. Quando o Governo foi eleito, nova encenação. Era necessário aumentar os impostos, para salvar o "Estado social". De facto, era. Quem quer que o Estado seja o pai omnipresente da sociedade, tem de ter consciência que isso depende de impostos, que serão cada vez maiores com o passar dos anos. Mas tal como durante as eleições fingiu não saber isto, o Governo fingiu depois estar surpreso e chocado com a situação real.
O Governo tinha, no entanto, duas enormes vantagens. Por um lado, a memória de Santana, que predispunha as pessoas a certos sacríficios. E a maioria absoluta que goza permitia-lhe alguma margem de manobra. Lembro-me até de um terceiro ponto: tinha uma parte significativa da oposição, PSD e CDS/PP, disposta a dar apoio a determinadas medidas. E o que fez o Governo? Como escrevi aqui na altura, introduziu medidas insuficientes, por um lado, e contraproducentes, por outro. Pretendia um equílibrio complicado de obter, entre a necessidade de tomar certas medidas, e não provocar descontentamento. Assim, procurou dividir o mal pelas aldeias, para que não se dissesse que privilegiava este ou aquele. Mas sem, no fundo, mudar nada de estrutural. Nada do que era realmente preciso mudar.
Ao contrário do que propagandeava, o Governo não resolvia nada. Mas as dificuldades que haviam sido impostas eram vistas como necessárias e justificadas por boa parte da população. Mas ao anunciar os seus megalómanos projectos de "investimento público", o Governo desperdiçou tudo isto. A encenação de que esse investimento público era a chave do desenvolvimento não estava em sintonia com a encenação das medidas difíceis que "estavam a combater o problema". E desde então, a "confiança", que era a base (ilusória) deste governo, tem-se dissipado. Mais uma vez, nada que espante. Mas grave, num país que, para além de maus governos, tem sofrido com a incapacidade destes para durarem até ao fim.
Aproximam-se eleições autárquicas. Como dizia Vasco Pulido Valente a semana passada, um mau resultado do PS irá limitar a "legitimidade material" do Governo por si apoiado. Desde que o engenheiro Guterres introduziu a moda de entender qualquer eleição como um referendo à continuidade de um governo (situação agravada com a dissolução levada a cabo por Sampaio), a margem de manobra deste é reduzida. O que, mesmo tendo em conta que este é um mau Governo, é extremamente grave, pois subverte o normal funcionamento de uma democracia, impedindo qualquer Governo, seja ele bom ou mau, de cumprir o seu mandato. No fundo, de governar. Mas se Sócrates não parece ter noção de que o investimento público não é a chave do sucesso, já de politiquice entende. E bem. Sabe o que é preciso para obter e conservar o poder. E sabe o que representou a demissão do seu inspirador político. Sabe, portanto, que as eleições autárquicas serão entendidas por grande parte do eleitorado como um referendo sobre a continuidade de um Governo que, não por ser mau, mas devido às suas contradições, está ferido de morte. Sabe, portanto, que se perder as autárquicas, não pode perder as presidenciais.
Por isso mesmo se deixou embrulhar, como disse, mais uma vez, VPV, na candidatura de Soares. Não tinha outra solução. Mas ao embarcar nela, assinou a sua sentença. Uma vitória de Cavaco Silva (se este se candidatar), seré entendida como uma derrota do Governo. Como um voto de desconfiança no Governo. Com a moda inaugurada por Guterres, seria o fim do dito. Mas Sócrates sabe também, por muito que finja não saber, que Soares não é a sua salvação. Soares candidata-se para defender o "seu" PS. O PS contra o "revisionismo social-democrata" que ele vê em Sócrates. Uma eventual vitória de Soares representaria a vitória de alguém que se vai meter em tudo, e em tudo ir contra o pouco que este governo possa fazer de bom, ou sequer de menos mau. Sócrates está entalado entre um candidato que não lhe colocaria entraves a certas medidas (por muito que eventualmente as considere insuficientes), mas cuja vitória seria entendida como uma vitória contra o Governo, e um candidato que, embora apoiado pelo partido do Governo, pouco ou nada partilha com este último.
O governo dificilmente cairá. Mas pior que um mau Governo, só um Governo que se arrasta apesar de já morto. Um Governo que apenas procura aproveitar o tempo em que ainda o é, para dominar o aparelho de Estado. Para alimentar as suas clientelas. Para levar a cabo os projectos que alimentam aqueles de deles dependem. Um Governo que, mesmo não existindo, pretenderá ocupar tudo o que existe no Estado. Com Cavaco, entre a espada (a hipótese de dissolução por estar a governar mal, que não me espantaria em Cavaco) e a parede (a hipótese de dissolução devido ao descontentamento popular, que embora não seja do gosto de Cavaco, poderá a partir de certo ponto ser a única alternativa. para além de que, mesmo que assegure, o que seria acertado da parte de Cavaco, não a considerar, a ameaça será sempre sentida por Sócrates). Com Soares, com a espada já espetada (com tudo o que não seja representativo do "verdadeiro PS" a ser chumbado e criticado abertamente por Soares). Qual destes cenários o mais grave... Não pelo destino do Governo. Mas porque irá agravar as condições de governabilidade deste país. E sem essas condições, qualquer governo que queira (pouco provável) realmente reformar o estado de coisas, não terá sequer margem de manobra para o tentar.
Posted by Bruno at 09:55 PM
setembro 08, 2005
A Ler
Este texto do João Miranda, acerca da desigualdade existente nos EUA, e as considerações que as boas almas fazem em torno dela. O money-quote:
"Se não se pode comparar a União Europeia a 27 com os Estados Unidos, muito menos se pode comparar a Suécia com os Estados Unidos. A Suécia foi durante todo o século XX um país etnica e culturalmente homogéneo. Os Estados Unidos foram durante todo o século XX um país para onde emigraram milhões de pessoas de todas as partes do mundo, muitas delas das regiões mais pobres do mundo. Não se pode comparar aquilo que é grande e necessariamente heterogéneo com aquilo que é pequeno e necessariamente homogéneo."
Posted by Bruno at 09:53 PM
Derrotar a Direita
Com a candidatura de Carmelinda Pereira (juntamente com aquele outro senhor, militante do POUS), e mesmo que Cavaco não avance, Mário Soares já terá alguém à sua direita. Neste momento, Soares apenas teme que uma eventual candidatura de Freitas do Amaral lhe roube votos à esquerda.
Posted by Bruno at 09:47 PM
A Verdadeira Esquerda Já Tem Candidata
Carmelinda Pereira (juntamente com aquele outro senhor, militante do POUS), candidata-se à Presidência da República, para "defender as conquistas de Abril".
Posted by Bruno at 09:45 PM
setembro 07, 2005
21 Grams

Vi, pela primeira vez, ontem na RTP, 21 Grams de Alejandre Gonzalez Inarritu (em parcereia com o argumentista Gillermo Arriaga). 21 Grams é constituído pelas estórias de Paul (Sean Penn), Jack (Benicio del Toro) e Christina (Naomi Watts). Paul é um professor de matemática, às portas da morte esperando por um transplante cardíaco. O marido de Christina morre atropelado, sendo o seu coração aquele que salva Paul, que sentindo-se em dívida, a procurará. Jack é um ex-presidário, convertido ao cristianismo, que irá atropelar o marido de Christina, tendo de viver com a culpa de ser o responsável pela morte deste e das filhas.
Não conhecia o trabalho de Inarritu. Nunca vi o seu filme-revelação, Amores Perros (também escrito por Arriaga). Acerca de 21 Grams, tinha boas expectativas, alimentadas pelo meu amigo João, mas estava um pouco "de pé atrás", devido às críticas que ouvi do Ricardo. Ambos tinham razão. 21 Grams é um filme emocionalmente forte, profundamente dramático. Mas a montagem, fazendo com que o filme se desenrole de forma não-linear, acaba por minimizar esse seu efeito. Demasiado constantes, os saltos narrativos de 21 Grams não só não cumprem qualquer propósito de provocar uma reacção por parte do espectador (compare-se, por exemplo, com The Limey, filme menor de Soderbergh, que usa este artíficio, para além de outros, com resultados bem melhores), como até diminui algum impacto que alguns elementos da narração poderiam ter, se parte deles não nos tivessem sido revelados anteriormente. Fiquei com a nítida impressão de que se, à excepção da sequência inicial e da sequência final (perfeitas na sua construção e ligação com o resto do filme), o filme seguisse uma estrutura linear, teria sido muito melhor conseguido, e emocionalmente mais forte ainda.
Mas 21 Grams é um bom filme. Principalmente devido às suas excelentes interpretações. Sean Penn, dispensando o overacting habitual, mostra que é bom actor, e que poderia ser ainda melhor se não parecesse gritar continuadamente (nos outros filmes que fez) "olhem para mim, que sou o melhor". Del Toro é um grande actor (convém ignorar 007: License to Kill), confirmando aqui o seu valor. E Naomi Watts é, em todos os aspectos, a melhor actriz que Hollywood tem hoje para oferecer. Sem exageros, a metamorfose de mãe alegre para viúva em depressão, para toxicodependente sedenta de vingança, que Watts leva a cabo neste filme, é do melhor que tenho visto no cinema actual. Como se pode falar de uma tal de Nicole Kidman (que não era tão má como se dizia antes de Eyes Wide Shut, e não é tão boa como se tem dito desde essa altura), depois de ter visto esta mulher é algo que ultrapassa. Mas voltando ao filme em si, volto a dizer: um bom filme, em parte diminuido pela "chico-esperteza" do seu realizador, que aparentemente, quer repetir a brincadeira (saltos constantes na narrativa) no seu próximo filme.
Posted by Bruno at 10:24 PM
setembro 06, 2005
Retrato de Um País
A SIC Notícias e a RTPN (com repetição na RTP1) têm promovido nos últimos dias vários debates tendo em vista as eleições autárquicas. Houve dois que vi com particular atenção: o de Amarante (com Avelino Ferreira Torres) e Gondomar (com Valentim Loureiro). Os opositores destes dois senhores insistiram muito em criticar a falta de ética dos ditos, e suas práticas suspeitas de não serem propriamente respeitadoras da lei. E praticamente não falavam de outra coisa. Não ocorre a esses senhores que os eleitores que, por exemplo, votaram, no passado, em Valentim Loureiro, pouco ou nada se importam com a má reputação do Major. Essa má reputação, a falta de ética a que Marques Mendes, já era conhecida quando ele foi eleito. E as pessoas não deixaram de votar nele por causa disso. Aliás, o problema é precisamente esse. E é, portanto, escusado gastar todo o tempo do debate, uma das poucas oportunidades que terão para confrontar os seus adversários, e pormover a sua agenda, gastar todo esse tempo a acusar um deles de algo que em nada irá mudar a opinião que os eleitores têm em relação a ele. Outro elemento notório nestes debates é o contéudo das afirmações e das propostas feitas pelos candidatos em geral. Todos parecem estar a competir pelo lugar de quem gastou mais dinheiro no passado, e quem irá gastar mais dinheiro agora. Neste debates, todo um retrato de um país.
Posted by Bruno at 10:15 PM
Vai Começar
Há quem se queixe de Agosto, devido à silly season. Emigrantes de férias, directos sobre o calor, ou sobre os incêndios. Mas Setembro é um mês igualmente irritante na televisão portuguesa. Começa (já começou) com os preços dos manuais escolares. Todos os anos é a mesma coisa. Para a semana, devem começar com o enorme "stress" que o regresso às aulas causa às criancinhas, já de si muito traumatizadas pelo facto de serem avaliadas todos os anos (a escola é para promover o desenvolvimento pessoal e não para competir, dizem os entendidos) e pela política externa expansionista "desse Bush".
Posted by Bruno at 10:02 PM
setembro 05, 2005
Não Há Festa Como Aquela
Nunca fui à Festa do Avante. Dela, apenas conheço os relatos dos jornais e de submarinos direitistas que lá vão comprar livros de propaganda soviética em saldo capitalista. E fico sempre fascinado com o que ouço ou leio. Há um pormenor em particular que me desperta o interesse: as inúmeras referências ás causas internacionais anti-americanas. Por exemplo, a Palestina. Embora este ano não tenha dado por isso, é recorrente nas festividades do PCP o canto "Palestina vencerá". Curioso, na Festa patrocinada pelo mesmo órgão "noticioso" que em 1949 glorificava Israel por fazer "fracassar a agressão militar dos senhores feudais da Liga Árabe". A outra é a inevitável referência a Cuba e a Fidel. Li há dias no Público que, na Festa da Atalaia, Amora-Seixal, se pedia a libertação dos cubanos presos nos EUA. Curiosamente, não se pediu a libertação dos cubanos presos em Cuba por delito de opinião. Revelador. Como se fosse preciso revelar o que quer que fosse. No mesmo jornal leio hoje que um grupo "musical" pedia, para gáudio da revolucionária assistência, "uma Cuba independente e socialista". Protestos certamente dirigidos ao Império do Mal que, como é sabido, impede a saída de milhares de fugitivos vindos da Flórida em direcção à Ilha da Liberdade. Protestos desnecessários. Os Estados Unidos são os primeiros a garantir a independência e o socialismo de Cuba. Até promovem uma forma de impedir que o capital americano suje as mentes cubanas com a possibilidade de ganharem dinheiro com aquilo que produzem. Se há alguém que leve a Cuba a tenebrosa globalização (comprando-lhe produtos) são outros países. Leio também que Jerónimo de Sousa comparou a política de Bush à que conduziu "aos horrores da II Guerra". Espera-se, em nome da coerência aos princípios e à história do movimento internacionalista da luta dos trabalhadores, a assinatura de um Pacto entre o PCP e os autores dessa mesma política.
Posted by Bruno at 10:19 PM
Sound + Vision
Via Blog de Esquerda, descubro o Sound + Vision, o novo blog de Nuno Galopim e do grande João Lopes.
Posted by Bruno at 10:14 PM
setembro 04, 2005
Discurso
No mesmo discurso em que "anunciou" o fim da instabilidade no ensino, o senhor Primeiro-Ministro deixou escapar, em tom, aliás, bastante excitado, que o Governo iria finalmente por em prática aquele famoso programa de apoio aos mais necessitados, aos idosos, aquele mesmo programa que foi uma bandeira eleitoral, e que, notou António Barreto, afinal, já não era bem para aqueles que Sócrates havia dito ser, mostrando que a preocupação do referido senhor era angariar elogios, que não se alteravam quando aquilo uma alteração ocorria no elemento que havia merecido os referidos elogios. E ao anunciar o arranque do dito programa (não sei se é "programa", se "plano", ou quiçá "choque". Se alguém me puder informar...), o Primeiro-Ministro partilhou com quem o quis ouvir que considerava que isto era um sinal de coragem do governo, ao defender aqueles que "não fazem greves", que não têm poder de "contestação", etc. Não contesto a necessidade do Estado garantir um nível mínimo de rendimento àqueles que não o tem. Acho até que essa é uma das (poucas) funções que deve desempenhar. Apenas noto a curiosa fraseologia utilizada pelo Primeiro-Ministro. Curiosa porquê? Porque revela algo que aqui venho escrevendo acerca de José Sócrates, desde que se candidatou à liderança do PS, algo que já várias pessoas têm afirmado entretanto (o último, que eu tenha dado por isso, foi Manuel Lucena): Sócrates é bem mais parecido com Santana Lopes do que a sua imagem quer fazer crer. E até com o dr. Portas. Note-se o alardear de um suposto alinhamento com "os desprotegidos", os que "não têm voz", em detrimento dos que fazem greves e podem ir para as ruas barafustar contra o Governo. Em tudo semelhante ao discurso político do dr. Portas. Com duas agravantes: o facto do PS ter criticado duramente o dr. Portas por levar a cabo este tipo de discurso, e o facto do PS, ao contrário do CDS (e do PSD) ter como hábito, sempre que está na oposição, colocar-se ao lado precisamente daqueles que vão para as ruas, dos que têm poder de contestação, dos que fazem greves, dos que barafustam contra o Governo. E se ir contra essas pessoas é uma atitude que o senhor Primeiro-Ministro considera ser corajosa, então, o Primeiro-Ministro considerará também que, sempre que está na oposição, o PS e ele próprio não primam por essa qualidade. A não ser que não tenha qualquer vergonha. O que aliás me parece a hipótese mais provável.
Posted by Bruno at 09:46 PM
setembro 03, 2005
Anúncios
O Primeiro-Ministro, segundo a RTP (em rodapé informativo escandalosamente propagandístico), "anunciou o fim da instabilidade no ensino". Lembro-me de um senhor que, ainda há bem pouco tempo, também "anunciou" o fim da crise...
Posted by Bruno at 10:25 PM
O Que os Ingleses Chamam de Self-Loathing
Ouvi o dr. Carrilho insurgir-se contra o vazio de ideias.
Posted by Bruno at 10:22 PM
setembro 02, 2005
A Propósito
O editorial do Times que citei no post anterior refere ainda outro pequeno pormenor que tem sido ignorado pelas nossas televisões:
"It is alarming that the authorities of this superpower are struggling to bring swift relief. The job would have been easier if the 100,000 citizens who decided to ride out Katrina had obeyed the mandatory evacuation order, but their vulnerability highlights our broader human fragility."
Posted by Bruno at 10:46 PM
Mau Jornalismo
No Telejornal da RTP, essa imensa nulidade que dá pelo nome de Pedro Bicudo dizia em tom emocionado que este era um cenário nunca visto nos EUA. Em primeiro lugar, que conteúdo noticioso tem esta afirmação? Absolutamente nenhum. Apenas pretende emocionar. Pretende ser espectáculo. Tudo menos informar. É tudo menos jornalismo. Até porque o verdadeiro jornalismo, para além de ter como objectivo informar os outros, informa-se também ele. Se a nulidade alimentada com o dinheiro que o Estado suga aos contribuintes fosse um bom profissional, saberia, como sabem os jornalistas do Times, que o terramoto de São Francisco em 1906, ou o furacão que que devastou uma cidade do Texas, causaram também vários milhares de mortos. Aqui nem se trata de anti-americanismo, nem de anti-bushismo. Apenas e só de simples falta de profissionalismo.
Posted by Bruno at 10:38 PM
Reacções
Que Governo poderia planear a ajuda a uma cidade que foi completamente arrasada por uma catástrofe natural? Que Governo poderia responder à catástrofe de uma cidade inteiramente destruída, quando, para além dela, muitas outras sofreram danos graves? É um sinal de falhanço do Estado numa das funções que são seu exclusivo? Sim. Mas o Estado é feito de homens. Que cometem erros, que desconhecem o que acontecerá amanhã. Dirão que Bush demorou a reagir. Não deixa de ser curioso que apenas hoje essas pessoas tenham dito isso, no preciso dia em que Bush reagiu, demasiado tarde, dizem. Aparentemente, também só hoje se aperceberam da real dimensão da coisa. A informação tem destas coisas. Demora a chegar. Dirão que a ajuda demorou. Como se faz chegar a ajuda, quando toda uma cidade é destruída, incluindo os serviços de protecção civil locais, que se não ficaram destruídos, ficaram sem comunicações. É preciso levar a cabo uma complicada operação logística de transporte militar, que, por muito bem preparada que estivesse (e admito que não tenha sido esse o caso), demoraria sempre tempo a chegar, principalmente na dimensão que se exige. Nem vale a pena falar daqueles que insinuam que o governo federal não quis dar ajuda às pessoas de New Orleans, por preconceito racial (ouvido na CNN, e em relatos de conversa). Nem sequer vale a pena falar dos que falam de Quioto como se pudesse evitar o que quer que fosse. Sei de um sítio onde eles podem colocar o Tratado pelo qual nutrem tanto carinho. Consta é que não ficará muito bem iluminado, visto que lá o Sol não brilha. Na RTP, ouvi que era inacreditável como isto podia acontecer no país mais rico do mundo, e que demonstrava a diferença entre a América pobre e a América rica. Deixemos de lado a incompatibilidade entre uma e outra frase (porque se isto aconteceu na "América pobre", então já não seria tão "inacreditável"), e a qualificação de New Orleans como "América pobre", que será no mínimo duvidosa. Perante algo destas dimensões, a riqueza e a pobreza nada pode. O senhor francês que na CNN afirmava com um sorriso na cara que isto demonstrava a fragilidade da América, esse senhor que reze para que isto não aconteça no seu país, porque aí não haverá grandeur que o salve, como não haveria em lado nenhum em que se conjugasse a dimensão do furacão com a localização e as condições particulares de um sítio como New Orleans. As autoridades locais, federais e militares terão responsabilidades? Parece-me evidente que sim, embora eu não as saiba avaliar, aliás, como a grande maioria dos "entendidos" que se regozijam com o castigo da arrogância "desse Bush". Mas se as quiserem discutir, façam-no com seriedade. E isso, qualquer um pode ver que não é o caso.
Posted by Bruno at 09:39 PM
setembro 01, 2005
Política e Economia
E como era inevitável, a discussão começou mal. Soares anuncia a candidatura, e aquilo de que se fala, aliás, aquilo do qual ele próprio falou, é o "vácuo". Nada. Soares resolver tecer grandes considerações, para se defender das habituais vacuidades do prof. Marcelo, acerca de Cavaco Silva e da Economia. A questão que Soares toca, e que nada tem de original, é, pura e simplesmente, uma falsa questão. E cujo contéudo reflecte (para além daquilo a que Pacheco Pereira fez já referência) a ignorânica do próprio Soares, não propriamente em matéria económica, mas ignorância política.
Da parte das pessoas que "não gostam" de Cavaco Silva, à esquerda e à direita, o argumento que se usa é geralmente o mesmo. O de que ele é um contabilista, um técnico, que sacrifica a política em prol das contas. A falta de "humanidade" de que falou Soares, ou a fórmula da "subordinação do político ao económico" usada por Jaime Nogueira Pinto. Como digo, é uma falsa questão. Porque mesmo admitindo que isso é verdade, mesmo admitindo que, para Cavaco, tudo estivesse subordinado à "contabilidade", isso seria, antes de tudo o mais, uma concepção política da função do poder, sublinhando o termo "política". Uma concepção com a qual se pode concordar ou discordar, mas que não deixa de ser política (relativa aos assuntos da polis) por causa disso. Para além do mais, e é isto que Soares parece ignorar, ignorância essa que, mais uma vez, é em matéria de política, e não tanto económica, dentro dessa suposta subordinação de tudo às contas, há escolhas a fazer, escolhas essas que obedecem a critérios políticos. Um exemplo simples: a suposta obsessão com o défice. Existem, de forma simplificada, pelo menos duas formas distintas de equilibrar as contas públicas. Uma será aumentar os impostos. Outra, diminuir a despesa. A cada uma destas hipóteses, estão ligadas duas concepções distintas e inconciliáveis da função do estado e da sua relação com os cidadãos, duas concepções políticas, que orientam a acção económica ou financeira. Ou seja, não só a própria "subordinação do político ao económico", a ser verdadeira, é, paradoxalmente, uma concepção política antes de ser económica (acabando por tornar inválida essa fórmula), como dentro dessa concepção, há opções eminentemente políticas que terão de ser feitas.
O que nos conduz ao outro aspecto no qual as declarações de Soares (mas também as de Marcelo) revelam alguma ignorância, mais uma vez, política. Ambos parecem partir do princípio (Marcelo ao dizer que é preciso um Presidente que "perceba" de finanças, Soares ao proclamar uma pretensa ignorância em matéria económica para desvalorizar as questões de política económica que o país terá forçosamente de enfrentar) de que ninguém pode emitir opiniões em matéria económica, se não tiver uma formação na àrea. Ora, como já atrás escrevi, não só as considerações políticas permitem que se tenham entendimentos opostos em termos de política económica (diferentes pontos de partida conduzirão a diferentes objectivos) como mesmo tendo um objectivo consensual, ou relativamente consensual (o equilíbrio das contas públicas, por exemplo) existem considerações políticas prévias ao próprio problema, que conduzirão a formas diferentes de chegar a esse objectivo. Ou seja, a avaliação ou defesa de determinada política económica não é exclusiva de técnicos na matéria, pois ela não é uma matéria meramente técnica, mas sim política. E são essas considerações que deverão ser julgadas. Porque Soares faz essas considerações, quanto mais não seja ao dizer que isso não tem importância o que apenas quer dizer, como nota JPP, que Soares defenderá (e intrometer-se-á em tudo para o defender) a manutenção do insustentável "modelo social europeu" em nome dos princípios iluministas e da noção jacobina da política que sempre o animaram, agora mais que nunca). E eu não preciso de "perceber" de economia e finanças para fazer esse julgamento.
Posted by Bruno at 10:55 PM
Regressos
No Origem das Espécies, "mais um começo" do Francisco José Viegas. No Voz do Deserto, com o fim das férias do Tiago de Oliveira Cavaco.
Posted by Bruno at 10:53 PM