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junho 30, 2005
We Don't Live Here Anymore
No cinema, é comum os personagens acabarem "felizes para sempre". Quando um casamento enfrenta problemas, ou estes se resolvem de forma redentora, ou acaba, para que alguém encontre o príncipe ou a princesa encantada que lhes trará a felicidade. Vejam-se os clássicos românticos em que o homem e a mulher vindos de um outro casamento se encontram, vivendo o amor que, esse sim, ao contrário do passado, será até à morte. No cinema, nos filmes com um Hollywood ending a vida não é feita de dor e perdas. Essas poderão existir, mas terminam com o alcance da felicidade que sabemos não ir acabar. Em We Don't Live Here Anymore, filme escrito por Larry Gross (baseado no conto com o mesmo nome e no conto "Adultery", de Andre Dubus) e realizado por John Curran, não é assim. Em We Don't Live Here Anymore, "os adultos discutem". "Especialmente os adultos casados". Em We Don't Live Here Anymore, a vida não é algo feito de finais felizes. É dura. Feita de dor. Como a vida real. Os problemas estão lá. A questão está em saber se os personagens lidam com esses problemas, se se resignam perante a inevitabilidade da adversidade, procurando ultrapassá-la o melhor possível, ou se fogem dela, preferindo não a enfrentar.
Jack Linden (Mark Ruffalo) e Hank Evans (Peter Krause) são dois professores e amigos. Jack é casado com Terry (Laura Dern) e Hank, atravessando uma crise criativa, não conseguindo escrever um romance, é casado com Edith (Naomi Watts). O casamento de Jack com Terry, apesar dos filhos, ou também por causa dos filhos, parece estar à beira do fim, e o de Hank com Edith, apesar da filha, nem sequer parece um casamento. Jack trai a mulher (e o amigo) com Edith, e Hank e Terry querem trair os outros dois, sem que estes se pareçam importar muito com essa possibilidade.
Larry Gross, o argumentista, escreveu coisas como 48 Hours (esse mesmo, com Eddie Murphy e Nick Nolte), ou um tal de Prozac Nation, coisa que nunca vi. Mas foi também autor do argumento (também adaptado) de True Crime, filmezinho razoável do mestre Clint. De John Curran, o realizador, não lhe conhecia nada. A parceria entre os dois funciona bem. We Don't Live Here Anymore insere-se naquele sub-género do cinema independente norte-americano, os "relationship-movies". A acção decorre através dos diálogos e do estado emocional das personagens. É o que eles dizem, e o que eles pensam (e também o muito sexo a que se vão entregando), que conduz o filme. A realização e a montagem (por vezes demasiado formalistas, podendo incomodar alguns espectadores, o que não é o meu caso) servem como auxiliar dos diálogos, permitindo ilustrar o "estado de alma" dos vários personagens. A alternância das imagens de Jack com Hank no bosque onde o primeiro andou a fornicar a mulher deste último, e as cenas onde, precisamente, fornicava Edith, ou a alternância das imagens de Jack e Edith, cada um na sua respectiva cama, mas ambos na mesma posição, e com a mesma expressão, são o bom exemplo do uso da montagem neste filme, e daquilo que consegue transmitir emocionalmente.
Laura Dern continua aqui a carreira que tem vindo a fazer pelo cinema independente. Sem deslumbrar, faz o que tem a fazer. Peter Krause, mais conhecido pelos seus papéis televisivos, dá aqui um excelente exemplo de bem usar o underacting. Ruffalo, que conhecia essencialmente de filmes pouco recomendáveis, confirma aquilo que tinha dado a entender em Eternal Sunshine of the Spotless Mind (e, ao que consta, em outros filmes que nunca vi), ou seja, que até tem jeito para a coisa. E Naomi Watts? Naomi Watts é indescrítivel. Não há descrição para Naomi Watts. Naomi Watts é o caminho para a paz mundial. Se puder algum dia haver harmonia entre os povos, ela existirá em torno de Naomi Watts. Aqui, num misto de fragilidade e pecado à flor da pele, Naomi Watts faz-nos agradecer a David Lynch por um dia ter descoberto esta senhora. Os comunistas substituíram Deus pela História. Eu substituí Deus pela Naomi Watts.
São aliás estas interpretações que dão força às complicadas personagens de We Don't Live Here Anymore, e que nos conduzem pelas complicadas relações que estas mantêm umas com as outras. Jack queria apenas viver a vida "como a deveria ter vivido". Ama Edith, a mulher com quem tem um "caso", porque era com ela, com o que ela fazia, com o que ela era, que deveria ter vivido a sua vida. Edith ama Jack, porque precisa amar alguém. O seu marido precisa dela, mas não consegue amar ninguém. Como precisa amar alguém, Edith ama Jack, e se não o amasse, "amaria outro qualquer". Hank, pura e simplesmente, queria poder amar toda a gente. E Terry ama Jack, mas apenas queria ser amada por alguém. Todos queriam apenas ser felizes. Felizes como nos filmes com um Hollywood ending. "Toda a gente merece ser feliz", diz Edith a Jack. Jack não nega. Apenas se ri. Mas a questão não está em se merecem ou não ser felizes. Está em se o conseguirão ser, tendo de viver consigo próprios. Tendo de viver com aquilo que fazem. Tendo de viver com aquilo que são.
Posted by Bruno at 05:58 PM
junho 29, 2005
Um Pouco de Política
Os partidos políticos portugueses têm o mau hábito de, durante uma legislatura (quando não estão no Governo), ou durante uma campanha eleitoral, apresentar dois tipos de propostas: ou incrivelmente genéricas e relativas a aspectos que dependem mais de opções de terceiros do que de opções políticas (aumento do emprego ou da competitividade, por exemplo), ou propostas demasiado concretas e detalhadas. As primeiras são utilizadas porque, não representando nada, não obrigam os partidos a nada. As segundas são utilizadas porque "mostram trabalho" (ocupam muitas páginas nos programas eleitorais) e, talvez mais importante, ao serem tão detalhadas, permitem sempre serem atiradas para o lixo, por "desconhecimento da realidade deixada pelo governo anterior". Os exemplos de ambas são vários. Tantos que nem sequer valem a pena serem mencionados. Devo por isso elogiar o CDS/PP pela proposta recentemente apresentada de ter como meta a redução da despesa pública para apenas 40% do PIB, num período de 6 a 8 anos. Este é o tipo de propostas que cabem num "manifesto eleitoral" nos países civilizados. Estabelece uma meta a prazo, meta essa cujo cumprimento depende única e exclusivamente de opções políticas de um Governo. Os meios de atingir essa meta cabem em projectos-lei, e desejos cabem em conversas de café. Nem uns nem outros cabem nos ditos maifestos eleitorais, nem em eventos (como aquele em que o CDS anunciou essa proposta) que visam preparar uma estratégia que, em última análise, visa a elaboração de um manifesto eleitoral (mesmo que apenas daqui a 4 anos). Para além disso, merece também elogio o reconhecimento daquele que é um dos mais graves problemas políticos do país, a sua imensa dependência do Estado e o peso que este tem.
Mas dito isto, devo também assinalar que o CDS/PP incorre num erro também ele infelizmente bastante comum: apresenta um dado valor como meta, dando a ideia (que, admito, possa estar errada) de esse número ser um pouco arbitrário. Faço uma pergunta: porquê 40%? É verdade que é menor que 50%. Mas porque não 35%? Porque não 0%? O valor da despesa pública, em si, quer dizer pouco. Contabilidade pode ser uma coisa muito entusiasmante para alguém que perceba alguma coisa dessa área. Não é o meu caso. Para alguém que, como eu, olha para a política económica de um ponto de vista mais político do que económico, o valor da despesa pública deve ser apenas e só reflexo das necessidades daquilo que se entende dever ser o papel do Estado. A política económica deve ser delineada em função de uma concepção política da sociedade. Acho que o Estado deve executar apenas as funções que mais ninguém pode executar: defesa, segurança interna, justiça, representação externa (serviços administrativos que suportem estas funções). E que deve também garantir a quem não tenha, só por si, acesso a determinados serviços (saúde, educação), os recursos para tal, mas sem que esses serviços sejam fornecidos pelo Estado. A despesa pública deve ser a necessária para cobrir estas funções (para quem acha que o papel do Estado deve ser mais abrangente, deverá ser a necessária para cobrir essas funções mais abrangentes). Se essa necessidade corresponde a 40%, 50%, ou outro valor qualquer, caberá aos economistas definir. Dos partidos gostaria de ver um pouco de política. De escolhas. É isso que ainda não se vê na proposta do CDS/PP, por muito que certos aspectos mereçam elogios. Mas diga-se de passagem, não se vê no CDS/PP, nem em lado nenhum.
Posted by Bruno at 09:49 PM
junho 28, 2005
O País que Temos
Em Portugal, o Estado quer que as empresas sigam estratégias que favoreçam directamente os interesses do Estado (ou seja, o programa político do Governo que o ocupa). Veja-se o discurso de Jorge Sampaio sobre os bancos, por exemplo. Já as empresas querem que o Estado siga políticas que favoreçam directamente os interesses dessas empresas. A atitude costumeira de pedir maior liberdade de acção mas também maior protecção relativamente à "invasão" de produtos estrangeiros. É o país que temos. E é a receita para a desgraça.
Posted by Bruno at 10:26 PM
junho 27, 2005
Círculos Uninominais
A ideia é velha. O Governo deu-lhe ar de novidade. A possibilidade de alterar a lei eleitoral para criar círculos uninominais é hipótese há muito defendida por (quase) tudo o que é liberal, criticado por tudo o que é partido pequeno, e com atitude dúplice por parte dos dois maiores. Sempre olhei com cepticismo para essa possível alteração. Mas olhei com mais do que olho hoje.
Os círculos uninominais têm vantagem óbvias. Ao votarmos num candidato, num só candidato, ele passa a ser responsabilizado directamente, o que resulta numa maior responsabilização também do próprio eleitor. Responsabiliza o deputado porque o obriga a fazer campanha de "porta-a-porta", apresentando-se como candidato aos seus eleitores de forma directa. Impediria a substituição directa e de forma obscura de um deputado que sai por um outro que ninguém sabe quem é. Com círculos uninominais, a saída de um deputado implica uma eleição intercalar no círculo pelo qual foi eleito. Dá-se maior margem de independência ao deputado, visto que este passa a ter maior legitimidade democrática para desobedecer às ordens do partido. E responsabiliza o eleitor porque essa maior proximidade lhe permite conhecer melhor o que cada um dos candidatos a representá-lo propõe. Para além de que facilitaria a formação de maiorias absolutas, e portanto, aumentaria as condições de governabilidade.
Reconheço todas essas vantagens. E tendo o caso inglês como modelo, tudo me faria inclinar para esta opção. Mas, e sem querer parecer o dr. Portas, Portugal não é o Reino Unido. A nossa falta de cultura democrática, mais, de cultura liberal, poderia transformar as vantagens dessa proximidade nas desvantagens da demogogiazinha caciquista. O deputado que é eleito para defender os interesses da "terra", ou melhor, os empregos estatais (ou subsidiados pelo Estado) da "terra". Basta olhar para algumas das nossas Câmaras Municipais para termos uma amostra do que poderia ser o nosso Parlamento. E o caso de Daniel Campelo permite-nos não ter de ir tão longe sequer. Daí o meu cepticismo.
Mas reconheço que a situação está a chegar a um ponto insustentável. A quantidade de deputados que saem e entram sem os cidadãos darem por isso, quanto mais saberem quem eles são. O controlo quase total, ou total mesmo, por parte das direcções dos partidos, do sentido de voto dos seus deputados. O desprestígio do Parlamento, cada vez maior, e cada vez mais perigoso. Tudo isto me leva a pensar que não sendo perfeitos, os círculos uninominais seriam uma melhor opção que o actual estado de coisas. E mesmo o eventual caciquismo, a eventual demagogia da "defesa da terra", seria também da responsabilidade dos cidadãos. Aquilo que a prudência aconselharia a funcionar como uma diluição do poder, evitando a sua concentração, para evitar "ditaduras da maioria", em Portugal, transformou-se numa total diluição da responsabilidade. É esse quadro que precisa de mudar.
Mas essencialmente, o que precisaria ser alterado seria todo o papel, cada vez mais degradado, do Parlamento. Criar uma sessão semanal, em vez de mensal, de perguntas ao Primeiro-Ministro, sem agenda definida pelo governo, mas sim com total liberdade de escolha de tema a cada um dos deputados. Atribuir-se maior margem de manobra às oposições. Criar a obrigatoriedade dos Ministros de um governo terem sido eleitos como deputados nessa legislatura. Aumentar os vencimentos dos deputados. E não ceder cada vez maiores responsabilidades legislativas(as de um Parlamento) à "Europa". Uma maior saúde da nossa democracia teria de passar por aqui. Os círculos uninominais poderiam ajudar. Mas só por si, seriam insuficientes.
Posted by Bruno at 04:40 PM
Orçamento Pós-Moderno
Anda por aí grande rebuliço a propósito do Orçamento Rectificativo apresentado pelo nosso Governo. Não se percebe. O Orçamento, pelos vistos. Mas eu referia-me ao rebuliço. Está-se a valorizar demais o facto das contas estarem erradas. Ao contrário do que poderão pensar os obcecados pela aritmética, o governo está apenas a ser coerente com a sua modernidade. Pós-modernidade. Certo ou errado é noção absolutista. Num Orçamento dos tempos modernos é tudo relativo. E "isso das contas" é coisa ultrapassada.
Posted by Bruno at 04:27 PM
Idade e Impostos
É verdade, Carlos. A idade é como os impostos. Estão sempre a aumentar. No meu caso, por culpa dos meus pais e do Governo (cada um na sua área de responsabilidade), chegaram ao mesmo valor. Idade de taxa máxima de IVA, aparência de 10, e cérebro de 127. Senil. Completamente. Foi ao que cheguei. Mas obrigado na mesma...
Posted by Bruno at 04:18 PM
junho 26, 2005
Who Put the 'M' in Manchester?
Morrissey. E por causa disto, hoje não há post para ninguém.
Posted by Bruno at 10:41 PM
junho 25, 2005
Verão
Não gosto do Verão. Não gosto de nada. Mas detesto particularmente o Verão. Demasiado calor. Demasiado suor. Meu e das outras pessoas. Poderia pensar-se que, devido à minha condição de extrema magreza, certamente conhecida do leitor atento, não houvesse muito para suar. De facto não há. O que apenas antecipa o ponto de dseidratação total. É por ser magro, e tudo se evaporar mais rapidamente, que sofro. Por isso e por causa do cheiro. Do meu suor e do suor dos outros. Verão é suor. Verão é, portanto, sofrimento. Sei que há quem goste do Verão. Tenho amigos que gostam. Conheço os argumentos. Dizem-me que as raparigas de maior apelo se apresentam ainda mais apelativas. O próprio Pedro Mexia escreve sobre o assunto na Grande Reportagem. Bem sei que é verdade. E reconheço os méritos da situação. Mas nem isso me faz gostar do Verão. Também aí há tortura. O facto de todas as jovens mais apetecíveis circularem na praça pública em trajes menores é um factor de tortura, quando estou condenado a nada mais que a relação distante que vou tendo com elas, semelhante à que tenho com a política: mero espectador que vai fazendo uns comentários no blog.
De facto, a minha relação com o sexo oposto (o único que aprecio) não tem sido das mais felizes. Pelo menos para mim. Elas não têm tido razão de queixa. Isto segundo me tem sido dito, visto que a distância que delas me vai separando me impede até de saber o que elas pensam acerca dessa mesma distância. De facto, ao longo dos anos, muitas das mais tentadoras raparigas com que me cruzava diaramente não se sentiam minimamente tentadas aqui pelo yours truly. Algumas nem sequer sabiam que eu existia. O que se compreende, visto que a já referida magreza roça a invisibilidade. Outras sabiam que eu existia, e era precisamente por isso que não se sentiam tentadas. O que é ainda mais conmpreensível.
Achavam, algumas, que não disfrutava da vida. Elas não diziam a palvra "disfrutar", demasiado complicada para elas. Mas era isso que queriam dizer. Achavam que a vida é curta, e é preciso aproveitá-la. tal como não lhes ocorria a palavra "disfrutar" não lhes ocorria a questão: como é que se pode aproveitar o que quer que seja, sabendo que podemos morrer já amanhã? Uma disse-me que "não podia ser". Poder podia, mas ela, no fundo, não queria. "Otherwise engaged", diria, se soubesse falar inglês. Tinha uma relação com Deus. E não a queria abandonar. Ele, por ser Omnipresente, chegava a sítios que ela nem sequer sonhava que existiam. Contra isso, não há ser humano que possa competir. Pelo menos, é isso que eu gosto de acreditar.
O Verão é, portanto, uma desgraça. As pessoas saem à rua. Eu detesto pessoas. Quase tanto como detesto o Verão. E nem o facto das jovens saírem à rua como saem da cama me faz mudar de opinião. Porque não há nisso vantagens. Só maior tortura. Porque há, nas jovens, especialmente nas das novas gerações, e especialmente no Verão, uma disponibilidade para o pecado inversamente proporcional à disponibilidade para pecarem comigo. Lembro-me de uma crónica de Eduardo Prado Coelho em que este, por entre lamentos acerca da arte perdida do cortejamento do sexo oposto, afirmava que os jovens adultos de hoje em dia "têm condições favorecidas para o exercício da sexualidade". Talvez EPC estivesse certo. O que me preocupa. Mostra que, mais uma vez, estou desligado da minha geração. Basta olhar para mim para ver que não tenho condições favorecidas para nada, muito menos para o exercício da sexualidade. Para além de que o exercício da sexualidade é intimidatório. Aquela nudez toda não ajuda ninguém. E ainda por cima requer interacção. E mais assustador que outro ser humano, só a interacção com esse mesmo ser humano. Especialmente quando o nosso ramo executivo está desprotegido. É demasiado assustador o espectro permanente de um juízo, por parte de uma jovem alvo da generosidade do Criador (mas que não tenha uma relação com Ele), acerca de nós. É tudo demasiado. Aliás, a única situação em que o exercício da sexualidade não me assusta é quando não envolve outra pessoa que não eu próprio.
Posted by Bruno at 09:58 PM
junho 24, 2005
Vergonha
Segundo a Sábado, Jean-Claude Juncker, Primeiro-Ministro luxemburguês, e durante os últimos seis meses, responsável pela presidência da UE, diz que "está envergonhado com algumas coisas" que ouviu. Jean-Claude Juncker devia, isso sim, estar envergonhado com algumas coisas que disse e fez. A começar por essa de ter ficado envergonhado com algumas coisas que ouviu. Juncker, na conferência de imprensa após a última Cimeira europeia, teve a falta de vergonha de aparentar grande revolta pela atitude inglesa, supostamente egoísta, que contrastaria com os altruístas novos membros. Já a atitude francesa não lhe provocou grande incómodo. Sendo que esta é bem mais prejudicial a esses novos membros. Veja-se o caso da PAC, política que a França (com o apoio do indignado Juncker) não quer reformar, e que prejudica bem mais novos membros como a Polónia do que o "cheque britânico". Deste seu apoio a essas políticas que prejudicam aqueles que tanta simpatia lhe motivaram, Juncker não se envergonha. Como não se envergonha de querer fingir que nada se passou com o chumbo da "Constituição" na França e na Holanda. Como não tem vergonha de ter participado na Cimeira em que somente o seu país, a França, a Alemanha e a Bélgica (outro país corajoso), participaram, que tinha como objectivo lançar a "Europa potência alternativa" aos EUA, um dos momentos mais ridículos a que pude assistir nesta curta vida de espectador da vida política. De nada disto se envergonha Juncker. Mas devia. Não é o único. Não é único que se devia envergonhar. E muito menos o único que apesar disso, não o faz.
Posted by Bruno at 10:20 PM
Conselhos
No Insurgente, o Brainstormz avisa-me para a possibilidade do dr. Louçã estar a utilizar argumentos aqui escritos contra o Governo do eng. Sócrates. Depois do choque inicial, e do sentimento de preocupação que me irá atormentar eternamente, apenas me ocorre uma coisa: caro dr. Louçã, se de facto me lê, utilize os argumentos e as propostas que quiser. Até lhe forneço já uma. É só repetir: "O Estado deveria abandonar o seu papel de fornecedor de serviços e passar a ser um mero garante dos mesmos, a quem só por si não possa aceder a esses serviços. À boa maneira neo-liberal."
Posted by Bruno at 10:12 PM
junho 23, 2005
Divergências
Volto à questão, tratada aqui há algumas semanas, da "mentira" do governo socialista. Volto à questão, para fazer um, muito pequeno, comentário. Na rua, o cidadão comum queixa-se das medidas tomadas pelo Governo. Não porque sejam más, mas porque são, dizem, o contrário do que foi prometido. Quem, na rua, procura defender o governo de críticas feitas pelo yours truly, inevitavelmente me informa que quem ganhou as eleições não fui eu. Todos cometem o mesmo erro. Pensar que as medidas de um Governo, seja ele qual for, devem ser analisadas apenas em função do facto de cumprirem ou não as promessas feitas. Quem acha que "eles" mentiram, não se dá ao trabalho de ver se aquilo que passaram a fazer é ou não melhor do que aquilo que prometeram, cujas possíveis consequências não lhes motivou um minuto de atenção. Quem diz que estão apenas a fazer aquilo que prometeram (mesmo que à excepção de um pequeno elemento, devido ao quadro "inesperado" que o governo anterior terá deixado), porque "foi isso o que a maioria quis", ignora que qualquer medida que seja, qualquer política seguida, tem custos. E que aqueles que defenderam outras políticas nas eleições, ou nem sequer se reviram em qualquer das propostas eleitorais, apenas consideram que os custos das políticas prometidas por quem obteve a dita maioria são custos que não compensam os benefícios que eventualmente possam trazer. Todos estes discursos, cada vez mais comuns na rua, e pior, cada vez mais comuns no Parlamento, enfraquecem a democracia. Em primeiro lugar, porque alimentam a crescente ausência da noção de "custo", no discurso político, ausência essa que abre caminho a todas demagogias. E em segundo lugar, porque desviam o critério de avaliação de uma política da análise das suas possíveis consequências. Precisamente aquilo que a "política" deveria ser: a competição entre duas ou mais concepções de sociedade. É que ao contrário do que afirmações do género das que aqui citei nos poderão levar a crer, não há voto, por muito maioritário que seja, que elimine essas divergências. E muito menos as razões para elas existirem.
Posted by Bruno at 10:18 PM
junho 21, 2005
Parlamento e Parlamentares
A propósito do meu post de ontem, o André Amaral refere mais uma diferença entre o Parlamento português e o inglês, o facto de nós não votarmos num deputado, mas numa lista repleta de desconhecidos que nem sequer ocupam, muitos deles, o seu lugar. Começo a ficar convencido de que a alteração no sentido do que é adoptado em Inglaterra poderia ser positiva. Mesmo os efeitos perniciosos que eventualmente poderia ter, passariam a ser também responsabilidade dos eleitores, coisa que hoje é diminuta. É assunto acerca do qual estou para escrever há já algum tempo, e fica aqui prometido um textozinho sobre isto.
Já o António Amaral do Arte da Fuga (outro blog a exigir uma actualização da lista aí do lado) refere a declaração de ontem de Francisco Louçã, que, a propósito da questão da adopção de círculos uninominais, afirmou que essa proposta visava "impor, de forma grotesca e pornográfica, o bipartidarismo em Portugal". Parece que o termo "pornográfico" está na moda pelos lados do BE. Daniel Oliveira já o havia utilizado, com um despropósito merecedor de registo. Louçã consegue fazer ainda pior. Diz tudo acerca da figura. E da figurinha também. O termo "pornográfico" dá um bom soundbyte. Ao dr. Louçã não ocorre demonstrar alguma preocupação com o real significado da palavra. Isso é coisa de antigamente. Para o dr. Louçã, os termos não se prendem a coisas menores como o significado. "Pornográfico" é aquilo que um homem quiser.
Posted by Bruno at 10:10 PM
junho 20, 2005
A Fraqueza do Parlamento
Em Inglaterra, o Primeiro-Ministro Tony Blair foi hoje ao Parlamento, para responder às perguntas dos deputados acerca da última cimeira europeia, e ao falhanço nas tentativas de chegar a um acordo quanto ao orçamento da UE. Assisti a pouco, e portanto não posso comentar o que aí foi dito. Nem sequer é isso que aqui interessa. O que interessa aqui é o mero evento. Blair foi ao Parlçamento para discutir a Cimeira do fim-de-semana passado. Interessa esse facto, e o contraste com o que se verifica em Portugal.
Contraste a vários níveis. Primeiro, e ao contrário do que por cá se passa, em Inglaterra há debate. Há quem seja contra a UE. Quem seja a favor mas tenha dúvidas acerca de vários aspectos. Quem seja a favor, mas não tenha dúvidas que demasiada integração é contrária ao interesses dos cidadãos. E quem não tenha dúvidas de que a integração total é o caminho do progresso. Em Portugal, toda a gente é a favor da "Europa". E a toda a gente basta dizer apenas isto. É o mesmo que não dizer nada. O segundo contraste é ainda mais gritante. Está na própria atitude do Governo. Em Inglaterra, imediatamente após a Cimeira, o governo responde perante os deputados acerca da sua condução da defesa dos interesses dos cidadãos que o parlamento representa. Em Portugal, é raro o governo responder sobre a "Europa" no Parlamento, quanto mais na primeira sessão após cada cimeira. O que apenas agrava o cada vez maior distanciamento entre os cidadãos e a condução dos assuntos europeus.
Mas tudo isto demonstra a grande fragilidade do Parlamento português. Se em Inglaterra, o Primeiro-Ministro vai todas as semanas ao Parlamento (e todos os membros do seu Governo terão de ter sido eleitos deputados nessa legislatura), e até há bem poucos anos as sessões semanais eram duas, em Portugal, e com grande esforço, lá se conseguiu que o Governo fosse uma vez por mês ao Parlamento. E se em Inglaterra, o Governo é obrigado a responder a questões sobre todo e qualquer assunto, em Portugal é o Governo que escolhe o tema do debate mensal. E se tudo isto demonstra a fraqueza do parlamento português, demonstra também a fragilidade da nossa democracia. É no parlamento que reside a verdadeira representação dos eleitores. Se o orgão que os representa não tem poder, são os eleitores que não têm poder. Se o orgão que os representa não tem meios de controlo sobre o executivo, os cidadãos não têm meios de controlo sobre o executivo. Em Portugal, vive-se na ilusão de que é o Presidente da República que tem de controlar o governo. Ilusão que conduz à irrelevância do cargo, ou a conflitos institucionais contraproducentes. O Parlamento é como se não existisse. Ir ao parlamento é fazer um favorzinho aos senhores deputados, e uma forma do Primeiro-Ministro Sócrates receber elogios lambe-botistas do líder da bancada parlamentar do seu partido. Debater é secundário. Responder perante a sua acção governativa é uma chatice. Há países em que não é assim. A diferença nota-se.
Posted by Bruno at 09:55 PM
junho 19, 2005
Inferno
Detesto pessoas. Todas. Não discrimino. Tenho preconceitos contra toda a gente. A começar por mim. Quanto mais os outros. Sair à rua é a pior coisa a que sou obrigado. Mas tem de ser. Sacríficios. Um Inferno na terra. E não acredito na compensação de um paraíso celeste. Porque duvido que exista. E porque só por isso não lá entraria se existisse. Detesto pessoas. Não aguento mais que duas pessoas para além de mim. Infelizmente, não consigo evitar. Há dias, estava num estabelecimento da área da restauração. Com várias pessoas. Uma jovem tentadora. Um jovem que a parecia tentar. O arquitecto Saraiva a dar uma entrevista a um jornalista do Expresso. Um grunho e a sua namorada. Dirão que estou a mentir. Que um grunho não tem dinheiro para ir a um estabelecimento frequentado pelo director do Expresso, ou que o director do Expresso tem dinheiro suficiente para não frequentar estabelecimentos frequentados por grunhos. Não explico, porque isso denunciaria a minha própria condição. Mas lá estavam. O grunho (com a namorada) e o arquitecto a dar uma entrevista ao seu jornal. E a jovem tentadora tentada pelo outro jovem. E eu. Um Inferno.
Não pude evitar a coscuvelhice. O jornalista do Expresso perguntava ao seu director: "Sr. director, uma pergunta: é um poço de virtude?" "Sou. Sou um poço de virtude", respondeu. O jornalista concordava. O grunho apercebeu-se. Também ele não evitava a coscuvelhice. Dirigiu-se para o arquitecto: "Gosto muito de o ver na televisão." O arquitecto também gosta muito de se ver na televisão. E disse-o. O jornalista perguntou: "sr. director, o senhor é extraordinário, não é?" respondeu que sim, que era. O grunho disse que "não desfazendo", achava que ele não havia sido "ele próprio lá na Quinta, ou lá que o era aquilo!". O jornalista indignou-se. Defendeu o seu director: "Este homem é um poço de virtude. Não entra nesses programas. Toda a história deste país gira em seu redor! Não leu o seu livro?" O grunho indignou-se também: "olha-me este, julga que é doutor... Isso dos livros não é para mim, eu gosto de pensar por mim próprio, pá. Anda aqui um gajo a trabalhar e vem-me este aqui falar de livros". Dizia isto para a namorada, fascinada. Esta, de repente, diz: "o meu sonho era ser cremada. Gostava de ser cremada." "Gostavas, gostavas. Do que tu gostas sei eu, pá!", respondeu o grunho. Ela sorriu e chamou-o de "porco". Pelo que pude perceber, era um elogio.
A entrevista ao arquitecto prosseguia, enquanto o grunho ia explicando à namorada que o que ele gostava "mesmo, mesmo", era de "tuning de carros". A jovem tentadora estava alheia a estas atribulações. Só tinha olhos para o outro jovem. Este parecia embaraçado. Eu esperava por qualquer coisa para comer. Chegou. O grunho gritou: "olha o magrinho vai comer! Ó fininho, olha que isso é muito para ti, pá. Deixa isso para quem tem barriguinha". Nisto levantou a camisa, deixando a dita a descoberto. A namorada sorriu e chamou-o de "porco". Mais uma vez, era um elogio.
O jornalista do Expresso estava visivelmente incomodado. Não por si. Mas pelo seu director, que ele jornalista considerava estar acima de tudo isto. Foi continuando a entrevista. Perguntou-lhe o que seria de Portugal sem ele. O arquitecto respondeu que não sabia. Que ele era, "de facto, extraordinário". A jovem seduzia descaradamente o outro jovem, que já nem conseguia comer com o que estava ver.
Eu também estava a admirar a jovem. E portanto, comia devagar por estar distraído. O grunho reparou: "olha ó magrinho ainda não comeu nada! Eu bem te avisei, ó finório. Parece um daqueles gajos lá da terra do Martunis, ou lá o que é. É só pele e osso, ainda não comeu nada, o pastelão..." Tive um flashback aos tempos da escola primária. De facto, juntavam-se contra mim na altura dois preconceitos. Contra as pessoas magras, e contra as pessoas que comem devagar. De facto, sou magro. Mas não tenho culpa. Acho mesmo que é doença. Na minha escola primária, achavam que era falha moral. Agravada por comer devagar. Comer devagar parece ser, em Portugal, pecado mortal, e ser "pastelão" equivale sensivelmente a ser um assassino. Certamente por causa da longa noite fascista. O cidadão comum temia que a PIDE julgasse que a actividade de ingerir demoradamente uma refeição fosse sinal de actividade conspirativa, e os militantes do PCP temiam que o controleiro achasse que, por estarem a comer, se tivessem aburguesado. Almoçar era, nas planícies alentejanas, sinal de aburguesamento. Um comunista não comia. Lutava contra as classes possidentes e monopolistas. E por isso, uns e outros comiam como se fossem apanhar um comboio. Julgavam que se fossem descobertos, (uns) a PIDE, ou (outros) o controleiro, se certificariam que seria o comboio a apanhá-los a eles.
A democracia, infelizmente, não mudou o estado das coisas. E a figura do "pastelão" tem hoje a função outrora ocupada pelos pelourinhos medievais, uma forma de humilhação pública para castigar o infractor. Em Portugal, ninguém é sensível às reacções fisiológicas que tamanha sofreguidão pode causar. Pelo contrário, em Portugal, parece haver grande apreço por festivais de regurgitação. Bem sei que é um clássico da comédia. Que os Monthy Python fizeram um skecth no The Meaning of Life em que um homem explodia de tanto vómito que tinha para oferecer ao mundo. Também me ri. Mas isto é a vida real. E a vida real não é comédia nenhuma. A comida custa dinheiro. O vómito, por muito bom recurso cómico que seja, é puro desperdício. Procurei explicar isto ao grunho, mas ele disse que "dinheiro, dinheiro", foi o que ele gastou no "tuning", e a "bófia" não o deixava "ouvir o cantar do bicho" na ponte Vasco da Gama. A namorada sorriu e chamou-o de "porco". Apesar de ser um elogio, ele irritou-se, e disse "uma granda porca é mas é a tua mãe, e eu não digo nada". A ironia do que acabava de dizer escapava-lhe por completo.
E enquanto isso o arquitecto continua a explicar, ao jornalista do seu jornal, o quão era extraordinário. O jornalista compreendia-o perfeitamente, mas não se cansava de o ouvir. Mas já se havia cansado do grunho. Levantou-se e disse que se ele "queria ouvir cantar", então que fosse para outro lado, que aquela era "casa de outros fados". O grunho disse que ia para onde ele quisesse, e que lhe "enfiava estes cinco na boca". Enquanto isso a jovem tentadora procura tentar cada vez mais o outro jovem. Este olhava para ela como quem diz "ah pecadora, que me queres desgraçar...". De facto, queria. E conseguiu. Preparavam-se para sair, mas entretanto o jornalista e o grunho estavam já a "enfiar" os seus respectivos "cinco" na boca um do outro. O arquitecto procura intervir. Explicou que se fizera, como havia escrito no seu livro, a paz entre Afonso Henriques e sua mãe, trataria deste pequeno "trinta-e-um". No entanto, não conseguiu. A virtude, da qual era efectivamente "um poço", não foi suficiente. Eu estava já bastante assustado. Pensei em ir-me embora, mas ainda não tinha comido tudo. Não queria deixar a comida por acabar, porque custa dinheiro. Comecei então a comer mais depressa. O misto de sofreguidão e de receio provocou a desgraça inevitável. De facto, para o português, não há nada como um festival de regurgitação. O grunho gritou, parando o combate: "olha o magrinho foi ao gregório!!! Olha pó gajo...". O jornalista ria-se, abraçando o grunho, enquanto dizia ao seu director o quão extraordinário o achava. Eu acabei por desperdiçar a comida, e ainda por cima sofrer a humilhação pública. Ao menos fui um factor de pacificação. Talvez seja este o caminho da ONU nos tempos mais próximos. Só não sei o que aconteceu à jovem tentadora e ao jovem que a tentava. Deviam ter coisas mais interessantes com que se ocupar.
Posted by Bruno at 09:36 PM
junho 18, 2005
Psicanálise
Ele andava há quinze anos em consultas de psicanálise. "In therapy" como dizem os neuróticos nova-iorquinos como ele. Tinha problemas. "Issues". Em pequeno ouvira dizer que a vida era curta e era preciso aproveitá-la, mas não percebia como se podia aproveitar o que quer que fosse sabendo que amanhã podia chegar o Armagedão. A psicanalista podia ter-lhe dito qual era o seu problema mal ele entrou. Não disse. Ele precisava de descobrir por si próprio. E ela de receber o dinheiro das consultas. Ele continua deprimido. Ela está cada vez mais rica.
Posted by Bruno at 10:32 PM
Ironias
Gente animada reuniu-se nas ruas de Lisboa para pedir um "Portugal Limpo". Não querem imigrantes. Um dos rapazes dizia que tinha orgulho em ser "branco", e que ali eram todos portugueses "há 850 anos, e não só há 30". Eu pessoalmente, não tenho orgulho de nada e só sou português há 20 (quase, quase 21). Menos até, se descontarmos o intervalo de tempo entre o nascimento e o registo. talvez por isso não perceba o fervor do jovem. Só espero que quando chegar aos tais 850 do rapaz esteja com tão bom aspecto. Mas adiante. Segundo relatos, a rapaziada fez um minuto de silêncio pelos "portugueses assassinados na África do Sul". Imigrantes noutro país como as pessoas que a rapaziada festiva quer expulsar com tanto vigor nacionalista.
Posted by Bruno at 10:21 PM
Patético
Jacques Chirac, Presidente da República Francesa (a décima, talvez, mas já lhes perdi a conta) afirmou que houve um momento "patético" na última Cimeira Europeia, em que enquanto os pequenos países abdicaram de algum dinheiro "dois ou três" países ricos não abandonaram o seu "egoísmo". Isto dito pelo senhor que lidera um país que sozinho recebe 1/5 de todo o orçamento da PAC, orçamento esse que por sua vez representa 40% da UE, e que desse 1/5 de 40% não está disposto a abdicar, para claro prejuízo de alguns desses países "altruístas" que tanto comoveram um senhor chamado Juncker, Primeiro-Ministro desse país corajoso que é Luxemburgo.
Posted by Bruno at 10:15 PM
junho 17, 2005
Porto
Devo dizer que as eleições autárquicas me interessam pouco. A escolha de qual o cacique que gastará mais dinheiros públicos do que aqueles que estão disponíveis, não em entusiasma particularmente. Abro uma excepção nos dias de hoje: o Porto. Não vivo no Porto. Mas a campanha que conduziu à eleição de Rui Rio no Porto, e a sua acção como Presidente da Câmara, são um exemplo do que deve ser a atitude de um político. Colocar o projecto à frente do resultado. E o que se está a passar no Porto, agora em vésperas de eleições, é bastante curioso. A Câmara tem umas obras para terminar, que se situam ao lado de um edifício que é Património do Estado. O Governo não queria que essas obras se realizassem, pelo menos ali. Segundo percebi, o Governo terá agora dito que Rui Rio tem um mês para terminar essa mesma obra. Deixo uma pergunta: o que fará o Governo se dentro de um mês a obra não estiver terminada? Obriga a Câmara a parar tudo? Faz um choradinho ao Presidente? Diz que a culpa é "desse Bush? Não faz nada? Esperemos para ver. Não posso é deixar de reparar que estes permanentes conflitos do Governo com a Câmara do Porto demonstram um grande esforço desse mesmo Governo em atacar o Presidente da Câmara, para devolver a cidade a esse grupelho que representa o pior que há neste país que é o PS Porto. Não que essa atitude seja de espantar. Mas imagine-se se semelhante atitude se passasse com Santana Lopes (o leitor atento saberá que não nutro simpatias pelo dito). Seria inevitável o coro a pedir a sua demissão. E talvez se justificasse...
Posted by Bruno at 10:36 PM
junho 16, 2005
O Nosso Atraso
Se há discussão política em que a estupidez voa solta, é a discussão à volta da "criminalidade". Não por falta de concorrência das outras. Mas por "mérito" próprio. Durante anos, os portugueses vão mantendo a ilusãozinha que lhes é tão cara de que somos "um país de brandos costumes". Que não há violência. Que não há racismo (de "brancos" contra "pretos" e de "pretos" contra "brancos"). Isso é na América, vão pensando. Vão pensando mal. Quando ocorre um crime que ganha importância mediática, começa a histeria. Uns alertam logo para o mal do capitalismo, que tudo provoca. Outros preparam manifestações por um "Portugal para os portugueses". Outros saltam logo a acusar qualquer indivíduo que se pronuncie acerca da questão de ser racista. Depois, passa uma semana. E voltamos a ser um "país de brandos costumes". Basta lembrar 2000. Será assim de novo. Durante anos, parece que os problemas não existem. Durante umas semanas, parece não haver qualquer outro. Sinal do nosso atraso. Em Inglaterra, nos jornais cujos artigos de opinião leio (o Telegraph e o Times), quase não há semana em que o tema da segurança, do policiamento, da criminalidade, não seja tratado. O tema existe. Discute-se. Bem ou mal, discute-se. Em Portugal, ignora-se e exagera-se, alternadamente. É a forma de garantir que nada se poderá resolver. O "virar das costas" mantêm tudo como está. A histeria não resolve aquilo que pretende. E cria problemas que não existiam. É o que se passará nos próximos tempos.
Posted by Bruno at 10:30 PM
Parabéns 2
Ao Francisco José Viegas pelos dois anos de Aviz.
Posted by Bruno at 10:29 PM
Parabéns
À rapaziada amiga pelo primeiro aniversário do blog. Um ano "nesta nossa guerra".
Posted by Bruno at 10:15 PM
junho 15, 2005
Reds
José Saramago, escritor de profissão e "saneador" por vocação, visitou hoje a ilha de Cuba, o paraíso para onde fogem os desesperados habitantes da vil Florida. O Luís lembra que Saramago havia seguido um caminho diferente do da ilha do outro grande comandante, este ainda não perdido, por ter descoberto que lá se praticavam coisas com as quais nunca se importou grandemente no passado. Hoje, nem sequer foi a ofuneral do tal "grande comandante que desaparece", para visitar a tal ilha de sistema de saúde invejável cujo governo tanto o havia chocado. Ficamos a saber que Saramago é homem de fibra. Saramago não mancha a sua "coerência". Não senhor. Um comunista é sempre coerente. Saramago sacrifica-se. E todos os sacríficios são poucos para fazer frente ao Império Americano.
Posted by Bruno at 09:58 PM
junho 14, 2005
Ausências
O meu amigo Paulo, numa pertinente reflexão, produz tese lúcida. Diz o Paulo que a costumeira distinção entre actrizes bonitas e com talento e actrizes bonitas mas sem talento não faz sentido. É o que ele diz. E diz muito bem. E dá exemplos. De actrizes bonitas e com talento. E actrizes talentosas mas incapazes de representar. E no meio de tanto nome, sobressai a ausência da tentadora Naomi Watts e da deliciosamente juvenil Natalie Portman. Poderia o meu amigo Paulo dizer que não têm talento. Seria heresia. Mas podia tê-lo dito. Mas o Paulo não as inclui em nenhuma lista. Esquecimento? Só pode ser desconsideração. Naomi Watts e Natalie Portman não se esquecem. São impossíveis de esquecer. São inesquecíveis. Estão para além do esquecimento. Mas como se pode desconsiderar tal amostra das infindáveis potencialidades da espécie humana? Os antepassados só conceberiam duas hipóteses. "Desarranjo de cabeça" ou "motivos morais". O que vale é que na modernidade dos nossos tempos já todos são aceites. Até mesmo aqueles que desconsideram Naomi Watts e Natalie Portman.

Posted by Bruno at 09:53 PM
A Devassa Intelectual
Chamavam-na de "debochada". Desavergonhada. Alberto João Jardim chamava-a de "dançarina", e isto para a não a chamar de "mãe de certos senhores da comunicação social do Continente". Ela não negava a convivência abundante com variados elementos do sexo masculino. Mas era intelectual. Preferia considerar-se "relativista nessas coisas do amor".
Posted by Bruno at 09:48 PM
junho 13, 2005
Cunhal e os Camaradas
Conheço mal Cunhal. Ao contrário de Vasco Gonçalves, Cunhal não é uma figura de um passado distante. Lembro-me ainda do Cunhal líder do PCP. De campanhas eleitorais de Cunhal como líder do PCP. Lembro-me do dia em que Cunhal disse que era "Manuel Tiago". Mas era (escrevi "é", o erro que todos cometem ao falar de alguém que acabou de morrer) alguém que nunca quis que se soubesse muito de si. O mundo típico do comunismo. O mundo impessoal. O mundo do Partido. A morte de Álvaro Cunhal faz-me apenas pensar numa coisa. No carácter verdadeiramente trágico do comunismo. Não do comunismo com filosofia política, que não interessa aqui e agora. Mas do comunisno como modo de vida. O comunismo enquanto vida quotidiana dos militantes do PCP. Uma vida entregue na sua totalidade ao partido, a uma visão do mundo que via as pessoas como produto da sua posição numa estrutura. Uma vida que nada tinha de privado, a partir do momento em que a vida privada poderia servir mal a classe e passava a ser assunto do partido. Em que até o roubo de fruta em terras de "um camponês rico" é veículo de "descredibilização" perante os "camaradas". Em que o filho "roubado" por um "burguês" só é relevante como prova da iniquidade da "burguesia". Não é a vida que interessa. É a luta de classes. Como se os comunistas não fossem humanos. Mas são. E ao entregarem a vida à luta de classes, transformam a luta de classes na vida. Tudo o que é do domínio da sua acção política, é, por paradoxal que possa parecer, profundamente pessoal. Basta ouvir a forma como aqueles que se afastaram do PCP falam dos tempos em que a ele estavam ainda ligados. Basta ouvir a forma como Cunhal falava da derrocada da União Soviética. Basta ouvir os militantes comunistas a falarem da morte de Cunhal. Tudo foi uma perda pessoal. Vidas entregues a uma ideia que lhes exigia essa mesma vida. Quando caiu o Muro, caiu também uma parte de si. Ao morrer Cunhal, o homem que os "ensinou a viver", morre também uma parte deles.
Posted by Bruno at 05:40 PM
junho 12, 2005
Arranjar Qualquer Coisinha
O episódio é conhecido. O Governo havia tomado posse. Mas o seu Programa ainda não tinha sido apresentado. O Primeiro-Ministro proibiu os seus Ministros de fazerem declarações públicas acerca edas opções do Governo até que o dito fosse apresentado. O Ministro dos Negócios Estrangeiros, perante insistentes perguntas acerca de declarações que havia feito antes de o ser, explicou que não poderia, pelo menos em "on", dar todas as explicações. Já em "off", tudo bem. Podia, como aqui escrevi, "arranjar-se qualquer coisinha".
Nada mais português que o "arranjar-se qualquer coisinha". Nada mais nosso. É o equivalente português do anglo-saxónico "I scratch your back, you scratch my back". Mas até aqui somos inferiores. O "back-scratching" anglo-saxónico cobre uma função social importantíssima. Constitui um sistema informal de protecção social cooperativo, em que um indivíduo assiste outro em algo que este último não pode fazer por si próprio. Qualquer pessoa que já tenha sofrido as agruras da comichão nas costas sabe o desprotegido que está perante tal sofrimento. Com o "back-scratching" anglo-saxónico, sabe estar protegido, desde que proteja quem o proteje a ele. Gente civilizada. E que alivia as comichões do seu semelhante.
Já o nosso "arranjar qualquer coisinha" tem carácter de esforçozinho, de sacríficio. De "frete". De não haver qualquer obrigação, mas que se faz. Que se "arranja". Não há assistência. não há solidariedade. Faz-se uma "forcinha". E se tivermos sorte, talvez se possa "arranjar qualquer coisinha". Mas não se promete nada. É um "servicinho" que se faz, porque o outro é "um tipo porreiro".
Para mais, o nosso "arranjar qualquer coisinha" é uma realidade obscura. Coisa de esquema paralelo. Subterrânea. Feita "por debaixo da mesa". "Pela porta do cavalo". Em "off". Coisa de Presidente da Câmara que, se o construtor civil contribuir para a sua campanha, talvez lhe possa "arranjar qualquer coisinha". Sem alaridos, arranjará.
E "arranja" o quê? "Qualquer coisinha". Coisa pouca. O português contenta-se com pouco. Uma declaraçãozinha em "off". Uma declaraçãozinha falsa. Um "esforçozinho", que se quer "escondidinho", para se "arranjar qualquer coisinha". Mas "vai-se andando". Portugal talvez perca os fundos que a UE tem despejado por cá, e que o país tão sabiamente foi desperdiçando, na sua ânsia de ir "arranjando qualquer coisinha" aos mais variados interessados. Os outros países já não querem contribuir. O Governo vai insistir com eles. Talvez se "arranje qualquer coisinha".
Posted by Bruno at 10:33 PM
Princípios
Ele tinha princípios inabaláveis. Mas nunca chegava ao fim de nada.
Posted by Bruno at 09:46 PM
junho 11, 2005
E Já Agora...
Outra, desta vez de Matthew Parris, no Times:
"The Transport Secretary, Alistair Darling, whom I believe to be a potential Chancellor of the Exchequer (“But can we afford it, Darling?” Prime Minister Brown will have to say)".
Posted by Bruno at 10:26 PM
Genial
Continuo nos jornais ingleses. Num artigo no Telegraph, o seu antigo editor, Charles Moore, mostra porque é um dos melhores colunistas da sua (de qualquer) praça:
"Mary Warnock is a philosopher by training. She has the self-confidence - to put it politely - to write books with titles like An Intelligent Person's Guide to Ethics. She seems to think that she is always right. So let me raise a paradox that she, as a philosopher, will surely enjoy: if Lady Warnock is always right, what are we to think when she says she got something wrong?"
O resto também merece ser lido...
Posted by Bruno at 10:16 PM
Colheitas
Depois da vitória do "Não" na Holanda e na França, tem sido habitual ouvir de gente que deveria ser responsável a opinião de que se devem aproveitar os excertos consensuais da "Constituição". já aqui escrevi sobre isso, nomeadamente sobre o que disse Jack Straw, Ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido. A propósito, Liam Fox, Ministro sombra, para a mesma àrea, do partido da sra. Tatcher, escreveu no Times artiguinho que merece ser lido:
"There are three areas in particular where it is essential to prevent any such cherry-picking: the further dilution of national vetoes, the charter of fundamental rights and the transformation of the EU into a quasi-state.
No one could disagree with the proposition that an EU of 25 needs different working arrangements from an EU of six. But there is a world of difference between bureaucratic streamlining and the type of fundamental reform that integrationists would like to conduct under the benign guise of “institutional reform”. What was actually being proposed in the constitution represented the transfer of yet more powers from the people to Brussels. The British people would have been obliged to give up of the veto in no fewer than 63 individual areas, including such key issues as criminal law and justice. This is no tidying-up exercise. It is, rather, a massive extension of qualified majority voting. The British people must be given a say if such a change is mooted.
The dangers posed by the constitution’s aspiration to build on the European Convention on Human Rights are no less threatening. The proposed charter of fundamental rights would be the bedrock of constitutional law in the EU. Judges in Brussels would accrue immense power over the interpretation of legislation and therefore over the people of this country. Since power would thus be transferred away from the British people, again it is vital that the people have their say.
At a more symbolic (but no less significant) level, we cannot simply sit back and allow the EU to acquire the trappings of statehood. The constitution would create a single diplomatic service and a “president”. Further, the EU would be allowed to sign treaties as a single legal entity — an act universally recognised as one of the definitions of a “nation state”. It should be unthinkable for such a change to be countenanced without the explicit approval of the British people. Only a referendum would ensure that."
Tudo o que Fox diz acerca do "povo britânico" se aplica a qualquer estado-membro. E seria bom que o caminho a seguir fosse o que Foz aqui enuncia. Duvido que assim venha a ser.
Posted by Bruno at 09:58 PM
junho 10, 2005
Dia de Portugal
Tenho por hábito escrever coisas pouco abonatórias acerca do nosso país. Não devia. Não porque Portugal não seja mau. Portugal é mau. E não porque seja errado estar sempre a "dizer mal". É errado, mas não é essa a razão. Mas apenas porque, para um amante da maledicência como o yours truly, Portugal é uma benção. Não se deve ser pobre e mal-agradecido.
Posted by Bruno at 10:12 PM
junho 09, 2005
Portugal e as Reformas
Portugal está em crise. É o que nos dizem. Nós acreditamos. Não há razões para não acreditar. Está à vista de todos. Como estava já há muito tempo. Apenas ninguém quis ver. E muitos continuam sem querer. A começar pelo Governo. O Governo quer resolver o défice. Acho bem. Pena é que queira ficar por aí. Porque a crise, ao contrário do Governo, não fica. O problema está no dinheiro que o Estado suga à economia, e à insustentabilidade dessa situação. E as medidas que o governo anunciou não tocam naquilo que poderia resolver esse problema. As medidas do Governo não fazem a profunda mudança que seria necessária, no que diz respeito ao papel que o Estado deve ter numa sociedade, deixando de funcionar como um prestador de serviços, passando a ser o seu garante para aqueles que por si só a eles não têm acesso.
Mas claro, "Portugal não é Chicago", como diria o dr. Portas. E se o dr. Portas diz, é porque é verdade. Não conheço Chicago. Mas conheço Portugal. E conheço os argumentos de muito boa gente que, concordando com o que foi dito no parágrafo anterior, critica as pessoas que o afirmam. É o caso do muito cá de casa Vasco Pulido Valente, que diz que Portugal nunca foi um país com uma sociedade liberal, e que portanto, um modelo liberal nunca poderá cá ser implementado, por muito que o que temos esteja falido. Que Portugal nunca dispensou o Estado, porque nunca dele pôde prescindir. Que a sociedade nunca dele foi independente. Que a aristocracia "pobre, corrupta e analfabeta vivia dos favores do rei". Que "o que vale para a aristocracia vale para a burguesia". Que o mesmo se aplica à classe média de hoje, e aos empresários de hoje. Que, como escreveu Maria Filomena Mónica, "os seus pedidos do condicionamento industrial, proteccionismo externo e contenção salarial atravessam a história".
Sei tudo isso. Sei que Portugal é um país pobre. Mais que pobre. Pobrezinho. De espírito. Que vê a entrada de produtos estrangeiros mais baratos como uma ameaça aos comerciantes nativos e não como uma vantagem para os consumidores. Sei, que por todas essas razões, ninguém quer as medidas que defendo. E que mesmo que por milagre sejam postas em prática, a mediocridade reinante não trará o paraíso. Sei tudo isso. Mas também sei que é impossível manter o que está. Que o que está terá de acabar. Ou se reforma, ou explode nas nossas mãos. Sei que de qualquer das formas vai doer. Se se reformar, talvez a dor seja menor.
Posted by Bruno at 10:22 PM
Aquisições
Na América, as pessoas procuram adquirir riqueza para, ao investi-la, poderem adquirir ainda mais. Por cá, procuram adquirir direitos, para nunca mais os perderem.
Posted by Bruno at 10:20 PM
Palavra e Verdade
Há por aí muito boa gente que duvida da palavra de Freitas do Amaral quando o Ministro dos Negócios Estrangeiros afirma que a sua declaração pública de ter uma opinião pessoal diferente da posição oficial do Governo na área que ele próprio tutela foi combinada como o Primeiro-Ministro. Eu acredito no Ministro. Não porque confie na sua palavra. Mas apenas porque se estivesse a mentir o Primeiro-Ministro já o teria demitido.
Posted by Bruno at 10:16 PM
junho 08, 2005
Consensos
Jack Straw, Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, terá dito que algumas partes da "Constituição Europeia" poderão ser salvas. Straw acha que aquelas "com os quais toda a gente está de acordo" podem avançar de qualquer forma. E que partes do texto acha Straw que motivam o consenso generalizado? Entre outras, segundo o Público, o sistema de voto no Conselho Europeu. Eu não sei quem são esses "todos" a que Straw se refere. Se se trata dos governos, tericamente, estão todos de acordo com todas as partes do texto, porque o subscreveram. Se está a falar dos eleitores, duvido que essa seja uma dessas partes. Eu, por exemplo, acho que o novo sistema de voto é um dos piores elementos desta "Constituição", ao dar mais poder a um número menor de Estados. E na Holanda, uma das razões que mais motivou o "Não" terá sido o facto de muitos considerarem que o peso da contribuição holandesa para o orçamento da UE é demasiado elevado se comparado com o peso que os seus votos têm, devido à pouca população do país. Duvido, portanto, que toda a gente esteja de acordo com esse aspecto da Constituição. Já não duvido que, apesar disso, seja "salvo". A vergonha não é coisa que abunde em Bruxelas.
Posted by Bruno at 10:34 PM
Políticas de Família
Corre por aí grande burburinho em volta do vídeo da candidatura de Manuel Maria Carrilho. A TVI indigna-se, porque Carrilho terá dito "cidadões" em vez de "cidadãos". Sinceramente não me pareceu. Os mais sérios têm-se centrado na presença, no dito vídeo, de Bárbara Guimarães e do filho de ambos. Não tenho nada contra a presença da mulher do candidato num filme de propaganda política. Poderei criticar o contéudo (ou ausência dele) da participação da dita no dito (quando servem para enaltecer as supostas qualidades pessoais do candidato, aparentemente importantes para o maralhal votante, incomoda-me um bocado), mas não acho a participação, só por si, motivo de crítica. Faz-se nos EUA, e não é daí que vem grande mal. Já outra coisa é a presença do filho. Essa sim, causa-me algum espanto. Dirá o leitor mais progressista que George W. Bush também mostra as filhas. Mostra sim senhor. Mas há duas diferenças entre as Bush twins e o Diniz Maria. A primeira é que elas são boas. Sei que já escrevi que não apelam ao voto das hormonas saltitantes, mas mudei de opinião. Também aí, sou Bushista. Born-again. A outra está no facto de elas terem idade para saberem o que estão a fazer, ao contrário do Dinis Maria, que está a ser usado pelos pais como forma de promoção pessoal. Não digo que os pais não tenham o direito de o fazer. Os pais das criancinhas que aparecem nos anúncios de fraldas também usam a imagem deles de forma a obterem lucro, e eu nunca me escandalizei com isso. Aliás, só me escandalizo com as dispensas do Rui Jorge e do Pedro Barbosa. Mas, como bem nota o Diogo Belford Henriques, não deixa de ser estranho que o casal que tanto quis zelar pela privacidade do seu filho o exponha agora desta forma.
Posted by Bruno at 10:07 PM
junho 07, 2005
O Futuro
Faço parte da "juventude". Culpo os meus pais. Não há nada pior que a "juventude". Só me consola a ceretza de que é um mal temporário. Mesmo assim. Não há nada pior que a juventude. Os jovens discutiam o futuro da Guerra. Um dizia, com grandes certezas, que a Terceira Guerra Mundial seria travada "nos mares". O jovem viu demasiadas vezes o famigerado filme de Kevin Costner. Pior, levou a sério o famigerado filme de Kevin Costner que viu demasiadas vezes. O outro jovem retorquia, com emoção, que já não havia "guerras de soldados". Achou por bem repetir. E repetiu. Não se alongou mais. Não precisava. Bastou o que disse. Receio o futuro. Não por causa das "guerras nos mares", ou das guerras sem soldados. Mas por causa dos jovens.
Posted by Bruno at 10:01 PM
Não a Fátima
Sigo o Eduardo Nogueira Pinto: "o meu não vai, antes de mais, para a Fátima Campos Ferreira."
Posted by Bruno at 09:58 PM
junho 06, 2005
Posições Pessoais
O Governo de Portugal irá concertar, com os seus congéneres, qual o caminho a seguir na questão da continuação do processo de ratificação da "Constituição Europeia" ou do seu cancelamento imediato. No entanto, tanto o Presidente da República como o próprio Governo já declaram a sua posição oficial favorável à realização de um referendo em Portugal. Já o Ministro dos Negócios Estrangeiros do mesmo Governo mostrou ser a sua posição pessoal o cancelamento do dito referendo. Segundo nos é dado a crer, um Ministro discorda da posição oficial do seu Governo na área que tutela. Crise de identidade? Ou a mesma falta de vergonha que permitiu ao Ministro dos Negócios Estrangeiros desvalorizar as suas pessoalíssimas posições relativamente ao presidente dos Estados Unidos da América, e à sua congénere americana da chefia da diplomacia Condi Rice? Inclino-me para a segunda. Posição que não deve ser muito diferente da oficial do governo.
Posted by Bruno at 10:06 PM
junho 05, 2005
Governo Governado
Este era o Governo do "plano". O Governo que não agia em função dos telejornais. Que agia com coerência, e com objectivos. Nada como o governo de Santana Lopes, que era impulsivo e incoerente. Saem umas notícias nos jornais, afirmando que vários Ministros (dois) acumulam os seus salários (baixos para a importância do cargo) com pensões de reforma (boas). A rua fica indignada. O governo, que já havia anunciado o fim dos "privilégios" dos políticos (privilégios que servem para compensar os salários que não têm corajem de aumentar como deviam), acusa, pela boca dos Ministros acusados pela rua, os jornais de demagogia. E, à entrada de um jogo de futebol, o Primeiro-Ministro, anuncia, como se fosse uma opinião que sempre havia defendido, que o governo terá de acabar com mais esse privilégio. Como diria o dr. Vitorino, temos de nos habituar. Não será preciso grande esforço. Governos demagógicos, que acusam quem os critica de demagogia, e que cedem a toda e qualquer pressão mediática no sentido de poderem parecer eticamente irrepreensíveis, de forma a puderem levar a cabo as suas insuficientes políticas de sacríficio, governos desses, dizia, governos governados, já não são novidade.
Posted by Bruno at 07:35 PM
junho 04, 2005
Referendar ou Não Referendar
Após a vitória do "Não" em França e na Holanda, volta-se a colocar a questão: deve Portugal realizar o seu próprio referendo ou não? No próprio texto da "Constituição", como já aqui escrevi várias vezes, estava prevista a chanatgem que seria efectuada caso alguns países não ratificassem a dita: o Conselho reunir-se-ia para "analisar a questão", ou seja, faria um ultimato aos "traidores". Como os "traidores" foram os franceses, não vai haver ultimato. Mas se todos os países membros da UE fossem iguais, o processo de ratificação deveria continuar até ao fim. Como não são, o facto da França não o ter ratificado torna desnecessário o referendo em Portugal. Se fosse ao contrário, o cenário não se repetiria. Acho, portanto, que seria bom para Portugal afirmar a sua autonomia e realizar o seu próprio referendo, mesmo sabendo que nada dele resultará. Mas essa é a minha posição de princípio. Temo que ao realizar um referendo sobre algo que na prática deixou de existir possa ser uma forma dos principais partidos do falso consenso eurobeatista legitimarem à priori toda e qualquer política europeia que viessem depois a seguir. Embora esse cenário possa parecer inconcebível, de tão vergonhoso que seria, a forma como tudo isto tem sido tratado, desde a primeira pergunta que veio a ser rejeitada pelo Tribunal Constitucional, à colagem do referendo às eleições autárquicas, passando pela forma como a questão (não) tem sido discutida, me dá razões para temer o pior. E por isso mesmo, talvez fosse melhor cancelar o referendo, esperando para ver o que acontece. Especialmente se esse for o caminho seguido por mais algum país que tivesse planeada a realização de um referendo.
Posted by Bruno at 10:08 PM
O Caminho
Leio em jornal português que Dominique de Villepin, Primeiro-Ministro da França, poeta e adorador de Napoleão, quer devolver a confiança aos franceses. Caro Dominique, sei que me lê, e tenho um conselho. Siga o exemplo do Governo português. Se é confiança que procura, aumente o imposto sobre o consumo.
Posted by Bruno at 09:58 PM
A Ler
Acerca da questão das reformas dos Ministros do Governo, no Blasfémias, as várias notas intituladas Justiça Injusta e Salários, Reformas e Afins, do João Miranda.
Posted by Bruno at 09:54 PM
junho 03, 2005
A "Mentira" e o Eleitorado
Ainda a propósito da questão da "mentira" do governo: acho extraordinário, e sintomático da nossa mediocridade enquanto comunidade política, que os autores da "mentira" sejam os únicos criticados, e que o eleitorado, particularmente o eleitorado que votou nesses mesmos autores, seja tratado como se fosse vítima dessa "corja" que dizem ser "eles todos", os políticos. Numa democracia, mesmo numa democracia representativa como a nossa, e portanto, numa democracia controlada, os eleitores têm poder, e portanto têm ou deveriam ter responsabilidade. O acto do voto deve ser um acto responsável, e se não for, a culpa é de quem o coloca de forma irresponsável. Digamos que os eleitores que o fazem são responsáveis pela sua irresponsabilidade.
O engenheiro Sócrates fez todas as promessas que são conhecidas. As SCUT's. O "investimento público". A defesa do "estado social". E que não aumentaria impostos. "Mentiu", porque aumentou os impostos. É verdade. E deve ser responsabilizado por isso. Mas a necessidade de aumentar impostos para cumprir as restantes promessas seria evidente para toda aquele que tivesse dedicado dois minutos à actividade cerebral, na ponderação do voto. Se as pessoas votaram tendo consciência da situação, são responsáveis pela sua escolha isso. Se votarem sem terem poensado acerca do que o PS prometia, e do que isso implicaria, são responsáveis por isso. O político que mente é responsável, mas aqueles que o escolhem por acreditarem na mentira também.
Com isto não quero desresponsabilizar o Governo. Não quero é que quem o escolheu seja desresposanbilizado. Numa democracia, é inaceitável que os eleitores passem a sim mesmos atestados de menoridade, acusando os políticos de fazerem deles gato-sapato. O exercício do voto é um acto de responsabilidade, e a escolha que resulta da maioria dos votos numa eleição, um produto desse acto de responsabilidade. Se um político mentiu na campanha, fazendo propostas irrealistas, os eleitores deveriam ter pensado acerca das consequências dessas políticas prometidas, aquando da escolha do seu sentido de voto. Não o fizeram, têm culpa. Claro que os políticos têm responsabilidades nisto, ao contribuirem, muitos deles, para este clima, onde se ilude e ao mesmo tempo desresponsabiliza o eleitor. Por exemplo, ao não incluírem no seu discurso a noção de que cada opção política tem sempre um custo, por muito vantajoso que seja. Mas os políticos que o fazem são também eles os políticos que são um produto dessa mesma escassez de cultura democrática para a qual contribuem. Onde a actividade política é vista como algo a castigar, mas da qual tudo se espera, e tudo se exige. E da qual tudo se espera e tudo se exige, como se não tivéssemos nada a ver com quem a exerce. Uma cultura onde quem governa age como se não tivesse respostas a dar a quem quer que seja, e onde quem é governado age como se não tivesse feito qualquer escolha. É penoso? É aquilo que temos merecido. Não se vê saída.
Posted by Bruno at 10:19 PM
360 Graus
O povo está zangado. O Governo aumentou os impostos, quando disse que não o faria. Um jovem indignava-se hoje: "O Sócrates deu uma volta de 360º!" E estava certo. Na sua ignorância, o jovem estava certo. Porque o que "o Sócrates" fez não foi dar uma volta de 180º, fazendo o contrário do que foi eleito para fazer, mas sim uma de 360º, fazendo exactamente aquilo para o qual foi eleito.
No discurso de apresentação das "medidas" para "resolver" o défice, o Primeiro-Ministro explicou aos senhores deputados do PCP que tudo aquilo que ele estava a fazer era "de esquerda". Os senhores deputados comunistas achavam que não. E não se importaram de dizê-lo. O Primeiro-Ministro assegurou que sim. Que era de "esquerda". Comovente. E revelador. Revelador porque a dada altura, para assegurar que era de "esquerda", o engenheiro Sócrates afirmou que propunha aquilo que propunha para "defender o estado social". Os indignados com "a mentira" acham que "o Sócrates" estava a mentir. Eu acho que ele estava a falar verdade. Sócrates quer defender o "estado social". Foi para isso que foi eleito. Para manter viva a "promessa redistributiva" de que falava Joaquim Aguiar, na Atlântico. E para o fazer, terá de aumentar os impostos.
José Sócrates e o seu governo estão a fazer aquilo que prometeram. Estão a manter viva a ilusão, na qual eu sinceramente creio que eles acreditam com toda a sinceridade, de que o Estado é o motor da salvação terrena. Ilusão essa que tem custos. Sócrates prometeu defender o "estado social". Usar as SCUT's como forma de promoção do desenvolvimento do interior. Fazer do "investimento público" a chave para o progresso. Para isso teve de aumentar os impostos. Foi isso que ele disse. E eu acredito. É por isso que o critico. Precisamente por Sócrates estar a fazer aquilo para o qual foi eleito.
É verdade que Sócrates não disse que para fazer tudo o resto, precisaria de aumentar os impostos. No fundo, não disse que as suas opções políticas tinham custos por muito que as pessoas achem (eu não acho) que esses custos compensem. Mas esse é um problema que não é exclusivo do engenheiro Sócrates, mas que se estende por todo o discurso político dos nossos dias, onde a ideia de que cada opção política tem os seus custos está completamente ausente.
Posted by Bruno at 09:55 PM
Línguas
Segundo a Sábado, Dominique de Villepin, Primeiro-Ministro francês, conspirador e adorador de Napoleão, "fala todas as línguas dos países fronteiriços com a França, à excepção do alemão". Como eu. Falo todas as línguas dos países fronteiriços com Portugal, à excepção do espanhol.
Posted by Bruno at 09:50 PM
junho 02, 2005
O "Não" Holandês
O editorial do Times diz tudo o que é preciso dizer acerca da vitória do "Não" na Holanda. Fica aqui o money-quote:
"And finally, the Dutch fear that the long arm of the Brussels bureaucracy could eventually force them to revise liberal laws on cannabis, same-sex marriage and euthanasia. Domestic debate on these controversial issues is fierce; but no one wants outsiders to dictate how these matters should be resolved.
Disillusion with the EU crosses all political, religious and social groups. Much of it mirrors the fears and resentments in other member states. It is therefore extraordinarily foolish of those political elites that want to brush aside the Dutch “no” to speak of trying to enact much of the constitution’s content by stealth. This “no”, far more than the French one, is a rejection of the direction in which the constitution pointed the European Union. It must be respected."
Posted by Bruno at 10:30 PM
Casamentos e Divórcios
Em resposta à crítica que lhe fiz, escreve o Paulo Pinto Mascarenhas: "Podemos sempre sair da União Europeia, tentar formar uma espécie de Commonwealth lusitana com os países africanos de língua oficial portuguesa, pedir a adesão aos Estados Unidos, rezar para que nos transformemos numa espécie de jangada de pedra. De facto - e de direito - os casamentos, mesmo por dinheiro, quando correm mal, podem dar lugar ao divórcio. Felizmente, claro. Há é que depois pagar as dívidas também livremente contraídas e esperar que não nos peçam para pagar a pensão de alimentos com juros." Caro Paulo, tudo isso é verdade. Qualquer relação contratual pode ser interrompida, tendo depois de se arcar com as consequências, e custos dessa rescisão. Mas a situação que se coloca (ou se colocava, antes destes referendos) era a de alteração dessa relação contratual. E duas partes só alteram uma relação contratual quando isso é do interesse de ambas. Ora eu, pelas razões que por aqui tenho dito, acho que não é vantajoso para Portugal, nem em boa verdade para nenhum país (nem mesmo os beneficiados com o novo esquema de votação, porque as crises que daí poderiam decorrer acabariam por os prejudicar também), alterar a relação contratual já existente, pelo menos nos termos em que essa alteração era proposta.
P.S.(salvo seja): Essa hipótese da adesão aos Estados Unidos (da América, da América) parece-me boa...
Posted by Bruno at 09:57 PM
junho 01, 2005
Afastamento
A Holanda teve hoje o seu referendo sobre a "Constituição Europeia". Ao contrário do francês, não era vinculativo, mas o Governo comprometeu-se a seguir um eventual "Não", desde que a participação fosse superior a 30%, e o voto no "Não" de 55% ou mais. Ou seja, o "Não" poderia ganhar e mesmo assim não servir de nada. Felizmente, isso não aconteceu. A participação foi de 60% e o "Não" ganhou com cerca de 63% dos votos. Caso não tivesse sido assim, apenas tornaria ainda mais notório um dos piores sinais que estes dois referendos deixaram. Como tem sido bem notado por gente variada, os referendos na Holanda e na França mostram o progressivo afastamento entre governantes e governados nos países europeus. Este não é um problema exclusivo destes dois países. É também o nosso. E dos dois, o caso francês é que mais se aproxima daquele que enfrentamos.
Em França, como em Portugal, os cidadãos esperam dos seus governos aquilo que estes não lhes podem garantir. Esperam pleno emprego. Protecção laboral. Serviços pagos e fornecidos pelo Estado. A protecção laboral, ao dificultar o despedimento, dificulta a contratação. Aumenta o desemprego crónico. A ilusão dos serviços "grátis", pagos através dos impostos, consome riqueza produzida pelos cidadãos. O que prejudica a economia. O que causa desemprego. Os governados reclamam. Pedem intervenção do Estado. A intervenção do Estado não é solução. É a raíz do problema. O que os governados querem, os governos não podem garantir. Os governados ficam ainda mais descontentes. Abre-se as portas para crises graves. Acima de tudo, porque os governos as alimentam. Porque os governos alimentam as ilusões dos governados. Não lhes dizem que aquilo que exigem, eles, governos, não podem garantir. Não dizem, porque não percebem. Ou porque fingem não perceber. E ao não dizerem, mantêm os problemas vivos, e alimentam aquilo que os causa. O que torna cada vez mais improvável uma mudança de atitude. Quer queiram quer não, este caminho, com "Constituição" ou sem "Constituição", é o caminho para a desgraça. E ao contrário dos governos e dos governados, não está tão afastada assim.
Posted by Bruno at 10:17 PM
Defesa da Honra
Em Portugal, os deputados defendem a honra com interpelações à Mesa. No Japão, interpelam-se uns aos outros com os punhos. Ambas não muito honrosas.
Posted by Bruno at 10:14 PM