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abril 30, 2005
Histórias de Nova Iorque
O episódio é conhecido. Martin Scorsese havia feito Who's That Knocking at My Door, primeiro filme feito com os amigos elogiado pela crítica. Roger Corman, realizador e produtor de filmes Série B pagou ao rapaz para fazer um filme intitulado Boxcar Bertha (que não é uma história de Nova Iorque), no qual o rapaz poderia alterar o que lhe viesse à cabeça, desde que de 15 em 15 minutos surgisse uma cena de sexo, com pelo menos uma cena de violência pelo meio. O rapaz aceitou. Reza a história que Jonh Cassavets terá visto uma versão inicial de Boxcar Bertha, e referirndo-se ao dito filme em tons menos próprios, disse ao colega realizador que ele deveria era fazer filmes decentes, como o tal Who's That Knocking at my Door. E foi isso que o rapaz fez, pegando num argumento que já estava escrito há algum tempo, que daria origem ao fabuloso Mean Streets.
E foram estes dois filmes que passaram ontem na Cinemateca, juntamente com as várias curtas metragens feitas por Scorsese ainda na faculdade (exibidas com Boxcar Bertha) e o delicioso documentário Italianamerican(com Mean Streets), com o pai e a mãe Scorsese a contarem histórias da família (e de Nova Iorque) e a fazer almôndegas com molho de tomate.

Boxcar Bertha deve ser um dos piores argumentos para o ecrã que já tive oportunidade de ver em filme. A necessidade de mostrar o máximo de sangue e de carne desnudada no menor intervalo de tempo possível não ajuda. No entanto, há pequenos diálogos maravilhosamente cómicos (como aliás, as curtas-metragens), uma boa interpretação de Barbara Hershey (que faria mais tarde Hannah and her Sisters com Woody Allen, e que havia oferecido a Scorsese o livro The Last Temptation of Christ, acabando por participar nesse excelente filme) e toda a sequência final, com a crucificação da personagem de David Carradine, a Leonesca vingança sobre os que o mataram, e a corrida de Bertha (Hershey) ao lado do comboio que carrega o crucificado (e morto) Bill (Carradine).
Mean Streets já tinha visto, e já tinha até escrito aqui sobre ele. É um dos meus preferidos, e este revisionamento não prejudicou em nada essa impressão. O conflito de um homem dividido pela moral católica e a vontade de subir na vida num mundo dominado pela pequena máfia italo-americana de Nova Iorque. E só pela oportunidade de ver as obscuras curtas-metragens e o obscuro documentário, valeu a pena a deslocação, e a maratona cinematográfica.
Posted by Bruno at 10:16 PM
abril 28, 2005
Acreditar
O Governo do engenheiro Sócrates quer pôr Portugal a "Voltar a Acreditar". O slogan é conhecido. O resultado também. Os eleitores acreditam (ou pelo menos) que será este governo a pôr Portugal a "Voltar a Acreditar". Portugal é de facto um país de fé. É aliás o nosso problema. Acreditamos em tudo, e acreditamos demasiado. Eu, infelizmente (para mim, e não para o Governo), não acredito. Se não acredito em Deus, como poderia acreditar no Governo? Que me parece ser tão inexistente como me parece que Ele é.
Posted by Bruno at 06:12 PM
abril 27, 2005
A Protecção a Uns É Um Ataque a Outros
Se um Governo emitisse uma lei que textualmente proibisse os seus cidadãos de comprar os produtos mais baratos existentes no mercado, isso provocaria um justificadíssimo escândalo. E este exemplo hipotético que dei provocará certamente no leitor um também ele justificadíssimo rol de insultos a propósito de uma hipotética falta de qualidades mentais deste vosso criado. E no entanto, quando os governo europeus pretendem reduzir ou dificultar a entrada de produtos textêis chineses, pelo facto de serem mais baratos que os produtos indígenas, estão a fazer exactamente o mesmo que o meu absurdo exemplo hipotético, embora, em relação ao que pretendem os governos europeus, toda a gente ache normal e positivo. Protegem-se empregos nacionais, dizem. Não duvido. Não é justificação. A protecção a uns é um ataque a outros. Nem menciono os empregos chineses que se perdem devido à não-exportação dos seus produtos, coisa que não comove (e nem precisa comover, diga-se em abono da verdade) as boas consciências. Basta pensar nos muito nacionais, ou nos muito "europeus", para as mentes mais progressistas, consumidores. Consumidores que vêem impedida a hipótese de escolher entre produtos mais baratos, mesmo que de eventual pior qualidade, e produtos eventualmente melhores, mas sem dúvida mais caros. São obrigados a comprar este últimos. Como no exemplo absurdo que dei. Mas sem qualquer escândalo.
Posted by Bruno at 10:56 PM
Publicidade Institucional
José Maria Brito, do Haja o que Houver, pede que divulgue o debate, a realizar dia 30 de Abril, no Auditório do Colégio São João de Brito, o debate "A religião e a sociedade democrática" que contará com participantes como Francisco Sarsfield Cabral, Vital Moreira, Maria José Nogueira Pinto e Rui Machete. A programação completa está disponível aqui.
Posted by Bruno at 10:29 PM
abril 26, 2005
Naomi Watts e o Bom Governo
Devo dizer que as cerimónias de comemoração do 25 de Abril não me provocam grande entusiasmo. Ainda bem. Entusiasmos, só com a visão da Naomi Watts. De resto, dispenso. Principalmente, entusiasmos políticos. E as celebrações do 25 de Abril caracterizam-se por vários entusiasmos. Por um lado, dos mais estridentes nostálgicos de Abril, que com a sua fé imensa no progresso, achavam que com a democracia viria o paraíso na Terra. E por outro, dos ressabiados de Abril, menos visíveis, mas não menos entusiasmados no seu elogio da Idade de Ouro entretanto perdidas. A discussão é antiga. Qual a forma de organização constitucional mais indicada para o "bom governo" da comunidade política? Qual o regime que trará o Paraíso, perdido ou ainda por encontrar? O autocrático ou o oligárquico (o governo de "um" ou o governo de "uns"), ou o democrático (o governo de "todos")? Não me ocorre resposta. Já aos entusiasmados de ambos os lados não lhes ocorre que, independentemente do número, todas as formas de governo são formas de governo pelos homens. E como tal, sujeitas a todas as falhas humanas. Tanto o ditador, por muito benigno, como as elites, por muito iluminadas, como as maiorias, por muito numerosas, se enganam. Só Deus não se engana, mas, infelizmente, não existe. E se existisse, estaria certamente ocupado com outros assuntos mais importantes que a organização política dos homens. Com a Naomi Watts, por exemplo. Estamos, portanto, entregues à falibilidade de "um", de "uns", ou de "todos". Sem Paraíso para reencontrar, ou sequer para alcançar. Por muito que os mais progressistas e os mais reaccionários não o compreendam, o "bom governo" depende pouco da sua forma. E se há alguma razão (que há) para querer viver nas nossas democracias (no fundo, o governo de "uns", escolhido por "todos"), é o facto de podermos dar a nossa opinião acerca de qual é o "bom governo". Mesmo que, muito provavelmente, estejamos errados, e voltemos a estar errados quando mudamos de opinião. E com a Naomi Watts sempre em mente. Pelo menos na minha.

Posted by Bruno at 05:29 PM
abril 25, 2005
Dúvida Inquietante
Alguém me sabe dizer se o Governo já tomou posse?
Posted by Bruno at 09:32 PM
abril 24, 2005
Ribeiro e Castro
O jornalismo político português não prima pela qualidade. Exemplo disso tem sido a análise dos senhores jornalistas do Congresso do CDS/PP. Análise centrada num pequeno mas significativo equívoco: Telmo Correia não é, ao contrário do que afirmaram incessantemente os jornalistas, o representante de uma "direita mais liberal", nem Ribeiro e Castro é propriamente o "regresso ao velho CDS", o CDS que o dr. Freitas achava equidistante do PS e PSD. Telmo Correia, tal como a direcção do dr. Portas, não é um liberal. Para ser liberal não basta dizer que se tem de abrir o partido às empresas. E, diga-se, a única coisa liberal que ouvi saiu da boca de Ribeiro e Castro, a questão que referi em texto anterior, do Estado como garante de determinados serviços e não como seu prestador. A diferença entre Ribeiro e Castro e Telmo Correia pareceu-me ser essencialmente uma de atitude, de postura política, sendo a de Ribeiro e Castro algo distante da de Paulo Portas (veja-se por exemplo, o enfâse de Ribeiro e Castro dá ao carácter colegial da sua direcção, contrastando coma concentração em torno do líder da direcção anterior).
Dito isto, alguns pequenos comentários em relação ao Congresso em si: primeiro que tudo, há um sinal positivo para o próprio CDS/PP. Num debate em que, ao contrário do que poderia parecer, existiam diferenças reais e palpáveis entre os dois candidatos, tudo leva a crer que, e ao invés da história recente do partido, o derrotado não sentirá a necessidade de se desfiliar, nem de haver da parte do vencedor uma "refundação". É saudável para o CDS/PP que possa existir uma alteração de rumo político sem que seja necessário desligar-se por completo do passado recente.
E por último, um sinal positivo que o CDS transimte para os outros partidos. E aqui, falo contra mim, contra o partido que considero ter maiores possibilidade e responsabilidades de mudar o país: como ontem fiz referência, há dois momentos do Congresso em que a diferença de atitude de Telmo Correia e Ribeiro e Castro representaram indicadores contrastantes do que seria a acção política de cada um em caso de vitória. Quando Telmo Correia anuncia uma série de nomes, que, méritos ou deméritos de lado, seriam os nomes que as estruturas distritais mais quereriam ouvir, e quando Ribeiro e Castro faz precisamente o contrário, anunciando que, só se fosse escolhido, trataria de arranjar nomes para uma direcção (isto depois de já ter anunciado outra coisa que as distritais não devem ter gostado muito, arealização de eleições directas). O facto de uma maioria de congressitas ter escolhido o projecto cuja atitude demonstrava uma atitude de maior desprendimento, de defesa de um projecto, incorporado na sua moção, sem grande preocupação aparente com os resultados que poderia obter, representa um sinal que contrasta com a atitude dos congressistas do PSD, que no último Congresso, quando Marques Mendes interviu criticando o passado recente do partido, demonstraram pouco apreço pela coerência, e mais, pela análise, nesse aspecto, correctíssima, do dito, em relação a esse mesmo passado. E, a mim que tenho criticado o CDS/PP, e a mim, que considero que o PSD deve, porque só o PSD pode, ter uma postura política de ruptura, definida, firme, a mim, custa-me que seja precisamente no CDS/PP que tanto tenho criticado, que veja sinais dessa mesma atitude.
Concluindo, é preciso ter alguma precaução, são apenos meros sinais. Mas, caso estes se venham a confirmar, creio que a escolha de José Ribeiro e Castro será uma boa escolha para o CDS/PP. Mas, e isto que fique bem claro, quando digo isto, estou a falar "deles", e não de "nós". Os sinais não chegam para me converter.
P.S.(salvo seja): Os parabéns à rapaziada do Acidental e do Quinto eleita para cargos na nova estrutura directiva daquela agremiação.
Posted by Bruno at 09:51 PM
CDS/PP 4
Depois de saber o resultado da votação das moções do Congresso do partido, repito o que escrevi no texto anterior: tendo em conta as duas atitudes dos dois candidatos, e o que essas atitudes indicaram em relação ao futuro, parece-me que a escolha de José Ribeiro e Castro é um sinal positivo. Para mais logo, ficará um comentário final. Agora sim, vou fazer os mesmos que os congressistas. Dormir.
Posted by Bruno at 05:47 AM
CDS/PP 3
Uma coisa é necessário reconhecer: este Congresso do CDS/PP tem sido até aqui um dos mais positivos debates partidários a que já assisti. E não só por ter, ao contrário do que se esperava, emoção até ao fim, ao ponto de me manter acordado para ver o que acontece num partido que me é algo distante. Mas essencialmente porque, e ao contrário do que possa parecer aos mais desatentos, há uma profunda diferença entre os dois candidatos principais. diferença essa que foi notório num momento particular. Quando Telmo Correia sentiu ser necessário disparar uma série de nomes para uma série de lugares. E nomes que são nomes do núcleo duro portista, os nomes que certamente mais agradam às estruturas distritais do partido. Ao contrário, Ribeiro e Castro não anunciou nomes nenhuns, até porque muito provavelmente não os tem, mesmo sabendo que isso o poderá prejudicar. E porque penso eu que este momento aparentemente irrelevante é assim tão revelador de uma difernça entre os dois candidatos? Simples. Porque é uma diferença de atitude que, a manter-se, será também certamente uma diferença política. Uma diferença entre um atitude de Telmo Correia de puxar imediatamente daquilo que apela às estruturas mais imobilistas de qualquer partido, as distritais, atitude essa que poderá indicar, numa futura acção política, uma atitude similar à demagogia portista de aproveitamento eleitoralista de determinados temas, mas dizia, uma atitude de Telmo Correia nesse sentido que me parece profundamente negativo, com a qual contrasta uma atitude de algum desprendimento da parte de Ribeiro e Castro, avançando até com algums propostas internas que certamente não agradarão a essas mesmas estruturas a que Telmo Correia procurou apelar (estou a pensar na proposta que fez relativamente à realização de directas), atitude essa que poderá indicar, contrastando mais uma vez com o que poderá indicar a atitude do seu adversário: uma postura política de maior firmeza, de maior definição política, de menor aproveitamento demagógico. Uma atitude em que, independentemente do meu julgamento acerca do valor, ou ausência dele, das propostas que fará, e algumas, como já escrevi, merecem atenção, essas mesmas propostas, dizia, serão defendidas por Ribeiro e Castro com convicção, independentemente dos resultados eleitorais que essas mesmas propostas que lhe poderão dar. Tal como o fez neste Congresso. E se o CDS/PP deu aqui um sinal positivo (para mim, devo mais uma vez dizer, inesperado), pela forma como decorreu este debate, daria outro ainda maior e mais significativo, se escolha da maioria dos seus delegados fosse a de Ribeiro e Castro. Se fosse militante do CDS/PP, saberia em quem estaria neste momento a votar.
Posted by Bruno at 04:02 AM
abril 23, 2005
CDS/PP 2
No momento em que escrevo, discursa Telmo Correia, e depois de José Ribeiro e Castro ter dito que se a sua moção for a mais votada será líder, um pequeno comentário: Nuno Melo "apresentou" a candidatura de Telmo Correia com o argumento de que este teria as melhores condições para unir o partido. Já José Ribeiro e Castro apresenta a sua candidatura com base numa moção que ele escreveu, com base nas suas ideias, algumas delas a merecer atenção, como a possibilidade em o estado ser o "garante" de certos serviços em vez de ser o seu "prestador", mas dizia, apresenta uma candidatura com base em ideias, sem uma preocupação de união ou divisão. É candidato para defender aquelas ideias. Se o quiserem, muito bem, se não o quiserem, muito bem também. Independentemente do valor das ideias de Ribeiro e Castro, e algumas delas têm certamente, a atitude de Ribeiro e Castro merece aplausos. E merecia, acima de tudo, ser mais imitada. No seu partido, e nos restantes.
Posted by Bruno at 07:14 PM
CDS/PP
O artigo de hoje do Luciano Amaral no DN (sem link) mostra todas razões porque não sou nem militante nem grande adepto do CDS/PP. Se é verdade que o discurso de Paulo Portas tem sido, e só de há relativamente pouco tempo para cá, um discurso que fala muito da abertura da economia à sociedade civil, de diminuição do peso do Estado, o que é certo é que muitas das suas propostas, correctas ou não, não importa agora (e estou-me a referir à questão das pensões dos ex-combatentes, por exemplo), são na prática propostas de aumento do peso do Estado. É evidente que são áreas onde o CDS/PP considera que o estado deve estar, ao contrário de outras. E que, não tendo o CDS/PP capacidade (por falta de dimensão) de diminuir esse peso estatal nas outras áreas, procura responder aos problemas que identifica como aqueles a que o estado deve responder. No entanto, o CDS/PP nunca alertou no seu discurso para este pormenor, nunca alertou para os custos dessas mesmas iniciativas. E há ainda o exemplo das intervenção estatal em indústrias que sem essa intervenção não sobreviveriam, da qual o dr. Portas tanto se orgulhou em campanha eleitoral, ao mesmo tempo que falava da necessidade (que é bem real) de liberalização.
Isto conduz-nos ao que o artigo do Luciano Amaral afirma. A falta de definição política do CDS/PP. Com isto não quero dizer que não haja nesse partido pessoas com definição política, e em alguns casos, até algumas ideias que mereciam mais e melhor atenção. É evidente que há. Mas da prática política do CDS/PP não é essa definição e sentido certo que se nota. O que se nota é a capacidade do dr. Portas de se adaptar ao impulso mediático do tempo. E é essa capacidade que permite que, sem grande definição, o CDS/PP tenha conseguido atrair dois tipos de eleitorado completamente distintos de uma eleição para outra. E se ao mesmo tempo que há no CDS/PP quem pense acerca das necessidades do país, e pense bem, há também quem tenha aderido ao "projecto político" do dr. Portas, em virtude da mera empatia pessoal que o dito provoca. Conheço pessoalmente um caso, e imagino que os membros do CSD/PP do Acidental ou do Quinto dos Impérios, por estarem no interior desse partido, conheçam bastantes mais.
E se há questão em que o CDS/PP, e o dr. Portas em particular, conseguiu mudar de posição, sem nunca estar no sítio certo (e imagino, sem qualquer ironia, que os militantes do CDS/PP concordem com o Cardeal Ratzinger na sua crítica ao relativismo, e que portanto concedam que eu pense que o caminho certo é aquele que eu defendo, porque eu também lhes concedo o mesmo, achando que eles estão enganados), é a questão europeia. O dr. Portas conseguiu passar do apoio claríssimo ao aproveitamento demagógico do dr. Monteiro dos custos, para certos sectores da sociedade portuguesa, da integração europeia, aproveitamento esse que ultrapassava o anti-federalismo, roçando o anti-europeísmo, para uma imprudente adesão a uma ainda mais imprudente "Constituição Europeia". Se, em 1993, o dr. Portas escrevia que Cavaco Silva estava a ser imprudente, ao não ter capacidade "de pensar no que será um Primeiro-Ministro de Portugal em 2005", nesse mesmo 2005, é o mesmo dr. Portas que demonstra a incapacidade, ou a falta de vontade, de pensar no que será uma divergência no seio da UE, numa questão como a que sucedeu em relação à guerra do Iraque, numa altura em que, caso a "Constituição" que o dr. Portas apoia seja provada, a UE poderá vir a ter uma Política Externa Comum instituída, que transformará aquilo que no caso do Iraque foi uma divergência entre vários países, numa crise interna bem mais grave.
A inconstância de posições num agente político, como forma de maior aproveitamento mediático ou de estratégia política, sem grande preocupação com as consequências práticas a longo prazo daquilo que se passou a defender, não é exclusivo do dr. Portas, nem do partido que ele tem liderado. E certamente que nesse mesmo partido, há quem tenha consciência desse problema. Mas o que é verdade é que, até por ser um partido pequeno, as consequências de tal atitude se notam mais, e, bem mais grave que isso, se dificulta a mudança. Mas numa coisa o CDS/PP tem, em relação ao outro partido que me interessa (e de quem sou claramente mais próximo, embora "em crise"), o PSD, uma vantagem: precisamente por ser um partido mais pequeno, o CDS/PP tem menos gente dependente do Estado, dos favores políticos dos dirigentes, etc. Essa ausência de dependência coloca menos entraves a uma eventual mudança de atitude. Mas permanecem os outros.
Posted by Bruno at 06:00 PM
abril 22, 2005
Fnac do Colombo
A Fnac é a minha catedral. Entrego-me sem grande sentimento culpabilizador ao consumismo materialista. Mas em relação à Fnac do Colombo, sou como os católicos desiludidos com o novo Papa. A Fnac do Colombo é uma desgraça. Conheço as da área urbana lisboeta. E se, de facto, a do Colombo é a que tem a melhor estante (pensei escrever "prateleira", mas estava a pensar noutra coisa) dedicada à política, especialmente com a quantidade de livros importados dos povos civilizados, é também aquela que apresenta os piores empregados. Já me aconteceu de tudo com a rapaziada assalariada da Fnac do Colombo. E nem sequer dou importância ao honesto trabalhador que exclamou a alto e bom som "Michael Moore é o maior", afirmação que o deveria desqualificar de qualquer contacto próximo com qualquer tipo de publicação escrita. Nem vou por aí. Lembro-me só do dia em que um simpático trabalhador explorado pela empresa francesa se coloca entre mim e a estante que eu, inocente, estava a contemplar, sem dúvida atrapalhando o já referido homem explorado pelo homem. Com toda a justiça, porque estava a ser importunado, o dito jovem assalariado limitou-se a colocar-se (não se atravessou, ficou lá) à minha frente. Nem uma qualquer interjeição, para amenizar a falta de educação. Nada. Devia ter aprendido. O que estava eu ali a fazer, ao olhar para livros? Ver para quê? Comprar para quê? Livros para quê?
Tudo isto a propósito da versão em livro do Acidental. Não estive presente no lançamento. E até nem foi por causa dos funcionários da Fnac do Colombo. Imaginei apenas que os escassos 35% de portugueses que não votaram à esquerda nas últimas eleições estivessem todos lá, num festa de injúria ao actual governo. Estamos portanto a falar de 2 pessoas, no máximo. Para mim, que tenho em relação às pessoas a mesma relação que Howard Hughes tinha com os germes, até mesmo um número tão reduzido de pessoas é demasiado. E assim, avesso a multidões, fiquei em casa. Mas queria o livro. O relato do companheiro conspirativo JCD falava de um livro esgotado. Perguntam (não a minha pessoa, mas outro lacaio do capitalismo bushista) a um dos já referidos funcionários. O rapaz não sabia da existência do dito livro. Eu não acho que as pessoas sejam obrigadas a saber o que é o blog Acidental. Se forem esquerdistas, até é melhor que não saibam, não vá, como diz o povo (frase muito do agrado de Santana Lopes), "dar-lhes uma coisinha má". O facto de um funcionário de uma livraria não saber os livros que tem ou já teve, também é compreensível, pois é difícil decorar os nomes e autores das centenas de livros que povoam aquelas estantes. É aliás para isso que servem os registos. Já o dito funcionário exclamar um sonoro "Quê?" perceptível por este vosso criado, que nem sequer estava junto do dito assalariado, demonstra acima de tudo falta de profissionalismo, o que já é menos aceitável. Voltando à odisseia, não só o exaltado rapaz não sabia se o livro estava esgotado ou não, como nem sequer sabia do lançamento que havia ocorrido naquela mesma instalação, haviam na altura menos de 24 horas. Vejo que as duas pessoas que não votaram à esquerda nas últimas eleições traumatizaram de tal forma a rapaziada socrática da Fnac do Colombo que estes enterraram bem fundo as recordações do referido evento. Fui então condenado a procurar. Vejo três exemplares do Barnabé. Preparo já para me queixar. Aparentemente não é apenas a comunicação social que está dominada pela esquerda. Também a catedral. E é já no meio da raiva de direitista zangado com a modernidade progressista, que avisto, junto aos três exemplares do Barnabé, um isolado mas aristocrático exemplar do Acidental. Deixei lá os exemplares do Barnabé.
Posted by Bruno at 09:31 PM
abril 21, 2005
As Férias de Durão
Corre por aí grande polémica devido ao facto de Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, ter ido passar umas férias ao iate de um multi-milionário seu amigo. Segundo o Público, os eurodeputados socialistas estão escandalizados. Percebo que cause algum barulho o facto do Presidente da Comissão Europeia ir passar umas férias com alguém que tem interesses económicos que dependem de decisões da Comissão (como depreendi da leitura da notícia). No entanto, o facto de Durão ("Barroso", não "Raúl") ser amigo do senhor em causa há já bastantes anos deveria ser o suficiente para que os senhores eurodeputados socialistas fossem, no mínimo um pouco menos lestos a lançar as suas acusações. Até porque há meios de evitar conflitos de interesse nessas decisões (a razão pela qual a Comissária com essa pasta terá, segundo o Público, deixado essa mesma decisão para Durão) e porque, convém notar, não deixa de ser um pouco de mau gosto colocar uma pessoa imediatamente sobre suspeita, até mesmo antes do eventual acto reprovável (um eventual favorecimento de Durão ao senhor em causa) ter sequer ocorrido. Os eurodeputados socialistas dirão que "à mulher de César não basta sê-lo, tem de parecê-lo". A mim parece-me curioso que os senhores eurodeputados socialistas se preocupem mais com as férias do Presidente da Comissão Europeia pagas pelo bolso de um amigo do Presidente da Comissão Europeia, do que com o dinheiro dos contribuintes sugado pelo aparelho burocrático da Comissão a que o dito preside.
Posted by Bruno at 10:11 PM
abril 20, 2005
Sobre a Escolha do Papa
Há, nas reacções negativas à escolha do novo Papa, uma pequena distinção a fazer, entre a repulsa dos não-católicos, e a desilusão de parte dos católicos. Ambas, em grande parte, motivadas pela questão da "moral sexual" católica. Os não-católicos não concordam com a posição do Vaticano relativamente ao uso do preservativo. Estão no seu direito. Eu também não concordo. Mas nem eu, nem os escandalizados, temos nada a ver com isso. O Papa, a mandar em alguém, manda nos católicos. E falo de católicos a sério, e não nesse estranho animal que dá pelo nome de "católico não praticante". Um católico é alguém que adere a uma organização que advoga e defende uma Fé, de acordo com uma determinada doutrina acerca da melhor forma de viver de acordo com essa Fé. A doutrina católica relativamente aos comportamentos individuais dos seus crentes diz, precisamente, respeito apenas e só aos seus crentes, aquelas que a ela aderem. Com isto não quero dizer que os não-aderentes não possam manifestar a sua discordância. Eu pessoalmente, gosto sempre de manifestar a minha discordância relativamente a quem quer que seja. Não faz sentido é que eu queira que uma organização à qual não tenho qualquer tipo de ligação mude aquilo que a caracteriza, abandone aquilo que mal ou bem tem feito parte da sua doutrina, como é o caso da Igreja relativamente à "moral sexual".
Posto isto, percebo perfeitamente a desilusão daqueles católicos que discordam da orientição papal nesta questão. É, como qualquer questão doutrinal da Igreja, à excepção dos dogmas, motivo de debate. Mas, e é um infiel que o diz, parece-me que esse debate terá que ser feito em redor da doutrina, e nunca do argumento de que "o mundo já não é mesmo". As mudanças de orientação da Igreja terão que partir da própria doutrina, pois é, do ponto de vista dos seus fiéis, pela Palavra de Deus que esta zela, e a Palavra de Deus não é como a de Kerry, não muda com as sondagens.
É por isso que percebo a posição de alguns católicos (poucos), que se desiludiram com a posição do Papa anterior, relativamente à questão do Iraque. Porque se, relativamente à questão da "moral sexual", esta tem sido a posição tradicional da Igreja, já a posição na Guerra do Iraque (possivelmente com alguns antecedentes que desconheço), na elaboração da qual, segundo a comunicação social, o então cardeal Ratzinger desempenhou papel fundamental, representa um abandonar de um dos seus autores canónicos, Santo Agostinho, nomeadamente a sua noção de guerra justa, como seria uma guerra que visasse depôr um tirano, como o exemplo em questão (convém frisar que não foi esse o argumento que me fez apoiar a guerra). E esta é uma questão que diz bem mais aos não-católicos do que a anteriormente referida, visto tratar-se da política externa de um Estado, por muito pequeno que seja, e não daquilo que um chefe de uma organização diz aos seus membros, e seguindo uma doutrina que é conhecida e aceite por ambas as partes, qual a conduta que devem seguir para viver de acordo com essa mesma doutrina.
Só mais um pequeno comentário, para concluir, relativo ainda à questão da "moral sexual", e da discordância por parte de "não-católicos" relativamente à posição papal: não deixa de ser curioso que sejam as mesmas pessoas (as da esquerda) que manifestam grande preocupação relativamente ao que o chefe de uma organização a que não pertencem diz aos seus membros ser o melhor caminho (que têm o direito de não seguir) para cada um deles atingir a Salvação, que sejam essas mesmas pessoas, dizia, que depois mostram grande conforto com as restrições e intromissões dos Estados em que vivem nas escolhas individuais dos seus cidadãos (obrigados por lei ao seu cumprimento), em nome de um suposto Bem Comum. É por isso que prefiro um Papa reaccionário a um governante iluminado.
Posted by Bruno at 10:31 PM
Ele Sabe Do Que Fala
Segundo o Público, Saramago diz, em relação à escolha de Ratzinger, que "a Inquisição subiu ao poder".
Posted by Bruno at 10:14 PM
Agradecimento
À menção, no Quarta República (outro blog cujo link aguarda o fim da preguiça), dos dois posts anteriores. No entanto, não posso deixar de me inquietar: o que faz um ex-ministro como David Justino a ler as diatribes deste rapaz? Nem como castigo. Por muito grave que seja um pecado, trabalhar com o aparelho burocrático da 5 de Outubro é castigo mais que suficiente. E muitas vezes (como, pelas posições que conheço, parece ser o caso), imerecido.
Posted by Bruno at 09:50 PM
abril 19, 2005
Vade Retro Capital
Leio nos jornais que ocorreu, em local penosamente familiar à minha pessoa, um debate entre Mário Soares e Fernando Rosas. Qualquer debate entre os dois senhores em causa assemelha-se a eleições me país terceiro-mundista: o que está em causa é dizer mal de George Bush. Foi o que se passou. Para uma plateia que, a ter em conta a população habitual do local, odeia Bush com muito mais virulência que os dois debatentes, com a desvantagem considerável de não possuírem, ao contrário de Soares e (dizem alguns) Rosas), a faculdade do pensamento, Mário Soares terá dito que o "não" à "Constituição Europeia" é um "sim" a Bush. Nada pior, para Mário Soares, que um "sim" a Bush. Nem mesmo a escolha do Cardeal Ratzinger para Chefe da Igreja a que Mário Soares não pertence, mas que gostaria de ver mais próxima do Bloco de Esquerda. Rosas é contra a "Constituição Europeia". Mas não diz "sim" a Bush. Rosas não diz nada, ponto final. Mas prossigamos. Tanto Soares como Rosas não gostam de Bush. Não gostam do "neo-liberalismo". O "neo-liberalismo" é, como é sabido, a maior ameaça ao mundo livre e progressista, juntamente com o Cardeal Ratzinger. No entanto, Soares e Rosas não concordam relativamente à "Constituição Europeia". Rosas acha que a dita é "neo-liberal". Soares acha que é uma barreira contra o "neo-liberalismo". Soares, histeria à parte, está mais perto da realidade. Aliás, a razão por que soares diz "sim" à "Constituição" é a que me leva a dizer "não" á dita. Independentemente do George W.
Posted by Bruno at 09:36 PM
abril 18, 2005
Males Espelhados
Continua por aí grande excitação em redor do possível "Não" francês no referendo à "Constituição Europeia". Percebe-se. E, através do possível "Não", e da excitação em volta dessa possibilidade, também se pode perceber muito do que está mal na política dos países europeus, e na política da "Europa". Por que razões votará grande parte dos franceses "Não"? Uma parte deles porque acha que a "França é para os franceses". Espelho da xenofobia que vai polvilhando certos sectores das sociedades europeias. Outra parte deles porque não gosta de Chirac. Porque Chirac, ou o Governo do seu Primeiro-Ministro, quer acabar com os seus "direitos adquiridos". Espelho da dificuldade que hoje em dia têm os governos em fazer qualquer reforma, por muito tímida que seja (como é caso em França). Outra grande parte porque acha que a "Constituição Europeia" é "neo-liberal". Espelho do receio francês, e que infelizmente prolifera por outros cantos do continente, de uma maior abertura do mercado, receio marcado pela defesa da "excepção francesa" que mais não é que um ilusório proteccionismo que acabará por condenar, a prazo, a grande França que já não existe a não ser na cabeça de quem nela fala, e que vê (Chirac incluído) na directiva Bolkestein o exemplo máximo dessa ameaça neo-liberal. Mais: por que razão há, nos sectores mais afectos ao federalismo, um grande receio de um "não" francês, que não se verifica com a possibilidade de um "não" noutro qualquer país mais pequeno, ou até na Inglaterra? Porque, como disse o nosso Presidente da República, a UE não é concebível sem a França. Ignoremos o facto de não ser isso que está em questão. Depreende-se das palavras do nosso Presidente que, se a França é indispensável, o mesmo não se passa com outros Estados-membros. Aliás, o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros já afirmou em tempos, e como figura ímpar que é, certamente que com toda a consciência do que estava a dizer, que se deveria pensar seriamente na saída do Reino Unido, caso o "Não" ganhasse o referendo britânico. Exemplo da profunda desigualdade com que são encarados os estados-membros da UE, especialmente os mais pequenos. Tudo razões de sobra para olhar com desconfiança para a rapaziada parisiense que tenciona dizer "Non". Mas tudo razões de sobra para esperar que essa rapaziada seja maioritária, para que não se crie um mal maior. Isto porque, como a França é assim tão indispensável, um "Não" francês teria o resultado que mais nenhum "Não" provavelmente teria: acabar de vez com a "Constituição", o que talvez permitisse manter a UE, que não sendo perfeita, ainda vai sendo relativamente "governável".
Posted by Bruno at 09:47 PM
Sobrevivência
Ouvi a entrevista do Ministro da Agricultura do Governo que vai pôr Portugal a "Voltar a Acreditar", no programa Outras Conversas, de Maria João Avillez. A dada altura, o sr. Ministro tece grandes elogios ao sector de produção de leite pátrio. Dizia o sr. Ministro que, quando todos vaticinavam a sua falência, o dito sector resistiu. O sr. Ministro chegou mesmo a dizer que o tal sector chegou mesmo a "sobreviver" à "ameaça" de grandes multinacionais. Um retrato do país nas palavras do Ministro. Se as grandes multinacionais estão interessadas no sector de produção de leite português, é porque acham que poderão retirar daí algum lucro. E se as grandes multinacionais retirarem daí algum lucro, isso acabará por beneficiar os trabalhadores do dito sector, já não para não falar das pessoas que vendessem as empresas desse mesmo sector a essas mesmas multinacionais. Enquanto em Portugal se continuar a ver uma oportunidade de negócio como uma ameaça, por muito que se "volte a acreditar", dificilmente se sobreviverá.
Posted by Bruno at 09:36 PM
abril 17, 2005
A Perfect World

"In a perfect world, there would be no crime, no fear, no prisons, but sooner or later, most everyone learns, there's no such thing as a perfect world."
Num Mundo perfeito, todos os filmes seriam assim...
Posted by Bruno at 10:12 PM
Candidaturas
Desde que se criou a ideia de que o engenheiro António Guterres, Secretário-Geral da Internacional Socialista e governante irresponsável, poderia ocupar um cargo de chefia na Comissão dos Refugiados da ONU, que o PS anda a procura de candidato presidencial. Pessoalmente, ainda não dei a minha opinião acerca deste assunto. E quando der, não será certamente uma opinião que tenha o PS em grande conta. O mesmo não se pode dizer de Mário Mesquita e Eduardo Prado Coelho, que não só já deram a sua opinião, como ambos, e as suas opiniões, têm o PS como objecto de afeição ideológica. E quem propõem para candidato da esquerda para as presidenciais? Manuel Alegre. Apenas um curto comentário: tudo aquilo que Manuel Alegre defende é, aos meus olhos, uma imensa asneira. Mas uma coisa tenho de reconhecer. Uma candidatura de Manuel Alegre, contra uma candidatura de Cavaco Silva, teria um mérito que não deve ser desvalorizado. Entre os dois, haveria discussão. De política. O que vai sendo cada vez mais raro no exercício da dita.
Posted by Bruno at 09:57 PM
abril 16, 2005
Days of a Future Passed
A senhora minha avó, afecta à esquerda socialista e cidadã luso-americana anti-bushista, vituperava contra os hábitos de indumentária da juventude afecta à esquerda libertária. Vituperava, mas, dizia a senhora minha avó, não "condenava". Eu condeno. Condeno tudo. Até aquilo que acho bom. O que manifestamente não é caso de nada que tenha a ver com a esquerda libertária. A senhora minha avó não condenava. Mas vituperava. Suspirava. "Ainda bem que eduquei os meus filhos noutro tempo", disse a senhora minha avó. Uma bela e comovente expressão de nostalgia conservadora. Fica sempre bem. Especialmente numa senhora afecta à esquerda socialista e cidadã-luso-americana anti-bushista. Coisa que, obviamente, condeno.
Posted by Bruno at 09:36 PM
abril 15, 2005
Música
Perguntam-me se não vou falar da Casa da Música. Ou melhor, perguntam-me se não vou falar "daquela vergonha" da Casa da Música. De facto não tencionava. Não que não seja uma vergonha. É. Mas é algo que parece tão costumeiro neste país, que a crítica (um esquerdista, ou um ouvinte do Fórum TSF, diria "a indignação") relativa a estas questões parece desnecessária. Um pouco como as declarações de Alberto João Jardim. Por muito que todas elas sejam enormidades que não mereceriam outra coisa que não o mais violento chorrilho de insultos, já ninguém liga. Com a Casa da Música é a mesma coisa. É uma vergonha? É. Nada de novo. Isso sim, o facto "desta vergonha" ser apenas mais "uma vergonha" na sequência de muitas outras, e de por isso já quase ninguém lhe dar muita importância, merece um comentário.
Posted by Bruno at 10:20 PM
Receitas Extraordinárias
Na sua entrevista de ontem à RTP, José Sócrates afirmou que o défice orçamental do país estaria perto dos 6%, e que o governo tencionava, até ao final do seu mandato, reduzi-lo abaixo dos 3%. Mas que iria fazê-lo, sem recorrer a receitas extraordinárias. O Primeiro-Ministro disse que as receitas extraordinárias não resolvem os verdadeiros problemas do défice. É verdade. Mas o facto de ser preciso fazer muito mais (e muita coisa que o PS não está disposto a fazer) não implica necessariamente que se ponha de parte a hipótese de receitas extraordinárias, desde que não se limite a isso. Como já alguém disse (sinceramente, não me recordo quem, mas julgo que Medina Carreira) as receitas extraordinárias permitem que o Estado se veja livre de muita coisa que é desnecessário (e contraproducente) manter na sua posse. A venda de património imobiliário(a venda dos "anéis" que tanto ofendeu o PS na oposição, e que parece continuar a ofender), é um bom exemplo. No entanto, o Primeiro-Ministro não só não concorda (está no seu direito), como parece arrogar-se de alguma superioridade moral, por não recorrer a receitas extraordinárias. A demagogia que aparentemente vai funcionado em Portugal.
Posted by Bruno at 10:08 PM
After Hours
Depois do sofrimento com o jogo do clube, nada melhor para adormecer que a entrevista do Primeiro-Ministro.
Posted by Bruno at 10:06 PM
abril 14, 2005
Inquietações
Uma coisa tem-me ocupado o pensamento: Joana Amaral Dias. E não só da maneira que estão a pensar. Falo das suas crónicas. As crónicas de Joana Amaral dias são indescritíveis. Não tenho descrição para elas. Frases consecutivas que nenhuma relação têm entre si. Inqualificável. Não há qualificação. Porque razão o DN paga à esbelta senhora para inserir caracteres nas suas páginas? Porque razão poderá alguém pensar que a presença de Joana Amaral Dias nas páginas do seu jornal ajudará a vender exemplares? Perante as palavras anteriores, podemos pôr de parte as capacidades intelectuais. Representatividade partidária? Consideração pessoal? Há quem diga que é a fotografia que vende jornais. Não me parece. Não quero com isto desvalorizar as qualidades estéticas da senhora. Nem sequer contestar que essas mesmas qualidades vendem mais que o intelecto de qualquer um e que as características físicas de outros. O que quero dizer é que a fotografia é demasiado pequena para que possa ser um sales magnet. E para mais, as palavras que a acompanham são muito desencorajadoras. É uma dúvida que me continuará a perseguir.
Outra coisa tem estado a ocupar-me o espírito. As estudantes do ensino secundário que ontem se manifestavam nas ruas do país. E não só pelas razões que estão a pensar. Já os estudantes do secundário (no masculino) evidenciam os mesmos sinais preocupantes, mas não me ocupam o espírito. Adiante. As crianças foram para a rua. Pediram educação sexual. Fazem mal. O que lhes falta é educação, sem mais qualificativos. Falta-lhes chá. E um bocadinho de bom senso. Uma das jovens pedia, para além de educação sexual (seguia-se, neste texto, uma frase que, a bem da moralidade, foi censurada), que o "investimento na educação fosse sempre público, nunca privado". Destaco o "nunca privado". E faço a pergunta: porquê? A jovem certamente não saberá responder. Também aqui lhe falta aprender qualquer coisa. E assim, repete aquilo que a escola lhe ensina. Que o mercado é mau. Que os "empresários querem é lucro", esse corruptor de almas. a jovem dizia que a entrega das escolas a gestores privados, mesmo que inseridas num sistema público, seria uma "preversão do sistema". Uma escola deve ser gerida, dizia ela, por quem saiba o que é dar aulas, por alguém que "não trate os alunos como números". Esse, claro está, é o grande pecado, tratar os alunos como números. As almas progressistas acham que é desumanizador. Não lhes ocorre que desumanizador é querer eliminar um factor inevitável da condição humana, as diferenças, quer por mérito, sorte ou privilégio, entre os vários indivíduos. Tal como, à jovem contestária, não lhe ocorre que talvez(concedo-lhe um mero talvez), as escolas devessem ser geridas por alguém que saiba o que é gerir alguma coisa. Nada disto lhes ocorre. Ontem, pelo menos, não ocorreu. Mas concedo. Estavam ocupados a divertirem-se, pedindo bem alto que lhes seja dada educação sexual e que o investimento na educação seja "sempre público, nunca privado". Actividades nada convidativas ao pensamento. E que nem evidenciam a capacidade para tal.
Posted by Bruno at 05:58 PM
abril 13, 2005
Encruzilhada
Marques Mendes foi eleito lider do PSD. Esperam-no agora tempos difíceis. Tempos esses que, para quem acha que as reformas liberais que o país precisa só poderão ser feitas pelo PSD, serão certamente preocupantes. O papel de Marques Mendes como líder da oposição será complicado. Muitos esperam que a economia venha a crescer, por muito diminuto que venha a ser esse crescimento. Sócrates, "filho" do seu "pai", saberá gerir o novo ciclo de forma a ganhar popularidade. Popularidade essa que, fruto da percepção de que "as coisas estarão melhor", impossibilitará o sucesso de uma agenda de reformas duras, que pessoalmente gostaria de ver ser defendida pelo PSD.
Mas imaginemos que a economia não recupera. Teoricamente, o papel de Marques Mendes estaria facilitado. Poderia aproveitar o descontentamento que o prolongamento da crise inevitavelmente traria. O problema, pelo menos para quem defende uma liberalização da economia (e não só) portuguesa, está em que esse descontentamento só poderia ser aproveitado com uma agenda estatista, demagógica, centrada na "denúncia" da "injustiça social", e no "mau governo, que não resolve os problemas das pessoas". Numa situação em que a economia permanecesse em crise, uma agenda liberalizadora seria tudo menos simpática aos olhos daqueles que, nessa situação, protestariam com a falta de "apoio ao emprego" por parte do governo.
O problema é simples: Marques Mendes irá muito provavelmente enfrentar uma conjuntura que favorecerá, em termos de popularidade, o governo. Mesmo que a conjuntura seja desfavorável a este último, Marques Mendes dificilmente poderá beneficiar disso sem apresentar uma agenda demagógica. O que será, acima de tudo, mau para o país.
Posted by Bruno at 09:57 PM
abril 12, 2005
Resposta Simples
No Insurgente, o André Amaral (que no Observador, fala de Once Upon a Time In America, na versão que Sergio Leone ofereceu ao mundo antes de ver o produto indecentemente esquartejado) pergunta-me se eu acho que, se o "Não" ganhar no referendo francês à "Constituição Europeia", se realizará o referendo pátrio. A resposta é simples: se em França ganhar o "Não", já não haverá nada para referendar (o mesmo não acontecerá se esse resultado se verificar noutro país, em que se repetirá o referendo até que o "Sim" seja vencedor). Que é, diga-se de passagem, o melhor que poderia acontecer aos vários Estados-Membros da União Europeia. E especialmente aos seus cidadãos.
Posted by Bruno at 10:01 PM
abril 11, 2005
Um Olhar Sobre o Futuro
O Presidente da República faz uma visita oficial à França. A França está preocupada com o possível "Não" à "Constituição Europeia". O nosso Presidente da República está preocupado com o possível "Não" à "Constituição Europeia" por parte da grande parte dos cidadãos franceses. Grande parte dos cidadãos franceses certamente terá, com a opinião de Jorge Sampaio, a mesma relação que Ferro Rodrigues com o segredo de justiça. Sampaio não se importa. Dá a sua opnião na mesma. E ainda bem que o faz. Deixa-nos ver o que será a campanha para o referendo em França, e também em Portugal. Diz o nosso Presidente que não concebe a União Europeia sem a França. Graças à frase do Presidente, ponho-me a pensar. Sim, consigo conceber. E vejo o Paraíso. Mas deixemos os sonhos de lado. Voltemos à questão. O Presidente da República não consegue conceber a UE sem a França. Curioso: ainda não tinha percebido que existia a possibilidade da França sair. Parece-me positivo. Infelizmente, parece-me também que não irá acontecer. O que irá acontecer certamente, e que está já a acontecer, como se pode ver pela declaração presidencial, é a demagógica chantagem política, que equipara um "Não" à "Constituição" a um "Não" à UE. Chantagem essa que irá continuar no referendo em França, e que se irá repetir no referendo pátrio. Chantagem essa que deve ser tão combatida como a própria "Constituição". E que seria razão suficiente para a rejeitar, se não houvessem mais razões ainda. que as há, e não são poucas.
Posted by Bruno at 09:54 PM
Serviço Público
Telejornal da RTP. Fala-se da escolha do futuro Papa. Quem fala? Luiz Felipe Scolari. A RTP achou por bem, no seu Telejornal, passar um excerto de uma entrevsita com o treinador da selecção portuguesa de futebol, excerto esse exclusivamente dedicado à opinião do dito treinador acerca da escolha do futuro Papa. Se fosse Mourinho, eu percebia. Mourinho ganha tudo. Mourinho trará a paz ao Médio Oriente. Mourinho é o Senhor, e a sua opinião acerca de qual o seu representante na Terra deve ser ouvida. Scolari não é o Senhor. E até nem é grande treinador. Mas a sua opinião mereceu destaque digno de um especialista em assuntos da Santa Sé. Só isto chega para explicar porque razão não devia haver uma televisão pública.
Posted by Bruno at 09:43 PM
abril 10, 2005
Maus Sinais
Do Congresso, dois aspectos representam sinais para alarme para quem acha que o PSD tem um papel decisvo a desempenhar na mais que necessária liberalização do país. Um primeiro tem a ver com a recepção ao discurso de Marques Mendes na sexta-feira. Não deixa de ser preocupante que seja o discurso em que marques mendes mais acentuou os erros do passado santanista, aquele que mais resistências provocou, aquele que menos agradou aos congressistas. Outro aspecto tem a ver com o silêncio dos chamados barrosistas, ao qual se pode também juntar o "vou andar por aí" do outro senhor. Notam-se os diferentes grupos hoje existentes no PSD. Todos se fizeram notar. Menos os barrosistas. Com Santana passou-se o inverso. fez-se notar. Demasiado. Como é hábito na figurinha. O que quer dizer apenas e só uma coisa. Que pensam, os barrosistas e Santana, quem sabe injustamente, que Marques Mendes é um líder de transição. E preparam portanto o assalto em 2007. Os barrosistas distanciando-se, Santana dizendo "até amanhã". Se este Congresso foi relativamente pacífico, sem o partido se partir ao meio, mantém-se o risco de isso vir a acontecer. Quando os que se mantiveram ausentes, e o que deixou bem claro que não se vai ausentar, acharem que está na hora de voltar à guerra (o outro senhor até falou "das trincheiras").
Posted by Bruno at 10:11 PM
Medidas Urgentes
Espero que a primeira medida de Marques Mendes, agora que foi eleito para a liderança do PSD, seja a substituição daquela musiquinha que tocou quando ele subiu ao palco. Certamente, uma pesada herança dos tempos santanistas. Não estou a brincar. Nenhum partido que aceite uma coisa daquelas poderá fazer reformas neste país.
Posted by Bruno at 10:06 PM
abril 09, 2005
Condicionamento
Pacheco Pereira disse na Quadratura do Círculo (Flashback, para os nostálgicos, e Fogo Amigo, para Santana) que a maneira como a moção de Aguiar-Branco, Rui Rio, António Borges e Leonor Beleza tem sido apresentada, resulta, na prática, num "condicionamento" da futura liderança, que tanto Pacheco Pereira como os subscritores dessa moção (e como eu), esperam que seja Marques Mendes. Sinceramente, parece-me exagero do mestre. As declarações de António Borges no sentido de apoiar Marques Mendes, dizendo que se este virá ou não a ser um líder de transição será algo que dependerá da avaliação que será feita do seu trabalho, parece-me ser um "condicionamento" tão grande como o que Pacheco Pereira escreveu na Sábado, quando diz que "exactamente porque pode fazer determinado tipo de reformas internas, será julgado por elas, e é nelas que demonstrará que não é uma solução de transição." Ou melhor, parece-me que o que há, tanto da parte de Borges como de Pacheco Pereira, ou de qualquer outro militante ou indivíduo próximo politicamente do PSD, é a vontade de que a futura liderança faça aquilo que cada um deseja que seja feito, e que caso isso não venha a acontecer, essa liderança seja, no futuro, substituída. O normal em qualquer pessoa que tenha uma posição política, seja ela em que sentido for. Aliás, a atenção que se deu a essas declarações de António Borges, e a irritante insistência nas perguntas a este último, acerca da sua intenção em se candidatar ou a falta dessa mesma intenção, quando o dito já disse tudo o que havia a dizer acerca desse assunto, são um bom exemplo da falta de qualidade do jornalismo político português, e da sua incapacidade de tratar outros assuntos que não as ambições pessoais, ou supostas ambições pessoais, de determinado indivíduo.
Posted by Bruno at 09:46 PM
Limitação de Mandatos
O Conselho de Ministros aprovou, na passada quinta-feira, a limitação de vários mandatos políticos a um máximo de 12 anos, incluindo, para além dos Presidentes dos Governos Regionais e dos autarcas, os Primeiros-Ministros. quanto a este último cargo, na minha opnião, não faz sentido. O cargo de Primeiro-Ministro, sendo um cargo executivo, é um cargo executivo como o dos restantes ministros. Não está prevista nehuma limitação de mandatos a ministros das Finanças, ou Minitrso da Saúde. Dirá o caro leitor que tal medida não faria sentido. O caro leitor teria toda a razão. Não faria sentido. Tal como não faz sentido limitar os mandatos do Primeiro-Ministro. Porque para além de ser um cargo executivo igual a outros que não têm limitação proposta, é um cargo executivo cujo mandato decorre de escolha parlamentar, Parlamento esse constituído por vários deputados, que não têm, e bem (por não se tratarem de cargos executivos), limitação proposta neste projecto de lei.
Posted by Bruno at 09:29 PM
abril 08, 2005
The Searchers (corrigido)
Um leitor do Japão acede a este blog, em busca de "esperança nos dias de hoje". Meu caro, não a encontrará aqui. E receio que o mesmo se passará em qualquer outro lugar.
Posted by Bruno at 10:41 PM
Uma Questão de Tempo
Ontem no Insurgente, o André Amaral escrevia sobre o peso do chamado Estado Social: "A esquerda (toda a esquerda) aposta o seu futuro na manutenção do Estado Social. Ela acredita num conceito que denomina de solidariedade social que de tão abstracto, é difícil controlar os seus limites. Tal como os seus custos traduzidos na enorme burocracia existente e nos sucessivos défices públicos a que apenas o aumento dos impostos parece ser a resposta das práticas socialistas. Incredulamente dou-me conta que tal não preocupa a esquerda. É que a continuar o descalabro financeiro, que Sócrates reduziu a uma mera imposição ideológica da direita, a esquerda vê-se perante o dilema da fuga para a frente que o presente governo parece praticar. Aumentar a eficiência da máquina fiscal de forma a ser possível ampliar as despesas e continuar com as ditas políticas sociais. Ora, isto vai levar ao fim do Estado Social tão só porque ele se vai tornar insustentável e impossível. Ao não encarar esta realidade de frente, a esquerda está a dar um tiro no pé e ao contrário da maioria dos liberais desta praça acredito que pode estar aí a possibilidade de se reformar verdadeiramente o conceito que por cá existe do Estado." Percebo o argumento do André. E concordo com ele. De facto, o Estado Social é, a longo prazo, insustentável. A sua reforma é inevitável, por muito que à esquerda se pense que esta é uma obsessão ideológica de perigosos neo-liberais e radicais bushistas. Mas ao contrário do André, não vejo aqui razões para estar optimista. O André parece achar que o desgoverno dos governos de orientação estatista conduzirá, precisamente devido a esse desgoverno, a um agravamento da situação que permitirá que finalmente essas reformas venham a ser feitas. Talvez. Espero até sinceramente que sim. Mas o que é verdade é que entretanto essas reformas continuarão adiadas, agravando o problema e tornando a sua resolução ainda mais dura do que seria se fosse implementada mais cedo. Concordo com o André, ao achar estas reformas inevitáveis, que a sua implementação é uma questão de tempo. O problema está em que quanto mais tempo se demorar, mais complicadas elas serão, o que diminuirá progressivamente a vontade de as fazer, conduzindo o país até ao ponto máximo da inevitabilidade, e portanto, ao ponto máximo dos custos que essas reformas acarretarão.
Posted by Bruno at 10:07 PM
abril 07, 2005
Reaccionarismo Católico (Da Boca de um Infiel)
O Mundo bem pode mudar, que a Palavra do Senhor é eterna.
Posted by Bruno at 10:17 PM
Ameaças
Através do Miguel Noronha, descubro que Hans Blix (aquele senhor que foi ao Iraque dizer a Saddam que a ONU estava zangada com ele, e o quão zangada estava) considera que a maior ameaça para o mundo é, não o terrorismo, mas sim o efeito de estufa. Temo que o efeito de estufa esteja a afectar as capacidades cerebrais de Hans Blix. E, não sendo tão perigosos como os terroristas, pessoas que não compreendem a gravidade da ameaça que o terrorismo coloca não só aos EUA como ao mundo em geral são bem mais perigosas que o efeito de estufa.
Posted by Bruno at 10:11 PM
abril 06, 2005
Confiança
"Ele fala como um guru. Um guru new age. Um dos fundamentos do new age é o pensamento positivo. Precisamos convencer-nos da inevitabilidade de nosso sucesso, inflando nossa auto-estima, repetindo insistentemente para nós mesmos que somos "excepcionais" e que "temos a capacidade de realizar milagres"(...) A literarura new age garante, que seguindo essas simples regrinhas, aprendemos a usar a mente em nosso favor. Com o pensamento positivo, é possível ganhar dinheiro, salvar o casamento e curar o câncer. Um autor promete até que dá para remover as calorias da comida, a fim de que possamos comer à vontade sem engordar"
Diogo Mainardi, A Tapas e Pontapés. Pelos vistos não é só cá que os responsáveis políticos pensam que com "confiança" é que "vamos lá". Também não era de imaginar que fosse nosso exclusivo. Temos o hábito de só importar maus hábitos. Coisa que, aliás, não escasseia por cá. Importados ou produto nacional.
Posted by Bruno at 07:00 PM
abril 05, 2005
Two of a Kind
Numa livraria lisboeta, uma jovem carrega dois livros. Este Jesus Cristo que vos Fala, de Joana Solnado (se não me engano, terceiro volume) e aquele livro do Boaventura Sousa Santos que não versa sobre as dimensões dos órgão sexuais masculinos de jovens rapazes, mas no entanto profundamente revelador da diminuta capacidade cerebral do dito. Crítica da Razão Indolente, de seu nome. Dois livros de temática similar, portanto. Só não sei como classificá-la. A temática, não a jovem. A jovem até sei classsificar. Era boa. Mas a temática. Como classificá-la? Será aquilo a que alguns chamam as "ciências do oculto"?
Posted by Bruno at 07:39 PM
Liderar ou Não Liderar
No Office Lounging, blog que, entre outros, terá de entrar para a lista de links ali do lado, quando eu tiver paciência para o fazer, o Luís Silva comenta a discussão que eu e o meu amigo Paulo tivemos acerca de António Borges e o futuro do do PSD.
Posted by Bruno at 07:29 PM
abril 04, 2005
Imagem
Ouvi ontem o programa "Diga Lá, Excelência". Motivou-me dois comentários. O primeiro é simples: sou a favor da liberdade de expressão, mas há limites. Intitular um programa com um nome daqueles devia ser proibido. O segundo diz respeito ao entrevistado, Marques Mendes. É positivo que Marques Mendes compreenda, e acima de tudo que o diga, que a economia portuguesa precisa de se liberalizar. Seria ainda mais positivo que mantivesse essa sua preocupação na sua acção política, porque de belas palavras está o Inferno cheio. Como aliás Portugal, que apenas difere do último na temperatura mais agradável. Já mais preocupante é ouvir Marques Mendes dizer que quer ver o PSD a recuperar a sua imagem do partido "da competência e do rigor". Porquê preocupante? Porque, numa sociedade pouco individualista, onde a responsabilização não abunda, e a percepção da realidade é diminuta, para que seja realmente possível liberalizar, medida que Marques Mendes aparentemente considera necessária, é preciso ter um discurso de ruptura. Quando Marques Mendes contrasta a imagem de partido de direita populista que Santana terá associado ao seu partido com a "competência e o rigor", não coloca o acento nesse projecto de ruptura que a liberalização da economia implicaria. Ao falar de "competência e rigor" como o principal elemento caracterizador de um partido, Marques Mendes coloca o PSD não como o partido que deve apresentar um projecto político alternativo ao do PS, mas como o partido que fará as mesmas coisas melhor. Se Marques Mendes, que sairá certamente do próximo Congresso como líder do partido, quiser realmente propôr aos eleitores um projecto de ruptura, não pode colocar como elementos caracterizadores do partido o "rigor e a competência". Porque nisso não está qualquer ruptura. É propôr o mesmo, mas feito de maneira diferente. Por muito melhor que seja essa maneira diferente de o fazer, manterá sempre o erro fundamental: é o contrário das necessidades do país.
Posted by Bruno at 10:19 PM
abril 03, 2005
Reforma da ONU
O Secretário-Geral das Nações Unidas está preocupado com a organização a que preside. Acho bem. Ao menos alguém que se preocupe. Não que lhe sirva de muito. Nem a Annan, nem à dita organização. Não me querendo desviar: Koffi Annan apresentou uma série de reformas que gostaria de ver immplementadas. Algumas demonstram o bom-senso que tem faltado. Uma delas propõe a criação de uma substituta para a Comissão dos Direitos Humanos, que não inclua, ao contrário da última, os que mais os violam. Outra propõe uma definição de "terrorismo" que não deixe de fora gente como os terroristas palestinianos, por exemplo. Já outras demonstram a falta de bom-senso que tem imperado. Por exemplo, Annan pretende flexibilizar as regras para a legitimização do uso da força, tornando motivo suficiente a existência de uma ameaça "latente". Claro que a definição dos parâmetros do que constitui ou não uma ameaça latente terá ainda que ser definido, consensualmente, pelos membros do Conselho de Segurança. O problema está em que, como o passado mostra, aquilo que, só para dar dois exemplos, os EUA e a França consideram ser ameaças que justifiquem o uso da força é radicalmente diferente. Ou seja, o consenso para a definição dos parâmetros que poderão legitimar o uso da força será tão díficil de obter como foi obter o consenso para a usar. Para mais, a ideia de aumentar o número de membros efectivos do Conselho de Segurança não resolveria qualquer problema. Apenas aumentaria o número de interesses aí representados, o que não eliminaria a conflitualidade entre esses mesmos interesses.
É isto que as mentes progressistas e as mentes vazias não percebem. O Conselho de Segurança não é um orgão que zele pelo respeito dos bons sentimentos. É um orgão onde se sentam alguns países para defenderem os seus interesses. Que muitas das vezes, são incompatíveis. E também por isso mesmo, zela tão mal pela segurança que lhe dá o nome como pelos bons sentimentos que as mentes progressistas gostariam de ver imperar.
Posted by Bruno at 09:47 PM
abril 02, 2005
Indiferente
Para ontem, estava previsto, na SIC Notícias, um debate entre Luís Felipe Menezes e Marques Mendes. Devido ao estado de saúde do Papa, não houve debate. Ou seja, passou-se aquilo que se teria passado se o dois se tivessem sentado frente-a-frente.
Posted by Bruno at 09:40 PM
A Diferença
Do que escrevi no post anterior, há uma frase que é importante: "a moção a ser apresentada no próximo Congresso do PSD por Rui Rio, José Pedro Aguiar Branco, António Borges, etc". Importante, porque demonstra a diferença entre este grupo de pessoas e candidaturas à liderança como a de Marques Mendes e a de Luís Felipe Menezes. Em relação à moção daquele grupo, tem havido duas atitudes muito comuns: por um lado, a legítima (e sensata), preocupação com a criação, mais por parte da comunicação social do que pelo próprio, de uma figura messiânica de António Borges (veja-se a diferença em relação a Vitorino, com quem é comparado pelos mais desatentos: Borges diz, à partida, os lugares para os quais está disponível, enquanto Vitorino, que sabia que não queria ser ministro, deixou que se criasse a expectativa de que o poderia vir a ser, apenas para o seu partido ter ganhos eleitorais com essa mesma expectativa). E por outro, a mentecapta (e mesquinha) reacção de Luís Delgado, que não acha concebível que António Borges, ao apresentar a moção, não se candidate à liderança.
Em primeiro lugar, a apresentação de uma moção não implica uma candidatura à liderança. No Congresso serão votadas, segundo o Público, 38 moções de estratégia, e candidatos à liderança, até agora, só há dois. Mas mesmo admitindo a possibilidade do grupo que apresenta esta moção querer secretamente apresentar uma candidatura à liderança, não é forçoso que seja António Borges. Porque precisamente o que distingue este grupo das candidaturas de Menezes e Marques Mendes é o facto de ser um grupo que defende um projecto, e não um grupo de gente que se forma em volta das ambições pessoais de um líder, para que mais tarde esse líder possa vir a alimentar as ambições pessoais dos que formam esse grupo.
Das pessoas que conheço, e com quem tenho falado, que mostram apreço pelo que se sabe da moção a apresentar por este grupo, uns prefeririam uma liderança de Rui Rio (em condições ideais, seria o meu caso), outros de Aguiar Branco (como é o único que é deputado, seria, na conjuntura actual, a melhor solução), outros de António Borges, e outros ainda de Manuela Ferreira Leite (que, não subscrevendo a moção, devido, segundo os jornais, á amizade que nutre por Marques Mendes, não discordará certamente do que lá é proposto). Mas, no fundo, é indiferente quem seria o líder. O que todas essas pessoas gostariam (sem acreditarem muito na possibilidade) era que o projecto defendido por esta moção fosse o projecto defendido pelo PSD, e que fosse mais tarde aplicado por um Governo do mesmo partido. Esta é diferença. E é provavelmente devido a ela que esse desejo não será satisfeito.
Posted by Bruno at 09:09 PM
Boa Proposta
Segundo o Público, a moção a ser apresentada no próximo Congresso do PSD por Rui Rio, José Pedro Aguiar Branco, António Borges, etc., apresenta como proposta a simplificação do código fiscal, muito concretamente a partir da introdução de uma taxa única. Imagino que a expressão portuguesa taxa única equivala ao anglo-saxónico flat tax. Se, como imagino, for o caso, é uma boa proposta. As boas consciências alertarão obviamente para a perigosa deriva neo-liberal que a medida representaria. Gritariam como só as boas consciências gritam que seria uma medida injusta socialmente. Pelo contrário. Os mais ricos continuaram a pagar mais que os mais pobres. Uma percentagem igual para toda a gente significa que quem tem mais, paga mais. Mas significa também que todos (todos aqueles que possam, e esta é ressalva é importante, e qualquer um, por muito neo-liberal que seja, a fará) pagam a mesma parte relativamente àquilo que ganham. Ou seja, o Estado deixaria de retirar uma percentagem maior do rendimento dos mais ricos e menor dos mais pobres, e pior, percentagens diferentes do rendimento de membros da classe média sem grandes diferenças de rendimento entre si, independentemente das razões dessas diferenças de rendimento. Ou seja, o Estado trataria todos os seus cidadãos por igual. O que, ao contrário do que as boas consciências pretendem, não implica que todos tenham rendimentos iguais, nem sequer menos desiguais. Implica aceitar as diferenças existentes, desde que sejam fruto de situações legítimas, quer seja por opção, sorte, ou até mesmo puro e simples privilégio.
Posted by Bruno at 08:50 PM
abril 01, 2005
Atlântico
Leio a nova revista, a Atlântico (teria sido uma melhor opção chamá-la de Atlântica, mas enfim). Dirigida por Helena Matos (que, sem ser um fã icondicional, aprecio) e com as contribuições de gente como Vasco Rato, João Marques de Almeida, Alexandre Soares Silva, Rui Ramos, e the last but not the least, Luciano Amaral. Só não tendo lido ainda o artigo do Prof. Rui Ramos, gostei do produto. Só espero é que não tenho o destino comum das iniciativas do género neste país, e consiga sobreviver para além dos três ou quatro números.
Posted by Bruno at 10:05 PM
O Pior é o Resto
O título deste post é uma desgraça. Assemelha-se a uma daquelas frases com que Luís Delgado termina as suas crónicas. Mas enfim, passemos ao que interessa. No seu editorial de hoje no Público (uma série de artigos sobre a direita que, por sua vez, motivou um bom artigo de Vasco Pulido valente, também hoje), José Manuel Fernandes escreve: "O que distinguiu Reagan e Thatcher, no seu tempo, foram as suas ideias de ruptura com o statu quo e terem-nas aplicado. Sem receio de, ao mesmo tempo, travarem um feroz combate ideológico. O que tem distinguido as diferentes direitas portuguesas é a sua incapacidade de fazerem o mesmo, isto é, de começarem a discutir ideias que vão contra a corrente. De divergirem. De perceberem que o centro não se ganha estando ao "centro", mas apresentando projectos mobilizadores." Já o disse, várias vezes, se não aqui escrito pelo menos em conversa, que sou da opinião de que se um partido concorresse ás eleições legislativas com um programa radicalmente diferente, mesmo cheio de medidas que seriam à primeira vista impopulares, poderia vir a conseguir convencer os eleitores da realidade portuguesa: essas medidas são mesmo necessárias, por muito duras que sejam. Nem que seja pela mudança de atitude que uma postura desse tipo traria. As pessoas, habituadas a ver nos políticos pessoas dispostas a mentir para ganhar eleições, pensariam duas vezes se alguém aparecesse a prometer o contrário do que geralmente se promete. Se alguém dissesse, por exemplo, que para as pessoas terem impostos mais baixos, terão que abdicar de certos serviços serem prestados pelo Estado.
O pior é o resto. Para que um partido (e no sentido que proponho, só poderia ser o PSD) se apresente desta forma, é preciso que apareçam pessoas dispostas a concorrer com uma plataforma deste tipo. E se acho que alguém assim poderia convencer os eleitores, já acho duvidoso que conseguisse convencer o partido. E não há indicador mais claro para este meu receio que não os dois nomes que concorrem neste momento para a liderança do PSD. São essas pessoas que agradam aos partidos. O país paga. Mesmo que não se aperceba.
Posted by Bruno at 09:31 PM