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março 31, 2005
Ambições e Previsões
Manuel Maria Carrilho anunciou a sua candidatura à Presidência da Câmara de Lisboa. Desde que Jorge Sampaio foi eleito Presidente da República vindo do munícipio lisboeta, e que Santana Lopes chamou a atenção para esse facto, quando era Presidente da mesma Câmara e ambicionava ser Presidente da mesma República, que se instalou a ideia de Monsanto ser uma espécie de ponte para Belém. Sou muito crítico do jornalismo político português centrado nas ambições dos agentes políticos. Por uma vez, as ambições pessoais de um político merecem alguma atenção, porque são indicadoras do que poderá ser a acção de Carrilho caso seja, como parece que será, eleito para a Câmara de Lisboa.
A passagem do dr. Carrilho pelo Ministério da Cultura é um claro exemplo do seu modo de actuar politicamente. Pelas suas acções, pelos seus objectivos, e pelos seus resultados. Comecemos pelas acções. O que eram as políticas culturais do dr. Carrilho? Acima de tudo, "modernas", como convém. Apoiante das artes. Da "criatividade". Traduzido do spin para português, alimentação de clientelas. Clientelas essas que, evidentemente, agradeciam. O que favorecia o Ministro, elogiado pelos do meio, que aparecem, aos olhos da massa, como os que sabem do que estão a falar. E aqui chegamos aos objectivos do dr. Carrilho. O uso da sua acção política, como um círculo vicioso de política de promoção da "criatividade" e da "criatividade" como promoção da política. E acima de tudo, como promoção de Carrilho.
Não é em vão que jornalistas como Luís Osório falam de Manuel Maria Carrilho como tendo sido o melhor Ministro da Cultura da democracia, e que a Cultura é uma área primordial da acção de um Presidente da Câmara. Os apoios de Carrilho à "criatividade" caem bem na opinião dos jornalistas. E Carrilho tem a vantagem de pertencer e circular no meio cultural, sabendo o que é "moderno" e o que não é. E acima de tudo, sabendo que é o que é "moderno" que atrai as simpatias do meio, e portanto, a promoção da sua política e de si mesmo.
Assim, da candidatura de alguém que usa a sua acção política como um veículo de promoção pessoal, a um lugar visto em geral como uma ponte para lugares mais altos, não é difícil de imaginar o que se seguirá. No fundo, não muito diferente do que foi na gestão de Santana Lopes. Lembremos a questão do Parque Mayer, principalmente a chamada de Frank Gehry para fazer o projecto. Lembremos por exemplo, a reacção de Prado Coelho à opção por Frank Gehry. Os projectos serão diferentes. Menos megalómanos, porque a megalomania, depois de Santana, já não vende tão bem. Mas no fundo, a política será a mesma. Uma gestão camarária orientada para a promoção do seu Presidente.
Estas perspectivas são ainda mais preocupantes tendo em conta o panorama que Carrilho herda. Não quero com isto dizer que a gestão de Carrilho será o desastre financeiro que foi com Santana, e que Carmona Rodrigues procurou de seguida corrigir. Não sei se Carrilho irá gastar mais que aquilo que terá. Pode ser que sim. Pode ser que não. Mas o que é certo é que alguém que usa a sua acção política como um veículo de promoção pessoal, num lugar visto em geral como uma ponte para lugares mais altos, irá gastar mal. E o pior é que, provavelmente, vai lucrar com isso. Pagarão os cidadãos. E não só os de Lisboa.
Posted by Bruno at 09:10 PM
março 30, 2005
Bird
A primeira vez que ouvi falar em Clint Eastwood foi no terceiro epsiódio do Regresso ao Futuro, quando a personagem de Michael J.Fox, que foi parar ao velho Oeste americano, diz que se chama Clint Eastwood. Depois, vi os Dirty Harry. Série de filmes desvalorizada pelos intelectuais. E In The Line of Fire. Tudo filmes em que Eastwood é apenas actor. Para muito boa gente, Bird foi o filme que chamou, com atraso, a atenção para o Eastwood "autor". Comigo foi Tightrope, o primeiro filme que vi, dos realizados por Eastwood (e que, imagino, seja desvalorizado pelos mesmos que acham os Dirty Harry filmes fascistas), um policial negro. Fiquei convertido. Bird, nunca tinha visto. Vi-o ontem, depois de gravar na RTP. E tive a mesma sensação que ao ler Estrela Solitária de Ruy Castro, a biografia de Mané Garrincha.
Bird é uma biografia de Charlie Parker, saxofonista jazz americano. Bird (fenomenal interpretação de Forrest Whittaker), é um homem que tem tudo para ser alguém. Um enorme talento. Mas tem também uma tendência para a auto-destruição. Vive atormentado pelo consumo de drogas. No palco, poderá ser o melhor, como diz um outro músico, mas ninguém tem a certeza que ele vá aparecer. Preferem, como um promotor musical, ter alguém que não toque tão bem, mas que apareça. Bird é a história de alguém que, devido ao seu próprio carácter, coloca em perigo aquilo que mais gosta de fazer (tocar), até que acaba por se auto-destruir, morrendo aos 34 anos, sendo dado como um homem de 65 pelo médico que o encontra morto.
E Bird é também um filme que se insere perfeitamente na filmografia de Eastwood, tanto a posterior que passou a merecer a atenção dos que lhe chamavam de fascista, como da que antecedeu a conversão dos ditos. Charlie Parker é um homem atormentado pela perda da sua filha, tal como o Will Munny de Unforgiven pela perda da sua mulher ou o Josey Wales de The Outlaw Josey Wales, pelo assassínio de toda a sua família. Alguém que, como o Red de Honkytonk Man, sabe que caminha para o fim, e que sabe esse destino se deve apenas a si próprio. E que como o Red de Honkytonk Man, o Will Munny de Unforgiven, ou o Frankie de Million Dollar Baby, não quer que os mais novos, aqueles que o seguem, repitam os seus erros. Alguém que, como o Red de Honkytonk Man, e a Maggie de Million Dollar Baby, apenas quer ser alguém. Mas se em Honkytonk Man e Million Dollar Baby temos duas das histórias mais bonitas e comoventes que Eastwood, e até Hollywood, já nos deu a ver, em Bird, temos uma das mais amargas.
Posted by Bruno at 02:01 PM
março 29, 2005
Portugal Futuro
O meu caro colega e amigo Paulo escreveu ontem o seguinte: "apesar de admitir que as ideias de António Borges são essenciais para o futuro do país, não posso dar toda a admiração a uma pessoa que parece não ter consciência de que metade das suas ideias não passam de meras ilusões. Por exemplo, uma ideia que já muitos, como António Borges, afirmaram ser essencial para o futuro do país é a da redução do peso da função pública. Ora, a redução da função pública, só por si, não resolve nenhum problema em concreto(...) como é que se pode acabar com a função pública num país que nasce e morre para a função pública?". A posição do Paulo parece-me sensata. Teme que aquilo que António Borges e outros defendem (no fundo, aquilo que eu e o Paulo defendemos) dificilmente seja aplicado, porque a grande maioria das pessoas deste país não estará interessada em que isso seja aplicado. E parece-me também que o Paulo acha que se aquilo que nós defendemos for aplicado, a falta de qualidade e preparação da generalidade da população portuguesa não trará o desenvolvimento e crescimento económico que um mercado mais liberto do peso do Estado poderia proporcionar. É possível que ele esteja certo. Mas isso não é razão para não se aplicar, ou neste caso, não se defender a aplicação dessas medidas. Essas medidas, só por si, não significariam o desenvolvimento de Portugal. Mas significariam maiores oportunidades de parte dos portugueses terem uma vida melhor que aquela que têm hoje. Permitiria dar uma oportunidade aqueles que a quiserem tentar aproveitar. Com o peso que o Estado tem hoje, não se consegue desenvolvimento, e pior, cortam-se as oportunidades de quem gostaria de as tentar aproveitar se as tivesse. Sei que o Paulo concorda comigo nisto. E eu tenho de concordar com ele quando acha que nada do que defendemos será aplicado.
Posted by Bruno at 08:30 PM
março 28, 2005
Defeito de Fabrico
A Europa está muito entusiasmada. A Europa quer relançar a Agenda de Lisboa. O leitor mais abençoado com a sensatez pergunta-se como poderá a Europa, que não existe, relançar o que quer que seja. O sensato leitor tem razão. A Europa não existe. No entanto, entusiasma-se. E a "Europa" quer relançar a Agenda de Lisboa. O que é a Agenda de Lisboa? É o plano tecnológico do engenheiro Vitorino, perdão, Sócrates, antes do dito se ter lembrado de lhe chamar plano tecnológico, alargando a asneira para fora de Portugal. E como tal, parte das mesmas ilusões de que parte o referido plano: parte do princípio de que os interesses dos vários agentes económicos são compatíveis, e que cabe ao Estado (neste caso, aos vários Estados), conduzir esses agentes à satisfação desses interesses. Defeitos conhecidos. Defeitos de fabrico. Defeitos esses que conduziram ao fracasso. Fracasso esse que está à vista de todos. Tal como está à vista de quem quiser ver que o fracasso se deveu aos tais defeitos. Mesmo assim, a Europa quer relançar a dita Agenda. Como se já não bastasse algo que não existe ( a "Europa") estar a tentar relançar o que quer que seja, está a tentar relançar uma coisa (a Agenda) que nasceu condenada ao fracasso. Nada que espante. Nada de novo. O velho problema do Racionalismo. O velho problema da Fé na capacidade humana de encontrar uma Solução para os problemas de uma sociedade. A Fé de que não só é necessária como é possível uma "estratégia" para alcançar o Paraíso na Terra. Para o Racionalista, para o possuídor da Fé na Razão, se uma Solução não traz as soluções que prometia, o problema não está na Solução, muito menos da premissa de que uma qualquer Solução é possível. Está nas pessoas que a puseram em prática. Essas sim, falharam. Não deram ouvidos à Razão. Se a estratégia falha, se a estratégia não cumpre os seus objectivos, não é esta que está errada, e nem sequer se coloca a mera possibilidade de uma qualquer estratégia, qualquer que ela seja, poder vir a resultar, ser apenas uma ilusão. Se a estratégia não cumpre os sues objectivos, o Racionalista não tem dúvidas acerca de qual deve ser o passo seguinte: é preciso redinamizar a estratégia. Relançá-la. Mantendo todos os seus defeitos, que conduziram ao seu fracasso. Quando à beira de um precipício, o Racionalista sabe sempre o que fazer. Dar um passo em frente. A queda será grande. E com o Racionalista, vamos cair todos. Outro velho defeito do Racionalismo. De fabrico.
Posted by Bruno at 09:36 PM
março 26, 2005
Ideias e Consequências
Lê-se no Público: "António Borges lança ultimato a Marques Mendes". É o título da notícia. Já no conteúdo da dita, lê-se "uma espécie de ultimato ou ameaça". Menos categórico. Tudo palavras da jornalista. Porque se tivermos visto a entrevista (foi o meu caso), ou se lermos as citações que a jornalista faz da dita, saberemos que o que António Borges disse foi que "o PSD não se esgota no dr. Marques Mendes, há muitas outras pessoas que um dia, se por ventura, o dr. Marques Mendes não vier a ter o sucesso que o partido precisa, estarão dispostas a concorrer". Daquilo que é uma afirmação apenas e só natural em alguém que defende um qualquer política, o desejar que aquilo que defende seja defendido pela liderança do seu partido, e de que caso isso não aconteça, espera que essa liderança seja substitúida por outra que o faça, a jornalista depreende despudoradamente um ultimato a um outro político, e como uma tentativa de se posicionar numa futura corrida à liderança. Esta notícia do Público é apenas um exemplo da extrema dificuldade que jornalismo político português tem em não ver a política apenas e só como um mero palco de ambições pessoais, e a sua incapacidade de tratar os políticos ou quem comenta a política como pessoas que defendem e que falam de ideias.
Sim, porque ao contrário do que diz o muito cá de casa Vasco Pulido Valente no mesmo jornal, António Borges falou de ideias. E é sabido como é difícil falar de ideias numa entrevista de Judite de Sousa (um dos exemplos máximos dessa falta de qualidade do jornalismo político português). Certo que, como VPV diz, Borges falou da "integridade da política e no espírito de serviço público, duas baboseiras sem sentido", que poderiam ser escusadas. Mas não se ficou por aí. Falou, até como VPV concede, de "reduzir o Estado, baixar impostos, privatizar e desregular". A "velha panaceia liberal"? Na sua ânsia de dizer mal (que muito aprecio), VPV acaba por esquecer aquilo que escreveu em diatribes passadas. Esquece, por exemplo, aquilo que escreve acerca da "falência do Estado-Providência", recorrente nas suas crónicas. Falência essa que indica imediatamente o que há a fazer. Redefinir quais devem ser as funções do Estado, e abrir o maior número de actividades possíveis à iniciativa privada. Ou seja, exactamente aquilo que António Borges, e as pessoas que defendem propostas similares (é o meu caso), têm vindo a defender.
Mas VPV é um céptico. Acha, e provavelmente bem, que o país não tem salvação. Que por muita abertura ao mercado, o país não se desenvolva. Que por muita iniciativa privada que haja, a maior parte dela talvez esteja condenada ao fracasso. Que num país sem cultura liberal e individualista, uma solução liberal para a sociedade não seja solução nenhuma. Provavelmente tem razão. Sinceramente, duvido que António Borges discorde muito. Nunca ouvi nenhum liberal dizer que o liberalismo económico era o caminho para o Paraíso. O que um liberal acha é que, se o mercado funcionar sem intervenção do Estado, os mais eficazes serão premiados e os menos eficientes serão penalizados. E que assim, se evitarão distorções nesse mesmo mercado, que criam problemas maiores que aqueles que mercado traz. É só isso que António Borges, e os que defendem propostas similares, pretendem. Dar uma oportunidade aqueles que a poderão (ou não) aproveitar.
E a falta de cultura liberal de que se queixa VPV não é razão para impedir que haja quem a defenda. Ao contrário do que VPV diz, estas pessoas não nos querem "pastorear". Querem acabar com presunção generalizada de que o Estado serve para nos pastorear. Porque essas pessoas sabem, como VPV sabe, que o país não é uma massa moldável com o indispensável complemento de optimismo e fé. Quem não sabe isso são os que defendem grandes planos, por muito ambiciosos que sejam. As ideias que António Borges deixou transparecer são o contrário disso. e por isso, devem ser levadas a sério, e por isos eu gostaria que quem as defende tivesse oportunidade de as aplicar. Claro que problemas continuarão a existir. Mas, como céptico que é, VPV deveria saber que, se mesmo no Céu é duvidoso que exista, o Paraíso na Terra é uma mera fantasia de iludidos. Bem mais perigosa
Posted by Bruno at 09:37 PM
março 25, 2005
God's Lonely Man
Ricardo, sim, o Taxi Driver é tão perturbador e fascinante como terá sido em 1976. Só não acho é que, no final do filme, Travis Bickle esteja "pacificado". Basta olhar para os olhos de Bickle no retrovisor para ver que no futuro, as coisas não serão melhores. Não está "pacificado", porque aquilo que queria não foi conseguido. Tal como o Charlie de Mean Streets (Keitel), o que Bickle procurava acima de tudo era a sua própria salvação. Queria a sua redenção. Castigar o mal que existe no mundo (matando Palantine, um "político", e portanto, "mentiroso", e após esse fracasso, Sport, o "chulo"), e ao morrer a fazê-lo, deixar de ter de enfrentar essa realidade que o repugna. Aos olhos do mundo, ele é agora um herói. Mas o mundo está o mesmo. E mais, ele terá que continuar a viver nele. Vemos Betsy a abandonar o táxi de Bickle, enquanto este a olha pelo retrovisor, não como se ela fosse diferente das outras, mas como qualquer uma dessas outras que tanto repugnam Bickle. E enquanto o táxi se vai afastando, através da janela e do retrovisor, continuamos a ver as prostitutas, os traficantes de droga, os "chulos" e os deliquentes. Bickle, tal como todos os outros, faz parte desse Inferno. Bickle viu o "horror". Na guerra e nas ruas. Matou. E tal como todos os outros, é nesse Inferno que terá de viver.
Posted by Bruno at 09:53 PM
março 24, 2005
Uma Questão de Ambição
Jorge Coelho acha que este Governo é um Governo ambicioso. Isto, claro está, para além de "amigo da economia". Mas acima de tudo ambicioso. Tem uma "estratégia de dinamização da economia". Vai "chamar para junto se si os privados". Mas com o Estado a "delinear a estratégia". De "inovação" e "desenvolvimento tecnológico". E assim, com "ambição" e "estratégia", Portugal irá crescer. Ambição, de facto, não falta. E estratégia, aparentemente, também não. Mas tenho dúvidas que funcione. Esta ideia parte do pressuposto que os interesses dos privados são compatíveis entre si. O que é no mínimo duvidoso. Empresas que concorram no mesmo mercado têm interesses conflituais, que só o mercado, através dos seus mecanismos concorrenciais, pode resolver (premiando a mais competitiva e penalizando a menos eficiente). Para além disso, parte ainda do princípio de que pode ser o Estado a interpretar quais os interesses desses privados, e, através da tal estratégia, conduzi-los à sua obtenção. Mais duvidoso ainda. Não é líquido que as empresas beneficiem com a "estratégia" que o Governo delineou. O exemplo dos "mil empregos" demonstra-o bem: se esses empregos fossem realmente do interesse das empresas, e elas tivessem capacidade para os sustentar, elas acabariam por criá-los, tornando a intervenção estatal desnecessária. Se essas mesmas empresas, em condições normais, não estivessem interessadas ou não tivessem capacidade para os criar, a intervenção estatal acabará apenas por criar empregos desnecessários ou insustentáveis. Para mais, a intervenção estatal desvirtua os mecanismos concorrenciais do mercado. Assim, o dinheiro que será utilizado nos subsídios que suportarão esses empregos será dinheiro desviado do contribuinte, seja ele individual ou colectivo (por exemplo, as empresas que não necessitam de subsídios estatais para sobreviver). Ou seja, para se levar a cabo uma medida que será na melhor das hipóteses desnecessária, e na pior, contraproducente, prejudicar-se-ão os restantes: contribuintes que nada têm a ver com essas empresas, ou empresas que concorrem noutros mercados, ou empresas que concorrem contra as empresas que recebem esses subsídios. Não há estratégia que resolva isto. Por muito dinâmica e ambiciosa que o dr. Jorge Coelho a considere, não passa de uma ilusão.
Posted by Bruno at 09:44 PM
março 23, 2005
Consensos
A Comissão Europeia produziu uma directiva, a directiva Bolkestein, sobre o mercado de trabalho na UE. Os sindicatos dos vários países organizam uma manifestação em Bruxelas, contra a dita directiva. Os governos dos vários países membros reúnem-se, dias depois, na mesma cidade. Defendem a reformulação da dita directiva. Segundo a TSF, pedem "um consenso mais alargado". Depreendo, e até devido a esses protestos que tiveram lugar no fim-de-semana passado, que se refiram a um consenso interno, e não entre os vários governos (coisa que alguém que é contra uma UE federal, como eu, acharia sempre indispensável). E é isso que me preocupa. A justificação. Eu não conheço a directiva, a não ser de críticas ouvidas na televisão (de desconfiar, portanto). O que me impede de a comentar. Já a justificação para a postura dos vários governos (se ela disser respeito, como depreendi, a um consenso interno), conheço bem. É mais um exemplo de tudo no que corre mal na acção governativa nos países europeus. Em geral, são países com um peso excessivo do Estado na economia. Com demasiada gente dependente do Estado. Gente essa que cria clientelas. Ao se quererem consensos alargados, que necessariamente implicarão a enorme percentagem de pessoas que fazem parte desse grupo de dependentes do Estado, para se fazerem as reformas que mexem com àreas onde o Estado tem a mão, o Estado fica dependente das pessoas que dele dependem. A procura de consensos alargados impossibilita a execução de reformas, porque depende dos que dependem da sua não-realização. Mais uma vez, não sei avaliar a directiva. Mas a justificação da procura de consensos alargados não se limita à questão da directiuva. É muitas vezes a que está por trás do adiamento de muitas reformas nas várias áreas em que o Estado tem a mão. E demonstra a atitude de receio de ruptura com os interesses que dependem do Estado, receio esse que impossibilita qualquer alteração da situação, e que vai diminuindo progressivamente as possibilidades desse mesmo receio se vir a perder.
Posted by Bruno at 10:11 PM
março 22, 2005
Mundo ao Contrário
No Seinfeld, são comuns as referências ao Super-Homem. Lembro-me de pelo menos um episódio em que se fala do Bizarro World, o "mundo ao contrário" onde os bons eram maus, e os maus eram bons, ao qual o dito ia parar. Quem tenha assistido ao debate parlamentar de ontem, e tenha hoje visto o Telejornal das 20 da RTP terá tido uma sensação semelhante. No debate de ontem, Marques Guedes fez referência às comparações feitas pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros entre as políticas da Administração Bush e a Alemanha Nazi, dizendo o deputado do PSD que Freitas havia comparado Bush a Hitler. O Ministro respondeu, desafiando o deputado a indicar qual o texto onde isso havia sido escrito. Desafio ao qual Marques Guedes respondeu, citando o prefácio do livro de Freitas do Amaral. Ora a reportagem que a RTP fez do incidente consistiu apenas da contra-resposta de Marques Guedes, seguida da intervenção de Freitas que precedeu essa mesma contra-resposta. Ou seja, o que a RTP retratou foi precisamente o contrário daquilo que se passou. O que altera o sentido dos mesmos acontecimentos. Aquilo que foi uma contra-resposta surge como um ataque, seguido de uma defesa, que na realidade não foi mais do que as declarações que precederam a dita contra-resposta, e declarações precedentes essas que, confrontadas com o que o Ministro havia escrito no seu livro, não mantiveram grande credibilidade. A RTP mostrou-nos precisamente o inverso. É mau jornalismo. Nada que espante neste país. Mas é mau jornalimso pago pelo dinheiro dos contribuintes. E infelizmente, nada disto se passa num "mundo ao contrário". É mesmo a triste realidade.
Posted by Bruno at 09:45 PM
março 21, 2005
Limitação
No debate de apresentação do Programa de Governo de hoje, houve um fenómeno curioso. Sempre que algum membro do CDS confrontava o Ministro dos Negócios Estrangeiros com as declarações que este proferiu nos últimos anos, estas críticas eram logo desvalorizadas como sendo um mero ajuste de contas pessoal. Como é sabido, não tenho particulares simpatias em relação ao CDS. Estou por isso relativamente à vontade para criticar a atitude do PS neste caso. Todas as intervenções de deputados do CDS (e do PSD) contra Freitas do Amaral se centraram, exclusivamente, naquilo que ele escreveu ou disse, ou seja, em questões de substância política. Questões essas que devem ser respondidas, também elas, com substância política, e não com meras acusações de menoridade moral, como o PS fez quase ao longo de todo o debate. E da única vez em que o Ministro dos Negócios Estrangeiros procurou responder efectivamente a essas críticas, foi confrontado, por Marques Guedes (PSD), com aquilo que escreveu, escritos esses que falam por si. E o que falam não é nada de bom, diga-se de passagem. O problema de tudo isto: toda a qualquer crítica, por parte do CDS, e pelos vistos também do PSD, à política externa deste Governo, será evitada, com a mera acusação de tentativa de ajuste de contas pessoal. Assim, será impossível discutir o que quer que seja. Não é bom sinal.
Posted by Bruno at 10:07 PM
Palavra a Dizer
António Filipe, deputado do PCP, manifestou a sua preocupação com o futuro dos iraquianos, especialmente que palavrão terão os ditos a dizer acerca do mesmo. É uma preocupação legítima. Há receio de uma ingerência externa nesse mesmo futuro. E querem que sejam os iraquianos a pronunciarem-se. Uma proposta para os preocupados. Perguntem aos iraquianos o que eles pensam acerca dessas questões. Ainda por cima, agora, e graças à ingerência que tanto preocupado os nossos preocupados, eles poderão responder.
Posted by Bruno at 09:56 PM
Inovação
O Primeiro-Ministro, no debate parlamentar de apresentação do Programa de Governo, diz que o país precisa de inovação. Mas que o governo não tem uma visão estatista da inovação. Quer que a inovação chegue às empresas, e daí, irá facilitar a entrada de 1000 (penso eu que era este o número) licenciados em ciência e tecnologia em pequenas e médias empresas. Como escrevia há tempos o João Miranda, esta medida não tem justificação. Se esses empregos forem empregos dos quais as tais pequenas e médias sentissem necessidade, certamente elas próprias contrariam os licenciados que fossem precisos, dispensando este número redondo que funciona bem nos media, dispensando também esta medida estatal. Se as empresas não sentirem essa necessidade, então o Estado estará a desviar recursos de empresas que produzem e de cidadãos que trabalham para pagar empregos que não se justificariam nem seriam sustentáveis sem essa ajuda estatal. Na pior das hipóteses, esta proposta do Governo será contraproducente, na melhor das hipóteses irrelevante. O costume. Neste campo, temos sido parcos em inovação.
Posted by Bruno at 10:48 AM
março 20, 2005
The Life Aquatic with Steve Zissou
Steve Zissou (Bill Murray) é um oceanógrafo que não tem estado no seu melhor na última década. O seu último documentário é apresentado num festival de cinema italiano, e é visto como um fracasso. Durante a sua produção, o seu companheiro Esteban foi comido por um Tubarão-Jaguar, animal que Zissou não sabe se tem realmente esse nome, ou sequer se realmente existe, mas que pretende matar, apenas e só por vingança. Nesse mesmo festival, conhece Ned Plimton (Owen Wilson), que diz ser seu filho, e que acabará por se juntar à tripulação do Belafonte, constituída, entre outros, por um imediato alemão (Wllem Dafoe) que sempre olhou para Zissou e Esteban como pais, e se sente ameaçado pela presença de Ned, por um brasileiro que canta versões de David Bowie (Seu Jorge), por Eleanor (Angelica Huston) mulher de Zissou e ex-mulher do seu arqui-inimigo Henessy (Jeff Goldblum), e aos quais se juntarão uma jornalista grávida (Cate Blanchett) e um "lacaio" da empresa financiadora, raptado por piratas filipinos.
The Life Aquatic... é o quarto filme de Wes Anderson, o primeiro a não ser escrito em parceria com Owen Wilson (desta vez, o co-argumentista é Noah Baumbach). E a mudança nota-se. The Life Aquatic é ligeiramente menos bem conseguido que os dois filmes anteriores de Anderson, Rushmore e The Royal Tenembaums (nunca consegui ver, todo, o primeiro filme de Anderson, Bottle Rocket), dois dos melhores filmes dos últimos anos. The Life Aquatic... segue modelos clássicos de comédia. Nonsense, é certo. Mas nonsense clássico, em vez da mera estranheza que inundava pelo menos os dois anteriores. Estranheza essa que, se nos fazia rir de início, nos fazia sentir amargura no momento imediatamente a seguir. Aqui, pelo menos na meia-hora inicial, ficamo-nos pelo riso (o que não tem mal nenhum). E (lamento pessoal), a nível visual, Anderson aposta em boa parte do filme pelo estilo de câmera ao ombro de Bottle Rocket, deixando praticamente de lado a câmera lenta de inspiração scorsesiana que abundava em Rushmore e Tenembaums, escolha que se percebe e justifica tendo em conta a acção do filme.
Mas são falhas (e a segunda nem sequer é uma falha, apenas alguma desilusão pessoal, que gosto muito do estilo que não foi utilizado)que se limitam a certas partes do filme, e que não mão suficientes para o pôr de lado. E se há algum mérito em The Life Aquatic, é o de confirmar Anderson como um realizador a ter em conta. Há aqui claramente uma marca autoral. Visualmente, com os planos extremamente abertos que são a imagem de marca de Anderson. Na temática centrada em figuras paternais, e a sua relação com as figuras filiais, bem como um objecto de desejo amoroso comum (presente em Tenembaums e central em Rushmore) entre os dois. A presença de uma cena de "esgotamento", em que um personagem, pura e simplesmente, já não "aguenta mais" (o suícidio de Richie em Tenembaums), e que em The Life Aquatic é absolutamente delirante. O tom marcadamente surreal. Os animais marinhos de Life Aquatic não são reais, como não eram os locais de Tenembaums, nem sequer o ambiente em que se desenrolava Rushmore. E acima de tudo, o tom que deambula entre a comédia e o drama. A facilidade com se salta de um momento profundamente dramático para um comic-relief, sem qualquer intervalo de tempo. Lembro-me de uma cena de Tenembaums, a tentativa de suícidio de Richie (Luke Wilson), em que este acaba por ser conduzido ao hospital. Uma sequência claramente dramática, que termina com uma piada entre Margot (Gwyneth Palthrow) e Dudley, o paciente estudado pela personagem de Bill Murray. Há, perto do final de The Life Aquatic, uma cena em que esse efeito é ainda melhor conseguido (pelo menos foi comigo) que em Tenembaums, a que se junta a redenção que nos filmes de anderson é sempre obtida por todos os personagens, de uma forma ou de outra.
Se os filmes de Anderson são sobre alguma coisa, são sobre pessoas com receio de não serem amadas. Em todos os filmes de Anderson, pelo menos desde Rushmore, todas as suas personagens são personagens que vivem com o receio de não serem amadas. The Life Aquatic... não é excepção. E Steve Zissou é apenas o exemplo mais claro desse receio. Zissou vive atormentado pela perda, neste caso do seu mentor (mencionado algums vezes) e de Esteban, como de certa forma o Max Fischer de Rushmore ou mais claramente o Chas de Tenembaums. A sua história é a de alguém que receia já não ser o que em tempos havia sido, como já acontecia em Rushmore (com e peculiariedade de isso se passar com um estudante do liceu) e era parte central de Tenembaums. É a história de alguém, como de certa forma o Royal Tenembaum interpretado por Gene Hackman, que diz não querer ser pai, mas que no fundo é esse tipo de relação que procura. Essencialmente, alguém com medo de ser esquecido.
Posted by Bruno at 06:07 PM
março 19, 2005
Discernimento
No Público, São José Almeida manifesta o desejo de que se realize conjuntamente com as próximas eleições autárquicas ou presidenciais, os referendos sobre a Constituição Europeia e a questão do aborto. E acrescenta: "que ninguém venha com o inaceitável paternalismo de achar que o povo é estúpido e burro e que não tem capacidade de discernimento para responder e decidir sobre assuntos diversos na mesma consulta." Não sei se o povo tem esse discernimento ou não. Eterno céptico (o leitor esquerdista dirá eterno arrogante, e eu concordo), tenho as minhas dúvidas. Mas talvez seja falta de discernimento da minha parte. O que me parece para além da dúvida é a falta de discernimento da parte de São José Almeida, ao não perceber que o problema não está na eventual falta de discernimento do povo para "responder e decidir sobre assuntos diversos na mesma consulta", mas sim na pouca atenção que será dada, em clima eleitoral, às questões a referendar, nomeadamente sobre a "Constituição Europeia". Porque nesse aspecto, discernimento é o que não falta aos nossos responsáveis políticos. Sabem que o referendo poderá ser desconfortável, e quanto mais despercebido ele passar, melhor. Nós cidadãos, é que parecemos não ter o discernimento parea o perceber.
Posted by Bruno at 10:26 PM
Aceitar
Aproximam-se eleições autárquicas. Por acaso, até já sabia. Imagino que o leitor também. Mesmo que não soubesse, tanto eu como o leitor já nos teríamos apercebido. A Bombardier, empresa privada, quer fechar uma fábrica na Amadora, começando hoje a retirar as suas máquinas. José Raposo, Presidente da Câmara da dita cidade, não consegue aceitar esta atitude da Bombardier. Certamente que nos meses que nos separam das ditas eleições autárquicas, veremos muitos Presidentes de Câmara a expressarem a sua extrema dificuldade em aceitar as atitudes das emmpresas que decidam fechar as suas fábricas ou que tencionam deslocalizar-se. Eu percebo os Presidentes da Câmara. Eu próprio tenho dificuldade em aceitar que eles não se deslocalizam para países de Terceiro Mundo onde parecem aprteciar o género. Mas sem que essa decisão não passa por mim. Se José Raposo, ou Narciso Miranda, ou Valentim Loureiro, ou qualquer restante membro dessa tropa, não quiser ser Presidente da Câmara de Kinshasa, não posso fazer nada. Não sei se José Raposo percebe que ele não tem nada a ver com o que a Bombardier quer fazer ou não. Provavelmente percebe. Mas percebe melhor que ninguém que fingir que o ignora, e levar a cabo a exaltação indignada de não-aceitação da conduta da Bombardier, lhe poderá render muitos votos. Não será o único. Temos de aceitar. Por muito que nos custe.
Posted by Bruno at 10:09 PM
março 18, 2005
Novidades
Ouviu-se aquando da apresentação das listas de candidatos ao Parlamento. Aquando da apresentação das escolhas para o governo. Aqquando da apresentação do programa de Governo. Faltavam novidades. É algo que preocupa os jornalistas. Não haver novidades. Os jornalistas gostam de novidades. De supresas. Sentem a falta das novidades na política. Para eles, a política deveria ser uma incessante sucessão de novidades. Dia após dia. Ministros novos. Nada de caras do passado. Propostas novas. Frescas. Jovens. Irreverentes. Uma novidade permanente. Eu não gosto de novidades. Muito menos em política. Surgem sempre novidades como a deslocalização das Secretarias de Estado, como aconteceu com o anterior Primeiro-Ministro. Com esse sim, havia novidades todos os dias. Como os jornalistas gostam. Quanto mais não seja, porque vivem delas. E pensam que como eles, ninguém consegue viver sem elas. De facto, se houve alguém que ficou a perder com a saída de Santana Lopes, foram os jornalistas. Temo é que o país não tenha ficado muito melhor. O que não será novidade.
Posted by Bruno at 10:12 PM
Dizer Mal
Pacheco Pereira escreve no Público e na Sábado no sentido de não se conceder um "estado de graça" ao governo do PS. No Público, Miguel Sousa Tavares critica Pacheco Pereira por essa afirmação. Segundo Sousa Tavares, "há já quem reclame que os colunistas que antes criticavam Santana Lopes comecem já a fazer o mesmo com Sócrates, abolindo, como o fizeram com Santana, o tradicional período do "estado de graça". E, mais curioso ainda, até há quem o tenha já começado a fazer, com medo de que lhe chamem incoerente. Pois eu, que não só não respeitei o período de graça, como até comecei a criticar o Governo de Santana antes mesmo de ele ter tomado posse, não enfio o barrete. Porque as diferenças são, à partida, abissais: Sócrates não é Santana, e esse é o ponto essencial." O problema é que tal como Miguel Sousa Tavares considera à partida que Sócrates não é Santana, há quem, olhando para a partida, não tenha ficado muito descansado.
Posição que se tem ouvido muito por aí, é a de que não se deve criticar o governo, visto que este ainda não teve tempo de fazer nada. Sousa Tavares não envereda por essa caminho. Alguém que consegue avaliar a inteligência de alguém apenas com um olhar para a face de alguém sabe que o tempo é um elemento desnecessário para a análise política. Mas há quem o faça. Talvez por não possuírem as impresssionantes faculdades de Sousa Tavares. E dizem que o governo ainda agora tomou posse, não teve tempo de tomar qualquer medida, muito menos para que se pudesse avaliar os resultados dessas medidas. Facto. E dizem portanto que não se deve criticar o governo. Erro. Pode-se dizer mal do governo. Deve-se dizer mal. Sempre. Acerca do que quer que seja. Até quando não se está errado. O que, aliás, se passa amíude com Miguel Sousa Tavares.
Para mais, o Governo do PS não é uma folha em branco. Fica perto, mas não chega lá. Fizeram-se propostas. E mesmo que fosse uma folha em branco, já isso era suficiente material de avaliação. As propsotas que o PS fez são matéria de análise. E é normal que quem não concorde com essas propostas as critique. É perfeitamente legítimo que as "mulheres socialistas" critiquem o governo por este não ter escolhido mais mulheres, apenas e só pelo facto de serem mulheres. Podem dizer mal mesmo quando estão erradas. Tal como Miguel Sousa Tavares as pode criticar (e bem), por dizerem aquilo que disseram. O PS fez propostas com as quais concordo. Fez propostas com as quais discordo. Fez silêncios que me preocuparam. Disse coisas que não dizem nada. Tudo isso deve ser analisado. Não é preciso dar tempo. Se eu concordo com uma proposta, digo que concordo. Se não concordo, não concordo. Se acho que são um vazio, digo que acho que são um vazio.Não é preciso esperar para ver (nem mesmo aqueles que, como eu, não conseguem acompanhar Sousa Tavares na avaliação de cáracter pela mera contemplação da fisionomia). E isso não tem nada a ver com dar ou não dar estado de graça. Tem a ver com dizer-se o que se pensa.
Posted by Bruno at 09:48 PM
março 17, 2005
Responsabilidade
A propósito da questão das opiniões expressas por Freitas do Amaral aquando da polémica sobre o Iraque, e qual será a sua prática no governo, tem havido em alguns sectores uma postura algo preocupante. A de relativizar as opiniões que na altura Freitas defendeu, precisamente porque não exercia o cargo que hoje exerce, tendo uma certa liberdade, e mais, "à vontade" que hoje não tem para defender o que defendeu, e da forma como o fez. Esta postura é preocupante por duaz razões. Por um lado, parte do pressuposto que um político não pode exercer um cargo de acordo com aquilo que realmente acredita. E por outro lado, parte do pressuposto de que aquilo que alguém diz quando não está no poder não o responsabiliza perante essas mesmas posições quando mais tarde o exerce. Aceita-se a demagogia como defesa contra a crítica à demagogia. É-se mais irresponsável que os irresponsáveis que se procura defender.
Posted by Bruno at 10:08 PM
FreitasWatch 3
Ontem, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, em conferência de imprensa em Bruxelas, em resposta a uma questão sobre as posições que havia tomado em relação à política externa americana, afirmou algo como "as opiniões mudam quando as circunstâncias mudam". Acho bem que Freitas mude de opinião. Acho bem que pense que a "Europa" não deve ser um rival dos EUA. Gostava era de saber quais as circunstâncias que levaram á mudança de opinião. Freitas não explicou. Pelo menos em "on". Não podia, porque Sócrates (bem) instrui os seus ministros a não fazerem declarações públicas sobre a política do governo até o seu respectivo programa ser apresentado. Mas o Ministro dos Negócios Estrangeiros descansou os jornalistas, assegurando-lhes que em "off", se podia arranjar qualquer coisinha. É uma atitude muito portuguesa, esta de tentar "arranjar qualquer coisinha". Só não percebo é por que razão só os jornalistas têm direito a que se tente arranjar-lhes "qualquer coisinha". E continuo sem perceber que circunstâncias mudaram. Será que na América, a extrema-direita já não está no poder? Será que Freitas já não acha estranho que ninguém diga que o se passa em Guantanamo é igual ao que se passava em Auschwitz? Será que já não acha a invasão do Iraque comparável à da Polónia? Esperemos que não, porque quem pensa essas coisas não pode associar Portugal a gente assim.
Posted by Bruno at 09:53 PM
março 16, 2005
Quem Paga?
O Presidente do Banco de Portugal, Vitor Constâncio, afirmou ontem que "neste contexto, é de esperar, por exemplo, que os impostos sobre veículos e combustíveis tenham que funcionar, nas presentes circunstâncias, como alternativa às portagens, uma vez que o sector rodoviário deverá pagar grande parte das infra-estruturas que utiliza", e ainda que "não podemos generalizar o princípio do utilizador-pagador porque isso implicaria admitir que não existe lugar para a intervenção do Estado como expressão da solidariedade entre cidadãos". Seria de facto negativo admitir que não existe lugar para a intervenção do Estado como expressão da solidariedade entre cidadãos. Mesmo que essa solidariedade seja compulsiva, como é o caso de um imposto. Poder-se-ia pensar que seria mais positivo que os cidadãos expressassem a sua solidariedade apenas e só caso a quissessem expressar, mas os bons sentimentos devem ser, segundo Constâncio, praticados, mesmo que contra a vontade de quem os pratica.
Indepentemente desta questão, uma coisa não pode ser ignorada. As auto-estradas têm de ser pagas. Não são de graça. Se for o Estado a pagá-las, não são de graça. Para o Estado as pagar, precisa de sugar o dinheiro dos contribuintes, independentemente de estes usufruirem ou não do serviço que o Estado precisa de pagar. Voltemos agora às declarações de Constâncio. Afirma que deverá ser o sector rodoviário a pagar grande parte das infra-estruturas que utiliza. Depreendo que o defenda porque ache que seria injusto pedir a outros sectores que pagassem aquilo que não usufruem. Eu concordo. Não percebo é porque razão se defende que esse pagamento se faça através de um imposto, e não através de um pagamento de uma portagem. O facto de determinado indivíduo possuir um veículo, não implica que ele usufrua das ditas estruturas. E nesse caso, não as deveria pagar. Pelo menos, é essa a justificação que Constâncio usa para limitar o pagamento destas estruturas através do aumento de impostos ao sector rodoviário. É que, embora Constâncio pareça não o perceber, há uma diferença entre o pagamento de um imposto, e o pagamento de um serviço prestado. Só o último é que não é injusto. E não precisa do Estado como expressão da solidariedade dos cidadãos.
Posted by Bruno at 10:08 PM
A Menina do Ombro Desnudado
Tinha o pecado à flor da pele. Desnudava repetidas vezes o ombro. Repetidas vezes, porque a vestimenta que trazia insistia em cobri-lo. Ali, no ombro da jovem, toda uma luta. Toda uma guerra. A jovem, querendo dar largas ao pecado. A roupa, qual voz da consciência, qual fonte de virtude, querendo escondê-lo. A jovem lutava. Desnudava o ombro de cada vez que a roupa lhe ocultava a carne. Ela queria manter a beleza descoberta. Sabia que a tinha. Sabia que iria deixar de a ter.
Posted by Bruno at 09:59 PM
março 15, 2005
Barreira Civilizacional
De um lado da estrada, uma série de estudantes universitárias escandinavas dispostas em fila. Dispostas a quê, não sei, embora me entretenha a imaginar. Mas em fila. Todas muito desenvolvidas. Sustentavelmente. Do outro lado da estrada, um grupo de membros da falange masculina da sociedade portuguesa. Dispostos a pecar. E em fila, a contemplar. Parados, a olhar o desenvolvimento externo. Como o país em que nasceram.
Posted by Bruno at 09:52 PM
Julgamentos
Parece que há aí um grupo de gente de esquerda que vai organizar uma divertida festarola progressista. Os ditos deram largas à imaginação, e resolveram fazer um julgamento, em que o "Tribunal da Opinião Pública", julgará a "agressão ao Iraque". Como são jovens, frescos e irreverentes. Como é irreverente e imaginativa esta ideia de ter a "Opinião Pública", num "Tribunal", a julgar a "agressão ao Iraque". Nada que supreenda naquela pandilha. Não só pela irreverência e imaginação, que caracteriza quem, como estes "jurados", não se deixa constrangir por preconceitos. Mas também porque "julgamentos", com "tribunais" da "opinião pública", formados por "jurados" aficionados de regimes totalitários, sempre foram muito queridos por aqueles lados. Embora, infelizmente para os julgados, tivessem consequências bem mais graves que a mera exposição ao ridículo dos seus participantes, como acontece nos dias de hoje.
Posted by Bruno at 09:41 PM
março 14, 2005
Drama Pessoal
Luís Felipe Menezes, diz o DN, lança-se em luta contra o aparelho. É o chamado conflito interior.
Posted by Bruno at 10:02 PM
Portugal Dispensável
O Sr. Presidente da República diz que nenhum português é dispensável. Está enganado. Eu, sem precisar de ir muito longe, lembro-me já de um. E se contarmos comigo (que dispensava ser português), já somos dois, Sua Excelência...
Posted by Bruno at 09:58 PM
março 13, 2005
Amizades
Valentim Loureiro, renomado cacique e Presidente da Câmara de Gondomar, afirmou hoje que tinha (a palavra foi sua) de dizer que a culpa de Gondomar ainda não ter uma linha do Metro do Porto não era dele, mas sim de Durão e de Santana. Claro que "tinha" de dizer. Aproximam-se eleições, e é bom para o Major que as coisas fiquem claras. Mas Valentim Loureiro não poderia abandonar o convívio com os telespectadores sem antes partilhar com quem assistia a sua convicção de que Sócrates seria um muito melhor amigo de Gondomar. Nada de surpreendente. Ficou famosa a sua aclamação de Guterres. Este é apenas mais uma passo na sua reconversão. Talvez se se passar para o PS, Valentim se torne um Presidente da Câmara respeitável. Acima de qualquer suspeita. Como Narciso Miranda.
Posted by Bruno at 09:42 PM
março 12, 2005
Surpresa
Oiço que Luís Felipe Menezes deu uma entrevista na RTP a Judite de Sousa. Imagino que seja uma novidade para o leitor. Tal como foi para mim. Surpreendentemente, ouvi-o, não da boca de Menezes, ou sequer da de Judite de Sousa. Para meu espanto, houve pelo menos um indivíduo sem participação na dita entrevista que se tenha dado ao trabalho de a assistir.
Posted by Bruno at 10:52 PM
Bom Sinal
Aparentemente, o Hamas anunciou que se iria apresentar como força partidária concorrente às próximas legislativas palestinianas. É um bom sinal. Não porque, como alguns entusiasmados pensam, porque seja um sinal de que a dita organização esteja disposta a abandonar as práticas terroristas que tanto apreciam. Não estarão certamente. Mas apenas e só porque para se apresentar a umas eleições, se percebe que neste momento, o Hamas sente uma necessidade que até agora nuca sentiu: a de se rodear de uma legitimidade proveniente de outra fonte que não as meras proclamações de que a tem. Mostra que se sentem fracos. O entusiasmo dos optimistas é injustificado, porque o que pretendem os terroristas é tornarem-se mais fortes. O que pode acontecer, se eventualmente ganharem, ou tiverem uma votação significativa. Mas o facto de se sentirem mais fracos demonstra que algo está a mudar. Para melhor.
Posted by Bruno at 10:44 PM
FreitasWatch 2
Ouvi há pouco o Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros afirmar que as suas críticas à invasão americana ao Iraque não iriam prejudicar a relação de Portugal com os EUA, e que ele nunca havia comparado Bush a Hitler, que esse havia sido um título de um jornal que ficou na cabeça das pessoas, em vez daquilo que ele havia dito. Parece-me que a cabeça que não fixou o que Freitas escreveu foi a cabeça do próprio Freitas do Amaral. Mas enfim, deixemos isso de lado.
Convém ter em conta que Freitas não se limitou a criticar a intervenção. Afirmou que esta Administração americana representava a extrema-direita americana (afirmação essa que demonstra um ignorância ela sim extrema, porque a extrema-direita americana esteve contra a guerra), e que a Europa (que Freitas escreve sem aspas, como se fosse mais que uma ideia bonita) devia servir de contra-poder (não foi esta a expressão, mas o sentido era exactamente o mesmo) aos EUA. Ora o que eu não compreendo é como alguém que pensa que a UE deve ter uma política externa comum de oposição aos EUA pode levar a cabo uma política externa portuguesa de aliança com os EUA. Das duas uma: ou Freitas mudou de posição, e como escrevi anteontem, deve explicar a razão, ou não mudou, e aceitou levar a cabo o contrário do que pensa, o que não abona a favor da figura.
Note-se que isto não é um capricho pessoal de alguém que se julga traído. Quando muito, seria o capricho pessoal de alguém que aprecia a coerência, e que achando que a mudança de ideias é legítima, ela deve ser explicada. Mas a questão vai mais longe. Alguém, no Quadratura do Círculo (já não me recordo se Lobo Xavier ou Pacheco Pereira), disse que se o Ministro dos Negócios Estrangeiros fosse entrevistado na CNN, esta questão seria o tema da primeira pergunta que lhe seria colocado. E se a resposta de Freitas fosse a mesma que deu hoje, o que qualquer jornalista acima da mediocridade que reina neste país lhe perguntaria seria o que escrevi no parágrafo anterior: como é que o que escreveu antes pode ser compatível com o que diz agora? Mudou de posição? Porquê? Não mudou? Como é que aceita estar no cargo?
Posted by Bruno at 10:21 PM
março 10, 2005
FreitasWatch
Ainda no Quadratura do Círculo, discutiu-se a escolha de Freitas do Amaral para Ministro dos Negócios Estrangeiros. Da parte de Pacheco Pereira e Lobo Xavier ouviram-se críticas, esperadas e justificadas, a essa escolha, face às opiniões que Freitas tem emitido nos últimos anos relativamente às matérias que irá tutelar. A questão parece-me ser simples. Quando alguém com o passado de Freitas é escolhido para Ministro, quando alguém que tem voz na comunicação social, e um registo de tomadas de posições nessa comunicação social, como tem Freitas do Amaral, é escolhido para Ministro, será escolhido devido a essas tomadas de posição. Assim, é normal, legítimo, e do meu ponto de vista de aplaudir, que pessoas que não concordam com o que Freitas tem dito, manifestem reservas em relação à sua escolha. Teoricamente, ele terá sido escolhido para seguir uma política coerente com essas posições. Se isso se verificar, será mau para o país, porque é, do meu ponto de vista, o contrário do caminho que deveria ser seguido. Há quem diga que Freitas não irá desenvolver uma política tão radical como as opiniões que tem partilhado connosco. Eu temo que estejam errados. Mas imaginemos que não. Que a política externa de Portugal venha a ser contraditória em relação ao que Freitas tem defendido, e que este não se demita em consequência disso(como deveria fazer alguém que não concorda com o que está a ser posto em prática). Se assim acontecer, isso significará, ou deveria significar, que mudou de opinião. E caso assim seja, deverá explicar por que mudou. Caso contrário, apenas ficará a ideia de que Freitas será ou um irresponsável, ao ter feito declarações que depois desvaloriza, ou um hipócrita, que faz o contrário daquilo que diz. O que se calhar seria preferível a uma política errada. Mas algo a criticar. Uma coisa parece inevitável: Freitas do Amaral será alvo de uma vigilância permanente da opinião pública.
Posted by Bruno at 10:09 PM
Destaques
Ontem, no Quadratura do Círculo (Flashback, para os amigos), Lobo Xavier manifestou a sua discordância relativamente ao envio do retrato de Freitas do Amaral para o Rato. No Diário de Notícias, deu-se destaque de primeira página ao facto. "Divisões no CDS", podia-se ler. Tudo bem. Mas pergunto: se ouviram o programa, não poderima ter publicado cabeçalhos como "divisões no Governo"? E teriam logo duas notícias possíveis: "Secretário de Estado da Administração Interna indigitado desvaloriza afirmações do ministro das Finanças indigitado". Ou "Secretário de Estado da Administração Interna indigitado menoriza papel do Ministro dos Negócios Estrangeiros indigitado". Dito isto, tenho pena que o senhor em causa vá para Secretário de Estado, deixando o programa. Não sei como vou aguentar assistir áquilo sem a chuva de insultos que cá por casa se proferiam sempre que José Magalhães intervia.
Posted by Bruno at 09:59 PM
março 09, 2005
Sem Discussão
Leio a crónica de Luis Delgado. Não costumo ler Delgado. Pela mesma razão que não tomo atenção aos anúncios na televisão. Não sou fã de propaganda. Mas chamam-me a atenção para uma passagem do escrito do dito senhor, que me aguçou a curiosidade. Acerca de António Mexia, Luís Delgado afirma que "será tudo na vida". Gloriosa frase. Profética. Eu até simpatizo com o senhor. Mexia, não Delgado. Mas duvido que venha a ser tudo na vida. Até porque duvido que queira. Ou até que possa. Nem todos podem ser como Delgado. A falta de carácter em doses sobre-humanas não está ao alcance de qualquer um. E se Mexia não pode ser Delgado, essa é uma coisa que nunca poderá ser. O que quer dizer que não poderá ser tudo. Mas passemos à frente.
A crónica de Delgado (mais uma vez, não consigo entrar no site no DN)versa sobre os ministros do governo cessante. Não sei se a escreve como amigo de Santana Lopes, ou como comentador. Aparentemente, Delgado distingue. Eu já assisti. Surpreedentemente, mais ninguém o faz. Mas voltemos ao seu espaço, que, presumo, é da exclusiva responsabilidade do interveniente (inclusivé naquelas crónicas em que Delgado se limita a transcrever crónicas de terceiros): segundo o publicitário, os ditos ministros possuem "méritos indiscutíveis". Podiam possuir indivíduos do sexo oposto, ou até (esgar de repulsa conservadora) do mesmo, para as mentes mais progressistas. Mas não. Possuem "méritos indiscutíveis". Delgado que me perdoe, mas discuto. Veja-se por exemplo o que diz de Gomes da Silva: "é amigo do seu amigo(...)com ele pode-se contar, sempre." Mérito indiscutível. Mas que para a governação é irrelevante. Mas verdadeiramente espantoso é o que diz sobre Fernando Negrão e Maria João Bustorff: "quatro meses não são nada nas suas pastas. Tiveram azar no contra-relógio". Não vou discutir se tiveram azar ou não. Não por ser indiscutível. Apenas porque não vale a pena comentar o "contra-relógio". O que já me parece claramente discutível, e que merece ser discutido, é o factonde alguém ter tido azar ser considerado um mérito. E logo um mérito indiscutível. Pensava que o mérito, como a culpa, partia da responsabilidade, e que o "azar", era algo que se passava sem a directa participação do indivíduo, ou seja, sem responsabilidade deste último. Aparentemente, não. Delgado disse. Ter azar é um mérito indiscutível. Séculos de tradição judaico-cristã, e todas as nossas noções morais, sobre as quais assentam as nossas sociedades, são lançadas para o caixote do lixo. Virá, portanto, um novo amanhã. Trazido por Delgado. Profético. O que talvez nos possa fazer aceitar que a ideia de que António Mexia "será tudo na vida" será "indiscutível". Eu, sou um incréu. E a única coisa que me parece indiscutível aqui é mesmo a falta de vergonha de Delgado.
Posted by Bruno at 09:53 PM
março 08, 2005
O governo da Opinião Pública
Ouvi hoje de manhã, no Sky News, o Ministro ou o Secretário de Estado (já não me recordo) inglês da Saúde. Nada pior que ouvir um membro do Labour pela madrugada. Minto. Procurar clássicos do mestre Clint na Fnac no Chiado ao som incessante e aterrador de Bob Marley (aconteceu-me a mim) é pior. Mas fora isso, ouvir um membro do Labour logo pelo alvor do dia é bastante desmoralizador. E o que disse o ilustre membro do Governo de Sua Majestade (que não tem culpa do governo que tem)? Que as pessoas querem poder escolher qual o hospital no qual irão receber tratamento. e que portanto, o seu partido se compromete a alterar a legislação nesse sentido. Acho bem. Vou até mais longe. As pessoas deveriam poder escolher qual o hospital onde colocam o seu dinheiro, caso precisem de tratamento médico, em vez de pagarem um Serviço Nacional de Saúde que lhes restringe a escolha e diminui a responsabilidade.O que me incomoda é a justificação. "As pessoas querem". Não "nós pensamos que". Hoje em dia, a política, enquanto actividade, está a ser subvertida. Não é entendida, por aqueles que a exercem, como uma competição de diferentes propostas, com vista a convencer os eleitores de que a sua é a que melhor servirá os interesses desses eleitores. Os partidos parecem deixar de querer, ou pelo menos não dizem que querem, e isso já é suficientemente grave, pois altera a percepção da opinião pública, convencer as pessoas. Procuram interpretar aquilo que elas supostamente querem. O que se torna especialmente grave, quando aquilo que as pessoas querem, é o contrário do que deveria ser feito. Basta olhar para Portugal.
Posted by Bruno at 06:03 PM
março 07, 2005
Retrato
As peripécias do retrato de Freitas em trânsito do Caldas para o Rato têm feito as delícias dos nossos jornalistas. E não só. A rapaziada do CDS está visivelmente divertida. O porta-voz do PS também atribui importância à coisa. O retrato é o assunto do momento. O que não deixa de ser um retrato da nossa vida política. Concentrada quase exclusivamente em incidentes. Por culpa dos políticos que os provocam, dos jornalistas que lhes dão eco, e de nós, que os ouvimos.
Posted by Bruno at 10:01 PM
março 06, 2005
Agenda Própria
A entrevista de Marques Mendes ao Diário de Notícias de hoje (mais uma vez, não consigo fazer link) é bastante reveladora do que há de assustador na candidatura de Marques Mendes à liderança do PSD, caso não surja nenhuma candidatura alternativa (ignoremos a do senhor de Gaia). Veja-se este exemplo, que, na sua simplicidade, diz tudo: a dada altura, Marques Mendes afirma, como não se tem cansado de repetir, que o PSD "precisa de uma agenda própria". Acho bem. Pena é que das palavras de Marques Mendes não se vislumbre qualquer agenda, própria, emprestada ou roubada. Das afirmações de Marques Mendes, apenas se avista o enorme vazio, só comparável ao do engenheiro Sócrates. Semelhança essa que não abona muito a favor de quem quer ter uma agenda "própria". Como Sócrates, Marques Mendes enuncia palavras bonitas. Muitos adjectivos. Ele adjectiva a "agenda". Será, diz-nos, "própria". Não nos diz é qual será. Temos adjectivo. Não temos é sujeito. Não temos nada para adjectivar. O que nos permite adejctivar o futuro que podemos esperar. Negro...
Posted by Bruno at 09:48 PM
março 05, 2005
O "Não" de Manuela Ferreira Leite
Manuela Ferreira Leite disse ontem que não se candidataria à liderança do PSD. Avançou como razão o facto de recear que a sua candidatura fosse dividir o mesmo espaço político com a candidatura de Marques Mendes. Daqui se depreende que Ferreira Leite não estará muito contente com a candidatura de Marques Mendes, apenas a prefere em relação a de Menezes, e teme que a sua entrada na corrida possa favorecer esta última. Agora que Manuela Ferreira Leite se afasta, talvez aqueles que defenderam uma candidatura da ex-ministra avancem. falo de António Borges, Rui Rio ou Aguiar Branco. É que de Marques Mendes, temo que só se possa esperar um "mal menor". É altura para querer um pouco mais...
Posted by Bruno at 10:11 PM
março 04, 2005
Habituem-Se
Sobre o anunciado governo do PS, alguns comentários:
1-Para um Governo que não ia ser "feito na comunicação social", as notícias que vieram a sair nos últimos tempos acabaram por se confirmar, nomeadamente a escolha de Freitas (pronto, esta era fácil de adivinhar) e ausência de Vitorino. E isto deixando de lado o facto de que, ao nos ser dito que o governo não é feito na televisão, essa afirmação é ela própria uma postura que tem apenas em vista a imagem que se passa, como forma de contrastar o "novo tempo", com o do "menino guerreiro". Não há melhor propaganda que o dizer-se que não se faz propaganda.
2- A escolha de Vieira da Silva para a pasta do Trabalho e da Solidariedade Social é o sinal de que todos os "direitos adquiridos" se manterão inalterados. Mesmo que a custo de todos.
3- A própria mudança do nome deste último ministério de do Trabalho e Segurança Social para Trabalho e Solidariedade Social é um exemplo do que serão os próximos quatro anos. Cosmética. Palavras Bonitas. Futuro negro.
4- Não duvido da competência de Campos e Cunha. Não duvido que possa ser capaz de uma governação responsável. Não nos basta uma governação responsável. É necessária uma governação que corte com o estado em que está o Estado. Não basta fazer uma gestão responsável do que hoje temos. E por muito competente que seja Campos e Cunha, nem este último aspecto é garantido.
5-Vitorino não está. Não se perde muito.
6-Posso achar estranha a presença de Freitas do Amaral neste Governo. Pode fazer-me espécie. Mas esse é um estado de alma. E para estados de alma, já nos bastaram os que Pedro Santana Lopes partilhava com o povo de que tanto gosta, na SIC (e não será difícil de imaginar qual é o seu estado de alma hoje em dia. A boa educação é que me impede de escrever a palavra). Mas há, politicamente, razões para se ficar preocupado. A política externa de Portugal, será, nos próximos anos, a que Freitas do Amaral tem defendido nos últimos anos? Com Jaime Gama, certamente não seria.
Como diria aquele senhor em quem toda a gente votou mas não está no Governo, habituem-se...
Posted by Bruno at 10:07 PM
março 03, 2005
Sem Sentido
Tenho preconceitos. Há quem não goste de gente preconceituosa. partem do princípio que o preconceito é mau. São preconceituosas em relação ao preconceito. Eu acho muito bem. Já eu tenho preconceitos contra os franceses. Fui educado através da televisão. Filmes americanos e séries inglesas. Material onde se dá largas ao preconceito anti-francófono. E a prova de que não há nada de errado num preconceito (particularmente este) é que nos é confirmado à posteriori. Veja-se o que se lê na The Economist, sobre a posição de uma Ministra francêsa sobre a hipótese da UE pôr termo ao embargo relativo à venda de armas à China.
Michéle Alliot-Marie diz, segundo a revista britânica, que a França está a considerar a hipótese de vender armas à China, e que isso seria positivo, porque iria abrandar o desenvolvimento chinês de tecnologia militar. Vejamos o raciocínio: diz a senhora que seria bom vender armas à China, para abrandar o desenvolvimento militar por parte da indústria chinesa. Se esse abrandamento é positivo para a França, perdão, a UE, e a UE está interessada na estabilidade dessa zona da Ásia, é porque esse abrandamento seria prejudicial para as ambições regionais da China. Não sei se é esse o caso. Se fosse, porque razão optaria a China por esse caminho? Se não for, qual o interesse da França, perdão, da UE, em contribuir para a desestabilização da região? Das duas uma: ou a França, através do seu Governo, não sabe o que anda a fazer (hipótese que confirma os meus preconceitos em relação ao dito país), ou a França, através do seu Governo, está a ser hipócrita em relação ao que lhe interessa nesta questão (confirmando de novo os preconceitos).
Acho muito legítimo que a França esteja interessada em fazer grandes negócios com a sua indústria militar. Que, diga-se de passagem, tão bem serviu tão gloriosos exércitos como o do Iraque, por exemplo. Estão no seu direito. Espero é que tenham consciência das possíveis consequências dessa opção. O que já me incomoda é que tentem justificá-lo com base em argumentos supostamente altruístas, mas que caem ao mínimo sopro. Como aliás aconteceu com a França, pelo menos, numa determinada época histórica que não devem gostar de recordar. E de que se safaram com a intervenção de várias forças armadas de vários países, entre os quais dois por quem não nutrem grande simpatia.
Posted by Bruno at 10:30 PM
A Verdadeira Tragédia
Gostei da crónica de hoje do Luciano Amaral no DN (não consigo fazer link). Só uma pequena ressalva: a dada altura, o Luciano afirma que "não fosse Pedro, e Barroso pagaria nas urnas (...) o fracasso da sua governação". Um pouco mais à frente, escreve que Durão Barroso "se demonstrou incapaz de qualquer valor reformista quando ele era mais preciso", dando o Luciano a entender que era aí que residia o fracasso. De acordo. Foi um fracasso, e foi um fracasso por essas mesmas razões. E sim, acabaria por pagar nas urnas esse fracasso. Mas acabaria por pagar, também, se tivesse sido um sucesso, ou seja, se tivesse realmente feito as reformas que não fez. E essa é que é a verdadeira tragédia. Não do Pedro. Não de Barroso. Mas deste país.
Posted by Bruno at 10:16 PM
março 02, 2005
Auto-Crítica?
Ouvi ontem, no Parlamento da RTP2, o deputado comunista Bernardino Soares ("Kimi" para os amigos) queixar-se do facto do PS ter, nos idos de 1998, realizado um referendo sobre a questão do aborto. Queixava-se "Kimi" que o PS havia retirado da Assembleia aquela que era uma competência sua. Eu não gosto de referendos. Abro apenas uma excepção para a questão da "Constituição Europeia", porque não é uma mera opção governativa. Acho bem que o PCP tenha essa posição. Mas eu pensava que o PCP era defensor do "aprofundamento da democracia", ou seja, de referendos por tudo e por nada. Autocrítica? Na minha terra tem outro nome...
Posted by Bruno at 09:58 PM
março 01, 2005
Socrático
Já não é a primeira vez que oiço alguém afirmar que o engenheiro José Sócrates, Primeiro-Ministro to be, lhe provoca uma intestinal aversão. Não será a última. É, aliás, um sentimento que partilho. Já o disse e volto a dizer. Qualquer pessoa que permita que se apelidem os seus correlegionários de "socráticos", não merece grande consideração...
Posted by Bruno at 10:26 PM
A Ler
No aniversariante Blasfémias, o post sobre o Movimento Farmácia Livre, do João Miranda.
Posted by Bruno at 10:23 PM
Insurgente
A não perder, o Insurgente, blog com nome esquerdista mas repleto de liberais cá da praça, incluindo o regressado João Noronha.
Posted by Bruno at 10:20 PM
You Don't Make Up For Your Sins in Church, You Do It in The Sunday Times
No Sunday Times, uma entrevista de Martin Scorsese a destilar (justificado) ódio e rancor contra a Academia. Antes da cerimónia deste ano.
"By the time we got to Raging Bull (1980), which had seven nominations including me, but Robert Redford won, I just said: ‘I will never win."
Posted by Bruno at 10:12 PM