Escrito pela mão invisível de Bruno Alves. Comentários e opinião: alves.bm@netcabo.pt

« janeiro 2005 | Main | março 2005 »

fevereiro 28, 2005

And the Winner Was...

Não foi mau, este ano. Não ouve Senhor dos Anéis a estragar o reconhecimento de filmes que realmente merecem ser reconhecidos. Eu gosto dos Óscares. Gosto do espectáculo da coisa. Querer ver quem ganha, mesmo sabendo que a qualidade de um filme não é por vezes o requisito principal para aquela gente. Querer que ganhem os filmes de que gostei, mesmo sabendo que a qualidade não é por vezes o requisito principal para aquela gente. E gosto, porque há sempre bons momentos de televisão: Robin Williams, sempre. Cate Blanchett, sempre. Sean Penn é um parvalhão. Sempre. E a Scarlett Johansson, sempre. Aquela voz, aquela voz. Gostei de Chris Rock. E da Gwineth Palthrow. Renee Zelwegger estava a doses maciças de Xanax. O que estraga tudo. Eu? Com inveja de DiCaprio sempre que aparecia ao lado daquele colosso brasileiro.

Este ano tinha grande curiosidade. Era um duelo entre dois dos realizadores mais cá de casa, Scorsese e Eastwood. Foi bonito ver, ainda na passadeira, Scorsese a falar de Eastwood como "um herdeiro dos pioneiros do cinema americano", em tom excitado e de genuina admiração. Foi bonito ver o emocionado elogio de Telma Schoonmaker, e o emocionado agradecimento de Scorsese, que passou a cerimónia toda a emocionar-se. E continua sem ganhar (espero que seja da próxima, mas espero essencialmente que o mereça). Foi bonito o momento de homenagem aos membros recentemente falecidos, começando em Reagan e terminando com Brando. Foi bonito ver Cate Blanchett elogiar Scorsese. E foi bonito ver Cate Blanchett. Mas preferia que tivesse ganho Natalie Portman (a Natalie, tão crescida, naquela sua figura culpabilizadoramente adolescente). Foi bonito ver Morgan Freeman a ganhar e o piscar de olho de Eastwood, antes do elogio, só comparável aos que Scorsese levou toda a noite. Eastwood não ganhou o melhor actor, tal como Paul Haggis não ganhou o melhor argumento adaptado, que foi para Sideways, e não fica mal entregue. Gostei muito que Eastwood tenha ganho o Óscar de melhor realizador (e tenha falado da mãe, presente na assistência. Que ele dure tanto como ela, e que continue a fazer filmes assim), inquestionavelmente merecido. E que Million Dollar Baby tenha sido reconhecido como a grande obra-prima que é. Mas o grande, grande momento, foi a vitória de Hilary Swank. Primeiro, o abraço comovido ao mestre Clint. E depois o discurso, emocionado mas evitando a histeria de Charlize Theron o ano passado, em que Swank (grande, grande interpretação), começa dizendo "I don't know what I did in this life to deserve all this. I'm just a girl from a trailer park who had a dream", e termina, dirigindo-se a Eastwood, dizendo "you're my Mo Cuishle". Million Dollar Baby é de facto um grande filme, com grandes interpretações, e que mereceu ser reconhecido, única e exclusivamente pela sua qualidade. Se fosse sempre assim, Scorsese já teria ganho. E Eastwood já teria ganho mais vezes.

Posted by Bruno at 02:52 PM

fevereiro 27, 2005

And The Winner Should Be...

Melhor Filme: Temo que a escolha seja Aviator (do qual gostei), que não merece, entregando o de melhor realizador a Eastwood. Mas o melhor filme é, sem qualquer dúvida, Million Dollar Baby. Quando eu for velhinho, vai-se falar deste filme como um grande clássico de todos os tempos.

Melhor Realizador: Deveria ir para Clint Eastwood. Admito que possa ir para Scorsese, não ficando mal entregue (mas nunca pondo em causa o melhor filme para Million Dollar Baby), embora para um fã do senhor, custe que ele o possa ganhar por um filme claramente menor e não pela obra-prima assombrosa que é Raging Bull. Para mais, vem aí um regresso do senhor aos filmes de gangsters, longe das tentativas de agradar à Academia. Para um para outro, tanto me faz. Acho que Eastwood mereceria mais, pelo filme em causa, mas não posso deixar de ficar contente se Scorsese conseguir aquilo que manifestamente quer. De qualquer das formas, vai haver comoção logo à noite, cá por estes lados...

Melhor Actor: É a categoria das grandes dúvidas. Acho que a escolha será Jamie Foxx, porque o politicamente correcto está todo do lado dele. Giamatti merecia ter tido a nomeação por Sideways, em vez de Don Cheadle, actor que aprecio, mas que entra numa lamechice sobre o Ruanda. Johny Depp é muito cá de casa, mas sinceramente, não é desta (ou não deveria ser). Sinceramente, gostei de DiCaprio em Aviator, e se lhe fosse entregue, era merecido. Mas Eastwood é absolutamente assombroso. Nem que fosse só com o coração (e não é), a escolha ia para o Dirty Harry.

Melhor Actriz: Gostei muito de Kate Winslet em Eternal Sunshine..., mas este ano a escolha estará entre Annete Bening e Hilary Swank. Quando Swank ganhou o seu primeiro Óscar, Bening estava também nomeada. E do meu ponto de vista deveria ter ganho. Eu gosto de Bening. Mas a lamechice em que entre este ano, no papel banalíssimo mas muito ao gosto da Academia da diva bigger than life, não é muito convidativa para o meu gosto. Para mais, Swank está divinal no divinal Million Dollar Baby, conseguido ser adorável e brutal no seu papel. Era para ela que a estatueta deveria ir. Sem margem para dúvidas. Do coração ou da cabeça.

Melhor Actor Secundário: Thomas Haden Church está hilariante em Sideways. Jamie Foxx deverá ser penalizado pela mais politicamente correcta escolha a seu favor em Ray (quando muitos dizem que seria por Collateral, que não vi, que ele merecia ser premiado). Clive Owen tem um desempenho surpreendente num filme que me supreendeu agradevelmente, mas não suficiente para me inclinar na sua direcção. Alan Alda é um senhor que me merece grande simpatia, e ficaria bastante contente se ganhasse. No entanto, é com Morgan Freeman que estou.

Melhor Actriz Secundária: Deverá ir para Cate Blanchett, por Aviator (uma grande actriz num desempenho mediano) ou Virgina Madsen por Sideways. A minha escolha é, sem qualquer hesitação, Natalie Portman em Closer.

Melhor Argumento Original: Eternal Sunshine... foi um filme de que gostei, mas que gostei apesar de certos elementos. Esses elementos mais duvidosos são culpa total do argumento. É por isso que acho que não deveria ir para Charlie Kaufmann. Dos restantes nomeados, só vi Aviator, por isso...

Melhor Argumento Adaptado: outra categoria muito equilibrada. Sideways é um filme inteligente, e seria o prémio de consolação que a Academia gosta de entregar a estes pequenos filmes que mereçam atenção. Before Sunset é um filme que apela ao meu lado sentimental, mais pelo filme que o antecede (Before Sunrise), e ficaria contente se Linklatter, Hawke, e Delpy ganhassem, num filme que lhes é claramente muito pessoal. No entanto, aquele final estraga tudo. E o argumento de Paul Haggis para Million Dollar Baby merece tudo. Tudo.

Outras preferências: Gostava que Telma Schoonmaker ganhasse o Óscar para melhor montagem por Aviator. Esta senhora, presente em todos os filmes de Scorsese, merecia. E merecia, como Scorsese, que o próximo fosse melhor.

Nota em relação ao que disse o ano passado: ainda não é desta que Bill Murray ganha. Who cares?

Posted by Bruno at 09:56 PM

fevereiro 26, 2005

Brasil e Portugal

Do outro lado do Atlântico, chega-me, do leitor António Baptista, uma comparação entre o estado em que está Portugal, e o estado em que está o Brasil:

"Embora à distância, creio que posso endossar as suas decepções. Entretanto, creia-me, é menos preocupante e entristecedora a situação de Portugal do que a atual trajetória brasileira. Estamos na mão de um bando de alucinados que ainda não decidiram se são stalinistas ou gramscianos. Um pouco de cada, talvez. Para quem acreditou, como eu quando tinha a sua idade, que o Brasil despontaria como uma grande nação no século XXI, é triste assistir, mais uma vez, perder-se o bonde da história patinando num museu de ideologias fracassadas. Por mediocre que seja o senhor Sócrates, apesar do nome, não é um ignorante envolto em um projeto publicitário como o nosso supremo apedeuta. Nem deve ser tão farsante, também, nem ter como ídolos Fidel e Chavez. Além disso, creio que o sistema de auto-correção de rumos dos parlamentarismos é superior ao do nosso presidencialismo imperial. Isso quer dizer que mesmo que a nossa oposição, de fraquíssimo caráter por sinal, venha a evitar a catástrofe que seria uma reeleição de Lula em 2006, é difícil acreditar que um reposicionamento do país seja alcançado no curto prazo. Derrotar Lula seria, na minha opinião, muito fácil, se tivéssemos uma oposição com alguma qualidade."

Não nutrindo simpatias por Lula, não me contento em que o engenheiro pátrio seja melhor. E se quanto a simpatias do dito por Chavez, duvido que as tenha, aparentemente, Chavez nutre simpatias pelo engenheiro. Terá achado que a vitória de Sócrates representou uma derrota do neo-liberalismo. E todos sabemos como Chavez (e Sócrates) abomina o neo-liberalismo. E Chavez estar contente com uma vitória de Sócrates não é lá muito abonatório. Para nenhum dos dois...

Posted by Bruno at 09:53 PM

I'm Speechless, I Have No Speech

Oiço na TSF aquele senhor de Gaia que se candidatou à presidência do PSD dizer que consigo na liderança, o PSD estará aberto a acordos no parlamento. Inclusivé com o BE. Fico sem palavras. Não são precisas...

Posted by Bruno at 09:48 PM

A Ler

Sobre o atentado de ontem em Telavive, o que escreve, no Rua da Judiaria, o Nuno Guerreiro. O money-quote:

"Esta gente, os responsáveis pelo atentado de hoje, não são “militantes” nem sequer “extremistas”. Estes eufemismos apenas mascaram uma realidade bem mais fria e nojenta. A palavra correcta é terroristas – porque sobrevivem apenas num clima de terror. Porque a paz não lhes interessa. Porque se alimentam da violência e do medo. E da resposta à sua violência. Esta gente não precisa de pretextos. As últimas semanas de esperança provam isso mesmo."

Posted by Bruno at 09:44 PM

fevereiro 25, 2005

Sideways

paul_giamatti3.jpeg

Fui ver Sideways, de Alexander Payne. De Payne, apenas tinha visto o seu segundo filme, Election (filme simpático). O mais conhecido About Schmidt, é um daqueles filmes que por várias razões, nunca consegui ver, apesar da enorme curiosidade que tenho em relação a ele. O cinema de Payne é marcado pela mistura entre humor e drama que se vê, por exemplo, em Wes Anderson (que prefiro), ou, em certa medida, Sofia Coppola (que também prefiro). Sideways não é excepção. Vive (e vive bem) do humor criado pelo argumento, excelentemente desempenhado por Paul Giamatti e Thomas Haden Church, e da carga dramática que (principalmente) a aparentemente humorística personalidade atormentada da personagem de Giamatti proporciona. Uma excelente comédia, essencialmente, mas uma comédia que não se fica por aí, cheia de pequenos pormenores deliciosos (os carros que se separam, tomando caminhos opostos na estrada, por exemplo).

Miles (Giamatti) é um professor de liceu, divorciado, que aguarda a publicação do seu romance, já rejeitado por duas editoras, e à espera do veredicto da terceira. Na última semana antes do casamento do seu amigo Jack (Church), os dois partem para um viagem pela Califórnia, para provar vinhos e comer boa comida. Acabam por se envolver com Maya (Virginia Madsen) e Stephanie (Sandra Oh). No fundo, Sideways é um filme sobre deixar o passado para trás. Sobre Miles, que parte para uma viagem, procurando afastar-se das memórias do casamento falhado que o atormenta, e Jack, querendo aproveitar a última semana de "liberdade". E ao mesmo tempo que querem deixar o passado para trás, têm que lidar com o inevitável receio do que o futuro poderá trazer. E todos tomamos caminhos diferentes na estrada. essa é a parte difícil.

Posted by Bruno at 10:34 PM

Receios Confirmados 2

Há outro aspecto curioso (e nada reconfortante) da entrevista de Marques Mendes. Quando Marques Mendes diz que o PSD se deslocou muito para a direita, e se deve "recentrar", e se fica por aqui. O problema está em que dizer apenas isto, e centrar o discurso crítico em "deslocou-se para a direita", e as propostas em "ocupar o centro", equivale a esvaziar o discurso político. Ao concentrar o discurso apenas e só em "estar à direita", ou ao "centro", ou onde quer que seja, Mendes está a cometer o mesmo erro de Santana e sua entourage, ao falar de "nós" (a direita, toda no mesmo saco) e "eles" (a esquerda, toda no mesmo saco): usa categorias que só por si dizem pouco, e ignora as diferenças entre as várias posições que existem, por exemplo, dentro daquilo a que se chama direita. Esse discurso de Mendes é apenas um exemplo do mesmo marketing político vazio de política que o engenheiro Sócrates usa quando fala de "energia" e "confiança".

Veja-se um exemplo: Marques Mendes elogiou a política seguida por António Mexia (ou pelo menos, quando a entrevistadora mencionou os eleogios de outras pessoas ao dito senhor, Mendes não se demarcou). E considerou que a entrega da pasta das Finanças a Bagão Félix (do CDS), era mais um sinal dessa "viragem à direita". E agora pergunto: o que é mais à direita? A introdução de pagamentos nas portagens das SCUT? Ou o fim de benefícios fiscais à poupança para as reformas, para que, com o dinheiro que o Estado passa a ganhar dos poucos que poupavam, o Estado o redistribúa por quem não poupava? Eu, jovem que pertencerá àquilo a que se costuma chamar a direita, concordei com a proposta de António Mexia, e achei que a justificação apresentada por Félix ia contra tudo aquilo que defendo. Mais uma vez, o que é que é mais à direita? Ou será que estes termos, só por si (com destaque, para evitar equívocos, no "só por si"), não distinguem nada (o que, atenção, não é mesmo que dizer que já não há diferenças entre uma e outra. Eu sei que não sou de esquerda, e sei o que me separa da dita).

Ao falar, única e exclusivamente, de "viragem à direita" e de "recentramento", Mendes reduz o debate à adjectivação. Como faz o BE. Aquilo de que Marques Mendes devia falar, e assunto acerca do qual definir a sua posição, seria da relação Estado-cidadãos, o peso e as responsabilidades que devem caber a cada um. Eu poderia discordar ou concordar. Mas saberia o que pensar. Não se discorda ou concorda com um adjectivo. E pior que alguém com quem não se concorda, é alguém com quem não se pode concordar ou discordar.

Posted by Bruno at 10:08 PM

Receios Confirmados

Se tinha reservas em relação à candidatura de Marques Mendes, a sua entrevista à RTP ontem veio apenas justificá-las. Mendes fala para o partido como o eng. Sócrates para o país. Palavras bonitas mas que não implicam nenhum tipo de compromisso. Não falo de Marques Mendes não mencionar nomes para as autárquicas, porque tem razão ao não o fazer. O senhor de Gaia bem pode andar por aí a dizer que quer este e aquele para aqui e acolá, mas duvido que quer este quer aquele lhe tenham dito se querem ou não ir para aqui ou para acolá. Mas preocupante é quando Marques Mendes fala de uam nova estratégia, sem dizer que estratégia preconiza. Quando fala de um debate de ideias, sem dizer que ideias defenderá nesse debate. Tal como temia, Marques Mendes não está disposto a dizer grande coisa, porque não se quer comprometer com nada, para não afastar ninguém. Essa é precisamente a atitude de que o PSD se deve ver livre. Já bastou.

Posted by Bruno at 10:00 PM

Publicidade Institucional

Não podia deixar de mencionar (sem qualquer compensação monetária, infelizmente), o artigo em que colabora o senhor meu primo, na última edição da Science, com um pequeno resumo aqui.

P.S. intra-familiar: o filme do mestre Clint é ou não assombroso?

Posted by Bruno at 09:53 PM

fevereiro 24, 2005

Visto...

miller's crossing


...E em Leitura

down and dirty

Posted by Bruno at 04:42 PM

Tempo de Diplomacia

Condoleeza Rice, visita a "Europa". Bush visita a "Europa". E os plumitivos falam de um fim ao unilateralismo arrogante dos EUA. Arrogância dos plumitivos. Ao contrário do que eles pensam, não há qualquer alteração de postura dos EUA em relação à "Europa". E temo que também não a haja da parte da "Europa" em relação aos EUA. Veja-se a questão do Irão, em que os "europeus" parecem ver uma maior ameaça num eventual ataque americano ao dito país do que num Irão com capacidade nuclear. E quanto aos EUA, não é de agora a aposta na acção diplomática relativamente a esta questão. Ela vêm de há tanto tempo como a postura em relação ao Iraque. E ninguém dúvide que, se em determinada altura, a postura diplomática provar não surtir qualquer efeito, e os EUA virem no Irão uma ameaça efectiva, um ataque surgirá, da sua parte ou de Israel, por muito arrogante que, arrogantemente, os plumitivos "europeus" considerem que seja essa opção.

Posted by Bruno at 04:25 PM

Factor a Ter Em Conta

Ainda sobre a escolha da futura lideramça do PSD, há um factor a ter em conta. O facto de um candidato ser ou não deputado. É um requisito que é preenchido tanto por Marques Mendes como por aquele senhor de Gaia. O senhor de Gaia representa tudo o que de mau existe neste momento no PSD: o vazio político, o caciquismo, as ligações pessoais, o calculismo. Marques Mendes, pelas razões expostas em posts anteriores, provoca-me algumas reservas. E de entre a lista de deputados eleitos pelo PSD, não se avista nenhuma figura capaz de apresentar uma candidatura de ruptura com o estado do partido e do país. Este é aliás mais um sinal dos malefícios do período de liderança de Santana Lopes, a pobreza do seu grupo parlamentar.

Ser deputado não é, em Portugal, requisito obrigatório para ser líder de um partido, como é por exemplo em Inglaterra, onde até para ser Ministro um indivíduo precisa de ter sido eleito para o Parlamento (nos países civilizados é assim). E uma liderança de oposição eficaz não passa tanto por uma boa prestação parlamentar do líder em causa, mas pela sua prestação às vinte horas, nos telejornais. Com todos os malefícios que isso acarreta, o Parlamento não é propriamente muito apelativo aos telejornais, e portanto, poderá ser conseguida uma oposição eficaz sem que o seu líder seja deputado. No entanto, há uma figura que, de entre os nomes que preferiria ver na liderança, terá, qualquer que seja a opção relativamente a esta questão, terá um papel fundamental a desempenhar: Aguiar Branco. Porque desses nomes, é o único eleito para o Parlamento. Terá, em relação às minhas restantes preferências, essa vantagem. Mas caso um dos outros avance, o papel de Aguiar Branco no Parlamento será essencial para esse futuro líder, face à pobreza generalizada do grupo parlamentar.

Posted by Bruno at 04:00 PM

fevereiro 23, 2005

Mau Sinal 3

Mas vivemos em Portugal. E em Portugal, a desgraça vem de todas as direcções. E o nosso Governo to be não é excepção. veja-se o que disse o futuro Primeiro-Ministro relativamente a um futuro referendo sobre o aborto. Disse o engenheiro Sócrates que o PS tem um compromisso no sentido de realizar um referendo sobre a matéria, mas que existem condicionamentos de calendário que não poderão se ignorados. Até aqui tudo bem. O problema está quando o engenheiro Sócrates diz que esse referendo não se deve realizar no Verão, porque, segundo ele, não é uma altura em que as pessoas estejam motivadas para votar. Ora, se a questão é, como Sócrates diz ser, uma questão tão premente na sociedade portuguesa, as pessoas estarão sempre motivadas para votar sobre ela, independentemente da época do ano.

Aliás, a atenção que tem sido dada, por parte dos partidos da esquerda, a este tema, o facto de o terem transformado no tema prioritário de todas as declarações, nestes primeiros dias pós-acto eleitoral, são já uma amostra do que aí vem: veja-se que o referendo sobre a "Constituição Europeia", que, qualquer que seja a opinião que se tenha em relação à "Constituição", é bem mais grave e decisivo do que um referendo sobre o aborto, não motiva nenhum interesse por parte de nenhum dos partidos, e do PS em particular. Dá para perceber que os próximos anos serão repletos de folclore, remetendo as questões mais complicadas e decisivas, para a obscuridade ou para o esquecimento. E nem foi preciso o PS tomar posse para perceber...

Posted by Bruno at 10:28 PM

Mau Sinal 2

Ainda sobre Marques Mendes, e as razões pelas quais, neste momento, tenho reserrvas em relação à sua candidatura: compara-se o seu discurso no Congresso (a razão pela qual tanto eu como o meu amigo João depositámos nele alguma confiança) com os objectivos de que falou no anúnico da sua candidatura. No congresso, falou das necessidades do país, das dificuldades das reformas que eram precisas. Foi um discurso claramente dirigido às pessoas que, em casa, estavam a assistir, e não aos membors do partido apenas interessados em manter o emprego. Gente como o senhor de Gaia que em tempos chorou num Congresso por dizer umas parvoíces. Já o seu anúncio de candidatura é preenchido por por vacuidades como ter uma "agenda política própria", e a já referida prioridade da vitória nas autárquicas. Já não é a necessidade de fazer reformas, mas o objectivo de "ganhar eleições". Não estou a dizer que Marques Mendes é o "inimigo". Só estou a dizer que o que tem sido dito, agora, por ele, me deixa com muitas reservas. Claro que, quando chegar a altura do Congresso, aí sim, se verá o que Mendes tem para dizer. Mas que continuo a preferir outros nomes, isso continuo. E pela forma como o João termina o texto dele, parece-me que ele também...

Posted by Bruno at 10:12 PM

Mau Sinal

Caro João, explico melhor o que quis dizer: numa altura em que é preciso, no PSD, uma liderança disposta a ter uma atitude de ruptura, alguém que diz, como disse hoje Marques Mendes, que a primeira prioridade é ganhar as autárquicas, e que reúne apoios de gente como Isabel Damasceno e outros caciques que saltam de navio em navio antes de este afundar, não parece ser aquilo que é preciso. Como escrevi ontem, a atitude de Marques Mendes em Novembro demostrou um calculismo que, a ser repetido, vai precisamente contra as necessidades. Marques Mendes poderá ser muito "combativo", e tem, em relação a Ferreira Leite, a vantagem de ser deputado (agora quanto à senhora em causa não ser combativa, esqueces-te da pancada que distribuía em Guterres nos últimos dois anos da governação do engenheiro). Mas a combatividade não serve de nada, se não for para defender as coisas certas (já nos bastou o menino guerreiro). Pelo que vi em Novembro, e pelo que estou a ver, dificilmente a combatividade de Marques Mendes será positiva. Dou só um exemplo: Marques Mendes quer renovar o partido. E quer ganhar as autárquicas. Neste momento, as duas coisas parecem ser incompatíveis. Porque renovar o partido significa arrumar as pessoas que têm os seus interesses particulares nas autárquicas que se avizinham, e que, alguns deles, começam já a apoiar Mendes. Não é bom sinal. Quanto ao senhor de Gaia que em tempos chorou num Congresso porque disse umas parvoíces, duvido que esteja na corrida. Nem os caciques irão apostar nele. É por isso que espero que algo dos outros nomes que tanto eu como tu gostaríamos de ver ainda avancem. Porque os sinais dados por Marques Mendes não são muito reconfortantes.

Posted by Bruno at 09:51 PM

fevereiro 22, 2005

A Oportunidade

Não deixa de ser curioso seguir o que se vai escrevendo nos blogues sobre as preferências de cada um para a liderança do PSD. No Blasfémias, o LR fala de Aguiar Branco ou Rui Rio. O segundo é, como se sabe, muito "cá de casa", e o primeiro, por ser muito lá de casa do primeiro, também é visto com bons olhos. Já os meus amigos João e Paulo, falam de Manuela Ferreira Leite, António Borges, e Rui Rio. E principalmente, da pouca vontade que cada um deles terá de avançar. É esse o meu maior receio. Que todos estes nomes (os que prefiro), sejam os nomes de gente que, pura e simplesmente, não está disposta a se candidatar, e que parecem estar, entre si, à espera que um outro se candidate (veja-se as declarações de António Borges a mostrar-se favorável à hipótese Ferreira Leite).

De facto, aquela que é a maior vantagem destas pessoas poderá ser o factor decisivo que as afasta de uma mera candidatura: o de terem uma vida profissional fora da política, o não precisarem de aturar as politiquices que se avizinham. É que não basta ultrapassar a certamente dura campanha interna que se avizinha, nem, caso se queira depois mudar alguma coisa, ir contra as estruturas locais em tempo de autárquicas. O futuro líder terá de passar quatro anos na oposição. Com todos os problemas que isso acarreta. E é compreensível que pessoas que não precisam de aturar estas coisas não estejam dispostas a aturar estas coisas.

Mas, no entanto, é aqui que reside a melhor oportunidade destas pessoas subirem ao poder no PSD, e a partir daí, tentarem mudar alguma coisa neste país. Passo a explicar. Como já aqui escrevi, a direcção Santana Lopes não é um epifenómeno. É a consequência natural da situação do aparelho partidário do PSD. E com um aparelho que precisa do Estado, e dos jobs para os seus boys que o dito fornece, gente que vê o PSD como um partido liberal, ou pelo menos "liberalizante", como os acima referidos, dificilmente será escolhida.

Mas, de facto, a altura que o partido vive, a nível eleitoral, não é muito convidativa aos "sanguessugas de emprego" do aparelho. E sempre que um partido sai do poder, o primeiro líder "pós-derrota" é visto como um líder para queimar, para depois se substituir na altura certa. Certamente que o líder que sair desta fase da vida interna do PSD será visto por grande parte das pessoas dessa forma. Ou seja, talvez a oposição a nomes como os que referi seja bem menor do que seria eventualmente no futuro. E aí, tomado o partido, talvez uma atitude diferente, mais corajosa, de clara ruptura com o estado em que o país se encontra, talvez uma atitude nesse sentido conseguisse uma ligação com a opinião pública, que permitiria que se fizessem algumas reformas. A prova de que isto pode acontecer está na campanha de Rui Rio para a Câmara de Porto, uma candidatura claramente de ruptura, a que se seguiu um exercício do cargo também em ruptura, sem o receio de derrota em eleições. É isso que o PSD precisa, porque é isso que o país precisa, e que não terá sem o PSD.

Para que isso aconteça, para que surja no PSD uma liderança com um programa liberalizante para o país, será preciso que algumas destas pessoas estejam dispostas a sacríficios pessoais (e no caso de Rui Rio, ao abandono de um projecto político sério no Porto, e que exigiu ele próprio muito sacríficio) aos quais, muito legitimamente, talvez não estejam dispostos. Mas muito dificilmente terão uma oportunidade melhor (ou menos má), que esta. Que talvez seja mesmo a última.

Posted by Bruno at 10:35 PM

Marques Mendes

Parece estar confirmado que Marques Mendes se candidatará à liderança do PSD. Repito o que disse: Marques Mendes teve, no Congresso, uma atitude correcta, e um discurso que ia num sentido claramente positivo. E não deixa de ser sintomático do estado em que as coisas estão, que pessoas que disseram cobras e lagartos do senhor quando este se escondeu aquando da dissolução da Assembleia (disseram cobras e lagartos precisamente porque haviam visto o discurso no Congresso com bons olhos), estejam agora, embora com prudência, dispostos a "apoiar" a sua candidatura, como por exemplo, o meu amigo João (e até mesmo, se só surgir a hipótese Menezes, eu próprio). "Pelo menos, pela atitude que tomou dia 20" , escreve. Discordo do João, ou melhor, discordo da enfâse que ele coloca na "atitude do dia 20". Porque acho que esta não pode apagar a atitude de Novembro. Porque esta não deixa de ser um sinal que deve provocar, no mínimo, algumas reservas.

Vejamos bem: o que teria sido realmente corajoso da parte de Marques Mendes teria sido uma atitude claramente contra Santana logo nessa altura, ter tomado uma posição contra a sua continuidade. O facto de o fazer agora deixa entender que se tratou de uma jogada, que visava adiar o assalto à liderança para uma altura (agora) em que este implicaria menos riscos, devido aos maus resultados que se adivinhavam para as legislativas (e que se vieram a confirmar).

Ora, nos próximos tempos, surgirão ao PSD dois elementos que poderão não ser conciliáveis: as autárquicas, e a necessidade se "limpar". O corte com as estruturas que conduziram o partido ao estado em que está, poderá implicar um resultado fraco nas autárquicas, mas seria, a longo prazo, bem mais vantajoso para o PSD, ou pelo menos para o PSD que quer reformar o país. O que a atitude calculista de Marques Mendes aquando da dissolução, contrastando com a que tomou no Congresso, poderá indicar, será que, mais uma vez, Marques Mendes opte pelo caminho mais fácil a curto prazo, procurando contentar as estruturais locais. Talvez pudesse permitir bons resultados nas autárquicas, mas o PSD que o país precisa não é um que têm apenas em mente ganhar eleições. A atitude de Marques Mendes que me desiludiu a mim, e desiludiu o João, vai bem mais longe que essa tal desilusão, é um mau sinal para os tempos que se avizinham.

Posted by Bruno at 09:51 PM

Santana

Santana Lopes anunciou há pouco que não se recanditaria à liderança do PSD. Convém que ninguém se iluda. Isto não significa que no PSD reinarão tempos mais calmos. Dificilmente alguém que sempre gostou da politiquice se afastará agora da politiquice. Isso é aliás bem perceptível quando o próprio diz que já não tem idade para se desligar da política e ir fazer outra coisa (cito de cor). Ficará talvez na mente do menino guerreiro uma candidatura à Presidência. E para isso será preciso uma liderança do PSD que o apoie. E isso joga-se agora. A luta será portanto tão fratricida como se o próprio santana se candidatasse.

Posted by Bruno at 09:44 PM

fevereiro 21, 2005

A Competência Para o Erro

Desde que se soube que o PS havia ganho as eleições com uma maioria absoluta, que vários comentadores, que ao mesmo tempo diziam não saber muito bem o que Sócrates tencionava fazer, pois ele nunca o havia dito claramente, consideraram essa maioria absoluta como um facto positivo, porque, segundo eles, isso permitiria ao PS chamar os melhores, os mais competentes. Hoje, vários comentadores juntam a este argumento o "pedido" (à falta de melhor palavra) a Sócrates para que ele aproveite essa maioria para fazer reformas que implicarão alguns aacríficios. Mais uma vez se nota como a concentração da avaliação política na suposta competência conduz à subvalorização das ideias e das propostas como factor de análise. Ao dizerem o que disseram, estes vários comentadores estão, como dizia ontem Lobo Xavier, a pedir ao PS que faça reformas que vão contra aquele que é o seu percurso histórico no sistema político português. Mais: estão apedir que vá contra o pouco que já disse que ia fazer (o discurso de ontem de Sócrates, e a promessa de não sei quantos estágios para os jovens licenciados, mostram já como cantam os amanhãs). Uma coisa que os comentadores (e o PS) não deviam esquecer: que o contrário do que o país precisa, por muito competentemente que seja executado, é sempre o contrário do que o país precisa...

Posted by Bruno at 05:48 PM

Opções Inadiáveis

Sobre o futuro do PSD, é preciso não ignorar dois pormenores, relativos ao que trouxe o partido até aqui. O primeiro é aquele a que tanto o João Miranda como André Amaral fazem referência, o facto de a derrocada eleitoral do PSD começa e deve-se em grande parte às políticas de contenção de Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite. o segundo é aquele a que já aqui por várias vezes me referi, e ao qual o meu caro colega e amigo Paulo fez ontem referência: não foi esta direcção que conduziu o partido ao estado em que está, mas sim o está em que está o partido que permitiu que este fosse conduzido por ela.

Que conclusões podemos tirar destes factos? A primeira, como dizem o João e o André, é que teria sido melhor que Durão tivesse sido mais arrojado nas reformas que conduziu. Foi uma oportunidade perdida. Se e quando surgir uma melhor solução no PSD, e esta consiga chegar ao poder no país, será necessário perder totalmente o medo de perder eleições. Mais: talvez seja mesmo necessário governar para as perder. E a segunda é que, para que se possa chegar a essa tal solução, será necessário ir contra muita gente que hoje domina o PSD.

Ou seja, a grande conclusão é que será necessário uma grande paciência e sacríficio de algumas pessoas, que, provavelmente, e legitimamente, não estarão dispostas a isso. Mas a quererem aparecer é esta a altura.

Posted by Bruno at 05:29 PM

Revelador

Há um momento do discurso de ontem de Santana Lopes que tem passado relativamente despercebido, mas que diz tudo acerca da personagem. Falo do momento em que Santana Lopes elogia o discurso de Paulo Portas, falando de como este "honra" meio mundo. Não me interessa discutir se "honra" ou não. Interessa-me é que Santana acha que sim. E faz questão de o dizer. E di-lo, ao mesmo tempo que faz precisamente o contrário daquilo que considera ser "honrado". Poderá isto querer dizer que para Santana a honra conta pouco. Suspeito que sim, mas não vou entrar por aí. Mostra, acima de tudo, a total incoerência que caracteriza os discursos de Santana, que misturam elementos delineados, cada um deles, para uma particular reacção no auditório (reacção essa que é mais emocional que racional), mas que são, entre si contraditórios.

Posted by Bruno at 05:19 PM

O Adeus do Dr. Portas

Como é sabido, não nutro simpatias por Paulo Portas. Mas ontem, quando este anunciou a sua demissão (veremos, veremos) da liderança do seu partido, entrei em crise. Desde que sei que há uma coisa chamada política, que o nome Paulo Portas está de uma forma ou de outra associado à dita no nosso país. Colocar-se sequer a hipótese de ele a abandonar faz-me sentir velho...

Posted by Bruno at 05:14 PM

fevereiro 20, 2005

After Hours

Depois das declarações de todos os líderes dos principais partidos, e de já estarem relativamente definidos os resultados finais, pode-se fazer um comentário, em jeito de conclusão.

PS- a maioria ablosuta constitui uma vitória inegável do Partido Socialista. E o facto de a ter conquistado quando simultaneamente ocorre uma subida tanto da CDU como do BE, é um exemplo da conquista avassaladora de eleitorado ao PSD. Mas basta ouvir José Magalhães falar na SIC, centrando-se em ataques a Santana Lopes, para perceber como a vitória do PS não é mais do que o fruto da total repulsa que o menino guerreiro veio a provocar no eleitorado. O que também nos diz muito acerca da reduzida margem de manobra que o PS terá, mesmo com maioria absoluta, nos próximos quatro anos.

PSD- já está tudo dito. O resultado é fraquíssimo, e fragiliza o grupo parlamentar do partido. E convém não esquecer que alguns dos poucos deputados eleitos pela lista do PSD não são do partido, mas sim ofertas de Santana a dois partidos que não existem. Uma boa oposição será complicada de construir assim. E avizinha-se um Congresso onde Santana concorrerrá sabe-se lá contra quem. As minhas preferências são conhecidas: Rui Rio. Acho que se há partido que poderá fazer algumas das reformas que são necessárias, só poderá ser o PSD. O problema é que até isso se vai tornando cada vez mais díficil.

CDU- convém lembrar o que foi dito aquando da escolha de Jerónimo de Sousa, principalmente pela esquerda não-comunista (e comunista envergonhada): que era o suicídio do PCP, a tomada de poder pelos ortodoxos, etc. Na altura escrevi que, para o PCP, dentro da lógica do PCP, Jerónimo era a melhor escolha. A subida da CDU nas eleições vem-me dar razão. Preferia que tivesse estado errado.

CDS/PP- mais uma vez, não esperava um resultado tão fraco por parte do CDS/PP, e muito menos a demissão de Portas. Esta demissão poderia abrir uma certa renovação daquele partido, tornando-o naquilo que nunca foi, um partido liberal, que apelaria a eleitores não represenatdos no panorama actual. Dificilmente será o caso.

BE- outra surpresa para mim. Não esperava uma eleição de um número tão elevado de deputados pelo Bloco. Convém no entanto ter um pouco de calma. A subida do Bloco de Esquerda, e da esquerda em geral, dá-se num momento que de normal tem muito pouco. Duvido que se mantenha em futuras eleições, caso o governo que o PS irá formar cumpra a legislatura. E para além disso, a subida de deputados do BE é praticamente irrelevante em termos reais, visto que a maioria absoluta do PS relegará os deputados coloridos para a sua função habitual: indignações e pacífica impunidade.

Por hoje é tudo. Amanhã, ou melhor, mais daqui a bocado, cá estarei para continuar o comentário sobre a desgraça deste país...

Posted by Bruno at 11:47 PM

Down and Dirty

Já Santana não surpreende. Queixa-se dos críticos internos. Convoca Congresso. Para se candidatar. A partir de agora, o PSD está em guerra. Já o disse: o futuro do país depende de quem sobreviver. Sangue não vai faltar...

Posted by Bruno at 11:35 PM

Raging Bull

itwasyou

"It was you, Charlie. You was my brother. You should've looked out for me a little bit.(...) It was you, Charlie."

Estava cego, e continua sem ver...

Posted by Bruno at 11:30 PM

Blood On The Tracks

Santana vai começar a falar. Vamos ter sangue...

Posted by Bruno at 11:26 PM

Tomorrow Never Dies

Ou em alternativa, teremos Portas no Independente, onde poderá atacar Sócrates como, hoje em dia, não se pode criticar fora da comunicação social.

Posted by Bruno at 11:24 PM

Tomorrow Never Knows

Fique surpreendido com a demissão de Portas. Atenção a um pormenor: Disse estar disponível para o que a futura direcção quisesse. Teremos candidato à Presidência?

Posted by Bruno at 11:20 PM

The Man Who Wasn't There (actualizado)

O dr. Marques Mendes já começou o ataque a Santana. É o Portillo do dia. Tarde de mais. Marques Mendes tomou no Congresso do partido a atitude correcta. Foi lá, e disse o que era preciso dizer. Quando Sampaio dissolveu a Assembleia, escondeu-se, à espera que a terra se queimasse, para que depois a pudesse tomar sem resistência. não esteve lá quando era preciso. Deixou que o partido caminhasse na direcção que resultou no que hoje se passou. Não só deixou que a terra se queimasse, como ajudou a que o país fosse entregue à reciclagem do governo que mais mal fez a Portugal. Não esteve quando era preciso. Preferia que agora estivesse lá outro...

*Claro que entre Santana e Marques Mendes, prefiro o último. O seu discurso no Congresso foi um discurso que, nas suas linhas gerais, ia num bom sentido. Mas, mais uma vez, preferiria outros nomes.

Posted by Bruno at 09:53 PM

Blue Velvet

O CDS/PP teve um mau resultado. Aguardo com alguma curiosidade a primeira intervenção de Portas. Não seria a primeira vez que conseguiria transformar um mau resultado em algo de positivo. Embora desta vez me pareça mais complicado...

Posted by Bruno at 09:29 PM

Killer's Kiss

As previsões para os resultados do PSD são desastrosas para o menino guerreiro. O menino sonha, mas o sonho já um pesadelo. Politicamente, está morto. Duvido é que se aperceba disso. Vai começar a lavagem de roupa suja no PSD. Esperemos que dos destroços se possa erguer qualquer coisa decente.

Posted by Bruno at 08:09 PM

Eng. Sócrates (Or How I Learned to Stop Worrying and Love the Socialist Government)

Estamos mais perto do dia em que o PS vai ser substuído no poder...

Posted by Bruno at 08:00 PM

Apocalypse Now

Marcelo já fala. Já se sente o cheiro a napalm no ar. E não é o cheiro da vitória.

Posted by Bruno at 07:33 PM

Bringing Out the Dead

Em princípio, a partir de amanhã, surgirão todas aquelas figuras, que nos atormentaram há anos atrás. as figuras de um passado que pensámos ter deixado para trás. Gente que nunca mais queríamos ver. que preferíamos esquecer. Mas de que não nos vemos livres. Como todos os pesadelos, elas ficam. E não há Deus, mesmo que exista, que nos possa salvar.

Posted by Bruno at 04:50 PM

One Flew Over the Cuckoo's Nest

Quanto ao day after no PSD: qualquer que seja o resultado, a guerra começa logo à noite. Se Santana perder, começará a culpar os críticos internos. Estes, especialmente Marcelo na RTP, começarão o ataque. Durante os próximos dias, semanas e meses, serão estas figuras que se irão degladiar, da mesma forma demagógica com que sempre nos presentearam. E talvez, no meio da loucura, alguém esteja disposto a aturar os caciques, os tachistas (enganei-me e escrevi taxistas), os jotinhas, e toda aquela gente que transformou um partido de gente que queria subir na vida num partido de gente que quer subir no Estado. E acima de tudo, que esteja disposto a chateá-los, e a acabar com o domínio que essa gente hoje tem no PSD. Tanto como o futuro governo socialista, quem quer um Portugal menos dependente do Estado, deve prestar atenção ao que se vai passar no PSD. Não há razões para optimismos. Se há tema a que o título deste cantinho se aplica, é a este...

Posted by Bruno at 04:34 PM

A Clockwork Orange

Nos últimos tempos, muito se falou do nível mínimo de votação que permitiria a Santana Lopes sobreviver na liderança do PSD. lembro-me até de uma animada discussão no Expresso da Meia-Noite da SIC Notícias, em que Ricardo Costa dizia 35% e Inês serra Lopes 33%. O menino guerreiro, himself, diz que são 30%, quando não diz que é derrota. E até Pacheco Pereira entra no jogo, quando diz que a fasquia está no resultado de durão nas últimas legislativas.

Pessoalmente, quero que Santana saia da liderança do PSD. Porque acho que o único partido, no sistema político português, que pode reazlizar reformas no sentido daquilo que defendo, é o PSD, e acho que com a liderança do menino guerreiro, isso se torna impraticável (embora o problema, no PSD, não seja um simples epifenómeno, uma coisa pssageira. Já aqui escrevi, que se trata de um problema estrutural do partido). Isto independentemente dos resultados que o dito menino guerreiro venha a conseguir esta noite. Entra nessa lógica de avaliar as direcções pelos resultados eleitorais que conquistam, e não pelas propostas que apresentam, é precisamente o que provoca a crescenete tendência para surgirem em partidos como o PSD gente como Santana Lopes. E custa-me ver alguém como Pacheco Pereira, que vê a política como um confronto de ideias, a sujeitar-se a participar neste tipo de avaliações...

Posted by Bruno at 04:20 PM

A Whiter Shade of Pale

Assim foi o meu voto. Com propostas tão descoloridas, quanto mais branco melhor...

Posted by Bruno at 04:13 PM

Já Dei no Escritório

Na sua coluna no DN (como sempre, o site do jornal de referência não está acessível), Pedro Lomba fala do day after no PSD. E lamenta-se por nos discursos sobre os (provavavelmente maus) resultados não ir aparecer nenhum Michael Portillo. Engano. Gente preocupada em transmitir uma mensagem mais moderna, sem se preocupar muito com que mensagem é essa, abunda por aqueles lados. Portillos não faltam. Vêm logo dois à cabeça: um é precisamente o que lá está, e o outro estará esta noite na RTP, à espera de ir para lá no dia seguinte.

Posted by Bruno at 04:10 PM

fevereiro 19, 2005

Dia de Reflexão

Uma pergunta, e não é se os autores do dito Dia possuem cérebro ou não, visto que qualquer um sabe responder (não têm): o que escreve hoje Vasco Pulido Valente viola a lei? Se sim, decerto que o senhor não se importará muito com isso...

Posted by Bruno at 10:34 PM

Um Sinal

Em Espanha também haverá acto eleitoral amanhã. O referendo à "Constituição Europeia". Na RTP, Cesário Borga diz que a campanha foi um fracasso, porque não conseguiu destaques de primeira página nos jornais, aberturas de notíciários na televisão, etc. Ao contrário do que pensa Cesário Borga, a campanha foi um sucesso. Precisamente por não ter despertado a atenção de ninguém. Se tivesse, e as pessoas fossem realmente informadas do que realmente implica a dita "Constituição", talvez elas se assustassem um bocadinho, o que por sua iria assustar quem a quer ver aprovada. Se e quando se realizar um referendo sobre a mesma matéria neste país, não será muito diferente.

Posted by Bruno at 10:09 PM

Mão Invisível

Pode ser invisível, mas não é ilegível...

Posted by Bruno at 09:57 PM

fevereiro 18, 2005

Million Dollar Baby

clint_eastwood13.jpeg

"Allways protect yourself". Assim ensina Frankie Dunn (Clint Eastwood) a Maggie Fitzgerald (Hillary Swank). Frankie é um treinador de boxe que, por razões que nunca nos são reveladas, está desligado da sua filha, e que perde o seu principal lutador, que logo após o deixar, se sagrará campeão. Maggie é uma jovem pobre, que, não lhe restando mais nada, se entrega ao boxe, pedindo a Frankie para a treinar. Ele "não treina raparigas". Mas a insistência dela, e a ajuda providencial de Scrap (Morgan Freeman), um ex-lutador, cego de um olho, que limpa o chão e vive no ginásio de Frankie (se há redenção, em Million Dollar Baby, é em Scrap que ela se manifesta) farão com que Frankie aceite relutantemente prepará-la, até ela arranjar um empresário que esteja disposto a gerir a sua carreira, disposição que se irá alterar à medida que Frankie vê nela a filha que já não têm, como ela vê nele o pai já desaparecido.

Million Dollar Baby é, pura e simplesmente, uma obra-prima. Genial a forma como diálogos do filme são recuperados em fases posteriores do dito, só então revelando o seu significado (a história de Axel, o cão coxo de Maggie, por exemplo), mérito do argumentista Paul Haggis. Eastwood é, como realizador, um herdeiro da tradição do cinema clássico americano. Mystic River, por exemplo, devia ser filmado a preto-e-branco. A maneira como Eastwood coloca as personagens debaixo da luz, escondendo-lhes o rosto, é, do ponto de vista visual, assombroso, conseguindo transmitir, com isso, uma carga emocional de uma força absolutamente impressionante. E como actor, Eastwood tem aqui o papel da sua vida. Muito bem acompanhado, aliás, tanto por Hillary Swank, numa comovente interpretação, como por Morgan Freeman, cuja narração acrescenta uma força e emoção ao filme que muito faz pelo efeito que o dito consegue obter no espectador.

Depois de em Mystic River ter transformado um policial num drama moral, numa tragédia moral, o conflito de um homem perante a perda da sua filha, em Million Dollar Baby Clin Eastwood faz o que Martin Scorsese fez com Raging Bull: transforma o boxe numa metáfora para a vida. A derrota e a dor fazem parte do jogo. No boxe, como na vida, temos de nos proteger. Sempre. A ligação entre Frankie e Maggie, como treinador/lutadora, só é encarada seriamente por Frankie quando se estabelece entre eles uma ligação emocional, quando Frankie percebe que não lhe é indiferente o destino de Maggie (numa cena genial, em que, depois de a despachar para outro empresário, que a imediatamente a colocou a combater, Frankie se dirigir para o ringue para lhe dizer o que fazer, preocupado com ela). Ligação emocional que se cimenta, levando Frankie a dizer que nunca a deixará, tal como Maggie diz o mesmo em relação a ele. A Maggie não resta mais nada a não ser o boxe. Tal como a Frankie. Ambos perderam tudo. Resta-lhes o boxe, e a ligação que este lhes traz entre eles. Apenas se restam um ao outro. Mais do que Maggie perder um combate, o que assusta é Frankie é perdê-la a ela.

No boxe, cada ataque traz o risco de sermos esmurrados de seguida. Ao atacarmos, corremos o risco de nos desprotegermos. Tal como na vida. E toda gente pode perder. No boxe, como na vida. Não apenas um combate, mas alguém que nos "é querido". Que é "sangue do nosso sangue". Há dores que estão "demasiado perto dos ossos". Mas às vezes, temos de "avançar para o murro". Faz parte. Do boxe e da vida. O murro pode sempre surgir no momento seguinte. E disso, não nos podemos proteger.

Posted by Bruno at 06:18 PM

fevereiro 17, 2005

Crescer ou Não Crescer

Continuando com Santana Lopes. No Diário Económico de ontem, vem uma reportagem de um encontro realizado pelo jornal, que contou com a participação tanto de José Sócrates como de Santana Lopes. Santana, segundo a notícia, terá afirmado que a Constituição impedia à partida que um governo encarasse "como viável um caminho de redução significativa da Administração Pública". Por isso, diz Santana, "é insofismável a necessidade de crescimento económico e aumento da produtividade". Isto porque, diz Santana, "aí não há nenhuma Constituição nem nenhum Pacto de Estabilidade que impeça Portugal de seguir um caminho muito diferente daquele que tem trilhado nos últimos anos". Ou seja, o dr. Santana pensa que, por não podermos reformar a Administração Pública, não nos resta outra solução que não "crescer". Parece não ocorrer ao dr. Santana que por não se poder reformar a Administração Pública, vai continuar a ser necessário continuar a alimentá-la. Com o quê? Com impostos. Com riqueza que não é utilizada no investimento. Em investimento que, não existindo, não permite que haja crescimento. Pelos vistos, não é só Portugal que não cresce. O "menino", por muito guerreiro que possa ser, parece que também não...

Posted by Bruno at 10:05 PM

O Espelho É Cruel

Ouvi há pouco uma curta entrevista de Pedro Santana Lopes à SIC, onde este comentou os resultados eleitorais previstos por uma sondagem da Universidade Católica, que dá maus resultados ao PSD. O jornalista pergunta se Santana ainda acredita na vitória. Santana diz que sim. Que há ainda muitos indecisos. E que acha que a maioria desses indecisos são pessoas que votaram PSD em 2002. Dito por Santana. Se não votam, ou têm dúvidas em votar, em repetir o seu voto, por alguma razão será. E Santana, que parece perceber que há pessoas nessa situação, saberá certamente a razão...

Posted by Bruno at 09:57 PM

fevereiro 16, 2005

Closer

closer2

Fui ver Closer, o elogiadíssimo filme de Mike Nichols. Fui de pé atrás. A crítica mais que favorável não me tinha convencido, e o pouca da promoção do filme que já tinha visto muito menos. Fui ver, para ver os actores secundários, nomeados para os Óscares. Ao contrário das minhas receosas expectativas, gostei. Alice (Natalie Portman) e Dan (Jude Law), conhecem-se nas ruas de Londres, quando Alice é atropelada. Dan é um escritor frustrado ("sem voz", como ele diz), e Alice é uma ex-stripper americana. Quando os vêmos de novo, Dan tem já um livro publicado (sobre Alice), e ela trabalha como empregada de mesa. Para a edição do seu livro, Dan é fotografado por Anna (Julia Roberts), por quem se apaixona. Alice, por sua vez, prepara uma exposição de retratos, entre os quais um de Alice. Na exposição, Alice conhecerá Larry (Clive Owen), entretanto envolvido com Anna. E a partir daí, Closer seguirá a relação destas quatro personagens umas com as outras, à medida que a perda, a mentira, a culpa e a desilusão as cercará.

O filme é brilhantemente escrito, por Patrick Marber (baseado numa peça sua). Os diálogos alternam entre o humor e desilusão, entre o tease e a amargura. Nichols tem, por sua vez, um trabalho exemplar, conseguindo captar a emoção do filme, e a interpretação dos actores. Jude Law, actor actualmente na moda (desde filmes comercialóides ao independente, e por mim ansiosamente aguardado, I Heart Huckabees), mostra que tem talento. Julia Roberts está mais velha. E bem melhor no papel contido e atormentado de Anna. Mas têm sido os secundários os mais elogiados. Clive Owen tem uma boa interpretação, sem no entanto deslumbrar, como a crítica tem escrito.

Resta Natalie Portman. A Natalie. O que posso dizer acerca da Natalie? A primeira vez que a vi foi no delicioso Everyone Says I Love You, de Woody Allen, onde, como adolescentezinha apaixonada, berrava a letra de "I'm Through With Love", e passeava pelas ruas de Nova Iorque. O papel pequeno não permitia descortinar grande talento artístico. Dava, no entanto, para ver outras qualidades. A Natalie era, de facto, novinha. Muito novinha. Não fazia mal. Eu também era. Vieram depois os dois Star Wars. A fraca qualidade do produto não permitia grandes veleidades interpretativas, mas, no que diz respeito à Natalie permitia ver as qualidades do produto. A Natalie estava mais crescidinha. E eu também. E chega agora Closer. A Natalie está, manifestamente, crescida (eu não). E o papel dá para o que os anteriores não deram: para ver que, para além de digna representante do género feminino, a Natalie sabe representar. De facto, se há alguém que merece ser elogiado pelo trabalho em Closer, é Natalie Portman. Portman consegue interpretar a aparentemente "aberta" e "desarmante" Alice, mostrando-nos a amargura que está escondida. Deixando-nos saber que, no fundo, não sabemos quem ela é.

Na exposição de Anna, Alice diz a Larry que, por muito bela que seja a forma como a cãmara tirou aquelas fotografias, aqueles rostos continuam a ser os rostos de estranhos, de gente que continua só. E quando a câmara nos mostra Alice, Dan, Larry e Anna, o que vêmos nós? No fundo, os estranhos que se conheceram continuam sempre estranhos uns dos outros. Sempre sós. Como os rostos nos retratos.
closer3


Posted by Bruno at 05:53 PM

fevereiro 15, 2005

O Esvaziamento Político

Se perguntarmos a um qualquer cidadão português se ele quer pagar mais ou menos impostos, certamente que ele responderá que quer pagar menos. Se lhe perguntarmos se ele prefere um sistema de saúde público ou um sistema de saúde essencialmente privado, ele certamente responderá que prefere um sistema de saúde público. No fundo, quer o melhor de dois mundos. Quer um mundo onde mantenha o mais possível da riqueza que ganha pelo seu trabalho, e ao mesmo tempo receba do Estado a maior protecção possível. Ignora é que o Estado não é uma entidade etérea, que para o Estado dar protecção, ou dar o que quer que seja, precisa de parte da riqueza que cada um dos cidadãos ganha pelo seu trabalho.

O que escapa ao comum cidadão português é a noção de que qualquer opção política tem custos. O Estado-Providência, do qual o comum cidadão português não quer prescindir, tem custos. Cada vez maiores. Precisa do dinheiro dos contribuintes. A tendência demográfica que se observa em Portugal apenas agravará esses custos. Teremos cada vez mais pessoas, e durante mais tempo, a beneficiar dessa protecção. E teremos cada vez menos pessoas para o alimentar. O que significa que teremos de sobrecarregar essas pessoas com os encargos financeiros desse Estado-Providência.

O que se pode fazer? Uma opção seria a privatização dos serviços que o Estado hoje presta, garantindo que aqueles que não podem, por si só, aceder a esses serviços, tivessem, por parte do Estado, condições para o fazer. Essa opção faria com que se reduzisse a carga fiscal, tanto sobre as empresas como sobre as pessoas. Mas tal como a manutenção do Estado-Providência, tal opção comportaria custos. Os indivíduos teriam uma maior responsabilidade sobre os gastos em serviços como saúde ou educação, teriam responsabilidade sobre o dinheiro que ganham e a forma como o aplicariam. E estariam, de facto, mais desprotegidos. Tomar as suas próprias decisões e arcar com as responsabilidades sobre as mesmas acarreta alguma dose de incerteza. Ainda para mais, o levar a cabo das reformas que essa opção implica, significaria a curto prazo, uma série de sacríficios a uma série de pessoas, podendo mesmo, nesse mesmo curto prazo, implicar uma subida de despesas do Estado.

Estas escolhas inevitáveis, e os inevitáveis custos que implicam, estão ausentes da campanha eleitoral. Tanto o PSD como o PS não tratam destas questões que, a longo prazo, influirão como nenhuma outra na vida das pessoas. Ambos os partidos não põe em causa o Estado-Providência, embora haja, da parte do PSD, uma louvável tendência liberalizante, de maior parceria com os privados, mas que não implica uma verdadeira escolha entre os dois caminhos que acabarão por se nos deparar. Na realidade, sobre o que é campanha? O que nos têm a oferecer os partidos? Não uma escolha clara entre dois caminhos, entre duas formas claramente distintas de entender o Estado e a sua relação com os cidadãos. Mas apenas a acusação de que o outro partido é incompetente. Apenas competem por quem gere melhor aquilo que temos.

A noção de que as opções políticas têm custos está tão ausente dos partidos como do cidadão comum. O PS continua a propôr uma intervenção em larga escala em todas as àreas de actividade, não parecendo perceber que essa intervenção implica o desvio de recursos da economia para o Estado, impedindo o tal desenvolvimento que quer atingir. E o PSD não parece estar disposto a aceitar as consequências lógicas das críticas que faz ao PS, e portanto, não apresentando as propostas de reformas que essas críticas deveriam implicar. Ambos os partidos parecem não perceber que o modelo de relação Estado-cidadãos existente ajuda a manter o nosso atraso, e não, como querem fazer crer, a qualidade ou falta dela de um ou outro partido ou líder partidário. Se há falta de qualidade, ela não está na má gestão do modelo existente, está na manutenção do dito modelo.

Essa ausência de competição política centrada em dois caminhos claramente distintos, dois modelos claramente distintos da relação Estado-cidadãos, tem uma consequência: o total esvaziamento da política. Assiste-se a uma relativização das ideias ("cada um tem as suas", como se ouve), quando deveriam ser as ideias o aspecto central da competição política. E não tendo como aspecto central da competição política as ideias, os critérios de avaliação política afastam-se daquilo que deveriam ser. Quando se julgam candidatos pela sua imagem, ou pela sua suposta competência, e não pelo carácter das propostas que apresenta, o critério de avaliação da governação centra-se em tudo menos no carácter político da governação.

E que melhor exemplo para isto que não o curto governo liderado por Santana Lopes? Santana tem uma carreira política totalmente centrada na sua imagem. Quando subiu ao poder, a sua governação centrou-se na imagem que passava para a comunicação social. Essa concentração na imagem produziu uma governação errática. Uma série de incidentes fez com que a comunicação social lhe colasse um imagem de incompetência. E assim, mesmo os escassos aspectos positivos da sua governação, como a lei das rendas, se perderam, com a queda do governo. O esvaziamento da política tem apenas uma consequência: dificulta a governação. Não apenas as reformas que eu gostaria de ver feitas. Mas a governação, qualquer que seja o seu sentido. Porque desvia a avaliação política do carácter das propostas, e das suas consequências e resultados, para elementos que não passam de produções mediáticas. E não há nada mais frágil e mais volátil que uma produção mediática. Ou seja, não há governo mais frágil e mais volátil que um governo avaliado por elementos de produção mediática. Qualquer que seja a sua orientação.

Posted by Bruno at 02:58 PM

fevereiro 14, 2005

Importações e Más Interpretações

Tenho ouvido e lido abundantemente a opinião de que esta campanha eleitoral se tem caracterizado pela "campanha negativa". Pessoalmente, acho que se tem caracterizado pela "campanha vazia", mas enfim, são opiniões. A par da opinião de que a campanha se tem caracterizado pela "campanha negativa" tem vindo o comentário que dita é uma importação dos EUA. E aqui é que está o equívoco. É que há uma diferença entre Bush chamar "flip-flopper" a John Kerry, e Santana Lopes e José Sócrates andarem a discutir quem é que enche mais os respectivos pavilhões, quem é que gosta mais do povo, e a acusarem-se mutuamente de só recorrerem ao insulto e não tratarem do que interessa aos portugueses (que temo que seja precisamente os insultos que os ditos vão trocando com alegre irresponsabilidade). A diferença está em que a campanha negativa, nos EUA, se centra normalmente em questões políticas: no caso dos ataques de Bush a Kerry, registo de voto no Senado, ou alguma incoerência entre as opiniões proferidas, ou no caso dos ataques de Kerry a Bush e Cheney, possíveis fraudes com a Halliburton. Não estou aqui a comentar a precisão e veracidade desses ataques, apenas a constatar que há um elemento político neles. Já nos ataques mútuos de Santana e Sócrates, só se discute se um "pede ou não "pede" maioria absoluta, que "bem pode pedir porque não a vai ter", que os "portugueses sabem o que querem", os "portugueses não querem ouvir" o que o outro tem para dizer, etc.

Poderão lembrar o caso dos ataques a Kerry em torno do seu passado no Vietname. Que não tinha qualquer relação com qualquer questão política. Escrevo o mesmo que escrevi na altura: quando John Kery transforma o seu passado de herói de guerra numa questão política, quando o transforma num argumento de que será melhor "líder de guerra", porque "sabe o que é a guerra", qualquer acusação de que esse passado é falso passa a ser uma questão política. Foi o facto de Kerry ter usado um argumento demagógico que o tornou um alvo de um argumento igualmente demagógico.

Há, de facto, em Portugal, uma fraca compreensão do fenómeno político americano. Veja-se por exemplo a entrevista de Nuno Melo, líder parlamentar do CDS/PP, ao Domingo Liberal. Fernanda Viegas, a jornalista, pergunta: "Mas nas campanhas eleitorais assistimos com frequência a confrontos pessoais e não de ideias. Ficamos com a sensação de que em Portugal não existem divergências políticas apenas pessoais...". Responde o entrevistado: "A campanha ao estilo americano é uma realidade a que nós europeus devemos tentar fugir. São campanhas fortemente mediatizadas, assentes nas alusões pessoais". Deixemos de lado o "nós europeus" num elemento de um partido que ama tanto a Pátria. Temos nesta resposta de Nuno Melo o mesmo equívoco patente no exemplo anterior.

Não há dúvidas que a campanha eleitoral americana é fortemente personalizada. Não poderia aliás ser de outra forma, tendo em conta que se trata da escolha entre duas pessoas. O facto da frase anterior soar absolutamente ridícula mostra como aquilo que pretendia refutar é, em si, verdadeiramente ridículo. Mas a personalização, existindo, não elimina o confronto de ideias. Tomemos a última campanha como exemplo. O facto de existir uma escolha fortemente personalizada entre Bush e Kerry não impediu a discussão de ideias. Pelo simples facto de Bush e Kerry surgirem como uma cara, em quem as pessoas depositam ou não a sua confiança, mas uma cara associada a uma visão distinta da sociedade americana daquela que a outra cara representa. A forte personalização e mediatização em torno dessa personalização não impedem que a política americana seja a mais polarizada que conheço (infelizmente, à distância), aquela onde o debate é mais vivo e conflitual.

Em Portugal, o que temos? Dois candidatos principais, e mais alguns figurantes. Alguns, tão ou mais mediatizados que os tais dois candidatos principais. Ideias é que não temos muitas. A discussão, para além de quem gosta mais do povo, e de quem sabe melhor "o que querem os portugueses", gira em torno da suposta competência ou suposta incompetência de um ou outro. Ninguém discorda de ninguém, ou melhor, todos discordam uns dos outros, mas ninguém o diz. Todos dizem querer fazer o mesmo, apenas competem em volta de quem o faz melhor.

A diferença entre a campanha ao "estilo americano" e ao "nosso estilo", não está na personalização. O problema do vazio político na campanha eleitoral indígena não está na importação do modelo americano. Está na mediocridade do nosso país. Na falta de cultura política. Não é do estilo americano que tempos de fugir. Pelo contrário. É do guerreiro menino, do engenheiro reciclado. Do senhor que sabe o que é alegria de uma criança, e do senhor que defende a vida. Da nossa pobreza, do nosso atraso. De nós próprios. De Portugal.

Posted by Bruno at 10:39 PM

Pluralismo

Corre por aí alguma preocupação com a RTP e a contratação de Marcelo Rebelo de Sousa pela dita. O engenheiro Sócrates, para além do conflito interior que o atormenta, dividido entre o "choque tecnológico" e o "plano tecnológico", sem saber qual deles é aquilo que propõe, ocupou parte do seu tempo a lembrar a RTP que tem de respeitar o pluralismo de opinião. O problema é o seguinte: Marcelo vai ter um programa. Marcelo tem opiniões. No programa apenas estarão as opiniões de Marcelo. No programa não haverá pluralismo. Não pode ser. Ficamos a saber que a RTP não pode ter comentadores a surgirem sozinhos a dar as suas opiniões. Ficamos a saber que José Manuel Fernandes, que tem opiniões e que por vezes as dá sozinho no Telejornal, não as poderá dar. Ficamos a saber que Sérgio Figueiredo, que tem opiniões e que por vezes as dá sozinho no Telejornal, não o poderá fazer. Ficamos a saber que Carlos Magno, que emite sons disconexos a que chama de opiniões, e o faz por vezes (demasiadas) sozinho no Telejornal, não o poderá fazer (já não é mau). Na RTP, não pode haver comentário político, por um comentador tem uma opinião, e só ouvindo o comentador, não há pluralismo. Tenho uma proposta. John Kerry. O saudoso John Kerry. Se bem se lembram, consegue ter logo cinco ou seis opiniões ao mesmo tempo. Maior pluralismo é difícil...

Posted by Bruno at 10:25 PM

fevereiro 13, 2005

The Meaning of Life

Oiço alguém dizer a outro indivíduo que este deve viver "um dia de cada vez". A ideia é simples. Como podemos morrer no dia seguinte, devemos disfrutar de cada momento, vivê-lo como se fosse último. Não compreendo. Esta ideia ultrapassa-me. Como podemos disfrutar do que quer que seja, sabendo que podemos morrer no dia seguinte?

Posted by Bruno at 10:17 PM

Tudo e Nada

Na sua coluna no DN (as usual, sem link), Pedro Lomba escreve sobre um livro de Francisco Louçã, escrito nos idos de 1989. De seu nome, Herança Tricolor. Não um livro sobre o Fluminense. Sobre a esquerda. Lomba cita uma frase do livro: "o programa de uma outra esquerda só pode ser tudo". "Outra esquerda". Melhor, só "esquerda-outra", mas nem todos podem ser o Eduardo Prado Coelho. E o programa, que "só pode ser tudo"? Aterrador. sinal de que, se alguma vez chegar ao poder, a outra esquerda não deixará nenhum aspecto da nossa vida em paz. O que vale, é que só podendo ser "sobre tudo", o programa da outra esquerda acaba por ser sobre nada. Que assim fique por muito tempo.

Posted by Bruno at 10:06 PM

Inspiração

Leio num post do meu caro colega e amigo João, que o engenheiro Sócrates, numa entrevista de Constança Cunha e Sá, terá dito que o estado deveria ter uma função "inspiradora". A mim, o estado inspira-me. Especialmente se o estado for governado pelo PS. Mas inspira-me tudo menos coisas boas...

Posted by Bruno at 09:45 PM

fevereiro 12, 2005

Dizer Qualquer Coisa

Oiço na TSF que o PS terá substituído, nos seus comícios, as bandeiras do partido por bandeiras de Portugal. Não sei se a pedido de Scolari ou de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas não posso deixar de notar que é um nacionalismo algo descabido em alguém que, aos microfones da mesma TSF onde ouvi esta notícia, e quando questionado acerca de qual seria a posição de um eventual Governo do PS relativamente ao envio de um contigente da GNR para o Iraque, afirmou que Portugal "não deve fazer nada que esteja divorciado da política europeia".

Já não comento o facto de tal afirmação do engenheiro neo-fronteiriço representar uma perigosa submissão da política externa portuguesa (qualquer que seja a sua orientação) a algo tão difuso como uma política externa comum europeia. Nem comento sequer o facto de esta afirmação do engenheiro Sócrates fazer lembrar o tal "seguidismo" que consideravam caracterizar os que defenderam a guerra. Não posso é deixar de me questionar em relação a qual política europeia se refere o engenheiro Sócrates. Que eu saiba, vários países europeus têm tropas no Iraque. Outros não têm. O que provavelmente quer dizer que não existe propriamente uma política europeia, mas sim várias políticas nacionais. Já que o engenheiro Sócrates não quer decidir a nossa política, ao menos diga quem é que vamos seguir.

Mas imaginemos que o engenheiro Sócrates vive num mundo de ilusão, onde existe uma política externa europeia comum. Não requer um grande esforço imaginar que o engenheiro Sócrtaes viva nesse tal mundo de ilusão. Mesmo se partirmos do princípio que essa ilusão é real, e assumindo o engenheiro Sócrates a posição de que Portugal deve enquadrar a sua política nessa mesma ilusão que o engenheiro Sócrates aparentemente acredita ser real, o mínimo que o engenheiro Sócrates devia dizer era que política pensa ser a indicada para a "Europa", e por consequência (e para o engenheiro Sócrates, é mesmo só por consequência), para Portugal.

O engenheiro Sócrates limita-se, nesta questão, a refugiar-se na tal "política europeia" para não se comprometer com uma opção. Nada de novo. O compromisso, seja em que sentido for, implica rupturas. Implica descontamento. O vazio é sempre mais confortável...

Posted by Bruno at 10:25 PM

fevereiro 11, 2005

Os Media e A Campanha do PP

Não posso deixar de notar os elogios que na comunicação social têm sido feitos à campanha do CDS/PP. Aparentemente, todos acham que tem sido de um grande profissionalismo, uma campanha moderna, com uma nova postura. Tem merecido particulares honras dos media a tenda em que o CDS/PP promove uma série de encontros onde se explicitam as suas propostas políticas. Um exemplo: o diário de campanha, ao fim da noite, da RTP, ontem. Devo dizer que acho a iniciativa, em si, positiva, acho que ter uma parte da acção diária de campanha dedicada exclusivamente aos temas do programa poítico, sem a histeria típica dos comícios, devia ser um exemploa seguir por outros partidos. Mas tomemos de novo como exemplo o programa de ontem da RTP a que já me referi: foi mencionada, em tom elogioso, a actividade de campanha na tenda. Foi completamente ignorado o que lá foi dito. Não deixa de ser revelador do carácter do jornalismo português (neste caso em particular, do jornalismo pago por nós) que seja reportada a forma de uma determinada actividade de campanha, ignorando por completo o conteúdo dessa mesma actividade.

Dito isto, e feita esta crítica, atrevo-me a dizer que o dr. Portas talvez não se importe muito com isso. Se virmos com atenção, a campanha do CDS baseia-se quase única e exclusivamente no seu (inegável) profissionalismo, na sua (intermitente) sobriedade, e muito pouco no que esse profissionalismo e essa sobriedade deveriam supostamente transmitir. Aliás, essa imagem e essa postura de profissionalismo e sobriedade servem que nem uma luva às pretensões do dr. Portas, de fazer uma campanha mostrando como o CDS é "um elemento de estabilidade". Mais do que sublinhar o conteúdo das políticas que propõe, políticas essas que atraem um eleitorado relativamente fiel, o que o dr. Portas pretende é atrair os tradicionais eleitores do PSD que acham que Santana é precisamente o contrário daquilo que o CDS/PP diz ser. O dr. Portas não precisa de fazer mais nada se não ter essa postura sóbria, e levar a cabo essa campanha moderna. A imagem que isso transmite funciona melhor que qualquer conteúdo político, tendo em conta os propósitos do dr. Portas: mostrar o contraste entre ele próprio e o dr. Santana Lopes.

Mais uma vez, acho que acções de campanha com a da tenda temática do CDS são, em si, positivas, até louváveis, e o seu conteúdo deveria merecer maior atenção por parte da comunicação social. Mas gostaria, acima de tudo, que esse conteúdo fosse o elemento central da campanha dos partidos, e não a forma como ele é apresentado.

Posted by Bruno at 10:21 PM

O Jornalismo do Indy

Hoje, o Independente, publica aquilo que afirma ser a lista de prováveis membros de um futuro governo socialista. Não sei se o leitor se recorda da primeira página do mesmo jornal de há uma ou duas semanas. Falo daquela em que falava de Freitas do Amaral como provável Ministro da Justiça de um futuro governo do PS. Não deixa de ser curioso que hoje, o nome de Freitas não surja nessa lista que o Indy traz.

Posted by Bruno at 10:08 PM

fevereiro 10, 2005

O Que Está em Jogo

As eleições de dia 20 poderiam as eleições mais importantes dos últimos anos para Portugal. Por culpa do PSD (de Santana e de quem não fez nada para que ele não estivesse na posição em que está), não são. Nas próximas eleições, o que se decidirá não é mais que um retrato deprimente do que espera este país. A escolha é esta: entre um governo PSD que não fará as reformas necessárias para o país, impedindo que chegue ao poder um governo do PS que irá agravar todos os nossos problemas e alimentar o facilitismo e a irresponsabilidade que reina em Portugal. Governo do PSD esse ao qual sucederia um governo do PS não muito diferente o que se pretenderia dessa forma evitar. A escolha é, dizia, entre esse governo PSD, e um governo do PS que irá agravar todos os nossos problemas, mas que quanto mais cedo subir ao poder, mais cedo de lá cairá, abrindo uma possibilidade para que no PSD as pessoas sejam atingidas pela dura realidade (hipótese remota), e que dessa forma o governo PSD que suceder a esse governo PS possa fazer as reformas que este governo PSD que nos surge como escolha não irá fazer. Quer se queira quer não, é isto que dia 20 estará em jogo...

Posted by Bruno at 10:15 PM

O Partido Estado

No mesmo mail, escreve ainda Carlos Pereira da Cruz:

"Vi na terça feira de Carnaval na TV a propaganda eleitoral do PSD!!!!!!!!!!!
Foi totalmente dedicado aos militantes do partido estado (como diz Medina Carreira). Já reparou que todos os partidos, até o CDS, elegem como eleitor-alvo os militantes do partido estado?
Como disse o historiador Rui Ramos na TV2, no passado domingo, se calhar... a maioria do povo português quer a integração, e o poder para o partido estado. Vivemos num verdadeiro estado socialista!!!

Sou contra o sebastianismo, perfilho o hábito número 1 do senhor Stephen Covey (Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes) proactividade: não devemos ficar à espera que as circunstâncias moldem e comandem a nossa vida, devemos agarrar o touro pelos cornos e ir à luta, e construir o futuro (o senhor Peter Drucker disse um dia "A melhor forma de prever o futuro é construí-lo"). Sou contra o sebastianismo, mas não posso deixar de fazer o paralelo com os EUA e o Reino Unido antes de Reagan e Tatcher, dois países que se estavam a socializar e que souberam dar a volta por cima."

É pena é que não vejamos nenhum Reagan nem nenhuma Tatcher no horizonte...

Posted by Bruno at 10:06 PM

O Outro Senhor

Do leitor Carlos Pereira da Cruz, chega-me a resposta à dúvida que há anos me atormenta: o nome do outro senhor do POUS é Aires Rodrigues. Pena é que agora já não posso referir-me ao dito como "o outro senhor do POUS". Toda uma vida que muda...

Posted by Bruno at 10:01 PM

fevereiro 09, 2005

Guerreiro Menino

Não sei se o leitor já teve a oportunidade de assistir ao vídeo do PSD ao som da musiquinha com os versos que dão o título a este texto. Eu já. E gostei. É bonito. E revelador. E preocupante. Veja-se bem: "guerreiro menino". O que faz um guerreiro? Vai para a guerra. Guerreiro "menino"? O que pode um guerreiro "menino" contra um guerreiro "crescidinho"? O "menino" é pequenino. Falta-lhe força. Falta-lhe experiência. Falta-lhe astúcia. Como pode um "menino" ir contra os interesses instalados? Como pode o menino fazer reformas? Dir-me-ão que é "menino" porque "sonha". Eu dir-vos-ei que, ao contrário de mim, levaram o que eu disse a sério. E dir-vos-ei também que o problema do "menino" é precisamente o ele "sonhar". E de ninguém o acordar. É viver num mundo de ilusão, onde nada mais existe a não ser o "guerreiro menino" que "sonha", e aquilo com que "sonha" o "guerreiro menino".

O vídeo é de facto revelador. Mostra o estado em está hoje o PSD (versão antecedida por PPD e sinal ortográfico na diagonal cuja designação não me recordo). Em primeiro lugar, nota-se a total personalização do partido em torno do líder (nada mais existe a não ser o "guerreiro menino"). O que para além de não corresponder à tradição daquele partido,parece, numa altura em que Santana não motiva grandes simpatias no eleitorado, ser contraproducente (o "menino" vive no sonho, e ninguém o acorda). Mas mais que isso, há uma passagem da dita musiquinha que é bem reveladora da persona política de Santana. Diz (cito de cor) que "sem o seu trabalho, um homem não tem honra, e sem a sua honra, um homem não é nada". Estas singelas palavras, proferidas sobre imagens em câmara lenta para provocar empatia, dizem tudo acerca de Santana. Sem o seu trabalho, não tem honra, não é nada. Se não se mantiver no poder, no poder de onde injustamente o tiraram, não tem honra, não é nada. Para Santana, é o estar no poder que interessa. Não só ele não tem honra, e não é nada, sem o seu trabalho, como não existe mais nada, para além do seu trabalho: o poder.

E o menino "sonha". E só existe o "menino" a "sonhar", e o "sonho" do "menino". E por causa do "sonho" do "menino", e de ninguém o acordar, é a realidade do pesadelo do regresso guterrista que teremos de enfrentar. Reciclado. Como gosta o engenheiro Sócrates.

Posted by Bruno at 10:59 PM

O Bloco Aberto

Tenho assistido aos tempos de antena dos vários partidos. Com grande pena minha, ainda não tive a sorte de assistir a um dos maravilhosos momentos com que o POUS nos costuma brindar. Eu gosto muito do POUS. A senhora Carmelinda Pereira e o outro senhor que ninguém sabe o nome são duas figuras muito queridas da minha pessoa. Já assisti foi a um tempo de antena do PCTP/MRPP (sempre gostei de dizer isto: PCTP/MRPP). O tempo de antena é, como é sabido, da exclusiva responsabilidade do interveniente. Pena é que quem não tem qualquer responsabilidade em relação ao que lá é dito tenha de o ouvir. Mas ao menos, fiquei a saber que o dr. Garcia Pereira não é o único militante do PCTP/MRPP. Há outro. E tal como o outro senhor do POUS, o nome fica na sombra.

Quem não fica na sombra é o Bloco de Esquerda. Como é irreverente o tempo de antena do Bloco de Esquerda. Responsabilidade é coisa que não abunda no interveniente. Ao contrário do despudor. O Bloco não hesita quando se trata de ir para as ruas e fazer as suas encenações demagógicas e anunciar que "lhes bate mais forte". O seu tempo de antena não foge à regra dos costumes do Bloco de Esquerda. Costumes esses totalmente despidos de preconceito (para além de inteligência, claro), porque vivemos no século XXI, e o preconceito (e temo que também a inteligência) é coisa da qual nos temos de libertar. E o excerto do filme de Nanni Moretti? Aparentemente, a rapaziada do conjunto (o da extrema-esquerda, não o do António Mafra). Eu gosto de Nanni Moretti. Ou melhor, gosto do Quarto do Filho, o único filme que vi do senhor. Duvido é que os explorados do capitalismo e das conspirações montadas pela Carlyle em território nacional, explorados esses que o BE supostamente defende, gostem dos filmes do esquerdista italiano. Duvido aliás, que saibam que Moretti é esquerdista. Duvido até que saibam que ele existe. Percebe-se assim a quem o Bloco se dirige: a uma juventude urbana de classe média-alta, que gosta de filmes estrangeiros e até sabe quem é Nanni Moretti, e até sabe que ele é de esquerda. A uma juventude urbana de classe média-alta que gosta de "ser para a frente", e a quem não custa nada aderir ao folclore de um partido que quer ser fracturante, mas que é parte e produto de um elitismo que supostamente quer fracturar.

Posted by Bruno at 10:21 PM

Oráculo da Rua Viriato

Em Portugal, já tinhamos os políticos oráculo: o senhor Presidente da República. Os líderes partidários que dizem "os portugueses querem...". Temos agora os jornalistas oráculo, que interpretam o que alguém quer dizer a partir do que outra pessoa diz que supostamente esse alguém pensa...

Posted by Bruno at 10:17 PM

fevereiro 08, 2005

Caminho Para a Paz

Desde que me lembro de mim que ouço falar das novas oportunidades para a paz no Médio Oriente. Hoje, assistiu-se ao acordo assinado por Israel e pela Autoridade Palestiniana, comprometendo-se as duas partes com um cessar-fogo e o início de negociações. De facto, é uma nova oportunidade. Mas uma nova oportunidade que poderá acabar como todas as anteriores. Com o desaparecimento de Arafat, talvez tenha desaparecido um dos maiores obstáculos a essa paz: parece ter passado a haver, do lado da Autoridade Palestiniana, uma genuína disponibilidade para chegar a uma acordo, sem se fazerem exigências que sabem que não podem ser aceites pelo outro lado, como aconteceu com Arafat. Permanece, no entanto, o maior dos obstáculos: os grupos terroristas. Tanto o Hamas como a Jihad Islâmica já vieram dizer que respeitará o cessar-fogo "em função do compromisso do inimigo sionista a favor das condições" apresentadas pelos movimentos palestinianos, "começando pela libertação de todos os prisioneiros e detidos". Quem fala no "inimigo sionista" dificilmente estará diposto a mudar a sua posição histórica, passando a aceitar a existência do Estado de Israel. Sem isso, não haverá cessar-fogo. Enquanto estes grupos tiverem peso na sociedade palestiniana, e mais que isso, meios para agir, não há acordos, por muito bem intencionados que, após a morte de Arafat, tenham passado a ser, que possam chegar a bom porto.

Posted by Bruno at 09:44 PM

fevereiro 07, 2005

O Que Nos Espera

Em Portugal, a memória escasseia. Tal como a inteligência. Quanto a esta última, não quero ser juiz em causa própria. Mas quanto à primeira, acho que posso dizer que a tenho. Estava-se em 1995. Campanha eleitoral para as legislativas. O engenheiro Guterres, num excelso exemplo da humildade socialista que contrastava com a "arrogância" cavaquista, não pedia maioria absoluta. E, num excelso exemplo da irresponsabilidade socialista, assegurava ao bom povo com que queria, com humildade, dialogar, que, na CREL, não se pagaria portagem. Esse diálogo ao qual, com humildade, o PS se obrigava, deu no que deu. A cedência a todo e qualquer grupo de pressão que dialogasse com o Governo do engenheiro Guterres. E o carácter desse diálogo estava bem evidente (para quem quisesse ver) nessa promessa de auto-estradas livres.

Em Portugal, a memória, tal como a inteligência, não é abundante. Já a falta de vergonha, essa, floresce. O engenheiro Sócrates, com humildade socialista, quer mudar Portugal. Quer ver Portugal com esperança. Com dinamismo. Quer ver Portugal andar para a frente. Quer ver Portugal ultrapassar os obstáculos. Com Cavaco tivemos auto-estradas. Com Sócrates, teremos auto-estradas para o desenvolvimento. Sem portagens. Umas e outras. De facto, Sócrates quer mudar Portugal. Quer mudar, mantendo tudo na mesma. tal com em 1995, o PS promete que, numa auto-estrada (desta vez, a Via do Infante) não haverá portagens. Tal como em 1995, está tudo à vista de quem quiser ver. Com Sócrates, não se paga nada. Tudo se usa, tudo se transforma, tudo se deixa para a geração seguinte suportar. Como com Guterres.

A questão das portagens pode parecer uma questão secundária. Não é. É um exemplo claro do pior dos nossos vícios. Vícios esses para cuja manutenção um Governo do PS contribuirá como não contribuirá para mais nada. Com um Governo do PS, mais ainda que com um Governo do PSD, os portugueses continuarão a achar que há coisas de graça. Que há coisas que não têm custo, porque é o Estado que paga, para que, com humildade socialista, se encontre o caminho para o desenvolvimento. Continuarão a pensar, alimentados pelas políticas socialistas, que o Estado é uma espécie de entidade etérea, exterior aos cidadãos. Continuarão sem perceber que, quando o Estado nos dá alguma coisa, nos está a tirar uma parte do que já é nosso por fruto do nosso trabalho, para que nos possa dar o que quer que seja que nos dá. E que ao contrário do que se passaria se não nos desse o que, com humildade socialista, nos dá, nós pagamos o que o Estado nos dá, quer o queiramos quer não.

Posted by Bruno at 09:49 PM

fevereiro 06, 2005

The Aviator

the aviator2


Fui ver The Aviator, o último de Martin Scorsese. A história é conhecida. Howard Hughes (Leonardo diCaprio), multimilionário texano, quer fazer o filme mais caro de sempre, Hell's Angels. Passa quatro anos a fazê-lo, mas consegue. Quer fazer o filme mais violento de sempre, Scarface, e consegue-o. O mais sexualmente explícito, The Outlaws, e após querelas com a censura, consegue-o. Quer fazer o avião mais rápido de sempre, e consegue. O maior avião de sempre. E consegue. Mulheres abençoadas pelo senhor. Consegue. Mas Howard Hughes era também um homem atormentado pelo seu comportamento obsessivo-compulsivo, o temor aos germes que via em todo o lado.

Fui com receio. O filme tinha sido algo mal visto pela crítica, e depois de Gangs of New York, era impossível ficar descansado. The Aviator é superiormente bem filmado. Visualmente, o filme é quase perfeito. As cenas de aviação (especialmente as que retratam a rodagem da cena de combate áereo de Hell's Angels) lembram as cenas de combate de Raging Bull, no equilíbrio perfeito entre a montagem (a sempre presente e sempre competentíssima Telma Schoonmaker) e a música. As cenas de diCaprio a braços com o seu temor mostram como Scorsese é o melhor a transmitir a emoção com a câmara. No entanto, o filme peca por algumas cenas algo inconsequentes (as cenas nos clubes nocturnos não acrescentam nada no campo dramático, e visualmente, não se comparam às cenas análogas de Goodfellas, por exemplo. Scorsese quer retratar o glamour da Hollywoood dos filmes com que cresceu, mas fica a ideia de que essas cenas, há excepção talvez da cena da estreia de Hell's Angels, que nos mostra a natureza do comportamento de Hughes, ficam perto do dispensável). E não consegue escapar ao defeito habitual do género, o de querer contar muita coisa em pouco tempo, não explorando todas as cenas ao máximo. Na realidade, The Aviator não consegue atribuir um significado particular a todas e cada uma das cenas, como em Taxi Driver, nem é "acelerado" como Casino.

The Aviator tem algumas cenas absolutamente geniais. O almoço de Hughes com a família de Katherine Hepburn (Cate Blanchet, demasiado caricatural, embora bem nas cenas mais emotivas, e sempre melhor que a esteticamente abençoada mas fraquinha Kate Beckinsale como ava Gardner). Duas cenas de Hughes na casa de banho, uma em que não consegue dar uma toalha a um homem de muletas, temendo os germes, outra em que não consegue tocar na maçaneta da porta, pela mesma razão, esperando que alguém apareça para aproveitar a porta aberta. Hughes tentando levar a bom porto o seu projecto do Hercules, começando a repetir incessantemente as mesmas palavras, tendo de sair da sala para parar. Esta cena é um bom exemplo de como a realização de Scorsese e o seu peso emocional se combinam como a interpretação de diCaprio. A insanidade mental convida ao overacting. O rapaz não cai na armadilha, e afasta os preconceitos que eu tinha em relação à sua qualidade como actor. Outro exemplo dessa combinação é a cena em que Hughes queima todas as suas roupas, em que a chama nos surge entre a câmara e diCaprio, que aguenta o peso da cena. Tal como nas cenas em que, cada vez mais deterioriado mentalmente, se fecha numa sala, com os seus filmes passando no ecrã, e uma série de garrafas de leite como depósito do produto das chamadas da natureza. Também bastante boa é a interpretação de Alan Alda como o corrupto (e manipulador) senador Brewster, que força uma investigação do FBI que conduz hughes ao pânico (porque estão "a mexer em tudo") bem como a pequena particpação de John C. Reilly, como o contabilista de Hughes.

The Aviator é claramente uma cedência de Scorsese a um estilo mais comercial, de forma a ver se é desta que ganha o Oscar. Exemplo disso é a sequência das audiências no Senado, o clássico momento uplifting que geralmente acompanha estes biopics hollywoodescos. No entanto, e apesar das várias fraquezas, é um filme bem conseguido. Um filme claramente menor na filmografia de Scorsese. Mas que não deixa de se enquadrar bem nessa lista. E de mostrar vários elementos característicos dessa mesma filmografia. Não é só esteticamente que as cenas de aviação de The Aviator evocam as cenas de combate de Raging BullRaging Bull, Hughes em Aviator). Quando Hughes bate o record de velocidade, vive o sucesso de Hell's Angels. quando se despenha em Beverly Hills (numa cena de uma brutalidade incrível), inicia-se o período de perseguição do FBI e de progressiva degeneração mental de Hughes. E como em todos os filmes de Scorsese, The Aviator não é mais que a história de um homem sozinho (o "God's lonely man" de Travis Bickle), que vive num mundo no qual não aguenta viver. Travis Bickle não aguentava a sujidade das ruas. Os traficantes, os chulos, as prostitutas. Hughes não aguenta nada. As impressões digitais de outras pessoas nos copos. Qualquer coisa em que outra pessoa toque. A mera presença de uma qualquer outra pessoa. E tal como em Taxi Driver, o filme termina com o sucesso do protagonista, transformado em herói. Mas ao mesmo tempo, termina dizendo-nos que o se seguirá não será melhor que o que estava para trás. Em Taxi Driver, olhava-se para os olhos de Travis Bickle, e sabíamos que ele continuaria a viver no Inferno. Em The Aviator, vêmos o reflexo de Hughes no espelho, e sabemos que "o caminho do futuro" não trará um mundo onde estará mais seguro daquilo que o atormenta...

Posted by Bruno at 06:15 PM

fevereiro 05, 2005

Carry On, Doctor

Segundo consta, "anda por aí" uma gripe. Eu próprio me vi assolado pelo famigerado surto. Como estive quatro dias afectado pela doença, fiquei surpreendido por não ter ouvido, dos familiares, a velha pergunta: se já tinha ido ao médico. Ao não vou ao médico. Nunca. Demasiados anos a frequentar regularmente urgências hospitalares (experiência de vida que devo à asma). Por isso a companhia dos "profissionais de saúde" nunca foi das minhas favoritas. Essa é aliás, a minha grande divergência existencial com os hipocondríacos. Não há companhia que agrade mais a um hipocondríaco que a de um médico. Um hipocondríaco sente uma dor no peito. Entra em pânico. E corre para os braços do "doutor". Eu fico com febre. Asma. Dores de garganta. Nariz entupido. Regurgitação em doses industriais. Mas o "doutor" é figura que não me ocupa os pensamentos. E que não me motiva qualquer tipo de deslocação física. Claro que entro em pânico. Claro que vejo a vida a andar para trás. Ou melhor, a não restar muito tempo para andar para onde quer que seja. Mas não preciso que mo diga, e ainda por cima ter de lhe pagar por isso.

Posted by Bruno at 10:11 PM

fevereiro 04, 2005

Surpresa

No Iraque, uma jornalista iraquiana foi raptada pelos terroristas. Na SIC, a correspondente em Itália manifesta o seu enorme espanto com o acontecimento. Diz a dita jornalista que a sua colega de profissão "até" se manifestou contra a guerra no Iraque, e até mesmo outras acções similares, não existindo, na opinião da jornalista da SIC, qualquer razão para os terroristas a raptarem. Não percebe a senhora jornalista da SIC que sim, há razões. A senhora que foi raptada é ocidental. Razão suficiente para aquela gente. O que não há é razão para a senhora jornalista da SIC e os seus colegas de profissão por essa Europa fora ainda não terem percebido isto. Ainda não compreenderam que não há nada de surpreendente com o rapto de alguém que "até foi contra a guerra". Pura e simplesmente, não lhes entra na cabeça. O que, infelizmente, também não é surpresa nenhuma.

Posted by Bruno at 09:59 PM

Esclarecido

Do debate em redor do debate, chegou-se a uma grande conclusão: segundo a unanimidade, o formato do debate não propiciou o esclarecimento dos eleitores. Exactamente o formato. É o que diz a unanimidade. Não sei se a unanimidade assistiu aos debates das Presidenciais americanas, que usaram um modelo similar. Eu assisti. E fiquei bastante esclarecido. Não ocorre àquelas cabeças que talvez não tenha havido esclarecimento no debate pátrio por causa dos intervenientes. Talvez os intervenientes não quisessem esclarecer. Ou talvez não tivessem mesmo nada de esclarecedor para dizer. O que, em qualquer dos casos, já é suficientemente esclarecedor.

Posted by Bruno at 09:53 PM

fevereiro 03, 2005

O Debate

O debate foi francamente desinteressante. Seguiu um modelo muito próximo do utilizado nos debates das Presidenciais americanas, e a comparação entre os dois é pouco lisonjeira para Sócrates e Santana. Ao contrário dos debates americanos, o vazio dominou os discursos. Tem-se o hábito em Portugal de criticar a onda mediática que domina as eleições nos EUA, mas não há comparação entre o tipo de debate feito nos EUA e o vazio que cá impera. Vazio esse para o qual os jornalistas contribuem.

Um aspecto interessante. Na semana passada, o jornalista de economia da SIC Notícias, José Gomes Ferreira, realizou uma entrevista ao ministro António Mexia, na qualidade de coordenador do manifesto do PSD. Hoje, participou neste debate. E aqui, vêmos a diferença entre alguém que, não só tem um discurso que visa o tratamento de questões concretas, mas que também percebe o que alguém responsável faz numa campanha, e alguém como Santana. A ambos, Gomes Ferreira,perguntou se o PSD se comprometia a aumentar os funcionários públicos. Santana Lopes respondeu que sim. Mexia respondeu que isso não estava no manifesto eleitoral, e que portanto, não era matéria a tratar em tempo de eleições. Seria uma responsabilidade do futuro governo, e qualquer decisão só poderia ser tomada nessa altura. Qualquer compromisso seria demagogia.

Foi precisamente essa demagogia que Mexia quis evitar aquela em que Santana incorreu. É a diferença...

Posted by Bruno at 10:45 PM

Sobre o Voto em Branco

No seu artigo no Público (não consigo aceder), Pacheco Pereira diz que já ouviu alguém dizer que ia "votar Saramago". Normalmente, o voto em branco é encarado como um voto de protesto. Saramago baseava a sua defesa do voto descolorido na tentativa de descredibilizar o sistema. O dr. Saramago nunca primou pela lucidez política. No entanto, essa visão do voto em branco como protesto contra o sistema, contra "os políticos", está muito enraizada na sociedade portuguesa. Falo por mim: nas europeias, votei em branco. E não estava a protestar. Apenas e só não concordava com o que era proposto pelos vários partidos. Protesto é coisa de sindicalista e funcionário público. Quando votei em branco (a única vez que pude votar na vida) não foi para protestar, e muito menos para seguir os conselhos de Saramago. Pode-se votar em branco, ou até nem sequer ir votar. Mas há uma diferença entre quem o faz porque não quer saber "deles", e quem o faz precisamente por saber...

Posted by Bruno at 06:30 PM

A Rua

Oiço que o dr. Luís Nobre Guedes apelou a queo bom povo de Coimbra se encha de vontade e a que brade contra a visita do engº Sócrates. O apelo à rua fica sempre bem num país subdesenvolvido como o nosso, onde a rua aprecia a alegria que só a gritaria e o protesto oferece às massas revoltadas. Eu, não gosto da rua. Independentemente de ser o passeio esquerdo ou o passeio direito.

Posted by Bruno at 06:24 PM

fevereiro 02, 2005

Sócrates Observado

Hoje fico-me pela recondução: vale a pena ler, no Observador, o que escreve o André Amaral acerca da "generosa" promessa do engº Sócrates de dar emprego a 100 mil licenciados. Perdão, são apenas 1000. Afinal, não é tão generosa quanto isso. Mas deve ser um investimento "inteligente". Ao menos isso. Mais inteligente é certamente o que escreve o André. E a partir daí, podemos retirar uma conclusão: da futura governação socialista, ou vem mentira, ou vem asneira...

Posted by Bruno at 06:39 PM

fevereiro 01, 2005

Ainda Freitas 2(título corrigido)

Confesso que há um aspecto da persona política de Freitas de Amaral que me faz espécie. No seu livro de memórias (livro que até gostei bastante), Freitas afirma que o CDS, no momento da sua fundação, era um partido "rigorosamente ao centro". Este foi sempre o seu entendimento do lugar do seu partido no sistema político português. Mais tarde, considerou mesmo que o CDS deveria ser um partido disponível para viabilizar governos à sua esquerda (PS), e à sua direita (PSD). Há uns anos atrás, altura em que Freitas apoiava o governo de Durão Barroso, embora criticando a posição deste último em relação à questão iraquiana, Freitas afirmou que "nas questões económicas se sentia mais próximo do PSD, nas sociais do PS". E hoje, quando apoia o PS, escreve que é um centrista, independente em relação a partidos, e que portanto poderá fazer as suas escolhas livremente. Estas afirmações de Freitas são bastante reveladoras. A postura de Freitas, e uma postura que já vem de trás, e não de agora, em relação ao espectro político parece ser não só ele se considerar acima dos partidos, mas acima das diferenças. Parecem revelar que Freitas vê as divergências partidárias como as divergências clubísticas,como algo irracional. Não parece conceber que a pertença a partidos implique também ela uma escolha igualmente livre entre propostas para o país, legítimas como as de um indepedente. Para além de legítimas, com aspectos inconciliáveis entre si. Esta que me parece ser a postura de Freitas é um símbolo de um dos piores aspectos da pobre cultura democrática deste país. A hostilidade ao conflito partidário, tão pouco característica de países desenvolvidos como o nosso manifestamente não é. A ausência da noção de que a política, e a democracia em particular, implica a concorrência entre várias propostas, cada uma implicando custos e benefícios, devendo a escolha basear-se na avaliação que se faz dessa mesma relação em cada um dos programas eleitorais concorrentes. E de que não há centro, por mais rigoroso que seja, que resolva isto.

Posted by Bruno at 10:37 PM