Escrito pela mão invisível de Bruno Alves. Comentários e opinião: alves.bm@netcabo.pt

« dezembro 2004 | Main | fevereiro 2005 »

janeiro 31, 2005

Ainda Freitas

Continuam as reacções ao artigo de Freitas do Amaral em que este declarava o seu apoio ao PS. Agora apimentados por um entrevista do "Professor" (como agora lhe chama os que o chamavam de "fascista"). Não deixa de ser curioso que essas reacções se centram nas supostas intenções escondidas de Freitas, e não na (paupérrima) argumentação por ele utilizada. Para o que, aliás, o próprio Freitas contribui. Diz bastante, não só acerca da qualidade do debate político em Portugal (situações deste tipo são a regra, não a excepção), mas também acerca do próprio Freitas.

Posted by Bruno at 10:28 PM

Maus Exemplos

Leio um artigo no Times, de William Rees-Mogg. Leio que o Labour, partido de Tony Blair, rei e senhor do politicamente correcto e do respeito pelas minorias, colocou nas ruas da Inglaterra um cartaz que coloca Michael Howard, intolerante e reaccionário lider nos Tories, numa figura que visa aparentar "Fagin", vilão de uma obra de Dickens. Confesso a minha ignorância: nunca li Dickens. Só percebo a referência, porque Rees-Mogg explica. Segundo o dito, Fagin, o tal vilão, era judeu. Como Michael Howard. Assim, para denegrir Howard, o Labour não hesita em explorar o preconceito anti-semita, utilizando o estereótipo do "judeu", por natureza abominável. Vale a pena ler o artigo. Para perceber onde chegam as coisas...

Posted by Bruno at 10:14 PM

janeiro 30, 2005

Medida Certa, Razões Erradas

O PS propõe aumentar a idade de reforma dos funcionários públicos, dos 60 anos actuais para os supostamente ideais 65. Eu concordo. O PS propõe tal medida de forma a descongestionar o (mais congestionado que o meu engripado sistema respiratório) sistema de pensões. Eu discordo. Não que ache que o dito sistema de pensões não deva ser descongestionado. A longo prazo ele é insustentável. Aliás, tal como o congestionamento do meu sistema respiratório. O que acontece é que tenho as minhas dúvidas de que essa medida seja a solução para esse problema. O que não quer dizer que a medida não tenha os seus méritos. Como já disse, também eu acho que a idade de reforma dos funcionários públicos deveria passar de 60 para 65 anos. Mas apenas e só porque essa é a idade de reforma de todos os trabalhadores que não vivem suportados pelo dinheiro dos contribuintes. Os funcionários públicos devem ver a sua idade de reforma alterada para os 65 anos porque não devem ser mais (nem menos) que os outros. O PS não acha que este seja um elemento importante. O que não deixa de ser significativo...

Posted by Bruno at 10:09 PM

janeiro 29, 2005

Eleições no Iraque

O estado febril e engripado em que me encontro impede-me de escrever o que quer que seja com um mínimo de qualidade. Por isso, fico-me por uma pequena nota sobre as eleições iraquianas de amanhã. Escrevi em tempos que a marcação de eleições para a data de 30 Janeiro, nas condições actuais, revelava que havia dos EUA uma maior preocupação com a democratização do que com a estabilização. E também escrevi que achava que essa prioridade poderia colocar em risco o sucesso americano no Iraque. No entanto, achei também que o adiamento das eleições seria ainda mais contraproductivo que a prioridade atribuída a essa democratização. Enviaria aos terroristas apostados em desestabilizar o Iraque a mensagem de que essa sua conduta compensa. Assim, resta apenas esperar que amanhã corra tudo o menos mal possível: o maior número de participantes, e o menor número de mortos. Sabendo que, aconteça o que acontecer, para a comunicação social, será sempre um fracasso.

Posted by Bruno at 10:00 PM

janeiro 27, 2005

O Artigo de Freitas

O dr. Freitas do Amaral escreve hoje um artigo na Visão, onde apela ao voto no PS, e a uma maioria absoluta do dito partido. Como é óbvio, o artigo causou alguma comoção. Isto, claro está, para além da corrida desenfreada dos jornalistas em busca de declarações do gente do CDS/PP, exemplo do que interessa a quem supostamente tem a responsabilidade de nos informar. Nota-se, nas reacções a este artigo, a habitual desconsideração por parte das pessoas mais à direita, relativamente ao que Freitas afirma. Confesso que não me surpreende a tomada de posição do senhor em causa. Outra questão é o conteúdo do que é dito por Freitas do Amaral, e isso é que tem sido um pouco ignorado.

Primeiro aspecto curioso: escreve Freitas que quem vota com o coração, "é perfeitamente legítimo votar num dos três partidos mais pequenos", e que votar nos dois maiores partidos é "votar com a cabeça". É sabido que Freitas considera que o CDS de hoje não é o CDS que ele liderava. Hoje, Freitas escreve algo que vai contra aquela que era a sua definição do lugar do seu CDS no sistema político, ou seja, o de pequeno partido-charneira. Freitas não só se desliga do rumo que o partido que fundou tomou, como do rumo que ele próprio traçou para o dito partido.

Vamos agora os argumentos utilizados por Freitas do Amaral para justificar a sua posição. A discordância é natural em política. As pessoas partem de pressupostos diferentes. Freitas do Amaral não parte dos mesmos pressupostos que eu. Portanto, é normal que o que ele deseja politicamente seja diferente daquilo que eu desejo. O que se espera de alguém, especialmente alguém que desempenhou as funções que Freitas do Amaral desempenhou, é seriedade intelectual. Ora, pelos argumentos apresentados por Freitas, podemos chegar a uma de duas conclusões: ou não tem seriedade intelectual, ou o cérebro não possui faculdades que permitam que se possa atribuir uma qualidade ao dito intelecto. Sem sujeito, não há adjectivo.

Vejamos: Freitas considera que o "choque tecnológico" proposto pelo PS, "baseado na agenda de Lisboa", é o caminho correcto para o país. Já quanto ao "choque de gestão", considera que "ninguém sabe ao certo o que é". Lá que Freitas ache que Agenda de Lisboa é a estrada para o paraíso na Terra, é com ele. Que tenha o despudor de atribuir uma carga de conteúdo superior ao dito "choque tecnológico" do que atribuí ao "choque de gestão", é que já não é muito dignificante.

Em segundo lugar, atribuí grandes méritos ao facto de o PS apostar "no crescimento económico como forma de criar de emprego", enquanto o PSD "propõe um enorme aumento de produtividade (...)que é inatingível em quatro anos". Não explica, no entanto, como é que o crscimento económico proposto pelo PS se irá conseguir, especialmente sem o tal aumento de produtividade.

Quanto às finanças públicas, o que Freitas escreve não me motiva grandes comentários, embora não possa atribuir os elogios que Freitas atribuí à conduta do PS. Já quanto ao que escreve acerca do combate à pobreza, não se pode deixar de admirar a vacuidade: "ambos os partidos o prometem (já é um avanço) mas o programa do PS é mais generoso, ao passo que o do PSD é mais tecnocrático". Para freitas, quem gritar mais alto que quer acabar com a pobreza, merece o voto. Quanto a este aspecto, não ocorre a Freitas criticar a demagogia inerente a "combater a pobreza", como lhe ocorreu criticar quanto a promessas de baixas de impostos.

Quanto à educação, Freitas pede mais investimento público. Não concordo, mas ao menos não há falta de seriedade. A mesma seriedade (e a mesma falta de discernimento) nota-se quando aplaude a promessa do PS de não transformar os hospitais públicos em hospitais empresa. Já não se nota seriedade quando afirma que a reforma da administração pública "está muito mais bem desenhada no programa do PS", quando o dito programa é, como diz o próprio Freitas, "baseado na Agenda de Lisboa", documento em que o Governo do engenehiro Guterres teve grandes responsabilidades, Governo esse que Freitas espancou por não ter sido capaz de levar a cabo reformas como aquela que hoje vê bem desenhada num programa em tudo semelhante ao desse governo.

Freitas termina o artigo apelando a que os portugueses não apenas votem no PS como a que lhe dêem maioria absoluta. Caro dr. Freitas, ninguém dá maioria absoluta a ninguém. As pessoas escolhem um partido. Se existirem pessoas suficientes a votar nesse partido de forma a que esse partido tenha uma maioria absoluta de deputados na Assembleia, essa maioria absoluta acontecerá. Caso não aconteça, não significa que "os portugueses" quiseram uma vitória do partido A, mas sem maioria absoluta. Apenas significa que não houve pessoas suficientes a querer que o partido A ganhasse. A soma de vontades individuais não forma uma vontade comum.

Portanto, dr. Freitas do Amaral, apele ao voto no PS se quiser. Fazer o apelo a que para além de votar no PS, se lhe dê maioria absoluta, é que demonstra uma ingenuidade que não lhe fica bem. O que a juntar à fraca argumentação, não ajuda. Mas, diga-se de passagem, que é difícil argumentar bem, quando o que nos é dado para argumentar "em defesa de" é o programa do PS. Como aliás o dr. Freitas deve saber. O que não ajuda muito a construir uma boa imagem de si...

Posted by Bruno at 10:05 PM

janeiro 26, 2005

Deconstructing Bruno 3

Como não será estranho ao leitor atento, Woody Allen é muito cá de casa. O que, para espanto meu, causa espanto em algumas almas. Perguntam-me por que razão um jovem lisboeta se identifica com o mundo nova-iorquino retratado nos filmes do senhor em causa? Há uma resposta pretensiosa. A de que nos filmes de Woody Allen, revejo as minhas próprias preocupações com a morte, o pessimismo em relação à vida, etc. Como já disse, é a resposta pretensiosa. Na verdade, tudo se deve a razões bem mais prosaicas. O facto de nos seus filmes, beldades como Juliette Lewis, Mira Sorvino e principalmente Diane Keaton (dispenso Mia Farrow) se entregarem ao pecado com um homem baixinho, magro e de óculos, por razões óbvias (a quem conheça a minha frágil aparência), traz um optimismo que não deixa de ser agradável...

Posted by Bruno at 11:12 PM

Deconstructing Bruno 2

Há vários posts que, por uma razão ou outra, nunca cheguei a escrever. Curiosamente, todos sobre o mesmo tema: sexo. Como a actividade sobre a qual versariam, não passaram da imaginação...

Posted by Bruno at 11:10 PM

Deconstructing Bruno

Levo uma vida desoladoramente desinteressante. Só há duas coisas que a ocupam: a política, e as "gajas". Curiosamente, em ambos os casos, como um mero observador...

Posted by Bruno at 11:04 PM

janeiro 25, 2005

A Juventude

Um estudo afirma que os jovens portugueses estão desligados da política. A inteligência pátria indigna-se. Prova inequívoca de que a inteligência pátria é totalmente desprovida da homónima capacidade mental. Impera atrair os jovens para a participação cívica, dizem. Não vejo a razão. A inteligência pátria dirá, certamente, em audível coro progressista, que os jovens, impregnados de um desejo puro de mudança do mundo, fazem falta em tempos de crise e desespero político. Meus caros, faço parte, a contragosto, das novas gerações. Sou forçado, portanto, a um convívio com os jovens que, segundo o estudo, estão desligados da política. Com os jovens que não votam. Com os jovens que (recorro à desoladora experiência pessoal) se perguntam sem despudor ou vergonha na cara "qual é aquela coisa que a Ministra quer controlar?". Da minha já referida experiência pessoal, e salvo raras excepções (incluindo, espero, eu próprio), fico com a ideia que é melhor assim. Jovem (e só se fêmea e com talento para mostrar), só serve para contemplar. Ou com sorte, usufruir.

Posted by Bruno at 10:34 PM

Back From The (Politically) Dead

O engenheiro António Guterres participou ontem numa conferência sobre a "agenda de Lisboa" integrada na campanha do PS. Segundo relatos, o engenheiro José Sócrates terá dito que já tinha saudades de ouvir Guterres. Dou razão a José Sócrates. Guterrres já devia ter abençoado o auditório com a sua voz há muito mais tempo. Especialmente naquele período em que o país teve que enfrentar as consequências do seu desvario governamental, e em que o dito engenheiro enfiou a cabeça na areia com o despudor típico da pandilha. No entanto, só ontem nos deu o prazer de falar. E o que nos disse o politicamente ressuscitado Guterres? Segundo os mesmos relatos, terá invocado os seus governos minoritários para pedir maioria absoluta para o PS. A ressureição política tem destas coisas. Vai-se notando a falta de hábito. E enm sempre as coisas mais adequadas são aquelas que o cérebro comunica aos orgãos responsáveis pelo expelir das palavras. É que os governos minoritários do engenheiro Guterres são o pior exemplo para invocar o que quer que seja para o PS...

Posted by Bruno at 10:22 PM

janeiro 24, 2005

Debater...

O engenheiro Sócrates, ao não querer participar em debates nos moldes em que os outros líderes dos partidos com assento parlamentar têm participado na SIC Notícias, está no seu direito. O dr. Santana, ao criticá-lo por isso, está também no seu direito. Quando afirma que enquanto o engenheiro Sócrates não aceitar participar nesses debates ele, Santana, suspende a sua própria participação, está a perder toda a legitimidade de criticar Sócrates. E o facto de isto ser a questão que ocupa grande parte dos noticiários sobre a campanha demonstra o vazio que reina naquelas cabecinhas.

Posted by Bruno at 10:39 PM

janeiro 23, 2005

A Retórica e a Acção

Na sua crónica de hoje no Público (sem link), Vasco Pulido Valente afirma que George W. Bush é um homem perigoso. Isto porque o dito senhor (Bush, não Pulido Valente) proclama "a liberdade para todo o mundo", o que VPV vê como um perigoso idealismo. Idealismo esse que VPV entende que se aplica também a gente como Kennedy e Wilson, mas não a Lincoln, Roosevelt e Truman, que, segundo VPV, "para lá da retórica, tinham objectivos limitados". Percebo que o teor idealista do discurso de Bush faça espécie a VPV. Eu próprio, grande apreciador dos seus discursos, se olhar para o conteúdo expresso por essa retórica, fico de pé atrás. No entanto, não percebo porque razão VPV, que separa a retórica (supostamente idealista) da acção (aparentemente pragmática) de Lincoln, Truman e Roosevelt, não o faz em relação a Bush. Basta ver a relação dos EUA com a Rússia, país onde, como a comida, não abunda a liberdade, e não é por essa razão que Bush não mantém relações mais ou menos cordiais com Putin. As tais tiranias que, segundo VPV, não tardarão a se tornarem alvos de Bush (Irão e Coreia do Norte), são tiranias que não escondem a sua hostilidade aos EUA. É que para lá da retórica, o objectivo de Bush, embora não tão limitado como os dos presidentes referidos por VPV, está bem definido: não permitir que os inimigos dos EUA produzam armas que possam chegar às mãos de quem não hesitará em usá-las. Percebo que VPV ache que o Iraque foi um erro. VPV é um céptico. Percebo que ache que incursões armadas dos EUA no Médio Oriente estarão condenadas ao fracasso. No entanto, a ameaça existe. Bush, mal ou bem, quer lutar contra ela. Para lá da retórica.

Posted by Bruno at 10:30 PM

Not Very PC, Is It?

"My dear boy, the anus was designed for the retention and expulsion of faeccal matter, not for the reception of foreign organs, however lovingly placed there."

Auberon Waugh para o filho Alexander, in Alexander Waugh, Fathers and Sons, pág. 169

Posted by Bruno at 10:23 PM

janeiro 22, 2005

Diz Tudo II

No Público, João Teixeira Lopes, do Bloco de Esquerda, tentou justificar as polémicas declarações de Louçã no debate com Paulo Portas, afirmando que "há um limiar de hipocrisia muito forte da parte de Paulo Portas, que constrói uma fachada de conservador, de homem de Estado, mas que depois não a leva até às últimas consequências". Segundo Teixeira Lopes, "para ser fiel aos princípios que professa Paulo Portas deveria constituir família e ter filhos". Muito mais do que as declarações de Louçã, um exemplo típico da sua atitude perante o debate político, as declarações de Teixeira Lopes, são uma estupidez só comparável à falta de escrúpulos que evidencia.

Primeiro, convém não ignorar a insinuação feita por Teixeira Lopes em relação aos boatos sobre a vida pessoal de Portas. E depois considera que o implicado nesses boatos tem por sua vez implicações políticas. Não tem. O facto de Portas defender a família tradicional, não deve implicar que ele próprio constitua família. Aliás, o facto de Portas não constituir família pode estar relacionado com muitos factores, que não aquele insinuado por Teixeira Lopes, e factores esses que não implicam qualquer hipocrisia ou incoerência (e eu nem sequer acho que o insinuado por Teixeira Lopes indique incoerência). Dou um exemplo. Portas pode pura e simplesmente não ter encontrado ninguém que queira aturar para o resto da vida. Mais, o facto de uma pessoa achar que algo deve ser protegido, não implica que essa pessoa o pratique. Por exemplo, eu acho que deve ser protegido o direito de uma pessoa votar no Bloco de Esquerda (ou noutro partido qualquer). Não sou por isso obrigado a votar nos ditos. Portas pode achar que a família tradicional deve ser protegida (seja lá o que essa protecção for, e ignorando, aqui, o aproveitamento populista que Portas faz dessa posição), mas isso não implica que ele próprio se tenha de casar e ter filhos. O aproveitamento político que o Bloco de Esquerda quer fazer dos boatos que circulam em redor da vida pessoal de Portas (por quem, como será sabido do leitor atento, não nutro qualquer simpatia política) é bem revelador do carácter totalitário, para além, mais uma vez, da falta de escrúpulos, daquele grupelho. No entanto, não percebo como alguém se pode espantar com isto. Ele esteve sempre à frente dos olhos de todos. Só não viu (só não vê) quem não quis (quem não quer) ver. E houve, claro, quem tenha visto, mas não se importe muito.

Posted by Bruno at 10:13 PM

Diz Tudo

O professor Marcelo Rebelo de Sousa está, segundo o Expresso (pode ser mentira, portanto), a preparar-se para fazer os seus comentários políticos na RTP. De caminho, parou em Celorico de Basto, onde foi recebido como uma coelhinha da Plaboy no Apocalipse Now de Coppola. O que foi lá fazer Marcelo Rebelo de Sousa. Dar o seu apoio pessoal à candidatura parlamentar pelo círculo de Braga de Luís Felipe Menezes. Exactamente. Luís Felipe Menezes. Caso Marcelo tivesse ainda qualquer réstia de credibilidade, perderia-a imediatamente. Isto claro, se Portugal fosse um país civilizado. Não é. E vergonha na cara é coisa que não existe.

Posted by Bruno at 10:02 PM

janeiro 21, 2005

Uma Boa Razão (Para Não Votar)

A propósito da apresentação do programa eleitoral do seu partido, Santana Lopes deu uma entrevista ao Jornal da Noite da SIC. Quando questionado acerca de por que razão deveriam os eleitores votar no PSD para cumprir o porgrama apresentado, depois de este ter estado no governo durante três anos (estou a parafrasear as palavras do jornalista), o dr. Santana respondeu que os eleitores deveriam julgar se era "justo" que após dois anos a tomar medidas impopulares, o governo fose derrubado, logo na altura em que esperava retirar os dividendos políticos (leia-se "eleitorais") de um período que entendia ser mais folgado. Já não é a primeira vez que Santana Lopes faz esta afirmação, que se queixa da "injustiça" da situação. E esta é uma boa razão para não votar no senhor em causa. Primeiro, denota que Santana vê esta questão como uma questão pessoal, em que ele, vítima da Injustiça, procura, com a benção eleitoral do povo (segundo diz o próprio, em extâse populista, a sua "comissão de notáveis"), o caminho para a Salvação. E em segundo lugar, estas declarações, juntamente com as afirmações constantes de que já partiu de situações piores, e que mesmo assim ganhou "sozinho contra tudo e todos", revelam a postura de Santana perante a actividade política. Veja-se que Santana não considera (ou pelo menos não o afirma, o que vai dar ao mesmo sítio) que a posição do Presidente seja nociva para o regime e para a governabilidade que o país necessita. Santana queixa-se de esta situação vir numa altura em que o PSD está numa situação complicada, e que, segundo ele, estaria prestes a ser invertida, e que assim foi beneficiado eleitoralmente o PS. Admito até que seja verdade. Não deveria ser essa a questão. Santana Lopes mão deveria tratar a política como um jogo de futebol, em que o que interessa é ganhar. O PSD é suposto representar um eleitorado, e, ganhe ou perca, uma certa tradição política. A queixar-se de alguma coisa, deveria ser do efeito nocivo para a governação do país da decisão do Presidente. É verdade que, por vezes, fez também esta crítica. Não deveria nunca ter feito outra: não passa de demagogia. E terá efeitos tão nocivos como a decisão que o dr. Santana Lopes considera, ou pelo menos afirma considerar, ter sido uma "injustiça".

Posted by Bruno at 10:54 PM

A Ilusão Estatista

O PSD apresentou hoje o seu programa de governo. Quero lê-lo com atenção antes de o comentar, mas do discurso de hoje de Santana Lopes, houve um ponto que me chamou a atenção, e que posso comentar desde já. De acordo com o programa do partido, será necessário adaptar o sistema de ensino às necessidades dos jovens e do mercado. Como todas as iniciativas de desenvolver o país através de um magnífico plano educativo, este ponto do programa do PSD está condenado ao fracasso.

A razão é simples. O estado não pode interpretar as necessidades do mercado, e moldar um sistema educativo para responder a essas mesmas necessidades. Já é duvidoso que uma série de senhores no ministério da educação o consigam fazer, ponto final. Mas mesmo admitindo que sim. Não podemos ignorar que os efeitos de uma política educativa não se sentem de imediato, e as necessidades do mercado não são imutáveis, o que implica que dificilmente as medidas que visem responder a determinadas necessidades (e partindo do duvidoso princípio de que o estado as consegue interpretar) possam ter efeitos antes que essas necessidades se alterem.

A conclusão é simples: o desenvolvimento do país não nascerá de um qualquer plano educativo. A alternativa é simples. Seria postivo que os alunos e os seus pais ou encarregados de educação pudessem escolher livremente, entre vários projectos educativos em competição, qual aquele que melhor se adequa ás suas pretensões, interesses e aptidões. A alternativa, embora simples, não é, também ela, a chave para o desenvolvimento, nem sequer garante que as tais necessidades encontrem resposta. Apenas evita que a intervenção do Estado, visando responder ao que julga ser as tais necessidades do mercado e dos jovens, crie nos últimos uma série de expectativas que, tendo em conta o carácter ilusório da pretensão estatista de resposta às ditas necessidades, são também elas nada mais nada menos que ilusões.

Posted by Bruno at 10:12 PM

janeiro 20, 2005

Significativo

Pedro Silva Pereira, dirigente político do PS, insurgiu-se contra aquilo a que chamou de calúnia, dizendo que "não vale tudo em campnaha eleitoral". A que se referia Silva Pereira? Seria de esperar que se referisse às vergonhosas declarações e insinuações de Nuno Cardoso, contra o Ministro da Justiça José Pedro Aguiar Branco. Mas não. Silva Pereira referia-se a umas quaisquer declarações, aparentemente falsas, de Santana Lopes. Acerca das declarações de Cardoso, Silva Pereira não fez comentários. Aparentemente, o PS "não confunde justiça com actividade política". Mas quando um militante do PS é acusado (e portanto, convém não esquecer, inocente até prova em contrário) de, ao exercer um cargo em representação do PS, confundir a sua actividade política com os interesses de um determinado clube de futebol, e acusa um ministro de confundir aquilo que segundo Silva Pereira o PS não confunde, o PS (na pessoa do seu porta-voz, e não por meras intrevenções individuais de militantes) não deveria confundir conveniência e prudência. Infelizmente, confunde. Prefere, por conveniência, o silêncio. A opção não deixa de ter o seu significado.

Posted by Bruno at 04:29 PM

janeiro 19, 2005

Pedir Responsabilidade é Ser Irresponsável

Durante o período de campanha eleitoral americana, lia-se no blog de Andrew Sullivan, em mails de vários leitores, e isto numa altura em que Sullivan ainda estava mais próximo de Bush do que estaria em Novembro, que uma das vantagens de uma eventual vitória de Kerry seria a de que isso obrigaria os Democratas a serem responsáveis nas questões da "guerra contra o terrorismo". Falo disto porque, neste período que antecede as eleições legislativas no nosso país, já ouvi o argumento de que uma eventual vitória do PS seria positiva, porque obrigaria o PS a ser responsável em termos de política financeira.

A pergunta que faço é simples: o que faz com que alguém possa pensar que, por o PS vir, caso ganhe, a enfrentar uma situação inequivocamente complicada, em termos de finanças públicas, seguirá o caminho responsável? Seria, de facto, positivo que o PS estivesse disposto a resolver o problema. Mas como se pode esperar responsabilidade de alguém, apenas e só porque a situação o exige? Nos tempos de Guterres, também se exigia que se aproveitasse o bom momento da economia para consolidar as finanças públicas, e não foi por isso que tal foi feito.

Mais, não se pode esperar que o Estado seja responsável, só porque assim devia ser. O Estado, a máquina estatal, devora riqueza que não produz. Mais: devora demasiada riqueza que não produz, num país onde a riqueza que é produzida é ela própria escassa. Manter a máquina estatal no estado em que está é, essa sim, a maior das irresponsabilidades. Espera-se que o PS seja responsável, porque a situação assim o exige. No entanto, do PS não se pode esperar, porque iria contra o que o faz ser aquilo que é, a única atitude responsável, reduzir o peso do Estado. O problema é que do outro lado, de onde deveriam vir as propostas em sentido contrário ao PS, as propostas de reforma dessa máquina cuja manutenção é a maior irresponsabilidade de todas, vem apenas o silêncio. Ou a demagogia. E portanto, lá vamos esperando que o PS seja responsável, porque a situação assim o exige. Não será. E nós, ao esperar que o seja, também não estamos a ser...

Posted by Bruno at 10:13 PM

janeiro 18, 2005

Previsível

Aquando do anúncio da dissolução da Assembleia, e marcação de eleições antecipadas, escrevi que uma das possíveis consequências nefastas da situação entretanto criada pelo Presidente era a de que, muito provavelmente, a campanha do PSD e de Santana Lopes tivesse um forte componente de crítica à decisão do Presidente, e que daí poderia vir uma nova configuração do nosso regime político, em termos de equilíbrio de poder entre as várias insituições políticas. Escrevi também que não sou grande adepto do regime actual, onde o parlamento está enfraquecido e dois poderes eleitos por sufrágio universal entram potencialmente em confronto, mas que uma reforma do mesmo feita a partir de uma campanha demagógica motivada por um caso específico não seria a melhor maneira de resolver o probelma.

O anúncio, ontem, por parte de Santana Lopes, de que o PSD iria propor a limitação dos mandatos Presidenciais para um mandato único, é o exemplo típico de uma mudança de fundo motivada única e exclusivamente por um factor conjuntural, e que consequentemente será incapaz de responder aos problemas que a longo prazo, eventualmente se possam colocar. Veja-se que o verdadeiro problema, o conflito entre a legitimidade do Parlamento e a legitimidade do Presidente, se mantém. Estes poderes não se limitam um ao outro, como nos estados Unidos, por exemplo, se limitam entre si o poder executivo (a Casa Branca) e o legislativo (o Congresso). Essa relação, em Portugal, é entre o Governo e o Parlamento. A figura do Presidente, nos termos em que existe, ou é inócua, ou é fonte de conflito.

Para mais, os próprios propósitos a proposta de Santana não têm qualquer cabimento. A intenção seria, supostamente, eliminar a tendência de, nos segundos mandatos, os Presidentes serem um pouco mais hostis em relação ao Governo, caso seja de uma cor política oposta. Diz a sabedoria comum que, no primeiro mandato, com o receio de não serem reeleitos, os Presidentes se mostram um pouco mais comedidos. No segundo mandato, supostamente libertos de constragimentos, entrariam num desvario contestário ao governo, como se não houvesse amanhã. Ora, seguindo a sabedoria comum que o dr. Santana tanto parece apreciar, infere-se imediatamente que a consequência da sua proposta de eliminação de um segundo mandato presidencial traria consigo a eliminação do tal constragimento que supostamente existe no primeiro mandato.

Para além destas minudências, o que nos revela este anúncio por parte do PSD? Que Santana Lopes não pensa para além do conjuntural, e que nem sobre isso pondera grandemente, o que leva a que aquilo que propõe não tenha qualquer efeito, ou pior, a que possa agravar aquilo que pretende corrigir. E que no seu partido, ninguém parece ter força ou coragem para alterar a situação em que o dito se encontra. Como o PS não poderá ser mais que um gestor "responsável" de um modelo que está esgotado, e mesmo isso já é pedir muito a alguém que dá as indicações que nos tem dado o engenheiro Sócrates, as reformas que o país necessita continuarão a ser adiadas. Ou seja, pela insensatez do PSD, é o país que paga.

Posted by Bruno at 10:40 PM

Interessante...

Chega-me às mãos um panfleto do Bloco de Esquerda. Diga-se de passagem que o dito me foi entregue por uma jovem esquerdista que destrói sem qualquer piedade católica ou comiseração progressista o mito de que por aqueles lados a riqueza estética se encontra mais equitativamente distribuída. Na realidade, a dita jovem só provocaria um crescimento sustentado no ramo executivo de um macho explorado pelo capitalismo, se porventura, fosse geneticamente modificada. E como é sabido, o BE não é favorável a essas imposições totalitárias do grande capital.

Voltando ao assunto: recebo um panfleto do BE. Intitula-se "10 prioridades para uma viragem no país". E nele podemos encontrar as "10 prioridades para os primeiros 100 dias". Trata-se portanto do programa do que o dr. Soares, embora "não concordando com tudo" (obviamente), achou "interessante" (mais óbvio ainda). Tenho de admitir que concordo com o dr. Soares. De facto, é "interessante". Veja-se por exemplo, a medida nº2: "Aborto: fim da perseguição das mulheres". É, de facto, "interessante". A típica demagogia do BE, sempre do alto da sua suposta superioridade moral. Gosto também particularmente de algo que não está incluido nas tais 10 medidas. Não é por isso que o seu valor é menor. Veja-se bem: "Uma nova Constituição para uma Europa Solidária". O BE sem adjectivação não existe. Tudo tem de ser adjectivado. Desde que, obviamente, o adjectivo não seja a palavra "mau". Como sabemos, o "Mal" é, como a "Culpa", uma invenção judaico-cristã, e cuja utilização, a bem da libertação do "inner-self" dos cidadãos, e do apaziguamento das boas consciências, deve ser expurgada da linguagem corrente. "Solidário" já não tem esse problema. não só não deve ser banido, como deve ser obrigatório. "Solidariedade compulsiva", ora aí está o caminho do futuro. E sempre se têm a Coreia do Norte como exemplo. "Solidário" é um adjectivo progressista. E se algo é "solidário", é bom, independentemente da forma que possua. Basta-lhe ser solidário. Veja-se o próprio BE. Alguns dos seus membros seguiam, até há uns anos, a Albânia como modelo. Hoje continuam a seguir, mas já não têm coragem para o dizer. No entanto, são "solidários", que é coisa que ninguém que defenda "esse Bush" pode ser. Preocupam-se com as desigualdades. Não importa se melhoram ou pioram: o que interessa é nivelar. Normalmente, por baixo. é o preço a pagar (compulsivamente) pela "solidariedade".

No entanto, a minha preferida é a seguinte afirmação: "àgua e energia não são negócios". Perfeito. O velho preconceito do BE contra o negócio e o dinheiro, esse agente corruptor da natural bondade humana. E sempre se consegue ser "solidário", porque como é sabido, o negócio é contra os pobres (explora-os, ao contrário do que se passa na Coreia do Norte, onde a liberdade é tanta,que nem lhe dão atenção), e como o BE é contra o negócio, é o defensor dos pobres. Os outros são exploradores. O BE é "solidário".

Pena é que a "solidariedade" contida nas medidas propostas pelo BE tenha, caso estas sejam implementadas, uma única consequência: um agravamento do estado da economia, que colocará em pior condição precisamente aqueles que são alvo da "solidariedade" do BE. Com a benção (passe a terminologia judaico-cristã) do dr. Soares. Interessante...

Posted by Bruno at 10:02 PM

janeiro 17, 2005

Falsas Questões

Assisto ao Prós e Contras (um mau programa de debate, muito devido à má apresentadora que tem). Fátima Campos Ferreira, ao abrir o programa, fala dos vários desafios que o país enfrentará. Entre eles, refere-se à "diminuição do fosso cada vez maior entre ricos e pobres" (secundada, obviamente, pelo dr. Soares). Primeiro que tudo, eu não sei se existe um fosso cada vez maior entre ricos e pobres. Mas admito que seja verdade. O que não percebo é a razão porque a sua diminuição é um desafio para o país. Percebo porque razão o dr. Soares possa pensar assim. Percebo até porque razão a dra. Campos Ferreira possa pensar assim. Não percebo é porque razão a dita o menciona como se fosse algo sem discussão. Não é. Qual o problema de a diferença entre os ricos e os pobres ser maior do que era? Pessoalmente não vejo nenhum. Até porque se se define como objectivo a diminuição desse fosso, temos logo um problema: onde é que se pára? Qual será a diferença minimamente aceitável para que as boas consciências vivam com a consciência apaziguada? Porque é que uma diferença de mais de 25% (número hipotético) é inaceitável, e uma de 10% (número hipotético) não? E se 10% é aceitável, porque 50%? Se 25% não é aceitável, porque razão qualquer diferença o será?

Não quero com isto desvalorizar o problema da pobreza em Portugal. Esse problema existe. Mas não está no fosso entre ricos e pobres. Está em existirem pessoas que não têm um mínimo para viver. Isso sim é preciso resolver. E é precisamente a tentativa de resolver o problema ilusório, o dito fosso, ao dar ao estado um peso tremendo, e consequentemente ao aumentar a rigidez da economia (para além de desviar a atenção do Estado daquilo que este devia realmente fazer), dificulta a resolução do verdadeiro problema, o número de pessoas que vive abaixo de um limiar de pobreza. Independentemente da diferença que os separe dos mais ricos. Eu não quero um Estado que pretenda diminuir a diferença entre ricos e pobres. Quero um estado que se preocupe em permitir que ninguém viva abaixo de um nível mínimo. A partir daí as diferenças, ao nível dos rendimentos, entre os vários indivíduos, surgirão. Por mérito. E sim, por sorte, e sim, por privilégio. Há pessoas que nascem ricas. Muitas vezes, porque os pais trabalharam para que os seus filhos pudesem ter uma vida melhor que aquelas que eles tiveram. E não há ambição mais valorosa que esta. Querer acabar conm o privilégio não é só querer acabar com as diferenças. As diferenças (devidas ao mérito à sorte ou ao privilégio) fazem parte da condição humana. E é esta última que angustia o dr. Soares, e a dr. Campos Ferreira. É esta última que o dr. Soares e a dra. Campos Ferreira gostariam de mudar. E esta é a mais insensata e perigosa das suas ilusões.

Posted by Bruno at 10:19 PM

janeiro 16, 2005

Uma Ameaça Maior

Nas terras do Império, a New Yorker publica um artigo de Seymour M. Hersh que afirma que os EUA estão a preparar uma intervenção militar no Irão, tendo em vista a desmantelação do projecto de desenvolvimento nuclear iraniano. Pessoalmente, acho muito bem que o façam. Confesso que não li o artigo (não costumo comprar a dita revista, e no site o artigo ainda não está disponível), mas ouvi a entrevista de Hersh no Late Edition da CNN. E fiquei com a ideia de que Hersh fazia essa afirmação em tom de condenação, como se a eventual intervenção americana que segundo ele se prepara fosse uma ameaça maior que um Irão nuclear. Curiosamente, a Spectator desta semana publica um artigo de Douglas Davis sobre o programa nuclear iraquiano, e a ameaça que representa. Da leitura do artigo, fica a ideia: o Irão está efectivamente a desenvolver o dito programa, e que, se tiver sucesso e passar a ter acesso a armas nucleares, isso representará um factor de destesbailização para a região, nomeadamente um factor de insegurança para Israel, e que, portanto, mais tarde ou mais cedo, será necessário agir. E foi exactamente isto que, pelo que ouvi na sua entrevista, me pareceu que Hersh não consegue perceber. Hersh considera que a Administração Bush subestima uma reacção nacionalista de apoio ao regime de teerão, memso por parte daqueles que a ele se opõem. Admito até que possa ter razão, e caso tenha, reside aí um problema para a Administração. No entanto, o verdadeiro perigo está num Irão com poder nuclear. E o pior, segundo o artigo de Davis, é que o Irão pode não estar sozinho nesta procura de desenvolver uma capacidade nuclear.

Posted by Bruno at 09:39 PM

janeiro 15, 2005

"Contra Ventos e Marés"

Quando Santana Lopes tomou posse, pensei (e escrevi-o várias vezes) que a sua governação seria má para o país. O que não esperava, sinceramente, é que fosse má para ele próprio. Ou seja, esperava que Santana vendesse bem a única coisa que tinha para oferecer, a sua imagem. No entanto, na realidade, Santana e a sua entourage parecem estar numa desorientação tão grande, que nem isso conseguem fazer. Em Setembro escrevi "se inicialmente foi o Primeiro-Ministro que usou os media para moldar a sua imagem, são agora os media que moldam a imagem do Primeiro-Ministro. É este o grande problema de governar para os media: fica-se inteiramente dependente da imagem que eles passam". Todos estes meses se caracterizaram por uma coisa: Santana Lopes lutando "contra os ventos e marés" da imagem que se foi criando em redor da sua figura. E ao tentar sobreviver a essa imagem, a todo o custo porque nunca teve mais nada, deixou-se enredar numa teia de acontecimentos que não revelam nada a não ser desorientação.

Veja-se o cartaz que ostenta a frase que o título deste post rouba. Santana tem, neste momento, um problema de credibilidade. Alimentar a imagem de quem se julga uma vítima só piora a situação. Nem sequer há aí o levantar de um problema (que esse sim é real), do que poderá significar a longo prazo, em termos de funcionamento do regime e de condições de governabilidade, da acção do Presidente da República. Nada. Pura e simples vitimização, que procura recuperar o mito santanista do homem que ganha eleições contra tudo e todos. Aliás, como a entrevista de hoje ao JN (da qual, convém deixar bem claro, conheço apenas o que as televisões dela deram a conhecer) é mais uma vez exemplo, com a referência do Primeiro-Ministro às eleições que ganhou em Lisboa.

Não me preocupa o futuro político de Santana Lopes. Espero, aliás, que seja inexistente. O que me preocupa é o efeito que este tipo de acção terá no país. O "debate" político, girando em torno deste vazio, vai diminuindo as condições para que possa surgir alguém que tenha a coragem de falar verdade aos eleitores, mesmo que isso lhe custe a derrota. Principalmente quando ao vazio e incoerência de Santana se opõe o vazio e incoerência de Sócrates, como as declarações do dito engenheiro acerca dos benefícios fiscais demonstram.

O resultado é simples. E assustador. Na campanha eleitoral em que já estamos, não se fala de política. Não se fala dos custos que inevitavelmente terão que ser suportados pelos cidadãos nos anos que se avizinham, porque todos receiam que isso lhes custe a vitória. Essa atitude colocará quem quer que venha a ocupar o governo em tremendas dificuldades quando esses custos e sacríficios tiverem que ser exigidos. As condições de governabilidade vão sendo cada vez menores. O que vai diminuindo também cada vez mais as possibilidades de se fazerem as reformas de que o país necessita.

Posted by Bruno at 10:05 PM

janeiro 14, 2005

Governabilidade

Tem-se vindo a discutir nos últimos tempo a proposta do Presidente da República relativamente a um eventual "pacto de regime". A opinião generalizada tem sido a de que os problemas do país não se resolvem com pactos de regime. Concordo. Obviamente, outras hipóteses tem sido levantadas, de forma a conseguir a dita resolução dos ditos problemas. A mais curiosa foi a levantada no passado Sábado por Campos e Cunha, na TSF, no programa de Margarida Marante. Segundo Campos e Cunha, seria positivo que, por exemplo, em relação a questões de política fiscal, fossem criadas normas "semi-constituicionais", que, para serem alteradas, necessitariam de uma aprovação parlamentar de dois terços (ou 75%, já não me recordo). A intenção seria permitir uma maior continuidade na área fiscal, procurando através da estabilidade que ela permitiria, resolver os tais problemas.

Ponho de parte a dificuldade que se teria em que os dois principais partidos chegassem a acordo quanto a quais deveriam ser as tais normas "semi-constitucionais". Imaginemos que esse acordo era conseguido. Imaginemos que isso resolveria os problemas que hoje indentificamos como os que atormentam o país. Mesmo que isto assim fosse, estaríamos a criar um outro problema. Quando esses problemas estivessem resolvidos, outros imediatamente se levantariam. E a esses, muito dificilmente essas normas "semi-constitucionais" dariam resposta. E aí, seria novamente necessário um acordo entre os dois maiores partidos, pelo menos (nada nos garante que o panorama eleitoral não se alterasse radicalmente, dificultando ainda mais a obtenção de tais acordos). Embora pudesse, no imediato, permitir a execução de certas reformas, dificultaria a realização de reformas que posteriormente pudessem vir a ser necessárias. E "um estado sem capacidade de se reformar é um estado sem capacidade se conservar" (a sabedoria da aristocracia inglesa nunca deve ser menosprezada). O melhor exemplo que se pode dar é o da nossa Constituição, que, tendo obtido um acordo entre os maiores partidos em 76, é hoje um obstáculo a certas reformas absolutamente necessárias, e cujo acordo que será necessário obter de forma a possibilitar esas reformas é praticamente impossível, devido à relutância do PS.

O país tem, inegavelmente, um problema de governabilidade. Aumentar a rigidez da mudança política (no fundo, o que propôs Campos e Cunha), não resolve esse problema. Muito pelo contrário.

Posted by Bruno at 10:46 PM

Olhe Que Não, Olhe Que Não...

No Blasfémias, escreve o Carlos Abreu Amorim: "Uma pérola este raciocínio. A forma de resolver os problemas de um casamento é impedir os cônjuges de se divorciarem por falta de patrocínio (por acaso, hoje em Portugal já não resultava completamente). Brilhante solução. E dada a condição do protagonista, certamente infalível...". Isto a propósito do apelo do Papa à recusa por parte de advogados católicas de defenderem clientes que se pretendessem divorciar.

Como será sabido do leitor atento, o Senhor não me conta entre os que na Sua existência têm Fé. E mesmo que assim não fosse, muito dificilmente me contaria como membro da Igreja Apostólica Romana. Não tenho, portanto, nada em comum com o Papa. No entanto, não posso estar de acordo com o que diz o CAA. Em primeiro lugar, na afirmação transcrita pelo Carlos, não está nada que me indique que o Papa tenha afirmado que impedir os cônjugues de se divorciarem resolveria os problemas do casamento. O que está dito pelo senhor em causa é que os advogados católicos não devem estar pessoalmente implicados em algo que a Igreja a que pertencem e cuja doutrina observam considera imoral. O que é perfeitamente normal. Não há qualquer pretensão de através disso resolver o que quer que seja.

Mais: não vejo que problema é que aquelas afirmações causam a um liberal. Na sociedade liberal que o CAA supostamente defende, o advogado que entende observar a doutrina da Igreja tem toda a liberdade para o fazer. Se entender que não deve defender um cliente em caso de divórcio, está no seu direito. E esse cliente escolherá um outro advogado. O advogado católico faz uma escolha, e viverá com as consequências dessas escolhas: verá o seu negócio eventualmente prejudicado, mas isso é um problema seu.

Um indivíduo tem o direito de se divorciar, caso ache que essa é a melhor escolha para si. Mas o seu advogado tem o direito de achar que defendê-lo nesse divórcio ofenderá Deus, e de consequentemente não o aceitar fazer. Isso não resolverá os problemas desse casamento. Claro que não. Mas permite ao advogado seguir aquilo que considera, por ensinamento da Igreja a que pertence, ser a vida moral. E numa sociedade livre, é assim que as coisas funcionam. Cada um leva a vida de acordo com o que considera ser o comportamento correcto, desde que obedeça a certos principios civilizacionais, aceites por todos, que nos permitem viver numa sociedade. Querer outra coisa é não querer liberdade...

Posted by Bruno at 10:17 PM

janeiro 13, 2005

Mau Sinal 2

No Observador, o André responde ao que aqui escrevi acerca das perspectivas que se abrem com as recentes eleições na Palestina, no que diz respeito ao conflito com Israel. Tanto o André como eu temos a mesma posição relativamente a esta questão. O que nos separa é a expectativa que temos em relação à possível verificação daquilo que defendemos. Diz o André que "não há outro remédio" senão os dois países se entenderem. Concordo. Mas não esqueço a propensão da natureza humana para se lançar em direcção ao abismo. E do lado palestiniano, tenho dúvidas que haja vontade ou, na menos má das hipóteses, margem de manobra para se chegar à solução que o André e eu gostaríamos de ver. Porque é isso que as declarações de Abbas mostram: que mesmo que Abbas só tenha classificado Israel como o "inimigo sionista" por razões eleitoralistas (e esta será a melhor das hipóteses), o que é verdade é que sentiu a necessidade de o fazer, o que é um claro sinal da sua fraqueza. E esta é repito, a melhor das hipóteses. Talvez, como diz o André, os sinais nunca tenham sido tão bons. De facto, tem havido sinais claramente positivos, como os referidos pelo André. Mas as declarações de Abbas (aquilo a que me referia nesse post) não se contam entre eles.

Posted by Bruno at 09:54 PM

janeiro 12, 2005

Irresponsabilidade

O engenheiro José Sócrates terá afirmado hoje que prometer aumentar todas as pensões era um acto demagógico, visto que, caso essa medida fosse levado a cabo a curto prazo, conduziria à falência do Estado-Providência. A partir de amanhã, choverão certamente uma série de elogios ao sentido de responsabilidade do engenheiro Sócrates, por afastar do seu discurso promessas irrealistas. E caso surjam, serão precipitados. Não que o engenheiro neo-fronteiriço não tenha razão. Tem. Fazer, agora, a convergência das pensões ao salário mínimo teria como mais que provável consequência a falência do sistema das ditas. O problema é que o dito sistema está, a longo prazo, condenado à falência, quer se faça agora a convergência das pensões ao salário mínimo ou não. As declarações de Sócrates não são menos ilusórias ou demagógicas que promessas de fazer a dita convergência. Ambas alimentam a ideia de que o dito sistema é sustentável. Não é. A ilusão de que é possível manter o equilíbrio do sitema de pensões não passa disso mesmo, uma ilusão. Sócrates, com uma declaração aparentemente responsável, comete a irresponsabilidade de esconder a verdade quanto a esta questão: a de que inevitavelmente, é preciso uma mudança profunda na Segurança Social, muda essa que acarretará sacríficios para os sus beneficiários. E quanto mais tempo essa ilusão se mantiver, mais duro será o confronto com a realidade. As declarações de Sócrates merecerão amanhã uma série de elogios. Estes serão tão irresponsáveis e ilusórios como as declarações do engenheiro...

Posted by Bruno at 10:19 PM

janeiro 11, 2005

Mau Sinal

Realizam-se eleições na Palestina. E subitamente, os plumitivos enchem-se de esperança quanto a uma boa resolução do conflito na região. Abbas (o eleito) sempre se apresentou como um moderado, alguém que poderia dialogar com Israel. No entanto, no decorrer da campanha eleitoral, Abbas terá feito declarações em que se referia a Israel como "o inimigo sionista". E supreendentemente, todos desvalorizam. Segundo nos dizem, são meras declarações eleitoralistas, para apelar a sectores mais radicais e a viúvas ideólógicas de Arafat. Estranhamente, ninguém parece perceber duas coisas: que essas declarações "meramente eleitoralistas" são o sinal de que esses sectores radicais e essas viúvas ideológicas continuam a existir na Palestina, e que Abbas está dependente do apelo a esses sectores. Dificilmente se poderá apelar a esses sectores e dialogar com Israel. Ao contrário do que nos dizem os plumitivos, não há aqui nada para se ter expectaivas positivas quanto ao conflito israelo-palestiniano.

Posted by Bruno at 10:04 PM

Porque Será?

Gerou-se por aí grande polémica com a visita de Morais Sarmento a S. Tomé e Príncipe. Segundo consta, o senhor Ministro terá passado um dia livre nas praias do dito país. Diz o senhor Ministro que, da parte do governo de S. Tomé, não houve, subitamente, disponibilidade para o receber, tendo em alternativa oferecido um programa de actividades para manter a comitiva entretida. Como disse, gerou-se por aí grande polémica. Não sei se o dr. Morais Sarmento tem razão. O que me despertou a atenção foi a reacção do engenheiro José Sócrates. Diz o engenheiro que não comenta os mergulhos das outras pessoas. Esta é aliás, a reacção que seria de esperar. Afinal, também nunca comentou (embora dessas vezes sem avisar que não iria comentar) as idas de ilustres deputados do seu partido a jogos de futebol, em visita oficial. Tudo se deve, com certeza, à coerência que todos reconhecem na pessoa do engenheiro...

Posted by Bruno at 09:51 PM

janeiro 10, 2005

A Ler

O demasiado sono que tenho impede-me de escrever algo de jeito acerca do que quer que seja. Fica apenas o link para o que escreve, no Rua da Judiaria, o Nuno Guerreiro, acerca do (mau) jornalismo de Paulo Dentinho e da RTP (paga por todos nós, convém não esquecer), na Palestina. Um exemplo claro do que está mal no jornalismo português...

Posted by Bruno at 10:10 PM

janeiro 09, 2005

Melinda and Melinda

melindaandmelindapubb.jpeg

Dois dramaturgos jantam com dois amigos. Um escreve tragédias, e acha que a vida é essencialmente cómica, porque senão as peças do outro não teriam tanto sucesso. O outro escreve comédias, e acha que a vida é essencialmente trágica, e as pessoas só vão ver as suas comédias por se tratar de uma forma de escape da dureza da vida. Ambos ouvem o relato de uma mulher que, completamente de surpresa, chega a casa de uns amigos, na precisa altura em que estes organizavam um jantar. A partir daí, os dois irão conceber a história dessa mulher, um concebendo uma tragédia, o outro uma comédia. A história de Melinda.

É esta a premissa de Melinda and Melinda, do mestre Woody Allen, também conhecido pelos seus conterrâneos como Woody Allen. A carreira de Woody Allen dividiu-se entre os filmes marcadamente mais cómicos (os mais recentes, por exemplo) e os mais drámaticos (Crime and Misdemeanors, para dar o exemplo de um dos meus preferidos). Melinda and Melinda, ao partir de um mesmo evento para nos conduzir por dois enredos diferentes, um dramático, um cómico, revisita todos os elementos dessa carreira. Todas as preocupações allenescas. Todas as obsessões. É costume dizer-se que Woody Allen só fez um filme ao longo da carreira. Mas o que é verdade é que o faz sempre de maneira a que cada um deles mereça ser visto. Melinda and Melinda é o exemplo radical disso mesmo, ao conter num só filme dois, baseados no mesmo ponto de partida, e que, partilhando uma série de elementos centrais, se desenrolam de forma diferente um do outro. É, por isso mesmo, um filme que só pode ser visto á luz da carreira de Allen. Já o mesmo se passava no filme anterior, Anything Else (um filme menor), em que Allen interpretava uma personagem que fugia (ligeiramente) ao personagem com que sempre se havia identificado, que era por sua vez, interpretado por Jason Biggs. Era um filme em que o Allen mais velho (Allen), era a figura paternal do Allen mais novo, o Allen semelhante ao de Annie Hall (Biggs). Essa distanciação de Woody Allen acentua-se em Melinda and Melinda, em que Allen não interpreta qualquer personagem, deixando a Will Ferrel (que conhecia de comédias ligeiras que aprecio ver ao domingo à tarde) a persona alleniana (só presente no segmento cómico). A ausência de Allen talvez se explique pelo seu envelhecimento, que vai tornando pouco plausível o interesse que despertaria nas beldades que pululam os filmes de Allen.

sevigny.jpeg


Por falar em beldades que pululam nos filmes de Allen, este não é excepção. Melinda é interpretada por Rada Mitchell (que desconhecia), em ambas as histórias, numa interpretação que aconselha alguma atenção a esta senhora, e não apenas devido aos dotes estéticos. Na parte "trágica" do filme, juntamente com Mitchell, destaca-se Chloë Sevigny (que conhecia de filmes independentes de que não gostei). Sevigny tem razões para estar grata ao Criador. De facto, é uma grande actriz. A crítica foi, nesses filmes anteriores de que não gostei (e nos que não vi), bastante elogiosa em relação a ela. Este filme confirma esse talento, que lhe garante uma carreira que merecerá atenção. Para além de que cada palavra que diz desperta desejos pecaminosos em qualquer ser vivo masculino que se paute por uma orgulhosa heterossexualidade. Outra senhora com quem o Senhor foi generoso foi Amanda Peet (que conhecia de filmes duvidosos, e séries ainda mais duvidosas), e que mostra que, para além de actriz cómica boa, é uma boa actriz cómica.

peet.jpeg

Melinda and Melinda talvez seja (não sendo uma obra-prima) o melhor dos últimos filmes de Allen, pelo menos desde o absolutamente genial Deconstructing Harry. Qual o genre (é francês) dos filmes de Woody Allen? Comédias? Tragédias? Comédias com elementos trágicos? Tragédias com elementos cómicos? Um pouco das duas. Tal como Melinda and Melinda. Tal como a vida.

radamitchell1.jpeg

Posted by Bruno at 10:18 PM

janeiro 08, 2005

A Função do Presidente

Continuando nas reacções à proposta de Sampaio: um dirigente do PSD, se não me engano Miguel Relvas, afirmou que essa proposta do presidente entrava directamente me contradição com o seu acto de dissolução do parlamento quando neste estava sentada uma maioria disposta a governar, e que o comportamento do Presidente era tendencioso. Vamos por partes. Entra esta proposta em contradição com o que fez recentemente? Sim. Tem o Presidente da República sido tendencioso? Irresponsável, tem sido, inegavelmente. Tendencioso, depende do que se queira dizer. No entanto, esta declaração de Miguel Relvas (mais uam vez, não tenhoan certeza absoluta que o dirigente do PSD em causa seja o dito, mas creio que sim) deixa em aberto uma questão que não deixa de ser interessante. A questão é simples: deve o presidente ser neutral, ou deve ter um posicionamento político concreto que se reflicta na sua acção? Relvas parece achar que deve ser neutral. Mas convém não esquecer que o facto do Presidente ser eleito directamente lhe dá uma legitimidade similar à do governo que o parlamento também eleito apoia. E teoricamente, um presidente é eleito pelas suas posições políticas, ou seja, é de esperar que elas tenham reflexo na sua acção. Evidentemente, esta poderá entrar em conflito com a acção do governo. Mas esse é um problema do nosso sistema político, que cria ele próprio uma confusão de poderes que não beneficia ninguém. Esperar neutralidade de um presidente eleito pelos cidadãos é ingenuidade. Ter um sistema que não clarifica a divisão de poderes entre orgãos de soberania implica o risco de conflito entre eles. Se Miguel relvas e o PSD acham que isto é um problema, é simples, defendam a mudança.

Posted by Bruno at 10:38 PM

Então Quando?

O Presidente da República propôs que se alterasse o sistema eleitoral português, de forma a facilitar a formação de maiorias absolutas. Esta proposta de Sampaio causou alguma polémica. Carlos Encarnação, Presidente da Câmara de Coimbra pelo PSD, disse ontem, na RTP N, que, por estarmso neste momento em período de eleições, esta não era a melhor altura para se discutir essa questão. Pergunto: independentemente dos méritos ou deméritos da proposta do Presidente, não é precisamente em altura de eleições que estas questões devem ser discutidas?

Posted by Bruno at 10:31 PM

janeiro 07, 2005

Ajuda

Diz aí (bonita expressão popular portuguesa) que Gordon Brown, o "Chanceller of the Exchequer" britânico (como é grandioso aquele país, e aquela língua. Ouça-se estas palavras, e veja-se como até uma figura desprezível como Brown ganha logo uma dignidade que a mera designação de Ministro das Finaças, só por si, nunca dará ao seu titular) quer acabar com a pobreza no mundo. Nobres sentimentos. Como pretende Brown alcançar tão excelso propósito? Com um Marshall Plan para África. O Telegraph, num seu editorial, explica porque este está condenado ao fracasso:

"The Labour "Marshall Plan" for Africa has almost no resemblance to its illustrious predecessor. Once you strip away the rhetoric about a "once in a generation chance to solve world poverty", what is proposed is three initiatives. First, the writing off of Third World debts; second, the doubling of aid; third, the use of financial instruments to front-load aid, so future payments are sped up and received immediately. As so often with Labour, what these amount to is throwing public money at the problem, irrespective of the consequences. The last thing Africa needs is more aid. Already, it receives something like eight per cent of GDP in foreign aid, or 13 per cent if you strip out the big economies of South Africa and Nigeria (at its peak, the Marshall Plan amounted to three per cent of European GDP). Yet much of this money is wasted. Take but one example: the budget for the Department for International Development is growing at nine per cent a year, more than any other department, yet last year it spent £700 million on consultants.

Despite, or even because of, our largesse, some African states are actually going backwards. The reason is simple. They have failed to develop the free institutions - property rights, the rule of law and democracy - that Marshall recognised as so important, and that underpin true economic development. Instead, the likes of Zimbabwe, Sudan and Congo are plagued by war and political failure. Properly functioning government is a rarity. Flooding the continent with aid does not encourage the sort of confidence in individuals, nor the good governance necessary for Africa to thrive. But it does fill us at home with the warm glow of self-righteousness."

Se Brown estivesse menos preocupado com apaziguamento da sua consciência (e com o apaziguamento dos sindicatos dos quais, de certa forma, vai dependendo) talvez tomasse outras medidas, como as que, no Times, Simon Jenkins propõe para ajudar os países vítimas do fenómeno que alimentou os telejornais nos últimos dias. Uma simples abertura dos mercados:

"Trade is what links the tsunami rescue to Third World debt. The West will do most to help the disaster-plagued and debt-burdened countries of Africa and Asia by buying their produce, from textiles and food to holidays, and not dumping surpluses on their markets. The great hypocrisy is for America, Europe and the Far East to offer aid yet continue de facto economic sanctions on trade. There was no mention this week of the 20 per cent tariff on South-East Asian textiles or the refusal to end food subsidies and import controls. There was no mention of what would do most for the world's poor, a revival of imperial preference in the form of Third World preference. This does not happen because spending taxes on aid is cheap but confronting domestic trade lobbies is politically painful."

Posted by Bruno at 11:03 PM

janeiro 06, 2005

Fathers and Sons

Durante meses, vários dos meus blogues preferidos continham menções tremendamente elogiosas ao livro. Durante meses, a curiosidade pelo dito crescia de forma proporcional à inveja que tinha dos que o tinham. Até que o senhor meu tio fez uma incursão pela Civilização. E de lá, fez-me o favor de trazer Fathers and Sons, o livro de Alexander Waugh, sobre a sua família. Ontem pus finalmente as mãos neste pequena maravilha. Hoje comecei a ler. Estou rendido. E agradecido a quem o trouxe...

fathers and sons

Posted by Bruno at 10:21 PM

Citação do Dia

Na National Review Online escreve Jonah Goldberg:

"If the issue is helping suffering people, why did the United Nations crowd — led by Clare Short, the former head of U.N. international development — scream bloody murder when it was announced that India, Japan, Australia, and the United States would coordinate aid efforts? Short declared that any efforts to help the suffering tsunami victims outside U.N. authority would "undermine" the world body.

So much for pragmatism. Who cares who helps the needy, and under what flag, as long as it gets done?

As it happens, the U.N.'s most ardent supporters are anything but pragmatists. They hope passionately that the organization might become what Tennyson called the "Parliament of Man, the Federation of the world." Or they hope with equal fervor that it may serve as an idealistic alternative to American hegemony. Or they wish for both. And that's where I start having problems."

Vale a pena ler o artigo todo. Mas este excerto, só por si, mostra por que razão Goldberg é um dos meus colunistas preferidos...

Posted by Bruno at 10:17 PM

janeiro 05, 2005

Caro leitor, estou com alguns problemas no meu acesso à Internet. Amanhã espero que já esteja tudo a funcionar como deve ser, e então cá estarei...

Posted by Bruno at 10:15 PM

janeiro 04, 2005

Confirmação

Lê-se no DN de hoje (como sempre sem link):

"As relações do primeiro vice-presidente do PSD com o líder Pedro Santana Lopes têm, aliás, vindo a piorar, muito por causa do tema futebol."

Não é por um jornal dizer isto que significa que isto é verdade. No entanto, não me espantaria que fosse. Porque se houve coisa que me supreendeu, e esta notícia apenas confirma essa ideia que tive, em toda esta "questão Santana", desde a saída de Durão Barroso, foi o apoio, mais ou menos silencioso, de Rui Rio à hipótese Santana. Surpresa essa que roçou mesmo uma pequena desilusão aquando da confereência de imprensa pós-dissolução, em que Rui Rio foi o porta-voz de um partido desorientado, e contrário a tudo aquilo que o seu percurso individual no dito partido indicaria que fosse do seu agrado. O meu apreço por Rui Rio é conhecido do leitor atento. Por isso mesmo, estou para perceber como ele se prestou a situações como a que enfrentou recentemente, com todo o "affair Pôncio" e a atitude do presidente do partido em relação a essa escolha. Estou ainda para perceber como Rui Rio não percebeu que era isso, ou algo semelhante, que inevitavelmente acabaria por acontecer. Ou, se percebeu, porque razão se sujeitou a isso...

Posted by Bruno at 10:27 PM

Obrigação

Tem sido elogiada a atitude de Cavaco Silva, de não aceitar que uma fotografia sua fosse utilizada num cartaz com antigos líderes do PSD e o dr. Santana Lopes integrado na campanha eleitoral do partido. tem sido elogiada, e bem. É positivo que Cavaco não aceite ser associado ao momento actual daquele que é o seu partido, que não aceite ser associado a uma propsota de solução governativa como a que o seu partido oferece aos eleitores. No entanto, esa sua atitude só vem confirmar aquilo que disse aquando da dissolução do Parlamento: pessoas como Cavaco Silva, que criticaram o governo de Santana Lopes, tinham a obrigação de ter tomado uma posição. Avançar, ou no mínimo, apoiar uma solução alternativa, memso que ela não fosse seguida. Isto não minimiza a atitude de Cavaco em relação ao cartaz. No entanto, quem toma esta última devia ter agido de maneira diferente na situação anterior. Talvez não tivesse de tomar a atitude que hoje tomou...

Posted by Bruno at 10:19 PM

A Ler

No Jaquinzinhos, sobre as promessas de não aumento de impostos por parte do PS, e de "todo os esforços para os baixar" do PSD, caso ganhem as eleições. O money quote:

"É mentira. Em Portugal os impostos vão mesmo subir. Em 2005, quase de certeza, e em 2006, inevitavelmente. O que não subirem hoje, subirão amanhã, com o crescimento anual da dívida pública ao ritmo da acumulação dos défices.

Vão começar pelo tabaco, argumentando que nos estão a proteger a saúde. Depois serão as bebidas alcóolicas, para defender a sobriedade dos portugas e diminuir os custos de tratamento das cirroses. Logo se seguirá um imposto ecológico sobre energia e combustíveis. E, Deus nos livre, se o Bloco tiver poder de obrigar o governo a satisfazer os seus caprichos, teremos uns impostos palermas que em nome da justiça social servirão para afugentar o capital de Portugal e provocar ainda maiores aumentos de impostos a prazo. E também virá o IVA. Alguns produtos vão mudar de categoria, passando de 5% para o 12% ou de 12% para 19%. Produtos com peso no cartaz de compras. As bebidas alcoólicas, por exemplo. O vinho e a cerveja. Ao mesmo tempo vão baixar um ou dois produtos pouco significativos de cima para baixo, para justificar a coisa como uma arrumação e não como um aumento de impostos. E quando já não souberem o que fazer, é o 19% que vai para 20% ou o 5% que vai para 6%. A culpa será da herança do anterior governo.

Infelizmente, não haverá alternativa. E não há alternativa porque a alternativa é insuportável para os partidos."

Posted by Bruno at 10:15 PM

janeiro 02, 2005

Revi (prenda de Natal dos paizinhos) Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Como não tinha mais nada para escrever, reproduzo aqui o que escrevi em Junho, altura em que o vi no cinema. O que na altura não gostei, continuo a não gostar. E o que gostei, gostei novamente...

Eternal Sunshine of the Spotless Mind

jim_carrey14.jpeg

Joel (Jim Carrey) acorda. Mais um normal dia de trabalho. Joel está à espera do comboio quando, na plataforma oposta, um outro chega. Joel, que segundo ele nos diz, não é impulsivo, tem um impulso de não ir trabalhar, de apanhar o comboio que o conduzirá no sentido oposto ao que o conduziria ao trabalho de todos os dias. Numa praia, em Montauk, vamos ouvindo os pensamentos de Joel. Ouvimo-lo a dizer que gostaria de se apaixonar naquele preciso momento. E nesse preciso momento, vemos, ao fundo, uma mulher. Ela sorri para Joel. Joel diz que não sabe o que dizer a uma mulher que não conhece de lado nenhum. De seguida, num café, olham-se de novo. Joel pergunta porque se apaixona sempre por quem demonstra apenas um mínimo de interesse por ele. E já no comboio, de volta, Clementine (Kate Winslet) começa a falar com Joel. Clementine é precisamente o oposto de Joel. Se ele é um introvertido patológico, ela é precisamente o inverso, mantendo o carácter patológico. Mas a conversa mantém-se. Vá-se lá saber porquê (ficaremos a saber mais tarde), eles parecem gostar um do outro. A noite será longa. Após a deixar em sua casa, Joel acaba por lhe ligar, e vêmos os dois, deitados num lago gelado, ouvindo Joel respondendo ao pedindo de Clementine de lhe dizer o nome das constelações que ele conhece, ele que não conhece o nome de nenhuma, ele que lhes diz isso mesmo, mas a quem ela lhe pede que ele lhas diga na mesma. Na manhã seguinte, de regresso, Clementine pergunta se pode ir para casa dele dormir. Ele diz que sim.

E de repente, estamos numa noite, com Joel sozinho no carro. A chorar. A sua relação com Clementine terminou. Dias após uma discussão, Joel vê Clementine com alguém que ele não conhece, e dirigindo-se a ela, é ignorado. Como se ela não o conhecesse. E de facto, Clementine não o conhece. Não se lembra que não conhece Joel. Clementine apagou da sua memória as recordações que tinha de Joel. Joel, enraivecido, decide fazer o memso em relação a ela. Dirige-se então à clínica Lacuna, do Dr. Mierzwiak (Tom Wilkinson), onde trabalha a telefonista Mary (a simplesmente adorável Kirsten Dunst), e os "apagadores de memória" Patrick (Elijah Wood) e Stan(Mark Rufallo).

Esta é a premissa de Eternal Sunshine of the Spotless Mind, filme de Michel Gondry, escrito por Charlie Kaufman. Dos filmes escritos por Kaufman, vi os dois realizados por Spike Jonze, Being Jonh Malkovich e Adaptation. Do primeiro gosto muito, do segundo gostei muito mas não gostei tanto a segunda vez que vi. O primeiro, é um filme que parte de uma premissa bizarra, mas que a partir dessa bizarria inicial, constrói uma narrativa equilibrada. O segundo, parte de uma premissa normalíssima, para uma narrativa bizarra, que funciona com a surpresa do primeiro visionamento, mas que se desfaz à segunda, porque os constantes twists dessa narrativa (e a maravilhosa interpretação de Cage) não são o suficiente para aguentar um filme.

Eternal Sunshine... parte de uma premissa bizarra. A premissa mais "emocional" dos argumentos kaufmannianos. E quando partindo dessa premissa bizarra, constrói uma narrativa equilibrada em redor desse objecto "emocional", o filme é brilhante. Algumas falas são absolutamente geniais a um nível que nenhum dos outros filmes de Kaufman atingiu. O problema é quando Kaufman leva a narrativa para situações que nada acrescentam à emotividade explorada pelo filme. Certas cenas são mesmo excusadas, estragando essa carga emocional que é o melhor de Eternal Sunshine...

eternal.jpeg


À medida que as várias memórias que Joel tem de Clementine vão sendo apagadas, Joel vai-se apercebendo que cometeu um erro. Que há bons momentos. Coisas que ele não quer esquecer. E vêmo-lo, dentro da sua mente, dialogando com Clementine, dizendo-lhe isso mesmo. Esse é o lado emocional do filme, o lado que, emocionalmente, digo sem hesitações, me tocou. Mas a partir de determinado ponto, Joel vai tentar fugir dessa ameaça de perder todas as memórias de Clementine. E aí entra a bizarria narrativa, com caras a serem apagadas, regressos à infancia de Joel, etc. Este último aspecto é um bom exemplo do que se passa com o resto do filme, quando tenta ser clever, é inconsequente, quando é emotivo, bate forte: numa das cenas de regresso à infância, é-nos mostrado um quadro absolutamente alucinado, com Joel com corpo de adulto agindo como uma criança, com Clementine no corpo de uma vizinha, a falar com mãe de Joel. Não há ali emoção, é apenas bizarro. Noutra, vêmos Joel no meio de vários miúdos, batendo num pombo morto. Clementine está no corpo de uma míuda, que, ao ver Joel a chorar, o vai buscar, no meio dos insultos dos outros míudos. O corpo dos dois vai alternando entre o adulto e a infância, mas sempre naquele cenário. É uma cena de grande emotividade, com Joel afastando-se da sua humilhação, encontrando a paz junto dessa rapariga.

Também essa memória se perde. Esse é um dos principais aspectos emocionais (os únicos que aqui valem a pena)do filme. O sentimento de perda. Não só o sentimento de perda que vem com o fim de uma relação, mas o sentimento de perda das memórias dessa relação. À medida que as memórias que Joel tem de Clementine nos vão sendo mostradas, à medida que vão desaparecendo, é-nos mostrada a degradação da relação entre os dois. Mas ao mesmo tempo, há em Joel o desejo de manter as memórias que outrora quis apagar. Por muito más que as coisas tenham sido, há sempre momentos que certamente não quererá esquecer. E que são únicos. Sem querer contar demasiado, Clementine, já após ter apagado as suas memórias de Joel inicia a tal relação que é mencionada no início do filme. Relação essa onde vários eventos são repetidos com total exactidão. Mas não é Joel que está ao lado dela. E por isso, ela que não se lembra dele, não sente o mesmo que com ele sentia. A jovem Dunst, que se entrega ao pecado com Rufallo, também não consegue afastar de si os sentimentos que deveriam ter sido apagados da sua mente. Os momentos que Joel e Clementine, e noutro plano, a personagem de Dunst, viveram, poderão ter sido apagados, mas não as emoções.

No fundo, o amor não é perfeito. Para o introvertido Joel, a extrovertida Clementine poderia aparecer como a chave para a felicidade eterna. Mas não é. Como ela diz, ela é apenas uma rapariga baralhada, à procura da paz para ela própria. A perfeição, a felicidade eterna em conjunto, não é possível. Mas isso não é razão para se apagar tudo da memória. Até porque há coisas que não se conseguem apagar...

Posted by Bruno at 10:23 PM

janeiro 01, 2005

Cabeças de Lista

Tem sido muito criticada a escolha do PS para cabeça de lista por Coimbra, a viúva de Sousa Franco. Essa escolha tem sido criticada, e diga-se de passagem, muito bem. Ninguém conhece a senhora devido às suas qualidades políticas. A sua escolha parece ter sido feita, como apontam as críticas, apenas por se tratar da viúva de Sousa Franco. Não deixa de ser curioso, no entanto, que as críticas nunca se dirijam à própria candidata. Matilde Sousa Franco será eleita deputada. Deverá portanto cumprir o mandato que lhe será atribuido. E portanto deverá começar a ser responsabilizada pelas decisões que toma. A começar pela decisão de se candidatar. Se a sua escolha é reprovável, a sua aceitação também. Se se critica a liderança do PS por a convidar, deve-se criticá-la também, por ter aceite esse convite.

Posted by Bruno at 12:28 PM

Após reacções negativas, pensei apagar o post anterior. Por ser eticamente reprovável, não apaguei. O que quer dizer que vou ter aquela coisa embaraçosa (uma piada falhada é sempre embaraçosa) ali permanentemente. Mas, por favor, caro leitor, não leia...

Posted by Bruno at 12:23 PM