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outubro 31, 2004
Indecision 2004 (actualizado)
Nas recentes tomadas de posição quanto aos dois candidatos à Presidência dos EUA, houve um pormenor curioso: Christopher Hitchens, senhor de esquerda, apoia (ligeiramente) Bush, e Andrew Sullivan, ilustre conservador, apoia Kerry. Sinto-me muito mais próximo das críticas que Sullivan faz a Bush do que do apoio, por razões idealistas, que já o haviam levado a apoiar a Guerra do Iraque (diferentes das minhas), de Hitchens ao dito. Mas se compreendo, e em grande parte concordo, com o que de negativo Sullivan vê em Bush (e partilhe da admiração pessoal, e não propriamente política, que tem por Bush), já não consigo, como Sullivan aparentemente consegue, ver em Kerry uma alternativa. O editorial da The Spectator dá um bom exemplo de como Kerry oferece uma alternativa pior que Bush naquilo em que não se aprova o primeiro mandato deste último: Kerry é ainda mais proteccionista que Bush, como se pode ver pela retórica demagógica do outsourcing, ao longo de toda a a campanha.
E mesmo pondo de lado a questão do historial de voto de Kerry (e não acho que se deva pôr de lado esta questão), o discurso dúbio (lembrado pelo editorial do Telegraph) de Kerry quanto à justificação ou não da intervenção no Iraque (ou pelo menos, a percepção generalizada do seu discurso como sendo um discurso dúbio), representa, do meu ponto de vista, um obstáculo a ver Kerry como alternativa a Bush. O facto do seu discurso ser visto como dúbio fará com que, mesmo que apenas aos olhos dos terroristas (e eu acho que não se ficará por aí, mas é com estes que eu me preocupo), uma vitória de Kerry fosse vista, como diz Mark Steyn na Spectator, como um repúdio não só de Bush e da Guerra do Iraque, mas de toda a "guerra contra o terrorismo", mesmo que, acrescento eu, não seja, eventualmente, essa a posição de Kerry. Ou seja, uma vitória de Kerry, representaria, em maior ou menor grau, pelo menos a curto prazo, um factor de instabilidade. E nem que fosse só por esta razão (e não é) preferiria Bush.
Posted by Bruno at 11:17 PM
Sobre o Politicamente Correcto
Também motivado pela questão Buttiglione, este artigo de Simon Heffer na Spectator, merece ser lido. Fica aqui o money quote:
"The more one thinks of it, the more one sees the overhaul of the taboo system as the natural goal of the whole movement of political correctness. The movement has stepped up the sanctions against those who break the taboos. It used to be considered merely impolite or uncouth to break the old ones. Breaking the new ones can be fatal to one’s career or credibility, as Mr Buttiglione has found. It puts the transgressor at the mercy of what Solzhenitsyn called ‘the censorship of fashion’.
Meanwhile, the general public, witnessing all this, must be utterly bewildered. Their forebears would have rationalised the acceptance, however grudging, of taboos handed down by the Church on the basis of scriptural authority. Now they see the parameters being set by the editors of national newspapers, the news editors at the BBC, and by opportunistic politicians. Taboos that have no sound intellectual or moral rationale cannot last, for they are not, in fact, taboos in the established sense of the word. They, like faiths of old, become prejudices too, and rather than unifying a society they will make it more fragmented, as if built on the proverbially shifting sands. It throws the individual back more and more on his or her own morality and values system, rather than on any institutionalised one. And the ultimate irony is that the society of progressive values that the likes of Mr Buttiglione’s critics would like to build will, as a result, end up being no sort of a society at all."
Posted by Bruno at 11:10 PM
outubro 30, 2004
Depois de Arafat
Uma das opiniões mais comuns, no que toca ao conflito israelo-palestiniano, é a de que só poderá haver paz quando tanto Sharon como Arafat desaparecerem dos holofotes, por assim dizer. E na semana em que Arafat foi internado em Paris (e aqui tenho de fazer um esforço para não dar largas ao preconceito que tenho contra os franceses), mais uma vez se fizeram previsões de como será o futuro na região, depois da saída destes dois senhores.
Ao contrário da opinião comum, tenho as minhas dúvidas de que a paz seja atingida apenas com a saída de cena dos actuais líderes de Israel e da Palestina. É que esta visão das coisas ignora o principal factor do conflito: a ausência de reconhecimento, por parte do mundo árabe, em geral, e dos palestinianos, em particular, do direito de Israel à sua existência como Estado, como é patente pela indiferença e até apoio na relação da Autoridade Palestiniana com os grupos terroristas. E nada garante que, com a saída de Arafat, a atitude mude. A razão está bem patente neste artigo do Público. Embora seja necessário descontar o tom anti-Israel do artigo, é bem evidente que o panorama que se seguirá ao afastamento de Arafat, quando quer que ele venha a ocorrer, não será de cordialidade, nem em relação a Israel, nem no seio da própria Palestina. Quanto mais não seja, pelo papel que desempenhará o Hamas nessa fase de transição. Porque o Hamas, mesmo que, como diz o artigo, não tenha pretensões a deter, só por si, o poder, quererá pelo menos aumentá-lo, passando a ter um lugar na estrutura de poder na Palestina. Ora, com o Hamas no poder, o reconhecimento de Israel será pura e e simplesmente impossível, aliás como tem sido até aqui. A paz só poderá passar por esse reconhecimento. E esse reconhecimento passa também por uma mudança de atitude da AP em relação aos grupos terroristas, passando a colaborar activamente na sua perseguição e desmantelamento. O governo palestiniano que o faça estará, infelizmente, a comprar uma guerra civil.
Ou seja, o afastamento de Arafat não será a porta que abrirá o caminho para o diálogo. Este só será possível quando do lado palestiniano, se olhar para Israel como um Estado que tem o direito a sê-lo. E a saída de Arafat, se abre a porta para alguma coisa, é para uma luta de poder interna. E nada nos garante que o reconhecimento de Israel esteja na mente de quem participará nessa luta. E se estiver, o mais provável é que esse alguém venha a ser derrotado. Não se esperam tempos mais agradáveis que os de hoje...
Posted by Bruno at 10:59 PM
Mau Sinal
Hoje, Rocco Buttiglione anunciou que optou por não fazer parte da futura Comissão Europeia (numa altura em que, formalmente, Berlusconi dizia que ele era, ainda, o Comissário proposto pelo Governo italiano). Este caso (e não posso deixar de recomendar o artigo de Charles Moore sobre o mesmo), como diz o João Pereira Coutinho no Expresso, abre um precedente grave. E na modesta opinião de yours truly, não apenas pela razão que motivou a oposição do PE à nomeação de Buttiglione. A atitude jacobina da esquerda do PE cria um precedente grave, ao trazer como critério de escolha as crenças religiosas de determinado indivíduo. Mas, mais do que a razão que motiva a atitude do PE, é a atitude em si que me parece preocupante. Como dizia há dias Boris Johnson (num artigo que aqui citei), a rejeição do PE do nome proposto pelo Governo Italiano para Comissário é uma rejeição feita em nome de algo difuso como é efectivamente o "povo europeu", contra a vontade de um governo democraticamente eleito pelos italianos, por um povo que realmente o é, e não apenas uma ilusão tecnocrata alimentada pelo politicamente correcto. E num altura em que, em virtude (ou em defeito, melhor dizendo) da "Constituição Europeia", a igualdade entre os Estados (o único garante de controlo democrático, por parte dos cidadãos, da decisão política) se vai progressivamente erodindo, este enfraquecimento da Comissão e, mais grave ainda, da responsabilidade que cada um dos Estados tem na formação da dita, não augura nada de bom...
Posted by Bruno at 10:35 PM
outubro 29, 2004
A Democracia e os seus Inimigos
Não sei se o leitor conhece um senhor chamado Josep Borrel. Josep Borrel é o actual Presidente do Parlamento Europeu. Agora o leitor já sabe quem é Josep Borrel. Mas o senhor Josep Borrel certamente não saberá quem é o caro leitor. Mas, e caso o caro leitor não morra de amores pela "Constituição Europeia" que foi hoje assinada, o facto de Josep Borrel não o conhecer não terá impedido o dito de tecer comentários pouco abonatórios em relação às suas (do leitor) crenças políticas. Segundo relatos do senhor meu pai, o senhor Presidente do PE, terá dito hoje, na cerimónia de assinatura da "Constituição", que aqueles que estão contra o "Tratado Constitucional" (o envergonhado termo que estes senhores de Bruxelas gostam de utilizar) são inimigos da democracia, que segundo o dito, é necessário vencer. Fico, portanto, a saber que sou um "inimigo da democracia". Tudo porque não concordo com o "Tratado Constitucional". Das palavras de borrel, depreende-se que a única posição democraticamente admissível, é a de aprovação da dita. Caso contrário, é-se um inimigo da democracia, que urge derrotar. Borrel esquece-se de um pormenor. A democracia implica um factor de confrontação política. Ou seja, tem de haver pelo menos duas opções democraticamente admissíveis, pelo duas visões em confronto. Recusar, à partida, a legitimidade de uma eventual derrota daquilo que defendem, tratando quem defende uma posição oposta como inimigo da democracia, é, efectivamente, recusar os preceitos do regime do qual se pretendem apóstolos. Posto isto, quem será um maior inimigo da democracia? Eu (que sou contra a "Constituição)? Ou Borrel?
Posted by Bruno at 09:33 PM
outubro 28, 2004
Uma pergunta...
Porque razão vão os Chefes de Governo dos Estados Membros da UE assinar a "Constituição Europeia", antes de esta ser ratificada nos seus respectivos países, quer seja através dos seues Parlamentos ou através de referendo? Eu só vejo uma razão: pressão. Criar a ideia do "facto consumado". Se, por acaso, alguém me souber avançar outra razão, algo que explique porquê, o e-mail é o que está lá em cima...
Posted by Bruno at 10:42 PM
O Politicamente Correcto (corrigido)
Escreve-me o leitor Jorge Bento:
"A discussão à volta do comissário Butiglione e do politicamente correcto só vêm dar razão à mais corajosa e lúcida escritora da actualidade Oriana Fallaci que recentemente teve o seu livro "A Força Da Razão" publicado em Portugal pela Difel. Acabei de o ler e confesso que há muito tempo não era tão abalado por um livro. O facto de a Suiça ter pedido um mandato de captura a Itália para julgar Oriana F., o facto de a Suécia ter proibido o seu livro, o facto de em quase todos os países da EU as associações amigas do Islão terem apresentado em tribunal processos contra O.F., o facto de o mainstream da esquerda folclórica no-global de braço dado com os extremistas islâmicos ter praticamente imposto uma “fatah” sobre a cabeça de O.F. e até queimado os seus livros em público ………dão-lhe inteira razão quando afiram que a Europa há muito está a ser islamizada e que tudo é permitido menos criticar o Islão. A lavagem cerebral começou há muito financiada pelos xeiques que graças ao petróleo financiam mesquitas , institutos de estudos islâmicos, inundam as nossas livrarias de milhares de livros a cantar loas ao Islão (o que está a dar é o livro pró-islão e anti-americano = anti-ocidental) e tentam convencer-nos da bondade dessa religião pacífica. Afirmam mesmo em público que nos vão conquistar e que a sua maior arma é o ventre (a maior taxa de natalidade no mundo e na Europa, onde são já 50 milhões contados a partir da Rússia).
Passe o exagero, este livro é um alerta à nossa sociedade comodista, que permanentemente se põe de cócoras perante o insulto permanente aos nossos valores e princípios (eles até já exigem que os cristãos não usem o crucifixo nas escolas, hospitais e até ao pescoço) para que abra os olhos e não tenha medo de gritar liberdade (uma palavra que não existe na sua escrita, nem significa nada para os muçulmanos).
Com os melhores cumprimentos
P.S. Este tema veio a propósito do Butiglione, da noticia de hoje no Diário Digital sobre um politico francês (Sarkozy) quer que o Estado francês financie a construção de mesquitas (post no Blasfémias)do politicamente correcto (a nova forma de inquisição ao contrário) e outros que tais…e penso que o meu amigo tem aqui um bom tema para se debruçar em próximos posts."
Não sabia da polémica em volta do livro de que fala o Jorge, mas a questão que o molda, que o faz nascer, há muito que é um problema grave das sociedades democráticas: a excessiva força do "politicamente correcto", e a ameaça que este constitui ao bom funcionamento do sistema democrático. O grande problema do "politicamente correcto" é que produz um efeito de esvaziamento do debate político. É um instrumento de limitação política, não de limitação da intervenção do poder político na vida dos indivíduos (pelo contrário, infelizmente), mas de limitação da própria política, da confrontação que deveria constituir o debate político numa democracia representativa.
Em nome do "politicamente correcto", justificam-se hoje intromissões na liberdade individual dos cidadãos (a questão do tabaco de que já aqui falei, por exemplo). Mas, para além disso, crucifica-se todo e qualquer um que não se ajoelhe perante o "ar do tempo". Assim, geram-se consensos relativamente a questões onde, devido à sua natureza complexa, estes serão impossíveis, e portanto, quando existentes, em grande medida falsos.
Um exemplo? A posição em Portugal em relação à "Europa". Em Portugal, somos todos pela "Europa". Porquê? Porque o progresso assim o exige. Porque é "para a frente". E de tanto andar para a frente, um dia cairemos do precipício, mas não é essa a questão. O consenso que existe, no espectro partidário português no que diz respeito à "Europa", tem apenas um efeito: mata, à partida, um debate em redor da questão. Um consenso tão generalizado numa questão tão complexa, que implica inúmeras vantagens mas também inúmeras desvantagens, faz com que haja apenas e só uma posição de aceitação total de tudo o que é avanço no "caminho europeu", ignorando posições de sentido contrário, quer de rejeição total quer de rejeição pontual.
Ou seja, o "politicamente correcto" força o consenso no seio dos partidos do sistema, atirando para as franjas do espectro político o eleitorado que não se vê representado nesse consenso. O que é aproveitado pelos demagogos que ocupam esses partidos, e que têm a tendência para simplificar estas questões tanto ou mais que aqueles contra os quais se batem.
E em nenhuma questão isto se nota mais que naquela que o Jorge aflora no seu texto: as implicações políticas da imigração islâmica, nomeadamente em países como a França e a Inglaterra. A imigração islâmica para esses países possuí um elemento que não estava presente na imigração de europeus. Uma parte significativa dessa comunidade é, culturalmente, profundamente hostil ao Ocidente, e ao modo de vida ocidental. Em certos casos (a realidade inglesa é um bom exemplo), essa hostilidade chega mesmo a passar pelo incitamento a ataques terroristas, e à proclamação da intenção de islamizar o Reino Unido. as dificuldades económicas que parte destas comunidades atravessam (agravada pela falta de mobilidade social do tão amado "modelo social europeu"), e o descontentamento que inevitavelmente essa situação gera, alimenta este clima hostil ao Ocidente, e que a longo prazo (a questão demográfica que o Jorge levanta, e o crescente peso político de quem tem essas posições que daí poderá decorrer) poderá conduzir a uma erosão dos valores ocidentais de liberdade individual.
Onde entra o "politicamente correcto"? A resposta é simples: quando alguém diz aquilo que acabei de dizer, é imediatamente rotulado de fascista e xenófobo. Manifestamente, não é o meu caso. E não é o caso de muito boa gente que alerta para a necessidade de que quem emigra para os países europeus precisa de aceitar um conjunto de regras, e não pregar a morte ao infiel (mais uma vez, veja-se o exemplo do que se passa em Inglaterra). E assim, se vão gerando os falsos consensos. Nos partidos do sistema democrático, há uma forte resistência a abordar este tipo de questões, precisamente pelo rótulo que é lançado a qualquer um que fuja ao consenso forçado pelo "politicamente correcto". Assim, deixam-nas à mercê do aproveitamento demagógico de gente como o senhor Le Pen, que tem o mesmo apreço reduzido pelas liberdades individuais que têm os senhores que louvam os terroristas de 11 de Setembro.
Resumindo: a crescente tendência para o domínio do "politicamente correcto" no debate político, faz com que este último não fuja ao vazio que o tem caracterizado. O "politicamente correcto" simplifica o debate. Mas simplifica o debate numa altura em que as questões que emergem, e irão emergir, como questões centrais da política, são cada vez mais complexas. Questões que não se resumem a proclamações morais, que implicam uma relação conflitual de valores que entendemos fundamentais. Esvaziando esse debate, estamos a criar todas as condições para que o aproveitamento demagógico dessas questões (tão simplificado e inoperante como o "politicamente correcto") se torne cada vez mais habitual. A culpa, meus caros, é toda nossa. E depois, de nada nos servirá queixarmo-nos...
Posted by Bruno at 09:42 PM
A "Europa" e a Democracia
Sobre o que significa ou poderá significar, a recusa do Parlamento Europeu em relação ao comissário proposto pelo governo italiano, recomendo o artigo de Boris Johnson no Telegraph. Fica aqui o money quote:
"Sig Buttiglione was sent to Brussels with all the solemn authority of the government in Rome. That government's authority in turn derives from the sovereign people of Italy. And yet Sig Buttiglione has been rejected by a polyglot babel of 25 countries, and the will of the people of Italy has been frustrated. What we saw yesterday was the collision of two democratic imperatives: the right of the people of Italy to have their government's man in Brussels, and the right of that nebulous demos, the people of Europe - represented in this bizarre mother-in-law of parliaments - to say no.(...)
(...)Parliaments tend to acquire powers, as their inhabitants learn how to use the constitutional tools at their disposal. Under the various treaties, the parliament has gained ever more ways of amending legislation, and European legislation has become ever more burdensome.
And yet hardly anyone knows who their Euro MP is, and hardly anyone votes in the Euro elections. It is deeply anti-democratic. What is the answer? The first step is to recognise what is going on, and to take steps to shore up the machicolated and moth-eaten institution in which I now sit. We may be less exotic than the Euro MPs, but at least people tend to know who we are, where to find us, and how to get rid of us."
Seria bom que o senhor correspondente da RTP em Bruxelas, ou Estrasburgo, ou onde quer que a França tenha entendido por bem ter os senhores eurodeputados esta semana, que tem andado tão excitado, desde ontem, com o que a atitude do PE representa para o "fim do défice democrático dos povos da Europa", se apercebesse que o PE não é a solução para esse défice democrático, mas que faz parte dele, especialmente quando toma posições como a que foi tomada em relação a Buttiglione.
Posted by Bruno at 09:30 PM
outubro 27, 2004
Desilusão
Durão Barroso chegou a ser «aqui da casa», diz o meu caro amigo e colega João. Subscrevo. Mas Durão foi uma desilusão. Foi uma desilusão como Primeiro-Ministro. Foi uma desilusão ao deixar o cargo de Primeiro-Ministro antes de tempo. E foi uma desilusão hoje, ao ter pedido ao Parlamento Europeu mais um mês para elaborar uma outra equipa para a Comissão Europeia.
Desilusão porquê? Porque a oposição da esquerda no PE se resumia praticamente a Rocco Buttiglione, e como digo no post de ontem, apenas e só por este ser católico (sem aspas). Durão achava que a Comissão por ele proposta não iria ser aprovada. Há quem diga que Durão deveria ter cedido antes, e substituído Buttigglione quando as primeiras contestações surgiram. As coisas não são assim tão simples, visto que não foi propriamente Durão a escolhê-lo, mas sim o governo italiano. E imagino que Durão não tivesse grande vontade de dizer a Berluscosni que o Comissário por ele escolhido tivesse que ser rejeitado por uma crença sem qualquer relevância política (apesar de, como digo nesse mesmo post, haver outras razões, bem mais substanciais, para criticar a escolha e nomeação do dito senhor). Ao não o ter substituído antes, Durão correu o risco de ver a sua equipa rejeitada no PE. À última da hora, Durão cedeu. Não devia ter cedido. A reformulação da Comissão seria inevitável. Mas deveria ter-se seguido à votação no PE. Se ela fosse rejeitada (como parecia que iria suceder) Durão não teria outra escolha. Mas hoje, Durão teve escolha. E escolheu ceder. E escolheu ceder perante uma perseguição de puro jacobinismo contra algo que nada tinha de politicamente relevante. Fez mal. E não é bom sinal para o que se avizinha...
Posted by Bruno at 10:41 PM
Sobre as Declarações de Marcelo
A verdadeira questão não está em se o Estado, através do governo, interferiu directamente ou não nos negócios de uma empresa privada, usando o poder que detém no sector. A verdadeira questão está em que o pode fazer, e não devia poder. E isto (quase) ninguém diz...
Posted by Bruno at 10:38 PM
outubro 26, 2004
Por Que a "Europa" Não Pode Ser Europa
Por falar no "caso Buttiglione" (um parêntesis: tudo agora é um "caso". Qualquer querela se transforma num "caso". Normalmente, de histeria, de quem chama a essa querela um caso, os jornalistas. Mas volto ao que queria dizer): há dias (não consigo encontrar o link directo) o João Miranda ironizava com o facto de grande parte das pessoas prestarem mais atenção às distantes eleições americanas, do que ao processo de constituição da nova Comissão Europeia, que possuí uma influência muito mais directa em muitas áreas da nossa vida (cada vez mais, diga-se de passagem). É verdade. E para além do ódio generalizado da plebe a George W. Bush, há outra razão que o explica: não há a percepção, por parte dos cidadãos dos países europeus, que a "Europa" lhes seja algo próximo. Por isso se ouve falar nos cafés, com estridente desprezo, "desse Bush", e "esse Buttiglione" nem de desprezo é alvo. E é por isto, por para a plebe, "esse Bush" ser mais próximo que "esse Buttiglione", que a "integração europeia" não passa de um projecto centralizado (e cada vez mais centralizador), que muito pouco tem de uma manifestação de uma vontade popular de viver num (efectivo) espaço político comum. É por "esse Bush" ser mais próximo da plebe que "esse Buttiglione", que a "Europa" não pode ser Europa...
Posted by Bruno at 10:02 PM
Rocco's Modern Life*
Na sua crónica, Luis Delgado, o verdadeiro "Ali, o Cómico" português, refere-se às conhecidas declarações de Buttiglione como uma "insensatez". E pergunto eu, caro Luís Delgado (se é que me concede a Graça de ser lido por alguém como o "Cómico Ali" português), porquê insensatez? Bem sei que neste país pretensamente de maioria católica, estamos mais habituados a "católicos", e não a católicos. Estamos habituados a "católicos" que não vão à missa, em vez de católicos, que vão à missa. São os "católicos", e não os católicos, que são uma maioria. E talvez por essa falta de hábito a essa espécie em vias de extinção, o católico que olha para o Céu para outros efeitos que não ver se vai chover (Nelson Rodrigues), Delgado ache insensato que alguém, católico, diga o que disse Buttiglione. É que é evidente que para um católico (sem aspas), a homossexualidade é um pecado. Buttiglione não pede que as pessoas que não crêem em Deus Nosso Senhor (como é o caso deste vosso escriba) que digam que a homossexualidade é um pecado. E muito menos está a dizer que essa sua crença (perfeitamente normal em alguém que é católico e não "católico") deva ter um reflexo na sua actuação política. O pecado não é crime. É, no entender que quem é católico (sem aspas), um pecado. Ponto final. Julga-se no Além, não no tribunal. Há razões (políticas) perfeitamente sensatas para criticar a nomeação de Buttiglione (a The Economist tenta fazê-lo), mas apontar a suposta insensatez das declarações como um óbice a essa mesma nomeação, isso sim, é insensato. Embora, de Delgado, não seja propriamente insensatez aquilo a que estamos habituados. De Delgado, é mesmo mediocridade...
*título de uma cómica série de animação que não vejo há muitos anos...
Posted by Bruno at 09:32 PM
outubro 25, 2004
Ape Men
O ilustre indivíduo procurava exemplificar como o Homem não é "assim tão" distante do Macaco. E que melhor imagem para o fazer, que não a do Presidente do EUA, George W. Bush. Exactamente. O Presidente dos EUA, George W. Bush. Como é sabido, Bush é estúpido. Como um macaco. Nada melhor para mostrar como o Homem e o Macaco se assemelham do que juntar imagens de Bush e imagens de um exemplar da espécie em causa. E nesse momento, todos se riram. Todos viram Bush. Estúpido. "É mesmo parecido", diziam as vozes já trémulas de tanto riso. Ah, como riam os festivos. Estava provado. O Homem não difere "assim tanto" do Macaco. Mas, ao contrário do que pretendiam os festivos, a prova não estava em Bush...
Posted by Bruno at 10:23 PM
All in the Family
Não posso deixar de fazer referência a um texto do senhor meu tio, acerca do octagésimo aniversário da senhora minha avó. É que apesar de ter passado o almoço de Sábado passado a chamar-me de "fascista" e a alertar os presentes para "não se deixarem levar" pelo que eu dizia, escreveu este pequeno mas maravilhoso texto:
"Comovi-me no aniversário dos oitenta anos da minha mãe. Um abraço lacrimoso partilhado entre irmãos, a Alice e o António, é uma das imagens que vou guardar para sempre enquanto a vida fizer o favor de me aturar. Da minha mãe e das minhas irmãs só recebi festinhas, miminhos. Nunca aquele abraço. Mas não me queixo. Porque sei que ele está reservado. Em síntese, o problema que aqui quero levantar é o seguinte: passamos a vida a proclamar vitória por termos sobrevivido dia a dia, sem perceber que estamos a perder o melhor dela. Não temos amado, acima de todas as coisas."
Uma pequena amostra do que este senhor politicamente suspeito sabe fazer...
Posted by Bruno at 10:06 PM
outubro 24, 2004
"Bonitos" Sentimentos
No (muito cá de casa) blog de Andrew Sullivan, leio as eloquentes palavras deste artigo de Charlie Hooker no Guardian, essa Bíblia (embora eles sejam um pouco mais dados às Enciclopédias) da esquerda inglesa, acerca de George Bush:
"On November 2, the entire civilised world will be praying, praying Bush loses. And Sod's law dictates he'll probably win, thereby disproving the existence of God once and for all. The world will endure four more years of idiocy, arrogance and unwarranted bloodshed, with no benevolent deity to watch over and save us. John Wilkes Booth, Lee Harvey Oswald, John Hinckley Jr - where are you now that we need you?"
É verdade. Não sei onde estão John Wilkes Booth, Lee Harvey Oswald ou outros conhecidos apreciadores do assassínio político quando "precisamos" deles. Mas também gostaria de saber onde está a tolerância que a esquerda tanto diz possuir quando precisamos dela. E não deixa de ser sintomático, como diz Sullivan, que sejam as mesmas pessoas que se escandalizam com ataques israelitas a líderes do Hamas que depois venham insinuar que, enfim, "todo o mundo civilizado" se questiona onde estão Lee Harvey Oswald ou John Wilkes Booth, quando o mundo "civilizado" precisa deles. E a civilidade desse "mundo civilizado", onde está?
Posted by Bruno at 02:51 PM
outubro 23, 2004
Surpresa Desagradável
Muita gente não gosta do actual Governo. Eu não gosto do actual Governo. A esquerda em geral não gosta do governo. A esquerda, nomeadamente o PS, gostaria que Santana deixasse de ser Primeiro-Ministro rapidamente (para poder voltar ao poder). Eu gostaria que Santana deixasse de ser Primeiro-Ministro o mais rapidamente possível (porque quanto mais cedo isso for, mais cedo sairá o PS do poder, e talvez, talvez, então se tenha de novo uma oportunidade de levar a cabo as reformas de que o país tanto necessita). No entanto, e para além das razões que motivam o pouco apreço pelo Primeiro-Ministro, uma coisa me separa da esquerda: esta acha que a derrota de Santana, nas próximas eleições (tendo em conta o país em que vivemos, sejam elas quando forem) não passa de favas contadas. Eu não estou tão esperançoso.
Aliás, esta opinião de que Santana está apenas a abrir o caminho para a sua derrota é uma opinião generalizada por entre os críticos do dito. Nota-se isso no que escreveu há dias o Paulo Gorjão, quando disse que a Sócrates bastava ficar quieto para regressar ao poder. Notava-se hoje nas palavras de Joaquim Fidalgo, que ao comentar na RTP Nesta notícia do Público, ridicularizava os comentários dos apoiantes de Santana citados nesta última, que afirmavam que o "estilo" de Santana é "compreendido pelo povo". No fundo, enquanto os apoiantes de Santana acham que o "povo" compreende o estilo de Santana, e que com isso ele terá o apoio desse mesmo povo, muitos dos seus críticos também acham que o "povo" compreende o estilo de Santana, mas que isso fará com que o "povo" não vote em Santana quando este se submeter ao um escrutínio eleitoral.
Eu não sei se o "povo" compreende o estilo de Santana ou não. O que sei é que tenho o receio de que, quer o compreenda quer não, o possa vir apoiar. Paira a ideia generalizada que Santana caminha a passos largos para o fim, e que nem é preciso fazer nada para que ele caia. Eu acho que, para mal dos nossos pecados, quem assim pensa, talvez venha a ter, o mais tardar daqui a dois anos, uma supresa algo desagradável. Não é preciso olhar para muito longe para perceber que esta possibilidade não é tão descabida de senso como muitos parecem achar. Basta olhar para muitas das autarquias deste país.
Posted by Bruno at 09:46 PM
outubro 21, 2004
O Verdadeiro Problema
A principal crítica a este governo, por parte daqueles que deram o seu apoio ao governo de Durão Barroso, devido à necessidade de uma política de contenção nas finanças públicas e de reformas profundas no edifício do Estado, reforçada com o anúncio do Orçamento de Estado para o próximo ano, tem sido a de que esse objectivo considerado essencial estava a ser abandonado por este governo (embora houvesse sinais no governo anterior de que o mesmo estava para acontecer).
Ontem, Lobo Xavier tentava, na SIC Notícias, refutar esta crítica, dizendo que o Orçamento de Estado não se traduziria no aumento do défice, porque o aumento das receitas iria cobrir o possível aumento da despesa. Não sei se isso acontecerá. Não tenho qualquer formação económica, portanto não posso tecer comentários quanto a isto. Mas admitindo que será verdade. Que as receitas esperadas compensarão as despesas do estado. O essencial não está aí. O essencial (e que o governo anterior, diga-se de passagem, também não fez) seria cortar com a despesa. Diminuir o peso do Estado na economia, com o consequente reflexo no Orçamento. O que exigiria reformas profundas, mexidas em muitos interessados instalados, surgimento de muita contestação. A compensação das despesas pela parte das despesas, de forma manter o défice abaixo do limite imposto por Bruxelas, é apenas uma solução a curto prazo, mas que tenderá a eternizar o verdadeiro problema (mais uma vez, o Governo anterior tem grande parte da responsabilidade desta situação, ao ter centrado a questão do controlo do défice na necessidade de cumprir o Pacto de Estabilidade, e não na virtude, e na necessidade, de ter um Orçamento equilibrado). O governo anterior tinha um discurso que alertava para um período de dificuldades. Mesmo assim, pouco fez (ou pouco conseguiu fazer) no sentido das necessidades do país. Este governo, já nem o discurso tem. O pior, como já disse aqui, nem é o facto de se perder tempo com o período em que Santana Lopes for Primeiro-Ministro. O pior é que para além desse período, se perderá ainda tempo com o período em que o PS estará no Governo depois do PSD e do CDS/PP (o que inevitavelmente acontecerá). Mais tempo em que se adiará a resolução do verdadeiro problema deste país: a excessiva dimensão do Estado...
Posted by Bruno at 10:06 PM
Todo o Manifestante Gosta de Apanhar
Corre por aí alguma polémica em redor dos acontecimentos de ontem na Universidade de Coimbra. Os estudantes, que se manifestavam contra as propinas, terão tentado invadir a reunião do Senado da dita Universidade. O sr. Reitor, que na semana anterior teria já deparado com as diabruras de seus pupilos, terá chamado a polícia. A polícia, perante a insistência dos manifestantes em acatar as ordens da autoridade, teve de recorrer à força. E assim, os estudantes de passeata se transformam de um momento para o outro em vítimas da "censura". Segundo uma jovem, estavam a ver limitada a sua "liberdade de expressão". Talvez. Mas se tentar entrar numa reunião que à partida lhes é vedada é uma forma dos estudantes de passeata se expressarem, acho bem que essa liberdade seja limitada. Um jovem terá sido atingido por gás pimenta. É já um mártir. Cânticos de protesto por parte dos seusa camaradas no local em que estava detido, relatados de forma homérica pelo próprio na estação pública de televisão. Ajuntamentos de colegas de passeata, protestando com a atitude "fascista" da polícia e da Universidade. "Levamos mas não pagamos", poderiam mandar uns aos outros por SMS. Levam, e não parecem importar-se. Sempre ganham mais tempo de antena para a "causa". Nelson Rodrigues contava a história do casal em que a mulher era espancada pelo marido na rua, gritando para ele lhe bater ainda mais, à vista das suas "vizinhas gordas e patuscas, como uma viúva machadiana". Dizia: "Toda a mulher gosta de apanhar". As manifestações dos estudantes de passeata têm um objectivo: aparecer nas televisões. Quanto mais agitação houver, mais aparecem nas televisões. Não estarei muito longe da verdade se dizer que todo o manifestante gosta de apanhar...
Posted by Bruno at 09:40 PM
outubro 20, 2004
Media e Pluralismo
Na sua entrevista à Sábado, dizia Vasco Pulido Valente, acerca da questão do "contraditório", que a razão porque não existia contraditório em Portugal é o facto de não existirem no país jornais politicamente alinhados. Que "o contraditório é isso: é uma multiplicação dos orgãos de informação, de maneira que nos dêem uma informação global do que se está a passar. Não apenas na opinião, mas também na maneira como se aspresentam os factos."
Curiosamente, David Frum, num artigo na edição em papel (sem link) da National Review (que nunca tinha visto, e tive a sorte de encontrar hoje), a propósito da polémica à volta de Dan Rather, os documentos falsos acerca do passado militar de George W. Bush, e a denúncia deste facto por vários blogs americanos, argumenta no sentido do que disse VPV: é na liberdade de que cada orgão de informação passar o que bem entender, com a orientação política que bem entender, que reside o verdadeiro pluralismo nos media. Frum utiliza o exemplo das rádios. Segundo Frum, até 1987, as rádios que pretendessem atribuir tempo de antena ao comentário político, estavam obrigadas a atribuir um período igual ao outro lado (a definição do que seria o "outro lado", segundo Frum, era da responsabilidade de um daqueles orgão federais com perigosas parecenças com as nossas Altas Autoridades). E só após a abolição da lei que estabelecia estas regras, se assistiu ao fenómeno dos programas de direita na rádio, como por exemplo o de Rush Limbaugh. Independentemente dos méritos ou deméritos (para mim desconhecidos) do dito senhor, não podemos ignorar que a mera existência do seu programa aumenta o espectro do debate político, ainda para mais quando agora (veja-se o exemplo da Air America) se assiste ao surgimento da "liberal talk-radio". E segundo Frum, o fenómeno dos blogs nos EUA muito se deve à sua divulgação feita por programas como de Limbaugh. E sem esses blogs, a conduta de Rather poderia não ter sido descoberta.
Em suma: o artigo de Frum, com o seu exemplo da realidade americana, confirma aquilo que defendeu Pulido Valente: para que haja verdadeiro debate político, é necessário que cada operador televisivo, cada jornal, cada rádio, tenha a liberdade de emitir a opinião de quem muito bem entender que deva emitir, com a orientação política que muito bem entender. Tudo o resto terá apenas uma consequência, o enfraquecimento (ou no nosso caso, a perpetuação da fraqueza) do debate político nos media.
Posted by Bruno at 10:27 PM
outubro 19, 2004
Democracia Americana
Diz, nas páginas do DN de hoje (sem link), o Pedro Mexia:
"O pior resultado nas eleições americanas não será a vitória de Bush ou a vitória de Kerry (consoante os gostos). O pior resultado seria uma repetição de 2000. Isto é: uma eleição que se prolonga em recontagens, protestos, processos, sentenças. Um país empatado. Uma vitória microscópica. Uma disparidade entre o voto popular e os votos no Colégio Eleitoral. A novela das maquinetas e dos furinhos. E uma sensação de ilegitimidade do vencedor (de novo). O pior resultado seria a derrota da democracia americana."
Concordo que a "novela das maquinetas e dos furinhos" seria o pior que poderia acontecer nas eleições de Novembro próximo. Que o prolongar de "recontagens, protestos, processos, sentenças" fragilizaria quem quer que se venha a sagrar vencedor. Só não posso é concordar que "uma disparidade entre o voto popular e os votos no Colégio Eleitoral" resultasse numa "derrota da democracia americana". Pela simples razão de que essa hipótese é algo que é decorrente das próprias características da democracia americana, da sua organização federal. Uma democracia em que a eleição do chefe do executivo é indirecta, para que haja um equílibrio entre os vários estados, para que a vontade da maioria popular não se transforme na "ditadura da maioria", e em que cada estado decide a maneira como os delegados que respectivamente lhe cabem no Colégio Eleitoral são eleitos. Como a grande maioria dos estados segue um sistema de "winner takes all" (à excepção de, salvo erro, dois deles), não é necessário ter mais votos populares para ser eleito, basta ganhar o número de estados suficientes para ter 270 votos no Colégio Eleitoral (a maioria absoluta no dito). Aliás, George W. Bush não é o primeiro Presidente a ser eleito sem ter a maioria do voto popular. Aconteceu com John Quincy Adams em 1824, Rutherford B. Hayes em 1876, e Benjamin Harrison em 1888. E isto não põe em perigo a democracia americana. O problema em 2000 não foi a "disparidade entre o voto popular e os votos no Colégio Eleitoral", mas sim as dúvidas quanto ao processo eleitoral na Flórida. Este sim foi o problema: a suspeita de irregularidades. E seria bom que essas suspeitas, independentemente de quem venha a ser o vencedor, não voltassem a surgir. Mas o facto do Presidente eleito não ter sido (ou não vir a ser) aquele que teve (ou que venha a ter) mais votos populares não é uma irregularidade. É algo que faz parte da arquitectura da democracia americana.
Posted by Bruno at 10:34 PM
outubro 18, 2004
Para Não Haver Confusões...
Ora bem, este senhor (1,69m) ficou agastado com os comentários que yours truly (1,71m) fez acerca de The Searchers, fazendo até ameaças de violência física inadmissíveis em alguém que apregoa o seu conservador apreço pelos bons costumes. Meu caro, para que isto fique bem claro, eu não disse mal do dito filme. Eu disse que o filme era bom. Mas, por defeito de fabrico, por preconceito, tenho uma relação difícil com o género em si. E isso impede-me de gostar do dito filme como gosto, por exemplo,de Taxi Driver.
Quanto ao "tio Alberto", acho que sim, que o facto de alguém com o perfil político do "tio Alberto, ser consecutivamente eleito, demonstra como a democracia (e sim, tal como diz este senhor de diminuta estatura, por definição, toda a democracia é frágil) não é perfeita (o que não quer dizer que eu queira outro regime, atenção). E já agora: é precisamente esse carácter "profundamente português" (do pior que isso tem, arrisco-me a dizer) que é a razão de ser do apelo eleitoral do "tio Alberto". E razão pela qual não tenho apreço nenhum por ele. Por isso nunca votaria em Alberto João, nem em ninguém com o seu perfil político. Mas o que queria dizer com o post anterior era uma coisa muito simples. O que origina o sucesso eleitoral de políticos como Alberto João é algo que está no próprio interior das democracias. Se o "sistema democrático" está em falência ou não, não sei. O que digo, e o que quis dizer nesse post, é que aquilo que poderá eventualmente levar à sua falência são factores que são inerentes à própria democracia, e não "aberrações" como as boas consciências preferem achar...
Posted by Bruno at 10:33 PM
outubro 17, 2004
O Exemplo da Madeira
Oiço dizer que Alberto João Jardim ganhou mais uma vez as eleições na Madeira. No "Contenente", há quem se espante e quem se preocupe. Espantam-se as boas consciências, e preocupam-se os líderes do PSD. Quanto a estes últimos, percebe-se. Ter que lidar com o senhor da Madeira, e pior, ter que lidar com as (justificadas) reacções às habituais e inqualificáveis declarações do dito, deve ter tirado muitas horas de sono a qualquer um que tenha passado pela liderança daquele partido. Já quanto aos que se espantam, sou eu que me espanto com o espanto deles. Espantam-se como alguém com o perfil de Alberto João é consecutivamente eleito, e sempre por uma margem bastante confortável. A razão é simples: o discurso demagógico e populista apela ao eleitorado. Uma coisa as boas consciências devem perceber: se há políticos como Alberto João (e, noutro grau, como Santana ou como Sócrates), é porque a demagogia e populismo têm sucesso. Alberto João, e o seu sucesso, são um produto da democracia. E a Madeira é a prova disto mesmo. O que se passa na Madeira não é um exemplo de uma aberração. É um exemplo da fragilidade da democracia. E perceber isto é o primeiro passo para manter uma democracia saudável...
Posted by Bruno at 09:49 PM
Ter Sempre Viena, Ter Sempre Paris

Na abertura de Before Sunset (a "sequela" do muito cá de casa Before Sunrise), um jornalista pergunta a Jesse (Ethan Hawke) se as personagens do seu livro se encontraram seis meses depois naquele mesmo local, como haviam prometido. Before Sunrise acabava assim: Jesse e Celine (Julie Delpy, então numa esplendorosa juventude), depois de um dia em Viena, em que se conheceram por acaso, prometem voltar a encontrar-se seis meses depois. E assim se passa no livro de Jesse. A sua resposta à pergunta do jornalista é simples: depende de quem lê. Um cínico achará que não, um romântico achará que sim. Serei, portanto, um cínico. Ao ver Before Sunrise, achava que nem um nem outro, seis meses depois lá estariam. Mais por medo que o outro não aparecesse do que por outra razão, mas que não estariam lá. Serei portanto um cínico. E está aqui (juntamente com o fraco final, que em vez de deixar a indefinição no ar, como Before Sunrise, cai no erro de insinuar o que se seguirá) o problema de Before Sunset. Não o dizer-nos se somos românticos ou cínicos. Mas o dizer-nos o que aconteceu após aquela noite em Viena. O que, quer se queira quer não, "estraga" Before Sunrise. Porque aí o que importava não era o que aconteceria depois, mas o que aconteceu antes. Não interessava se alguma vez se voltariam a ver. Interessava apenas uma coisa: teriam sempre Viena.
E agora têm Paris. "O que teria acontecido se...?" A pergunta que então quiseram evitar que lhes surgisse no futuro. A pergunta que agora, inevitavelmente, fazem, depois de ele ter cumprido o combinado, e a ter esperado, naquela mesma estação de comboios em Viena, apenas para ela não aparecer (não pôde). "E se...?". E se ela tivesse aparecido? Teria Jesse, que diz ter estado, depois de ela não ter aparecido, sempre à espera de um dia a voltar a ver) enfrentado o casamento falhado que enfrenta? Seria Celine a activista maníaco-depressiva que é hoje? Teriam os dois conseguido a felicidade que a memória daquela fugaz relação lhes parecia indicar ser possível? Provavelmente não. Mas a questão está em que nunca souberam. Porque ela nunca apareceu. E eles, no idealismo romântico que aflige as novas gerações, e do qual agora se arrependem (Jesse, várias vezes, o menciona), não trocaram número de telefone, apelidos, nada. Apenas combinaram estar ali, de novo, dali a seis meses. Ele esteve. Ela não.
Hoje, estão os dois mais velhos (Hawke já sem a cara de puto que ostentava, e Delpy, exibindo uma abençoada maturidade). Mais velhos, e mais marcados pela vida. Pela dificuldade de manter uma relação. De lidar com expectativas. Expectativas criadas. Expectativas goradas. Jesse com um casamento fracassado. Ela saltando de relação em relação, sem no fundo se conseguir relacionar, com cada um daqueles com quem manteve uma relação a cabar por se casar, de seguida, com uma qualquer outra mulher (Jesse é também ele um desses exemplos). À procura da tal felicidade que a memória daquela noite que lhes fazia crer ser possível. Hoje, mais velhos, sabem que essa felicidade, essa felicidade idealizada como se fosse algo fácil de definir, não existe. Mas hoje, mais velhos, não conseguem deixar de se perguntar como teria sido se Celine tivesse aparecido, seis meses depois, em Viena. Uma oportunidade que perderam. Porque não estava destinado a acontecer (diz ela), porque eles a perderam (diz ele). Hoje, mais velhos, percebem que foi a memória daquela noite que marcou todas as relações que posteriormente tentaram manter. Com as expectativas que essa memória criou. Expectaivas que a amarga realidade tratou de mostrar serem impossíveis de satisfazer. No fundo, mais velhos, percebem que a vida não é mais que uma sucessão de perdas irreparáveis. E que este reencontro em Paris (no fundo, a razão pela qual Jesse escreveu o livro) não é mais que uma tentativa (a última?) de reencontrarem aquilo que perderam.
Before Sunset é um bom filme. Apesar do final, de que não gostei, é um bom filme. Mas um bom filme que, ao dizer que aconteceu seis meses depois do final de Before Sunrise, afecta o filme que o antecedeu...
Posted by Bruno at 05:21 PM
outubro 16, 2004
Eu e o Primeiro-Ministro
Quando se tem um texto para escrever (a criticar o governo), e nenhuma frase sai bem, mais vale não continuar. Manter o post nas Trevas, de onde tal falhanço nunca devia ter saído. Foi o que fiz. E esta lógica deveria ser aplicada universavelmente. As suas virtudes seriam de imediato notadas. Um exemplo de algo que deveria obedecer a este princípio: as intervenções do Primeiro-Ministro.
Posted by Bruno at 11:10 PM
Leitura do Momento

Posted by Bruno at 10:37 PM
Os Westerns
Este senhor tem um problema com a minha (patológica) aversão a westerns. E The Searchers, é um bom exemplo para explicar o que me aflige neste género. E não é que eu não ache o filme em causa nada de especial. Tem até alguns pormenores que o torna melhor que muitos westerns, e que são muito do meu agrado: por exemplo, a "imperfeição moral" do herói. No fundo, um racista, que na sua busca (de cinco anos, salvo erro) da sobrinha raptada por uma tribo índia, pretende matá-la (o que não faz), visto que a prefere ver morta, a ser "desvirtuada" por um índio. É um herói obsessivo, como o Travis Bickle de Taxi Driver (aliás, são comuns as comparações entre estes dois filmes). Ou seja, não é que o filme não me tenha dito nada. Mas, por muito que goste do enredo, e é o caso, não consigo gostar de um western como de um filme urbano com a mesma lógica (o já referido Taxi Driver, ou Dirty Harry, que é, no fundo, um western passado nas ruas). Muito sinceramente, não consigo explicar porquê. Não é uma coisa racional, como é por exemplo, a minha aversão aos filmes de Barbara Streisand (uma aversão muito mais visceral do que aos westerns, diga-se de passagem. Porque há westerns, como The Searchers, que têm coisas que me agradam. Nos filmes da dita, não há nada que se salve.) Aí, é fácil dizer porque não gosto (lamechice sensaborona). Num western, por muito que o filme em causa me diga (mais uma vez, é o caso), há qualquer coisa que me causa a indisposição que me impede de o apreciar devidamente. Só há um (dos que vi, atenção) que ultrapassa tudo isto: Imperdoável, do mestre Clint. Porquê? Tão misterioso como a razão pela qual, por muito que o filme me diga, não consigo pôr The Searchers na lista dos meus filmes preferidos.
Quanto ao resto, pelo que eu disse atrás, é fácil de imaginar: A arma é outra, e a resposta é simples: "Go ahead. Make my day."
Posted by Bruno at 09:47 PM
outubro 15, 2004
Política de Conto de Fadas
Segundo o Público, o dr. Mário Soares terá afirmado que a utopia socialista está a "soçobrar". Que, nos partidos socialistas actuais, "já não existe utopia", visto que "aceita um sistema baseado na igualdade". Seria de esperar que Soares encarasse este tal "soçobrar" da utopia com bons olhos. Seria um sinal de sensatez. Mas não. Soares lamenta-se. Claro que, de alguém que já manifestou as suas dúvidas acerca do carácter democrático dos EUA, qualquer insensatez não pode ser supresa.
Mas pergunta o já irado leitor esquerdista: Mas porquê insensatez, o lamento pelo "soçobrar" da utopia? Compreende-se a indignação do leitor. Afinal, todo o pensamento que sempre foi a base do ideário esquerdista se centrou na ideia de que a acção política devia ter como objectivo a aproximação da sociedade a um ideal, ideal esse que, claro está, a esquerda não hesita em definir. E este é um dos principais problemas da "esquerda", o procurar criar, na sociedade, algo que nela não existe. E mais uma vez, o cada vez mais irado leitor pergunta: mas por que razão é isso insensato? A razão é simples. O argumento está em The Illusions of Egalitarianism, de John Kekes (capítulo 12), livro que recomendaria ao caro leitor esquerdista, caso não receasse que o seu conteúdo o pudesse trasntornar para todo o sempre.
O argumento de Kekes é longo, mas a principal razão pela qual esta tendência do pensamento de "esquerda" (em sentido lato), tão evidente nos lamentos cada vez mais recorrentes do dr. Soares, para considerar que deve ser um ideal "utópico" a conduzir a acção política, é insensata, é simples: procurar estabelecer, numa sociedade, uma estrutura ideal, ignora as particularidades dessa sociedade, que são tudo menos ideais. São essas particularidades, não-ideais, que a acção política centrada na utopia pretende suprimir, mas que ignora. Ao mesmo tempo que reconhece a existência de "males", promove uma acção política centrada em teorias que não reconhecem esses males como algo objectivo, com os quais temos que lidar, e minimizar, na medida do possível, mas como fruto de uma distância em relação ao ideal que se pretende impôr. Assim, ignora que é a própria existência desses "males" (por exemplo, a desigualdade que tanto choca o dr. Soares) que torna o seu ideal irrealizável (quanto mais não seja, porque as capacidades dos indivíduos diferem de pessoa para pessoa).
Kekes termina esse capítulo defendendo a necessidade de fazer com que a acção política seja conduzida segundo pressupostos realistas. O que é dito no último parágrafo é o melhor argumento contra a "utopia" que o dr. Soares lamenta estar a "soçobrar" que já alguma vez li: "an ideal theory must eventually prompt policies, and the formulation and evaluation of these policies is possible only by realistic political thinking. Ideal theories, therefore, presuppose, realistic politics. If realistic politics is sucessfull, ideal theories are not needed. And if realistic politics is unsucessfull, ideal theories are of no help." Perante palavras assim, dr. Soares, como pode a utopia não "soçobrar".
Posted by Bruno at 11:25 PM
Once Upon a Time in America

Se há género cinematográfico do qual, juntamente com os musicais, nunca fui grande apreciador, são os westerns. Muito por isso, o nome de Sergio Leone não seria uma resposta que quem me perguntasse quais os meus realizadores favoritos fosse ouvir. Once Upon a Time in America é diferente. O mundo deste filme é o mundo do crime organizado nova iorquino. Da vida nas "mean streets". Para mais, Once Upon a Time in America conta com uma série de nomes de luxo, de gente que me habituei a gostar: Robert de Niro, James Woods, Joe Pesci (numa fugaz aparição) e até Jennifer Connelly, numa culpabilizadora (e excessiva) meninice, para os apreciadores do poço de talento estético no qual a dita se viria a tornar na maturidade.

Once Upon a Time In America é um filme incrivelmente bem filmado. A maneira como os três diferentes períodos em que o filme se passa (a juventude de Noodles, a personagem de Niro, até ser preso; após a saída de Noodles da prisão, já em adulto, até ao período que corresponde à primeira cena do filme, a altura em que se refugia na casa de ópio após a morte dos seus amigos; e o regresso de Noodles a Nova iorque, mais de 30 anos desse momento) são interligados (genial o telefone que toca durante vários minutos, enquanto várias cenas vão decorrendo, por exemplo), os cortes de um período para outro, são do melhor que já vi: cada um deles serve para atingir uma carga emocional específica. Carga emocional para a qual ajuda a banda sonora, diga-se de passagem. Todos os movimentos de câmara, todos os close-up, são exemplares. A lentidão dos movimentos de câmara, e o tempo pelo qual se prolongam, contribuem, mais uma vez com a ajuda da banda sonora, para o tom sonolento do filme (a contribuir para a insinuação, na cena final, de que tudo o que se segue ao refúgio de Noodles na casa de ópio não passará de uma alucinação, um sonho provocado pelo dito), mais, para o tom de nostalgia que marca todo o filme.

Mas mais que um filme bem executado, Once Upon a Time in America é uma história muito bem contada. É, no fundo, a história (trágica) de Noodles, da sua vida, desde a adolescência no Brooklyn dos anos 20, passando pela passagem no mundo do crime organizado durante a Proibição, até ao seu envelhecimento. O envelhecimento de um homem atormentado pelo seu passado (veja-se como diálogos de períodos anteriores se repetem em períodos posteriores, aumentando a carga sentimental e nostálgica da relação entre os personagens). De um homem atormentado pela culpa de ter traído os seus amigos. Culpa essa que desaparecerá, mas apenas para ser substituída pelo conhecimento de que afinal, era ele o traído. Uma culpa que desaparece, para ser substituída pela sensação de perda total, até da memória que Noodles tem daqueles com quem cresceu.

Posted by Bruno at 10:25 PM
outubro 14, 2004
Gangs of New York

Quando Gangs of New York estreou no cinema, e mesmo sendo um filme do mestre Scorsese, não fui ver. A razão foi simples. Ao ver o trailer, só me lembrava de Titanic. E gosto de Titanic tanto como gosto de Andy Warhol, ou seja, nada. Mas uma dúvida ficou: será o filme tão mau que nem sequer vale a pena tê-lo na "colecção"? Será Gangs of New York, o Spartacus de Scorsese (tenho todos os filmes de Kubrick, à excepção do dito)?
Gangs... é visivelmente marcado por dois factores: o 11 de Setembro, e o desejo de vencer um Óscar. Da combinação dos dois, sai asneira. O tom épico do filme origina momentos dignos do pior que o cinema americano tem para oferecer. Coisas que, em alguém como Scorsese, até custa a ver. Ao tentar ser grandioso, Scorsese falha redondamente. E não é preciso fazer comparações com, por exemplo, Kurosawa (do que conheço, quem melhor domina o tipo de cinema épico que Scorsese aqui tenta fazer). Basta olhar para a obra de Scorsese, para que, na comparação, se veja o que está mal em Gangs.... Por exemplo: a cena inicial em que o pai de Amsterdam (Di Caprio), Priest Vallon (Liam Neeson), caminha com os restantes membros dos Dead Rabbits (o gang irlandês por si comandado) em direcção ao combate com os Natives, o gang de Bill "The Butcher" (Daniel Day-Lewis), é claramente uma piscadela de olho à cena de Raging Bull em que vêmos De Niro a caminhar dos balneários para o ringue, antes do combate em que o seu personagem, La Motta, conseguirá finalmente o título. A diferença entre as duas é tremenda (com vantagem, obviamente, para Raging Bull). Na cena que imediatamente se segue à do combate entre os dois gangs, mais uma vez a comparação entre este filme e a obra precedente de scorsese não é muito favorável. Scorsese é dos poucos que usa a câmara lenta sem fazer disso um cliché. Nessa cena, o uso da câmara lenta faz lembrar coisas como O Senhor dos Anéis. O que obviamente, não é um elogio. Mais tarde no filme, na primeira vez em que Cameron Diaz surge no ecrã, vêmos a típica câmara lenta de Scorsese. Compensa, mas não redime. E mesmo o comovente final (já lá vamos) não consegue fugir a uma certa mediocridade cinematográfica, que se perdoa, tendo em conta a força sentimental desse momento.
No entanto, e apesar destes aspectos negativos, o filme tem muito do que é habitual nos filmes de Scorsese. A típica moralidade scorsesiana está lá. Estão lá as ruas, as mean streets. E aqui, as streets estão mais mean que nunca. A Nova Iorque deste filme é uma Nova Iorque sobre a qual paira o espectro da guerra civil americana, e uma Nova Iorque que enfrentará a violência dos draft riots. É uma Nova Iorque onde não há lei. Os políticos são corruptos. Dependem dos líderes dos gangs. E é a Nova Iorque de Bill e Amsterdam, do bairro de Five Points, atravessado pelas lutas desses gangs, pelos conflitos étnicos que originam essas lutas. E claro, pelo conflito entre Amsterdam e Bill. É uma Nova Iorque onde paira a violência. Onde nada se resolve de outra forma que não pela luta.
Outra marca típica de Scorsese presente em Gangs... é a visão das mulheres, a divisão das mulheres em "girls" e "broads". Veja-se a cena em que Amsterdam se recusa a se entregar ao pecado com Jenny (Diaz), ao saber que ela o havia feito (o pecado) não amiudadas vezes, particularmente com Bill. Essa visão está mais uma vez presente quando um irado Amsterdam pergunta a Jenny com quem naquele bairro ela ainda não pecou (não nestes termos), embora aí apenas para o fazer de seguida, aliás, como se não houvesse amanhã.
Há também o sentimento de culpa, marca essencial do cinema de Scorsese. Quando Amsterdam mata um outro irlandês que quis matar Bill, Amsterdam mata um dos seus, para proteger o homem que matou o seu pai. A culpa que sente é evidente, aliás potenciada pelo "sermão" de um outro irlandês, que sabe a sua verdadeira identidade.
E há ainda a procura de Redenção. O objecto eterno de Scorsese. Amsterdam não é apenas o filho à procura de vingar a morte do seu pai. É o homem que renega a sua religião (ao atirar a Bíblia ao rio). É o homem que sofre um conflito moral, entre vingar a morte do pai, como planeia, e a necessidade de se manter fiel a quem o assassinou, para dessa forma subir na vida. É o homem atormentado pela culpa que advém desse conflito. É o homem que não só procura, num acto redentor, o fim desse estado, mas também o homem que ao fracassar,e poupado por Bill, visto ser alguém que, por ter cometido um acto de traição em vez de "lutar como um homem", passa a ser indigno de morrer às mãos de Bill. É um homem cuja vida foi poupada por Bill, apenas para, tal como o pai de Amsterdam havia feito com Bill, ser forçado a viver com a desonra de não ser considerado digno de ser morto pelo seu inimigo.
A sequência final (cuja montagem, com os draft riots a servirem de paralelo à luta entre os gangs rivais, é excelente, mas com um trabalho de câmara que não escapa às falhas da sequência inicial) é o culminar deste seu desejo de vingança e de redenção. De Salvação. E é após a morte de Bill, após a morte de membros de ambos os gangs devido ao ataque do exército que procura conter os draft riots, que o filme ganha o seu tom "11 de Setembro". A Nova Iorque de Gangs... é então uma Nova Iorque como a de 2001. Uma Nova Iorque de mortos. Mortos de todas as raças. De todas as religiões. Mortos amigos, mortos inimigos. Mortos. E no tal final comovente (embora algo fraquinho em termos cinematográficos), a cidade de 1860 transforma-se na cidade moderna, ainda antes de 2001. Uma Nova Iorque em que as Torres ainda estavam lá. A Nova Iorque atacada, e que sobreviverá e se reconstruirá, tal como sobreviveu e reconstruíu depois de 1860.
O veredicto: As cenas de combate (no início e no fim) são más, tipicas do pior que Hollywood tem para oferecer. O que só se explica por uma tentativa de Scorsese de agradar a Hollywood. Entre esses os momentos, decorre um filme menor de Scorsese. Pena que o resto o diminua ainda mais. No entanto, não é tão mau como eu esperava. Não é tão mau ao ponto de eu o renegar, como Amsterdam renega a Bíblia. masi tarde ou mais cedo, há-de vir cá para casa. Mas não o irei ver muitas vezes...
Posted by Bruno at 10:07 PM
Bush vs. Kerry
No debate de ontem, pouco se discutiu que não tivesse sido já discutido nos debates anteriores, tanto no debate debate vice-presidencial como no segundo debate entre Bush e Kerry, aqueles em que as questões de política interna forma contempladas. Por isso mesmo, e com a pouca ajuda que o sono com que estava ontem deu, não tomei a atenção devida. Por razões bem explicadas nos textos que escrevi acerca desses debates que referi, concordo menos com Bush no plano interno do que no plano externo, mas, por razões que também aí serão evidentes, Kerry não me parece muito melhor. Ao que escrevi na altura, não há alterações que queira fazer. Quanto a questões que apenas ontem foram tratadas, aconselho este artigo de Ramesh Ponnuru (editor da National Review) no New York Post, que elogia aspectos do programa de Bush que (numa avaliação muito superficial, convém sublinhar) me parecem positivos, na sáude e nas pensões, aumentando a escolha (e a responsabilidade) individual nestas questões.
Terminaram os debates. Seguirá agora a campanha. A The Economist trouxe na passada edição um dossier, que ainda não li (escuso de fazer link porque é só para assinantes) sobre as duas candidaturas. Fica aqui prometido que, antes das eleições, e depois de ler esse dossier, escreverei um texto, fazendo aqui um comentário final acerca de quem seria a melhor escolha para Presidente dos EUA. Antes do primeiro debate, estava "disponível para ser convencido", por assim dizer. Havia aspectos da política de Bush que não me encantavam, e caso Kerry apresentasse melhores soluções, não me custaria dizer que o prefereria. No entanto, Kerry não disse muito que me convencesse. Depois destes três debates, Bush ainda me parece a melhor escolha. Faltam duas semanas para as eleições. Até lá, farei então (pelo menos) mais um comentário acerca desta questão...
Posted by Bruno at 03:49 PM
outubro 13, 2004
A Mais Gentil das Expropriações
O plágio. Poucas coisas gozam de tão diminuta fama como o plágio. Um plagiador é encarado de soslaio. É considerado um criminoso. Com razão, é certo. Roubar é roubar. Seja o objecto do roubo uma nota de papel ou uma nota num papel. Seja uma propriedade de alguém ou o que alguém disse com toda a propriedade. Roubo é roubo. Seja do que fôr. Há, no entanto, razões para olharmos de outra forma para o plágio. Compare-se com outro tipo de expropriações. Todas são violentas. A expropriação, de terra, de bens, todas são de uma violência extrema. Há no acto de roubar um exercer da força contra quem a sofre. São actos totalitários. Tal não acontece no plágio. O plágio é uma expropriação não totalitária. O plágio é um roubo. Certo. Mas um roubo delicado. Sem violência. Mais, há no plágio, um elemento que não deve ser descurado: o da admiração que o expropriador nutre pelo expropriado. O expropriador só expropria o expropriado porque considera que o expropriado é um melhor utilizador do verbo que o expropriador. O plágio é quase um acto de amor. A expropriação das palavras é a mais gentil de todas as expropriações.
Posted by Bruno at 10:42 PM
The Life of Brian, perdão, John
Parece que Cristo terá descido à Terra. E parece que se trata de John Kerry. Pelo menos assim parece crer John Edwards (a quem passaremos a chamar de John "The Baptist" Edwards). Disse o Vice-Presidente:
"When John Kerry is president, people like Christopher Reeve are going get up out of that wheelchair and walk again...We will stop juvenile diabetes, Parkinson's, Alzheimer's and other debilitating diseases."
John Kerry é o Salvador...
Posted by Bruno at 10:41 PM
outubro 12, 2004
Sem Escolha
Alberto João Jardim afirmou que o momento é de "confronto político". Ou "nós ou eles", diz. Depreende-se que o "nós" se refira ao PSD de Santana, e o "eles" o PS de Sócrates. O pior é que Alberto João é capaz de ter razão. E o mais preocupante é que entre uns e outros, a diferença não será muita.
Para quem defenda que o Estado deve ser limitado, o PS, seja qual fôr o seu líder, não será a opção correcta. E Sócrates, que gosta de se reclamar como o herdeiro do guterrismo, apenas confirma a regra. Esses anos que Sócrates tanto elogia não primaram pelas reformas profundas que seriam necessárias para diminuir o peso do Estado em Portugal. O PSD de Santana Lopes, com o pouco tempo de governo que serve de exemplo, também não inspira grande confiança.
E é esta a escolha que se avizinha para as próximas eleições legislativas (sejam elas quando forem). Um partido estatista contra outro partido estatista. Para quem acha que é precisar reformar profundamente o Estado, nenhum valerá o seu voto.
A culpa? Exclusivamente do PSD. Não do Presidente da República. A esquerda, cuja razão pelo pouco apreço que nutrem pelo Primeiro-Ministro pouco tem a ver com a dimensão do Estado que ele defende, gosta de colocar a responsabilidade pelo facto de Santana ser Primeiro-Ministro no Presidente da República. A retórica por este usada, aquando da sua decisão, não ajuda a ter uma visão diferente. Mas o facto é que este se limitou a respeitar a vontade da maioria parlamentar. Esta sim foi repsonsável pela escolha do Primeiro-Ministro, e especialmente o PSD.
Uma solução? O PSD mudar de liderança, e, mais importante que isso, de orientação. Duvido que isto venha a acontecer. Primeiro, porque não sei se existe uma grande vontade por parte do críticos de Santana em concorrer contra ele no próximo Congresso do partido (renitência que a ser verdadeira, acho criticável). E em segundo lugar, porque mesmo que estejam interessados em apresentar uma lista concorrente, dificilmente ganhariam (o que não é razão para não a apresentarem).
Ou seja, esperam-nos pelo menos mais seis anos de mau governo em Portugal, se os prazos eleitorais se cumprirem (como num país civilizado, por muito mau que seja o respectivo governo, deve acontecer). O que resta do governo Santana Lopes, e, caso este perca, os quatro de Sócrates. Claro que Santana pode vir a ganhar as lesgislativas, e Sócrates pode até ficar mais que quatro anos no poder. Seis anos de mau governo é apenas o cenário menos mau que posso conceber (mais uma vez, caso os normais ciclos eleitorais se cumpram). Seis anos mais, a adiar reformas. Seis anos mais, a agravar os problemas. A tornar ainda mais díficeis as reformas que, apesar disso, são imprescindíveis. Ou seja, a diminuir cada vez mais a probabilidade de alguém ter a coragem de as propôr e aplicar, isto ao mesmo tempo em que estas se tronam cada vez mais necessárias. As perspectivas não são as melhores...
Posted by Bruno at 11:48 PM
Exactamente
Faço minhas (numa atitude esquerdista, reminiscente das expropriações tão populares nas planícies alentejanas dos idos de 75) as palavras do João Miranda:
"A decisão de Bush de invadir o Iraque foi correctíssima à luz dos interesses dos Estados Unidos e da informação conhecida quando a decisão foi tomada."
Nem mais...
Posted by Bruno at 10:33 PM
outubro 11, 2004
Células Estaminais
No meu texto sobre o mais recente debate entre Bush e Kerry, mencionei o debate acerca do stem cell research, termo cuja tradução desconhecia. Aquilo que aí me interessava era a própria existência de um debate à volta dessa questão, e por isso não me concentrei na substância do debate em si. O João Moreira Pinto, que faz o favor de me encontrar a tradução que desconhecia, fez o que eu não fiz, e escreve três posts (este é o primeiro, este o segundo, e este o terceiro) onde mostra as várias posições acerac desta questão, e analisa-as. Apesar de este ser o género de questão onde me é difícil tomar uma posição, tendo a concordar com o que ali é dito.
Posted by Bruno at 11:28 PM
Escandaloso
Vivemos tempos de crise. Os amantes do mercado livre propõe reformas. Reformas duras. Porquê? Porque, dizem, a crise é grave. E o que fazem estes indivíduos, nestes tempos de cirse? Entregam-se a actividades de ostentação da riqueza, onde discutem temáticas burguesas, como o cinema de Martin Scorsese e as qualidades estéticas de Beatriz Batarda. Actos de exploração das classes servis. Deglutem repastos preparados por aqueles que têm menos, para o consumo exclusivo dos que têm mais, onde sem qualquer vergonha estes perigosos reaccionários se incluem (à excepção, segundo dizem, de um dos presentes, conhecido pela sua juventude, e insucesso crónico com o sexo oposto). Como soube yours truly deste escandaloso evento? Existem rumores. Fotografias inconclusivas quanto à identidade deste vis indivíduos. Existem relatos, em que, imagine-se, se fazem elogios de índole pessoal a esta gente. Existem ainda mensagens encriptadas, pré e pós evento. Se estivesse no Fórum TSF, não hesitaria em dizer que estou indignado. Tremendamente indignado. E quanto a rumores que dão como certa a presença de yours truly neste inqualificável evento, estou com o professor Marcelo: o silêncio também é uma forma de responder...
Posted by Bruno at 10:43 PM
outubro 09, 2004
Bush vs. Kerry
Acabo de assistir ao debate entre George W. Bush e John Kerry. Dos três debates que até agora se realizaram, achei este o mais desinteressante. O facto de ter sido um debate com perguntas da assistência, com os candidatos a dirigirem-se directamente ao público, deu ao debate um carácter demasiado teatral, com os dois candidatos a procurarem dizer piadas (e aqui, Bush é mais down to earth, e por isso sai-se melhor), o que tornou o debate puramente político menos substancial. Uma coisa curiosa: substância à parte, achei que Kerry seria amanhã dado, nas sondagens, como o vencedor do debate. Estando a assistir ao debate na CNN, vi o inquérito feito a algumas pessoas após o debate, e à excepção de uma senhora que não ficou convencida por nenhum dos candidatos, os restantes inquiridos disseram que Bush os havia conquistado neste debate. Mas vamos à substância, que é isso que interessa. Ficam aqui uns primeiros comentários, sendo provável que mais tarde possa acrescentar alguma coisa.
A Guerra
Este é o tema em que estou mais próximo de Bush, apesar de achar que a condução do pós-guerra no Iraque não terá sido a melhor. Quando questionado acerca da justificação para a guerra, Bush chamou a atenção para o comportamento hostil de Saddam, o desrespeito continuado pela ONU, e o não cumprimento da obrigação de provar a não-existência de WMD. Como tenho vindo a dizer aqui, este comportamento de Saddam, só por si, era um factor desestabilizador da região. E quando Kerry, tal como no debate anterior, disse que o verdadeiro alvo era Bin Laden, e não Saddam, Bush disse algo com o qual não podia concordar mais: a guerra contra o terrorismo não é apenas contra Bin Laden, o objectivo não é apenas apanhar Bin Laden e julgá-lo, mas impedir que Bin Laden e outros como ele adquiram os meios para atacar os EUA e os seus aliados, e isso só se pode fazer impedindo que os Estados que possam ter interesse em ajudar esses terroristas tenham os meios para o fazer. Mais do que as suas críticas à questão iraquiana, é o facto de Kerry não dizer isto que não me dá confiança na sua candidatura.
A Economia
Kerry esteve bem ao criticar o défice criado por Bush. Mas Kerry não se propõem a cortar a despesa. Pelo contrário. Propõe inúmeros programas sociais. E visto que prometeu (só faltou dizer "read my lips") não aumentar os impostos para a classe baixa e para a classe média, esses programas só poderão ser pagos pelas classes mais ricas e pelas empresas, através de mais impostos. Ponho completamente de parte a questão de achar que esta lógica de resdistribuição ser, do meu ponto de vista, profundamente errada, ao entregar o dinheiro dos mais ricos aos meus pobres, independentemente da razão dessas diferenças (não nego que todos tenham direito ao mínimo para viverem, mas não são esses os termos que Kerry usa). É que para além dessa falha que para mim parece evidente, há uma incoerência fundamental na proposta de Kerry, de que já falei aquando do debate vice-presidencial: queixa-se do "outsourcing", mas a consequência das suas propostas (aumento dos impostos para os "ricos", e muito provavelmente, muitas empresas), é aumentar o tão abominado "outsourcing". "Outsourcing" esse que Kerry pretende combater, dando benefícios (julgo que utilizou a palavra no sentido de subsídios, mas admito que possa estar enganado) às empresas. Ou seja, Kerry é a favor da intervenção directa do Estado, com o uso de dinheiros públicos, tendo como objectivo a preservação de empregos que em condições normais, de livre concorrência, não seriam sustentáveis. Ou seja, o exacto oposto do que julgo dever ser o papel do Estado. E que para além disso, revela, nesse grande multilateralista que é Kerry, que tanto se preocupa com os pobres, uma grande falta de preocupação com a retirada de oportunidades de desenvolvimento que esses empregos deslocalizados poderiam trazer a países menos desenvolvidos, caso Kerry não achasse por bem evitar a dita deslocalização.
A Ética e a Política
Um aspecto interessante do debate político americano é a importância que aí existe das questões éticas. Duas perguntas foram colocadas acerca de questões deste tipo. Uma sobre o stem-cell research (mais uma vez tenho de dizer que não sei como se diz isto em português), outra sobre o aborto. Não há questão mais complicada para debater politicamente que uma questão ética. A experiência de tratamento político de certas questões é inexistente. Por serem fruto de inovações científicas (no caso do stem-cell research), não há precedentes legislativos. O resultado é uma divisão profundíssima entre o lado "a favor" e o lado "contra", divisão essa que não é passível de uma solução de consenso. Este é um factor que, na minha modesta opinião, explica a profunda divisão política do eleitorado americano, que tornou a eleição presidencial de 2000 a eleição equilibrada que foi, e que fará desta eleição uma eleição em que o resultado final será, muito provavelmente, uma incógnita até ao dia 2 de Novembro: a concentração do debate político norte-americano nas "culture wars", centradas, em maior ou menor grau, em questões éticas tornadas questões políticas.
Quem Escolher
Este debate, como os dois debates anteriores, serviu essencialmente para confirmar aquilo que já pensava. Bush tem dois problemas essenciais: cometeu erros na condução do pós-guerra iraquiano, e tem uma política económica que não é propriamente muito inspirada numa ideia de governo limitado. Mas o verdadeiro problema é que Kerry é ainda pior. Defende uma maior intervenção estatal. E, pior do que a incoerência na questão iraquiana, parece não ter percebido que a guerra contra o terrorismo é muito mais que uma questão de bons serviços secretos e law-enforcement. Bush pode não ser ideal. Mas ao menos sabe como é o mundo em que temos de viver.
Posted by Bruno at 03:55 AM
outubro 08, 2004
Magnólia

"Vivemos a vida como calha. Devemos tentar fazer o bem." Nem sempre fazemos. Está na natureza humana. Errar. Saber que errámos. Arrependermo-nos. Viver com o arrependimento. Querermo-nos redimir. Não há nada mais humano que o desejo de redenção. Mas temos de viver com o arrependimento. Ele só nos deixa quando morremos. "Podemos cortar com o passado, mas o passado não corta connosco".
Posted by Bruno at 10:49 PM
Deconstructing Me
Perguntam-me porque razão as minhas (frustradas) incursões no humor envolvem muitas vezes o sono, a televisão e o insucesso com o sexo oposto. Os dois primeiros explicam-se facilmente: é isso que faz o meu dia-a-dia. E com isto (e com a cara de puto que o Senhor me força a ostentar) se explica o terceiro...
Posted by Bruno at 10:45 PM
outubro 07, 2004
Ainda Marcelo
Apenas mais alguns comentários relativamente a esta questão:
1-Pacheco Pereira escreve um post criticando aqueles que puseram em causa a existência de pressões. Do que escrevi ontem, pode-se depreender que eu próprio tenha escrito isso, especialmente quando disse "por muito que nos pareça que se deve a uma pressão do governo, não sabemos se foi realmente isso que aconteceu". Falo por mim: Não me move qualquer simpatia pelo Governo. Pelo contrário. Não pus em causa que as declarações de Gomes da Silva constituíssem uma forma de pressão. Mas como disse o Miguel Noronha, resta saber se a coisa se ficou por aí, ou se houve mais. Se houve mais, a gravidade da situação é muito maior. É isso que não sabemos, e o que quer que possamos dizer acerca disso é mera conjectura.
2-Não duvidando que houve pressão, restando saber se a pressão se ficou pelas declarações do Ministro ou se foi de maior grau, coloquei ainda outra hipótese: a de Marcelo ter saído, não devido a essa pressão, mas por vontade própria, querendo aproveitar-se da situação para ganhar vantagens políticas. É isso que não sei se aconteceu ou não. Conhecendo o historial de Marcelo, não me parece inverosímil. A outra hipótese, pressão governamental (para além das declarações), também não.
3-Repito o que disse ontem: independentemente de tudo isto, Gomes da Silva não pode continuar como Ministro. E se houve um maior envolvimento do governo na questão, é todo o Governo que não pode continuar.
4-Acrescento ainda mais uma coisa: ao contrário do que insinua o Daniel Oliveira, não é o mercado o culpado da situação. Se há coisa que esta situação mostra (como já foi dito em vários blogues), é que se os negócios são como são em Portugal (o que Daniel Oliveira diz que os apreciadores do mercado livre não sabem como funciona) é devido à interferência do Estado. É o poder do estado de decidir quem emite ou quem deixa de emitir canias televisivos que faz com os negócios na área em causa dependam do poder político. O Daniel Oliveira gostaria que o poder político se "portasse bem", e não tivesse ligações obscuras com os "interesses". Queria que o governo fosse um governo de anjos. Como não é, nem poderia ser, um governo de anjos, não podemos dar condições para que possam "portar-se mal". O Estado, seja qual for o governo que tenah sido eleito, pura e simplesmente não deveria ter o poder que tem na àrea da comunicação social (só para falar da questão em causa). O governo não deveria interferir em questões como estas, ponto final. Precisamente para evitar situações deste tipo. Veja-se, por exemplo, o que disse José Magalhães, ontem na SIC Notícias. Acerca do papel da PT nos média, e o controlo que o Estado ainda exerce sobre essa empresa, situação pela qual Pacheco Pereira culpou Guterres, Magalhães, que na altura não criticou a opção do seu então líder, respondeu que não o fez porque "não estava à espera que nomeassem Luís Delgado". Ou seja, o problema, para Magalhães, parece estar na nomeação de alguém com as simpatias políticas de Delgado, não o perigo de um qualquer governo, de qualquer partido político, nomear alguém por mero interesse político. Esse é verdadeiro problema, e seria um problema com qualquer governo. É isto que a esquerda, e grande parte da direita, geralmente não percebem. E temo que não seja desta que o percebam. O país é que paga.
Posted by Bruno at 10:28 PM
outubro 06, 2004
Marcelo
Acerca do caso do dia, gostaria de deixar aqui algumas notas:
1-Não gostava dos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas era livre de não os ver, como qualquer pessoa neste país. Uma grande parte dessas pessoas gostava dos comentários de marcelo, e por isso assistiam ao jornal dominical na TVI. Estavam no seu direito.
2-As declarações de Gomes da Silva são inaceitáveis. O Governo tem o direito de criticar quem o critica. Foi o que Gomes da Silva fez. Mas isso implica que haja liberdade para criticar o Governo. Gomes da Silva pode dizer que Marcelo "destila ódio". Não pode é apelar a essa coisa que dá pelo nome de Alta Autoridade para a Comunicação Social para que impeça Marcelo de "destilar ódio".
3-Marcelo saiu da TVI. Resta saber por que razão. Terá sido educadamente convidado a sair por Paes do Amaral? Ou terá saído por vontade própria? A primeira hipótese é bastante credível. A declaração de Marcelo insinua isso mesmo, quando afirma que teve total liberdade durante quatro anos e meio (os destaques são meus). E mesmo o facto de Marques Mendes ter feito declarações colocando a responsabilidade da saída de Marcelo em pressões exercidas sobre a TVI, como nota o Daniel Oliveira, parece indicar nesse sentido. No entanto, isto não é óbvio. São meras conjecturas que andamos por aqui a fazer. São palpites. E é por valerem pouco que normalmente não gosto de os fazer aqui. Hoje no entanto, acho que se justifica. Mas voltando ao assunto: tudo parece indicar que Marcelo saiu empurrado. E ninguém acha estranho? Ninguém (à excepção do LR do Blasfémias)coloca a hipótese (porque o cenário de que toda a gente fala também não passa disso) de tudo isto não passar de uma acção de spin de Marcelo. Aliás, uma jogada de spin a que o próprio Marcelo, naquele vazio que caracteriza as suas intervenções, daria certamente vinte valores. Marcelo tinha aspirações políticas, como qualquer pessoa que não fosse ingénua perceberia. Belém não seria um destino que desdenhasse, certamente. E que altura melhor para sair da TVI, abrindo as portas para a sua candidatura? Que melhor altura que esta, e ainda por cima lançando sobre o governo o estigma do atentado à liberdade de opinião? É apenas e só um cenário (vazio como os que Marcelo aprecia), mas que vale tanto como o cenário que todos concebem, da pressão governativa.
4-Uma conclusão, para deixar bem claro o que quero dizer: Marcelo tem tanta liberdade para criticar o governo como o governo para o criticar a ele. Gomes da Silva fez mais que isso. E o que fez já não é admissível. Não há dúvidas que a saída de Marcelo é consequência dessas declarações. Por muito que nos pareça que se deve a uma pressão do governo, não sabemos se foi realmente isso que aconteceu. pode ser um golpe de spin de Marcelo. Não sabemos. Mas uma coisa fique clara: Gomes da Silva, qualquer que tenha sido a razão para a saída de Marcelo da TVI, não pode ser Ministro, devido ao conteúdo das suas declarações. E se realmente houve pressão para a TVI empurrar Marcelo, coisa que apenas podemos supor que tenha existido (e neste momento, embora não tenha sido essa a primeira ideia que tive, é isso que suponho), é o próprio governo que não o poderá continuar a ser. Tão simples quanto isto...
Posted by Bruno at 09:31 PM
Cheney vs. Edwards
Fiquei, como seria de esperar, acordado durante a madrugada passada para assistir ao debate vice-presidencial nos EUA, entre Dick Cheney e John Edwards. Apenas e só por uma razão: Cheney. Eu simpatizo com Cheney. É um assassino argumentativo. Uma língua viperina, que ataca sem escrúpulos o adversário. E, argumentos políticos à parte, eu gosto de gente assim. E muito sinceramente, estava à espera de uma humilhação de Edwards. Não o conhecia bem. E ontem, vi a razão porque Edwards ganhou milhões de dólares como advogado: soube defender-se, mesmo quando aquilo que estava a dizer me parecia completamente descabido de senso. Ou seja, embora me parecesse, muitas vezes, que Cheney estava certo no que estava a dizer, mediaticamente, Edwards foi eficaz. Talvez por isso a opinião generalizada de que houve um empate no debate de ontem.
A primeira parte de debate foi a mais interessante, visto que ao tratar da política externa (tema do debate presidencial da semana passada), permitia uma base de comparação entre os "vices" e os seus "chefes". E uma coisa foi bastante clara. Ambos são incomparavelmente superiores aos respectivos chefes nestas coisas (o que não quer dizer que fossem melhores presidentes, apenas estão mais à vontade no debate). A dada altura no debate, Cheney defendeu a necessidade da guerra no Iraque. Edwards argumentou que não haviam ligações entre a al-Qaeda e o Iraque, como Cheney teria dito antes. Aí, Cheney disse aquilo que tenho vindo a dizer já várias vezes aqui. A questão não é se havia ou não ligações entre a al-Qaeda e o Iraque, no que diz respeito aos ataques de 11 de Setembro, mas sim a probabilidade de, fáce ao historial de ambos, haver interesse em que essas ligações existissem.
Cheney insistiu na caracterização de Kerry como um "flip-flopper". Edwards procurou refutar esta imagem, bem como a de que Kerry seria um Presidente "mole". Edwards assegurou que Kerry não dará a nenhum outro país veto sobre a segurança dos EUA. Pessoalmente, esta ideia parece-me incompatível com a argumentação que Kerry por vezes faz (nunca é a mesma, não é verdade?) de que a ida para o Iraque dependeria da existência de uma coligação mais alargada. Se depende da construção de uma coligação, os EUA estão sujeitos à vontade de outros países, e não a uma conjugação do seu interesse e da sua capacidade. Portanto, o argumento cai por terra. Cheney, no primeiro dos seus falhanços, não disse isto. Esta, que me parece uma incoerência fundamental no discurso de Kerry, e uma das razões pelas quais não me dá confiança, foi uma questão que Cheney ignorou, uma oportunidade de ouro para descredibilizar (com toda a razão) a política de Kerry, que não foi aproveitada.
Apesar deste falhanço, Cheney conseguiu chamar a atenção para as fraquezas da candidatura de Kerry. Fez, por exemplo, o que Bush não o fez: referir o registo de Kerry no Senado, e o significado político do mesmo, deixando Edwards sem outro "argumento" que uma proclamação de fé em que Kerry não será "mole" contra o terrorismo, e que, claro, foí um "líder" no Vietname. Cheney não nasceu ontem, e disse que não punha em causa o patriotismo de Kerry, mas o seu juízo ("judgement").
Cheney esteve ainda bem, quando Edwards afirmou que 90% das baixas da coligação no Iraque eram americanas, e Cheney respondeu acusando Edwards e Kerry de estarem a desvalorizar o papel dos iraquianos que trabalham para estabilizar o país, como aliás, Bush já havia dito na semana passada.
Ainda na política externa, um ponto positivo para a candidatura Kerry/Edwards: a posição relativa ao conflito israelo-palestiniano, defendendo o direito de Israel se defender dos terroristas que ameaçam diariamente o país. Cheney nem sequer comentou, visto que parece de facto existir consenso entre as duas candidaturas relativamente a esta questão.
O debate mudou então para a política interna, onde, do meu ponto de vista, a candidatura Bush/Cheney é mais fraca (sem que os seus adversários sejam melhores). Cheney falou, de forma incrivelmente abstracta (culpa da moderadora, que fazendo uma pergunta exageradamente vaga, deu margem para esta fuga de ambos os candidatos), da importância de se criarem empregos, e que a forma de o fazer era estimular o investimento (defendendo portanto, os cortes fiscais de Bush), bem como a importância de na àrea da Educação, dar mais responsabilidade e margem de escolha aos pais (em termos semelhantes ao que os Tories se propõe fazer em Inglaterra). Edwards atacou então Cheney utilizando a demagogia do "outsourcing", acusando Bush e Cheney de serem a favor da deslocalização de empregos para fora dos EUA, como se fosse uma questão de ser a favor ou contra, e não uma questão de achar que isso será inevitável fáce às vantagens que isso traz para as empresas (Bush/Cheney), ou de achar que se justifica a intervenção estatal para manter esses empregos (em condições menos competitivas para as empresas, convém não esquecer) no país (Kerry/Edwards). Apesar de ser demagógica, esta argumentação tem impacto mediático, aliás como o momento em que Edwards acusou a Administração de ter mudado a sua posição em muitas questões de política interna. No que diz respeito a esta, não sei se Edwards estava certo (Cheney procurou refutar essa acusação), mas foi eficaz como forma de fragilizar a administração. E muitas vezes, para um eleitorado indeciso, estas manobras algo vazias mas eficazes podem ser decisivas na definição da escolha da orientação de voto.
Ponto positivo para Edwards: a crítica à política fiscal de Bush, e especialmente (num ponto que apela a um eleitorado naturalmente conservador) ao aumento da burocracia em Washington. O problema está em que a solução proposta por Kerry e Edwards não é a do corte da despesa federal (onde Bush peca), mas o aumento dos impostos para os "ricos" e para o "negócio" (Edwards não resiste a esta linguagem demagógica), o que (e isto Cheney não disse, falhando mais uma vez em mostrar a incoerência do discurso dos seus adversários) resultaria muito provavelmente, no "outsourcing" que tanto abominam.
Avizinham-se dois debates entre os candidatos presidenciais. Dois debates em que as questões que serão tratadas são aquelas em que a plataforma (o programa) de Bush me parece mais fraca (mais uma vez, sem que Kerry me pareça ser uma boa alternativa), como aliás, o debate vice-presidencial mostrou (foi na política interna que Edwards melhor conseguiu atacar Cheney, por muito demagógico que eu tenha achado esse ataque). E perante este facto, dá-me ideia que posso arriscar uma pequena previsão: no voto popular, Kerry será o vencedor, porque acho que poderá apelar ao eleitorado ainda indeciso (embora, a mim, caso eu votasse, não me convencesse, muito devido às incoerências para as quais chamei a atenção). Com isto não quero dizer que será ele o Presidente. Isso depende de quais os estados que cada um dos candidatos poderá ganhar, e o equilíbrio no colégio eleitoral que daí resultará. Pode ser que Bush se saia bem nos próximos debates, e eu acabe por me enganar. Mas uma coisa é certa: duvido que nos próximos debates, eu concorde muito com Bush. Mas duvido ainda mais que concorde com alguma coisa do que Kerry dirá. Veremos...
Posted by Bruno at 03:09 PM
outubro 05, 2004
The Right Way
Em Inglaterra, começou ontem a Conferência do Partido Conservador. Um dos problemas enfrentados pelos Tories é a percepção que grande parte do eleitorado tem dos seus membros, como um grupo de velhinhos antiquados, ignorantes da vida do "homem comum". Para contrariar esta percepção, os Tories tiveram a feliz ideia de, para a conferência desta semana, realizarem um vídeo, onde algumas das principais figuras do partido participavam num exercício nostálgico de relato das memórias do seu primeiro beijo. Para mostrar que o average torie MP, também é o average man. A iniciativa teve exactamente o mesmo efeito prático que teve a transfiguração de Michael Howard de alguém que tinha "something of the night" para um velhinho simpático: soou a falso. Para além de ceder à lógica blairista de misturar a política com aquilo com que ela não deve ser misturada, falha redondamente. Por uma simples razão: a simpatia não é característica predominante no conservadorismo. Se há coisa que faz de mim um conservador, é achar que o mundo é tudo menos simpático. E que a actividade política, quando confrontada com as realidades desse mundo, resulta em coisas que para muita gente, não serão simpáticas. O que me aproxima do conservadorismo, é a noção de que a realidade é bem mais dura do que aquilo que gostaríamos que fosse. No fundo, aquilo que ouvi de Oliver Letwin (ministro-sombra das Finanças), quando este, ao defender a necessidade de diminuir o peso do Estado, não escondeu que isso implicaria a rescisão com um grande número de funcionários públicos.
Hoje, foi o dia do primeiro discurso de Michael Howard (falará de novo na quinta-feira). Um discurso que estabeleceu prazos concretos para medidas concretas, caso os Tories sejam governo (improvável, diga-se de passagem): não aumento de impostos, política dura contra o crime, fim da "cultura da compensação", e várias outras medidas (ver aqui). Isto, claro, para além da já habitual crítica à "Europa", a partir da ideia (do meu ponto de vista, corrrectíssima) de que a "Constituição" afastará ainda mais um poder político cada vez maior dos cidadãos a ele sujeitos.
Uma ideia é central a todo o discurso: o realismo. Assume-se a necessidade de tomar certas medidas. Define-se um prazo para as concretizar. Não se esconde as implicações, negativas para uma parte dos cidadãos, de algumas dessas medidas. E não se promete o que não se sabe se se pode cumprir ou não (não houve promessas de baixar impostos, por exemplo, apenas de não os aumentar). Enfim, o que eu gostaria de ouvir por parte do Governo do meu país. Mas a realidade é bem mais dura do que aquilo que gostaria...
Posted by Bruno at 10:33 PM
"Era Cego, Mas Agora Consigo Ver"
Disse hoje o Presidente da República, que são necessárias reformas, "sem ambiguidades quanto ao seu sentido fundamental e sem compromissos paralisantes". O Presidente da República tem razão. resta uma pergunta: onde estava ele quando Guterres era Primeiro-Ministro?
Posted by Bruno at 10:24 PM
outubro 04, 2004
A Televisão e a Paz Universal
Ocupo grande parte dos meus dias a ver televisão. Já aqui falei acerca do episódio dos Simpsons, em que, perante a ausência da dita, Homer exclama "Where's life?". Compreendo-o perfeitamente. Há dias, na série Mad About You, Paul (Paul Reiser), quando confrontado pela sua mulher acerca da razão porque não cortava um pedaço de queijo à sua disposição, dizia que não se sentia à vontade para o fazer, porque este tinha um triângulo perfeito, e quem era ele para o destruir. Compreendo-o perfeitamente. São questões destas que me assolam permanentemente. Por vezes, penso que sou demente. Quando vejo estas séries, confirmo: sou doente.
Por exemplo, tenho uma relação complicada com o fogo. Reza a história que um dia, o Homem descobriu o fogo. A historiografia relata esse dia como um dia glorioso, em que as maravilhas da cozinha desabrocharam para a Humanidade. Trata-se certamente da historiografia jacobina que glorifica a Revolução Francesa. É verdade que com a descoberta do fogo, o Homem teve a possibilidade de abandonar o mau hábito de comer carne crua. Mas, e é isto que os jacobinos, na sua atroz simplicidade, não compreendem, o Homem trouxe para si mais um perigo: o perigo de se queimar. Eu, consciente da tragédia que sempre acompanha o progresso, olho para o fogo com a mesma desconfiança com que olho para o dr. Louçã: acho que não deve ser proibido, mas pessoalmente não quero ter nada a ver com ele.
Aliás, a minha relação com o fogo obedece a um princípio que explica, por exemplo, a razão porque sou incapaz de beber Coca-cola sem gelo. Infelizmente, o princípio aplica-se também à minha relação com o sexo oposto, para mal dos meus pecados (em virtude desta situação, inexistentes): if it's hot, it's not meant for me to touch...
Por falar em gelo, há um problema, para o qual Miguel Esteves Cardoso em tempos alertou, e que tenho enfrentado desde que me lembro de mim. Não sei se o leitor alguma vez experimentou pedir gelo num café. Pedir gelo num café é uma experiência única. Traumática. a reacção de quem nos serve é sempre, sempre, de uma brutalidade extrema. Inusitada. Enfrentar a reacção de um empregado de um café quando lhe pedimos gelo é como ser brutalmente agredido na escola. Acreditem quando vos digo isto. Conheço bem as duas sensações.
Mudando de assunto: toda a gente gosta de dormir. Uns dormem mais tempo. Outros menos tempo. Mas todos gostam de dormir. Eu acho o sono sobrevalorizado. É que o sono tem um problema insolúvel. Temos sempre de acordar no dia seguinte.
Mas voltando à televisão: no outro dia faltou a electricidade cá na terra. Não há nada mais dramático que uma falha de electricidade. Fica-se, de um momento para o outro, sem televisão. Há quem subvalorize a televisão. Há razões para isso. Mas há um aspecto que convém não ignorar. Quando as pessoas não têm televisão, o que fazem? os mais afortunados, entregam-se ao pecado. Mas o comum dos mortais não. Têm de falar uns com os outros. O que resulta apenas e só numa coisa: violência. É isto que, por exemplo Kerry, não percebe. O diálogo não aumenta as possibilidades de entendimento. Quanto mais as pessoas dialogarem, menos concordarão umas com as outras. E daí, gera-se a violência. Daí, a televisão ser a chave para a paz universal. Enquanto houver uma televisão para todos, não haverá guerras. Até à metade do século passado, não havia televisões. Por isso mesmo, a Humanidade se entregou a inúmeras guerras ao longo da História. Porque os governantes das nações não tinham outra hipótese que não conversar com a mulher (ou, em França, com o "companheiro") à mesa. Se houve paz na Europa, nos últimos 50 anos, nada disso se deveu à integração europeia, mas apenas e só à generalização da televisão. Penso mesmo que para solucionar os problemas no Iraque, George Bush precisaria apenas de oferecer uma televisão a cada iraquiano. Nem sempre o progresso é mau...
Posted by Bruno at 10:15 PM
outubro 03, 2004
Boris Johnson
E por falar na The Spectator, fica aqui outra recomendação: descoberto no De Direita, o site de Boris Johnson, editor da melhor revista do mundo, deputado inglês, ministro-sombra, e ao que parece, neófito romancista. Mais um para acrescentar à muito desactualizada coluna ali do lado...
Posted by Bruno at 10:42 PM
The Spectator
Só hoje a comprei, e ainda não tive tempo de ler. Mas o número desta semana da Spectator não se deve perder (e quem a conseguir encontrar faz melhor se a comprar, em vez de ler apenas na net). Um número especial, numa semana em que o Partido Conservador realiza a sua conferência anual (espero fazer um outro comentário acerca da dita), número especial acerca do conservadorismo, em Inglaterra e nos EUA, as diferenças, as semelhanças, o futuro, o que é, o que devia ser. Com artigos de gente tão diversa (uns que são cá de casa, outros que manifestamente não são) Mark Steyn, Pat Buchanan, Oliver Letwin, Peter Hitchens, e mais. Vale a pena...
Posted by Bruno at 10:24 PM
outubro 02, 2004
A República da Estupidez
Em França, esse reino, perdão, essa República, da tolerância, planeia-se um referendo. Sobre a Constituição Europeia? Também. Mas o referendo a que me refiro tem como objecto a entrada ou não da Turquia na UE. Ou seja, para a França, país da tolerância, e da igualdade e da fraternidade, à Turquia não basta cumprir os requisitos que foram exigidos a todos os outros membros, e actuais candidatos. Será necessário também que o povo francês se manifeste favoravelmente a essa entrada. Porque razão é necessário sujeitar a matéria a referendo? Para aferir o cumprimento ou incumprimento dos critérios exigidos? Não é coisa que faça por plebiscito. Para saber se a Turquia pertence, geograficamente, ao continente? Não é através de uma eleição que se faz. É porque a Turquia é um país muçulmano? É porque a sua entrada acabaria com o sonho da Europa nação (onde a França dominaria)? Porque o governo francês vê no referendo uma forma de fugir da responsabilidade de tomar a decisão em que manifestamente está interessado (rejeitar a Turquia), refugiando-se na "vontade popular"? Um pouco de tudo, parece-me. Mas era importante que percebessem uma coisa: o único critério aceitável para a rejeição da entrada da Turquia é um hipotético incumprimento dos critérios exigidos a qualquer, qualquer, membro da UE. Caso estes sejam cumpridos, e a "vontade popular" ou qualquer outro motivo ignorem esse cumprimento, estar-se-á a mandar apenas e só uma mensagem ao mundo muçulmano: não vale a pena modernizarem-se, porque nunca os aceitaremos, pelo simples facto de serem muçulmanos. E aí, estaremos a convidar o mundo muçulmano a pensar como Bin Laden: nunca vos aceitaremos (como, diga-se de passagem, grande parte já pensa) pelo simples facto de não serem como nós. A rejeição da Turquia, a acontecer (e eu não rejeito essa hipótese), só se pode dever ao incumprimento dos critérios que lhe são exigidos. Como aconteceu a todos os que entraram, e espero, com os que venham eventualmente a entrar, em negociações com a UE.
Posted by Bruno at 10:57 PM
Gama de Direita
No Congresso do PS, cedo se acabou a unidade que todos pareciam querer. A culpa, pelos vistos, terá sido de Jaime Gama, que, ao contrário de Sócrates, fala de política, e portanto, chocou quem não concorda consigo. Helena Roseta acusa-o de "fechar as pontes" (sic) que o discurso de Sócrates havia, claro está, "aberto". Alegre diz o mesmo. Alegre diz também que Jaime Gama está, e passo a citar, "mais à direita que Freitas do Amaral". Arrisco-me a dizer que também não é muito difícil...
Posted by Bruno at 10:48 PM
outubro 01, 2004
Revelador
Há horas atrás, José Sócrates falava no Congresso do PS. Falou, falou, falou. No final, a jornalista da SIC Notícias e António José Teixeira concentraram-se numa questão. A crítica ao governo? Não. a estratégia de oposição que Sócrates vai seguir? Não. Após o discurso de Sócrates, o que os ditos jornalistas acharam mais importante, realmente merecedor de destaque, foi o facto de José Sócrates ter sido "o primeiro líder partidário português a usar o teleponto". Diz tudo. Acerca de uns e de outros...
Posted by Bruno at 11:01 PM
Bush vs. Kerry 5 (Um Último Comentário)
Confesso que fiquei supreendido ao saber os resultados das sondagens feitas após o debate, que revelaram que a maioria dos inquiridos considerou que Kerry "ganhou" o debate. Estive a ler os posts de Andrew Sullivan (muito mais detalhados do que os meus) e a minha percepção inicial, que aqui escrevi na passada madrugada, manteve-se. O que Kerry disse confirmou as minhas dúvidas acerca dele, e muito do que Bush disse (embora, como Andrew Sullivan disse, a incapacidade de Bush para reconhecer alguns que actualmente se enfrentam no Iraque faz com que ele pareça estar "out of it"), confirmou aquilo que julgo haver de positivo da sua política externa.
Este debate, dos três planeados, era aquele em que eu, teoricamente, estaria mais "alinhado". Depois de ter ouvido Kerry durante meses, e de ter lido sobre ele, fiquei com uma determinada ideia acerca das suas propostas. Uma ideia não muito favorável. De Bush, achei que as suas opções de política externa iam no sentido certo, embora não muito bem conduzidas, no caso do Iraque. Ou seja, se Kerry me mostrasse que seria capaz de conduzir melhor aquelas que foram as opções gerais de Bush, Kerry seria o meu candidato. Imagino que esta seja a posição de muitos americanos da minha área política, que poderiam ser atraídos a votar Kerry, apesar de serem "naturalmente" republicanos. O problema é que a base de apoio de Kerry defende precisamente o contrário das opções gerais de Bush. Kerry não pode limitar-se a propor uma melhor condução dessas questões, como eu gostaria que ele fizesse, e vê-se forçado a contestar toda a estratégia americana. Kerry poderia ter desfeito a ideia negativa que fazia dele. Caso o fizesse, julgo que muitos americanos estariam dispostos a mudar o seu sentido de voto. O que ouvi não me fez mudar de opinião. Provavelmente, os americanos que têm a mesma opinião que eu também não ouviram nada que a alterasse.
Nos dois próximos debates, será diferente, para mim. Nem Kerry nem Bush são grandes apreciadores do governo limitado. Ou seja, nos dois próximos debates (política interna e economia), não estarei "alinhado". Ambos os candidatos me terão de convencer. Para além de, por não ser americano, ver tudo de uma forma mais distanciada do que a política externa (a política externa dos EUA parece sempre ser uma coisa próxima de nós). Os dois próximos debates serão diferentes para mim: irei vê-los, apenas e só, como alguém que gosta destas coisas, e que gosta de comentar as propostas de quem se candidata a cargos públicos. Aí, talvez a minha avaliação seja diferente. Aliás, o mais provável é que seja...
Posted by Bruno at 10:24 PM
Bush vs Kerry 4 (Primeiro Balanço)
Terminou o debate. Kerry, para além da incoerência de dizer que conseguiria mais aliados para uma guerra que achou um erro, terminou a dizer, acerca de Saddam, que este era uma ameaça. Se era um ameaça, como é que a intervenção pode ter sido um erro? Ultrapassa-me. Bush, por seu lado, para além de me ter deixado descansado em relação a alguns dos pontos em que tinha mais reticências acerca dele, esteve muito bem a responder aos ataques de Kerry: sempre que Kerry atacava Bush pelo seu suposto "unilateralismo", Bush perguntava ironicamente como é que Kerry poderia "trabalhar em conjunto com as nações", se afirma que o Iraque foi a "guerra errada, no sítio errado, no momento errado"? Quem quererá colaborar com os EUA, se o seu Presidente (que Kerry pretende ser) acha que a questão para a qual pede colaboração é um erro? Quando Kerry se propunha a melhorar a situação no terreno, Bush contra-atacava, questionando como poderia Kerry mudar a situação no terreno, se menospreza o governo iraquiano (que tem responsabilidades concretas)? Bush esteve bem, relativamente à questão da Coreia do Norte, ao defender uma posição que tem sido elogiada, o envolvimento em conversações multilaterais com a China, Japão, Coreia do Sul, tendo em vista a contenção da ameaça nuclear do regime norte-coreano, e alertando para os possíveis perigos da estratégia de Kerry (conversações bilaterais entre EUA e Coreia do Norte). E, por último (por agora, que depois de ler os jornais e o que outros blogs dirão, certamente que voltarei ao assunto) Bush esteve bem ao responder àquela que poderá ser, a questão mais complicada e, simultaneamente, mais importante que lhe foi colocada: se estaria disposto a conduzir os EUA a uma nova guerra preventiva. Bush afirmou que esperava que não tivesse de o fazer, que a própria intervenção no Iraque tinha como objectivo impedir que outros estados hostis tivessem o mesmo comportamento do Iraque, mas que, no mundo actual, e perante os perigos que os EUA hoje enfrentam, não poderia pôr essa hipótese de parte. Tal como a questão da retirada do Iraque (post anterior), espero que esta posição seja levada a sério. O problema do Irão, por exemplo, poderá ter de passar por aí (embora eu não saiba muito bem com que tropas, mas enfim). Resumindo, Kerry confirmou o pior que pensava dele; Bush mostrou aquilo que me faz pensar que, apesar das muitas discordâncias, percebeu o carácter da ameaça terrorista, e o que é preciso fazer para a enfrentar.
Posted by Bruno at 03:27 AM
Bush vs. Kerry 3
Uma das reservas que tenho em relação a Bush, e da qual falei há dias, é a pressa que parece existir no seio das tropas americanas, e da administração Bush, em sair. Se o que Bush disse há pouco for levado a sério, ficarei mais descansado: os EUA sairão quando "os generais no terreno disserem que os iraquianos tiverem condições para se defenderem". Será a única maneira de evitar uma guerra civil. E como Bush disse, não é a prometer prazos para a retirada que se garante a estabilidade.
Posted by Bruno at 02:31 AM
Bush vs. Kerry 2
Bush tem um ponto forte. Nunca tinha visto Bush num debate com um adversário, e para mim, que não acho que Bush seja estúpido, a sua capacidade surpreede-me. Kerry ataca dizendo que Bush não gastou um tostão na segurança Interna. Bush explica os tostões que gastou na Segurança Interna. Mas, mais inteligentemente, afirmou que a defesa da Segurança Interna está em "estar na ofensiva", atacar quem nos é hostil, antes que estes tenham condições de nos atacar, ou de ajudar quem nos quer atacar. É isto que Kerry parece não ter ainda percebido. E é por isto que, apesar de tudo o resto, prefiro Bush.
Posted by Bruno at 02:25 AM
Bush vs. Kerry
Estou a assistir ao debate entre George W. Bush e John Kerry. A minha posição é conhecida. Discordo de Bush em relação a muitos assuntos, mas acho que teve a percepção correcta do que signifcou politicamente o 11 de Setembro. Aliás, é já isso que Bush está a dizer, já nestes primeiros minutos: depois do 11 de Setembro, percebemos que era precisar tomar medidas antes que as coisas acontecessem. Kerry não me dá segurança neste campo. E o que começou por dizer não foi o melhor contraponto a esta percepção que tenho das suas posições. Kerry achou que a intervenção no Iraque se justificava (pelo menos votou a favor, apesar de estar neste momento a dizer que a verdadeira guerra era no Afeganistão, como se as duas não pudessem ser complementares). Mas parece também achar que seria necessária uma "abordagem multilateral". Nestes minutos iniciais, Kerry não fez outra coisa se não dizer que Bush afastou os aliados. Das duas uma, ou Kerry acha que a guerra se justificou, ou não acha. Se não se justificou (Kerry disse agora que a guerra foi um e