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setembro 30, 2004
Ao Centro, à Esquerda, ou a Lado Nenhum
No Flashback de ontem, Lobo Xavier afirmou que a vitória de Sócrates representava, para o PS, um abandono da "esquerda", e um realinhamento com o "centro". Esta é uma opinião que, aliás, se ouve por todos os lados. Mas Lobo Xavier não se limitou a fazer uma mera afirmação. Deu um exemplo: a questão da estratégia de coligações. Não foi o melhor que poderia ter dado. Se esta questão é exemplo de alguma coisa, não é de uma rejeição de uma linha "mais à esquerda", mas sim de uma ausência de qualquer alinhamento. Se Alegre e João Soares sempre disseram que, caso não obtivessem maioria absoluta, estariam disponíveis para se coligarem com o PCP e/ou BE, Sócrates disse apenas e só uma coisa: queria ter maioria absoluta, e portanto não colocava a hipótese de não a ter, porque isso seria uma atitude "derrotista". Descontemos o pormenor de Sócrates encarar a política como um jogo de futebol: Sócrates não afirmou que estaria disponível para negociar uma coligação. Mas também não afirmou o contrário. Se esta questão é exemplo para alguma coisa, é para a ausência de todo e qualquer compromisso político no discurso político de Sócrates. Discurso esse que se resume à enunciação dos mais vagos "princípios". Não estou a dizer que Sócrates não esteja mais ao "centro" que Alegre, ou do que estava Ferro Rodrigues. Só estou a dizer é que se esta questão revela algo acerca desse tal "centro" a que Sócrates teoricamente pertence, o que revela é o total vazio do dito. O "centro" de Sócrates não é mais do que aquele espaço onde se pode ser tão depressa uma coisa como o seu contrário.
Posted by Bruno at 10:19 PM
setembro 29, 2004
Scorsese

Um bom livrinho, para quem gosta dos filmes do senhor em causa. Uma análise com algum cuidado de cada um deles (até Casino), que, embora no caso de "Raging Bull" me pareça ser um pouco desajustada, toca em todos os pontos que fazem dos filmes de Scorsese as pequenas maravilhas que são, e no que faz de Scorsese um "autor". O livro teve ainda o mérito de me despertar a curiosidade para alguns dos que não vi, principalmente The King of Comedy, After Hours e The Last Temptation of Christ. Agora, gostava era de ler este, mas a Fnac ainda não me fez esse favor...
Posted by Bruno at 11:26 PM
Faz Sentido
Oiço, na televisão, uma senhora, de seu nome Maria Helena. Quem é Maria Helena? Segundo a própria, uma esotérica. É verdade, caro leitor. Uma esotérica. Aparentemente, a senhora em causa dedica-se a actividades ligadas ao oculto. Perguntam à senhora se ela sempre se dedicou à dita profissão. Maria Helena não se furta a responder: estudou Sociologia. Faz sentido. É mais ou menos a mesma àrea de actividade...
Posted by Bruno at 10:48 PM
setembro 28, 2004
Sim, Mas...
Caro Carlos, a extrema-direita e a extrema-esquerda tocam-se? Sim, e nunca terá lido aqui nada em contrário. Hoje, a torto e a direito, o dr. Louçã chama de "extremista de direita" a um adversário político, como se ele próprio fosse um apóstolo da democracia? Sim, e nunca me verá dizer outra coisa que não seja mal, acerca dessa atitude. Agora, quanto ao que eu escrevi: queria, numa frase, chamar a atenção para a tal "excitação" que surge em momentos destes. Por querer fazê-lo numa frase, não podia escrever uma dissertação acerca da equivalência moral entre a extrema-esquerda e a extrema-direita. Equivalência essa que é, para mim, muito clara (o mesmo não pode dizer o dr. Louçã). Utilizei o termo "extrema-direita" levianamente? Talvez. Mas por uma razão: a qual das duas extremas está geralmente associado o aproveitamento demagógico do crime, clamando por mais "repressão" (uso o termo com maior leviandade ainda do que usei o termo extrema-direita)? A extrema-direita. A extrema-esquerda gosta mais de dizer que é a pobreza (e portanto, o capitalismo) a verdadeira causadora do mal. Esse discurso também o ouvi, de forma mais ou menos sub-reptícia, mas por parte dos jornalistas, e não do "bom-povo". Daí, a propósito daquele caso específico, eu ter feito uma associação à extrema-direita, e não à extrema-esquerda. E isso não faz de mim o dr. Louçã. E muito menos a sra. Lídia Franco...
Posted by Bruno at 11:28 PM
setembro 27, 2004
It's All in The Way They Do It
Caro Carlos, tem toda a razão ao dizer que a ideologia (the ass), nada tem a ver com a indignação (the pants). Mas há outra coisa que o Carlos diz, que diz tudo acerca daquilo que eu quis dizer: "alguns populares se manifestarem junto à casa de uma menina assassinada, exigindo agora, e só agora, justiça (seja ela de que forma for), quando, no passado, a triste vida da pequena Joana lhes terá inspirado pouco mais do que indiferença?" (os destaques são meus). Aqui, nesta frase do Carlos está bem evidente a extrema volatilidade, digamos assim, da "Rua". Tão depressa ignoraram antes, como se esquecerão daqui a uns tempos, como agora, muito devido à "excitação" que a televisão cria, vociferam apelos à morte de quem supostamente (e aqui o supostamente é o mais importante, porque todos são inocentes até prova em contrário) terá cometido o crime. O termo "extrema-direita" não terá sido o mais preciso, mas também não era essa a intenção. O que escrevi era apenas um pequena nota, que procurava evidenciar como em alturas destas, perante actos como este (já se tinha visto o mesmo com a questão do abuso sexual de menores), as pessoas defendem coisas que são "um pouco" atentatórias dos direitos individuais e da ordem pública. E é por isso, e o Carlos concordará comigo certamente, que o processo legislativo não deve ser conduzido a reboque destas ondas de indignação. O Carlos tem razão numa coisa: o rabiosque (a ideologia) nada tem a ver com as calças que o cobrem (a indignação). O problema está na maneira como as pessoas as vestem (o que as pessoas dizem nestas alturas). O Carlos poderá dizer (aliás é isso que diz no seu post) que não é uma questão de ideologia. O que se prova, não me custa a admitir, por, em condições normais, em alturas e situações menos motivadas pela excitação mediática, as pessoas não tomariam posições desse tipo (não defenderem a castração de alguém que tenha abusado sexualmente de uma criança, ou pretenderem espancar um acusado de um qualquer crime na praça pública, por exemplo). Tudo isto é verdade. Mas isso não elimina a questão que aqui se coloca. Que perante a onda de excitação mediática, as pessoas dizem e defendem coisas que não se coadunam com os princípios básicos de uma sociedade equilibrada. Poderá não ser uma questão de ideologia. Mas é preocupante.
Posted by Bruno at 10:10 PM
setembro 26, 2004
Palavras Erradas
No editorial do Público de hoje, Nunco Pacheco critica Donald Rumsfeld, o Secretário de Defesa norte-americano. Mas, e aqui entra a modesta opinião de yours truly, Nuno Pacheco critica Donald Rumsfeld pelas razões erradas. Aparentemente Rumsfeld terá dito que as eleições de Janeiro no Iraque só se realizariam em certas regiões do país, visto que no resto do Iraque, não estão reunidas as condições para estas serem levadas a cabo. Nuno Pacheco acha que os EUA estão a trair o seu propósito de democratizar o Iraque. E, ao criticar este aspecto das declarações de Rumsfeld, ignora aquele que é realmente importante. Se bem me recordo, Rumsfeld terá levantado a hipótese de os EUA abandonarem o Iraque antes de este estar completamente pacificado. Nuno Pacheco comete o erro de achar que a democratização é mais importante que a estabilização.
A culpa, tem de se dizer, é da argumentação americana a favor da intervenção, que colocou demasiado enfâse neste argumento idealista, menosprezando aquele que devia ter sido o argumento central, impedir que o Iraque fosse um elemento desestabilizador da região, que levasse a cabo uma política hostil à segurança ocidental. Ao colocar a democratização como objectivo, transformou-a numa exigência, ignorando (como disse há dias) que essa exigência talvez possa vir a ser incompatível com o que deveria ser o objectivo central.
O que Nuno Pacheco parece ignorar é que muito pior do que o Iraque não se vir a tornar um país democrático, seria o Iraque tornar-se palco de uma guerra civil, que poderia provocar a intervenção dos países vizinhos, ou como diz o artigo de Jorge Almeida Fernandes, também no Público, numa anarquia generalizada. Muito mais do que a ausência de democracia, isto seria um risco que não nos podemos dar ao luxo de correr...
Posted by Bruno at 10:00 PM
setembro 25, 2004
Visto nos Telejornais
Ocorre um crime. E de repente, o "bom povo" converte-se à extrema-direita...
Posted by Bruno at 10:02 PM
O Verdadeiro PS
Rodrigo Moita de Deus, no Acidental, diz (acerca das eleições no PS) que "veremos finalmente qual é o verdadeiro Partido Socialista." Ouvi há pouco que José Sócrates foi o vencedor. Qual será então o verdadeiro PS, pergunto eu? O da "esquerda moderna"? Arrisco-me a dizer que não. Arrisco-me a dizer que o verdadeiro PS é o que concorda com Manuel Alegre, mas que acha (com toda a razão) que com Sócrates, chega "lá" mais depressa. E dizer isto não é um risco lá muito grande...
Posted by Bruno at 09:50 PM
setembro 24, 2004
Insónia
Não consigo adormecer. Não sei como há gente que, de livre e espontânea vontade, dorme apenas quatro horas por dia. É castigo que o Criador por vezes me impõe, e que dispensava de bom grado. No entanto, tenho que agradecer ao Criador por me arranjar maneira de ocupar as horas que a Sua cólera me força a suportar. Passa neste momento na televisão o Dartacão. Devo muito ao Dartacão. Se sou reaccionário, é por causa do Dartacão. Dartacão aspira a guarda do Rei. Aspira a ser um dos Moscãoteiros do Rei. Por fidelidade aos seus "três companheiros" ("os três Moscãoteiros"), e ao rei, Dartacão luta contra Richelião, e outros pérfidos malfeitores, como Vidimer e Rocãoforte (também conhecido por Bigode Preto). Gente que quer usurpar o trono, destruir a velha ordem. Dartacão é um puro conservador. Combate ("e quando eles vão combater, já não há rival algum") para defender o familiar perante a incógnita do desconhecido. Oakeshott deveria apreciá-lo.
O problema está em que o Dartacão não dura a noite toda. E eu continuo sem conseguir adormecer. Há poucas coisas tão dramáticas como a insónia. Talvez mesmo só a beleza dilacerada pela erosão do tempo seja mais trágica. Há, no entanto, algo quase tão desesperante como a insónia: olhar para uma folha em branco. É triste ter uma folha em branco à nossa frente. Enfrentar uma folha em branco é como encetar conversa com uma moçoila esteticamente estimulante: é preciso dizer qualquer coisa, mas as limitações inerentes à espécie humana impedem-nos de fazer o que quer que seja. No fundo, a solidão das sociedades modernas tem a mesma origem que o writer's block: a imensa falta de desenvoltura cerebral com que fomos abençoados pelo Senhor.
Por falar em moçoilas, e em limitações cerebrais: há algumas semanas, com propósitos meramente recreativos, entreguei-me ao contacto com as novas gerações. Um benfiquista (daí as limitações mentais), e duas moçoilas (cá está o outro elemento) pertencentes a faixas etárias que tornam o pecado ilegal, para além de (claro está) pecaminoso. As perspectivas não eram portanto, as mais animadoras. Tudo se agravou quando as jovens, particularmente aquela com quem o Senhor foi mais benévolo, decidiram arrastar-me, juntamente com o benfiquista, para esse ritual tão próprio da feminilidade que é a aquisição de roupa. Quanto se trata de roupa, até a mais esquerdista das mulheres se rende as virtudes do capitalismo.
Eu não percebo este fascínio do sexo oposto, e, como certamente o Dartacão saberia, fraco (veja-se o caso de Julieta, que como todos nós sabemos, tem em Dartacão o seu amor, que precisa de ser salva e protegida por este), pelas roupas. Não há nada tão sobrevalorizado como as roupas. Dá demasiado trabalho: todos os dias de manhã, temos de as vestir, para ao fim do dia, inevitavelmente, as retirarmos de novo. Para quê? Não haverá maneiras melhores de ocupar o nosso tempo? Ver o Dartacão, por exemplo. Para além do facto das roupas representarem, para nós membros do sexo masculino, apenas e só mais um obstáculo. Que queremos nós? Sim, que queremos nós, membros do sexo masculino? Tirar a roupa às moçoilas abençoadas pelo Senhor. Também por isso, o mero acto da aquisição de roupa é tão penoso para nós. É como se estivessem a construir o muro de Berlim à nossa frente, e nos perguntassem se este lhes faz o rabo parecer demasiado grande. Um suplício.
Claro que a roupa também tem as suas vantagens. Vejo-as todos os dias quando olho ao espelho. É nessas alturas que dou graças a Deus por existirem roupas, e as convenções sociais (que como conservador que sou, prezo) nos obrigarem a usá-las. Ninguém merece sofrer com a visão do meu corpo desnudado, nem eu mereço tamanha humilhação.
Há quem diga que não tenho razões para me preocupar: segundo relatos que me fazem (quedo-me pelos relatos, visto que a minha relação com o sexo oposto é pautado pela distância), certas jovens consideram que nada é mais excitante, do ponto de vista pecaminoso, que a inteligência. Caros amigos, tenho-me como pessoa inteligente. Ou seja, elas mentem.
Não sei se o Dartacão tinha ou não problemas com a sua aparência física. Devia ter. Como bom reaccionário que era, estava consciente de que Deus não era misericordioso. Independentemente de os ter ou não, Dartacão era um introvertido. Não encetava um diálogo com Julieta, "a predilecta do seu coração", sem a sua tez se alterar espontaneamente. Como no resto, compreendo o bom do Dartacão. Encetar uma conversação com uma moçoila tocada pela Graça Divina não é fácil. É como enfrentar a Morte. Não sabemos como vai ser, e não sobrevivemos para contar a história.
Continuo sem conseguir adormecer. No fundo, a vida é como uma longa insónia. Vamo-nos mantendo ocupados até adormecermos. É uma folha em branco, que tentamos preencher o melhor que pudermos. Mal, portanto. O Dartacão, certamente, sabia disso...
Posted by Bruno at 02:45 AM
setembro 23, 2004
É Hoje

Posted by Bruno at 10:22 PM
Ilusões Igualitárias
Há já alguns meses, encontrei numa obscura livraria lisboeta, a preço proibitivo do qual só me apercebi após a sua aquisição, The Illusions of Egalitarianism de John Kekes. Kekes é autor de (entre vários livros que nunca li) A Case for Conservatism, e em Illusions..., entrega-se à tarefa de destruir sem misericórdia as falsas premissas, e as perigosas consequências, do igualitarismo político que domina a academia: a fé igualitarista numa tendência do ser humano para comportamentos benignos (ignorando a sua igual propensão para o mal), e de que portanto, o comportamento racional por parte de todos, conduzirá à sociedade equilibrada. A ilusão de que todos merecem um tratamento igual, indepedentemente do seu comportamento (ignorando a noção de responsabilidade moral dos indivíduos pelos seus actos), aliada à ilusão de que todos os seres humanos têm o mesmo "valor", ignorando que o seu valor depende de agirem ou não de acordo com as suas capacidades, de agirem com intentos "bons" ou "maus", de acordo com as regras da sociedade em que se inserem ou não. A ilusão de que a "justiça" pode ser definida de acordo com ideais abstractos, com os quais toda a "boa sociedade" se deve comprometer, para que a consideremos como tal (ignorando que a justiça é um juízo moral acerca de determinadas condutas, feito caso a caso, dependendo se essa conduta respeitou as regras comumente aceites pelos membros da sociedade), ilusão essa que justifica aquilo a que Kekes chama de "perversão da justiça", a redistribuição da riqueza, tirando àqueles que tem mais para dar àqueles que têm menos, independentemente da razão porque uns têm mais e outros menos (ignorando critérios morais como mérito ou responsabilidade, alicerces das nossas sociedades, que não despertam o interesse de intelectuais respeitados como os que Kekes critica no livro). A ilusão de que a "compaixão" é a própria base da moralidade (ignorando que as pessoas devem ser tratadas de acordo com o que merecem). A ilusão de que somos responsáveis pela pobreza dos países menos desenvolvidos, e que temos a responsabilidade de os ajudar (ilusão muita cara ao dr. Mário Soares e restantes defensores da globalização ética), ignorando as razões pelas quais esses países se encontram nessas condições, e sempre com a pretensão de que não estaríamos a criar outros problemas (os igualitaristas, com a sua fé na razão, ignoram que a resolução de um problema cria imediatamente um outro problema). Tudo centrado na ideia de que a política deve ter como objectivo um ideal (ignorando a possibilidade de conflito entre dois ou mais valores), e que a maneira de corrigir os problemas de uma socieade é aproximá-la desse ideal, ignorando (pela própria natureza do "ideal") as características específicas de determinada sociedade, que impedem a obtenção desse ideal, tornando a acção política num perigo para o equilíbrio dessas sociedades. Um livro que vale a pena ler.
Posted by Bruno at 04:55 PM
No Coração das Trevas
Em Inglaterra, o Primeiro-Ministro Tony Blair enfrenta uma situação extremamente complicada. A família de um refém inglês de terroristas no Iraque apelou à cedência por parte de Tony Blair, isto depois de ter sido tornado do conhecimento público o vídeo da decapitação de um outro refém. Perante a brutalidade das imagens, e o desespero da família do refém ainda sobrevivente, Tony Blair terá de tomar uma posição complicada, mas a única de que um líder responsável pode e deve tomar. A posição que o Telegraph defende. A posição que há minutos Michael Howard, líder da oposição, defendeu no Sky News, que por muito difícil que seja para a família do refém, nenhum Primeiro-Ministro pode trocar a vida de um cidadão por uma cedência a quem demonstra, em actos como estes, um total desrespeito pela vida humana. Porque isso, como diz o editorial do Telegraph, apenas mostraria aos terroristas que ao se comportarem desta maneira, terão sucesso. E assim, ao se salvar uma vida, estar-se-ia a condenar muitas outras. É duro, mas o mundo é assim...
Posted by Bruno at 04:43 PM
setembro 22, 2004
Hobbes na Estrada
Não há mundo mais hobbesiano que as estradas portuguesas. Nas estradas portuguesas, todo o homem está em guerra com todo o homem. Talvez com isso em mente, o já longínquo governo de Durão Barroso pensou aumentar as multas aos prevaricadores. Isto implica que haja lei. Certo. Dirá o leitor mais versado no Leviatã que, em havendo lei, já não se está no "estado de natureza", onde impera a guerra de todos contra todos. Certo. Mas pegue lá no livrinho outra vez. Verá certamente que no próprio "estado de natureza", já existiam "leis". Certas regras. O problema é que não havia ninguém que as aplicasse. Não havia ninguém que penalizasse quem não as cumprisse. E portanto, era como se leis não existissem. É isso que se passa nas estradas portuguesas. Existe a lei. Existem as penalizações. Ninguém as impõe. Não há polícias na estrada. A lei sem uma entidade que a imponha, não existe...
Posted by Bruno at 10:33 PM
setembro 21, 2004
Governo em Directo
Uma pequena advertência, antes de passar ao que tenciono escrever: admito estar a exagerar naquilo que vou escrever. Admito que o problema, que julgo existir, e de que vou falar, pudesse ser uma realidade anteriormente, mas que a minha (assumida) antipatia para com este governo tenha feito com que só agora o tenha percebido. Mesmo admitindo que haja esta falha da minha parte, julgo que a substância daquilo que vou dizer não se perde: o facto do problema já existir (eventualmente) no passado, não impede de criticar a sua verificação no presente.
Não acordei para a política hoje. E não comecei a seguir telejornais na semana passada. E ao longo deste anitos, não me lembro, nem com Cavaco, nem Guterres, nem com Durão Barroso, de assistir a uma presença tão assídua de responsáveis governativos em directo nos telejornais. O Primeiro-Ministro, por duas vezes, no Sábado. O Ministro da Defesa no dia seguinte. O Primeiro-Ministro hoje, em directo de Nova Iorque, como que anunciando a conferência de imprensa da Ministra da Educação, minutos depois. Porquê tantos directos?
Há algumas diferenças entre estes exemplos: a entrevista do ministro da Defesa, na RTP, tinha uma simples justificação, o fim do SMO, aliás, tal como a entrevista de Bagão Félix, dias depois da sua declaração. Esta última, bem como a conferência de imprensa da Ministra da Educação, inserem-se no fenómeno das "conferências de imprensa das oito", sinal da importância dos mecanismo mediáticos para a política contemporânea, fenómeno que, embora represente um problema para o funcionamento das democracias representativas, já se prolonga há algum tempo.
Fundamentalmente novo, parece-me ser aquilo que temos visto do Primeiro-Ministro. Dois directos no mesmo dia (Sábado) para o mesmo canal (SIC). Hoje, em Nova-Iorque, um directo (também para a SIC) para ser entrevistado acerca da questão da colocação de professores, minutos antes da anunciada declaração da Ministra do sector. Já me parecia totalmente injustificado o que se passou no Sábado. Hoje o ridículo ultrapassou os limites da minha imaginação. O que terá levado o PM a fazer um directo de Nova Iorque, para falar de um asssunto (sem dúvida importante) que seria tratado minutos depois pela Ministra do sector?
Não deixa de ser curioso que a dita entrevista se tenha realizado minutos depois de, na TVI, Miguel Sousa Tavares ter criticado o PM por estar em Nova Iorque, enquanto cá se enfrentava o problema da colocação de professores. O PM estava em Nova Iorque, onde devia estar. Cá, estava a Ministra, essa sim, com obrigações de zelar pelo bom funcionamento do Ministério. A pessoa responsável estava cá, em contacto permanente com o problema. Ao contrário do que disse MST, não haveria qualquer necessidade do PM estar presente no país, tendo que estar na ONU. Por maioria de razão, não havia necessidade do PM se pronunciar acerca desta questão, pelo menos, enquanto não regressasse, ainda para mais quando a responsável (forçosamente mais informada acerca do concreto problema) havia já anunciado uma intervenção. Fica portanto por responder esta pergunta: porque razão o primeiro-ministro sente a necessidade de estar, "permanentemente" (passe o exagero), em directo para as televisões?
Não há dúvidas que em parte, se deve ao mesmo fenómeno que propagou as "conferências de imprensa das oito": cada vez mais, a política faz-se nos telejornais. É o que aparece às oito da noite que existe, que marca a agenda. Claro que esta mediatização da política afecta os mecanismos de representatividade da democracia, ao transferir a política dos órgãos que a deveriam exercer para a "praça pública", através dum meio essencialmente manipulador. Caso paradigmático: o Bloco de Esquerda, o partido com menos representatividade de entre aqueles que estão representados na Assembleia, marca com grande eficácia a agenda. Ou seja, através dos media, um grupo essencialmente minoritário consegue "influenciar" mais do que aquilo que representa. A política, a agenda política, perde representatividade. Marca quem aparece, por muito pouca gente que represente. E também por isso, o PM precisa de aparecer.
Mas não só. No comportamento recente do PM, parece-me haver algo fundamentalmente novo: a necessidade de mostrar corpo presente. O directo dá-nos a ideia de "estar a acontecer". A aparição constante em directos televisivos mostra um "governo em actividade", um governo "que não descansa". Mostra-nos o PM que, mesmo em Nova Iorque, está "preocupado" (como o Presidente da República gosta de dizer) com o que se vai passando no país. No fundo, um governo que "faz". Isto num governo em que cada vez mais, aparecem sinais de que reformas duras não serão feitas (ver o texto que escrevi acerca do Ministro das Finanças). Claro que este "fazer" traria vários problemas para o governo. Por serem necessárias mexidas que afectariam muitos interesses instalados, estas reformas trariam uma inevitável onda de contestação, que seria complicado suportar. Daí os claros sinais de que não serão feitas. Já este "fazer" dos directos televisivos não traz problemas desses. Mostra o PM sempre pronto a responder, que nunca vira as costas. O PM que aparece às oito. O PM que "existe". E que "existe" não porque sofre a contestação de mexer no Estado, mas que "existe" porque, mesmo em Nova Iorque, está "preocupado com a Nação". Nunca tinha visto o spin a funcionar tão intensamente. Nem com Cavaco, nem com Guterres, nem com Barroso. Nem sequer com Blair, geralmente apresentado como o paradigma do género. E do spin, posso dizer que estou fascinado. Que o spin, eventualmente, até funcionará. Mas pagaremos caro por isso...
Posted by Bruno at 11:14 PM
Uma Questão de Prioridades 2
Ainda em relação ao post anterior, gostaria de fazer só mais um pequeno comentário, para deixar certas coisas bem claras: Gostaria que nas próximas eleições americanas, George W. Bush fosse reeleito. Por muitas discordâncias que tenha com muitas das suas posições políticas, sempre achei que Bush percebeu o significado do 11 de Setembro. E por muitos erros que tenham sido cometidos quanto ao Iraque, Kerry não mostrou nunca ter percebido o carácter da ameaça terrorista (este artigo de Jonah Goldberg, muito cá de casa, acerca dos problemas enfrentados no Iraque, e da vantagem que, apesar disso, Bush tem em relação a Kerry, ter percebido que contra o terrorismo, contenção e law-enforcement não chegam, diz tudo aquilo que eu penso). A prioridade dada à democratização, em detrimento da estabilização (o ponto que toquei no post anterior), é um sinal preocupante. É preocupante, porque demonstra a mesma irresponsabilidade que se notou ao não enviar o número de tropas suficientes, por exemplo. No entanto, é uma irresponsabilidade que seria, do meu ponto de vista, um mal menor. Até porque poderia ser vista como uma forma de, em fase de campanha, minimizar drawbacks eleitorais. Caso fosse esta a razão da tal irresponsabilidade, até seria de esperar que, após a reeleição,por se tratar de um segundo mandato, Bush estivesse disposto a seguir uma estratégia militar no Iraque mais firme (tendo como prioridade a estabilização), que ao trazer mais baixas, traria um impopularidade que, num segundo mandato, não colocaria problemas. Claro que não deixaria de ser censurável que Bush tivesse seguido durante tanto tempo uma estratégia militar meramente condicionada por razões eleitoralistas, mas isso seria sinal que haveria posteriormente uma correcção. Agora, se se vierem a confirmar os rumores de uma saída em Janeiro (ou seja, já após a eventual reeleição), estaríamos perante um erro irreversível, uma cedência de Bush a certas pressões, erro esse que pagaríamos muito caro. E caso venha a ser esta a opção de Bush, deixo de ter razões para desejar a sua reeleição. Porque retirar do Iraque, agora, seria enviar apenas e só uma mensagem: os EUA têm medo. Seria o primeiro passo para colocar os EUA numa posição mais frágil. Seria sinal de que, afinal, Bush não teria percebido nada. Espero que Bush leve a sério aquilo que hoje disse na ONU: "The proper response to difficulty is not to retreat; it is to prevail." Se for para isto, a reeleição de Bush, apesar de tudo, valerá a pena. Se se retirar perante as dificuldades, mais vale que outro senhor ocupe o lugar...
Posted by Bruno at 10:39 PM
setembro 20, 2004
Uma Questão de Prioridades
Primeiro-ministro iraquiano garante eleições para Janeiro, pode ler-se no Público. Eu apoiei a intervenção, e continuo a achar que esta se justificou. Apesar disso, nada me impede de achar que a forma como tudo se desenrolou, e principalmente, o não se ter encontrado as WMD que se julgavam existir, criou probelmas que hoje são complicados de resolver. Esta notícia é, na minha opinião, reveladora de um outro problema, entretanto criado, em relação à intervenção no Iraque.
O que do meu ponto de vista justificava a intervenção no Iraque, era a combinação do carácter do seu regime, um regime autoritário que evidenciava um comportamento hostil em relação aos seus vizinhos, e principalmente, em relação aos EUA, com a eventual posse de armas de destruição massiva, que, numa altura em que se começava a tomar consciência do carácter do novo terrorismo de que tivemos um exemplo em 11 de Setembro de 2001, fazia com que fosse um risco demasiado grande persistir numa estratégia de mera contenção do regime de Saddam. A não existência dessas armas nada muda, visto que o regime iraquiano nada fez para provar que não as tinha, o que se pôde significar que, não as tendo, estava interessado em que se acreditasse que tivesse, o que só por si, já constitui um comportamento hostil, provocador de instabilidade tanto na região, como em todo o "sistema internacional".
Havia, por parte de muitos dos que defenderam a intervenção, a ideia da implementação de um regime democrático no Iraque. Escrevi várias vezes que a democracia poderia não ser solução, visto que de eleições livres poderia sair um líder tão hostil ao Ocidente como Saddam o havia sido, mas desta vez com legitimidade democrática. E os EUA, tendo argumentado com a necessidade de implementar uma democracia, não teriam a mesma legitimidade se eliminassem esse líder legitimamente eleito. Por isso, fui (e sou) da opinião de que o essencial era criar um regime que, mais do que democrático, fosse o garante de certas liberdades individuais (económica, religiosa) e que não ostentasse a mesma hostilidade em relação ao Ocidente. Um regime que, embora não democrático, e precisamente por não o ser, permitisse que as várias comunidades étnicas do Iraque não entrassem em guerra civil, e que convivessem sobre o "domínio da lei" . Um regime que, embora não democrático, tendesse para uma gradual liberalização.
O que esta notícia evidencia é o seguinte: a tendência que se vem notando de há vários meses para cá na administração Bush de acelerar o processo de transição. De colocar a democratização como uma prioridade, em detrimento da estabilização. Por muito que se diga que se pretende garantir as condições mínimas para se realizarem as eleições (ver artigo), o que é verdade é que se marcaram as eleições muito antes da situação estar estabilizada. Só mostra que a preocupação com a realização de eleições foi muito maior do que a preocupação com a criação de condições para estas se realizarem. E se é verdade que foi a política de manter o status quo no Médio Oriente que manteve Saddam no poder tanto tempo, também é verdade que a instabilidade que decorreria de uma guerra civil no Iraque não resolveria problema nenhum, muito pelo contrário. E uma guerra civil é o cenário que se adivinha, caso as tropas da coligação retirem do Iraque, como até já se fala como sendo uma hipótese, depois das eleições de Janeiro.
A mim parece-me que toda esta pressa da Administração Bush em realizar eleições no Iraque, e, a confirmarem-se os rumores atrás mencionados, em retirar do país, só pode ter uma explicação: Bush sente que não têm condições, em termos de apoio político, para suportar as baixas que uma presença a longo prazo no Iraque acarretaria para as forças armadas americanas. Situação, aliás, que muito fica a dever à contestação popular à própria intervenção, à retórica pacifista de que esta se alimentou, e a pressão mediática que esta provocou, que torna quase impossível que uma democracia trave uma guerra que traga consigo (como quase inevitavelmente traz) um elevado número de baixas.
Caro leitor esquerdista, não lance já a sua ira contra a minha pessoa. Não o estou a acusar a si e aos seus amigos, de, quando marcharam gritando, com a liberdade que o Ocidente lhes vai permitindo, que Bush era assassino, serem os culpados de um eventual falhanço no Iraque. Nada disso. Se houver falhanço, e se esse falhanço se ficar a dever ao cenário que aqui coloquei como hipótese, o culpado será Bush, por ceder à pressão criada por si e pelos seus amigos, preocupando-se mais com o apoio político que receberia ou deixaria de receber, e não com as consequências que a prossecução dessa eventual política de retirada poderá trazer.
Quando defendi a intervenção, fi-lo com a plena consciência do que ela acarretaria: muitas baixas, tempos complicados, e uma presença militar no Iraque por vários anos. Só espero, como sempre julguei que sim, que Bush tenha tido também ele consciência disso, e que dessa forma, caso seja reeleito em Novembro, esteja disposto a suportar as consequências dessa opção. É que que acho que seria uma má opção ter mantido Saddam no poder. Mas também acho que seria muito pior se os EUA retirassem antes do trabalho estar feito. Por muito que custe fazer o trabalho, custará muito mais se não o fizerem.
Posted by Bruno at 11:01 PM
setembro 19, 2004
Or How I Learned To Stop Worrying and Love the Writer's Block
Não sei o que escrever, a não ser escrever que não sei o que escrever...
Posted by Bruno at 09:45 PM
setembro 18, 2004
The End is Where We Start From
Por gentil oferta da senhora minha mãe, leio a tradução portuguesa de Four Quartets de T.S. Eliot. Confesso que, ignorante no campo da poesia, o meu interesse por Eliot parte das inúmeras referências que vi à obra do dito como poesia filosófica, e mais, como poeta (filosófico) conservador. E em Quatro Quartetos, uma ideia está sempre presente. A ideia da morte. E com ela, a ideia de que antes de nós já muito aconteceu, e que me muito acontecerá depois de partirmos. De que no Fim, somos todos iguais.
Posted by Bruno at 10:41 PM
The Right Man
Passo agora ao pretensioso acto de falar de alguns livros que tenho lido. Por gentil oferta do senhor meu pai, acabei de ler, há cerca de uma semana, o livro The Right Man, de David Frum. Frum foi um dos responsáveis pela escrita de discursos do Presidente americano George W. Bush, desde a sua tomada de posse até Fevereiro de 2002, e ficou conhecido como o autor da expressão "eixo do mal". The Right Man é precisamente um relato desse período, um relato da presidência de Bush feito por alguém que a viveu por dentro. Ficamos a conhecer um pouco a forma como uma Administração se organiza, como funciona. Ficamos a saber como operam os escritores de discursos. As divergências no seio da Administração (Rove/Hughes e Rumsfeld/Powell), de uma forma menos selvática que o sensacionalismo típico do jornalismo moderno. Ficamos a conhecer o que foi viver o 11 de Setembro dentro da Casa Branca, e a angústia que aquelas pessoas e os seus familiares sofreram nesse dia e nos seguintes. E claro, ficamos a saber um pouco mais acerca de Bush. E a leitura do livro apenas confirmou aquilo que já pensava dele. Para o bem e para o mal. Acentuou a ideia que tinha acerca do que Bush pensa ser a função de um Governo (que não é manifestamente a minha). E confirmou a ideia que tinha de que, memso que nem tudo tenha corrido bem (e basta ler Andrew Sullivan para perceber do que estou a falar), Bush percebeu o carácter da ameaça terrorista. Percebeu o que significou o 11 de Setembro. Não falo de dor ou tristeza. De uma forma mais intensa ou menos intensa, a grande maioria das pessoas sentiu uma ou outra nesse dia. Falo daquilo que, politicamente, o 11 de Setembro implicou: que gente que não hesita em morrer para matar o mais possível nos colocou num estado de guerra, e que por isso, não podemos deixar que tenham as condições para repetir o que aconteceu. Estamos em guerra, porque fomos atacados. Quer estejamos dispostos a lutar ou não, estanmos em guerra. E portanto, para nosso bem, é melhor que estejamos dispostos a lutar. Se há ideia que fica clara em The Right Man é a de que Bush chegou a esta conclusão. Não se pode, infelizmente, dizer o mesmo de muita gente...
Posted by Bruno at 10:10 PM
Virtualidades
Caro sr. Ministro Nuno Morais Sarmento, e restantes fellows da central de informação do governo (vulgo Ministério da Informação): não sei se têm o hábito de me ler, e bem sei que estão ocupados, a preparar as aparições do sr. Primeiro-Ministro em dois telejornais amanhã, seguidos de uma ida ao programa Praça da Alegria, na segunda-feira, para explicar o que queria dizer quando levantou a possibilidade de aplicar taxas moderadoras ao consumo de papel higiénico nas casas de banho dos edíficos da administração pública. Bem sei, sr. Ministro, da importância do problema, mas também por isso lhe faço este apelo. A bem da Pátria. Peço-lhe, a si e aos seus companheiros, que explique ao sr. Primeiro-Ministro que o que ele queria dizer, hoje, na sua segunda aparição em directo em telejornais da SIC no mesmo dia, não era que o sistema teria, apesar de tudo, algumas "virtualidades", mas sim que o sistema teria, apesar de tudo algumas "virtudes". É bom que o sr. Primeiro-Ministro não cometa o memso erro. Poderia transmitir a imagem de que as "virtudes" do sistema não são mais do que "virtuais". E é por saber da preocupação do sr. Primeiro-Ministro com a imagem, e das responsabilidades do sr. Ministro Morais Sarmento em relação à dita, que lhe faço este apelo. A bem da Pátria.
Posted by Bruno at 09:35 PM
Sobre Bagão
Quando, após o convite formal para Primeiro-Ministro endereçado pelo Presidente a Santana Lopes, se soube que o Ministro das Finanças seria Bagão Félix, fiquei algo surpeendido. Na altura, escrevi sobre isso, e no fundo, vi três hipóteses para o futuro de Bagão nas Finanças: a) Bagão prosseguiria a política de contenção orçamental de Manuela Ferreira Leite, confirmando assim a imagem com que tinha ficado dele, de alguém disposto a levar a cabo reformas impopulares; b) Bagão não receberia, por parte do Primeiro-Ministro, as condições necessárias para prosseguir essa mesma orientação, demitindo-se, e dessa forma, confirmando também essa imagem que dele fiz; c) Bagão não seguiria a política de contenção orçamental, enveredando pelo caminho fácil de ceder às inevitáveis pressões do período eleitoral que o país atravessará. Caso fosse este o caminho seguido por Bagão Félix, este seria, depois de Durão (e num curto intervalo de tempo), outra grande desilusão política para mim.
Depois do discurso desta semana (que não ouvi com atenção), e das suas entrevistas na televisão (no segundo canal no dia do discurso, ontem no primeiro), uma coisa ficou bem clara: Bagão não seguirá a política de contenção orçamental do governo de Durão Barroso (convém recordar que, antes da demissão de Durão, antes sequer desta se tornar uma possibilidade, escrevi que me parecia que o seu governo iria ele próprio abandonar a sua orientação).
Ontem, já não me lembro da parte de quem, ouvi um comentário que levantava a hipótese de outro cenário: o eventual (mais que provável) incumprimento do défice, a curto prazo, serviria para pagar os custos destas reformas, e, a partir dessas reformas, reequilibrar, a longo prazo, o Orçamento. Gostaria que este cenário se viesse a confirmar. No entanto, nada me indica que isso possa acontecer. Um cenário deste tipo exigiria da parte deste governo um pensamento a longo prazo, que um governo a quem resta apenas dois anos (e ainda por cima chefiado por quem é chefiado) não pode ter. Mais, o levar a cabo de reformas como a da administração pública exige que se esteja disposto a enfrentar uma forte dose de contestação. Ora a imagem (e isto num Governo que dá à imagem uma importância tremenda) que Bagão Félix deixa (e já nem vale a pena falar do Primeiro-Ministro) ao afirmar que tem outras “obsessões” para além do défice, é precisamente a de que não está disposto a enfrentar uma forte contestação e/ou pressões de quem depende quase exclusivamente da riqueza sugada pelo Estado à economia. Temo que Bagão se torne de facto uma enorme desilusão para mim. E que, com ele, o país não tenha, nem o défice controlado, nem reformas. Quem paga somos nós.
Posted by Bruno at 10:21 AM
setembro 17, 2004
Teste
Posted by Bruno at 06:00 AM
setembro 16, 2004
A Questão Turca
Num episódio dos Simpsons (outra série muito cá de casa), a família Simpson fica (já não me lembro porquê) sem televisão. Homer, perante o funesto evento, limita-se a perguntar: "where's life?". Eu compreendo-o. Mesmo que esteja a fazer outra coisa, seja a olhar para o computador, seja a ouvir um cd, ou a ler um livro, não dispenso a doce luz do aparelho, e caso seja compatível, o ruído de fundo que o dito proporciona. Admito que a convivência com o aparelho possa por vezes ser problemática. Principalmente em tardes do período estival. Mesmo assim, compensa. Há na mediocridade generalizada elementos que não devem ser ignorados. Veja-se por exemplo os rodapés. Não há programa que não os tenha. Do "Portugal no Coração" ao Sol Música, todos têm as palavrinhas escritas da forma que só as novas gerações as sabem escrever. Pérolas de insuficiência mental como "sol, o canal é do best o-zone rula passem mais britney kiko amote bués soraia cruz de pau", pululam pelo ecrã. Até nos telejornais os podemos encontrar. Claro que não as declarações da Soraia da Cruz de Pau ao seu amor Kiko, mas notícias que, por uma razão ou outra, não cabem no já de si imensamente extenso alinhamento.
E aqui chegamos ao assunto de que queria falar. Num dos nossos telejornais da hora de almoço, num desses rodapés, leio que um dirigente da CDU alemã (o partido democrata-cristão) pediu ao nosso Primeiro-Ministro para votar "não" à abertura de negociações com a Turquia, tendo em vista a entrada deste país na UE. Aproveitando a oportunidade, faço a pergunta: devem os actuais membros da UE encetar negociações coma Turquia? Devem abrir as portas do "clube europeu" a este país? Estas são questões complicadas, que merecem alguma atenção.
Como é sabido, há já vários anos que a Turquia tem mostrado interesse em se tornar um Estado-Membro da UE. Para que isso se pudesse vir a tornar realidade, o estado turco tem vindo a encetar uma série de reformas, exigidas pela UE, no sentido de uma maior democratização do regime, e de um tratamento mais respeitador de minorias como os curdos. Principalmente no que diz respeito a este último aspecto, muito falta fazer. Mas não há razão nenhuma para que, caso essas reformas sejam feitas, e a Turquia cumpra todas as exigências que são feitas a qualquer outro Estado que pretenda entrar na UE, nesta entrada não lhe seja permitida. O facto da maioria da sua população ser islâmica não é razão. No entanto, não podemos deixar que o politicamente correcto nos faça ignorar que aí reside uma das principais dificuldades da questão. Porque se é verdade que o carácter islâmico da maioria da população, caso as refromas exigidas sejam cumpridas, não pode ser um critério de exclusão da Turquia, também é verdade que é precisamente esse carácter que coloca problemas ao cumprimento desses requisitos.
Num artigo recente, a revista The Economist, perante as pressões do EUA para que a Turquia seja aceite na UE, coloca a questão: será que a entrada na UE da Turquia será boa para os EUA? A ideia mais comum é a de que, para além de se tornar um modelo de democracia para o mundo islâmico, a entrada na Turquia inclinaria a balança para o lado pró-americano no seio da UE. O artigo olha para este cenário com cepticismo. Segundo sondagens citadas, o sentimento anti-americano é muito forte na população. Como é dito no artigo, a aliança com os EUA era um produto da linha de orientação do poder militar turco, que, com as reformas democratizantes exigidas pela UE, tem visto os seus poderes reduzidos.
Embora uma das razões porque vejo com bons olhos a entrada da Turquia na UE seja o seu posicionamento tradicionalmente ao lado dos EUA, não é essa a questão que aqui importa. É que a redução dos poderes dos militares não afecta apenas a relação do país com os EUA, mas o seu próprio quadro interno. Convém não esquecer a forma como a Turquia "moderna" se tornou a Turquia "moderna". Convém não esquecer que se a Turquia é hoje um estado laico, onde as mulheres são tratadas como cidadãs de pleno direito, por exemplo, muito se deve à forma autoritária como Ataturk e o exército turco anularam certos valores do Islão. E se essa atitude autoritária não é compatível com a nossa noção de democracia, convém não esquecer também que esses valores do Islão são incompatíveis com as nossas noções de liberdade igualdade perante a lei.
O elemento que faz com a grande maioria da população turca nutra profundos sentimentos anti-americanos é o mesmo que poderá criar problemas relativamente aos direitos dos seus cidadãos. Porque nada nos garante que, tal como poderá favorecer um realinhamento da política externa contra os EUA, a democratização não traga também uma maior "islamização" das leis turcas. O livro de Fareed Zakaria "O Futuro da Liberdade" coloca o problema de forma simples: democracia e liberdade não são uma e a mesma coisa. E no mundo islâmico em particular, há uma forte incompatibilidade entre as duas.
O facto de a maioria da população turca ser de religião islâmica não poderá ser entrave à entrada deste país na UE, desde que este cumpra os requisitos que para tal lhe são exigidos, nomeadamente ao nível da democratização do seu regime. O problema é que a conjugação desta democratização com o carácter maioritariamente islâmico da sua população poderá significar, num futuro próximo, uma restrição a certas liberdades e certos direitos que também serão exigidos a um estado-membro da UE. É este o grande problema da questão turca: parte daquilo que lhes exigimos poderá ser o primeiro passo para que não cumpram o resto.
Posted by Bruno at 10:04 PM
With an "S", Not a "C"
O Ricardo Gross chama-me a atenção para o erro: o nome do realizador de Taxi Driver é Scorsese, e não, como eu tinha escrito, Scorcese. Fica a correcção...
Posted by Bruno at 05:16 PM
setembro 15, 2004
Taxi Driver
Um dos realizadores mais "cá de casa" é sem dúvida Martin Scorsese. O primeiro filme que vi deste senhor foi Bringing out the Dead, um filme menor que gosto bastante, e que quando estreou, mereceu comparações (embora desfavoráveis) com Taxi Driver. Desde então vi vários dos filmes de Scorsese. Dispensei Gangs of New York, por preconceito contra o género. Vi Goodfellas, filme que me despertou para o cinema acerca do mundo do crime. Vi Age of Innocence, e e The Color of Money, filmes menores de qualidade bastante apreciável. Vi Mean Streets (de que falei nos tempos da morada antiga), filme de fase inicial de carreira já a mostrar que o viria dali. Vi Casino, um excelente filme. Vi Raging Bull, uma absoluta obra-prima. Entre os vários que se mantêm uma incógnita, estava até há uns dias o tal que muitos diziam que Bringing out the Dead ecoava, o sempre referenciado Taxi Driver. Já não está.
Mesmo para quem não viu, a história é conhecida: Travis Bickle (Robert de Niro), veterano da guerra do Vietname, procura emprego como taxista, no turno nocturno. Bickle não consegue dormir, e essa seria uma boa forma de ocupar o tempo que a falta de sono lhe traz. É através das viagens do seu táxi, através dos seus olhos, as ruas de Nova Iorque. É através desse mundo solitário que é o táxi de Bickle que vemos o outro mundo, o mundo de que Bickle se vê afastado. Um mundo de prostitutas, "chulos", traficantes de droga, deliquentes, etc.
Mas é também através do seu táxi que Bickle encontra Betsy (Cybill Shepperd, a evidenciar qualidades estéticas supreendentes para alguém que só a conhecia de sitcoms duvidosas que a actriz fez nos anos 80 e 90). Betsy é, aos olhos de Bickle, diferente das outras. Ecoando Mean Streets, é aquilo que o personagem de Harvey Keitel nesse filme chamaria de uma girl (alguém com quem se pode casar), ao contrária das outras mulheres que Bickle vê da janela do seu táxi, que serão broads (as "gajas" que servem para a entrega ao pecado sem preocupação com o amanhã). Bickle, numa prova da sua falta de adaptação ao mundo real, leva Betsy a ver um filme pornográfico. A jovem fica visivelmente embaraçada, e Bickle, em mais uma prova do seu detachmnent da realidade, não compreende a reacção dela. Várias vezes a tentará contactar, sendo sempre convenientemente ignorado. Um dia, Bickle desloca-se ao local onde Betsy trabalha, um dos centros da campanha presidencial do senador Palantine. Aí, Bickle, ao contrário do que disse quando primeiro vemos Betsy, diz que Betsy é como o resto deles, e como o resto deles, viverá no Inferno.
No entanto, o próprio Bickle vive num Inferno. Vive num mundo que o repugna, mas que não o aceita. Onde todas as tentativas de comunicação que tenta estabelecer não têm outro efeito que não assustar quem o ouve. É o que acontece com Betsy. E o que acontece quando Palantine entra no seu táxi, e Bickle lhe diz que o que é preciso é "limpar as ruas de Nova Iorque". E é devido a esse misto de rejeição que sofre do mundo, e da sua repugnância por esse mesmo mundo, que Bickle começa a ter "some bad ideas in the head". Bickle começa a comprar armas, preparando-se para matar Palantine.
A fala em que Bickle confessa a um outro colega taxista que está a ter essas "bad ideas" é importante. Mostra que Bickle não é um mero louco. Bickle tem consciência de que o que se prepara para fazer é errado. Mas a sua repugância pelo mundo que o rodeia, e a sua inaptidão para nele se integrar, fazem com que mesmo tendo consciência desse "mal" que se prepara para fazer, esteja disposto a fazê-lo. Bickle não é um louco. Bickle é um homem em conflito moral consigo próprio, consciente do dilema entre a consciência do mal que quer praticar, e o facto de o querer praticar.
O facto de Bickle ser um veterano do Vietname, claramente valorizado pelas sinopses, é relativamente secundário. Bickle não se torna naquilo que se torna devido ao "horror" da guerra. Bickle torna-se naquilo que se torna devido ao "horror" das "mean streets". Ao horror de um mundo repleto de traficantes de drogas e criminosos de vária ordem, onde uma miúda de 12 anos, Iris (Jodie Foster, um dos meus ódios de estimação), se torna uma prostituta. Iris, que Bickle pretende salvar desse mundo que o repugna. Antes de matar Palantine (e esperando morrer ao fazê-lo), entrega-lhe dinheiro para ela se ir embora. Bickle falha a sua tentativa de assassinato. E então, dirige-se a Sport (Harvey Keitel), o "chulo" da jovem Irís. Numa sequência de uma brutal violência, digna do melhor Padrinho, mata Sport, o sócio deste, e o homem que no momento efectuava a sua pecaminosa transacção com Iris.
Bickle não morre. Fica em coma. E enquanto se encontra nesse estado, os media fazem dele um herói. Um homem que salvou uma jovem de 12 anos das agruras da prostituição. Ignorando que apenas algumas horas antes desse momento que todos agora parecem considerar heróico (até Betsy, que o encontra passado algum tempo no seu táxi), ele havia tentado assassinar um candidato presidencial. Para todos eles, ele apenas havia sido o homem que salvou Iris. Até os pais dela lhe escrevem uma carta, agradecendo. Tal como o Charlie de Mean Streets (Keitel), o que Bickle procurava acima de tudo era a sua próprio salvação. Queria a sua redenção. Castigar o mal que existe no mundo (matando Palantine, um "político", e portanto, "mentiroso", e após esse fracasso, Sport, o "chulo"), e ao morrer a fazê-lo, deixar de ter de enfrentar essa realidade que o repugna. Bickle salva Iris para se salvar a si próprio. Nada nos indica que Iris queira ser salva. Ela não foge quando recebe o dinheiro de Bickle, já antes havia recusado a sua ajuda, e são os pais dela que lhe agradecem, não ela. E Bickle, ter-se-á salvo? Aos olhos do mundo, ele é agora um herói. Mas o mundo está o mesmo. Vemos Betsy a abandonar o táxi de Bickle, enquanto este a olha pelo retrovisor, não como se ela fosse diferente das outras, mas como qualquer uma dessas outras que tanto repugnam Bickle. E enquanto o táxi se vai afastando, através da janela e do retrovisor, continuamos a ver as prostitutas, os traficantes de droga, os "chulos" e os deliquentes. Bickle, tal como todos os outros, faz parte desse Inferno. Bickle viu o "horror". Na guerra e nas ruas. Matou. E tal como todos os outros, é nesse Inferno que terá de viver.
Posted by Bruno at 10:02 PM
setembro 14, 2004
Fumo Para os Olhos
Acerca da questão do tabaco, e a eventual proibição nos vafés e restaurantes, o leitor Mário Almeida envia-me um texto, que pode ser lido no seu blogue A Fonte. Nada tenho a acrescentar ao que o Mário disse, e ao que aqui foi já discutido. Fica apenas mais uma pequena contribuição para a discussão...
Posted by Bruno at 10:55 PM
País Socialista
Dois dias seguidos a enfrentar o Estado. Saio de casa ontem. De madrugada. Para enfrentar o imenso véu burocrático. Saio de casa hoje. De madrugada. Para enfrentar o imenso véu burocrático. Após a manhã inteira, volto apressadamente para casa. O Estado assim exigia. Para nada. O que o Estado exige aos que o alimentam não é o mesmo que se exige a si próprio. Depois de um dia (depois de dois) assim, quem é que consegue escrever o que quer que seja?
Posted by Bruno at 10:45 PM
setembro 13, 2004
And it Goes On 2
Ainda sobre a mesma questão, escreve-me Nélson Faria:
"Parece-me que, sensivelmente, já foram cobertos os prismas mais relevantes da questão que levantaste, e por tal deixa-me felicitar-te pela saudável conclusão a que chegaste (ou em que te amparaste) no post IV relativo à política anti-tabagista: devemos deixar o mercado solucionar a questão. Acredito que se poderia tornar uma grande moda as "smoke free zones", principalmente se não forem impostas, mas sim apelarem a um desejo natural de cada um de nós (mesmo os fumadores) de estarem num local em que o fumo não atrapalhe os nossos sentidos.
Permite-me simplesmente acrescentar uma comparação que me parece melhor (por não ser tão radical) alusiva ao porquê do tratamento no SNS das "vítimas" do tabagismo: a obesidade. A passos largos (bem mais largos nos EUA) a obesidade transforma-se na maior praga da sociedade ocidental, e sendo baseada em escolhas pessoais, de pessoas que em princípio não padecem de distúrbios mentais (permanentes ou episódicos), torna-se na comparação perfeita com o tabagismo: o ser humano obeso é-o, regra geral, por uma rotina sedentária, maus hábitos alimentares ou pura e simplesmente por se deliciar com a gastronomia. Algum de nós poderia conceber que o SNS pudesse abster-se de prestar auxílio a estas pessoas, caso necessitem ou o desejem?"
Caro Nélson, não podia concordar mais consigo. E já agora para (em princípio), concluir a discussão, um comentário final, partindo do que o Nélson escrveeu: tanto a obesidade como a dependência do tabaco poderão ser considerados comportamentos irresponsáveis. Como já disse, faz parte, cada um sabe de si, e no caso do tabaco (em relação à obesidade a questão não se coloca), continuo a afirmar que a eventual irresponsabilidade do fumador não constitui uma interferência na vida dos outros, não se justificando assim uma interferência do estado na vida do fumador, e, no que concerne à eventual proposta do governo, na vida dos donos dos cafés e restaurantes. Quanto à solução que apresenta para este problema, nada tenho a acrescentar...
Posted by Bruno at 09:39 PM
And it Goes On...
Quando escrevi o post acerca da possibilidade do Governo vir a proíbir o consumo de tabaco em cafés e restaurantes, esperava alguma polémica, dentro dos escassos limites deste espaço. Não esperava portanto receber tantas reacções. Paulo Xardoné escreve-me de novo:
"O Bruno aponta o foco para a questão da responsabilidade individual que temos na nossa saúde, e até posso aceitar que, existindo uma "carta", do conhecimento de todos, que ditasse a receita de uma vida saudável, quem não seguisse essa carta ficaria sem direito à saúde assistida pelo Estado. Mas, se essa carta existisse, não era o equivalente ao "elixir da vida eterna" ? E essa carta hoje não existe, sendo a própria ciência médica que confessa a sua impotência para compreender as razões de determinadas doenças. O máximo que conseguem fazer é estudar estatisticamente as doenças, para depois tentar definir quais os comportamento de risco (o que nos faz depois ter aqueles estudos tipo "crianças que comem bróculos mostram maior tendência para esquizofrenia"). Pegando num dos meus exemplos que o Bruno aponta como falaciosos, a 3ª idade que necessita de cuidados médicos estará isenta de responsabilidade ? Não fizeram uma dieta saudável ao longo da vida; não seguiram a carta dos alimentos como tinham que fazer; não fizeram exercício físico com a frequência devida; fizeram uma vida demasiado sedentária; expuseram-se demasiado ao sol; ouviram o Louçã demasiadas vezes (é mais forte que eu). Veja-se, em contraponto, o exemplo público do Churchill, o paradigma do irresponsável (bebia, fumava e esconjurava qualquer tipo de exercício físico) que tinha tudo para morrer de uma série de coisas aos 50 anos, e que assistiu ao enterro de tanta "gente saudável". As coisas são demasiado cinzentas e demasiado complicadas para um qualquer "Big Brother" (ou pior ainda, uma qualquer comissão de burocratas, desconhecida e inimputável) vir definir quem tem direito ou não à saúde. É esse aspecto "orwelliano" que me faz reagir imediatamente e que, do meu ponto de vista, tem de ser combatido se queremos manter uma sociedade humana."
Caro Paulo, eu não apontei a questão da responsabilidade individual como razão para não se prestarem cuidados de saúde a quem apresentasse comportamentos irresponsáveis. A única coisa que disse é que, para quem defendesse esse argumento (e disse também que não me parecia ser o caso do leitor Pedro Areal, que o levantou), os exemplos de comparação utilizados pelo Paulo não seriam muito adequados. No caso da terceira idade, por muito "responsável" que o hipotético idoso seja, terá sempre problemas de saúde (aliás como o Paulo diz). Por isso mesmo, não era o melhor exemplo para refutar o argumento em causa (que eu julgo que deve ser refutado).
Porque eu concordo com o que o Paulo diz. Concordo quando afirma que por muito "responsável" que uma pessoa seja, nada lhe garante que viva mais tempo, ou que viva com mais "saúde". E que por vezes, são os "irresponsáveis", como o grande Winston, que vivem mais tempo. E concordo que a tentação politicamente correcta dos tempos modernos para nos incutirem a tal "carta" para a saúde eterna é algo claramente dispensável.
E concordo consigo quando levanta a possibilidade de a oscultação dos discursos do dr. Louçã provocar insanáveis malefícios para a saúde dos indivíduos. Mas cada um sabe de si...
Posted by Bruno at 09:16 PM
setembro 12, 2004
Governo do Séc. XXI 4
Outro mail que recebi veio do leitor Jorge Coelho (not that one, I presume), que diz o seguinte:
"Imagine que vai num autocarro e um outro passageiro ouve música sem headphones, à altura que lhe apetece. Consideremos que o volume é muito elevado.
Segundo esta analogia, o Bruno parece achar isso bem, porque os outros passageiros poderiam sempre "pedir (...) para não o fazer, ou em último caso, afastar-se (...) (ou até agredi-lo violentamente, embora esta seja pouco aconselhável)".
Eu não concordo. Acho que este passageiro deveria ter mais respeito pela saúde dos outros. Neste caso a solução é mais simples, utilizando uns headphones ou baixando o volume da música até volumes suportáveis.
Mas partindo do princípio que essas soluções não existem (para efeitos de analogia), eu sou de opinião que esse passageiro deveria ouvir a música dele em locais onde não prejudique os outros.
Apenas isso."
Caro Jorge, há uma falha essencial na sua analogia: um autocarro não é exactamente o mesmo que um café ou um restaurante. Os autocarros serem pagos pelos nossos impostos (serem públicos) e os cafés e restaurantes não (como já disse, um café e um restaurante não são sítios públicos, são propriedade privada do seu dono). Os transportes públicos são uma responsabilidade estatal, e aí, não me faz confusão que o Estado estabeleça as suas regras. Nos restaurantes não se passa o mesmo. Não cabe ao Estado estabalecer as características da oferta de determinado serviço. O que cabe ao Estado é definir as condições me que essa oferta se faz. Ou seja (e aqui entra o terceiro mail, enviado pelo leitor Jorge Bento, que defendeu o argumento que se segue, e que imagino que não se importe que não o reproduza na totalidade, limitando-me a indicar a auotira do argumento)) a responsabilidade do Estado não é dizer se é ou não permitido fumar nos restaurantes, mas se estes oferecem as condições sanitárias (nomeadamente de ventilação) exigidas para que o serviço seja prestado de forma aceitável.
Agora, como disse no primeiro post, não me custa nada a admitir que um dono de um restaurante o torne um restaurante só para não-fumadores. A consequência imediata é que nenhum fumador o irá, provavelmente, frequentar. Mas abre o restaurante a outro nicho de mercado, que estará eventualmente muito interessado na oferta. É uma questão de escolha, desde que a escolha seja permitida. A hipótese que foi colocada não deixa margem de escolha para ninguém. Proíbe os fumadores de fumar nos restaurantes, o que pode acabar por prejudicar o negócio, por razões fora da responsabilidade de quem depende dele. Eu não tenho nada contra quem esteja eventualmente interessado em restaurantes onde não se possa fumar. Até poderia estar bastante interessado, pessoalmente. Só não quero é que isso seja coercivamente imposto (passe a redudância). Apenas isso.
Posted by Bruno at 06:18 PM
Governo do Séc. XXI 3
A propósito da questão da eventual proibição do consumo de tabaco nos sítios "públicos" como os cafés e os restaurantes, recebo mais três comentários. O leitor Paulo Xardoné diz:
"(...)Eu não sou fumador, nunca na minha vida fumei e, ao contrário do que sucedia há uns anos, até o cheiro do tabaco me incomoda. No entanto, acho revoltante e intolerável a maneira como os fumadores e as companhias tabaqueiras têm vindo a ser tratados pelas sociedades ocidentais.
O tabaco sempre foi socialmente aceite, sendo até, durante décadas, factor de distinção e promovido de forma clara. Ainda hoje, fumar, entre os adolescentes mais jovens, é um sinal de afirmação exactamente por causa disso. Com que despudor é que essas mesmas sociedades, que durante décadas me incitaram a consumir um determinado produto, causador de dependência(...) se sentem agora no direito de me apontar o dedo, de condenar o meu comportamento, de me excluir de determinados espaços, de me sujeitar à reprovação pública ?
E se fumar faz mal à saúde, o que dizer da poluição dos automóveis? e das fábricas? e de não fazer exercício físico? e de comer demasiado? e, porque não dizê-lo, de ouvir o Louçã falar?
Por outro lado, a comparação entre o tabaco e as drogas é gravíssima, apesar de, lamentavelmente, se estar a generalizar ao longo dos anos. Não há comparação possível, tal como o Bruno diz. Mesmo a marijuana deve continuar ilegal, pela simples razão que é, com extrema frequência, o primeiro passo para chegar à cocaína ou à heroína, ou a outra qualquer droga das "duras". A dôr, a degradação e a destruição que está fatalmente associada a um drogado, e que atinge todos os que com ele convivem, é imensa e só pode ser comparada ao tabaco por quem tem a felicidade de nunca ter sido exposto a tal situação. Por fim, o argumento dos custos de saúde associados a doenças causadas pelo tabaco, para além de falacioso (hoje em dia, ninguém consegue realmente determinar que o meu cancro, ou o meu AVC foram causados pelo tabaco), é extremamente perigoso. O que se dirá dos custos associados à SIDA, ou ao Alzeimher, ou aos deficientes, ou à 3ª idade? Abrindo a porta a este raciocínio, a mera indução leva-nos a sociedades desumanizadas, em que um qualquer "big brother" passa a ter o direito de dispôr das nossas vidas."
No fundo, a questão para mim é simples: não vejo, no facto de uma pessoa fumar, uma intromissão na minha vida, por muito que eu não fume, e como diz o Paulo, no seu mail, o fumo até me incomodar. E como tal, não acho que se justifique uma intromissão do Estado na vida das pessoas, mesmo que isso pudesse conduzir a um eventual "bem maior", ou pelo menos, a evitar "males maiores", como parece ser o que o leitor Pedro Areal defendeu no mail que reproduzi no post anterior desta série. No final, o Paulo toca ainda no assunto dos custos associados ao consumo do tabaco. Do meu ponto de vista, e foi isso que disse no post anterior, por muito irresponsável que o consumo de tabaco possa eventualmente ser, isso não justifica que quem o pratica não seja tratado de igual forma pelo Estado. O exemplo da SIDA dado pelo Paulo diz tudo. A SIDA está por vezes associada a comportamentos sexuais irresponsáveis, e isso não justifica que o doente não mereça tratamento hospitalar. Já os outros exemplos usados pelo Paulo parecem-me ser falaciosos no tratamento desta questão. O argumento do leitor Pedro Areal (aqui é importante frisar que não depreendi, das palavras do Pedro, que ele defendesse que os consumidores de tabaco não devam ter direito a tratamento em hospitais públicos, mas que estava apenas a colocar-me essa hipótese, centrando-se num determinado argumento) centrava-se na tal irresponsabilidade, que não está associada a doenças como a Alzheimer, ou a deficiências físicas, ou à velhice. Embora, na questão central, esteja de acordo com o Paulo, neste pequeno ponto, tenho que "defender" o Pedro: acho que os exemplos usados pelo Paulo são desajustados em relação ao argumento apresentado (apresentado, não "defendido") pelo Pedro. De resto, assino por baixo...
Posted by Bruno at 05:48 PM
Olhe que Não
Na passada semana, escrevi alguns comentários acerca das entrevistas dos candidatos à liderança do PS, na SIC Notícias. Dizem-me que faltou falar acerca de um dos candidatos. Que, aparentemente, há outro senhor, para além do engenheiro candidato, e do poeta candidato, que procura cair nas graças do "povo socialista". Não sei do que falam. Outro candidato, imagine-se. Se houvesse, tanto o engenheiro candidato, como o poeta candidato, falariam dele...
Posted by Bruno at 05:40 PM
setembro 11, 2004
11 de Setembro
Há três anos, deram-se os atentados em Nova Iorque e Washington, que, segundo muitos, mudaram o mundo. Não mudaram. Só mudaram uma coisa: a percepção que tínhamos dele. Nesse dia, e apesar de muitos de terem apressado a procurar razões que não faziam outra coisa que não transferir a responsabilidade do sucedido para quem foi atacado em vez de para quem atacou, uma coisa ficou bem clara: há quem queira aniquilar o nosso modo de vida. Apenas e só porque, para essas pessoas, esse modo de vida é inaceitável. Também bem claro ficou que, para os terroristas responsáveis por esses atentados, a sua vida pouco valor tinha, desde que a sua perda permitisse matar muitos mais. É por isso que estamos em guerra. Para evitar que actos destes se repitam. Para evitar que estes terroristas, que estão dispostos a morrer para que possam matar, adquiram os meios para matar muitos mais. É impossível derrotar o terrorismo? Talvez seja. Mas isso não quer dizer que não se possa limitar ao máximo os meios à sua disposição, protegendo assim os cidadãos que estes pretendem atingir. Afinal, é para isso que serve o Estado. Para, na medida do humanamente possível (pouco), proteger os seus cidadãos. E também porque fomos atacados. E quando somos colocados por outros num estado de guerra, lutamos, mesmo que não possamos vencer. Foi há três anos que tudo começou. Para dizer a verdade até já tinha começado antes. Hoje, continua. E terá que continuar. Para que aquilo a que assistimos há três anos não se repita...

Posted by Bruno at 01:38 AM
setembro 10, 2004
Assino por Baixo
O meu caro colega e amigo João Silva escreve, no Lusitano, um interessante texto acerca de algo muito em voga por terras do Império, e até em terras de sua Majestade, mas que em portugal raramente se ouve falar: o multiculturismo. O João critica o relativismo politicamente correcto da dita corrente, que do alto da sua proclamação de pretensa superioridade moral, representa ela sim uma atitude intolerante. E mais grave ainda, ao procurar dar a todos um estatuto de igualdade, independentemente da raça, sexo ou cultura, acaba por tratar os indíviduos não como tal, mas como membros dessa raça, sexo ou cultura. No fundo, e como diz o João, "o multiculturalismo é a própria destruição da «harmonia» liberal que é intrínseca à cultura inglesa mas que é a base última dos Estados Unidos da América." Assino por baixo.
Posted by Bruno at 07:02 PM
Changing Rooms
Como os leitores terão percebido, este blog está ainda em fase de arrumações, procurando regressar, num claro exemplo do que é a disposição conservadora, ao aspecto que em tempos ostentou. Não estranhem portanto, caros leitores, que cada vez que visitem este espaço, esteja sempre algo diferente. Dentro de algum tempo, tudo ficará arrumadinho...
Posted by Bruno at 06:57 PM
setembro 09, 2004
Governo do Séc. XXI 2
Acerca do anterior Governo do séc. XXI, escreve-me o leitor Pedro Rosas Areal:
"Leio e não concordo assim tanto. Porém, os argumentos são sólidos. O facto de cobrarmos por uma bebida siginifica que a nossa casa passou a ser pública e não privada? Parece que a lei diz que sim, mas se assim é não convence. No entanto, em questões de saúde pública, a liberdade individual poderá passar para segundo plano, ou não? É para ti um valor absoluto? É legitimo limitar as liberdades de alguem para impedir a propagação de um virús? Eu acho que sim. E não serão as adições (horrivel este anglicismo. Há alguma palavra em Português?) tão ou mais graves que um vírus?
E as restrições ao tabaco não são moralmente idênticas às restrições às outras drogas, sejam as dos ricos, como a cocaina, sejam as dos pobres, como a heroina. Ou a marijuana, a respeito da qual parece ser um facto cientifico ser menos prejudicial à saude que o alcool ou a nicotina? Nesse caso, quando proíbe estes consumos o governo também está a entrar em nossa casa?
Há ainda a questão dos enormes custos das doenças ligadas ao tabaco. Se a introduzirmos, vem à baila a questão "Terão os fumadores direito a hospitais públicos?".
Caro Pedro, quanto ao termo "adições" julgo mesmo que não tem qualquer equivalência, em português, ao termo addictions. "Vícios" é mesmo a única palavra de que me lembro. Quanto às questões em si:
1- Será legítimo limitar as liberdades individuais para impedir a propagação de um vírus? Claro que sim. Não vejo é qualquer comparação possível entre a ameaça para a saúde pública que constitui um vírus (e imagino que o Pedro se esteja a referir a uma epidemia gravíssima, que requerisse a quarentena de uma população inteira) e aquelas que causa um vício como o tabaco. Convém não esquecer que uma pessoa só fuma se quiser, enquanto se uma pessoa for contaminada por alguma como o "ébola", por exemplo, duvido que seja por sua espontânea e livre vontade. O fumador tem consciência das consequências de fumar. A partir daí, o problema é seu. E mesmo quanto ao fumo passivo, e partindo do príncipio de que o fumo passivo pode causar doenças como cancro pulmonar (o que ao que parece é duvidoso), não há qualquer comparação: uma pessoa pode sempre pedir a quem esteja a fumar para não o fazer, ou em último caso, afastar-se do fumador (ou até agredi-lo violentamente, embora esta seja pouco aconselhável). Fugir de uma epidemia é um pouco mais complicado.
2- Serão as restrições ao tabaco moralmente equivalentes às restrições às drogas? Não. O consumo de drogas está associado a comportamentos anti-sociais, que põem em causa a ordem pública. O tabaco será um vício privado, que não coloca os mesmos problemas que estão associados ao consumo e tráfico de drogas. Quanto à questão do eventual do menor perigo para a saúde causado pela marijuana, não sei se assim será ou não, mas pouco me interessa, muito sinceramente. O que é verdade é que tradicionalmente, o tabaco será uma "droga" socialmente aceite (e daí, eu colocar a palavra droga entre aspas), ao contrário da marijuana. O argumento "racional" interessa-me pouco, tendo em conta os anos e anos de "tradição" relativamente ao que é considerado aceitável ou não. Para dar um exemplo: não há qualquer argumento racional para a proibição da poligamia. No entanto, a lei portuguesa não a permite. Porquê? Porque, tradicionalmente, por uma questão cultural, tem sido essa a visão acerca da questão. é exactamente essa a razão pela qual o tabaco e o alcoól são aceites e as drogas como a marijuana não (embora ultimamente as coisas pareçam estar a mudar).
3- Deverão os fumadores ter igual direito de acesso aos hospitais públicos? Sim. Ninguém coloca a hipótese de uma pessoa que tenha tentado suicidar-se não tenha direito a ajuda hospitalar, para evitar que perca a vida. E uma tentativa de suicídio é algo muito mais radical do que a eventual irresponsabilidade que o acto de fumar possa acarretar. E por muito irresponsável que o acto de fumar possa ser (e não estou a afirmar que seja), nada justifica que um fumador não seja tratado de forma igual a qualquer outro indíviduo.
Posted by Bruno at 09:17 PM
Manuel Alegre
Bem sei que ao longo dos tempos, tenho várias vezes feito pouco de Manuel Alegre. Mas estive ontem a ver a sua entrevista na SIC Notícias, e uma coisa tenho de admitir: teve substância. Alegre falou de propostas concretas. Falou das razões pelas quais defende essas mesmas propostas. Enfim, falou de política. Algo que já não se ouvia por estas terras há já algum tempo...
Posted by Bruno at 09:13 PM
setembro 08, 2004
Sócrates 3
Falando um pouco mais a sério: assisti ontem a alguns momentos da entrevista de José Sócrates na SIC Notícias. Há um pormenor que salta logo à vista: a maneira como Sócrates se esquiva de dar uma resposta concreta a uma questão concreta. Por várias vezes lhe foram colocadas questões o mais objectivas possíveis, a que Sócrates respondeu sempre falando da necessidade de "políticas modernas" (nunca dizendo o que isso possa ser), ou de como o rigor orçamental não deve ser uma "obssessão" (não explicando o que deve então ser feito). De coisas palpáveis, fica a ideia de incluir o Inglês no programa do ensino primário (porque, diz o senhor engenheiro, se falarmos Inglês seremos mais "competitivos").
Houve ainda outra questão que me despertou a atenção: a dada altura, Sócrates criticou Manuel Alegre (não deixa de ser sintomático que João Soares quase nunca seja mencionado) por este querer fazer do PS um partido "classista". Isto porque aparentemente, o poeta candidato terá dito que o PS se deveria dirigir aos "desfavorecidos" e aos "operários". Sócrates não concorda. Sócrates acha que o PS se deve dirigir a todos. Dirão os mais ingénuos que a posição do engenheiro candidato se deve a uma descrença da sua parte nas teorias marxistas? Nas palavras do próprio, aqui fica a explicação: "Era só que faltava que o PS se dirigisse apenas aos desfavorecidos, e deixasse o resto para a Direita e para o Bloco de Esquerda." Nem vale a pena comentar a eloquência da expressão "era só que faltava" que Sócrates lançou com tanto afinco. Nem a aglomeração, feita pelo engenheiro, do PSD e do CDS/PP na "Direita". Nem a desvalorização do PCP, não mencionado nesta bela declaração, apesar de possuir uma representatividade maior que a do BE, partido que aparentemente causa algum receio na mente de Sócrates, visto que não lhes quer deixar "o resto". O que vale realmente a pena comentar aqui é precisamente a questão de "não deixar o resto". Sócrates não defende um PS "não-classista" por razões ideológicas. Por achar que o programa político que decorreria de uma lógica desse tipo fosse nocivo para a sociedade portuguesa. Sócrates não quer um PS que se dirija aos "desfavorecidos" e aos "operários", porque "era só o que faltava que deixasse o resto para a Direita e para o Bloco de Esquerda". O que esta declaração nos mostra é que o programa que Sócrates apresenta não se deve a qualquer convicção da sua parte, mas sim a uma intenção de captar o maior número possível de eleitores. É uma questão de mercado, portanto. Pena que só mostrem preocupação com o dito em relação a este tipo de situações...
Posted by Bruno at 10:17 PM
Sócrates 2
Pensando um pouco melhor, começo a pensar que o que escrevi no post anterior não se aplique a José Sócrates. Talvez o engenheiro candidato tenha encontrado o problema intrínseco à capacidade humana de comunicação. Sócrates fala. Mas não diz a coisa errada. Pela simples razão de que Sócrates fala, mas Sócrates não diz nada.
Posted by Bruno at 10:05 PM
Sócrates
Duvido que alguma vez Jerry Seinfeld tenha ouvido falar de um senhor chamado José Sócrates. Eu gostaria de ser tão afortunado como Seinfeld. Infelizmente, já ouvi falar de José Sócrates. Pior, já ouvi José Sócrates falar. Mas apesar de, muito provavelmente, Seinfeld nunca ter ouvido falar de José Sócrates, e muito menos ouvi-lo falar, já disse tudo o que havia a dizer acerca do dito. Ora leiam as palavras do mestre: "The problem with talking is that nobody stops you from saying the wrong thing." Nem mais.
Posted by Bruno at 09:58 PM
setembro 07, 2004
Hanging on in Quiet Desperation is the English Way
Sou céptico. Não estou a falar de política, embora politicamente o meu cepticismo seja o mesmo. Estou a falar da vida diária. Desconfio das potencialidades salvíficas dos planos meticulosamente elaborados. E desconfio da "espontaneidade". Desconfio de tudo. A "espontaneidade", muito apreciada pelas novas gerações, é juntamente com Andy Warhol, o "Titanic" (o filme) e as surpresas agradáveis, uma das coisas mais sobrevalorizadas na existência humana. E a fé na capacidade de previsão não é mais do que uma ilusão que deveria já ter desaparecido após todos estes anos em que a Humanidade vem espalhando a sua infinita estupidez pelo Universo. Tanto a espontaneidade, como a confiança na planificação, são de uma imprudência atroz. O mais sensato talvez seja ficar quieto. Mas dessa forma, sujeitamo-nos à imprudência dos outros. No fundo estamos condenados ao "english way" de que falavam os Pink Floyd em Dark Side of the Moon.
Posted by Bruno at 09:21 PM
setembro 06, 2004
Governo do Séc. XXI
Disse no post anterior que se poderia aprender muito com os Estados Unidos. No entanto, não posso ignorar que por cá, se vai aprendendo muito coisa com o Império. É pena é que só se aprendem as lições erradas. Como por exemplo, a tão politicamente correcta política anti-tabagista.
Ao que parece, o Governo do dr. Santana Lopes, na sua ânsia de ser um "governo do século XXI", pretende implementar a tão progressista política de proibição de fumar tabaco, em sítios públicos fechados, como cafés ou restaurantes.
O problema está em que o dr. Santana Lopes não percebeu uma coisa: é que os cafés ou os restaurantes não são sítios públicos (sítios sob a alçada do Estado), mas sim sítios privados. Os cafés e restaurantes não são do "povo", por muito abertas que as suas portas estejam ao dito, são dos seus donos, que aí procuram fazer um negócio o mais lucrativo possível. Se um dono de um café resolver proibir os seus clientes de fumar, está no seu direito. Faz a sua opção, e terá que arcar com as suas consequências: se um cliente habitual seu, que tenha o hábito de fumar, entender que deixará de ser um cliente habitual porque não pode fumar, está no seu direito, tal como o dono está no direito de o proibir de fumar no dito estabelecimento, ou como eu de não frequentar um café onde as pessoas possam fumar, porque o fumo me incomoda. Todos estes exemplos são exemplos de opções individuais, pelas quais os indivíduos que as tomam são inteiramente responsáveis.
Quando o Estado proíbe as pessoas de fumar em (todos) os restaurantes, ou em (todos) os cafés, está a interferir nessa liberdade de escolha individual. Ao contrário do que o politicamente correcto nos quer fazer crer, ao proibir as pessoas de fumar no café, o Estado está a entrar na casa de um seu cidadão. Os Estados que entram na casa dos seus cidadãos, são os Estados totalitários. Mas enfim, é o governo do século XXI...
Posted by Bruno at 09:54 PM
Federalismo Europeu
Ouvi, há pouco, no telejornal, o senhor Ministro da Agricultura defender o levantamento do embargo da UE à carne de vaca portuguesa, visto que, segundo o Ministro, todos os relatórios de Bruxelas indicam que o problema está controlado pelas autoridades portuguesas, não havendo portanto qualquer razão para o dito embargo se manter. Segundo o que foi dito pelos jornalistas, a França recusa-se a aceitar o dito levantamento, aparentemente porque uma abertura da sua parte em relação à carne portuguesa abriria portas para o levantamento ao embargo também aplicado à carne de vaca inglesa.
Sou relativamente céptico em relação à União Europeia. Um cepticismo saudável. A grande vantagem que vejo na participação de Portugal na UE é a integração do país num mercado livre internacional. Já delírios utópicos acerca da Europa Federal considero-os completamente dispensáveis. O dr. Soares sonha com o dia em que a Europa ferderal deixe de existir apenas como isso mesmo, um sonho que ocupa as suas noites e os seus discursos. Mas se o federalismo com que o dr. Soares sonha é um federalismo em que um Estado, sem qualquer razão objectiva que não o mero interesse económico próprio, se dá ao luxo de manter o seu mercado fechado a produtos de outros Estados pertencentes a essa dito federação, então ainda mais dispensável se torna. É que com este federalismo, a grande vantagem que é, na realidade, o mercado livre, diluí-se, e torna-se um instrumento para o proteccionismo daqueles que mais força têm.
Nos Estados Unidos, país onde o federalismo realmente existe, e não é um mero sonho húmido de franceses e alemães, nunca isto seria possível, nunca um estado (dessa federação) poderia fechar o seu mercado à livre entrada de produtos de estados "irmãos". Se querem uma Europa federal, aprendem primeiro alguma coisa com um país onde o federalismo funciona. E ainda poderiam aprender porque razão um federalismo europeu não pode passar daquilo que é hoje: um sonho do dr. Soares...
Posted by Bruno at 09:33 PM
setembro 05, 2004
Blame Yourself
Assisti, há pouco, no telejornal da SIC, a uma reportagem que me motiva um pequeno comentário. Ao que parece, Santana Lopes deixou no ar a hipótese de não aumentar, este ano, os funcionários públicos, aliás, tal como o governo de Durão Barroso fez. Julgo ter ouvido que os sindicatos acusaram o Primeiro-Ministro de estar a contradizer aquilo que, numa entrevista (precisamente) à SIC, disse, acerca do mesmo assunto. Não ouvi nenhum sindicalista dizer isto (mas tenho de confessar que estava algo distraído), mas ouvi os jornalistas a dizerem-no.
Primeiro ponto: Santana Lopes não se está a contradizer. Não se está a contradizer porque nunca afirmou que iria aumentar os funcionários públicos no próximo ano. O que o Primeiro-Ministro disse é que essa hipótese iria ser estudada, porque achava injusto (e aqui discordo, mas enfim, não é isso que está em questão) que os ditos tivessem que enfrentar mais um ano sem aumentos. Tenho até a ideia de ter ouvido o Primeiro-Ministro dizer que não se comprometia com nada, precisamente por não saber se seria ou não possível tomar a medida em questão.
Segundo ponto: Santana Lopes apenas se tem a si próprio para culpar. A responsabilidade desta situação é apenas e só sua. Naqueles dias, nos dias em que aquela entrevista foi gravada, o Primeiro-Ministro aparecia constantemente nas televisões, aludindo à possibilidade da tomada de várias medidas. É verdade que não se comprometia com nenhuma, por desconhecer a sua viabilidade, ou eventual ausência desta. Mas também é verdade que se era esse o caso, se Santana lopes desconhecia a viabilidade dessas medidas, nem sequer as devia ter mencionado, nem sequer como possibilidade. Porque quer queira quer não, declarações dessas criam expectativas. Aliás, é precisamente por criarem expectativas que o Primeiro-Ministro as utiliza. Ao criarem expectativas, que no entender de grande parte de eleitorado (pelo menos a parte do eleitorado a que o Primeiro-Ministro se pretende dirigir), serão positivas, permite que o Primeiro-Ministro seja asssunto. E que seja assunto não como o "Primeiro-Ministro não eleito", uma estupidez que teve a sua força mediática, mas como o Primeiro-Ministro que irá trazer o alívio para os cidadãos. O problema acontece quando essas expectativas se esfumam perante a dureza da realidade. E aí, o Primeiro-Ministro que as criou sofre as consequências desse acto sem consequência prática, mas de grande importância mediática. E se inicialmente foi o Primeiro-Ministro que usou os media para moldar a sua imagem, são agora os media que moldam a imagem do Primeiro-Ministro.
É este o grande problema de governar para os media: fica-se inteiramente dependente da imagem que eles passam...
Posted by Bruno at 09:37 PM
setembro 04, 2004
Bush Square Garden
Nesta passada semana, decorreu, em Nova Iorque, a Convenção do Partido Republicano, que confirmou oficialmente a nomeação do Presidente George W. Bush como candidato a mais um mandato na Casa Branca. Para o pior e para o melhor, esta mostrou tudo, não só acerca de Bush, mas da realidade política americana. Mostrou a política na sua vertente de espectáculo, como só os americanos a fazem. A preocupação com a forma como se diz o que se diz, e de só dizer o que é mais proveitoso que se diga.
Logo no primeiro dia, pode-se assistir ao discurso de Rudolph Giulani. Giulani, o mayor Nova Iorquino no 11 de Setembro, é o republicano que até os esquerdistas de Manhatan apreciam. Apresenta-se como um liberal nos temas sociais, mas como um duro em relação ao crime. E o seu papel nas horas que se seguiram aos atentados de há três anos transformou-o praticamente num herói. Giulani, no seu discurso, não tocou nos pontos em que discorda de Bush. Enalteceu o seu carácter de liderança, elogiou Bush por ter tido a percepção do carácter da ameaça terrorista, e da necessidade de o combater, e que por não se estar a eleger "um Republicano ou um Democrata, um conservador ou um liberal, mas sim um líder", Bush era o homem certo. Logo aqui se vê uma tendência cada vez mais evidente na política moderna: a tendência para a personalização, colocando o "líder" acima da "política". Foi este o sentido do que disse Giulani.
E logo no mesmo dia, outra das grandes figuras do Partido Republicano falou para os delegados: John McCain. Mccain era o candidato que a rapaziada sensata da direita pátria queria que fosse o candidato republicano nas eleições de 2000. Na altura, só tomei a devida atenção às eleições americanas depois das primárias, e por isso, McCain permaneceu desconhecido para a minha pessoa até tempos recentes. E o que vi não me agradou particularmente. Criticou os "tax cuts" não por criarem um desequílibrio no orçamento, mas por favorecerem os ricos. Criticou a condução da guerra do Iraque, com alguma razão. E foi essa crítica que fez com se fosse aproximando progressivamente de Kerry. Durante meses, McCain foi dado como eventual Secretário de Defesa. Como eventual Secretário de Estado. Como eventual Vice-Presidente. De Bush? Não, de Kerry. Cheguei a vê-lo, no Daily Show, a fazer das críticas mais simplistas e demagógicas às políticas da actual Administração, ao nível das que por cá vamos ouvindo por parte da dra. Ana Gomes. Tudo isto não impediu o senador de lá ir dar o seu apoio a Bush, falando dele como o líder capaz de conduzir a guerra que, há uns meses atrás, de acordo com o mesmo Mccain, não tinha capacidade de travar. Gente assim é dispensável.
No segundo dia, as gémeas da famíla Bush deixaram a sua marca. Estavam ali, certamente, para apelar ao voto das hormonas saltitantes dos mais jovens eleitores. Claro que, para isso, lhes faltava talento estético, e a atitude de adolescentezinha ingénua a transpirar sexo pelos poros não compensa a ausência de Graça Divina, ainda por cima agravada pela ausência de graça terrena. As gémas não só não são a Scarlett Johansson, como também não são o Seinfeld.
A presença dos familiares dos candidatos nos palcos Convencionais é uma marca típica da política americana, que vem sendo infelizmente copiada em terras pátrias. Serve para enaltecer as qualidades pessoais dos ditos, que aparentemente vão sendo cada vez mais importantes para o maralhal votante. E para isso lá esteve também a dona Laura.
Mas a figura do dia foi o senhor Governador Arnold Schwarzenegger. Os pretensiosos da nossa esquerda (e da nossa direita) olham com desdém para o Gubernator. Fariam melhor em olhar para ele. Talvez aprendessem qualquer coisa acerca da América. Porque "Arnie" é o claro exemplo de como o "American Dream" pode ser realidade. De como a mobilidade social da "selva capitalista" desdenhada pelos adeptos do mais humano "modelo social europeu" permite que um emigrante austríaco que começa como culturista se torne um actor rico, e mais tarde governador de um dos maiores estados do país. E foi esse o papel que Arnie foi desempenhar a Nova Iorque: falar da América como a única sociedade em que o seu percurso seria possível.
No terceiro dia, assistiu-se ao discurso de um senador democrata Zell Miller, que, criticando Kerry, não evitou a demagogia de dizer que com Kerry, seria a França a mandar na política externa americana. Não vale a pena exagerar. E seguiu-se Cheney. Cheney é caracterizado na imprensa portuguesa como um dos mais conservadores da Administração. A sua imagem de duro parece confirmá-lo, mas esta caracterização ignora as divergências entre Cheney e o seu Presidente em temas como a emenda constitucional em relação ao casamento gay, e na questão do "stem cell research" (não sei dizer isto em português), em que o tal ultra-conservador Cheney tem posição acarinhadas pela esquerda americana. Mas precisamente pela sua imagem de duro, cabe a Cheney o "dirty-work". Se Bush se coloca "acima da política", Cheney vai às catacumbas desta. E chafurda nos seus lamaçais. Coube a ele a crítica brutal a Kerry. Papel manifestamente pouco complicado, e que Cheney desempenha com a rispidez exigida, sem cair na demagogia que Milller havia utilizado antes. Faltaram, na sua intervenção, questões concretas. Esse papel caberia a Bush no dia seguinte.
No que diz respeito às questões internas, tenho de concordar com que Andrew Sullivan tem dito. As promessas de mais encargos estatais na área da educação, da sáude, da habitação, etc., não são mais do que o contrário daquilo que o conservadorismo tem sido nos últimos anos, ou seja, a defesa do governo limitado. O "compassionate conservatism" de Bush, não difere das propostas de Kerry na crença de que o governo poderá resolver satisfatoriamente os problemas das pessoas, na crença de que o Estado serve para cumprir certos fins comuns. A única diferença reside nos fins que cada um pretende atingir.
Mas Bush tem uma vantagem. Como disse Giulani, ele percebeu a ameaça que o terrorismo constitui, e a necessidade de o combater. E de combater não só os terroristas, como os Estados que o alimentam. E é neste campo que Kerry não me convence. Alguém que fala do terrorismo como um problema de "law enforcement", e não como uma guerra, não percebeu a ameaça que o terrorismo hoje em dia constitui. Isto, e apenas isto, faz com que prefira Bush a Kerry. Para além de que com Bush, sei o que esperar. Para o melhor e e para o pior. De Kerry, nunca sei qual das duas Américas irá sair dali: se aquela em que ela vota a favor de uma proposta, se a outra, em que ele vota contra a mesma proposta. Giulani não se importa que eu lhe tenha roubado a piada...
Posted by Bruno at 06:04 PM
And Death Shall Have no Dominion
Caros leitores, este espaço está de volta. Ressuscitado. Após umas inesperadas férias, devido ao infortúnio que decerto conhecerão, aqui estou para voltar a escrever umas coisitas. Numa morada nova, ainda sem o aspecto antigo, que voltará, que é nestas coisas que se vê a disposição conservadora. Já agora queria aproveitar para agradecer ao João Miranda do Blasfémias e ao Aristarco do Físicos LX por me terem dito como recuperar os textos que escrevi na morada antiga, e que aqui irão ser progressivamente (re)colocados. Caro leitor, espero que apesar da nova morada, o que por aqui se leia não mude. E que quem o costuma fazer o continue a fazer. And now for something completely different...
Posted by Bruno at 06:02 PM