julho 22, 2008
Obama e o Iraque

Um artigo de Barack Obama (candidato Democrata à presidência americana) no New York Times foi motivo de grande polémica nos EUA. Tudo porque o jornal recusou um artigo de John McCain (o candidato Republicano) que procurava responder a Obama. Mas mais importante que a opção editorial do jornal, foi o conteúdo do artigo de Obama, que no meio da confusão, quase passou despercebido. O que é pena, pois ele mostra bem a razão pela qual uma eventual vitória de Obama nas eleições de Novembro próximo seriam tudo menos uma boa notícia.
Obama afirma que, ao contrário de McCain, ele não defende o estabelecimento, por parte dos EUA, de bases militares permanentes como as que ainda hoje existem na Coreia do Sul, assegurando que a sua vontade é de que os EUA abandonem o Iraque num futuro próximo. Obama vai ainda mais longe: seguindo a opinião de Nuri Kamal al-Maliki (Primeiro-Ministro iraquiano), o candidato Democrata compromete-se a, caso venha a ser eleito, definir um calendário para a retirada americana do país, esperando dessa forma limitar o "overstretch" das tropas americanas e permitir que o esforço militar se "concentre" em locais como o Afeganistão.
A posição de Obama é semelhante àquela que foi expressa há uns anos pelo Iraq Study Group, a comissão à qual Bush pediu uma revisão da estratégia para o Iraque, e cujas recomendações ignorou. E ignorou bem, pois longe de serem uma solução para o problema, elas tenderiam a agravá-lo, tal como aquilo que Obama propõe. Pois se o candidato Democrata tem razão quanto aos custos da permanência americana no Iraque, não há nada no seu artigo que mostre que ele tem consciência dos custos de uma eventual retirada. Em primeiro lugar, a violência não diminuiria. A guerra civil continuaria, e provavelmente, sem a presença militar americana, agravar-se-ia, tornando-se num conflito aberto. Num conflito que, em última análise, se arrastaria pela região. A maioria xiita teria certamente o apoio do Irão. Mesmo as por vezes citadas inimizades entre o xiismo árabe (iraquiano) e o xiismo persa dos iranianos seriam irrelevantes, à luz do interesse estratégico de tal apoio. Como escrevia há tempos, na revista britânica The Spectator, o jornalista Fraser Nelson, tal proximidade faria do Irão uma superpotência xiita. Uma superpotência regional, que seria uma ameaça para a sunita Arábia Saudita, que, como afirmava um funcionário britânico citado por Nelson, não poderia ficar a assistir à criação de um protectorado iraniano. Quer numa partilha do Iraque por três estados independentes (o cenário comentado por Nelson), quer na manutenção de um único estado (mesmo que federal), o confronto entre as três facções seria inevitável. O interesse na questão forçaria o Irão a participar, e a participação iraniana arrastaria consigo a intervenção saudita. A questão curda, especialmente no caso de o Curdistão se tornar um estado independente, arrastaria a Turquia, causando, no mínimo, um conflito no seio da NATO (talvez com a saída da Turquia, criando um novo problema geoestratégico para os EUA e os países europeus). Tudo com Israel ali ao lado, podendo ser a todo o momento arrastado para o conflito, o que acabaria por, forçosamente, trazer consigo um regresso dos EUA ao Médio Oriente. Para fugirem a um suposto “novo Vietnam”, os EUA deixariam no Médio Oriente uma espécie de “I Guerra”, em que o conflito num país, e o interesse de cada uma das potências regionais nesse conflito, as arrastaria para um confronto em larga escala.
O leitor dirá que exagero. Talvez. Mas a retirada do Iraque colocaria em perigo os soldados americanos que estariam a retirar no situação mais perigosa que aquela que enfrentam agora, e colocariam os cidadãos americanos (e os dos países europeus) em risco de sofrerem novos atentados. Como explicou Paddy Ashdown, antigo líder dos Liberais-Democratas britânicos, e um insuspeito crítico da intervenção americana, o anúncio de uma retirada imediata provocaria um aumento da violência, direccionada contra as tropas, num momento em que estas estão mais vulneráveis (segundo Ashdown que tem alguma experiência nestas questões, o momento da retirada é, pela própria natureza da operação, o momento em que estas estão mais vulneráveis a ataques, e em que estes podem causar mais baixas). Quanto aos cidadãos americanos e dos países europeus, e a um maior risco de atentados terroristas, basta lembrar as palavras de Bin Laden, que vê os infiéis como um “cavalo cansado” incapaz de lutar, que tudo cede, mal vê um soldado a morrer. Retirar do Iraque por não se conseguir lidar, no terreno, com a violência, e em casa, com as imagens que chegam do terreno, seria confirmar a ideia de Bin Laden. O que só incentivaria os que o seguem a insistirem, a provocarem mais medo, mais mortes, para empurrar o Ocidente cada vez mais para fora do barco. Por todas estas razões, sair do Iraque, agora, acabaria por ser contraproducente.
O conteúdo do artigo é significativo ainda noutra medida: uma curta reflexão sobre o dito, e sobre o "fenómeno Obama", mostra como o candidato Democrata se condenou a si próprio ao fracasso. Durante meses, as "previsões" acerca das eleições presidenciais americanas de 2008 eram as mesmas, viessem de onde viessem: nos Republicanos, a escolha do candidato nomeado seria uma lotaria, mas nos Democratas, Hillary Clinton nem sequer precisaria de fazer campanha. De repente, a coisa começou a correr mal, e Barack Obama tornou-se o "moço fofo" de todos. Gente inteligente como Andrew Sullivan e Fareed Zakaria entusiasma-se com a figura e a personalidade do "candidato da esperança", como lhe chamava a The Economist. E de facto, uma vitória de Obama em 2008 dava uma boa primeira página de jornal: um presidente afro-americano, com família muçulmana, vende mais jornais que um branco cinquentão, e, como diz o meu colega no Insurgente, André Amaral, seria o portador da melhor mensagem que a América poderia transmitir a um miúdo no Paquistão: até alguém como ele pode chegar a Presidente. E depois, com Obama vem uma mensagem de mudança, de uma outra geração com outras preocupações que não a discussão do Vietnam até à eternidade. Duvido, no entanto, que todo este entusiasmo seja merecido.
Porque se a vitória de Obama seria uma boa capa de revista, o que viesse a sair da sua presidência talvez não o fosse, ou talvez não o fosse pelas melhores razões. E basta pensar o que propõe Obama para o Iraque: a retirada imediata das tropas americanas. Depois de prometer isto nas eleições, Obama tem dois caminhos: ou cumpre, ou finge que esquece a promessa, que seria aliás cada vez menos repetida até Novembro, caso fosse o noemado pelos Democratas. A cumprir a promessa, conseguiria obter apenas e só um resultado: uma carnificina no Iraque. No entanto, alguns dirão, uma vez chegado à Casa Branca, o inexperiente Obama tomaria consciência das escolhas complicadas que têm de ser feitas, e perceberia que não poderia cumprir a promessa. Mas a ser assim, muito rapidamente Obama queimaria a "esperança" na sua pessoa: ao ignorar uma promessa eleitoral tão relevante como esta, Obama estaria a mostrar que, afinal, é apenas um "político" como "os outros", preocupado em ser eleito e capaz de, "como Hillary Clinton ou Mitt Romney", dizer o que for preciso para o conseguir. Ao esquecer essa promessa, Obama mostraria que em nada difere do establhisment de Washington que tanto diz desprezar. Se a cumprir, será o responsável por uma desgraça. Faça o que fizer, a "esperança" que hoje se deposita nele será, uma vez eleito, sol de pouca dura.
Posted by Bruno at 05:58 PM
julho 21, 2008
These Are For You, McNulty
O meu amigo Paulo, exilado por uns tempos na Civilização, entendeu por bem provocar-me, ao pôr no blog dele fotografias das livrarias que ele vai encontrando (assim é que vejo como devemos ser seres execráveis: só mesmo pessoas desmesuradamente pretensiosas vêem o acesso a boas livrarias como arma de arremesso e instrumento de provocação). Obviamente, ele foi bem sucedido, eu dou por mim a insultar a América por deixar entrar alguém como ele no país. Mas, por muito que eu barafuste, ele está lá a comprar livros baratos enquanto eu ando aqui à espera que o correio me traga o que vou arranjando. Assim, resta-me recorrer a algo que o Paulo conhece bem, as palavras do Comandante Bill Rawls para o Detective Jimmy McNulty: "See these two, McNulty? These are for you..."
Posted by Bruno at 07:23 PM
A Ler
Uma entrevista (traduzida para inglês) do francês Pierre Manent, em que este diz coisas bastante sensatas acerca da "Europa":
"The problem in Europe, particularly in France, is that our politics, though obviously bad, are not correctible, whatever the orientation of the electorate. Even though opinion is hostile to the indefinite extension of the European Union, even though the citizens of two founding countries voted against the constitutional treaty, everything proceeds as before and it is being suggested that the treaty will slip in through the window. The European machine has been set up in such a way that it cannot not be deployed, the result being a "purposeless finality" ("finalité sans fins"). The outcome that we are celebrating, the 25th anniversary of Europe, and soon the 30th, will have been created by a mechanism that no one can control, and that was not desired by anyone."
Posted by Bruno at 07:16 PM
julho 19, 2008
Durão e o "Tratado de Lisboa"
Durão Barroso terá hoje admitido que deseja cumprir um segundo mandato como Presidente da Comissão Europeia. Sabendo que Durão Barroso é uma personagem ambiciosa, e que portanto certamente não deixaria de procurar activamente a hipótese de vir a ocupar o cargo de Presidente da UE previsto no "Tratado de Lisboa", o facto de vir agora dizer publicamente que espera continuar nas funções que desempenha actualmente quer dizer uma de duas coisas: ou já perdeu qualquer hipótese de vir a ser o primeiro Presidente da UE, ou em Bruxelas não se acredita muito na possibilidade do "Tratado de Lisboa" vir a ser adoptado até 2009.
Posted by Bruno at 09:32 PM
julho 18, 2008
"Está Provado"
Num artigo no Diário de Notícias, Luís Filipe Menezes afirma que "está provado" que a "mudança de chefe" não resolveu "as entorses" do PSD. Mas quando Menezes diz "não ter dúvidas" de que ele e a sua pandilha eram "mais representativos, intelectualmente mais sólidos, culturalmente mais bem preparados, politicamente mais experientes, ideologicamente mais esclarecidos, mais carismáticos e melhores comunicadores" que a actual líder e os seus apoiantes, o que fica realmente "provado" é que a "entorse" que ficou por "curar" é aquela de que Menezes padece (no cérebro), e que o impede de ver a gigantesca barafunda que foi a sua liderança, e o mal que ela causaria ao PSD. Por muitas "entorses" que este mantenha, e que só uma reforma profunda do partido (reforma essa que teria de passar pela "mudança de chefe", pois Menezes depende das tais "entorses" que paralisam o PSD a nível nacional) poderá curar, há uma de que já se livrou.
Posted by Bruno at 09:21 PM
julho 17, 2008
Gordon "Guterres" Brown
Na passada terça-feira, David Cameron, líder do Partido conservador britânico, afirmou que não podia garantir que não pudesse vir a ser necessário efectuar um aumento dos impostos, se e quando o seu partido for para o Governo até 2010 (altura até à qual terá de haver eleições). Esta afirmação é interessante, não tanto por aquilo que Cameron disse em si, mas por aquilo que essa declaração diz acerca da governação de Gordon Brown, não só desde que assumiu o cargo de Primeiro-Ministro, mas também ao longo dos dez anos em que, como Chancellor, foi na prática um First Lord of the Trasury do "rei" Tony I.
Como notou Ben Brogan, do Daily Mail, Cameron apenas levanta agora a hipótese de vir a ter de aumentar os impostos pois receia ter de fazê-lo, e acima de tudo, receia as consequências que, no que diz respeito ao apoio popular, essa medida implicaria. Por isso, vai já "avisando" os eleitores para essa possibilidade, para que, caso venha a ocupar o nº 10 de Downing Street e tenha de aumentar os impostos, ninguém o possa acusar de ter mentido enquanto estava na oposição. Mas por que razão receia Cameron poder vir a ter de aumentar os impostos? Como explica Brogan, porque nos últimos anos Gordon Brown gastou demasiado dinheiro e endividou o país ainda mais. Agora que a "crise" se instala, a ilusão de que se podia viver com dinheiro que não se tinha vai ter de ser paga.
Os portugueses reconhecerão bem o que se passou. Tal como Guterres, Brown herdou (quando chegou com Blair ao poder) uma conjuntura incrivelmente favorável. Tal como Guterres, em vez de a aproveitar de forma a realizar reformas que, sendo "duras", seriam muito menos penosas em tempo de "vacas gordas", Brown usou o dinheiro que não parava de chegar para comprar votos através do uso dos recursos públicos e da expansão da dependência do Estado. Tal como aconteceu com Guterres, o tempo foi mais rápido que Brown, e este teve de lidar com o descontentamento trazido pelo desabar das ilusões que ele criara. Mas, tal como aconteceu em Portugal com Guterres, terá de ser quem vier a seguir a limpar a bagunça deixada por Brown, numa conjuntura em que essa "limpeza" custará muito mais às pessoas, dificultando a tarefa do governo que a quiser realizar.
No Telegraph de hoje, Iain Martin escreve que se os tories não conseguiram lidar eficazmente com esta realidade, não conseguirão mais do que um mandato. De facto, foi isso que aconteceu em Portugal. Depois da derrocada guterrista, Durão Barroso não foi capaz de fazer as reformas de que o país precisava, e muito menos de lidar com a contestação que as suas muito tímidas medidas provocaram junto do eleitorado. E depois da "trapalhada" santanista, José sócrates repetiu o erro de Barroso: grande gritaria e insistentes proclamações de "coragem" e "firmeza", mas grande fragilidade nas "reformas" introduzidas, que deram o brilhante resultado de atrair a contestação popular, sem que no entanto, se conseguisse efectivamente mudar o que quer que seja. Tal como no Portugal pós-Guterres, o Reino Unido pós-Brown arriscasse a cair num ciclo vicioso de paralisia, no qual as dificuldades inerentes às reformas necessárias desencorajam os governos de as tomar, mas como elas vão sendo adiadas, mais grave se tornam os problemas que terão de ser resolvidos, aumentando as dificuldades e a relutância em tomar as medidas necessárias, numa constante degradação das condições de governabilidade. Se Brown foi desempenhando nos últimos anos o papel de Guterres, só se David Cameron não quiser fazer de Durão barroso poderá evitar que o Reino Unido se transforme num Portugal mais rico, mais igualmente à deriva.
Posted by Bruno at 04:29 PM
julho 16, 2008
Passo a Passo
O Secretário de Estado Adjunto das Obras Públicas, Paulo Campos, foi hoje à Assembleia da República para defender a proposta do Governo de introdução de um "dispositivo electrónico de matrícula", ou seja, de um "chip" que identifique automáticamente a viatura. De acordo com Paulo campos, esta medida representa a adopção de uma forma "mais avançada" de "detecção e identificação" dos automóveis. Passo a passo, Portugal vai-se aproximando da altura em que começaremos a adoptar "formas mais avançadas" de "identificação" das pessoas, em que será possível saber "automaticamente" quem fez o quê, onde estava determinado indivíduo a uma determinada hora, do que é que ele gosta, o que ele compra, em quem é que ele vota. Passo a passo, o Estado vai sabendo cada vez mais acerca de nós com cada vez mais facilidade. Passo a passo, nós vamos perdendo cada vez mais da nossa liberdade.
Posted by Bruno at 10:07 PM
julho 15, 2008
A Entediar Os Leitores Desde 2003
Este blog faz hoje 5 anos.
Posted by Bruno at 09:37 PM
julho 14, 2008
Conan O'Brien no Fora.tv
Posted by Bruno at 06:04 PM
julho 13, 2008
A Epidemia da Impunidade
As cenas de violência num bairro social da periferia lisboeta, que andam a provocar grande entusiasmo nas televisões (que temiam não ter nada para dar nestes tempos mortos de Verão) são tudo menos surpreendentes. Elas são apenas e só uma consequência da forma como a "agenda da segurança" é tratada em Portugal: sempre balançando entre a histeria generalizada que surge sempre que acontece alguma coisa, e a mais completa obscuridade, quando os partidos da oposição nada têm a ganhar ao falar dela, é inevitável que nada se faça e nada mude, a não ser o sentimento de insegurança das pessoas, que cresce à medida que o tempo passa. Agora que os políticos se entretêm a debater quais as "causas" da violência, é para esse "ambiente" de insegurança que devem olhar. Pois se os cidadãos cumpridores da lei não se sentem seguros, os que a ignoram sentem que podem fazer o que quiserem.
Já em 2005 escrevi que a forma como os temas da segurança, do policiamento e criminalidade são tratados em Portugal não resolvia esses problemas, e criava outros até aí não existentes, e que portanto, os anos seguintes seriam palco de um aumento da violência em Portugal. Os casos de homicídio na "noite" do Porto e de Lisboa, em Loures, e em Oeiras, bem como as tristes cenas de agressão numa esquadra da polícia de Sacavém, não só foram um sinal desse previsível aumento da violência, como provocaram, eles próprios, um agudizar (também ele previsível) do sentimento de impunidade por parte de quem quebra a lei, e simultaneamente, do sentimento de insegurança de quem não se sente protegido pelas forças policiais. Pois o sentimento de impunidade é um daqueles fenómenos que Malcolm Gladwell, no excelente livro The Tipping Point, mostra funcionarem como "epidemias", como algo que se vai espalhando pela sociedade até atingir um "ponto de viragem", em que os seus efeitos (neste caso, nefastos) se começam a sentir. É por isso que imagens, como as que foram passadas, dos acontecimentos na Quinta da Fonte tenderão a agravar o clima de impunidade e insegurança que as propiciou. E enquanto os políticos portugueses não começarem a tratar estas questões de outra forma que não a sua habitual alternância entre a histeria e o adormecimento, tudo tenderá a piorar.
Posted by Bruno at 09:40 PM
julho 11, 2008
Pré-Moderno
Parece que o senhor primeiro-ministro resolveu atacar manuela ferreira leite e as suas opiniões sobre a família, acusando-a de ter uma concepção "pré-moderna e até pré-concílio do Vaticano II". Ora, se é assim tão "pré-moderna", até deveria ser "pré-Concílio de Trento" e não apenas "pré-Vaticano II", que é só do século passado e relativamente "moderno". Mas isto talvez seja esperar demasiada inteligência por parte do nosso Primeiro-Ministro.
Posted by Bruno at 09:51 PM
julho 10, 2008
Paulo Rangel e Sócrates
No debate do “Estado da Nação”, o novo líder da bancada parlamentar do PSD, Paulo Rangel, fez uma crítica política às opções do Governo. Fez uma defesa do papel do parlamento perante a arrogância do Governo e dos seus Ministros. Colocou questões ao Primeiro-Ministro. Este último responde-lhe com insultos. Com piadinhas. Deturpa ou ignora as palvras de Rangel. Discute com ele como se Paulo Rangel fosse Santana Lopes, e se comportasse como Santana Lopes. Infelizmente para Sócrates, Rangel não é Santana. E não se comporta como ele. E a dificuldade que o Primeiro-Ministro tem em lidar com a forma como Rangel interveio é notória. Quando alguém critica as políticas concretas do Governo, assentando essa crítica numa análise da conjuntura actual, a arrogância de Sócrates não funciona: quando Sócrates goza com a intervenção de Rangel, quando desvaloriza as críticas e as questões que ele coloca, goza com as dificuldades que os portugueses sentem em virtude da conjuntura que Rangel analisa. Ao ignorar o que ele diz, ao mostrar-se arrogante perante o que ele diz, mostra-se arrogante perante as dificuldades dos portugueses. Se o “estilo” de Sócrates poderia funcionar com Santana, se as pessoas até podiam “gostar” de ver esse “estilo” perante alguém como Santana (afinal, é sempre um bom espectáculo ver Santana a ser enxovalhado), certamente não gostam de ver questões acerca dos problemas que enfrentam diaramente a serem ignoradas pelo Primeiro-Ministro, ou a serem respondidas com a distribuição de uns papéis que ninguém pode ler, e que ignoram as circunstâncias concretas que hoje os portugueses enfrentam. Escrevi há dias que a nomeação de Paulo Rangel para a liderança da bancada parlamentar do PSD era uma boa notícia. Só não o é para Sócrates, como o debate de hoje mostra.
Posted by Bruno at 09:39 PM
julho 09, 2008
Governar Para As Eleições
A SEDES publicou ontem um documento que acusa José Sócrates e o seu Governo de "governarem para as eleições". Não é mentira nenhuma, e os exemplos que a SEDES dá (como, por exemplo, a "cedência à agitação social") são todos verdadeiros. Mas a SEDES erra ligeiramente ao dizer que este é um comportamento recente por parte do Governo. Na verdade, desde que tomou posse que José Sócrates orienta a sua acção pelas necessidades eleitorais, com toda a política governamental subordinada ao objectivo da renovação da maioria absoluta. O seu eleitoralismo é tudo menos recente, pois até o muito elogiado "reformismo" de Sócrates mais não era que um instrumento de captação de votos: Sócrates criava a ilusão de que promovia reformas para alimentar uma imagem de político "decidido", enquanto ao mesmo tempo deixava tudo na mesma na esperança de não perder o apoio dos dependentes do PS nos sectores que fossem "alvo" da sua falsa "firmeza". Corria o risco de provocar descontentamento (pela retórica confrontacional que usava para fingir fazer "reformas") sem obter resultados que compensassem a perda desse apoio (precisamente porque apenas fingia fazer essas reformas), mas até muito recentemente, as sondagens pareciam indicar que o risco tinha compensado.
Para azar de Sócrates, apareceu a "crise". E com ela o descontentamento, não apenas dos privilegiados que eram alvo da retórica socrática (e apenas da retórica), mas de vários sectores da sociedade que viram a sua vida severamente afectada pela tal "crise". Aí, o governo começou a ficar desesperado. Protestos como o dos pescadores ou das transportadoras (ao contrário, por exemplo, da dos professores) não traziam consigo a vantagem de "confirmar" aos olhos dos restantes eleitores a "vontade reformadora" do Governo. Apenas constituíam um sintoma de um mal-estar que o Governo sabe ser bastante mais alargado. E por isso o Governo cedeu. Ao contrário do que diz a SEDES, nada disto significou uma "viragem" da política governamental. Como já disse, ela sempre foi subordinada aos objectivos eleitorais do PS. Apenas significou que a imagem de "firmeza" na qual o Governo assentava toda essa política eleitoralista já não servia os seus propósitos. Por isso longe de representar um recuo da política "reformista" de Sócrates, essa "cedência à agitação social" é apenas e só um sinal do falhanço da política eleitoralista do Governo, e uma inversão da "mensagem" na esperança de salvar essa política. Acima de tudo, denota o desespero do governo perante o fracasso desse seu eleitoralismo, pois se inverte a imagem que ele gosta de passar de si próprio, só o faz porque já não vê qualquer alternativa, porque se quer manter agarrado ao poder mas sente-o a fugir.
É precisamente por ser sinal desse desespero que esta nova versão do (já antigo) eleitoralismo de Sócrates é perigosa para o país: Sócrates faz-se refém daqueles a quem cede, e leva o país consigo. Todos ficarão a saber que, perante a anarquia, o Governo não tentará sufocá-la, antes lhe dará o que ela pedir. Obviamente, a anarquia pedir-lhe-à muito mais. E como a única moeda que Sócrates tem para pagar o seu próprio resgate é a verba que o Estado tira aos contribuintes, serão estes a pagar a ambição de Sócrates.
Posted by Bruno at 10:06 PM
julho 08, 2008
O Impacto de Ferreira Leite
Na semana passada, Manuela Ferreira Leite deu uma entrevista à TVI, onde continuou a sua crítica aos compromissos assumidos pelo Governo com a realização de um vasto conjunto de obras públicas que, no entender da líder laranja, deveriam ser “repensados” em virtude da conjuntura complicada em que o país se encontra, especialmente se for tida em conta as dificuldades financeiras do Estado português. É precisamente por ligar a sua oposição ao projecto “desenvolvimentista” do Governo à crise que o país enfrenta que a mensagem de Ferreira Leite é eficaz: ela não só traça uma linha de diferenciação entre o seu PSD e o PS de Sócrates (ao dizer que, ao contrário dos socialistas, não acredita que o investimento público seja o instrumento adequado ao desenvolvimento do país), como, ao centrar essa sua mensagem na crise, coloca pressão sobre a atitude propagandística do Governo.
A entrevista de Sócrates à RTP, no dia seguinte, é um bom exemplo da eficácia de Ferreira Leite e da sua estratégia: pela primeira vez, Sócrates sentiu a necessidade de dizer que nem tudo estava bem. Claro que continuou a dizer que tudo o que fez foi excepcional, e que tudo o que de negativo paira sobre Portugal é alheio à sua responsabilidade. Mas já não diz, como há uns meses dizia o seu Ministro das Finanças, que Portugal estava imune à crise internacional, graças ao esforços do Governo. A dimensão da crise, e a tónica que Ferreira Leite nela coloca, obrigaram Sócrates a descer à terra e, implicitamente, a admitir o falhanço: pois se até há uns meses Portugal estava preparado para a crise, devido ao trabalho do Governo, se agora está à sua mercê, é porque afinal o Governo já não acha que o seu trabalho teve o condão de isolar Portugal do resto do mundo e dos seus problemas. A eleição de Ferreira Leite, e a mudança de linha política que operou no PSD, transformou a cena política portuguesa, que já não é a mesma de há uns meses. O PSD já não se limita a comentar o que o Governo vai dizendo. Antes centra toda a sua oposição numa única diferencia de posição (em relação ao investimento público e à atitude perante a crise), o que como se vê, causa muito mais dificuldades ao governo do que a histeria de um Santana Lopes “combativo” em debates parlamentares.
Outro sinal desse mesmo impacto é evidente nas notícias de que começa a haver alguma tensão entre o Presidente da República e o Primeiro-Ministro, em torno do pacote de Obras Públicas que Ferreira Leite critica. É bom lembrar que, aquando da eleição presidencial, este era precisamente o tema sobre o qual se antecipava um maior potencial de conflito entre Cavaco e Sócrates. No entanto, nos últimos meses, e à medida que o Governo apresentava um número cada vez maior de “projectos”, esse conflito parecia inexistente. Não é difícil de perceber porquê: quando Cavaco foi eleito, o líder do PSD era Marques Mendes, muito crítico de projectos como o TGV e a Ota, enquanto nos últimos meses, o partido laranja era liderado por Luis Filipe Menezes, sempre ambíguo em relação a tais questões. Mal Ferreira Leite recuperou a oposição de Marques Mendes ao “faraonismo” de Sócrates, logo o tema regressou, tal como regressaram as notícias de que Cavaco não partilha o entusiasmo governamental.
O que a eleição de Ferreira Leite não mudou, no entanto, foi a profunda divisão que existe no seio do PSD, e o facto de que um dos lados em confronto é, como aqui escrevi, o melhor amigo que Sócrates pode ter. Segundo o Diário de Notícias, vários autarcas do PSD manifestaram-se contra as críticas de Ferreira Leite pondo-se do lado do Governo ao afirmarem a necessidade de tais projectos. Isto mostra como existe de facto uma divisão entre um “PSD nacional” e um “PSD autárquico”, e que este último é incompatível com uma verdadeira alternativa ao PS: tanto o PS como o “partido autárquico” acham que obras públicas faraónicas são um instrumento de “desenvolvimento” e “modernização” do país, ambos acham que é através de dinheiro público em “obras” que o país “anda para a frente”, e ambos sabem que com Ferreira Leite, e perante a conjuntura actual, esse “caminho” não será seguido. Há, por isso, uma convergência de interesses entre o PS de Sócrates e o PSD dos aparelhos autárquicos, que pouco se importarão se Sócrates ficar em São Bento e lhes ofereça as obras que “tratam” do que está à sua “porta” (para usar as palavras de um autarca de Figueiró dos Vinhos), por muito que isso custe o tecto da casa nacional. Especialmente se, na liderança do seu partido estiver uma direcção que veja como prioritária a afirmação do partido a nível nacional, subordinando (como Marques Mendes fez e Ferreira Leite certamente se prepara para fazer) os esforços de perpetuação dos feudos de poder locais dos “caciques” do “partido autárquico”, à afirmação de uma política alternativa ao PS a nível nacional. Há muito boa gente que acha que entre Ferreira Leite e Sócrates não há qualquer diferença. Mas o “Bloco Central” que realmente devia assustá-los é o que une o PS à parte do PSD que tem mais a perder com a possível subida de Ferreira Leite ao poder.
Posted by Bruno at 09:51 PM
julho 07, 2008
Posted by Bruno at 06:47 PM
julho 05, 2008
O "PSD Autárquico" É O Melhor Amigo Que Sócrates Poderia Ter
A notícia publicada hoje pelo Diário de Notícias, de que vários autarcas do PSD se manifestaram contra as recentes declarações de Manuela Ferreira Leite (contra os projectos de obras públicas anunciados pelo Governo), pondo-se do lado do Governo ao afirmarem a necessidade de tais projectos, mostram como existe de facto uma divisão entre um "PSD nacional" e um "PSD autárquico", e que este´último é incompatível com uma verdadeira alternativa ao PS: tanto o PS como o "partido autárquico" acham que obras públicas faraónicas são um instrumento de "desenvolvimento" e "modernização" do país, ambos acham que é através de dinheiro público em "obras" que o país "anda para a frente", e ambos sabem que com Ferreira Leite, e perante a conjuntura actual, esse "caminho" não será seguido. Há, por isso, uma convergência de interesses entre o PS de Sócrates e o PSD dos aparelhos autárquicos, que pouco se importarão se Sócrates ficar em São Bento e lhes ofereça as obras que "tratam" do que está à sua "porta" (para usar as palavras de um autarca de Figueiró dos Vinhos), por muito que isso custe o tecto da casa nacional. Especialmente se, na liderança do seu partido estiver uma direcção que veja como prioritária a afirmação do partido a nível nacional, subordinando (como Marques Mendes fez e Ferreira Leite certamente se prepara para fazer) os esforços de perpetuação dos feudos de poder locais dos "caciques" do "partido autárquico", à afirmação de uma política alternativa ao PS a nível nacional. Há muito boa gente que acha que entre Ferreira Leite e Sócrates não há qualquer diferença. Mas o "Bloco Central" que realmente devia assustá-los é o que une o PS à parte do PSD que tem mais a perder com a possível subida de Ferreira Leite ao poder.
Posted by Bruno at 09:49 PM
julho 04, 2008
4th of July

Posted by Bruno at 10:11 PM
Instituto Liberal
No Instituto Liberal tiveram a amabilidade de publicar o meu texto O Dilema das Potências Ocidentais (numa arrumadinha versão em Word), o que aproveito para agradecer.
Posted by Bruno at 10:01 PM
Parabéns
À rapaziada do Arte da Fuga, pelo quarto aniversário do blog.
Posted by Bruno at 09:58 PM
julho 03, 2008
Inflação
No Insurgente, o Michael Seufert escreve um interessante texto acerca do que é a inflação, distinguindo-a de uma mera subida de preços (de alguns produtos em virtude do aumento da sua procura), e classificando-a com uma subida geral de preços provocada pela perda de valor do dinheiro (como nota o Michael, como é que a subida do preço de alguns produtos não implicaria uma diminuição da procura de outros e a consequente descida dos seus preços, a não ser que o dinheiro com que todos esses produtos são adquiridos tenha perdido valor em relação a todos eles?). É um texto que vale a pena ler (tal como este comentário do Carlos Novais, que alerta para outros indicadores de inflação que não a subida do chamado "consumer price index"), principalmente numa altura como esta, em que todos os dias toda a gente fala de "inflação", em muitos casos sem saber muito bem do que está a falar.
Posted by Bruno at 10:17 PM
julho 02, 2008
Fora de Portas
Depois de um amável convite do meu caro leitor António R. Batista, o meu texto a propósito da crise no Zimbabwe foi publicado no site Vigilância Democrática, a cujos responsáveis aproveito para agradecer.
Posted by Bruno at 09:34 PM
julho 01, 2008
A Hostilidade a Ferreira Leite
Há alguns dias, Constança Cunha e Sá notava no Público que Manuela Ferreira Leite não tinha tido algo a que se pudesse chamar um "estado de graça" desde que assumira a liderança do PSD. De facto, desde a sua vitória nas directas, até mesmo desde que a campanha começou, que Manuela Ferreira Leite tem-se deparado com a hostilidade generalizada da comunicação social e da "intelligentsia" pátria. Um bom exemplo foi a última crónica de Rui Tavares no Público: aparentemente, o facto de Ferreira Leite ter negado veementemente a possibilidade de um "Bloco Central" ser formado em 2009 é a prova de que as suas ideias são iguais às do PS, pois se fossem diferentes não seria necessária tanta veemência no desmentido(claro que se, porventura, Ferreira Leite não tivesse negado essa possibilidade, logo Rui Tavares e outros diriam que essa "falta de clarificação" mostraria que algo se estava a preparar. Aliás, Rui Tavares chega mesmo a dizer isso, por achar que ao recusar "alianças com o PS, Ferreira leite apenas rejeitou coligações pré-eleitorais, deixando em aberto coligações pós-eleitorais). Este exemplo é interessante porque mostra bem a natureza dessa hostilidade: ela não é dirigida apenas contra o que Ferreira Leite defende, mas essencialmente contra Ferreira Leite, contra a sua pessoa.
Não é por discordarem do que Ferreira Leite diz (embora também discordem) que são hostis em relação a ela, mas por ser ela a dizê-lo. Instintivamente, desconfiam de Ferreira Leite, e tudo o que ela disser não só está errado, como demonstra uma qualquer falta de carácter: é "igual ao PS", não "tem ideias", tem um qualquer plano escondido, quer "tirar o partido às bases", é "só" uma "lebre" do presidente, etc.. Existe, da parte de muitas das pessoas que comentam os assuntos políticos em Portugal, uma desconfiança à partida em relação a Ferreira Leite, que (como aliás já havia acontecido com Ribeiro e Castro no CDS) desloca a crítica daquilo que ela diz para a sua própria pessoa, colocando-lhe particulares dificuldades de afirmação do seu projecto, pois à partida, tudo o que ela disser está logo condenado: se põe de parte a hipótese de uma coligação com o PS, é um acto "artificial" de diferenciação, cuja "artificialidade" é evidente só pelo facto de o acto ter tido lugar; se não põe de parte essa hipótese, é porque a considera, e portanto, "prova" que não há diferenças entre o seu PSD e PS de Sócrates. No caso extremo de Rui tavares, ambas se verificam: ela é demasiado veemente e não suficientemente veemente ao mesmo tempo, e em ambos os casos se prova que vai haver "Bloco Central", nem que seja de forma escondida.
Isto não representa uma qualquer falha de carácter de quem critica Ferreira Leite. É apenas e só natural que algumas pessoas tenham este tipo de reacções perante algumas outras pessoas. Esta hostilidade em relação a Ferreira Leite não é um "plano" consciente de "destruição" da sua figura, embora haja gente (principalmente no PSD) que o incentive com esse propósito. Mas em grande medida, é algo de "irracional" que leva pessoas (como Rui Tavares) que têm discordâncias perfeitamente racionais com Ferreira Leite e o que ela defende, a conduzirem essa crítica para um plano em que o próprio carácter da pessoa é atacado, sem que haja qualquer razão no comportamento político dela para que esse ataque seja feito (por exemplo, como pode Rui Tavares dizer que não há diferenças entre Ferreira Leite e Sócrates, quando Ferreira Leite, desde 1998, vem dizendo que a política orçamental do PS não controla a despesa pública, e ainda hoje, concedendo que o PS tem razão ao defender a necessidade da consolidação orçamental, continua a criticar Sócrates por não controlar a despesa, um esforço que implicaria uma reconfiguração do papel do Estado na sua relação com os cidadãos?). De certa maneira, essa hostilidade é até "culpa" de Ferreira Leite. É por ela ser como é que há alguma dificuldade em "aceitá-la": não tem grande jeito para as televisões, o que leva as pessoas a dizerem que ela não é "mobilizadora"; não vive para o "soundbyte", o que num ambiente mediático em que só o "soundbyte" consegue "passar", leva as pessoas a dizerem que "não fala". E depois, é "velha", num ambiente mediático dependente da "novidade" e da "frescura", por muito "ilusória" ou "vazia" que ela seja. Claro que o facto de ser assim até pode vir a ser uma vantagem: num momento de crise, alguém "assim" pode ser precisamente aquilo que as pessoas desejam. Ferreira Leite pode vir a conseguir aproveitar o "ambiente de crise" que se vive em Portugal para "dar a volta" às dificuldades que a sua própria personalidade lhe cria no "ambiente mediático" em que tem de "circular". Mas é algo a que tem de "dar a volta", pois essa hostilidade, por se dirigir à sua pessoa (volto a frisar, por sua própria "culpa") só desaparecerá se a própria Ferreira Leite desaparecer.
Posted by Bruno at 03:09 PM
junho 30, 2008
A Ler
O artigo de Gerard Baker, argumentando que a "guerra contra o terror" está a ser vencida:
"(...)these days timorous defeatism is on the march. In Britain setbacks in the Afghan war are greeted as harbingers of inevitable defeat. In America, large swaths of the political class continues to insist Iraq is a lost cause. The consensus in much of the West is that the War on Terror is unwinnable.
And yet the evidence is now overwhelming that on all fronts, despite inevitable losses from time to time, it is we who are advancing and the enemy who is in retreat. The current mood on both sides of the Atlantic, in fact, represents a kind of curious inversion of the great French soldier's dictum: “Success against the Taleban. Enemy giving way in Iraq. Al-Qaeda on the run. Situation dire. Let's retreat!”
(...)Afghanistan has been a signal success. There has been much focus on the latest counter-offensive by the Taleban in the southeast of the country and it would be churlish to minimise the ferocity with which the terrorists are fighting, but it would be much more foolish to understate the scale of the continuing Nato achievement. Establishing a stable government for the whole nation is painstaking work, years in the making. It might never be completed. But that was not the principal objective of the war there.
(...)Next time you hear someone say that the war in Afghanistan is an exercise in futility ask them this: do they seriously think that if the US and its allies had not ousted the Taleban and sustained an offensive against them for six years that there would have been no more terrorist attacks in the West? What characterised Islamist terrorism before the Afghan war was increasing sophistication, boldness and terrifying efficiency. What has characterised the terrorist attacks in the past few years has been their crudeness, insignificance and a faintly comical ineptitude (remember Glasgow airport?)
The second great advance in the War on Terror has been in Iraq. There's no need to recapitulate the disasters of the US-led war from the fall of Saddam Hussein in April 2003 to his execution at the end of 2006. We may never fully make up for three and a half lost years of hubris and incompetence but in the last 18 months the change has been startling.
(...)The third and perhaps most significant advance of all in the War on Terror is the discrediting of the Islamist creed and its appeal.
This was first of all evident in Iraq, where the head-hacking frenzy of Abu Musab al-Zarqawi and his associates so alienated the majority of Muslims that it gave rise to the so-called Sunni Awakening that enabled the surge to be so effective.
But it has spread way beyond Iraq. As Lawrence Wright described in an important piece in The New Yorker last month, there is growing disgust not just among moderate Muslims but even among other jihadists at the extremism of the terrorists.
Deeply encouraging has been the widespread revulsion in Muslim communities in Europe - especially in Britain after the 7/7 attacks of three years ago. Some of the biggest intelligence breakthroughs in the past few years have been achieved from former al-Qaeda supporters who have turned against the movement."
Posted by Bruno at 07:02 PM
junho 28, 2008
O Dilema das Potências Ocidentais
A forma como se processaram as "eleições" no Zimbabwe e a incapacidade do Conselho de Segurança da ONU para chegar a um "consenso" quanto à forma de lidar com Mugabe e as atrocidades que este pratica no seu país demonstram bem a irrelevância da organização. Mas toda esta crise é, também, uma prova de como as potências ocidentais não sabem como lidar com crises humanitárias ou conflitos nas suas ex-colónias. Sempre que um destes países cai numa guerra civil, ou sempre que um qualquer ditador pós-independência se entretém a assassinar parte da população, ou sempre que um conflito étnico atinge proporções suficientemente grandes para chocar as consciências da opinião pública dos países ocidentais, os governos destes países (e organizações a que estes pertencem, como a UE ou a ONU) apressam-se a "condenar" o sucedido, e a "fazer pressão" para "que se encontra uma solução pacífica para a crise". No entanto, não estão dispostos a fazer mais que isso, e as suas palavras, por muito duras que sejam, não chegam para assustar quem acha que "só Deus" lhe pode retirar o poder, tal como sanções económicas não assustam quem não se incomoda com a pobreza extrema da população do seu país. Os países ocidentais "preocupam-se" com as crises humanitárias em países como o Zimbabwe, mas não estão dispostos a fazer muito para acabar com elas, muito menos afastar os ditadores que as provocam.
Na realidade, crises como a do Zimbabwe ilustram bem o dilema dos países ocidentais perante o "resto do mundo": já que os seus métodos (palavras e sanções) não parecem ser eficazes, os países ocidentais poderiam reconhecer a sua incapacidade e, pura e simplesmente, ignorar o que se passa, deixando os zimbabweanos (ou os ruandeses, ou os iraquianos, ou qualquer outro país que caia em apuros destes) matarem-se uns aos outros. Mas aí teriam de viver com o sentimento de culpa de terem deixado "aquilo" acontecer. Ou então colocar, por trás das suas palavras e ameaças de sanções, o uso da força (ou a ameaça do uso da força) que dá credibilidade ao discurso "moral" que empregam. O "problema" está em que, se o fizerem, estarão a adoptar uma postura "neo-imperial", e terão de viver com o sentimento de culpa que, numa época em que todos aceitam como sacrossanto o "princípio da autodeterminação dos povos", tal conduta lhes provocaria. Como "adepto" de Niall Ferguson, tendo a achar que os EUA, em particular, deveriam assumir o papel de agente imperial que põe ordem em situações caóticas. Mas, sinceramente, já me contentava se os países ocidentais, muito humildemente, fizessem uma escolha: ou se deixam de proclamações morais acerca do comportamento dos governantes de outros países, ou, se acham que devem zelar pela "civilidade", fazerem alguma coisa por isso, "putting the money where the mouth is". Hoje em dia, eles preferem viver "in shit than to be seen to work a shovel". E, como insistem em moralizar, combinam o pior de dois mundos: ao mesmo tempo que se mostram tão "arrogantes" como os "imperialistas" (com a "presunção" de que podem "dizer aos outros" como eles devem viver), exibem a fraqueza de quem não está disposto (ao contrário dos "imperialistas") a "obrigá-los" a fazer o que dizem.
Quando Bin Laden falava do "cavalo cansado" do Ocidente, era disto que falava. Não era de um cavalo que ficava fechado num estábulo, longe da vista de todos, mas de um cavalo que, não parando de relinchar, nunca participava nas corridas: ao mesmo tempo que, nas palavras do dr. Soares, provocava o "ressentimento" do resto do mundo "humilhado" pelo sentimento de "superioridade moral" de quem "impõe" o que pensa, o Ocidente mostrava não ter vontade nenhuma de lutar por aquilo que apregoava. De cada vez que um político ocidental "condena" o que se está a passar no Zimbabwe, sem que nenhuma demonstração de força (nem que passe apenas pela ameaça credível do seu uso) seja feita por países como os EUA ou o Reino Unido, está apenas a confirmar a "tese" de Bin Laden. E, nem que seja só por isso, esta crise é bastante mais do que algo que está "lá longe", num país africano que "nem se sabe muito bem onde fica". Ela uma crise que tem lugar "aqui", uma crise que mostrará, a quem olha para nós por razões que são tudo menos boas, aquilo que queremos e o quão longe estamos dispostos a ir por isso. Até agora, a resposta que estamos a dar não é a melhor.
Posted by Bruno at 09:38 PM
junho 27, 2008
O Método "Principal Skinner"
Há um episódio dos Simpsons em que o director da escola primária de Springfield, Seymour Skinner, pega em Jimbo, Kearney, Nelson e Bart (as maçãs podres da escola), e fecha-os na cave, para que eles não possam causar qualquer problema durante a visita do inspector escolar Chalmers à escola. Aparentemente, a Directora Regional de Educação do Norte é uma adepta do método "Principal Skinner": segundo Paulo Portas, ela terá afirmado que "os alunos têm direito a ter sucesso", e portanto, "talvez fosse útil excluir dos correctores aqueles professores que têm repetidamente classificações distantes da média.". Ou seja, professor mais exigente nas avaliações fica fechado na cave, para não estragar a fotografia de "sucesso" nos resultados que o Governo quer tirar destes exames. Com Skinner, o método não funcionou (Bart foge pela conduta do ar, e claro, faz das suas). Com o Governo, talvez o "método" ter mais sucesso (as notas dos exames poderão ser "boas"), mas tudo não passará de uma ilusão. De um pedaço de propaganda. Afinal, como tudo o que este Governo fez.
Posted by Bruno at 09:12 PM
junho 26, 2008
Porquê?
Na RTP está a dar aquele inqualificável programa de "debate político" que dá pelo nome de Corredor do Poder (algo está muito mal quando Ana Drago é o elemento mais sensato de um painel de um programa como este). Uma pergunta que eu faço é: por que razão continua Marco António como participante residente do programa? Enquanto ele era a voz do dono da S. Caetano, percebia-se, embora isso só prejudicasse (ainda mais) o programa. Agora que Menezes se remeteu ao "silêncio" (muito ruidoso na audiência pedida ao Primeiro-Ministro), marco António é o único participante que não está lá a representar a "linha" do seu partido. Em si, isto não seria negativo, se o programa não pretendesse ser "representativo". mas como pretende, a manutenção de Marco António é suspeita: ou revela desatenção da parte da direcção do PSD, ou intenções mais obscuras por parte da RTP.
Posted by Bruno at 10:31 PM
junho 25, 2008
No Leitor de DVD
Posted by Bruno at 10:14 PM
junho 24, 2008
Se Ganhar As Eleições Em 2009, o PS Vai Acabar Por Se Arrepender
Ao que parece, o Governo prepara-se para deixar cair a sua proposta de incluir no novo Código de Trabalho a figura do "despedimento por inadaptação funcional", de forma a conseguir o apoio da UGT. Juntamente com as acomodações aos pescadores e às transportadoras, este recuo é apenas mais um de uma linha (que irá ser bastante longa) de pequenas cedências que o Governo irá fazer até à data das eleições, tentando manter a sua imagem de "firmeza" enquanto compra com a sua "maleabilidade" (e o dinheiro dos contribuintes) o silêncio dos descontentes. Era prevísivel que, chegado a esta altura, o PS tivesse de enfrentar este dilema. Em Abril de 2007, escrevi aqui que isso aconteceria, e os eventos recentes têm-me dado razão: a crispação do "combate" aos "privilégios" acabaria por criar descontentamento em tantos lugares que faria com que o feitiço se voltasse contra o feiticeiro. Por outro lado, não mantendo essa postura, essa imagem de "anti-Guterres" começará a ruir, e com ela o edifício do poder socialista. Mais grave ainda, a ineficácia das "reformas" do Governo não pode ser escondida por muito tempo, e quando se tornar clara, aos olhos de todos os que hoje adormecem no colo forrado por Giorgio Armani do Primeiro-Ministro, a distância entre o que foi repetidamente prometido e o que acabou por ser alcançado, Sócrates não poderá sobreviver. Com ele morrerão os "empregos", e sem eles, o PS que só a custo suporta o "socratismo" entregar-se-á a uma luta bem mais fratricida que a de 78-83 ou a do pós-Bloco Central.
A conjuntura já pôs a nu a fragilidade das "reformas" socráticas. E o aumento do descontentamento já fez o PS embarcar em algumas cedências, que serão no futuro mascaradas com algumas encenações de força. Para azar de Sócrates, poderá ser tudo em vão. Pois arrisca-se a perder (com a sua encarnação do "diálogo guterrista") os que se deixaram seduzir pela sua imagem "firmeza" e de homem "corajoso" que não recua perante as "resistências" às "reformas", sem que os descontentes com as ditas se sintam conquistados pelos recuos inerentes a esse "diálogo". E mesmo que porventura estes últimos venham a encostar-se a Sócrates, e o carreguem para uma segunda vitória em 2009, isso dificilmente será uma boa notícia para o Primeiro-Ministro. Pois eles só o apoiarão na medida em que o virem como um elemento fraco. Só o apoiarão se o acharem (e souberem que Sócrates se achará) um "refém" desses apoios "comprados" com estes recuos, e que portanto, poderão explorar essa sua fraqueza e exigir novas cedências que o enfraquecerão ainda mais. Tal como aconteceu com Guterres, Sócrates conduziu o seu primeiro mandato com o exclusivo propósito de conquistar o segundo. E se o obtiver, terá nele o mesmo destino que teve Guterres: terá de pagar o preço das aventuras em que se meteu para se manter no poder. Cego pela ambição de repetir em 2009 o que conseguira em 2005, o PS ainda se vai arrepender se vier a ter essa ambição satisfeita. Guterres conhece a sensação.
Posted by Bruno at 09:35 PM
junho 23, 2008
O Desafio De Manuela Ferreira Leite
Mal Manuela Ferreira Leite terminou o seu discurso de encerramento do Congresso do PSD, logo os representantes dos vários partidos foram questionados pelos jornalistas acerca do que a nova líder laranja havia acabado de dizer. Em vez de dizerem que seria de mau tom um "convidado" estar a criticar quem o convidou para a sua "casa", Nuno Melo e Alberto Martins apressaram-se a largar os seus respectivos soundbytes: para o deputado do CDS, o que Manuela Ferreira Leite disse não se afasta muito do que faz o PS, e para o líder parlamentar do PS, essas diferenças são abissais e, claro, o conteúdo do que diz Ferreira Leite é tenebroso. Não se percebe o que leva estes políticos experientes a fazerem declarações dessas. Pois eles não fazem uma crítica do que foi dito, não apontam o que acham que está errado no que foi dito nem explicam por que razão pensam assim. Apenas tentam "caracterizar" o discurso, atribuindo-lhe adjectivos que, esperam, assustem os eleitores. No entanto, estes apenas ficam com a ideia de que Nuno Melo vieram com o soundbyte preparado, mesmo antes de ouvirem o que Manuela Ferreira Leite tinha para dizer, e que ambos disseram o que disseram, não por pensarem assim, mas porque isso "lhes convém". ficam com a ideia de que, "como todos os políticos", Nuno Melo e Alberto Martins dizem "o que for preciso" para "chegarem ao poleiro".
Aliás, é aqui está o principal desafio de Manuela Ferreira Leite. Não serão os opositores internos, nem o passado da líder laranja, muito menos a suposta falta de "diferenciação" dela em relação a Sócrates, que lhe dificultarão a sua afirmação perante os eleitores. Será algo muito mais difícil de ultrapassar: a falta de paciência dos eleitores para com todos os políticos. Pois a líder laranja não tem apenas que convencer os eleitores a não votarem no PS. Sócrates, sozinho, encarrega-se disso. Ela tem de lhes dar razões para mudarem para o PSD, quando esses eleitores acham que "eles" são "todos iguais". Manuela Ferreira Leite não tem de resistir à oposição interna, não tem de se mostrar "diferente" do que foi no passado, não tem de se mostrar "diferente" do PS. Tem de se mostrar diferente de todos os políticos. Tem de mostrar àqueles que acham que "os políticos são todos iguais" que ela é diferente "deles", e que merece a confiança dos eleitores. Essa é principal dificuldade que enfrentará. Como apontar as falhas do Governo, sem que os eleitores pensem que "lá está ela a dizer mal por dizer mal"? Como lhes oferecer uma alternativa, sem que esses eleitores pensem que tudo não passa de promessas que não serão cumpridas, e que apenas servem para "comprar" o seu voto? E acima de tudo, como fazer essas duas coisas ao mesmo tempo, e, em simultâneo, uma terceira, fazer com que essa alternativa não seja apenas aquilo que os eleitores querem ouvir, mas antes uma série de reformas que libertem o país dos problemas que o afectam? Só encontrando uma resposta para estas questões poderá Ferreira Leite chegar ao poder. E só se estas respostas forem encontradas poderá o país ficar melhor do que está.
Posted by Bruno at 11:57 AM
junho 22, 2008
Uma Boa Notícia
Ontem, Paulo Rangel foi confirmado como candidato a líder da bancada parlamentar do PSD. É uma excelente notícia. Paulo Rangel é uma das poucas pessoas na actividade política portuguesa que possui um cérebro. Numa altura em que a degradação da classe política é cada vez maior, é uma enorme vantagem para o PSD ter alguém que destoa da mediocridade geral.
Posted by Bruno at 10:36 PM